Robur, o Conquistador

Part 10

Chapter 103,853 wordsPublic domain

Robur avançou para os dois collegas. A um gesto seu Tom Turner e alguns dos seus camaradas tinham acudido. Sim! o engenheiro tivera um desejo furioso de pôr em execução a sua ameaça; mas sem duvida, no receio de succumbir, entrou precipitadamente no seu beliche.

—Ora bem! disse Phil Evans.

—E o que elle não se atreveu a fazer, respondeu Uncle Prudent, atrever-me-hei eu a fazel-o! sim, fal-o-hei!

N’aquelle momento, a população do Tombuctú reunia-se nas praças, nas ruas, sobre os terraços construidos em amphitheatro. Nos ricos bairros de Sankore e de Sarahama, como nas miseraveis choças conicas do Ragnidi, os padres lançavam do alto dos minaretes as suas mais violentas maldições sobre o monstro aereo. Era mais inoffensivo isso que balas de espingarda.

Assim foi até o porto de Kabara, situado no cotovello formado pelo Niger, e onde o pessoal das flotilhas foi posto em movimento. Se o _Albatrós_ tivesse pousado em terra, teria sido feito em pedaços.

Durante alguns kilometros, bandos atordoadores de cegonhas, de francolins, e de ibis o escoltaram, luctando em velocidade com elle; mas o seu vôo rapido em breve os poz a distancia.

Quando veiu a noite, foram os ares atordoados com o mugir de numerosos rebanhos de elephantes e bufalos, que percorriam aquelle territorio, cuja fecundidade é verdadeiramente maravilhosa.

Durante vinte e quatro horas, toda a região, encerrada entre o meridiano zero e o segundo grau no colchete do Niger, se desenrolou sob o _Albatrós_.

Na realidade, se algum geographo tivesse tido á sua disposição um tal apparelho, com que facilidade poderia proceder ao levantamento topographico d’aquelle paiz, obter as cotas da altitude, fixar o curso dos rios e dos seus affluentes, determinar a posição das cidades e das aldeias! E desappareceriam então dos mappas da Africa central esses claros a tintas pallidas, essas linhas a pontos, e essas designações vagas que constituem o desespero dos cartographos!

No dia 11, pela manhã, o _Albatrós_ transpoz as montanhas da Guiné septentrional, apertada entre o Sudão e o golpho que usa o seu nome. No horisonte perfilavam-se confusamente os Montes Kong do reino de Dahomey.

Depois de haverem sahido de Tombuctú, Uncle Prudent e Phil Evans haviam podido notar que a direcção tinha sido sempre de norte a sul. D’ahi a conclusão de que, se a direcção se não modificasse, encontrariam, seis graus além, a linha equinoxial. Iria ainda o _Albatrós_ abandonar os continentes e lançar-se, não sobre o mar de Behring, ou mar Caspio, ou mar do Norte, ou Mediterraneo, mas por sobre o Oceano Atlantico?

Esta perspectiva não era para tranquillisar os dois collegas, cujas probabilidades de fuga se tornavam então nullas.

Comtudo o _Albatrós_ caminhava de vagar, como se hesitasse no acto de deixar a terra africana.

Quereria o engenheiro Robur voltar atraz? Não! Mas a sua attenção era particularmente atrahida por aquelle paiz que elle então atravessava.

Sabe-se, e elle sabia tambem, o que era o reino de Dahomey, um dos mais poderosos do littoral occidental da Africa. Apesar de assaz forte para poder luctar com o seu vizinho, o reino dos Achantis, os seus limites são comtudo restrictos, pois que não conta mais de cento e vinte leguas de sul a norte e sessenta de léste a oéste; mas a sua população comprehende de setecentos a oitocentos mil habitantes, depois que annexou a si os territorios independentes de Ardrah e de Wydah.

Apesar de não ser grande, aquelle reino de Dahomey, tem dado muitas vezes que falar de si. É celebre pelas cruezas horriveis que assignalam as suas festas annuaes, pelos seus sacrificios humanos, e hecatombes espantosas, destinadas a honrar o soberano que se fina e o que o substitue. É mesmo de boa cortezia que quando o rei de Dahomey recebe a visita de algum alto personagem ou de um embaixador extrangeiro, lhe faça a surpresa de alguma duzia de cabeças cortadas em sua honra, e cortadas pelo ministro da justiça, o “minghan„, que desempenha perfeitamente as suas funcções de carrasco.

Ora na épocha em que o _Albatrós_ passava a fronteira do Dahomey, acabava de morrer o soberano Bahadú, e toda a população ía proceder á enthronisação do seu successor.

D’ahi um grande movimento em todo o paiz, movimento que não passára desapercebido a Robur.

Com effeito, longas filas de dahomeanos dos campos se dirigiam então para Abomey, capital do reino. Estradas bem tratadas, através vastas planicies cobertas de hervas gigantes, numerosos campos de mandioca, magnificos bosques de palmeiras, coqueiros, mimosas, laranjeiras, mangueiras, tal era o paiz, cujos perfumes subiam até o _Albatrós_, emquanto que, aos milhares, aos milheiros mesmo, papagaios e cardeaes erguiam vôo de todo aquelle conjunto de verdura.

O engenheiro, curvado sobre o parapeito, absorto nas suas reflexões, poucas palavras trocava com Tom Turner.

Não parecia tambem que o _Albatrós_ tivesse o privilegio de attrahir a attenção d’aquellas massas movediças, as mais das vezes invisiveis sob a abobada impenetravel das arvores. Isso provinha, decerto, de elle se conservar a uma grande altura no meio de ligeiras nuvens.

Pelas onze da manhã appareceu a capital, no seu cinto de muralhas, defendida por um fosso medindo doze milhas em volta, ruas largas e regularmente traçadas sobre um solo chato, grande praça cujo lado norte é occupado pelo palacio do rei.

Este vasto conjunto de construcções é dominado por um terraço, a pequena distancia da casa dos sacrificios. Durante os dias de festa, é do alto d’este terraço que se lançam ao povo prisioneiros mettidos em cestos de junco, e pode-se bem imaginar, infelizmente, a furia com que esses infelizes são feitos em pedaços.

N’uma parte dos pateos que dividem o palacio do soberano, estão alojados quatro mil guerreiros, um dos contingentes do exercito real, dos mais corajosos.

Se é ponto contestavel que haja amazonas no rio d’este nome, não acontece o mesmo no Dahomey. Umas trazem camisa azul, facha azul e vermelha, calção branco raiado de azul, barrete branco redondo, cartucheira presa ao cinto; outras, caçadoras de elephantes, estão armadas com uma pesada carabina, um punhal de lamina curta, e duas pontas de antilope presas á cabeça por um circulo de ferro; umas, as artilheiras, usam tunica parte azul parte vermelha, e por arma um bacamarte, com velhos canos de ferro fundido; outras, finalmente, o batalhão de raparigas, usam tunicas azues, e calções brancos, e são verdadeiras vestaes, puras como Diana, e como ella, armadas de arco e flecha.

Junte-se a estas amazonas cinco a seis mil homens em calças, em camisas de algodão, com um panno em roda da cintura, e temos passado em revista o exercito dahomeano.

Abomey estava n’esse dia absolutamente deserta. O soberano, o pessoal regio, o exercito masculino e feminino, a população, tinha tudo deixado a capital para invadir, a algumas milhas de lá, uma vasta planicie cercada de bosques magnificos.

Era sobre essa planicie que se devia realisar o reconhecimento do novo rei. Era alli que milhares de prisioneiros, feitos nas ultimas razzias, íam ser immolados em sua honra.

Eram cêrca de duas horas quando o _Albatrós_, chegando á altura d’essa planicie, começou a descer no meio de alguns vapores que o occultavam á vista dos dahomeanos.

Eram uns sessenta mil, vindos de todos os pontos do reino, de Widah, de Kerapay, de Ardrah, de Pombory, das aldeias mais afastadas.

O novo rei, um vigoroso rapagão, chamado Bou-Nadi, da edade de vinte e cinco annos, occupava um morro ensombrado por um grupo de arvores, de amplas ramagens. Em volta d’elle a sua nova côrte, o seu exercito masculino, as suas amazonas, todo o seu povo.

Na base do monticulo, uns cincoenta musicos tocando instrumentos barbaros, dentes de elephantes produzindo sons roufenhos, tambores de pelle de gamo, cabaças, guitarras, campainhas vibradas com um badalo de ferro, flautas de bambu, cujo som agudo dominava todo o conjunto. Depois, a cada instante, descargas de peças, cujos reparos estremeciam, com risco de esmagar os artilheiros; finalmente uma algazarra geral e clamores tão intensos, que dominavam os tiros de polvora.

N’um angulo da planicie, sob a guarda dos soldados, estavam reunidos os captivos encarregados de acompanhar no outro mundo o rei defunto, a quem a morte não deve fazer perder os privilegios de soberania. Nas exequias de Glozo, pae de Bahadú, seu filho enviára-lhe tres mil captivos. Bou-Nadi não podia fazer menos pelo seu antecessor. Pois não eram precisos numerosos mensageiros para reunir não só os Espiritos, mas todos os hospedes do céo, convidados a formar o cortejo do monarcha divinisado?

Durante uma hora não houve mais do que discursos, rengas, phrases cortadas pelas dansas executadas não só pelas bailadeiras de officio, mas tambem pelas amazonas, que n’ellas desenvolvem uma graça toda bellica.

Mas approximava-se o momento da hecatombe. Robur, que conhecia os sanguinarios costumes de Dahomey, não perdia de vista os captivos, homens, mulheres, creanças, reservados para a carnificina.

O minghan estava de pé sobre o outeiro; brandia o sabre de executor, de lamina curva, encimado por uma ave de metal, cujo pêso torna mais certeiro o golpe.

D’esta vez não estava só. Seria insufficiente para a matança. Junto d’elle estavam agrupados uns cem carrascos, destros em decepar cabeças de um só golpe.

No entretanto, o _Albatrós_ approximava-se a pouco e pouco, obliquamente, moderando os seus helices suspensivos e propulsivos. Breve sahiu da camada de nuvens que o occultava a menos de cem metros da terra, e, pela primeira vez, appareceu.

Ao contrario do que succedia habitualmente, os ferozes indigenas não viram n’elle mais do que um ser celeste, descido expressamente para prestar homenagem ao rei Bahadú.

Enthusiasmo indescriptivel, chamamentos interminaveis, supplicas ruidosas, preces geraes, dirigidas a esse sobrenatural hippogrifo que vinha decerto receber o corpo do finado rei para o transportar ás alturas do céo dahomeano.

N’esse momento a primeira cabeça voava sob a espada do minghan. Depois, outros prisioneiros foram trazidos aos centos, deante dos seus horriveis carrascos.

De subito um tiro partiu do _Albatrós_. O ministro da justiça cahiu, dando com o rosto em terra.

—Boa pontaria, Tom! disse Robur.

—Pás!... Para o monte! respondeu o contramestre.

Os seus camaradas, armados como elle, estavam prestes ao primeiro signal do engenheiro.

Mas, fizera-se um reviramento na multidão. Havia comprehendido. Aquelle monstro alado, não era um Espirito bemfazejo, mas um Espirito hostil a esse bom povo de Dahomey. De modo que em seguida á quéda do minghan, gritos de vingança se ergueram de toda a parte. Quasi immediatamente, rompia uma fusilaria sobre a planicie.

Aquellas ameaças não impediram o _Albatrós_ de descer audaciosamente a menos de cento e cincoenta pés do solo. Uncle Prudent e Phil Evans, fôssem quaes fôssem os seus sentimentos para com Robur, não podiam deixar de se associar a uma obra tão humanitaria.

—Sim! livremos os prisioneiros! exclamaram elles.

—É essa a minha tenção! respondeu o engenheiro.

E as espingardas de repetição do _Albatrós_, nas mãos dos dois collegas, como tambem nas mãos da tripulação, começaram um fogo tal, que nenhuma bala se perdeu no meio d’aquella massa humana. E mesmo a pequena peça de artilharia de bordo, assentada no angulo mais apertado, enviou a proposito algumas caixas de metralha, que fizeram maravilhas!

Immediatamente os prisioneiros, sem comprehenderem nada d’esse soccorro que lhes vinha do alto, cortaram as prisões, emquanto os soldados respondiam ao fogo da aeronave. O helice anterior foi atravessado por uma bala, emquanto que alguns outros projectis lhe batiam em pleno casco. Até Fricollin, escondido no fundo do seu beliche, esteve para ser alcançado por uma bala através a parede do compartimento.

—Ah! querem experimentar! exclamou Tom Turner.

E descendo ao deposito de munições, voltou com uma duzia de cartuchos de dynamite, que distribuiu pelos seus collegas. A um signal de Robur, aquelles cartuchos foram atirados para cima do outeiro, e, cahindo no solo, rebentaram como pequenas granadas.

Que enorme derrota do rei, da côrte, do exercito, do povo, tomados de um espanto bem justificavel por uma tal intervenção! Todos haviam buscado refugio debaixo das arvores, emquanto que os prisioneiros fugiam, sem ninguem pensar em os perseguir.

Assim foram perturbadas as festas em honra do novo rei de Dahomey. Assim Uncle Prudent e Phil Evans tiveram de reconhecer de que fôrça dispunha um tal apparelho e que serviços elle podia prestar á humanidade.

Em seguida o _Albatrós_ subiu tranquillamente na zona média; passou por cima do Wydah e tinha perdido em breve de vista aquella costa selvagem que os ventos do sudoéste envolveram n’uma ressaca inaccessivel.

Pairava sobre o Atlantico.

CAPITULO XIII

DE COMO UNCLE PRUDENT E PHIL EVANS ATRAVESSAM O OCEANO, SEM ENJOAR

Sim o Atlantico! Os receios dos dois collegas tinham-se realisado. Não parecia que Robur experimentasse a menor inquietação em se aventurar por sobre o vasto oceano. Isso não o preoccupava, nem aos seus companheiros, que deviam estar habituados áquellas travessias. Estavam já todos nos seus postos. Nenhuma insomnia lhes perturbou o repouso.

Para onde ia o _Albatrós_? Como o engenheiro dissera, iria dar mais de uma volta ao globo? Em todo o caso, era necessario que aquella jornada terminasse n’algum ponto. Que Robur passasse a vida no ar, a bordo da aeronave, e nunca viesse a terra, era inadmissivel. Como havia de elle renovar as suas provisões de viveres e munições, não falando já nas substancias necessarias ao funccionamento das machinas? Era de todo o ponto preciso que elle tivesse um retiro, um porto de descanço, se quizerem, em algum sitio ignorado e inaccessivel do globo, onde o _Albatrós_ pudesse abastecer-se. Que elle tivesse quebrado as relações com os habitantes da terra, vá! mas com todo o ponto da superficie terrestre, não podia ser!

Sendo assim, onde era esse ponto? O que levára o engenheiro a escolhel-o? Seria alli esperado por alguma pequena colonia de que elle era o chefe? Podia recrutar alli um novo pessoal? E depois, de que recursos dispunha para ter podido fabricar um apparelho tão dispendioso, sobre cuja construcção tinha sido guardado um tal segredo?

Quanto ao passadio, parecia não ser muito caro. A bordo vivia-se em commum, uma vida de familia, como pessoas felizes que não escondem o seu bem estar. Mas afinal, quem era esse Robur? D’onde vinha? Qual era o seu passado? Outros tantos enigmas impossiveis de resolver, e cuja decifração decerto não seria nunca dada por aquelle que era d’elles o assumpto principal.

Não é portanto para admirar que esta situação, feita de problemas insoluveis, trouxesse em sobresalto os dois collegas. Sentir-se assim arrebatado no desconhecido, não vêr a sahida de uma tal aventura, não saber mesmo se ella teria um fim; serem condemnados á aviação perpetua, não era na realidade cousa para fazer perder a paciencia ao presidente e ao secretario do Weldon-Institute?

Desde 11 de julho que o _Albatrós_ seguia por sobre o Atlantico. No dia seguinte, quando o sol appareceu, erguia-se sobre essa linha circular onde veem confundir-se o céo e a agua. Nenhuma terra á vista, por mais vasto que fôsse o campo de visão.

A Africa desapparecêra no horisonte do norte.

Quando Fricollin se aventurou a sahir do seu beliche, quando viu todo esse mar por baixo d’elle, o mêdo tomou-o rapidamente. Por baixo, não é bem o termo; melhor era dizer em volta d’elle, porque, para um observador collocado nas zonas elevadas, o abysmo parece envolvel-o de todos os lados, e o horisonte, levantado no seu nivel, parece recuar, sem nunca se lhe poder attingir o termo.

É verdade que Fricollin não conhecia a explicação physica d’aquelle effeito, mas sentia-a moralmente. Isso bastava para provocar n’elle “esse horror do abysmo„, de que certas naturezas, aliás corajosas, se não podem libertar. Em todo o caso, por prudencia, o negro não se expandiu em recriminações. Com os olhos fechados, os braços a tactear, entrou para o beliche com a perspectiva de alli ficar muito tempo.

Com effeito, em tresentos e sessenta e quatro milhões cincoenta e sete mil novecentos e doze metros quadrados[2] que a superficie dos mares representa, o Atlantico occupa mais da quarta parte. Ora não parecia que o engenheiro estivesse agora com pressa. De modo que não tinha dado ordem para se ir com toda a velocidade.

Tambem o _Albatrós_ não poderia ter toda a velocidade que trouxera por sobre a Europa, a razão de duzentos kilometros por hora. N’aquella região onde dominam os ventos sudoéste, havia vento pela frente, e apesar de ser fraco ainda, não deixava de ser um obstaculo.

N’aquella zona intertropical, os mais recentes trabalhos dos meteorologistas, apoiados n’um grande numero de observações, permittiram reconhecer que havia lá uma convergencia de ventos, quer para o Sahará, quer para o golpho do Mexico. Fora da região das calmarias, ou veem de oéste e se dirigem para Africa, ou veem de léste e se dirigem para o Novo Mundo,—pelo menos durante a estação quente.

O _Albatrós_ não procurou pois luctar contra os ventos contrarios, com toda a fôrça dos seus propulsores. Contentou-se com um andamento moderado, que excedia comtudo o dos mais rapidos vapores transatlanticos.

No dia 13 de julho a aeronave atravessou a linha equinoxial, o que foi annunciado a todo o pessoal.

Foi assim que Uncle Prudent e Phil Evans souberam que acabavam de deixar o hemispherio boreal para entrar no hemispherio austral.

Esta passagem da linha não exigiu nenhuma d’essas experiencias e ceremonias de que ella é acompanhada a bordo de certos navios de guerra e do commercio.

Apenas François Tapage se contentou com entornar uma porção de agua sobre o pescoço de Fricollin; mas como esse baptismo foi seguido de alguns copos de gin, o negro declarou-se prompto a passar a linha todas as vezes que quizessem, mas não havia de ser no dorso de uma ave mechanica que lhe não inspirava grande confiança.

Na manhã de 15, o _Albatrós_ enfiou por entre as ilhas da Ascensão e de Santa Helena,—mais perto d’esta ultima, cujos terrenos altos se mostravam no horisonte havia algumas horas.

Ora evidentemente, se no tempo em que Napoleão estava em poder dos inglezes, existisse um apparelho analogo ao do engenheiro Robur, Hudson Lowe, a despeito das suas insultantes precauções, podia bem vêr fugir-lhe pelos ares o seu illustre prisioneiro!

Nos dias 16 e 17 de julho, um curioso phenomeno de clarões crepusculares se produziu, ao cahir da tarde. N’uma latitude elevada, podia-se acreditar na apparição de uma aurora boreal. O sol, no occaso, projectou raios multicôres, alguns dos quaes se impregnaram de uma ardente côr verde.

Seria uma nuvem de poeira cosmica que a terra atravessava n’aquelle momento e que reflectia os ultimos clarões do dia? Alguns observadores deram aquella explicação aos clarões crepusculares. Mas essa explicação não subsistiria se esses sabios estivessem a bordo da aeronave.

Feito o exame, foi reconhecido que estavam em suspensão no ar pequenos crystaes de pyroxena, globos vitreos, finas particulas de ferro magnetico, analogas ás materias que lançam certas montanhas ignivomas. Portanto, não restava duvida alguma que um vulcão em erupção não tivesse projectado no espaço aquella nuvem, cujos crepusculos crystallinos produziam o phenomeno desejado,—nuvem que as correntes aereas tinham então em suspensão por sobre o Atlantico.

Além disso, durante aquella parte da viagem, muitos outros phenomenos foram observados. Por diversas vezes, certas nuvens davam uma côr parda de um singular aspecto; depois, se se passava aquella nuvem de vapores, a sua superficie apparecia cheia de volutas deslumbrantes, de um branco crú, semeado de pequenas palhetas solidificadas,—o que, n’aquella latitude, não se pode explicar senão por uma formação identica á do graniso.

No dia 17 para 18, appareceu o arco iris lunar, de um amarello esverdeado, em consequencia da posição da aeronave entre a lua cheia e uma rêde de chuva miuda, que se volatisava antes de ter alcançado o mar.

Por estes diversos phenomenos, podia-se concluir uma proxima mudança de tempo? Talvez. Seja como fôr, o vento que soprava de sudoéste, desde que haviam sahido de Africa, começava a serenar nas regiões do equador. N’essa zona tropical, fazia um calôr extremo. Robur foi portanto buscar a frescura nas camadas mais altas.

Era além d’isso necessario abrigarem-se dos raios do sol, cuja projecção directa não se poderia supportar.

Esta modificação nas correntes aereas fazia decerto presentir que outras condições climatericas se apresentariam para além das regiões equinoxiaes. É necessario observar, além d’isso, que o mez de julho do hemispherio austral é o mez de janeiro do hemispherio boreal, isto é, o coração do inverno. O _Albatrós_, se descesse mais para o sul, ia soffrer-lhe os effeitos.

Além de que, o mar “sentia isso„, como dizem os marinheiros. No dia 18 de julho, para além do Tropico do Capricornio, manifestou-se um phenomeno, que teria produzido um certo temor a um navio.

Uma extranha successão de laminas luminosas se espalhavam á superficie do oceano com uma rapidez tal, que se não podia calcular em menos de sessenta milhas por hora. Estas laminas agitavam-se a uma distancia de oitenta pés uma da outra, traçando longos sulcos de luz. Com a noite que começava a vir, um intenso reflexo subia até o _Albatrós_. D’esta vez, podia ser tomado por algum bolide inflammado. Jámais Robur tivera occasião de pairar sobre um mar de fogo,—fogo sem calor, que elle não tinha necessidade de evitar, elevando-se nas alturas do céo.

A electricidade devia ser a causa d’este phenomeno, porque não podia ser attribuido á presença de um baixio de desova de peixes ou a uma chusma d’esses animalculos, cuja accumulação electrica produz a phosphorescencia.

Isto levava a suppôr que a tensão electrica da atmosphera devia ser então muito consideravel.

E com effeito, no dia seguinte, 19 de julho, qualquer navio se acharia em perigo n’aquelle mar. Mas o _Albatrós_ ria-se dos ventos e das ondas, semelhante á ave poderosa de que elle usava o nome. Se lhe não aprazia passear á superficie das aguas, como as procellarias, podia, como as aguias, procurar nas alturas a tranquillidade e o sol.

N’aquelle momento fôra transposto o 47.° parallelo sul. O dia não durava mais de sete a oito horas. Devia diminuir á proporção que se approximassem das regiões antarcticas.

Cêrca de uma hora da tarde, o _Albatrós_ tinha baixado sensivelmente para buscar uma corrente mais favoravel. Voava por sobre o mar, a menos de cem pés da sua superficie.

O tempo estava calmo. Em certos pontos do céo, grossas nuvens negras, arredondadas na parte superior, terminavam por uma linha rigida, completamente horisontal. D’essas nuvens sahiam protuberancias alongadas, cuja ponta parecia attrahir a agua que refervia por baixo, em forma de sarsa liquida.

De repente esta agua ergue-se, tomando a forma de uma ampulheta.

N’um instante, o _Albatrós_ foi envolvido no turbilhão de uma tromba gigantesca, á qual umas vinte outras, de um negro côr de tinta, vieram juntar-se. Felizmente, o movimento giratorio d’aquella tromba era inverso dos helices suspensivos, sem que estes pudessem ter acção, e a aeronave esteve para ser precipitada no mar; mas poz-se a girar sobre si mesmo, com uma rapidez assombrosa.

Comtudo o perigo era immenso, e talvez impossivel de conjurar, visto que o engenheiro se não podia desembaraçar da tromba, cuja aspiração o retinha, a despeito dos propulsores. Os homens, lançados pela fôrça centrifuga aos dois extremos da plataforma, tiveram de se segurar ao corrimão, para não serem arrebatados.

—Sangue frio! gritou Robur.

Era com effeito necessario, como tambem a paciencia.

Uncle Prudent e Phil Evans, que acabava de deixar o seu beliche, foram impellidos para traz, com risco de serem lançados pela borda fora.