Robur, o Conquistador

Part 5

Chapter 53,808 wordsPublic domain

O helice caminha necessariamente na direcção de um eixo. Se o eixo é vertical, desloca-se verticalmente; se é horisontal, desloca-se horisontalmente.

Todo o apparelho voador do engenheiro Robur consistia n’estes dois movimentos.

Eis a descripção exacta do que se pode dividir em tres partes essenciaes: a plataforma, os engenhos de suspensão e de propulsão, e as machinas.

Plataforma.—É uma verdadeira ponte de navio, com prôa em forma de espora, tendo 30 metros de comprimento e quatro de largura. Por baixo uma especie de concha, solidamente construida, contendo os apparelhos destinados a produzir a potencia mechanica, o deposito das munições, os utensilios, o armazem geral para provisões de toda a especie, inclusivè agua de bordo. Em volta da ponte, alguns postes de madeira, cobertos de uma rede de ferro, supportam um anteparo com corrimão. Á sua superficie estão os compartimentos destinados, uns ao alojamento do pessoal, outros ás machinas. Nos compartimentos centraes funcciona a machina que põe em acção todos os apparelhos de suspensão, nos da frente a machina do propulsor de deante; no de traz a machina do propulsor correspondente,—ficando cada machina em separado. Do lado da prôa, na primeira divisoria, estão a officina, a cozinha, o posto dos tripulantes. Do lado da pôpa, nos ultimos compartimentos, estão dispostos muitos beliches, entre outros, o do engenheiro, uma casa de jantar, e depois, por cima, uma casa envidraçada, onde está o timoneiro, que dirige o apparelho por meio de um poderoso leme. Todos os compartimentos são esclarecidos por meio de setteiras, fechadas com vidros temperados, que apresentam dez vezes a resistencia do vidro ordinario. Por baixo do casco, está estabelecido um systema de molas flexiveis, destinadas a abrandar os choques, apesar do acto de fundear em terra se poder realisar com uma extrema suavidade; tanto o engenheiro é senhor dos movimentos do apparelho.

Engenhos de suspensão e de propulsão.—Por cima da plataforma erguem-se verticalmente trinta e sete eixos, dos quaes quinze de cada lado, e sete, mais altos, ao meio. Dir-se-hia um navio de trinta e sete mastros. Unicamente esses mastros, em vez de vélas, trazem cada um dois helices horisontaes, de um passo e de um diametro assaz curtos, mas aos quaes se pode imprimir uma rotação prodigiosa. Cada um d’estes eixos tem um movimento independente do movimento dos outros, e além d’isso, de dois em dois, cada eixo gira em sentido inverso,—disposição necessaria para que o apparelho não seja tomado de um movimento giratorio. De modo que os helices, não deixando de continuar a subir sobre a columna de ar vertical, fazem equilibrio contra a resistencia horisontal. Em consequencia d’isso, o apparelho fica munido de sessenta e quatro helices suspensivos, cujos tres ramos são guardados exteriormente por um circulo metallico que, fazendo o papel de volante, economisa a fôrça motriz. Na frente e na retaguarda, montados sobre eixos horisontaes, dois helices propulsivos, de quatro ramos, de um passo inverso muito alongado, giram em sentido differente e communicam o movimento de propulsão. Estes dois helices, de um diametro muito maior que o dos helices de suspensão, podem egualmente girar com uma excessiva velocidade.

Em summa, este apparelho aproveita ao mesmo tempo dos systemas que teem sido preconisados pelos engenheiros srs. Cossus, de la Landelle e de Ponton de Amécourt, systemas aperfeiçoados pelo engenheiro Robur. Mas é sobretudo na escolha e na applicação da fôrça motriz que elle tem direito de ser considerado como inventor.

Machinas.—Não é nem ao vapor de agua ou outros liquidos, nem ao ar comprimido ou outros gazes elasticos, nem ás misturas explosivas susceptiveis de produzir uma acção mechanica, que Robur foi pedir a potencia necessaria para sustentar e mover o seu apparelho. Foi á electricidade, a esse agente que será um dia a alma do mundo industrial. Mas nenhuma machina electro-motriz o produzia; apenas pilhas e accumuladores. Quaes são porém os elementos que entram na composição d’aquellas pilhas, e que acidos os põem em acção? N’isso consistia o segredo de Robur.

O mesmo com respeito aos accumuladores. De que natureza são as suas laminas positivas e negativas, não se sabe. O engenheiro tivera o cuidado de tirar um privilegio de invenção. E afinal o resultado era incontestavel:—pilhas de um effeito extraordinario; acidos de uma resistencia, quasi absoluta, á evaporação e á congelação; accumuladores que deixam a perder de vista os Faure-Sellon-Volckmar; finalmente correntes cujo valor se cifra em numerosas incognitas.

D’ahi um poder em cavallos electricos, por assim dizer, infinito, pondo em acção os helices que communicam ao apparelho uma fôrça de suspensão e de propulsão superior a todas as suas necessidades, seja em que circumstancia fôr.

Mas, convem repetir, isso pertence exclusivamente ao engenheiro Robur, e a seu respeito elle guardou o segredo mais absoluto. Se o presidente e o secretario do Weldon-Institute não conseguirem descobril-o, muito provavelmente ficará perdido para a humanidade.

Escusado é dizer que este apparelho possue uma estabilidade sufficiente, em consequencia da posição do seu centro de gravidade. Não ha perigo de que faça angulos assustadores com a horisontal, nem ha a receiar nenhuma reviravolta.

Resta saber que materia empregára o engenheiro Robur para a construcção da sua aeronave,—nome que pode muito bem ser applicado ao _Albatrós_. Que substancia era essa tão dura que o _bowie-knife_ de Phil Evans não tinha podido entrar com ella, e cuja natureza Uncle Prudent não podéra explicar? Era papel, unicamente.

Havia muitos annos que esta fabricação tomára um desenvolvimento consideravel. Papel sem gomma, cujas folhas são impregnadas de dextrina e amido, e que depois de apertadas na prensa hydraulica, formam uma materia dura como o aço. Com ella se fazem roldanas, rails, rodas de wagon, mais solidas que as de metal e ao mesmo tempo mais ligeiras. Ora, essa solidez, essa leveza, é que Robur tinha querido utilisar para a construcção da sua locomotiva aerea. Casco, paredes, compartimentos, tudo era feito de papel da palha, que se tornára metal sob a pressão, e até—o que não era para desprezar para um apparelho que corria a grandes alturas—incombustivel. Quanto aos diversos orgãos dos engenhos de suspensão e de propulsão, eixos ou palhetas de helices, era ainda a febra gelatinada que lhes fornecia a substancia resistente e flexivel ao mesmo tempo. Essa materia, que pode tomar todas as formas, insoluvel na maior parte dos gazes e dos liquidos, acidos ou essencias,—não falando já das suas propriedades isoladoras—tinha tido um preciosissimo emprego no machinismo electrico do _Albatrós_. O engenheiro Robur, o seu contramestre Tom Turner, um machinista e seus dois ajudantes, dois timoneiros e um cozinheiro,—ao todo oito homens,—eis o pessoal da aeronave, bastante para as manobras exigidas pela locomoção aerea. Armas de caça e de guerra, apparelhos de pesca, pharoes electricos, instrumentos de observação, bussolas e sextantes, para traçar o caminho, thermometro para o estudo da temperatura, diversos barometros, uns para avaliar a cota das alturas alcançadas, outros para indicar as variações da pressão atmospherica, um storm-glass para a previsão das tempestades, uma pequena bibliotheca, uma pequena imprensa portatil, uma peça de artilheria montada em rodizio no centro da plataforma, de carregar pela culatra e lançando balas de seis centimetros, um provimento de polvora, balas, cartuchos de dynamite, uma cozinha accesa pelas correntes dos accumuladores, um _stock_ de conservas, carnes e legumes, accomodadas n’um compartimento _ad hoc_ com alguns barris de brandy, de wisky e de gin, finalmente, o necessario para se estar muitos mezes sem necessidade de descer a terra,—taes o material e as provisões da aeronave, não falando já na famosa trombeta.

Havia, além d’isso, a bordo um ligeiro barco de cautchuc, insubmersivel, que podia trazer oito homens á superficie de um lago, de um rio, ou de mar sereno.

Mas tinha pelo menos Robur installado pára-quédas, para o caso de um accidente? Não! não acreditava em accidentes d’este genero. Os eixos dos helices eram independentes. O pararem uns, não impedia os outros de funccionar. Bastava que metade funccionasse para manter o _Albatrós_ no seu elemento natural.

—E com elle,—teve Robur, o Conquistador, bem depressa ensejo de dizer aos seus hospedes, hospedes bem contra a sua vontade,—com elle, eu sou senhor d’esta setima parte do mundo, maior que a Australia, a Oceania, a Asia, a Africa e a Europa, esta Icaria aerea que milhares de icarianos povoarão um dia!

CAPITULO VII

DE COMO UNCLE PRUDENT E PHIL EVANS SE RECUSAM AINDA A DEIXAR-SE CONVENCER

O presidente do Weldon-Institute estava estupefacto, e seu companheiro aturdido.

Mas nem um nem outro quiz deixar transparecer nada d’esse pasmo tão natural.

O creado Fricollin, esse não dissimulava o seu espanto em se sentir transportado no espaço, a bordo de uma tal machina; não procurava mesmo dissimular.

Durante esse tempo, os helices suspensivos giravam rapidamente por sobre as cabeças d’elles. Comquanto fôsse muito consideravel, n’essa occasião, essa velocidade de rotação poderia ser triplicada no caso do _Albatrós_ querer attingir zonas mais altas.

Quanto aos dois propulsores, lançados n’um andamento moderadissimo, não imprimiam ao apparelho senão um deslocamento de vinte kilometros por hora.

Curvando-se para fora, os passageiros do _Albatrós_ puderam notar n’uma longa e sinuosa fita liquida que serpeava, como um simples regato, através um paiz accidentado, no meio da scintillação de alguns lagos obliquamente feridos pelos raios do sol. Esse regato era um rio, e um dos mais importantes d’aquelle territorio. Sobre a margem esquerda desenhava-se uma cadeia de montanhas, cuja prolongação ia até perder de vista.

—Diz-nos onde estamos? perguntou Uncle Prudent com a voz tremula de colera.

—Não tenho necessidade de lh’o dizer, respondeu Robur.

—E não nos diz tambem onde vamos? accrescentou Phil Evans.

—Através do espaço.

—E isto vae durar muito?

—O tempo que fôr necessario.

—Trata-se então de dar a volta ao mundo? perguntou ironicamente Phil Evans.

—Mais do que isso, respondeu Robur.

—E se a viagem nos não convem?... replicou Uncle Prudent.

—É necessario que convenha!

Eis uma amostra da natureza de relações que se iam estabelecer entre o dono do _Albatrós_ e os seus hospedes, para não dizermos seus prisioneiros. Manifestamente, porém, elle quiz antes de tudo dar-lhes tempo de voltarem a si, de admirar o maravilhoso apparelho que os levava pelos ares, e, de certo, de comprimentar o seu inventor. De modo que fingia estar a passeiar de um lado a outro da plataforma. Ficava-lhes a liberdade de examinar as machinas, a disposição da aeronave, ou de conceder toda a attenção á paizagem que se extendia por baixo d’elles.

—Uncle Prudent, disse então Phil Evans, devemos pairar n’este momento sobre a parte central do territorio canadiano. Esse rio que corre no noroeste é o Saint-Laurent. A cidade que nos ficou atraz é Quebec.

Era, com effeito, a velha cidade de Champlain, cujos tectos de zinco brilhavam ao sol como reflectores. O _Albatrós_ tinha-se pois elevado até quarenta e seis graus de latitude norte, o que explicava o raiar prematuro do dia, e a prolongação anormal da aurora.

—Sim, continuou Phil Evans, é com effeito a cidade em amphitheatro, a collina com a sua cidadella, essa Gibraltar da America do Norte. Eis as cathedraes ingleza e franceza! Eis a alfandega com a sua cupula coroada com a bandeira britannica.

Mal acabára Phil Evans de dizer isto, e já a capital do Canadá começava a reduzir-se ao longe. A aeronave entrava n’uma zona de pequenas nuvens que tiraram a pouco e pouco a vista da terra.

Robur, vendo então que o presidente e o secretario do Weldon-Institute fixavam a sua attenção sobre o conjunto exterior do _Albatrós_, approximou-se e disse:

—Então, meus senhores, acreditam já na possibilidade da locomoção aerea, por meio de apparelhos mais pesados que o ar?

Era difficil não se deixarem vencer pela evidencia. Comtudo Uncle Prudent e Phil Evans não responderam.

—Não dizem nada? perguntou o engenheiro. Com certeza é a fome que os impede de falar ... Mas, por eu os ter arrebatado pelo ar, não imaginem que estou resolvido a alimental-os com esse fluido pouco nutritivo. Espera-os o seu primeiro almoço.

Como Uncle Prudent e Phil Evans sentiam a fome a aguilhoal-os vivamente, não era essa a occasião de fazer ceremonias. Uma refeição a nada obriga, e quando Robur os tivesse posto em terra, esperavam adquirir em presença d’elle toda a liberdade de acção.

Foram ambos conduzidos para os compartimentos trazeiros, a um pequeno “dining room„. Alli estava posta uma mesa, no maior asseio, onde elles deviam comer durante a sua viagem. Constituiam os pratos differentes conservas e entre outras uma especie de pão, composto, em partes eguaes, de farinha e de carne em pó, preparado com um pouco de toucinho, e que, cozido em agua, dá uma sôpa excellente; depois fatias de presunto frio, e chá.

Tambem Fricollin, pelo seu lado, não fôra esquecido. Nos compartimentos da frente tinha encontrado uma forte sôpa do mesmo pão. E, realmente, elle devia ter muita fome, para comer como comia, porque os queixos tremiam-lhe de medo e podiam bem recusar-lhe todos os serviços.

—Se isto se desmancha!... se isto se desmancha! repetia o infeliz negro.

D’ahi, transes continuados! Imagine-se! Uma quéda de mil e quinhentos metros, que o teria reduzido a papas!

Uma hora depois, Uncle Prudent e Phil Evans voltaram á plataforma. Robur não estava lá. Na retaguarda, o homem do leme, na sua gaiola envidraçada, com os olhos fixos na bussola, seguia imperturbavelmente, sem uma hesitação, o caminho indicado pelo engenheiro.

Quanto ao resto do pessoal, provavelmente o almoço o detinha no seu posto. Unicamente um ajudante machinista, encarregado de vigiar as machinas, passeava de um compartimento a outro.

Embora a velocidade fôsse grande, os dois collegas não a podiam apreciar senão muito imperfeitamente, apesar do _Albatrós_ ter já sahido da zona das nuvens e a terra se apresentar mil e quinhentos metros abaixo.

—É inacreditavel! observou Phil Evans.

—Nem acreditemos! respondeu Uncle Prudent.

Foram então collocar-se na frente e extenderam as vistas pelo horisonte, ao oéste.

—Ah! uma outra cidade! disse Phil Evans.

—Pode reconhecel-a?

—Sim! Parece-me que é Montreal.

—Montreal?... Mas nós deixámos Quebec ha duas horas, o maximo!

—Isso prova que esta machina se desloca com uma rapidez de vinte e cinco leguas por hora, pelo menos.

Com effeito, era essa a velocidade da aeronave, e se os passageiros não se sentiam incommodados, é porque caminhavam no sentido do vento. Por um tempo calmo, aquella velocidade tel-os-hia contrariado consideravelmente, porque é pouco mais ou menos a velocidade de um expresso. Com vento contrario, seria impossivel supportal-a.

Phil Evans não se enganava. Por baixo do _Albatrós_ apparecia Montreal, perfeitamente reconhecivel pela Victoria Bridge, ponte tubular, lançada sobre o Saint-Laurent, como o viaducto do caminho de ferro sobre o lago de Veneza. Depois, distinguiam-se as suas largas ruas, as suas lojas immensas, os palacios dos seus bancos, a sua cathedral, basilica recentemente construida pelo modêlo de S. Pedro de Roma, e finalmente o Monte-Real que domina o conjunto da cidade e de que se fez um parque magnifico.

Felizmente que Phil Evans visitára as principaes cidades do Canadá. Poude assim reconhecer algumas, sem interrogar Robur. Em seguida a Montreal, pela hora e meia da tarde, passaram sobre Ottawa, cujas cascatas, vistas do alto, pareciam uma vasta caldeira em ebullição e a transbordar, em effervescencias do mais grandioso effeito.

—Eis o palacio do parlamento, disse Phil Evans.

E mostrava uma especie de brinquedo de Nuremberg, posto sobre uma collina. Esse brinquedo, com a sua architectura polychroma, parecia-se com o Parliament-House de Londres, como a cathedral de Montreal se parecia com S. Pedro de Roma. Mas pouco importava; era fora de duvida ser Ottawa.

Não tardou que essa cidade minguasse no horisonte, não formando mais do que uma mancha luminosa sobre o solo.

Eram proximamente duas horas, quando Robur tornou a apparecer. Acompanhava-o o seu contramestre, Tom Turner. Não lhe disse mais do que tres palavras. Turner transmittiu-as aos dois ajudantes, postados nos compartimentos da frente e da retaguarda. A um signal, o timoneiro modificou a direcção do _Albatrós_, desviando dois graus ao sudoéste. Ao mesmo tempo, Uncle Prudent e Phil Evans puderam notar que uma velocidade maior acabava de ser imprimida aos propulsores da aeronave.

De facto aquella velocidade podia ser duplicada e ultrapassar tudo que se tem obtido até aqui dos mais rapidos engenhos de locomoção terrestre.

Imagine-se! Os torpedeiros podem fazer vinte e dois nós ou quarenta kilometros por hora. Os caminhos de ferro francezes e inglezes, cem; os barcos patineiros sobre os rios gelados dos Estados Unidos, cento e quinze; uma machina, construida nas officinas de Patterson, com roda de engrenagem, faz cento e trinta sobre a linha do lago Erié, e uma outra locomotiva, entre Trenton e Jersey, cento e trinta e sete.

Ora o _Albatrós_, com o maximo de potencia dos seus propulsores, podia andar na razão de duzentos kilometros por hora, isto é, cêrca de cinquenta metros por segundo.

Pois bem, esta velocidade é a do furacão que arranca as arvores pela raiz, a de uma certa rabanada de vento que, durante a tempestade de 21 de setembro de 1881, se deslocou em Cahors, na razão de cento e noventa e quatro kilometros. É a velocidade média do pombo viajante, a qual não é ultrapassada senão pelo vôo da andorinha vulgar (sessenta e sete metros por segundo) e pelo do gavião (oitenta e nove metros).

N’uma palavra, como o dissera Robur, o _Albatrós_, desenvolvendo toda a fôrça dos seus helices, podia dar a volta ao mundo em duzentas horas, isto é, em menos de oito dias!

Pouco se importava esta machina voadora que o globo possuisse n’aquella épocha quatrocentos e cincoenta mil kilometros de via ferrea, isto é, onze vezes a circumferencia da terra no equador. Pois não tinha ella por ponto de apoio todo o ar do espaço?

E será preciso dizer agora que esse phenomeno, que tanto havia intrigado o publico dos dois mundos, era a aeronave do engenheiro Robur? Aquella trombeta que soltava notas vibrantes nos ares, era a do contramestre Tom Turner. A bandeira collocada no alto dos principaes monumentos da Europa, Asia e America, era a bandeira de Robur, o Conquistador, e do seu _Albatrós_.

E se, até então, o engenheiro tomára algumas precauções para que o não reconhecessem; se, de preferencia, elle viajava de noite, alumiando-se ás vezes com os seus pharoes electricos; se, durante o dia, desapparecia por cima da camada das nuvens, agora parecia não querer occultar o segredo da sua conquista. E se viera a Philadelphia, se se apresentára na sala das sessões do Weldon-Institute, não era para dar parte da sua prodigiosa descoberta, para convencer _ipso facto_ os mais incredulos?

Sabemos como fôra recebido e vamos ver as represalias que queria exercer sobre o presidente e o secretario do mencionado club.

Robur approximára-se dos dois collegas. Estes affectavam não ter a menor surpresa do que viam e do que experimentavam, bem contra sua vontade. Evidentemente, dentro d’aquelles dois craneos anglo-saxonios incrustava-se uma teimosia que seria difficil arrancar.

Pelo seu lado, Robur não quiz tambem ter o ar de quem percebia isso, e como se continuasse a conversação, que estava aliás interrompida havia duas horas:

—Meus senhores, disse elle, estão de certo perguntando a si proprios se este apparelho, maravilhosamente apropriado á locomoção aerea, é susceptivel de receber uma velocidade maior? Elle não seria digno de conquistar o espaço se fôsse incapaz de o devorar. Eu quizera que o espaço fôsse para mim um ponto de apoio solido, e é. Comprehendi que, para luctar contra o vento, era unicamente preciso ser mais forte do que elle, e sou mais forte. Não tenho necessidade de vélas para me mover, nem de remos, nem de rodas para me puxar, nem de rails para fazer mais rapidamente o caminho. Ar, e mais nada. O ar que me envolve, como a agua o barco submarino, e no qual os meus propulsores giram como os helices de um vapor. E aqui está como resolvi o problema da aviação. Eis o que não faria nem o balão nem outro apparelho mais leve que o ar.

Mutismo absoluto dos dois collegas, o que não desconcertou um instante o engenheiro. Contentou-se com sorrir e continuou em forma interrogativa:

—Talvez perguntem tambem se, ao poder que tem de se deslocar horisontalmente, o _Albatrós_ junta um egual poder de deslocamento vertical: n’uma palavra, se mesmo quando se trata de visitar as altas zonas da atmosphera, pode luctar com um aerostato? Pois bem, não os aconselho a pôr em lucta o _Go a head_ com elle.

Os dois collegas tinham-se limitado a encolher os hombros.

Era alli que elles esperavam o engenheiro.

Robur fez um signal. Os helices propulsivos pararam immediatamente.

Depois, tendo corrido no seu rumo uma milha ainda, o _Albatrós_ permaneceu immovel.

A um segundo gesto de Robur, os helices suspensivos puzeram-se então a mover-se com uma rapidez tal, que se podia comparar á das sereias nas experiencias de acustica. O seu _frrr_ subiu cêrca de uma oitava na escala dos sons, diminuindo comtudo de intensidade por causa da rarefacção do ar, e o apparelho elevou-se verticalmente como uma calhandra, que solta o seu grito agudo através o espaço.

—Meu amo!... meu amo!... repetia Fricollin. Queira Deus que isto se não parta!

Um sorriso de desdem foi a unica resposta de Robur. Em alguns minutos, o _Albatrós_ devia ter alcançado setecentos metros, o que extendia o raio visual a setenta milhas, depois quatro mil metros, o que era indicado pelo barometro que descia a quatrocentos e oitenta millimetros.

Então, feita a experiencia, o _Albatrós_ tornou a descer. A diminuição da pressão das altas camadas traz a diminuição do oxygenio no ar, e, por conseguinte, no sangue. É a causa dos graves accidentes que se teem dado com certos aeronautas. Robur julgava inutil expôr-se a isso.

O _Albatrós_ voltou pois á altura que parecia procurar de preferencia, e os seus propulsores, entrando de novo a girar, arrastaram-n’o com uma velocidade ainda maior para o sudoéste.

—Agora, meus senhores, se tinham no espirito essa pergunta ahi fica a resposta.

Depois, curvado sobre o corrimão, ficou-se absorto a contemplar.

Quando ergueu a cabeça, tinha o presidente e o secretario do Weldon-Institute defronte d’elle.

—Engenheiro Robur, disse Uncle Prudent, que em vão procurava dominar-se, nós não perguntavamos nada do que lhe pareceu que pensassemos. Mas far-lhe-hemos uma pergunta, a que desejariamos que respondesse.

—Diga.

—Com que direito nos atacou em Philadelphia, no parque de Fairmont? Com que direito nos encerrou n’uma cellula? Com que direito nos leva, contra a nossa vontade, a bordo d’esta machina volante?

—E com que direito, senhores balonistas, respondeu Robur, os senhores me insultaram, me apuparam, me ameaçaram, no seu club, a ponto de eu estar espantado de ter sahido de lá vivo?

—Interrogar não é responder, continuou Phil Evans, e eu repito-lhe: com que direito?...

—Quer sabel-o?

—Tenha a bondade.

—Pois bem, com o direito do mais forte!

—Isso é cynico!

—Mas assim é!

—E por quanto tempo ainda, cidadão engenheiro, perguntou Uncle Prudent, que não se poude mais conter, por quanto tempo ainda pretende exercer esse direito?

—Pois que, meus senhores! respondeu ironicamente Robur, como me podem fazer uma pergunta d’essas, quando não teem mais do que baixar os olhos para desfructar um espectaculo sem egual em todo o mundo!