Part 11
Ao mesmo tempo que girava, o _Albatrós_ seguia o deslocamento d’aquellas trombas que se moviam com uma velocidade que os seus helices podiam invejar. Depois, se escapava a uma das trombas, era apanhado por outra, com perigo de ser deslocado ou feito em pedaços.
—Um tiro de peça! gritou o engenheiro.
Esta ordem era dirigida a Tom Turner. O contramestre agarrava-se á pequena peça de artilharia, montado no meio da plataforma, onde os effeitos da fôrça centrifuga eram pouco sensiveis. Comprehendeu o pensamento de Robur. N’um instante, abriu a culatra do canhão e n’ella introduziu um cartucho tirado da caixa presa aos reparos. O tiro partiu, e de subito se desfizeram as trombas, com a abobada de nuvens que ellas pareciam sustentar nos seus fastigios.
O abalo do ar bastára para romper o meteoro, e a enorme nuvem, resolvendo-se em chuva, raiou o horisonte de estrias verticaes, immensa rêde liquida extendida do mar ao céo.
O _Albatrós_, livre afinal, apressou-se a subir alguns centos de metros.
—Não está nada partido a bordo? perguntou o engenheiro.
—Não, respondeu Tom Turner; mas este jôgo de pião é que seria bom não recomeçar de novo!
Com effeito, durante uns momentos o _Albatrós_ estivera em perigo. Se não fôra a sua extraordinaria solidez, teria sossobrado n’aquelle turbilhão de trombas.
Durante aquella travessia do Atlantico, como as horas eram longas, quando nenhum phenomeno lhes vinha quebrar a monotonia! Além de que, os dias diminuiam e o frio tornava-se intenso. Uncle Prudent e Phil Evans pouco viam Robur. Encerrado no seu beliche, o engenheiro occupava-se em traçar o caminho, em marcar sobre os mappas a direcção seguida, a reconhecer a sua posição todas as vezes que podia, a notar as indicações dos barometros, dos thermometros, dos chronometros, finalmente a lançar nos livros de bordo todos os incidentes da viagem.
Quanto aos dois collegas, mettidos nos seus capuzes, procuravam a cada passo vêr terra do lado do sul.
Pelo seu lado, sob a recommendação expressa de Uncle Prudent, Fricollin procurava sondar o mestre cozinheiro, em vez do engenheiro.
Como se havia de acreditar no que dizia esse gascão do François Tapage? Umas vezes Robur era um antigo ministro da Republica Argentina, um chefe do Almirantado, um presidente dos Estados Unidos a ferias, um general hespanhol na disponibilidade, um vice-rei das Indias á busca de mais alta posição nos ares. Outras vezes possuia milhões, graças ás razzias que fazia com a sua machina, e era apontado á vindicta publica. Outras vezes ainda, tinha-se arruinado a montar aquelle apparelho e seria obrigado a fazer ascensões publicas para rehaver o seu dinheiro. Quanto a saber se elle parava em alguma parte, nada! Mas pretendia ir até á lua, e alli estabelecer-se, caso encontrasse um sitio conveniente.
—Hein, Fry!... meu camarada!... Não desgostarias de ir vêr o que se passa lá em cima!...
—Isso é que não vou! respondeu o imbecil, que tomava a serio todos aquelles palões.
—Então porque, Fry, porque? Alli te casaremos com alguma bella e joven habitante da lua ... Alli estabelecerás uma geração de negros!
E quando Fricollin ía contar esses arrazoados ao seu amo, este via bem que era impossivel encontrar por aquella forma qualquer informação sobre Robur. Não pensava pois senão em se vingar.
—Phil, disse elle um dia ao seu collega, está agora bem provado que toda a fuga é impossivel!
—Impossivel, Uncle Prudent.
—Seja! Mas um homem deve ser senhor de si, embora tenha de sacrificar a vida ...
—Se esse sacrificio é necessario, que se faça o mais cedo possivel! respondeu Phil Evans, cujo temperamento, por mais frio que fôsse, não se podia conter mais. Sim! é tempo de acabar com isto!... Para onde vae o _Albatrós_?... Eil-o a atravessar obliquamente o Atlantico, e se continúa n’esta direcção, vae ter ao littoral da Patagonia, e depois ás plagas da Terra de Fogo ... E depois! Lançar-se-ha por sobre o Oceano Pacifico, ou irá aventurar-se até os continentes do pólo austral?... Com este Robur tudo é possivel!... E estariamos então perdidos!... É portanto um caso de legitima defesa; e se temos de morrer ...
—Que não seja sem nos termos vingado, disse Uncle Prudent, sem termos anniquilado este apparelho, com toda a gente que elle encerra!
Os dois collegas tinham chegado a isto, á fôrça de furor impotente, de rancor concentrado. Sim! Já que era necessario, sacrificar-se-hiam para destruir o inventor e o seu segredo. Alguns mezes, eis quanto poderia durar aquella prodigiosa aeronave, cuja incontestavel superioridade em locomoção aerea elles eram obrigados a reconhecer.
Ora esta idéa estava tão bem incrustada no seu espirito, que elles não tinham outro desejo senão pôl-a em execução. De que maneira? Apoderando-se de um dos apparelhos explosivos, que estavam n’um dos armazens de bordo, e com que fariam saltar pelos ares a aeronave. Mas era necessario penetrar até o deposito das munições.
Felizmente Fricollin não suspeitava d’estes projectos. Á idéa de que o _Albatrós_ ía explodir nos ares, era capaz de denunciar o amo!
Foi no dia 23 de julho que a terra tornou a apparecer no sudoéste, pouco mais ou menos perto do Cabo das Virgens, á entrada do estreito de Magalhães. Para além do parallelo 54, n’aquella épocha do anno, a noite durava já perto de dezoito horas, e a temperatura baixava na média de seis graus acima de zero.
Primeiramente, o _Albatrós_, em vez de avançar mais para o sul, seguiu os meandros do estreito, como se quizesse alcançar o Pacifico. Depois de ter passado por sobre a bacia de Lomas, deixando ao norte o monte Gregory e os montes Brecknocks ao oéste, reconheceu a Punta Arena, pequena povoação chilena, no momento em que o sino da egreja repicava, e depois, algumas horas mais tarde, o antigo estabelecimento de Porto da Fome.
Se os patagonios, cujas lareiras se viam aqui e acolá, teem realmente uma estatura acima da mediana, os passageiros da aeronave não o puderam apreciar, porque a altura em que estavam os fazia parecer-lhes anões.
Mas, durante as tão curtas horas d’aquelle dia austral, que espectaculo! Montanhas abruptas, pincaros eternamente cobertos de neve, com espessas florestas sobre as suas costas; mares interiores; bahias formadas entre as peninsulas e ilhas d’esse archipelago; conjunto das terras de Clarence, Dawson, Desolação; canaes e passagens; innumeros cabos e promontorios, todo esse matto inextricavel de que o gêlo fazia já uma massa solida, desde o cabo Forward, que termina o continente americano, até o cabo Horn, onde acaba o Novo Mundo!
Comtudo, chegados ao Porto da Fome, notou-se que o _Albatrós_ ia tomar de novo o seu caminho para o sul. Passando entre o monte Torn da peninsula de Brunswick e o monte Grasve, dirigiu-se em direitura para o monte Sarmiento, pincaro enorme, coberto de gêlos, que domina o estreito de Magalhães, dois mil metros acima do nivel do mar.
Era o paiz dos Pechereses, ou fuegios, indigenas que habitam a Terra de Fogo.
Seis mezes mais cedo, em pleno verão, por occasião dos longos dias de quinze a dezeseis horas, como essa terra se mostraria fertil e bella, sobretudo na sua parte meridional! Então, por toda a parte, valles, pastagens que poderiam alimentar milhares de animaes, florestas virgens, arvores gigantescas, vidoeiros, faias, freixos, cyprestes, fetos arboreos, planicies que bandos de guanacos, de cegonhas e de abestruzes percorrem; depois, exercitos de pinguins, myriades de volateis.
De modo que, quando o _Albatrós_ poz em acção os seus pharoes electricos, patos, gansos e outras aves vieram ter a bordo, em quantidade cem vezes superior ao que seria necessario para encher de provisões a cozinha de François Tapage.
D’ahi um augmento de trabalho para o mestre cozinheiro, que sabia preparar aquella caça de maneira a tirar-lhe todo o sabor gorduroso. Tambem augmento de trabalho para Fricollin, que não se poude recusar a depennar duzias sobre duzias d’esses interessantes volateis.
N’esse dia, no momento em que o sol se ia pôr, pelas tres da tarde, appareceu um vasto lago, emmoldurado n’uma orla de florestas soberbas. O lago estava então completamente gelado, e alguns indigenas, com as suas longas raquettas nos pés, deslisavam rapidamente á superficie.
Á vista do apparelho, no auge do espanto, os fuegios fugiam em todas as direcções, e, quando não podiam fugir, escondiam-se, agachavam-se na terra, como os animaes.
O _Albatrós_ não deixou de seguir para o sul, para lá do canal de Beagle, ainda além da ilha de Nevarino, cujo nome grego destôa um pouco dos nomes rudes d’essas terras longinquas, mais longe que a ilha de Wollaston, banhada pelas ultimas aguas do Pacifico. Emfim, depois de haver transposto sete mil e quinhentos kilometros, desde a costa de Dahomey, passou os extremos ilhotes do archipelago de Magalhães, e depois, o mais avançado de todos, para o sul, cuja ponta é eternamente roida pela resaca,—o cabo Horn.
CAPITULO XIV
DE COMO O “ALBATRÓS„ FAZ O QUE NUNCA PODERIA TALVEZ SER FEITO
Estamos no dia seguinte ao 24 de julho. Ora o 24 de julho do hemispherio austral é o 24 de janeiro do hemispherio boreal. Além de que, o 56.° grau de latitude acabava de ficar atraz, e esse grau corresponde ao parallelo que, no norte da Europa, atravessa a Escocia, á altura de Edimburgo.
De modo que o thermometro se conservava constantemente n’uma média inferior a zero. Tinha sido portanto necessario pedir um certo calor artificial aos apparelhos destinados a aquecer os compartimentos da aeronave.
É claro que, se a duração dos dias tendia a augmentar depois do solsticio de 21 de junho do inverno austral, aquella duração diminuia n’uma proporção bem mais consideravel, pelo facto do _Albatrós_ descer para as regiões polares.
Em consequencia d’isto, pouca claridade, por sobre aquella parte do Pacifico meridional que confina com o circulo antarctico. D’ahi pouca luz, e com a noite, um frio ás vezes intensissimo. Para resistir a elle, era necessario vestirem-se á maneira dos esquimáos, ou dos fuegios. Ora como estes arranjos não faltavam a bordo, os dois collegas, bem enroupados, puderam permanecer na plataforma, com a idéa no seu plano, e não buscando senão ensejo de o pôr em execução. De resto, elles viam pouco Robur, e, desde as ameaças trocadas de parte a parte, no paiz de Tombuctú, o engenheiro e elles não se falavam.
Quanto a Fricollin, não sahia da cozinha, onde François Tapage lhe concedia uma generosa hospitalidade, sob condição de que faria de ajudante de cozinheiro. Como isto tinha as suas vantagens, o negro tinha-o acceitado de muito boa vontade, com permissão de seu amo. Além d’isso, fechado d’aquelle modo, elle não via nada do que se passava lá fora, e podia reputar-se livre de perigo. Pois não se parecia elle com o abestruz, não só no physico, pelo seu prodigioso estomago, mas no moral pela sua rara estupidez?
Para que ponto do globo ia agora dirigir-se o _Albatrós_? Seria admissivel que, em pleno inverno, se aventurasse por sobre os mares austraes ou continentes do polo? N’aquella atmosphera glacial não correspondia isso á morte do pessoal, a uma horrivel morte pelo frio, admittindo mesmo que os agentes chimicos das pilhas pudessem resistir a uma tal congelação? Que Robur tentasse transpôr o polo durante a estação quente, vá! Mas no meio d’essa noite permanente do inverno antarctico, seria o acto de um louco!
Assim raciocinavam o presidente e o secretario do Weldon-Institute, agora levados ao extremo d’aquelle continente do Novo Mundo, que é ainda a America, mas não a dos Estados Unidos!
Sim! o que ía fazer esse intratavel Robur? Não teria chegado o momento de terminar a viagem destruindo o apparelho voador?
O certo é que durante aquelle dia de 24 de julho, o engenheiro teve frequentes entrevistas com o seu contramestre. Muitas vezes os dois consultaram o barometro, não para calcular d’esta vez a altura que haviam attingido, mas para tomar nota das indicações relativas ao tempo. Evidentemente, alguns symptomas se produziam que era necessario ter em consideração.
Uncle Prudent julgou tambem notar que Robur buscava inventariar o que lhe restava de provisões de toda a especie, tanto para entreter as machinas propulsivas e suspensivas da aeronave, como tambem as machinas humanas, cujo funccionamento não devia ser menos garantido a bordo.
Tudo isto parecia annunciar projectos de regresso.
—De regresso!... dizia Phil Evans. Mas para onde?
—Onde esse Robur se possa abastecer, respondeu Uncle Prudent.
—Deve ser alguma ilha perdida no Oceano Pacifico, com uma colonia de scelerados, dignos do seu chefe.
—É tambem a minha opinião, Phil Evans. Parece-me, com effeito, que elle pretende dirigir-se para o oéste, e, com a velocidade de que dispõe, terá alcançado rapidamente o seu fim.
—Mas não poderemos pôr os nossos projectos em execução ... se elle lá chega ...
—Não chegará, Phil Evans!
Evidentemente, os dois collegas tinham em parte adivinhado os planos do engenheiro. Durante aquelle dia, era fora de duvida que o _Albatrós_, depois de ter avançado para os limites do Mar Atlantico, ía definitivamente retrogradar. Quando os gelos tivessem invadido aquellas paragens até o cabo Horn, todas as baixas regiões do Pacifico seriam cobertas de _icefields_ e de _icebergs_. A grande massa de gelo formaria então uma barreira impenetravel aos mais solidos navios, como aos mais intrepidos navegadores.
É certo que, batendo mais rapidamente o vôo, o _Albatrós_ poderia transpôr as montanhas de gelo, accumuladas sobre o Oceano, depois as montanhas de terra, erguidas sobre o continente do polo, se é um continente que forma a calote austral. Mas aventurar-se-hia a affrontar, no meio da noite polar, uma atmosphera que pode esfriar até sessenta graus abaixo de zero? Não, decerto!
De modo que depois de ter avançado uns cem kilometros ao sul, o _Albatrós_ obliquou para o oéste, de maneira a tomar a direcção de alguma ilha desconhecida dos grupos do Pacifico.
Por baixo d’elles extendia-se a planicie liquida, lançada entre a terra americana e a terra asiatica. N’aquelle momento, as aguas tinham tomado essa côr singular que lhes faz dar o nome de “mar de leite„. Na meia sombra que não conseguiam dissipar os raios enfraquecidos do sol, toda a superficie do Pacifico era de um branco leitoso. Dir-se-hia um vasto campo de neve, cujas ondulações não eram sensiveis, vistas d’aquella altura. Tivesse aquella porção de mar sido solidificada pelo frio, e convertida n’um immenso _icefield_, e o seu aspecto não seria outro.
Como se sabe, são myriades de particulas luminosas, de corpusculos phosphorecentes que produzem aquelle curiosissimo phenomeno. O que podia surprehender era que se encontrasse aquelle conjunto opalescente fora das aguas do Oceano Indico.
De subito o barometro, depois de se ter mantido assaz alto durante as primeiras horas do dia, cahiu bruscamente. Havia evidentemente symptomas com que um navio se poderia preoccupar, mas que a aeronave desprezava. Comtudo, como era de suppôr, alguma formidavel tempestade tinha recentemente abalado as aguas do Pacifico.
Era uma hora depois do meio dia quando Tom Turner, approximando-se do engenheiro, lhe disse:
—Master Robur, repare n’aquelle ponto negro do horisonte!... Acolá ... perfeitamente ao norte de nós!... Não poderá ser um rochedo?
—Não, Tom, não ha terras d’aquelle lado.
—N’esse caso deve ser um navio ou pelo menos um barco.
Uncle Prudent e Phil Evans, que tinham ido para a frente, olhavam o ponto indicado por Tom Turner.
Robur pediu o seu oculo de mar, e poz-se a observar attentamente o objecto apontado.
—É um barco, disse elle, e iria affirmar que traz homens a bordo.
—Naufragos? exclamou Tom.
—Sim! naufragos, que terão sido forçados a abandonar o seu navio, continuou Robur; infelizes, que não sabem bem onde é a terra, e que morrem talvez de fome e de sêde. Pois bem! não se dirá que o _Albatrós_ não procurou ir em auxilio d’elles!
Foi dada uma ordem ao machinista e aos seus dois ajudantes. A aeronave começou a baixar lentamente. A cem metros parou, e os seus propulsores impelliram-n’a rapidamente para o norte.
Era effectivamente um barco. A véla batia sobre o mastro. Á falta de vento não sabia andar, e decerto que a bordo ninguem tinha fôrças para pegar n’um remo.
No fundo estavam cinco homens, adormecidos ou immobilisados pela fadiga, a não ser que estivessem mortos.
O _Albatrós_ chegou acima d’elles e desceu lentamente.
Atraz d’aquella embarcação, puderam ler então o nome do navio a que ella pertencia; a era _Jeannette_, de Nantes, navio francez, que a sua tripulação teria naturalmente tido que abandonar.
—Eh! gritou Tom Turner.
E deviam tel-o ouvido, porque a embarcação não estava oitenta pés acima d’elles.
Nada de resposta.
—Um tiro! disse Robur.
A ordem foi executada, e a detonação propagou-se longamente á superficie das aguas.
Viram então um dos naufragos erguer-se difficultosamente, com os olhos esgazeados, um verdadeiro rosto de esqueleto.
Dando com o _Albatrós_ teve primeiramente um gesto de espanto.
—Nada receie! gritou Robur em francez. Vimos em vosso soccorro! Quem sois?
—Marinheiros da _Jeannette_, barca de que eu era o immediato, respondeu o homem. Ha quinze dias que a deixámos ... na occasião de sossobrar!... Não temos nem agua nem viveres!...
Os outros quatro naufragos tinham-se levantado a pouco e pouco. Lividos, exhaustos, n’um horroroso estado de magreza, levantavam as mãos para a aeronave.
—Attenção! gritou Robur.
Uma corda se desenrolou da plataforma, e uma celha, contendo agua dôce, foi arreada até á embarcação.
Os desgraçados lançaram-se a ella e beberam com uma avidez que incommodava vêr.
—Pão!... pão!... gritaram elles.
Immediatamente, um cabaz contendo alguns viveres, alimentos de conserva, um frasco de brandy, e boa porção de café, desceu até elles. O immediato viu-se grego para os conter no mitigamento da fome.
E elles perguntaram depois:
—Onde estamos?
—A cincoenta milhas da costa do Chili, e do archipelago dos Chonas, respondeu Robur.
—Muito obrigado. Mas falta-nos o vento e ...
—Vamos dar-vos reboque!
—Quem sois?
—Gente que se sente feliz por vos ter vindo em auxilio, respondeu apenas Robur.
O immediato comprehendeu que havia um incognito a respeitar. E quanto á machina volante, seria possivel que ella tivesse fôrça bastante para os rebocar?
Sim! e a embarcação, presa a um cabo de uns cem pés de comprimento, foi arrastada para o léste por um poderoso apparelho.
Ás dez da noite, a terra estava á vista, ou antes viam-se brilhar as luzes que indicavam a sua situação. Viera a tempo aquelle auxilio do céo, para os naufragos da _Jeannette_, e estes tinham bem de que pensar que na sua salvação havia o quer que fôsse de miraculoso.
Depois, tendo-os conduzido á entrada das passagens das ilhas Chonas, Robur gritou-lhes para largarem o reboque, o que elles fizeram abençoando os seus salvadores, e o _Albatrós_ retomou o seu amplo vôo.
Decididamente tinha muito de bom essa aeronave, que assim podia vir em auxilio de marinheiros perdidos no alto mar. Qual o balão, por mais aperfeiçoado que elle fôsse, que seria capaz de prestar aquelle serviço? E de si para si Uncle Prudent e Phil Evans tiveram de concordar n’isto, apesar de estarem na disposição de espirito de negar a propria evidencia.
O mar sempre mau. Symptomas assustadores. O barometro desceu ainda alguns millimetros. Rabanadas terriveis de vento, que silvava violentamente nos engenhos helicoptericos do _Albatrós_, e que parava n’um momento.
N’estas circumstancias, um navio de véla teria já dois rizes no mastro da gavea, e um na mesena. Tudo indicava que o vento ia saltar para o noroéste. O tubo do storm-glass começava a perturbar-se de um modo inquietador.
Á uma da manhã, o vento fixou-se com uma extrema violencia. Comtudo, apesar de vir de frente, a aeronave, movida pelos seus propulsores, poude ainda vencel-o, e subir, na razão de quatro a cinco leguas por hora. Mas não se lhe podia exigir mais.
Evidentemente preparava-se um cyclone, o que é raro n’aquellas latitudes. Chamem-lhe furacão no Atlantico, tufão nos mares da China, simún no Sahará, redemoinho na costa occidental, é sempre uma tempestade em vortice, e temivel. Sim! temivel para todo o navio, apanhado por esse movimento giratorio, que cresce da circumferencia ao centro e não deixa senão um unico logar calmo, no meio d’esse Maelström dos ares.
Sabia-o Robur. Sabia tambem que era prudente fugir a um cyclone, sahindo da sua zona de attracção por uma ascensão até as camadas superiores. Até então tinha-se sahido sempre bem. Mas não havia hora a perder, nem um minuto talvez!
Com effeito, a violencia do vento crescia sensivelmente. As ondas, descoroadas nas suas cristas, faziam correr uma poeira branca á superficie do mar. Era claro tambem que o cyclone, deslocando-se, ia cair nas regiões do polo com uma velocidade horrivel.
—Para cima! disse Robur.
—Para cima! respondeu Turner.
Um extremo poder ascencional foi communicado á aeronave, e ella subiu obliquamente, como se seguisse um plano que se tivesse inclinado para o sudoéste. N’aquelle momento o barometro baixou mais ainda, uma quéda rapida da columna de mercurio de oito e depois de doze millimetros. De subito o _Albatrós_ parou no seu movimento ascencional.
A que causa era devida aquella paragem? Evidentemente a um pêso de ar, a uma formidavel corrente, que, propagando-se de alto abaixo, diminuia a resistencia do ponto de apoio.
Quando um vapor sobe um rio, o seu helice produz um trabalho menos util quanto a corrente tende a fugir sob as suas azas.
O recuo é então consideravel, e pode mesmo tornar-se egual á corrente. Assim acontecia ao _Albatrós_ n’aquelle momento.
Comtudo Robur não abandonou a partida. Os seus setenta e quatro helices, actuando n’uma simultaneidade perfeita, foram levados ao seu maximo de rotação. Mas, irresistivelmente attrahido pelo cyclone, o apparelho não se lhe podia escapar. Durante curtas calmarias, retomava o seu movimento ascencional. Depois o grande pêso fazia-o arrastar de novo, e ía abaixo como um navio que vae ao fundo. E não era isso afundar-se n’esse mar aereo, no meio de uma noite onde os pharoes da aeronave não rompiam a escuridão senão n’um raio muito restricto?
Evidentemente, se a violencia do cyclone crescesse, o _Albatrós_ não seria mais que um feixe de palha, sem direcção, levado n’um d’esses turbilhões que arrancam arvores pelas raizes, lançam pelos ares os tectos e derruem muralhas.
Robur e Tom não podiam falar senão por signaes. Uncle Prudent e Phil Evans, agarrados ao parapeito, perguntavam a si proprios se o meteoro lhes não iria fazer a vontade destruindo a aeronave, e com elle o inventor e todo o segredo da sua invenção. Mas já que o _Albatrós_ não conseguia desembaraçar-se verticalmente d’aquelle cyclone, parecia que havia apenas uma cousa a fazer: alcançar o centro, relativamente socegado, onde seria mais senhor das suas manobras. Sim! mas para o conseguir, seria preciso romper aquellas correntes circulares que o arrastavam á peripheria.
Possuia elle sufficiente fôrça mechanica para se deslocar?
De subito a parte superior da nuvem desfez-se. Os vapores condensaram-se em torrentes de chuva.
Eram duas da manhã. O barometro, oscillando com deslocamentos de doze millimetros, cahira então a 709, o que, na realidade, devia ser diminuido da baixa devida á altura alcançada pela aeronave por sobre o nivel do mar.
Phenomeno rarissimo: aquelle cyclone formára-se fora das zonas que elle mais habitualmente percorre, isto é, entre o 30.° parallelo norte e o 26.° parallelo sul. Talvez isto explique como aquella tempestade girante se transformou subitamente n’uma tempestade rectilinea. Mas que furacão!
Tom Turner puzera-se ao leme. Era necessaria toda a sua destreza para não dar guinadas de um lado para o outro.