Part 3
—Mas quer isto dizer que o homem deva renunciar á conquista do ar, a transformar os costumes civis e politicos do velho mundo, servindo-se d’esse admiravel meio de locomoção? Não! E do mesmo modo que elle se tornou senhor dos mares, com o navio, por meio do leme e da véla, da roda e do helice, do mesmo modo se tornará senhor do espaço atmospherico por meio de apparelhos mais pesados do que o ar, porque é necessario ser-se mais pesado do que elle, para se ser mais do que elle forte.
D’esta vez a assembléa explodiu. Que descarga de gritos partindo de todas as bôccas, dirigidas contra Robur, como outros tantos canos de espingarda ou guellas de canhão! Pois não precisava de resposta aquella verdadeira declaração de guerra, lançada no campo dos balonistas? Não era a lucta que ia começar entre o “Mais ligeiro„ e o “Mais pesado que o ar„?
Robur nem pestanejou. Com os braços cruzados sobre o peito, esperava corajosamente que o silencio se restabelecesse.
Uncle Prudent, com um gesto, ordenou que o fogo cessasse.
—Sim, continuou Robur. O futuro é das machinas volantes. O ar é um ponto de apoio solido. Imprima-se a uma columna d’este fluido um movimento ascensional de quarenta e cinco metros por segundo, e um homem poderá manter-se na sua parte superior, se as solas dos seus sapatos medirem uma superficie de um oitavo de metro quadrado apenas. E se a velocidade da columna fôr elevada a noventa metros, poderá caminhar a pés nús. Ora fazendo fugir, sob as hastes de um helice, uma massa de ar com aquella rapidez, obtem-se o mesmo resultado.
O que Robur estava dizendo era o que antes d’elle tinham dito todos os partidarios da aviação, cujos trabalhos deviam, lentamente, mas com um effeito seguro, conduzir á solução do problema. Cabe aos srs. de Ponton d’Amécourt, de La Landelle, Nadar, de Luzy, de Louvrié, Liais, Béléguic, Moreau, irmãos Richard, Babinet, Jobert, du Temple, Salives, Penaud, de Villeneuve, Gauchot e Tatin, Michel Loup, Edison, Planavergne e tantos outros finalmente, a honra de haverem propagado idéas tão simples! Abandonadas e tornadas a adoptar muitas vezes, não podiam deixar de triumphar um dia. Aos inimigos da aviação, que pretendiam que a ave não se sustem senão pelo facto de aquecer o ar com que se entufa, a resposta não tardou. Pois não haviam provado que uma aguia, que pesasse cinco kilos, teria de se encher de cincoenta metros cubicos d’esse fluido quente, só para se suster no espaço?
Foi o que Robur demonstrou, com uma logica innegavel, no meio da vozearia que se levantava de todos os lados. E como conclusão, eis as phrases que elle lançou á cara dos balonistas:
—Com os vossos aerostatos, nada podereis, a nada chegareis, não vos atrevereis a cousa alguma. O mais intrepido dos vossos aeronautas, John Wise, apesar de ter já feito uma travessia aerea de mil e duzentas milhas acima do continente americano, teve de renunciar ao seu projecto de atravessar o Atlantico. E depois, não vos atrevestes a avançar um passo, um só, n’esse caminho.
—Meu caro senhor, disse então o presidente, que se esforçava por estar tranquillo, não se esqueça do que disse o nosso immortal Franklin, quando appareceu o primeiro _montgolfière_, no momento em que o balão ia nascer. “Não passa de uma creança, mas ha de crescer„. E cresceu ...
—Não, presidente, não! Não cresceu ... Engordou apenas ... o que não é a mesma cousa.
Era um ataque directo aos projectos do Weldon-Institute, que havia decretado, sustentado, pago a construcção, de um aerostato monstro. De modo que em breve se cruzaram na sala propostas do seguinte teor, bem pouco tranquillisadoras:
—Abaixo o intruso!
—Expulsem-n’o da tribuna!...
—Para lhe provar que é mais pesado que o ar!
E muitas outras.
Mas não passavam de palavras; não chegavam a vias de facto. Robur impassivel, poude ainda exclamar;
—O progresso não pertence aos aerostatos, cidadãos balonistas, mas aos apparelhos volantes. O passaro vôa, e não é um balão, é um machinismo!...
—Sim! vôa, exclamou o fogoso Bat T. Fyn, mas vôa contra todas as regras da mechanica!
—Sério! respondeu Robur, encolhendo os hombros.
E continuou:
—Depois que se estudou o vôo dos pequenos e grandes voadores, esta idéa simplicissima prevaleceu:—é que basta imitar a natureza, porque ella nunca se engana. Entre o albatrós que a voar dá com as azas dez vezes por minuto, entre o pelicano que dá setenta ...
—Setenta e uma! disse uma voz zombeteira.
—E a abelha que dá cento e noventa e duas, por segundo ...
—Cento e noventa e tres! exclamaram, continuando a zombar.
—E a môsca vulgar que dá tresentas e trinta ...
—Tresentas e trinta e meia!
—E o mosquito que dá milhões ...
—Não ... milhares de milhões!
Mas Robur não interrompeu a sua demonstração.
—Entre estes diversos vôos ...
—Oh! vae uma grande differença! replicou uma voz.
— ... entre estas divergencias ha a possibilidade de encontrar uma solução prática. No dia em que o sr. Lucy poude consignar que um escaravelho, esse insecto que não pesa mais de duas grammas, podia com um pêso de quatrocentas grammas, isto é, duzentas vezes o seu pêso, o problema da aviação estava resolvido. Além d’isso, estava demonstrado que a superficie da aza decresce relativamente, á medida que vão augmentando a dimensão e pêso do animal. D’ahi chegou-se a imaginar e a construir mais de sessenta apparelhos ...
—Que nunca puderam voar! exclamou o secretario Phil Evans.
—Que voaram e continuaram a voar, respondeu Robur, sem se desconcertar. E quer lhes chamem streophoros, helicopteros, orthoptheros; quer, á imitação do que fizeram com respeito á palavra _navis_, tirando d’ella a palavra nave ou navio, queiram deduzir o seu nome de _avis_, o caso é que se chega ao apparelho cuja invenção deve tornar o homem senhor do espaço.
—Oh! o helice! observou Phil Evans. Mas a ave não tem helice ... que nos conste!
—Tem! respondeu Robur. Como o demonstrou o sr. Penaud, de facto a ave torna-se helice, e o seu vôo é helicoptero. De modo que o motor do futuro é o helice ...
“D’un pareil maléfice, _Saint Hélice_, preservez-nous„!...
cantarolou um dos assistentes que, por acaso, tinha de cór este estribilho do _Zampa_ de Herold.
E todos se puzeram a cantal-o n’umas taes intonações, que deviam ter feito estremecer o compositor no seu tumulo.
Depois, quando as ultimas notas se perderam n’um espantoso charivari, Uncle Prudent, aproveitando de um momento de socego, entendeu dever dizer:
—Cidadão extrangeiro, até aqui temol-o deixado falar sem o interromper ...
Ao que parece, para o presidente do Weldon-Institute, aquelles gritos, aquellas réplicas, aquelles desconchavos, não eram mais do que simples troca de argumentos.
—Comtudo, continuou elle, lembrar-lhe-hei que a theoria da aviação está de antemão condemnada e rejeitada pela maior parte dos engenheiros americanos e extrangeiros. Um invento que tem no seu passivo a morte de Sarrassin Volant, em Constantinopla, a do monge Voador em Lisboa, a de Letur em 1852, a de Groof, em 1864, sem contar com as victimas de que me não lembro, quando mais não fôsse que o mythologico Icaro ...
—Esse systema, respondeu Robur, não é mais condemnavel do que esse cujo martyrologio contém os nomes de Pilatre de Rozier, em Calais, de madame Blancard, em Paris, de Donaldson e Grimwood, que cahiram no lago Michigan, de Sivel e de Crocé-Spinelli, d’Eloy e de tantos outros que se não podem esquecer.
Era uma resposta “du tac au tac„, como se diz em esgrima.
—Além de que, continuou Robur, com os vossos balões, por mais aperfeiçoados que sejam, não podeis obter uma velocidade verdadeiramente prática. Levareis dez annos a dar a volta ao mundo, quando uma machina volante o poderá fazer em oito dias!
Novos gritos de protesto e de negação, que duraram tres grandes minutos, até ao momento em que Phil Evans poude tomar a palavra.
—Meu caro sr. aviador, disse este, o senhor que acaba de nos encarecer os beneficios da aviação, já porventura “aviou„ alguma vez?
—Sim, senhor!
—Já fez a conquista do ar?
—Talvez!
—Hurrah pelo Robur, o Conquistador! exclamou uma voz ironica.
—Pois sim, senhores! Robur, o Conquistador! acceito esse nome e hei de usal-o, porque tenho direito a elle.
—Permitta-me que duvidemos! exclamou Jem Cip.
—Meus senhores, continuou Robur, com o sobr’olho franzido, quando venho discutir seriamente uma cousa seria, não admitto que me respondam com desmentidos, e eu gostava de saber o nome do meu interruptor.
—Chamo-me Jem Cip ... e sou legumista ...
—Cidadão Jem Cip, respondeu Robur, eu sabia que os legumistas teem geralmente os intestinos mais longos que os dos outros homens, pelo menos uma boa toeza. Pois já é bastante; e não me obrigue a extendel-os ainda mais, começando primeiro pelas orelhas ...
—Ponham-n’o a andar!
—Para o meio da rua!
—Para fora d’aqui!
—A lei de Lynch!
—Torçam-n’o em forma de helice!...
O furor dos balonistas chegára ao cumulo. Tinham-se levantado todos, e rodeavam a tribuna. Robur desapparecia no meio de uma floresta de braços que se agitavam, como se fôssem soprados pela tempestade. Em vão a trombeta a vapor soltava notas no ar, por sobre a assembléa. N’essa tarde, a Philadelphia podia ter julgado que o fogo devorava um dos seus quarteirões, e que toda a agua da Scheylkill-river não bastava para o extinguir.
De repente, fez-se no tumulto um movimento de recúo. Robur, tirando as mãos das algibeiras, extendia os punhos para as primeiras filas d’aquelles obstinados sujeitos.
N’esses punhos tinha dois _boxes_ á americana, que são revolvers ao mesmo tempo, e aos quaes basta a pressão dos dedos para os fazer disparar: verdadeiras metralhadoras de algibeira.
N’isto, aproveitando não só a hesitação dos assistentes, mas tambem o silencio que acompanhára aquella hesitação:
—Decididamente, disse elle, não foi Americo Vespucio quem descobriu o Novo Mundo; foi Sebastien Cabot! Não sois americanos, cidadãos balonistas! Não passaes de comedian ...
No mesmo instante, quatro ou cinco tiros se dispararam no ar. Não feriram ninguem. No meio do fumo, o engenheiro desapparecia; e quando o fumo se dissipou não se encontrou vestigio algum de Robur!
Robur, o Conquistador, tinha desapparecido, como se algum apparelho aviatorio o tivesse levado pelo ares.
CAPITULO IV
DE COMO A PROPOSITO DO CREADO FRICOLLIN O AUCTOR PROCURA REHABILITAR A LUA
É claro que mais de uma vez, em consequencia de discussões tempestuosas, ao sahir das sessões, tinham os membros de Weldon-Institute enchido de clamores a Walnut-street e as ruas adjacentes. Mais de uma vez os habitantes d’aquelle quarteirão se tinham justamente queixado d’aquellas tumultuosas discussões que os iam perturbar até nos proprios domicilios. Mais de uma vez, finalmente, os _policemens_ tinham tido de entrevir para assegurar o transito dos que passavam, na maior parte muito indifferentes á questão da navegação aerea. Mas, antes d’aquella noite, nunca o tumulto tomára taes proporções, nunca as queixas tinham sido mais bem fundadas, nunca a intervenção da policia fôra mais necessaria.
Comtudo os membros do Weldon-Institute tinham uma certa desculpa. Nunca haviam esperado que os viessem atacar na sua propria casa. Áquelles obsecados pelo “mais ligeiro que o ar„ um, não menos obsecado pelo “mais pesado„, tinha dito cousas muito desagradaveis. Depois, no momento em que o iam tratar como elle merecia, eclipsára-se.
Ora, isto clamava por uma vingança. Para deixar impunes taes injurias, era preciso não ter sangue americano nas veias! Filhos de America, tratados como filhos de Cabot! Pois não era um insulto, tanto mais que cahia certo,—historicamente?
Os membros do club correram pois, em grupos, á Walnut-street, depois ás ruas vizinhas, e depois pelo bairro dentro. Dispertaram os habitantes. Obrigaram-os a deixarem revistar as suas casas, contentando-se com indemnisal-os, mais tarde, dos prejuizos feitos á vida privada de cada qual, que é particularmente respeitada entre os povos de origem saxonia. Em vão porém se desenvolveram todas aquellas balburdias e buscas. Robur não foi encontrado em parte alguma. Nem um vestigio d’elle! Tivesse partido no _Go a Head_, o balão do Weldon-Institute, e não sería menos facil achal-o! Depois de uma hora de pesquizas, tiveram de renunciar, e os collegas separaram-se, mas procurando extender as suas indagações por todo o territorio da dupla America, constituida pelo Novo Continente.
Pelas onze horas restabelecêra-se no bairro o socego. Philadelphia ía agora poder afundar-se n’um bom somno, que é o privilegio incontestavel das cidades que teem a felicidade de não serem industriaes. Os diversos membros do club não pensaram senão em ir cada qual para sua casa. Para nos não referirmos senão a alguns dos mais salientes, William T. Forbes, foi para os lados da sua grande trapeira de assucar, onde miss Dol e miss Mat lhe haviam preparado o chá, assucarado com a sua propria glucose, Truck Milnor tomou o caminho da sua fabrica, cuja bomba de fogo arfava dia e noite n’um dos bairros mais afastados. O thesoureiro Jem Cip, publicamente accusado de ter uma toeza menos de intestinos, do que comporta a machina humana, foi para a casa de jantar, onde o esperava uma ceia vegetal.
Dois dos mais importantes balonistas,—dois apenas,—pareciam não pensar em entrar nos seus domicilios tão depressa. Tinham aproveitado o ensejo para conversar com mais acrimonia ainda. Eram os irreconciliaveis Uncle Prudent e Phil Evans, o presidente e o secretario do Weldon-Institute.
Á porta do club, o creado Fricollin esperava Uncle Prudent, seu amo.
Pôz-se a seguil-o, sem se importar com o assumpto que trazia em disputa os dois collegas.
É por euphemismo que o verbo “conversar„ foi empregado para exprimir o acto a que se entregavam o presidente e o secretario do club. A verdade é que elles disputavam com uma energia que tinha origem n’uma antiga rivalidade.
—Nada! nada! repetia Phil Evans. Se eu tivesse tido a honra de presidir ao Weldon-Institute, nunca, oh! nunca se teria dado um tal escandalo!
—O que teria então feito, se tivesse tido essa honra? perguntou Uncle Prudent.
—Teria cortado a palavra a esse insultador publico, antes mesmo d’elle ter aberto a bôcca!
—Parece-me que para cortar a palavra a alguem, é preciso primeiramente tel-o deixado falar.
—Não na America, senhor! não na America!
E n’esta troca de recriminações mais azedas do que dôces, os dois personagens enfiavam pelos caminhos que cada vez os afastavam mais de sua casa; atravessavam bairros cuja situação os obrigava a fazer um longo desvio.
Fricollin seguia-os sempre; mas não se sentia tranquillo por ver seu amo metter-se por caminhos já desertos. Com effeito, a escuridão era profunda, e a lua, no seu crescente, começava apenas a “fazer os seus vinte e oito dias„.
Fricollin olhava pois para a direita e para a esquerda, a vêr se sombras suspeitas o espiavam. E de facto, elle julgou vêr cinco ou seis grandes diabos que pareciam não os perder de vista.
Instinctivamente, Fricollin approximou-se de seu amo; mas por cousa alguma d’este mundo elle se atreveria a interrompel-o no meio de uma conversação, da qual lhe podiam provir alguns arranhões.
Emfim, o acaso fez com que o presidente e o secretario do Weldon-Institute, sem pensar em tal, se dirigissem a Fairmont Park. Alli no mais acceso da disputa, atravessaram a Schuylkill-river, sobre a famosa ponte metallica; encontraram apenas alguns transeuntes retardatarios, e acharam-se afinal no meio de vastos terrenos, uns que se desenvolviam em pradarias immensas, outros ensombrados de magnificas e frondosas arvores, que fazem d’aquelle parque um dominio unico em todo o mundo.
Alli mais assaltaram o pobre Fricollin os seus terrores e com muito mais razão porque as cinco ou seis sombras tinham seguido atraz d’elle, pela ponte de Schuylkill-river. De modo que tinha as pupillas dos olhos tão dilatadas que se alargavam até á circumferencia da iris. E ao mesmo tempo, todo o seu corpo mirrava, retrahia-se, outros como se fôsse dotado d’aquella contractibilidade peculiar a certos moluscos e animaes articulados.
É que o creado Fricollin era um perfeito poltrão. Um verdadeiro negro do sul, com uma cabeça de estupido, n’um corpo de magrisella. Da edade precisa de vinte e um annos, nunca fôra escravo, nem mesmo de nascença; mas não valia mais por isso. Cheio de caretas, guloso e preguiçoso, era sobretudo de uma cobardia ideal. Estava, havia tres annos, ao serviço de Uncle Prudent. Cem vezes o tinham querido pôr a andar; porém haviam-n’o conservado com medo de vir um outro peior. Mas, fazendo parte da vida de um amo sempre mettido nas mais atrevidas empresas, Fricollin devia encontrar muitas occasiões em que a sua cobardia era sujeita a grandes provações. Mas tinha compensações:—ninguem lhe ralhava muito pela gulodice nem pela preguiça. Ah! Fricollin, se tu pudesses lêr no futuro!
Porque é que Fricollin não havia de ter ficado em Boston, ao serviço de certa familia Sueffel, que estando para fazer uma viagem á Suissa tinha renunciado a ella por causa dos tremores de terra? Pois não era essa a casa que convinha a Fricollin, de preferencia á de Uncle Prudent, onde a temeridade estava na ordem de todos os dias?
Emfim, elle lá estava, e seu amo tinha acabado por se habituar aos seus defeitos. Além de que, elle tinha uma qualidade. Apesar de ser negro de origem, não falava negro, o que é para se ter em consideração, porque nada é mais desagradavel do que esse odioso calão em que tanto se abusa do pronome possessivo e dos infinitivos.
Portanto fica bem assente que o creado Fricollin era um poltrão, e, como se costuma dizer, “poltrão como a lua„. Ora, a proposito d’isso, é de justiça protestar contra esta comparação insultante para a loura Phebéa, a dôce Selena, a casta irmã do radioso Apollo.—Com que direito se ha de accusar de cobardia um astro que, desde que o mundo é mundo, encarou sempre de frente a terra, sem nunca lhe voltar as costas?
Seja como fôr, áquella hora, cêrca da meia noite, o crescente da “pallida calumniada„ começava a desapparecer no poente, atraz das altas ramagens do parque. Os seus raios, coando por entre os ramos, punham alguns arabescos no chão. A parte superior do arvoredo parecia assim menos sombria.
Isso permittiu a Fricollin lançar um olhar ainda mais indagador.
—Brrr! Lá estão ainda, os patifes! Decididamente, veem approximando!
Não se poude conter mais, e dirigindo-se ao seu amo:
—Master Uncle! disse elle.
É assim que elle o tratava, e que o presidente do Weldon-Institute queria que elle o tratasse. N’aquelle momento a contenda entre os dois rivaes estava no auge. E como elles se mandavam passear mutuamente, a mesma intimação foi feita brutalmente a Fricollin.
E ao mesmo tempo que os dois falavam, mettendo-se á cara um do outro, Uncle Prudent embrenhava-se cada vez mais através dos prados desertos de Fairmont-Park, afastando-se cada vez mais da Schuylkill-river, e da ponte que era necessario alcançar de novo, para entrar na cidade.
Achavam-se os tres no meio de um arvoredo, cujas copas eram illuminadas pelos derradeiros clarões do luar. No fim do arvoredo abria-se uma larga clareira, vasto campo oval, admiravelmente disposto para as luctas de um _ring_. Nenhum accidente de terreno obstaria alli ao galopar de um cavallo, nenhuma arvore interceptava a vista do espectador, ao longo de uma pista circular de algumas milhas.
E comtudo, se Uncle Prudent e Phil Evans não estivessem absortos na sua discussão, se tivessem olhado com certa attenção, não teriam encontrado a clareira com o seu aspecto habitual.
Seria um estabelecimento de farinhas, que tivesse sido montado na vespera? Com effeito, assim parecia, pelo conjuncto de moinhos de vento, cujas azas, immoveis n’aquelle momento, gesticulavam na sombra.
Mas nem o presidente nem o secretario do Weldon-Institute tinham notado n’esta extranha modificação na paizagem do Fairmont-Park. Fricollin tão pouco o reparou. Parecia-lhe que os ladrões se approximavam, se juntavam, como no acto de darem o golpe. Tinha um terror convulso; os membros paralysados, os cabellos hirtos,—emfim estava no ultimo grau do terror!
Comtudo, mesmo com as pernas a tremer, e a dobrarem-se-lhe, teve fôrça para exclamar mais uma vez:
—Master Uncle!... Master Uncle!
—Eh! o que é que queres afinal? perguntou Uncle Prudent.
Talvez Phil Evans e elle não desgostassem de descarregar a sua colera, sovando de grande o infeliz Fricollin. Mas não tiveram tempo, como este não teve tambem para responder.
Um assobio se ouviu no bosque. No mesmo instante accendia-se no meio da clareira como que uma estrella electrica.
Era decerto um signal, e sendo assim, é porque chegára o momento de se realisar alguma violencia.
Em menos tempo que seria preciso para o pensar, seis homens surgiram do bosque; dois lançaram-se sobre Uncle Prudent, dois sobre o creado Fricollin,—estes ultimos demasiados, evidentemente, porque o negro era incapaz de se defender.
O presidente e o secretario do Weldon-Institute, apesar de surprehendidos por aquelle ataque, quizeram resistir. Não tiveram para isso nem tempo, nem fôrças. Em alguns segundos, era-lhes posta uma mordaça na bôcca, uma venda nos olhos; e, vencidos, ligados, eram levados rapidamente através da clareira. O que podiam elles pensar senão que se tratava d’essa raça de gente pouco escrupulosa que não hesita em despojar os transeuntes retardatarios, no fundo dos bosques! Nada d’isso succedeu, porém. Nem mesmo lhes apalparam as algibeiras, apesar de Uncle Prudent trazer sempre comsigo alguns milhares de dollars em papel.
Em resumo, um minuto depois d’esta aggressão, sem que uma unica palavra se trocasse entre os aggressores, Uncle Prudent, Phil Evans e Fricollin sentiam que os punham cautelosamente no chão, não sobre a herva da clareira, mas n’uma especie de sobrado que gemeu com o pêso d’elles. Alli foram postos ao lado um do outro. Uma porta se fechou sobre elles. Depois, o ranger de uma lingueta na fechadura, fez-lhes vêr que estavam prisioneiros.
Fez-se então um ruido continuo, como que um fremito, um _frrr_, onde os _rrr_ se prolongavam até ao infinito, sem que outro nenhum som se pudesse perceber no meio d’aquella noite tão calma.
* * * * *
Que alarme, no dia seguinte, em Philadelphia! Desde as primeiras horas se soube o que se tinha passado na vespera, na sessão do Weldon-Institute: o apparecimento de um mysterioso personagem, um tal engenheiro Robur,—Robur, o Conquistador!—a lucta que elle parecia querer travar contra os balonistas, e depois a sua desapparição inexplicavel.
Mas outra cousa foi quando toda a cidade soube que tambem o presidente e o secretario do club tinham desapparecido durante a noite de 12 para 13 de junho.
Que de pesquizas em toda a cidade e seus arredores! Mas inutilmente. Os jornaes de Philadelphia, depois os da Pensylvania, depois os da America inteira, apoderaram-se do assumpto e explicaram-n’o de mil maneiras, das quaes nenhuma devia vir a ser verdadeira. Sommas consideraveis foram promettidas por meio de annuncios e cartazes, não só a quem encontrasse os respeitaveis individuos que haviam desapparecido, mas a quem pudesse dar qualquer indicio que lhes descobrisse a pista. Nada se conseguiu. Se a terra se abrisse para os tragar, o presidente e o secretario do Weldon-Institute não estariam mais eliminados da face da terra.
Os jornaes do governo pediram que o pessoal da policia fôsse augmentado consideravelmente, visto que taes attentados podiam repetir-se contra os melhores cidadãos dos Estados Unidos,—e tinham razão ...
É verdade que a opposição pediu que esse pessoal fôsse licenciado por inutil, visto que taes attentados se podiam repetir, sem que fôsse possivel encontrar os vestigios dos seus auctores,—e tambem não deixava de ter razão.
Em summa, a policia continuou sendo o que era, o que será sempre no melhor dos mundos, que não é perfeita nem conseguirá sêl-o.
CAPITULO V