Robur, o Conquistador

Part 14

Chapter 143,844 wordsPublic domain

Seja como fôr, o asteroide, o bolide, o monstro aereo, ou como lhe queiram chamar, tinha tornado a apparecer nas condições que melhor permittiam apreciar as suas dimensões e a sua forma. Primeiramente no Canadá, por sobre os territorios que se extendem desde Ottawa até Quebec, e isso no dia seguinte á desapparição dos dois collegas; depois, mais tarde, por sobre as planicies do Far-West, luctando em velocidade com o caminho de ferro do Pacifico.

A partir d’esse dia, as incertezas do mundo sabio tiveram em que se fixar. Aquelle corpo não era um producto da natureza; era um apparelho volante, com applicação pratica da theoria do “Mais pesado que o ar„. E se o creador, o dono da aeronave, queria ainda guardar o incognito para a sua pessoa, evidentemente o não queria já para a sua machina, visto que acabava de a mostrar tão perto, sobre os territorios do Far-West. Quanto á fôrça mechanica de que dispunha, quanto á natureza dos apparelhos que lhe communicavam movimento, era isso desconhecido. Em todo o caso, o que não deixava duvida alguma era que a aeronave devia ser dotada de uma extraordinaria facilidade de locomoção. Com effeito, alguns dias depois, havia sido vista no Celeste Imperio, depois na parte septentrional do Industão, depois por sobre os immensos steppes da Russia.

Quem era pois esse ousado mechanico que possuia um tal poder de locomoção, para o qual os Estados não tinham fronteiras, nem os oceanos limites e que dispunha da atmosphera terrestre como de um dominio? Devia-se acreditar que era esse Robur, cujas theorias tinham sido tão brutalmente lançadas em rosto do Weldon-Institute, no dia em que veiu bater em brecha a utopia dos balões dirigiveis?

Talvez alguns espiritos perspicazes o tivessem pensado. Mas, cousa singular decerto, ninguem pensou na hypothese de que o tal Robur pudesse estar relacionado de qualquer maneira com o desapparecimento do presidente e do secretario do Weldon-Institute.

Em summa isso teria ficado no mysterio, se não fôsse um despacho que de França chegou á America pelo fio de Nova-York, ás onze e trinta e sete, do dia 6 de julho.

E o que dizia o despacho? era o texto do documento achado em Paris n’uma caixa de tabaco, documento que revelava o que havia succedido aos dois personagens por quem a União ia tomar lucto.

Portanto, o auctor do rapto era Robur, o engenheiro vindo expressamente a Philadelphia para esmagar no ovo a theoria dos balonistas! Era elle que commandava a aeronave _Albatrós_. Era elle que, para exercer represalias, tinha arrebatado Uncle Prudent, Phil Evans e para mais o Fricollin. E essas personagens deviamos consideral-as para sempre perdidas, a não ser que, por um meio qualquer, construindo um engenho capaz de luctar com o poderoso apparelho, os seus amigos terrestres não conseguissem reconduzil-o a terra.

Que emoção! que pasmo! O telegramma parisiense tinha sido dirigido ao Weldon-Institute. Os membros do club tiveram conhecimento d’elle immediatamente. Dez minutos depois, toda a Philadelphia recebia a noticia pelos seus telephonios, e depois, em menos de uma hora, toda a America, porque electricamente essa noticia se tinha espalhado pelos innumeros fios do novo continente. Não queriam acreditar n’isso, e nada havia comtudo mais certo. Devia ser uma mystificação de mau gôsto, diziam outros! Como é que esse rapto se podia ter realisado em Philadelphia, e tão secretamente? Como é que esse _Albatrós_ tinha pousado em Fairmont-Park, sem que a sua apparição fôsse notada nos horisontes do Estado de Pensylvania?

Muito bem, eram estes os argumentos.

Os incredulos tinham ainda o direito de duvidar. Mas esse direito, já não o tinham oito dias depois de ter chegado o telegramma. No dia 13 de julho, o vapor francez _Normandia_ ancorava nas aguas de Hudson, e trazia a famosa caixa de rapé. O caminho de ferro de Nova-York expediu-a para Philadelphia pela grande velocidade.

Era de facto a caixa de rapé do presidente do Weldon-Institute. Jem Cip não teria feito mal se tomasse n’esse dia um alimento substancial, porque esteve para cahir desmaiado, quando reconheceu a caixa.

Quantas vezes elle tomára n’ella a sua pitada amigavel! E miss Doll e miss Matt reconheceram tambem a caixa, para a qual tinham olhado ás vezes com esperança de metter n’ella um dia os seus magros dedos de solteiras. Depois foi o pae d’ellas, foi William T. Forbes, Truk Milnor, Bat T. Fyn, e muitos outros do Weldon-Institute. Cem vezes elles a haviam visto abrir-se nas mãos do seu venerando presidente. Emfim, teve por si o testemunho de todos os amigos que Uncle Prudent contava n’aquella boa cidade de Philadelphia, cujo nome indica,—não é de mais repetil-o,—que os seus habitantes se amam como irmãos.

De modo que não era permittido conservar a sombra de uma duvida a esse respeito. Não só a caixa de tabaco do presidente, mas a lettra, que vinha sobre o documento, não permittiam aos incredulos abanar a cabeça. Começaram então as lamentações, mãos desesperadas se levantaram ao céo. Uncle Prudent e o seu collega, transportados n’um apparelho volante, sem que se pudesse sequer entrevêr um meio de os salvar!

A Companhia do Niagára Falls, de que Uncle Prudent era o maior accionista, teve de suspender os seus negocios. A _Walton-Watch Company_, procurou liquidar a sua officina de relogios, agora que perdera o seu director, Phil Evans.

Sim! foi um lucto geral e a palavra lucto não é exaggerada, porque, a não ser alguns cerebros esquentados, como se encontram mesmo nos Estados Unidos, ninguem esperava já tornar a vêr os dois respeitaveis cidadãos.

Comtudo, depois da sua passagem por sobre Paris, não se ouvia falar senão no _Albatrós_. Algumas horas mais tarde, fôra visto por sobre Roma, e disse. Não era isso para admirar, dada a velocidade com que a aeronave tinha atravessado a Europa de norte a sul, e o Mediterraneo de oéste a léste. Graças áquella velocidade, nenhum oculo a pudera alcançar, em qualquer ponto da trajectoria.

Em vão todos os observatorios puzeram a postos todo o seu pessoal, dia e noite; a machina de Robur tinha ido ou tão longe ou tão alto, na Icaria, como elle dizia, que não havia esperança de a encontrar.

Convem accrescentar que, apesar da sua rapidez ser mais moderada por sobre o littoral da Africa, como o documento não era ainda conhecido, não pensaram em procurar a aeronave nas alturas do céo argelino. Evidentemente, foi vista por cima de Tombuctú; mas o observatorio d’aquella cidade celebre,—se é que ha lá um,—não tinha ainda tempo de enviar para a Europa o resultado das suas observações.

Quanto ao rei do Dahomey, preferiria mandar cortar a cabeça a vinte mil subditos seus, a confessar que tinha sido levado de vencida na lucta com um apparelho aereo. Questão de amor proprio.

Mais além foi o Atlantico que o engenheiro Robur atravessou, foi a Terra de Fogo que elle alcançou, e depois o cabo Horn. Foram as terras austraes e o immenso dominio do polo, que transpoz um pouco contra a vontade. Ora d’aquellas regiões antarcticas nenhuma noticia havia a esperar.

Passou-se julho, e nenhum olhar humano podia vangloriar-se de haver entrevisto sequer a aeronave.

Passou-se agosto, e a incerteza com respeito aos prisioneiros de Robur foi completa. Era caso para perguntar se o engenheiro, a exemplo de Icaro, o mais velho mechanico de que reza a historia, não fôra victima da sua temeridade.

Finalmente, os vinte e sete dias de setembro passaram-se sem resultado.

É bem certo que a tudo a gente se acostuma n’este mundo. É da humana natureza esquecer as dôres que se afastam. Esquece-se porque é necessario esquecer. Mas d’esta vez, é justo dizel-o em sua honra, o publico terrestre susteve-se n’aquelle pendor. Não! não se tornou indifferente á sorte de dois brancos e do preto, arrebatados como o propheta Elias, mas cujo regresso á terra a Biblia não tinha promettido.

E isto foi mais para sentir em Philadelphia que em qualquer outro logar. Juntavam-se tambem alguns receios pessoaes. Como represalia, tinha Robur arrancado Uncle Prudent e Phil Evans ao seu paiz natal. Decerto que estava bem vingado, embora contra todo o direito. Mas bastava isso para a sua vingança? Não a quereria elle exercer ainda sobre alguns dos collegas do presidente e do secretario do Weldon-Institute? E quem se podia julgar ao abrigo dos ataques d’esse omnipotente senhor das regiões aereas?

Eis que no dia 28 de setembro correu na cidade uma noticia. Uncle Prudent e Phil Evans haviam apparecido, de novo, n’essa tarde, no domicilio particular do presidente do Weldon-Institute.

E o mais extraordinario é que a noticia era verdadeira, embora os espiritos sensatos não quizessem acreditar n’ella.

Comtudo foi preciso convencerem-se pela evidencia. Eram de facto os dois que haviam desapparecido, elles em pessoa, e não a sua sombra ... Até o proprio Fricollin estava de volta.

Os membros do club, depois os seus amigos, e depois a multidão, foram para defronte da casa de Uncle Prudent. Acclamaram os dois collegas, fizeram-os passar de mão para mão, no meio de hurrahs e de hips!

Lá estava Jem Cip, que abandonára o seu almoço,—um prato de alfaces cozidas,—depois William T. Forbes e suas duas filhas, miss Doll e miss Mat. E n’esse dia Uncle Prudent poderia esposal-as as duas, se fôsse mormão; mas não o era, e não tinha tendencia alguma para o vir a ser. E estava tambem Truk Milnor, Bat T. Fyn, finalmente todos os membros do club. E ainda hoje perguntam como é que Uncle Prudent e Phil Evans poderiam sahir vivos dos milhares de braços por que tiveram de passar, ao atravessar a cidade toda.

N’essa mesma tarde devia o Weldon-Institute ter a sua sessão hebdomadaria. Esperava-se que os dois collegas tomassem assento na presidencia. Ora, como elles nada haviam dito das suas aventuras,—não lhes teriam dado tempo para falar?—esperava-se tambem que contassem por miudos as suas impressões de viagem.

Com effeito, por qualquer motivo que fôsse, os dois permaneceram mudos. Mudo tambem o creado Fricollin, que os seus congeneres por pouco não estrangularam no seu delirio.

Mas o que os dois collegas não haviam dito, ou não tinham querido dizer, é o seguinte:

Escusado é voltar ao que se sabe já da noite de 27 a 28 de julho, da audaciosa evasão do presidente e do secretario do Weldon-Institute, da sua impressão tão viva quando pisaram os rochedos da ilha Chatam, o tiro dado sobre Phil Evans, o cabo cortado, e o _Albatrós_, privado então dos seus propulsores, arrastado ao largo pelo vento do sudoéste, emquanto se elevava a uma grande altura. Os seus pharoes accesos haviam permittido seguil-o durante algum tempo. Depois não tardára a desapparecer.

Os fugitivos nada tinham a receiar. Como é que Robur podia voltar á ilha, se os seus helices deviam ainda estar impossibilitados de funccionar durante tres ou quatro horas?

D’aqui lá, o _Albatrós_ destruido pela explosão, não seria mais do que um destroço fluctuando á tona de agua, e os que elle levava, cadaveres despedaçados que o Oceano não restituiria.

O acto de vingança teria sido realisado com todo o seu horror.

Uncle Prudent e Phil Evans, considerando-se como em estado de legitima defesa, não haviam tido sombra de remorso.

Phil Evans não fôra senão ligeiramente ferido pela bala lançada pelo _Albatrós_. De modo que os tres trataram de alcançar o littoral, na esperança de encontrar alguns indigenas.

Essa esperança não foi baldada. Uns cincoenta indigenas, vivendo de pesca, habitavam a costa occidental de Chatam. Haviam visto a aeronave descer sobre a ilha. Fizeram aos fugitivos o acolhimento devido a seres sobrenaturaes. Adoraram-os, ou pouco menos. Puzeram-os na casa mais confortavel. Jámais Fricollin tornaria a encontrar occasião egual para passar pelo Deus dos pretos.

Como elles haviam previsto, Uncle Prudent e Phil Evans não viram voltar a aeronave. Deviam concluir d’ahi que a catastrophe se tinha produzido n’alguma zona alta da atmosphera. Não mais se ouviria falar do engenheiro Robur, nem da prodigiosa machina que os seus companheiros tripulavam com elle.

Agora era necessario esperar occasião de voltar á America. Ora a ilha Chatam é pouco frequentada de navegantes. Todo o mez de agosto se passou assim, e os fugitivos podiam ficar pensando se não tinham trocado uma prisão por outra, com a qual, apesar de tudo, Fricollin se entendia melhor que com a sua prisão aerea.

Afinal, a 3 de setembro, veiu um navio fazer aguada na ilha Chatam. Como se devem lembrar, no momento de ser arrebatado de Philadelphia, Uncle Prudent levava comsigo alguns milhares de dollars em papel, mais do que era necessario para voltar á America.

Depois de haverem agradecido aos seus adoradores, que lhes não regateavam as mais respeitosas demonstrações, Uncle Prudent, Phil Evans e Fricollin embarcaram para Aukland. Nada contaram da sua historia e, em dois dias, chegavam á capital da Nova Zelandia.

Alli, um vapor do Pacifico os recebeu como passageiros, e no dia 20 de setembro, depois de uma travessia das mais felizes, os que sobreviviam do _Albatrós_ desembarcaram em S. Francisco. Não haviam dito quem eram, nem d’onde vinham; mas como haviam pago a bom preço o seu transporte, não seria um capitão americano que lhes pedisse mais do que isso.

Em S. Francisco, Uncle Prudent, o seu collega e o creado Fricollin tomaram o caminho de ferro do Pacifico. No dia 27 chegaram a Philadelphia.

Eis a descripção resumida do que se passára depois da evasão dos fugitivos e da sua ida para a ilha Chatam. Eis como, n’essa mesma noite, o presidente e o secretario puderam tomar logar na mesa da presidencia do Weldon-Institute, no meio de uma affluencia extraordinaria.

Comtudo, nem um, nem outro tinham nunca estado tão tranquillos. Não se diria, ao vêl-os, que alguma cousa de anormal se tivesse passado depois da memoravel sessão de 12 de junho. Tres mezes e meio que pareciam não contar na sua existencia!

Depois das primeiras salvas de hurrahs, que os dois receberam, sem que o seu rosto reflectisse a menor emoção, Uncle Prudent poz o chapéo na cabeça e tomou a palavra.

—Respeitaveis cidadãos, disse elle, está aberta a sessão.

Applausos freneticos e bem legitimos! Porque, se não era extraordinario que aquella sessão se abrisse, era-o o facto de ser aberta por Uncle Prudent, acompanhado de Phil Evans.

O presidente deixou o enthusiasmo expandir-se em clamores e palmas. Depois continuou:

—Na nossa ultima sessão, meus senhores, a discussão fôra muito viva (ouçam, ouçam!) entre os partidarios do helice na frente e do helice atraz, para o nosso balão, o _Go a head_. (Demonstrações de surpreza.) Ora, encontrámos meio de chegar a um accôrdo entre os _afrentistas_ e os _atrazistas_, e esse meio é o seguinte:—é pôr dois helices, um em cada extremo da barquinha. (Silencio de completa estupefacção.)

E mais nada.

Era tudo! Do rapto do presidente e do secretario do Weldon-Institute, nem palavra! Nem palavra do _Albatrós_, nem do engenheiro Robur! Nem palavra da viagem! Nem palavra finalmente do que viera a ser da aeronave: se corria ainda através do espaço, se se podiam receiar novas represalias contra os membros do club!

Não faltava a todos esses balonistas o desejo de interrogarem Uncle Prudent e Phil Evans; mas viram-os tão serios, tão abotoados, que pareceu conveniente respeitar a sua attitude. Quando julgassem necessario falar, falariam e teriam muita honra em os ouvir.

No fim de contas, havia talvez n’aquelle mysterio algum segredo que não podia ainda ser divulgado.

E então Uncle Prudent, tomando de novo a palavra no meio do silencio, até então desconhecido nas sessões do Weldon-Institute:

—Meus senhores, disse elle, agora não falta senão concluir o aerostato _Go a head_, ao qual pertence fazer a conquista do ar.

Está levantada a sessão.

CAPITULO XVIII

ONDE TERMINA ESTA VERIDICA HISTORIA DO “ALBATRÓS„ SEM SE TERMINAR

No dia 29 de abril do anno seguinte, sete mezes depois do regresso imprevisto de Uncle Prudent e de Phil Evans, toda a Philadelphia estava em movimento. A politica não entrava para cousa alguma d’esta vez. Não se tratava nem de eleições nem de meetings. O aerostato _Go a head_, concluido a expensas do Weldon-Institute, ia afinal tomar posse do seu elemento natural.

Tinha por aeronauta o celebre Harry W. Tinder, cujo nome foi pronunciado no principio d’esta narrativa,—e mais um ajudante.

Por passageiros, o presidente e o secretario do Weldon-Institute. Não mereciam elles uma tal honra? Não lhes competia vir protestar em pessoa contra todo o apparelho que se baseasse no principio do “Mais pesado que o ar„?

Comtudo, depois de sete mezes, elles não falavam ainda das suas aventuras. O proprio Fricollin, por mais vontade que tivesse, nada dissera do engenheiro Robur, nem da sua prodigiosa machina. Evidentemente, balonistas intransigentes como eram, Uncle Prudent e Phil Evans não queriam ouvir falar da aeronave ou de qualquer outro apparelho volante. Emquanto o balão _Go a head_ não tivesse o primeiro logar entre os apparelhos de locomoção aerea, nada queriam admittir das invenções devidas aos aviadores. Acreditavam ainda, e queriam continuar a acreditar, que o verdadeiro vehiculo atmospherico era o aerostato e que só a elle pertencia o futuro.

Além de que, esse de quem haviam tirado uma tão grande vingança, na sua opinião, tão justa,—já não existia. Nenhum dos que o acompanhavam lhe podia sobreviver. O segredo do _Albatrós_ estava agora sepultado nas profundezas do Pacifico.

Quanto a admittir que o engenheiro Robur tivesse um retiro, uma ilha onde descançar, no meio do vasto oceano, não passava de uma hypothese. Em todo o caso, os dois collegas reservavam-se para decidir mais tarde se não conviria fazer algumas pesquizas n’esse sentido.

Iam finalmente proceder a essa grande experiencia que o Weldon-Institute preparava de tão longa data e com tantos cuidados. O _Go a head_ era o typo mais perfeito do que havia sido inventado até áquella épocha na arte aerostatica,—o que um _Inflexivel_ ou um _Formidavel_ é na arte naval.

O _Go a head_ possuia todas as qualidades que um aerostato devia ter. O seu volume permittia-lhe subir até as ultimas alturas que um balão pode attingir; a sua impenetrabilidade permittia-lhe o poder manter-se indefinidamente na atmosphera; a sua solidez o arrostar com toda a dilatação de gaz, como tambem com as violencias da chuva e do vento; a sua capacidade, o dispôr de uma fôrça ascencional assaz consideravel para aguentar, com todos os seus accessorios, um machinismo electrico que devia communicar aos seus propulsores um poder de locomoção superior a tudo o que até então se tinha obtido. O _Go a head_ tinha uma forma alongada que facilitava o seu deslocamento segundo a horisontal. A sua barquinha, plataforma pouco mais ou menos semelhante á do balão dos capitães Krebs e Renard, conduzia todos os utensilios necessarios aos aeronautas, instrumentos de physica, cabos, ancoras, _guide ropes_, etc., fora apparelhos, pilhas e accumuladores que constituiam o seu poder mechanico. Essa barquinha estava munida, na frente, de um helice e de um leme. Mas, provavelmente, a fôrça das machinas do _Go a head_ devia ser inferior á dos apparelhos do _Albatrós_.

O _Go a head_ tinha sido transportado, depois de cheio de ar, para a clareira do Fairmont Park, no proprio sitio onde a aeronave tinha pousado durante algumas horas.

Inutil é dizer que o seu poder ascensional lhe era fornecido pelo mais leve dos corpos gazosos. O gaz de illuminação não possue senão uma fôrça de setecentas grammas, proximamente, por metro cubico,—o que não dá senão uma insufficiente quebra de equilibrio com o ar ambiente. Mas o hydrogenio possue uma fôrça de ascensão que pode ser calculada em mil e cem grammas. Esse hydrogenio puro, preparado segundo os processos e apparelhos especiaes do celebre Henry Giffard, enchia o enorme balão. Portanto, já que a capacidade do _Go a head_ media quarenta mil metros cubicos, a potencia ascensional do seu gaz era quarenta mil multiplicados por mil e cem, isto é, quarenta e quatro mil kilos.

N’essa manhã de 29 de abril tudo estava prestes. Desde as onze horas, o enorme aerostato balouçava a alguns pés do solo, prestes a subir ao ar.

Um tempo admiravel, como que expressamente feito para esta importante experiencia. Em summa, talvez mais valesse que a brisa fôsse mais forte, o que teria tornado a experiencia mais concludente. Com effeito, nunca se poz em duvida que um balão possa ser dirigido n’uma atmosphera calma; porém no meio de uma atmosphera em movimento, é outra cousa e é n’essas condições que as experiencias devem ser tentadas.

Emfim, não havia vento, nem apparencia de que se pudesse levantar. N’esse dia, por um caso extraordinario, a America do Norte não se dispunha a enviar á Europa occidental uma das boas tempestades que traz de reserva, e nunca se poderia ter escolhido um dia mais conveniente para uma experiencia aeronautica.

Será preciso falar na immensa multidão reunida no Fairmont-Park, nos trens numerosos que tinham trazido para a capital da Pensilvania os curiosos de todos os Estados circumvizinhos? na suspensão da vida industrial e commercial que permittia a todos virem assistir ao espectaculo: patrões, empregados, operarios, homens, mulheres, velhas, creanças, membros do Congresso, representantes do exercito, magistrados, reporters, indigenas brancos e negros, reunidos na vasta clareira? Será preciso descrever as emoções ruidosas da populaça, os movimentos inexplicaveis, os impetos subitaneos que tornavam a massa popular palpitante e tempestuosa?

Será preciso enumerar os hips! hips! hips! que rebentaram de toda a parte, como detonações de fogo de artificio, quando Uncle Prudent e Phil Evans appareceram na plataforma, por baixo do aerostato, embandeirado das côres americanas? Será preciso confessar finalmente que o maior numero de curiosos não tinha talvez vindo para vêr o _Go a head_, mas unicamente para contemplar esses dois homens extraordinarios que o Antigo Mundo enviava ao Novo?

Dois? e porque não tres? É que Fricollin entendia que a campanha do _Albatrós_ bastava para a sua celebridade. Havia declinado a honra de acompanhar seu amo. Não teve portanto partilha nas acclamações freneticas que acolheram o presidente e o secretario do Weldon-Institute.

Escusado é dizer que, de todos os membros da illustre assembléa, nenhum faltou nos logares reservados, para dentro das cordas e postes que marcavam o recinto no meio da clareira. Lá estavam Truk Milnor, Bat T. Fyn, William T. Forbes, trazendo pelo braço as suas filhas, miss Doll e miss Mat. Tinham todos vindo affirmar pela sua presença que nada podia jámais separar os partidarios do “Mais ligeiro que o ar„.

O _Go a head_, seguro pelas suas cordas de rêde, subiu uns quinze metros acima da clareira. D’esse modo a plataforma dominava a multidão tão profundamente commovida. Uncle Prudent e Phil Evans, de pé, na frente, puzeram então a mão esquerda sobre o peito,—o que significava que o seu coração estava com todos os que se viam presentes. Depois, extenderam a mão direita para o zenith,—o que significava que o maior dos balões conhecidos até esse dia ia finalmente tomar posse dos dominios supra-terrestres.

Cem mil mãos se levaram então a cem mil peitos, e cem mil outras se ergueram ao céo.

Um terceiro tiro de peça se ouviu ás onze e trinta.

—Largue tudo! gritou Uncle Prudent, proferindo a formula sacramental.

E o _Go a head_ subiu, “majestosamente„, adverbio consagrado pelo uso nas descripções aerostaticas.

Na realidade, era um espectaculo soberbo! Dir-se-hia um navio que acaba de deixar o seu estaleiro de construcção. E não era um navio, lançado no mar aereo?

O _Go a head_ subiu seguindo uma rigorosa vertical, prova da tranquillidade absoluta da atmosphera, e parou a uma altura de duzentos e cincoenta metros.