Part 12
Nas primeiras horas do dia,—se assim se pode chamar áquelles vagos tons do horisonte,—o _Albatrós_ tinha galgado quinze graus desde o cabo Horn, isto é, mais de quatrocentas leguas, e passára o limite do circulo polar.
Alli, no mez de julho, a noite dura ainda dezenove horas e meia. O disco do sol sem calor, sem luz, não apparecia sobre o horisonte senão para desapparecer quasi immediatamente. No polo, aquella noite prolonga-se durante cento e setenta e nove horas. Tudo indicava que o _Albatrós_ ia afundar-se n’ella como n’um abysmo.
N’esse dia, se uma observação fôsse possivel, teria dado 66° 40´ de latitude austral. A aeronave não estava pois mais longe mil e quatrocentas milhas do polo antarctico.
Irresistivelmente arrastada para aquelle inaccessivel ponto do globo, a sua velocidade “comia„ por assim dizer, a sua gravidade, apesar d’esta ser um pouco mais forte, então, em consequencia da chateza da terra no polo. Quanto aos seus helices suspensivos, parecia que podia passar sem elles. De subito, a violencia do furacão tornou-se tal, que Robur julgou dever reduzir os propulsores ao minimo de voltas, afim de evitar algumas graves avarias, e de modo a poder governar, conservando o menos possivel da velocidade propria.
No meio d’estes perigos, o engenheiro commandava com sangue frio, e o pessoal obedecia como se a alma do seu chefe estivesse n’elle.
Uncle Prudent e Phil Evans não deixaram um instante a plataforma. Tambem podia-se estar alli sem inconveniente. O ar não resistia, ou resistia muito fracamente. A aeronave estava alli como um aerostato que caminha com a massa fluida em que está immerso.
O dominio do polo austral comprehende, segundo dizem, quatro milhões, quinhentos mil metros quadrados de superficie. É um continente? É um archipelago? é um mar paleocrystico, cujos gelos não se derretem mesmo durante o longo periodo de verão? Não se sabe. Mas o que é sabido, é que esse polo austral é mais frio que o polo boreal, phenomeno devido á posição da terra sobre a sua orbita, durante o inverno das regiões antarcticas.
Durante aquelle dia nada indicou que a tempestade fôsse diminuir. Era pelo 75.° grau meridiano, a oéste, que o _Albatrós_ ia alcançar a região circumpolar. Por que meridiano sahiria, se sahisse?
Em todo o caso, á medida que descia mais ao sul, a duração do dia diminuia. Antes de pouco, estaria mergulhado n’aquella noite permanente que não se illumina senão á claridade da lua ou aos pallidos clarões das auroras austraes. Mas era lua nova então, e os companheiros de Robur arriscavam-se a não vêr nada d’aquellas regiões, cujo segredo escapava ainda á curiosidade humana.
Muito provavelmente o _Albatrós_ passou por cima de alguns pontos já reconhecidos, um pouco antes do circulo polar, no oéste da terra de Graham, descoberta por Biscoe em 1832, e da terra Luiz Filippe, descoberta em 1838 por Dumont d’Urville, ultimos limites alcançados sobre o continente desconhecido.
Comtudo a bordo não se soffria muito com a temperatura, muito menos baixa então do que era para receiar. Parecia que aquelle furacão era uma especie de Gulf Stream aereo que levava comsigo um certo calor.
Quanto foi então para lastimar que aquella região estivesse immersa n’uma obscuridade profunda! É necessario comtudo notar que, mesmo que a lua allumiasse o espaço, a parte das observações seria muito reduzida. N’essa épocha do anno, uma immensa rede de neve, uma crusta de gelo, cobre toda a superficie polar. Não se nota mesmo aquelle “blink„ de gelos, tintura esbranquiçada cujo reverbero falta aos horisontes obscuros.
N’estas condições, como distinguir a forma das terras, a extensão dos mares, a disposição das ilhas? A sua propria configuração orographica, como marcal-a, desde as collinas onde as montanhas se confundem com os ice-berg, e os montões de gelo?
Um pouco antes da meia noite, uma aurora boreal illuminou aquellas trevas. Com as suas franjas prateadas, as suas laminasinhas que irradiavam através do espaço, aquelle meteoro apresentava a forma de um immenso leque, aberto sobre uma metade do céo. As suas extremas effluencias electricas vinham perder-se no Cruzeiro do Sul, cujas quatro estrellas brilhavam no zenith. O phenomeno foi de uma magnificencia incomparavel, e a sua claridade bastou para mostrar o aspecto d’aquella região confundida n’uma brancura immensa.
Escusado é dizer que, n’aquellas regiões proximas do polo magnetico austral, a agulha da bussola, constantemente endoidada, não podia dar indicação alguma precisa com respeito á direcção que se levava. Mas a sua inclinação foi tal n’um certo momento, que Robur poude ter como certo que passára por sobre esse polo magnetico, situado pouco mais ou menos sobre o 78.° parallelo.
E mais tarde, pela uma da manhã, calculando o angulo que essa agulha fazia com a vertical, elle exclamou:
—Temos a nossos pés o polo austral!
Uma convexidade branca appareceu, mas sem deixar vêr nada do que se escondia sob os seus gelos.
A aurora boreal apagou-se pouco depois, e aquelle ponto ideal, onde vinham cruzar-se todos os meridianos do globo, está ainda por ser conhecido.
Evidentemente, se Uncle Prudent e Phil Evans queriam sepultar na mais mysteriosa das solidões a aeronave e os que ella conduzia através do espaço, a occasião era propicia. Se o não fizeram, foi decerto porque o instrumento de que necessitavam lhes faltava ainda.
No entretanto o furacão continuava a desencadear-se com uma violencia tal, que, se o _Albatrós_ tivesse encontrado alguma montanha no caminho, ter-se-hia alli esmagado como um navio que dá á costa.
Com effeito, não só não podia dirigir-se horisontalmente, mas nem sequer era senhor do seu deslocamento em altura.
E comtudo alguns pincaros de montanhas se erguiam n’aquellas terras antarcticas. A cada instante um choque seria possivel e teria produzido a destruição do apparelho.
Aquella catastrophe era tanto mais para receiar quanto o vento inclinára para léste, passando o meridiano zero. Dois pontos luminosos se apresentaram a uns cem kilometros á frente do _Albatrós_.
Eram os dois vulcões que fazem parte do vasto systema dos Montes Ross, o Erebus e o Terror.
Iria pois o _Albatrós_ queimar-se nas suas chammas, como uma borboleta gigante?
Houve uma hora palpitante. Um dos vulcões, o Erebus, parecia precipitar-se sobre a aeronave, que parecia não se poder desviar do leito do furacão. Os pennachos de chamma cresciam a olhos vistos. Uma rede de fogo tomava o caminho. Intensos clarões enchiam agora o espaço. As figuras, vivamente illuminadas a bordo, tomaram um aspecto infernal. Todos, immoveis, sem um grito, sem um gesto, esperavam o horroroso minuto, em que aquella terrivel fornalha os envolveria nas suas chammas.
Mas o furacão que arrastava o _Albatrós_, salvou-o d’aquella espantosa catastrophe. As chammas do Erebus, lançadas pela tempestade, abriram-lhe passagem. Foi no meio de uma chuva de substancias lavicas, repellidas felizmente pela acção centrifuga dos helices suspensivos, que elle transpoz a cratéra em plena erupção.
Uma hora depois, o horisonte deixava vêr as duas tochas colossaes que allumiavam os confins do mundo durante a longa noite polar.
Ás duas da manhã, passaram a ilha Ballery no extremo da costa da Descoberta, sem que a pudessem reconhecer, visto estar soldada ás terras arcticas por um cimento de gelo.
E então, a partir do circulo polar que o _Albatrós_ cortou sobre o 75.° meridiano, o furacão levou-o para sobre os bancos de gelo, para sobre os icebergs, contra os quaes esteve cem vezes no risco de se despedaçar. Não ia já nas mãos do seu timoneiro, mas nas mãos de Deus ... Deus é um excellente piloto.
A aeronave caminhava para o meridiano de Paris, que faz um angulo de cento e cinco graus com o que ella havia seguido para galgar o circulo do mundo antarctico.
Afinal, para além do parallelo 60.°, o furacão mostrou uma tendencia a quebrar. A sua violencia diminuiu sensivelmente. O _Albatrós_ começou a tornar-se senhor de si. Depois,—o que foi um verdadeiro allivio,—entrou nas regiões illuminadas do globo, e o dia tornou a apparecer pelas oito horas da manhã.
Robur e os seus, depois de haverem escapado ao cyclone do cabo Horn, estavam agora livres do furacão. Tinham sido levados para o Pacifico por sobre toda a região polar, depois de haver galgado sete mil kilometros em dezenove horas,—isto é, mais de uma legua por minuto—velocidade dupla da que podia obter o _Albatrós_ sob a acção dos seus propulsores nas circumstancias ordinarias.
Mas Robur não sabia já onde estava, em consequencia das perturbações da agulha nas proximidades do polo magnetico. Era necessario esperar que o sol se mostrasse em condicções sufficientes de se fazer uma observação. Infelizmente grossas nuvens carregavam o céo n’aquelle dia, e o sol não appareceu.
Foi um desapontamento tanto mais sensivel, quanto os dois helices propulsivos haviam tido certas avarias durante a tormenta.
Robur, contrariadissimo com este accidente, não poude seguir, durante este dia, senão com uma velocidade relativamente moderada. Quando passou por sobre os antipodas de Paris, não o fez senão a razão de seis leguas por hora.
Era necessario, além d’isso, tomar bem sentido em não aggravar as avarias. Se os seus dois propulsores fôssem postos fora das condições de funccionar, a situação da aeronave por sobre esses vastos mares do Pacifico estaria muito compromettida. Assim o engenheiro perguntava a si proprio se não deveria proceder ás reparações alli, de modo a assegurar a continuação da viagem.
No dia seguinte pelas sete da manhã, foi avistada uma terra ao norte. Reconheceu-se logo que era uma ilha. Mas qual d’essas milhares de ilhas de que está semeado o Pacifico?
Comtudo Robur resolveu parar alli, sem vir a terra. Segundo elle, bastaria o dia para reparar as avarias, e partiria n’essa mesma noite.
O vento tinha serenado de todo, circumstancia favoravel para a manobra que se tratava de executar. Pelo menos, visto que ficára estacionario, o _Albatrós_ não seria arrastado sem se saber para onde.
Um longo cabo de cento e cincoenta pés, com uma ancora na extremidade, foi lançado pela borda fora. A aeronave chegava ao extremo da ilha, a ancora tocou de raspão nos primeiros escolhos, e depois prendeu-se solidamente entre dois rochedos. O cabo destendeu-se sob a acção dos helices suspensivos, e o _Albatrós_ ficou immovel, como um navio prêso da praia com uma ancora.
Era a primeira vez que se ligava á terra, desde a sua partida de Philadelphia.
CAPITULO XV
ONDE SE PASSAM COUSAS QUE NA REALIDADE MERECEM SER CONTADAS
Quando o _Albatrós_ occupava ainda uma zona elevada, tinham podido reconhecer que aquella ilha era de mediocre tamanho. Mas qual o parallelo que a cortava? Sobre que meridiano estava? Era uma ilha do Pacifico, da Australasia, do Oceano Indico? Não se poderá saber senão quando Robur tiver feito os seus calculos. Comtudo, apesar de elle não ter podido tomar em conta as indicações do compasso, havia razão para pensar que estava sobre o Pacifico. Apenas o sol nascesse, seriam excellentes as circumstancias para obter uma boa observação.
D’aquella altura, cento e cincoenta pés, a ilha que media cerca de mil e quinhentas milhas de circumferencia, desenhava-se como uma estrella do mar, de tres pontas.
Á ponta de suéste emergia um ilhote, precedido de uma sementeira de rochedos. Á borda, nenhum indicio de marés, o que levava a confirmar a opinião de Robur relativamente á situação, porque o fluxo e refluxo são quasi nullos no Oceano Pacifico.
Na ponta noroéste erguia-se uma montanha conica, cuja altitude podia ser calculada em duzentos pés.
Não se via nenhum indigena, mas talvez occupassem o littoral opposto.
Em todo o caso, se elles tinham dado com a aeronave, era natural que o espanto os levasse a esconderem-se e a fugir.
Fôra pela ponta suéste que o _Albatrós_ atracára á ilha. Não longe, n’uma pequena insua, lançava-se um riacho, por entre rochedos. Para além, alguns valles sinuosos, arvores de essencias variadas, caça de matto, perdizes e abetardas em grande quantidade. Se a ilha não era habitada, pelo menos parecia habitavel. Decerto que Robur podia alli pousar em terra, e se o não fizera, fôra decerto porque o solo, muito accidentado, lhe parecêra que não offerecia um logar conveniente para a aeronave.
Esperando lançar-se nos ares, o engenheiro mandou começar os preparativos, que esperava concluir durante o dia. Os helices suspensivos, em perfeito estado, tinham funccionado admiravelmente no meio das violencias do furacão, o qual, como vimos, tinha acalmado. N’aquelle momento, metade do jogo funccionava, o que era bastante para assegurar a tensão do cabo, fixado perpendicularmente ao littoral.
Mas os dois propulsores haviam soffrido, e mais ainda do que Robur suppunha. Era necessario pôr novas hastes e concertar a engrenagem que lhes transmittia o movimento de rotação.
Foi do helice anterior que o pessoal se occupou primeiramente sob a direcção de Robur e de Tom Turner. Era melhor começar por elle, para o caso em que um motivo qualquer obrigasse o _Albatrós_ a partir antes do trabalho estar concluido. Bastava esse propulsor, para se poder continuar razoavelmente o caminho.
Entrementes, Uncle Prudent e o seu collega, depois de haverem passeado sobre a plataforma tinham-se ido sentar atraz.
Quanto a Fricollin, estava singularmente socegado. Que differença! não se estar suspenso senão a uns cincoenta pés do chão!
Os trabalhos não foram interrompidos senão no momento em que a elevação do sol sobre o horisonte permittiu tomar primeiro um angulo horario, depois, quando elle estava na sua inclinação, calcular o meio dia do logar.
O resultado da observação, feita com a maior exactidão, foi o seguinte:
Longitude: 176.° 17´ a léste do meridiano zero.
Latitude: 43.° 37´ austral.
O ponto sobre a carta, referia-se á posição da ilha Chatam e do ilhote Viff, cujo grupo é tambem designado pelo nome commum de ilhas Brongthon.
Aquelle grupo está a quinze graus ao léste de Taivaï-Pomanú, ilha meridional da Nova Zelandia, situada na parte sul do Oceano Pacifico.
—É pouco mais ou menos o que eu suppunha, disse Robur a Tom Turner.
—E então, estamos?...
—A quarenta e seis graus ao sul da ilha X, isto é, a uma distancia de duas mil e oitocentas milhas.
—Mais uma razão para concertarmos os nossos propulsores, respondeu o contramestre. N’aquelle trajecto podemos encontrar ventos contrarios, e, com o pouco que nos resta de provisões, é necessario alcançarmos a ilha X o mais depressa possivel.
—Sim, Tom, e espero pôr-me a caminho esta noite, mesmo que tenha de partir só com um helice, podendo concertar o outro no caminho.
—Master Robur, perguntou Tom Turner, e esses dois cavalheiros, e o creado?...
—Tom Turner, respondeu o engenheiro, serão elles para lastimar por se terem tornado colonos da ilha X?
Mas que ilha é essa ilha X? Uma ilha perdida na immensidade do Oceano Pacifico, entre o equador e o tropico de Cancer, uma ilha que justificava bem aquelle signal algebrico de que Robur fizera o seu nome. Emergia d’esse vasto mar das Marquezas, fora de todos os caminhos de communicação interoceanicos.
Era alli que Robur fundára a sua pequena colonia, alli que vinha repousar o _Albatrós_, quando estava cançado de voar; alli que fazia provisão de tudo que era necessario para as suas perpetuas viagens.
N’essa ilha X, Robur, que dispunha de grandes recursos, tinha podido estabelecer um estaleiro e construir perfeitamente a sua aeronave. Alli a podia concertar e mesmo fazer outra de novo. As suas officinas continham as materias, as substancias, as provisões de toda a especie, accumuladas para a manutenção de uns cincoenta habitantes, a população da ilha.
Quando Robur dobrou o cabo Horn, alguns dias antes, o seu intento era alcançar a ilha X, atravessando obliquamente o Pacifico. Mas o cyclone tinha apanhado o _Albatrós_ no seu turbilhão. Depois d’elle, o furacão tinha-o levado para além das regiões austraes. Em summa, tinha sido trazido pouco mais ou menos á sua direcção primitiva, e, sem as avarias dos propulsores, o atrazo teria bem pouca importancia.
Iam pois alcançar a ilha X. Mas, como dissera o contramestre, Tom Turner, o caminho era ainda longo. Teriam provavelmente de luctar com ventos desfavoraveis. E todo o seu poder mechanico sería pouco para se chegar ao seu destino nos prasos desejados. Com um tempo médio, n’um andamento ordinario, essa travessia devia realisar-se em tres ou quatro dias.
D’ahi o partido que Robur tomára de se fixar na ilha Chatam. Alli se achava em condições melhores para concertar pelo menos o helice da frente. Não receiava, no caso de uma brisa contraria se levantar, ser arrastado para o sul, quando quizesse ir para o norte. Chegada a noite, aquelle concerto estaria terminado. Manobraria então para desprender a ancora. Se estivesse solidamente agarrada aos rochedos, venceria a difficuldade cortando o cabo e retomaria o vôo para o Equador.
Como se vê, aquella maneira de proceder era a mais simples, e a melhor tambem, sendo executada cabalmente.
O pessoal do _Albatrós_, sabendo que não havia tempo a perder, poz-se resolutamente a trabalhar.
Emquanto se trabalhava na frente da aeronave, Uncle Prudent e Phil Evans tinham entre si um dialogo cujas consequencias iam ser de um alcance excepcional.
—Phil Evans, disse Uncle Prudent, está bem resolvido, como eu, a fazer o sacrificio da sua vida?
—Estou!
—Pela ultima vez: é bem certo que nada temos a esperar d’esse Robur?
—Nada!
—Pois bem, Phil Evans, a minha resolução está tomada. Já que o _Albatrós_ deve partir esta noite mesmo, não passará a noite sem termos realisado a nossa obra. Cortaremos as azas a esse passaro do engenheiro Robur. Esta noite voará pelos ares!
—Vamos a isso! respondeu Evans.
Como se vê, os dois collegas estavam de accôrdo em todos os pontos, mesmo quando se tratava de acceitar com indifferença a horrivel morte que os esperava.
—Tem tudo que é necessario? perguntou Phil Evans.
—Sim! A ultima noite, emquanto Robur e a sua gente não pensavam senão na salvação da aeronave, pude introduzir-me no deposito e tirar um cartucho de dynamite!
—Uncle Prudent, vamos á obra!
—Não! ha de ser esta noite. Quando ella vier, entraremos nos nossos compartimentos, e o senhor vigiará para que nos não surprehendam.
Pelas seis horas os dois collegas jantaram segundo o costume. Duas horas depois, tinham-se retirado para o seu beliche, como pessoas que vão dormir para se refazerem de uma noite passada em claro.
Nem Robur, nem nenhum dos seus companheiros, podiam suspeitar a catastrophe que ameaçava o _Albatrós_.
Eis como Uncle Prudent contava proceder:
Como dissera, tinha conseguido penetrar no deposito de munições, accommodado a um canto, no fundo da aeronave. Alli se apoderára de uma certa quantidade de polvora e de um cartucho semelhante áquelles de que o engenheiro se servira em Dahomey. Entrando para o seu beliche, tinha escondido cautelosamente o cartucho, com o qual estava resolvido a fazer saltar o _Albatrós_ durante a noite, quando elle tivesse retomado o seu vôo pelos ares.
N’aquelle momento, Phil Evans examinava o cartucho roubado pelo seu companheiro.
Era uma bainha metallica, contendo cêrca de um kilograma da substancia explosiva, o que devia bastar para deslocar a aeronave e partir o seu jogo de helices. Se a explosão não a destruisse rapidamente, acabaria com ella de todo na quéda. Ora nada havia mais facil do que depositar aquelle cartucho n’um canto do beliche, de modo que rompesse a plataforma e alcançasse o casco, até ao cavername.
Mas, para provocar a explosão, seria preciso fazer rebentar a capsula fulminante, de que estava munido o cartucho. Era a parte mais delicada da operação, porque a inflammação da capsula não se devia produzir senão n’um tempo calculado com uma extrema precisão.
Com effeito, Uncle Prudent tinha imaginado o seguinte: desde que o propulsor da frente estivesse concertado, a aeronave devia continuar o seu caminho para o norte; mas feito isto, era provavel que Robur e a sua gente voltassem atraz para arranjar o helice posterior. Ora a presença de todo o pessoal junto ao beliche podia embaraçar Uncle Prudent na sua operação. É a razão por que se resolvêra a servir-se de uma mécha, de maneira a não provocar a explosão senão n’um tempo dado.
Eis o que elle disse a Phil Evans.
—Juntamente com o cartucho tirei polvora. Com essa polvora vou fazer uma mécha, cujo comprimento estará na razão do tempo que seja preciso gastar a queimar, e que estaria metade na capsula do fulminante. A minha intenção é accendel-a á meia noite, de modo que a explosão se produza entre as tres e quatro da manhã.
—Bem combinado! respondeu Phil Evans.
Os dois collegas, como se vê, tinham chegado a examinar com o maior sangue frio a terrivel destruição em que deviam morrer. Havia n’elles uma tal somma de odio contra Robur e os seus, que o sacrificio da sua propria vida parecia indicado para destruir, com o _Albatrós_, os que elle levava comsigo. O acto era de facto insensato, odioso mesmo! Mas eis a que elles haviam chegado, depois de cinco semanas d’essa existencia cheia de colera que não pudera ainda rebentar, de raiva que não haviam podido conter.
—E Fricollin, disse Phil Evans, temos nós direito de dispôr da sua vida?
—Pois se sacrificâmos a nossa! respondeu Uncle Prudent.
Não é provavel que Fricollin achasse sufficiente a razão.
Immediatamente Uncle Prudent pôz mãos á obra, emquanto Phil Evans vigiava as immediações dos seus aposentos.
O pessoal continuava occupado na frente. Não havia receio de ser surprehendido.
Uncle Prudent começou por triturar uma pequena quantidade de polvora a ponto de a tornar em pó fino. Depois de a molhar ligeiramente, metteu-a n’um envolucro de panno, em forma de mécha. Accendendo-a, reconheceu que queimava na razão de cinco centimetros por dez minutos, isto é, um metro em tres horas e meia. A mécha foi então apagada, depois fortemente apertada n’uma espiral de corda e applicada á capsula do cartucho.
O trabalho estava concluido pelas dez horas da noite, sem haver excitado a minima suspeita.
N’aquelle momento, Phil Evans veiu ter com o seu collega ao beliche.
Durante aquelle dia, as reparações do helice anterior tinham sido activamente conduzidas; mas tinha sido preciso mettel-o para dentro para poder desmontar os seus ramos, que estavam desarranjados.
Quanto ás pilhas, aos accumuladores, ao que produzia a fôrça mechanica do _Albatrós_, nada havia soffrido com as violencias do cyclone. Havia com que alimental-os ainda durante quatro ou cinco dias.
Viera a noite, quando Robur e os seus homens interromperam o seu trabalho. O propulsor da frente não estava ainda collocado no seu logar. Eram necessarias tres horas de reparações para que estivesse apto a funccionar. De modo que, depois de conversar com Tom Turner, o engenheiro resolveu-se a dar algum descanço ao seu pessoal, morto de cançaço, e guardar para o dia seguinte o que ficava por fazer. Além de que, era necessaria a claridade do dia para esse trabalho extremamente delicado, e a que os pharoes não dariam uma luz sufficiente.
Eis o que Uncle Prudent e Phil Evans ignoravam. Atidos ao que haviam ouvido dizer a Robur, deviam pensar que o propulsor da frente seria concertado antes da noite e que o _Albatrós_ seguiria immediatamente o seu caminho para o norte. Julgavam-n’o pois desprendido da ilha, quando estava ainda preso a ella pela ancora. Isto ía conduzir as cousas de um modo completamente diverso do que elles haviam imaginado.
A noite estava sombria e sem luar. Sentia-se que ía estabelecer-se uma brisa ligeira. Vinham aragens do sudoéste; mas não deslocavam o _Albatrós_, que permanecia immovel, preso á ancora, cujo cabo, verticalmente tenso, o retinha ao solo.
Uncle Prudent e o seu collega, encerrados no seu beliche, poucas palavras trocavam, prestando ouvidos ao fremito dos helices suspensivos que dominava todos os outros ruidos de bordo. Esperavam o momento de proceder.