Robur, o Conquistador

Part 7

Chapter 73,886 wordsPublic domain

Em todo o caso, não era aquella a occasião. A aeronave caminhava com toda a velocidade por sobre o Pacific-Nord. No dia seguinte, 16 de junho, não se via nada da costa. Ora como o littoral se arredonda desde a ilha de Vancouver até o grupo das Aleutas,—porção da America russa cedida aos Estados Unidos em 1867,—muito provavelmente o _Albatrós_ o cruzaria na sua curva extrema, se a direcção se não modificasse.

Como as noites pareciam longas aos dois collegas! De modo que estavam mortos por deixar o beliche. N’essa manhã, quando se acharam sobre a ponte, havia muito já que a alvorada illuminava o horisonte ao nascente. Estava-se proximo do solsticio de junho, o dia mais longo do anno, no hemispherio boreal; e, sob o parallelo 60.°, mal era noite.

Quanto ao engenheiro Robur, quer fôsse por habito, quer por intenção, não se dava pressa em sahir dos seus aposentos. N’esse dia, quando os deixou, contentou-se com saudar os seus dois hospedes, ao encontrar-se com elles, na ré da aeronave.

Com os olhos vermelhos da insomnia, o olhar estupidificado, as pernas tremulas, Fricollin atrevera-se a sahir do seu compartimento. Caminhava como um homem que sente que lhe falta o terreno debaixo dos pés. O seu primeiro olhar foi para o apparelho suspensor, que funccionava com uma regularidade tranquillisadora, sem se apressar muito.

Feito isso, o negro, a titubear sempre, dirigiu-se para a sacada e segurou-a com as duas mãos, para melhor garantir o equilibrio. Evidentemente elle desejava fazer idéa do paiz que o _Albatrós_ dominava da altura de duzentos metros, o maximo.

Fricollin devia estar muito afflicto para arriscar um tal passo. Foi-lhe decerto preciso uma grande audacia para sujeitar a sua pessoa a uma prova d’essas.

Primeiramente, Fricollin inclinou o corpo para traz junto á sacada; depois sacudiu-a afim de reconhecer a sua solidez; depois tornou a levantar-se; depois curvou-se para a frente; depois poz a cabeça de fora.

Inutil é dizer que, emquanto executava estes diversos movimentos, tinha os olhos fechados. Abriu-os afinal.

Que grito! e como recuou depressa! E como a cabeça lhe entrou pelos hombros dentro!

No fundo do abysmo vira o immenso Oceano. Os cabellos ter-se-lhe-hiam eriçado, se não fôssem carapinha.

—O mar!... o mar!... exclamou elle.

E Fricollin cahiria sobre a plataforma, se o mestre cozinheiro não tivesse aberto os braços para o receber.

O mestre cozinheiro era um francez, um gascão talvez, apesar de se chamar François Tapage. Se não era gascão, devia ter pelo menos aspirado as brisas do Garonne, durante a infancia. Como é que esse François Tapage estava ao serviço do engenheiro? Que serie de acasos o levaram a fazer parte do pessoal do _Albatrós?_ Não se sabia. Em todo o caso, aquelle patusco falava inglez como um Yankee.

—Vamos, arriba! arriba! gritou elle, dando um impulso pelos rins ao negro, afim de o pôr direito.

—Master Tapage! respondeu o pobre diabo, lançando olhares desesperados para os helices.

—Então, Fricollin!

—Isto parte-se, ás vezes?

—Não, mas acabará por se partir.

—Porque?... porque?

—Porque, como dizem na minha terra, _tout lasse, tout passe, tout casse_.

—E o mar que está por baixo?...

—Em caso de quéda, é melhor o mar.

—Mas afoga-se a gente!

—Afoga-se, mas não se faz em pedaços! respondeu François Tapage, accentuando cada syllaba da phrase.

Um momento depois, por um movimento de reptação, Fricollin esgueirava-se para o fundo do seu beliche.

Durante esse dia, 16 de junho, a aeronave não passou de uma velocidade moderada. Parecia roçar na superficie tão calma d’esse mar, todo impregnado de sol, que ella dominava da altura de uns cem pés apenas.

Pela sua vez, Uncle Prudent, e o seu companheiro haviam ficado nos seus compartimentos, para se não encontrarem com Robur, que passeava, fumando, ora só, ora com o contramestre Tom Turner. Só estava metade dos helices a funccionar, e isso bastou para manter o apparelho nas zonas baixas da atmosphera.

N’essas condicções a gente do _Albatrós_ poderia ter, conjuntamente com o prazer da pesca, a satisfação de variar o seu passadio, se as aguas do Pacifico tivessem peixe. Mas á superficie appareciam apenas algumas baleias, d’essa especie de ventre amarello que chegam a medir até vinte e cinco metros de comprimento. São os mais temiveis cetaceos dos mares boreaes. Os pescadores de profissão fogem de os atacar, tanto a sua fôrça é prodigiosa.

Comtudo, arpoando-se uma d’essas baleias, ou fôsse com um arpão vulgar, ou com o foguete Tlechter, ou com o dardo-bomba, de que havia a bordo grande provisão, a pesca poderia realisar-se sem perigo.

Mas para que servia essa massacragem inutil?

Comtudo, talvez para mostrar aos dois membros do Weldon-Institute o que elle podia conseguir da sua aeronave, Robur quiz dar caça a um d’esses monstruosos cetaceos.

Ao grito de “baleia! baleia!„ Uncle Prudent e Phil Evans sahiram do seu beliche. Talvez estivesse á vista algum navio baleeiro ... N’esse caso, afim de escapar á sua prisão volante, seriam os dois capazes de se atirar ao mar, contando com a probabilidade de serem recolhidos por uma embarcação.

Já todo o pessoal da aeronave estava postado na plataforma, á espera.

—Vamos então experimentar, master Robur? perguntou o contramestre Turner.

—Sim, Tom! respondeu o engenheiro.

Nos compartimentos da machina, o machinista e os seus dois ajudantes estavam a postos, promptos a executar as manobras que seriam ordenadas por meio de gestos. O _Albatrós_ não tardou em se abaixar até o mar, e parou uns cincoenta pés acima d’elle.

Não estava ao largo nenhum navio,—o que foi verificado pelos dois collegas, nem á vista nenhuma terra que elles pudessem alcançar a nado, admittindo mesmo que Robur nada fizesse para os colher de novo.

Muitos jactos de vapor e de agua, lançados pelos ventiladores, annunciaram a presença das baleias que vinham respirar á superficie do mar.

Tom Turner, auxiliado por um dos seus camaradas, collocára-se na frente. Ao alcance d’elle estava um d’esses dardos-bombas, de fabrico californiano, que se lança por meio de um arcabuz. É uma especie de cylindro de metal que termina em bomba cylindrica, armada de uma haste de ponta farpada.

Do banco da frente, ao qual acabava de subir, Robur indicava com a mão direita aos machinistas, e com a esquerda ao homem do leme, as manobras a fazer. Era assim senhor da aeronave, em todas as direcções, horisontal e vertical. Não se pode calcular a rapidez e a precisão com que o apparelho obedecia a todas as ordens. Parecia um ser organico, de que Robur era a alma.

—Baleia!... Baleia!... exclamou de novo Tom Turner.

Com effeito, umas quatrocentas e oito braças deante do _Albatrós_ emergia o dorso de um cetaceo.

O _Albatrós_ correu para elle, e quando chegou a uns sessenta pés de distancia parou.

Tom Turner tinha apontado a espingarda que estivera encostada ao parapeito. O tiro partiu, e o projectil, levando comsigo uma longa corda, cuja extremidade se prendia á plataforma, entrou no corpo da baleia. A bomba cheia de uma materia fulminante, explosiu então, e, explosindo, lançou uma especie de pequeno arpão de duas voltas, que se incrustou nas carnes do animal.

—Attenção! gritou Turner.

Uncle Prudent e Phil Evans, por pouco dispostos que estivessem, achavam-se interessados no espectaculo.

A baleia, gravemente ferida, fustigára o mar com uma tão violenta rabanada, que a agua repuxou até á altura da aeronave.

Depois o animal mergulhou a uma grande profundidade, ao passo que lhe iam largando corda, préviamente enrolada dentro de uma celha com agua, para que se não incendiasse com a fricção. Quando a baleia voltou á tona d’agua, desatou a fugir a toda a pressa na direcção do norte.

Imagine-se a rapidez com que o _Albatrós_ foi rebocado! Além de que, os propulsores tinham sido parados. Deixaram o animal andar, pondo-se em alinhamento com elle. Tom Turner estava prestes a cortar a corda, para o caso de um novo mergulho tornar muito perigoso esse reboque.

Durante meia hora, e talvez á distancia de seis milhas, o _Albatrós_ foi assim arrastado; mas via-se que o cetaceo começava a enfraquecer.

Então, a um gesto de Robur, os ajudantes dos machinistas andaram com a machina atraz, e os propulsores começaram a oppôr uma certa resistencia á baleia, que, a pouco e pouco, se approximou de bordo.

A aeronave batia ainda nas aguas com uma violencia incrivel. Ás voltas sobre si propria, a baleia produzia remoinhos enormes.

De repente poz-se, por assim dizer, de pé, e atirou-se á agua com uma tal velocidade, que Tom Turner mal teve tempo de lhe alar a corda.

N’um puxão, a aeronave foi arrastada á superficie das aguas. Um turbilhão se formara no sitio onde o animal desapparecêra. Uma vaga entrou para dentro da aeronave, como acontece com um navio que caminha contra o vento e contra a onda.

Felizmente, com um golpe de machado, Tom Turner cortou a corda, e o _Albatrós_, livre do reboque, subiu duzentos metros, com o poder dos seus helices ascensionaes.

Quanto a Robur, manobrára o apparelho sem que o seu sangue frio o houvesse abandonado um momento.

Alguns minutos depois a baleia voltava á tona da agua,—porém morta d’esta vez. Por todos os lados as aves do mar accorriam, soltando gritos capazes de ensurdecer todo um Congresso.

O _Albatrós_, não sabendo o que fazer áquelle cadaver, retomou para léste o seu andamento.

No dia seguinte, 17 de junho, ás seis horas da manhã, uma terra se avistou no horisonte. Era a peninsula de Alaska, e a longa sementeira de rochedos das Aleutes.

O _Albatrós_ saltou por cima d’essa barreira onde pullulam as focas, para pelles, que os habitantes d’aquelle paiz pescam por conta da Companhia Russo-Americana. Excellente cousa, a captura d’esses amphibios, do comprimento de seis a sete pés, côr de ferrugem, e que pesam trezentos e quinhentos arrateis. Eram filas interminaveis d’elles, em formatura de batalha, e contavam-se aos milhares.

Se não se mexeram á passagem do _Albatrós_, não aconteceu o mesmo com os mergulhões, e outros animaes, cujos gritos roucos encheram o espaço, e que desappareceram nas aguas como se fôssem ameaçados por algum grande animal aereo.

Os dois mil kilometros do mar de Behring, desde as primeiras Aleutes até a ponta extrema do Kamtchalka, foram transpostos durante as vinte e quatro horas d’esse dia e da noite immediata. Para pôr em execução o seu plano de fuga, Uncle Prudent e Phil Evans não se encontravam em condições favoraveis. Não era nem sobre as margens desertas da extrema Asia, nem nas paragens do mar de Okhotsk que se podia realisar essa fuga, com alguma probabilidade de exito. Visivelmente o _Albatrós_ dirigia-se para as terras do Japão e da China. Alli, apesar de não ser talvez prudente pôrem-se á discreção dos Chinezes e Japonezes, os dois collegas estavam resolvidos a fugir, se a aeronave fizesse alto em qualquer ponto d’aquelles territorios.

Mas faria alto, com effeito? Não se tratava precisamente de uma ave que se fatiga de um longo vôo, ou de um balão que, á falta de gaz, é obrigado a descer. Havia provisões para muitas mais semanas ainda, e os seus orgãos, de uma solidez maravilhosa, desafiavam toda a fraqueza e todo o cançaço.

Um pulo por sobre a peninsula do Kamtchalka, de que apenas se viu o estabelecimento de Petropaulovsk e o vulcão de Klutschen durante o dia 18 de julho, depois um novo salto por sobre o mar de Okhotsk, pouco mais ou menos á altura das ilhas Kurilas, que lhe põem uma barreira, cortada por centos de pequenos canaes, e no dia 19, pela manhã, tinha o _Albatrós_ alcançado o estreito de la Peruse, apertado entre a ponta septentrional do Japão e a ilha Saghaliana, n’aquella pequena Mancha, onde desagua esse grande rio siberico, o Amor.

Levantou-se então um nevoeiro densissimo, que a aeronave teve de deixar por baixo de si. Não que tivesse necessidade de se desembaraçar d’aquelles vapores para se dirigir; na altitude em que ia, nenhum obstaculo havia a recear, nem monumentos com que pudesse esbarrar na passagem, nem montanhas contra as quaes corresse o risco de se espedaçar no seu vôo. O paiz era bem pouco accidentado, mas aquelles vapores não deixavam de ser desagradabilissimos, e tudo ficaria molhado a bordo.

Nada mais tinha portanto do que collocar-se acima d’aquelles vapores cuja espessura medía tresentos ou quatrocentos metros. De modo que os helices foram rapidamente activados, e, para além do nevoeiro, o _Albatrós_ encontrou regiões cheias de sol.

N’estas condições, Uncle Prudent e Phil Evans teriam tido certa difficuldade em dar execução aos seus projectos de fuga, admittindo que elles tivessem podido deixar a aeronave.

N’esse dia, no momento em que passava junto d’elles, Robur parou um instante e sem que parecesse dar a menor importancia ao que dizia:

—Meus senhores, disse elle, um navio á véla, ou um vapor, perdido nas brumas d’onde não pode sahir, está sempre embaraçado. Não navega senão com o auxilio de assobio ou da tuba. Tem de diminuir o andamento; e, apesar de tantas precauções, é para recear a cada instante um abalroamento. O _Albatrós_ não tem nenhum d’estes cuidados. Que lhe podiam fazer os nevoeiros se tinha meio de se desembaraçar d’elles? O espaço é seu, todo o espaço!

Dito isto, Robur continuou tranquillamente o seu passeio, sem esperar uma resposta que não pedia; e as baforadas do seu cachimbo perderam-se no espaço.

—Uncle Prudent, disse Phil Evans, parece que este espantoso _Albatrós_ não tem medo de cousa alguma!

—Veremos isso! respondeu o presidente do Weldon-Institute.

O nevoeiro durou tres dias, 19, 20 e 21 de junho, com uma persistencia lamentavel. Fôra necessario subirem mais para evitar as montanhas japonezas de Fousi-Zama. Mas tendo-se rasgado o véo da névoa, notou-se uma immensa cidade com palacios, _villas_, chalets, jardins e parques. Mesmo sem a vêr a teria Robur reconhecido pelo ladrar das suas myriades de cães, pelos gritos das suas aves de rapina, e sobretudo pelo cheiro de cadaver que os corpos dos seus suppliciados lançam no espaço.

Os dois collegas estavam na plataforma, no momento em que o engenheiro tomára este ponto de referencia para o caso de ter de continuar o seu caminho através do nevoeiro.

—Meus senhores, disse elle, não tenho razão alguma para lhes occultar que esta cidade é Yedo, a capital do Japão.

Uncle Prudent não respondeu. Em presença do engenheiro, sentia-se suffocado, como se o ar lhe faltasse nos pulmões.

—Esta vista de Yedo, continuou Robur, é na realidade curiosissima.

—Por mais curiosa que seja ... respondeu Phil Evans.

—Não chega a Pekin?... concluiu o engenheiro. Tambem sou d’essa opinião, e podem avalial-o dentro em pouco.

Era impossivel ser mais amavel.

O _Albatrós_, que se dirigia para o sudoéste, mudou então de direcção tres quartos, a fim de buscar ao léste um novo caminho.

Durante a noite dissipou-se o nevoeiro. Havia symptomas de um grande tufão pouco distante: baixa rapida de barometro, desapparição de vapores, grandes nuvens, de forma ellipsoidal, pegadas ao céo cobreado; no horisonte opposto, longas listas de carmim, nitidamente traçadas sobre um fundo de ardosia, e uma larga aberta, muito clara, ao norte; depois o mar unido e calmo, mas cujas aguas, ao pôr do sol, tomavam uma côr vermelha escura.

Felizmente, aquelle tufão desencadeiou-se ao sul, e não teve outros resultados senão dissipar as névoas amontoadas havia tres dias.

Em uma hora, tinham transposto os duzentos kilometros do estreito da Coréa, e em seguida a ponta extrema d’aquella peninsula. Emquanto o tufão ia bater as costas suéste da China, o _Albatrós_ abalançava-se sobre o Mar Amarello, e, durante os dias 22 e 23, sobre o golpho de Pelchéli; no dia 24 seguia o valle de Pei-Ho e pairava afinal sobre a capital do Celeste Imperio.

Curvados para fora da plataforma, os dois collegas puderam ver muito distinctamente, como o engenheiro havia annunciado, aquella immensa cidade, a muralha que a separa em duas partes—cidade mandchúa e cidade chineza—; os doze bairros que a cercam, os amplos boulevards que irradiam para o centro; os templos, cujos tectos amarellos e verdes se banham no sol nascente; os parques, que rodeiam os palacios dos mandarins; depois, no meio da cidade mandchúa, os seiscentos setenta e oito hectares[1] da cidade Amarella, como um quadrado de _casse-tête_ chinez, emmoldurado dentro de outro; a cidade Vermelha, isto é, o Palacio Imperial com todas as phantasias da sua architectura inverosimil.

N’aquelle momento, por baixo do _Albatrós_, o ar estava cheio de uma harmonia singular. Dir-se-hia um concerto de harpas eolias. No ar pairavam um cento de papagaios de papel, de diversas formas, feitos de folhas de palmeira ou de pandano, munidos na parte superior de uma especie de arco de madeira, distendido por meio de uma lamina de bambú. Ao sôpro do vento, todas estas laminas, de notas variadas, como as de um harmonium, soltavam um murmurio do mais melancholico effeito. Parecia que, n’aquelle meio, se respirava oxygenio musical.

Robur teve então a phantasia de se approximar d’aquella orchestra aérea, e o _Albatrós_ veiu lentamente banhar-se nas ondas sonoras que os papagaios emittiam através da atmosphera.

Mas immediatamente se produziu um effeito extraordinario no meio d’aquella enorme população. Sons do tamtam e outros instrumentos formidaveis das orchestras chinezas, tiros de espingarda aos mil, tiros de morteiros aos centos, tudo foi posto em acção para afastar a aéronave.

Os astronomos chinezes reconheceram n’esse dia que aquella machina aérea era a causa de tantas questões que se haviam levantado; mas os milhões de habitantes do Celeste Imperio, desde o humilde tankadére até os mandarins mais cheios de botões, tomaram-n’o por um monstro apocalyptico que acabava de apparecer no céo de Budha.

No inaccessivel _Albatrós_ não se preoccuparam com taes demonstrações. Mas as guitas que seguravam os papagaios ás estacas dos jardins imperiaes foram, ou cortadas ou içadas a toda a pressa. D’estes leves apparelhos, uns vieram rapidamente a terra, accentuando os seus accordes, outros cahiram como aves que o chumbo ferisse nas azas e cujo canto expira com o ultimo alento. Um som violento, sahido da trombeta de Tom Turner, se espalhou sobre a capital, e cobriu as ultimas notas do concerto aéreo. Isso não interrompeu a fusilaria terrestre. Comtudo uma bomba viera rebentar apenas a alguns pés da plataforma, e o _Albatrós_ subiu de novo para as zonas inaccessiveis do céo.

O que se passou durante alguns dias que se seguiram? Nenhum incidente de que os prisioneiros pudessem aproveitar. Que direcção tomou a aéronave? Invariavelmente a do sudoéste, o que denotava o projecto de se approximar do Industão.

Era visivel, além d’isso, que o solo, alteando-se cada vez mais, obrigava o _Albatrós_ a regular-se segundo o seu perfil. Umas dez horas depois de haverem deixado Pekin, Uncle Prudent e Phil Evans tinham podido entrevêr a parte da grande muralha no limite do Chen-Si. Depois, evitando os montes Loungs, passaram por sobre o valle de Wang-Ho e transpuzeram a fronteira do Imperio Chinez, no limite do Tibet.

O Tibet, elevados planaltos sem vegetação, barrancos dissecados, torrentes alimentadas pelos geleiros, baixios com brilhantes camadas de sal, lagos emmoldurados em florestas virentes. Acima de tudo, um vento muitas vezes glacial.

O barometro, baixado a 450 millimetros, indicava então uma altitude de mais de quatro mil metros acima do nivel do mar. A esta altura, a temperatura, apesar de se estar nos mezes mais quentes do hemispherio boreal, não passava de zero. Aquelle resfriamento, combinado com a velocidade do _Albatrós_, tornava a situação pouco supportavel. De modo que, apesar dos dois collegas dispôrem de quentes mantas de viagem, preferiram entrar para os seus compartimentos.

Escusado será dizer que fôra preciso dar aos helices suspensivos uma velocidade extrema, afim de manter a aéronave n’um ar já rarefeito. Mas elles funccionavam com um conjunto perfeito, e parecia que se estava embalado pelo fremito das suas azas.

N’esse dia, Garlok, a cidade do Tibet occidental, capital da provincia de Guari-Khorsum, poude ver passar o _Albatrós_ do tamanho de um pombo viajante.

No dia 27 de junho, Uncle Prudent e Phil Evans notaram uma enorme barreira, dominada por alguns altos picos, perdidos na neve, e que lhes interceptava o horisonte.

Os dois, encostados ao compartimento da frente, afim de resistir á velocidade do deslocamento, olhavam para aquellas massas colossaes. Pareciam correr na frente da aéronave.

—É o Himalaya, com certeza, disse Phil Evans, e é provavel que vá contornar-lhe a base, sem tentar passar pela India.

—Peor para nós! respondeu Uncle Prudent. N’esse immenso territorio, talvez tivessemos podido ...

—A não ser que elle torneie a cordilheira a léste, ou pelo Nepól a oéste.

—Desafio-o a que o faça!

—Serio! disse uma voz.

No dia seguinte, 28 de junho, o _Albatrós_ estava em frente do gigantesco macisso, por cima da provincia de Zzang. Do outro lado do Himalaya estava a região de Nepól.

Com effeito, tres cordilheiras impedem successivamente o caminho da India, a quem vem do norte. As duas cordilheiras septentrionaes, entre as quaes se insinuára o _Albatrós_, como um navio entre enormes escolhos, são os primeiros degraus d’aquella barreira da Asia central. Foi primeiramente o Karakorum, que forma o valle longitudional e parallelo ao Himalaya, quasi na linha que separa as bacias do Indo, a oéste, das do Brahmaputra, a léste.

Que soberbo systema orographico! Mais de duzentos cumes já medidos, dos quaes dezesete passam de vinte e cinco mil pés! Deante do _Albatrós_, a oito mil oitocentos e quarenta metros, eleva-se o monte Everest. Á direita, o Dwalaghiri, da altura de oito mil e duzentos metros. Á esquerda, o Kinchanjunga, da altura de oito mil quinhentos e noventa e dois metros, posto no segundo plano, depois das ultimas medidas do Everest.

Evidentemente, Robur não tinha a pretenção de chegar até o pincaro das montanhas; mas conhecia as diversas passagens do Himalaya, entre outras a passagem de Ibi-Gamin, que os irmãos Schlagintweit, em 1856, transpuzeram a uma altura de seis mil e oitocentos metros, e n’ella se metteu resolutamente.

Houve algumas horas palpitantes, dolorosas mesmo. Comtudo, se a rarefacção do ar não se tornou tal que fôsse preciso recorrer a apparelhos especiaes para renovar o oxygenio nos beliches, o frio comtudo foi excessivo.

Robur, postado na frente, com o seu masculo rosto debaixo do capuz, commandava as manobras. Tom Turner tinha na mão a canna do leme. O machinista vigiava attentamente as pilhas, cujas substancias nada tinham, felizmente, a receiar da congelação. Os helices, levados ao maximo da corrente, soltavam sons cada vez mais agudos, cuja intensidade foi extrema, apesar da minima intensidade do ar. O barometro cahiu a 290 milimetros, o que indicava sete mil metros de altitude.

Magnifica disposição a d’esse cahos de montanhas! Por toda a parte cumes brancos. Nenhum lago, mas geleiros que descem até dez mil pés da base. Nenhuma herva, apenas raras phanerogamias no limite da vida vegetal. Nenhum d’esses admiraveis pinheiros e cedros que se agrupam em florestas esplendidas, nos flancos inferiores da cordilheira. Nenhum d’esses gigantescos fetos, nem d’esses interminaveis parasitas, extendidos de um tronco a outro, como nos cannaviaes bravos. Nenhum animal, nem cavallos selvagens, nem yacks, nem bois tibetanos. De quando em quando uma gazella perdida n’aquellas alturas. Nenhuma ave, a não ser alguns casaes d’essas gralhas que se elevam até as ultimas camadas do ar respiravel.

Transposta esta passagem, o _Albatrós_ começou a descer de novo. Ao sahir do desfiladeiro, para fora da região das florestas, não se via mais do que uma planicie infinita que se extendia sobre um immenso sector.

Então Robur avançou para os seus hospedes, e com voz amavel:

—A India, meus senhores! lhes disse.

CAPITULO X

ONDE SE VERÁ COMO E PORQUE O CREADO FRICOLLIN FOI POSTO A REBOQUE