Part 15
Alli começaram as manobras de deslocamento horisontal. O _Go a head_, impellido pelos seus dois helices, foi em direcção ao sol com uma velocidade de uns dez metros por segundo. Era a velocidade de uma baleia, livre no meio das camadas liquidas. E não é fora de proposito comparal-o com o gigante dos mares boreaes, porque tinha tambem a forma d’esse enorme cetaceo.
Uma nova salva de hurrahs subiu até os habeis aeronautas. Depois, sob a acção do seu leme, o _Go a head_ entregou-se a todas as evoluções circulares, obliquas, rectilineas, que a mão do timoneiro lhe imprimia. Girou n’um circulo restricto, avançou, recuou, de maneira a convencer os mais refractarios da direcção dos balões,—se houve algum!... Se os houvesse tel-os-hiam cortado em pedaços.
Mas porque havia de o vento faltar a essa magnifica experiencia? Era para lamentar. Teriam visto decerto, o _Go a head_ executar, sem uma hesitação, todos os movimentos, quer obliquando como um navio de véla, quer cortando as correntes, como um navio a vapor.
N’esse momento o aerostato subiu no espaço alguns centos de metros.
Comprehenderam a manobra. Uncle Prudent e os seus companheiros iam tentar procurar uma corrente qualquer nas mais altas zonas, afim de completar a experiencia. Além d’isso, um systema de balõesinhos interiores, analogos ás bexigas natatorias dos peixes e onde se podia introduzir uma certa quantidade de ar, por meio de bombas, permittiam-lhe deslocar-se verticalmente. Sem deitar fora o lastro para subir, ou perder o gaz para descer, estava nos casos de se elevar ou abaixar-se na atmosphera, á vontade do aeronauta. Comtudo elle fôra munido de uma valvula no seu hemispherio superior, para o caso de ser obrigado a uma rapida descida. Era, em summa, a applicação de systemas já conhecidos, mas levados a um extremo grau de perfeição.
O _Go a head_ subiu, pois, seguindo uma linha vertical. As suas enormes dimensões diminuiram gradualmente á vista, como por um effeito de optica. Não deixava isto de ser curioso para os espectadores, cujas vertebras do pescoço quasi se deslocavam, de olhar para o ar. A enorme baleia tornára-se a pouco e pouco um golphinho, emquanto não fôsse reduzida ao estado de um simples peixinho.
O movimento ascensional não cessava, e o _Go a head_ attingia uma altitude de quatro mil metros. Mas n’um céo tão puro, sem uma sombra de nuvem, esteve constantemente visivel.
Comtudo elle mantinha-se por sobre a clareira, como se estivesse por fios divergentes. Tivesse uma enorme campanula aprisionado a atmosphera e não teria estado mais immovel. Nenhuma aragem, nem áquella altura nem a outra. O aerostato evolucionava sem encontrar resistencia alguma, diminuindo pela distancia, como se o estivessem a vêr por um lentesinha.
De repente, um grito se ergueu da turba, um grito seguido de cem mil outros. Todos os braços se extenderam para um ponto do horisonte. Esse ponto era para o noroéste.
Alli, no azul profundo, appareceu um corpo movel, que se approximava e crescia. Era uma ave, batendo as azas nas altas camadas do ar? Seria um bolide, cuja trajectoria cortava obliquamente a atmosphera? Em todo o caso, era dotado de uma velocidade excessiva, e não tardaria a passar por cima da multidão.
Uma suspeita, que se communica electricamente a todos os cerebros, corre por toda a clareira.
Mas parece que o _Go a head_ viu aquelle extranho objecto. Decididamente, sentiu que um perigo o ameaçava, porque a sua velocidade augmentou, e dirigiu-se para léste.
Sim! a multidão comprehendêra! Um nome, foi repetido por cem mil bôcas:
—O _Albatrós_! o _Albatrós_!
É o _Albatrós_ com effeito! É Robur que reapparece nas alturas do céo! É elle que, semelhante a uma gigantesca ave de rapina, ia cahir sobre o _Go a head_!
E no entretanto, nove mezes antes, a aeronave, espedaçada pela explosão, com os helices partidos, a sua plataforma em duas, fôra anniquilada. Sem o sangue frio prodigioso do engenheiro, que modificou o sentido giratorio do propulsor da frente e o transformou n’um helice suspensivo, todo o pessoal do _Albatrós_ teria morrido asphyxiado pela rapidez da quéda. Mas, se tinham podido escapar á asphyxia, como é que elle e os seus se não tinham afogado nas aguas do Pacifico?
É que os destroços da sua plataforma, as azas dos propulsores, os tabiques dos beliches, tudo que ficára do _Albatrós_, sobrenadava. Se a ave ferida cahira na agua, as suas azas sustinham-n’a ainda sobre as ondas. Durante algumas horas, Robur e os seus homens ficaram primeiramente sobre esses destroços, depois, no barco de cautchuc que haviam encontrado á superficie do Oceano.
A Providencia, para os que acreditam na intervenção divina nas cousas humanas,—o acaso, para os que teem a fraqueza de não acreditar na Providencia,—veiu em auxilio dos naufragos.
Deu com elles um navio, algumas horas depois de romper o sol. Esse navio lançou uma embarcação ao mar. Recolheu não só Robur e os seus companheiros, mas tambem os restos fluctuantes da aeronave. O engenheiro contentou-se com dizer que o seu barco sossobrára n’um abalroamento, e o seu incognito foi respeitado.
O navio era inglez, o _Two Friends_, de Liverpool. Dirigia-se para Melbourno, onde chegou alguns dias depois.
Estavam na Australia, mas ainda longe da ilha X, á qual era preciso voltar o mais depressa possivel.
Nos destroços dos compartimentos de traz o engenheiro tinha podido encontrar uma somma assaz consideravel, que lhe permittia attender a todas as necessidades dos seus companheiros, sem pedir nada a ninguem.
Pouco tempo depois da sua chegada a Melbourno, fez acquisição de uma pequena golêta, de umas cem tonneladas, e foi assim que Robur, que era pratico no mar, voltou á ilha X.
E então não teve senão uma idéa fixa, uma obcecação:—o vingar-se. Mas para se vingar, era preciso fazer um segundo _Albatrós_. Facil tarefa, para quem já havia construido o primeiro. Utilisou-se o que se poude da antiga aeronave, os seus propulsores, entre outras cousas que tinham sido embarcadas com todos os destroços na golêta. Refizeram o mechanismo com pilhas novas e novos accumuladores. Em summa, em menos de oito mezes, todo o trabalho estava concluido, e um novo _Albatrós_, identico ao que a explosão destruíra, egualmente poderoso e egualmente rapido, esteve prompto a subir aos ares.
É facil de comprehender, sem que seja necessario insistir, que elle levava a mesma equipagem, e que essa equipagem estava furiosa contra todo o Weldon-Institute em geral, e em particular contra Uncle Prudent e Phil Evans.
O _Albatrós_ deixou a ilha X logo nos primeiros dias de abril. Durante essa travessia aerea, não quiz que a sua passagem pudesse ser notada em ponto algum da terra. De modo que viajou quasi sempre entre as nuvens. Chegado á altura da America do Norte, a uma porção deserta do Far-West, pousou em terra. Alli o engenheiro, guardando o mais profundo incognito, soube um facto que lhe não podia deixar de dar o maior prazer:—é que o Weldon-Institute estava prestes a começar as suas experiencias, e que o _Go a head_, levando dentro Uncle Prudent e Phil Evans, ia partir de Philadelphia no dia 29 de abril.
Que excellente occasião para satisfazer uma vingança que estava no coração de Robur e de todos os seus! Vingança terrivel, a que não podia escapar o _Go a head_! Vingança publica, que provaria ao mesmo tempo a superioridade da aeronave sobre todos os aerostatos e outros apparelhos d’aquelle genero!
E ahi está porque n’esse dia, como um abutre que se precipita do alto, a aeronave appareceu por sobre Fairmont-Park.
Sim! era o _Albatrós_, facil de reconhecer, mesmo de todos aquelles que nunca o haviam visto.
O _Go a head_ continuava a fugir. Mas comprehendeu logo que não podia escapar nunca por uma fuga horisontal. Assim, procurou salvar-se por uma fuga vertical, não approximando-se do solo, porque a aeronave lhe impediria immediatamente o caminho, mas subindo no ar, indo a uma zona onde não podia talvez ser alcançado. Era sobremaneira audacioso, porém ao mesmo tempo muito logico.
Comtudo o _Albatrós_ começava a subir com elle. Bem mais pequeno que o _Go a head_, era como o espadarte em perseguição da baleia que pretende atravessar com o seu dardo, era o torpedeiro correndo sobre o couraçado que vae fazer saltar n’um prompto.
Viram-n’o perfeitamente, e com que afflicção! Em poucos instantes a aeronave teria attingido cinco mil metros de altura. O _Albatrós_ tinha-o seguido no seu movimento ascensional. Evolucionava sobre os flancos. Cingia-o n’um circulo cujo raio diminuia a cada volta. Podia anniquilal-o de um pulo, rompendo o seu fragil envolucro. Então Uncle Prudent e os seus companheiros seriam despedaçados n’uma formidavel quéda.
O publico, mudo de horror, anhelante, estava tomado d’essa especie de espanto que opprime o peito, e nos prende as pernas, quando vemos cahir alguem de uma grande altura. Preparava-se um combate aereo, combate em que não se offereciam sequer as probabilidades de salvação que ha n’um combate naval,—o primeiro d’esse genero, mas que não seria o ultimo, decerto, visto que o progresso é uma das leis do mundo. E se o _Go a head_ usava no seu circulo equatorial as côres americanas, o _Albatrós_ tinha arvorado a sua bandeira, a bandeira estrellada, com o sol de ouro, de Robur—o Conquistador.
O _Go a head_ quiz então tentar distanciar-se do seu inimigo, subindo ainda mais alto. Desembaraçou-se do lastro que tinha de reserva. Deu um novo salto de mil metros. Não era então mais que um ponto no espaço. O _Albatrós_, que continuava a seguil-o, imprimindo aos seus helices o seu maximo de rotação, tornára-se invisivel.
De subito, um grito de terror se ergueu do solo.
O _Go a head_ engrossava a olhos vistos, emquanto que a aeronave tornava a apparecer, e baixando com elle. D’essa vez era quéda certa. O gaz, muito dilatado nas altas zonas, tinha rebentado o envolucro e, meio esvasiado, o balão cahia rapidamente.
Mas a aeronave, moderando os seus helices suspensivos, baixava com uma velocidade egual. Alcançou o _Go a head_ quando este não estava senão a uns duzentos metros do chão, e approximou-se d’elle, bordo com bordo.
Quereria Robur dar cabo d’elle? Não! Queria soccorrer, queria salvar a sua equipagem!
E foi tal a habilidade da sua manobra, que o aeronauta e o seu ajudante puderam facilmente saltar para a plataforma da aeronave.
Iriam Uncle Prudent e Phil Evans recusar os auxilios de Robur, recusarem-se a ser salvos por elle? Eram bem capazes d’isso! Mas a gente do engenheiro lançou-se sobre elles e, á fôrça, passaram-n’os do _Go a head_ para o _Albatrós_.
Depois a aeronave desembaraçou-se e ficou estacionaria, emquanto que o balão, completamente vasio de gaz, cahia sobre as arvores da clareira, onde ficou suspenso como um farrapo gigantesco.
Um horroroso silencio reinava em terra. Parecia que a vida ficára suspensa em todos os peitos. Muitos olhos se tinham fechado para não verem a suprema catastrophe.
Uncle Prudent e Phil Evans tinham-se porém tornado prisioneiros do engenheiro Robur.
Já que os havia apanhado, iria elle arrastal-os de novo no espaço, em sitio onde não fôsse possivel seguil-o?
Podia ser.
Comtudo, em vez de tornar a subir aos ares, o _Albatrós_ continuava a baixar ao chão. Quereria elle vir pousar em terra?
Assim o pensaram, e a multidão afastou-se para lhe dar logar no meio da clareira.
A emoção tinha sido levada ao maximo da sua intensidade.
O _Albatrós_ parou a dois metros da terra. Então, no meio de um profundo silencio, fez-se ouvir a voz do engenheiro.
—Cidadãos dos Estados Unidos, disse elle, o presidente e o secretario do Weldon-Institute estão de novo em meu poder. Conservando-os commigo eu não faria mais do que usar de um direito de represalia. Mas, pela paixão incendida na sua alma pelo exito do _Albatrós_, comprehendi que o seu estado de espirito não estava ainda preparado para a importante revolução que a conquista do ar deve produzir um dia. Uncle Prudent e Phil Evans, sois livres!
O presidente e o secretario do Weldon-Institute, o aeronauta e o seu ajudante, não tiveram mais que saltar, para estarem em terra.
O _Albatrós_ subiu de novo a uns dez metros por sobre a multidão.
Depois, Robur, continuando:
—Cidadãos dos Estados Unidos, disse elle, a minha experiencia está feita; mas a minha opinião é que nada se deve realisar prematuramente:—nem mesmo o progresso. A sciencia não deve ultrapassar os costumes. O que lhe convem são evoluções e não revoluções. N’uma palavra, é preciso que não cheguemos senão á nossa hora propria. Eu chegaria hoje cedo de mais para ter razão no meio de interesses divididos e contradictorios. Portanto parto, e levo commigo o meu segredo. Mas não ficará perdido para a humanidade; pertencer-lhe-ha no dia em que fôr assaz instruida para tirar d’elle partido e assaz prudente para não abusar nunca d’elle. Adeus, cidadãos dos Estados Unidos, adeus!
E o _Albatrós_, ferindo o ar com os seus setenta e quatro helices, impellidos pelos seus dois propulsores levados até o extremo, desappareceu na direcção de léste, no meio de uma tempestade de hurrahs, que d’essa vez eram de admiração.
Os dois collegas, profundamente humilhados, como todo o Weldon-Institute na pessoa d’elles, fizeram a unica cousa que tinham a fazer:—voltaram para suas casas, emquanto que a multidão, por um reviramento subito, estava prestes a saudal-os com os mais vivos sarcasmos, justos n’aquella occasião!
* * * * *
E agora, sempre esta pergunta:—Quem é este Robur? Virão um dia a sabel-o?
Sabe-se hoje. Robur é a sciencia futura, a de ámanhã talvez. É o peculio certo do futuro.
Quanto ao _Albatrós_, continuará a viajar ainda através da atmosphera terrestre, no meio d’esse dominio que ninguem lhe pode roubar? Não é permittido duvidar. Robur, o Conquistador, tornará a apparecer um dia, como annunciou? Sim! Virá denunciar o segredo de uma invenção que pode modificar as condições sociaes e politicas do mundo.
Quanto ao futuro da locomoção aerea, pertence á aeronave, e não ao aerostato.
É aos _Albatrós_ que está definitivamente reservada a conquista do ar!
FIM
NOTAS
[1] Quasi quatorze vezes a superficie do Campo de Marte, em Paris.
[2] A superficie da terra é de 136,051,371 kilometros quadrados.
INDEX DOS CAPITULOS
Capitulos Pag.
I De como a gente sabia e a gente ignorante se via em eguaes embaraços 5
II De como os membros do Weldon-Institute disputam entre si, sem chegarem a um accordo 15
III De como um novo personagem não teve necessidade de ser apresentado, pois se apresentou elle proprio 25
IV De como a proposito do creado Fricollin o auctor procura rehabilitar a lua 35
V De como foi concedida uma suspensão de hostilidades entre o presidente e o secretario do Weldon-Institute 43
VI Aquillo por que não sería mau que passassem os engenheiros, os mechanicos e outros sabios 53
VII De como Uncle Prudent e Phil Evans se recusam ainda a deixar-se convencer 63
VIII Onde se verá que Robur se resolve a responder á importante pergunta que lhe era feita 73
IX De como o _Albatrós_ transpõe cerca de dez kilometros que terminam por um salto prodigioso 85
X Onde se verá como e porque o creado Fricollin foi posto a reboque 99
XI Onde a colera de Prudent cresce na razão do quadrado da velocidade 112
XII Do como o engenheiro Robur procede, como se quizesse concorrer para um premio Monthyon 120
XIII De como Uncle Prudent e Phil Evans atravessam o Oceano, sem enjoar 134
XIV De como o _Albatrós_ faz o que nunca poderia talvez ser feito 145
XV Onde se passam cousas que na realidade merecem ser contadas 160
XVI Onde o leitor ficará n’uma indecisão talvez lamentavel 171
XVII De como se volta dois mezes atraz e se salta para nove mezes mais tarde 178
XVIII Onde termina esta veridica historia do _Albatrós_ sem se terminar 191
NOVIDADE LITTERARIA
JORGE EBERS
EGYPTO
TRADUCÇÃO PORTUGUEZA DE OLIVEIRA MARTINS
EDIÇÃO MONUMENTAL
Illustrada com 650 gravuras intercalladas no texto, frontispicios para cada volume habilmente aguarellados por Henrique Casanova, e 24 esplendidas aguarellas, cópia dos notaveis quadros do afamado pintor
CARLOS WERNER
CONDIÇÕES DA PUBLICAÇÃO
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