Resumo elementar de archeologia christã

Chapter 9

Chapter 93,659 wordsPublic domain

_O phariseu que empunha a lança e segura a esponja_.--Ha uma piedosa tradição, desde a idade media, em que se diz que o guarda que feriu o Salvador com uma lançada, era um pagão chamado _Longino_, que mais tarde se fizera christão, sendo depois venerado como Santo pela Egreja.

Quasi todos os escriptores ecclesiasticos consideram Longino representado ao lado da Cruz com o typo dos gentios, em quanto que o phariseu que apresentou a Jesu-Christo a esponja embebida em vinagre parece ser um judeu.

_O Sol e a Lua_.--No seculo VI, tambem estes astros começaram a ser representados no sacrificio da crucifixão, vendo-se o Sol á direita e a Lua á esquerda do Senhor.

A presença do Sol e da Lua n'estes primitivos monumentos, parece ter por fim recordar o obscurecimento do Sol e as trevas que subitamente se deram em seguida á morte do Salvador.

No seculo IX, a significação, ainda limitada e puramente historica d'este assumpto, foi amplificada com outra mais allegorica, desde esta epocha. O Sol e a Lua não alludem sómente á obscuridade que envolveu a terra por occasião da morte de Christo, simulam tambem o firmamento assistindo e tomando parte na morte e no triumpho do seu Creador.

N'este mesmo seculo os dois astros são quasi sempre personificados e representados por um homem e uma mulher. A personificação do Sol tem regularmente a cabeça cingida de raios luminosos, a da Lua é em geral encimada por um crescente. Uma e outra teem ás vezes um facho.

_As santas mulheres chegando ao tumulo do Salvador_.--Desde o VI até ao XII seculo, apparece muitas vezes, por debaixo do crucifixo, a approximação, ao tumulo, das tres santas mulheres, Maria Magdalena, Maria, mãe de S. Thiago, e Salomé. Ellas seguram jarros, thuribulos ou outros vasos, e estão diante do Anjo, sentadas, não dentro do sepulchro, como diz o Evangelho, mas diante d'elle. Muitas vezes figuram-se tambem soldados desfallecidos ou adormecidos.

A reproducção d'esta scena na parte inferior da Cruz era para pôr em parallelo a humilhação e a glorificação do Salvador, a sua morte sobre a Cruz e a sua resurreição gloriosa.

_A resurreição dos mortos e a sua sahida do tumulo_.--Durante o seculo IX figurava-se muitas vezes ao pé da Cruz a Resurreição dos mortos que se deu por occasião da morte de Jesus Christo, segundo narra o Evangelho.

Os tumulos d'onde sahiram os resuscitados têem a forma de pequenos edificios, geralmente armados com uma capella, mais raramente d'um frontão triangular ou d'um telhado de duas aguas. Nada havia que mais se prestasse a proclamar a victoria alçada contra a morte de Nosso Senhor expirando sobre a Cruz, como a Resurreição dos mortos.

*Personagens e accessorios allegoricos*

_A Egreja e a Synagoga_. Desde o seculo IX até ao XII encontram-se, sobre a maior parte das representações do Sacrificio da Cruz, personificações da Egreja e da Synagoga. Tinham ellas por fim recordar aos Christãos a reproducção do povo d'Israel e a vocação dos infieis á Fé da Egreja Christã. A Egreja, quasi sempre á direita da Cruz, é representada por uma mulher com uma bandeira e aparando n'um calix o sangue que corre da chaga de Nosso Senhor feita no lado direito. A Synagoga é representada por uma mulher com uma bandeira e tambem ás vezes uma palma. Está collocada á esquerda do Salvador com as costas voltadas para o Senhor, e algumas vezes parece afastar-se lançando olhares d'insulto e de cólera.

_O Oceano e a Terra_.--Os artistas romans collocavam frequentemente sobre o marfim e sobre as miniaturas dos manuscriptos, no pé da Cruz ou inferiormente a toda a composição, as personificações do Oceano e da Terra tiradas da mythologia.

O Oceano, geralmente collocado á direita do Salvador, é representado por um homem barbado, sentado sobre um monstro marinho, ou despejando uma urna; tem na mão um remo, um peixe, uma cornucopia, ou o tridente de Neptuno, e na cabeça chavelhos em fórma de serpentes, e tambem, ás vezes, trazendo azas. Defronte do Oceano acha-se a Terra com a fórma d'uma mulher, semi-nua, segurando, e até amamentando creanças ou serpentes, muito proximo d'ella; ás vezes mesmo, n'uma das mãos, vê-se uma cornucopia.

As personificações do Oceano e da Terra collocavam-se perto da Cruz, primitivamente, como acima dissemos, para exprimir a dôr que a Natureza soffreu com a morte do seu Creador; e mais tarde, para mostrar que todo o Universo partilhou da Redempção operada pela morte do Salvador.

_A mão Divina e a pomba_. Muitas vezes vê-se na extremidade superior da Cruz uma mão, com ou sem nimbo crucifero, parecendo sair das nuvens e segurando uma corôa. Esta mão é o symbolo de Deus Pae, do mesmo modo que a pomba, que se vê sobre algumas Cruzes, symbolisa o Espirito Santo.

_Os Anjos_. Superiormente á travessa horisontal da Cruz e proximo do Sol e da Lua vêem-se ás vezes dois, tres ou quatro anjos, em attitude de adoração. Algumas vezes suspendem sobre a cabeça do Salvador uma corôa. Nos monumentos mais remotos (os do IX seculo), onde mais frequentemente se vêem os anjos, são estes em numero de dois e designados pelos nomes de Miguel e Gabriel: representam a Natureza angelica assistindo á morte do Salvador.

_Os Evangelistas_.--Anteriormente ao IX seculo, nunca se representavam os Evangelistas do lado principal aos crucifixos, mas sim nas quatro extremidades do reverso, tendo no centro a imagem da Santissima Virgem. A razão d'isto é porque n'esta epocha não se admittiam no sacrificio da Cruz senão accessorios puramente historicos.

No VIII seculo, quando na iconographia da Cruz se introduziram as allegorias e os symbolos, tambem appareceram os Evangelistas.

Encontram-se ora por cima dos braços horisontaes da Cruz, com os anjos e os astros, ora nos quatro angulos da cercadura, que forma a moldura da scena principal. Tambem ás vezes se encontram, tanto no IX como no XII seculo, no lado principal dos crucifixos, nas extremidades dos ramos.

_O Calix_. Encontram-se crucifixos em que o _suppedaneum_ é substituido por um calix.

É muito provavel que este calix não seja mais que o _Santo Graal_,[3] tão celebre na idade mèdia. O _Santo Graal_ diz-se que servira á Ceia; foi n'elle que Jesus-Christo transformou o vinho pelo seu proprio sangue.

_Adão sahindo do tumulo_. Esta scena representa-se muitas vezes proximo da Cruz, para significar que a resurreição da carne é uma consequencia da morte de Christo.

O sacrificio da Cruz, desde o IX até ao XII seculo, com os seus accessorios allegoricos e historicos, deve interpretar-se: a Natureza Angelica, Celeste e Terrestre assistindo ao sublime sacrificio do Homem-Deus sobre a Cruz, onde affronta os salutares affectos; a Synagoga reprovada, a Egreja formada, a cabeça da serpente infernal esmagada, o genero humano rehabilitado e recebendo o testemunho da Resurreição da Carne.

_Os crucifixos dos seculos XI e XII_. Existem muitos d'estes crucifixos; apresentam os seguintes caracteres:

A imagem de Christo é, em geral, de cobre vermelho; tem, quasi sempre, os olhos de vidro azul.

_O perisonium_, ou a toalha que cobre o corpo de Christo desde os quadris até aos joelhos, toma ordinariamente a forma d'um saiote cujas orlas são ornadas de perolas. Os Christos dos seculos XI e XII, vestidos de tunica comprida com mangas ou com o _perisonium_ em forma de saiote, que lhe chega até aos pés, são extremamente raros.

_Nos crucifixos do XI seculo_, Christo está muitas vezes coroado com uma especie de gorra ou corôa real. No XII seculo, já a gorra e a corôa se tornam raras desapparecendo completamente no fim d'elle.

_Os braços das cruzes_ que teem imagens de Christo, são geralmente ornados com esmaltes e symbolos, tanto no reverso como na frente principal.

_Cruzes da Paixão e Cruzes da Resurreição_. A Cruz da Paixão é formada por uma haste e uma ou duas travessas e representa ou imita as proporções das differentes partes da Cruz, instrumento de supplicio.

_A Cruz da Resurreição_ é apenas um symbolo da Cruz Real ou da Paixão; é uma pequena cruz na extremidade d'uma haste como a que segura o Divino Cordeiro.

_A Santissima Virgem_. Durante os doze primeiros seculos da nossa era representa-se a Virgem umas vezes sósinha e outras acompanhada do Divino Filho.

_A Virgem sem o Menino Jesus_ tem ordinariamente os braços estendidos e erguidos parecendo orar e perto da cabeça está inscripta a sigla MPOY, isto é: Mãe de Deus. Este modo de representação, muito usado desde o IV até ao VII seculo, deixou comtudo de ser empregado nos seculos seguintes.

_A Virgem com o Menino Jesus_. Ha duas maneiras de representar a Virgem com o Menino. Quando a scena é imaginada para prestar homenagem a Nossa Senhora, diz-se que ella é _poetica_.

Quando os reis magos, por exemplo, vêem trazer os seus presentes a Jesus no collo da Santissima Mãe, a scena é puramente historica.

Durante o periodo Latino e a primeira parte do periodo Roman, o grupo historico é o mais frequente. Vemol-o em differentes scenas da vida do Senhor, principalmente na adoração dos reis Magos.

O grupo poetico póde reduzir-se a dois typos distinctos. O primeiro que chamaremos _grego_ ou _bysantino_, consiste em representar a imagem da Virgem com os braços erguidos como que orando, tendo diante de si o Menino Jesus, lançando a benção, ao modo Grego, com as duas mãos, ou só com a direita. Este typo já se encontra nas catacumbas.

Os Bysantinos empregaram-se durante toda a idade media, e os Gregos ainda hoje se empregam.

_O Guia da pintura_ (manual iconographico, adoptado pelos antigos pintores e ainda hoje seguido pelos Gregos), recommenda que se represente Nossa Senhora com as mãos erguidas e Christo lançando a benção para ambos os lados, com o evangelho sobre o peito.

No outro typo do grupo _poetico_, a Santissima Virgem é representada umas vezes de pé com o Menino Jesus nos braços, outras sentada tendo-o sobre os joelhos.

Dá-se a este typo o nome de Occidental, não porque elle fôsse desconhecido pelos Gregos, pois que o usavam conjuntamente com o typo _bysantino_, mas por que foi este o unico usado no Occidente durante toda a idade média. Foi introduzido ou pelo menos generalisado insensivelmente na iconographia christã depois da condemnação de Nestorio pelo Concilio de Épheso, celebrado em 431. Este heresiarcha negava que Nossa Senhora fôsse mãe de Deus.

Para affirmar o dogma da maternidade divina de Nossa Senhora, representavam-n'a com o Menino Jesus nos braços, e muitas vezes acompanhada da inscripção [Grego: Ê AGIA OEOTOKO],isto é, _Santa Deipara_, ou a _Santa Mãe de Deus_.

Em geral Nossa Senhora está sentada com o Menino Jesus sobre os joelhos, lançando a benção, pelo menos, com uma das mãos.

Durante todo o periodo Roman estas representações de Nossa Senhora e do seu Divino Filho distinguem-se por uma magestade e nobreza de sentimento como quasi se não encontra nos seculos seguintes.

A Santissima Virgem tem geralmente diante de si o Menino Jesus completamente vestido, não estando entretido com sua Divina Mãe, mas sim abençoando aquelles que lhe vêem prestar homenagem. Tem nas mãos uma esphera ou mais geralmente um livro, ou um rolo, _volumen_, symbolo da doutrina da nova Lei dada ao mundo.

Na Grecia e no Oriente, os pintores e os esculptores cobrem ordinariamente a cabeça da Santissima Virgem com um veu; os artistas occidentaes tambem conservaram esta tradição durante algum tempo, mas, a começar do seculo IX, dão a Nossa Senhora uma corôa real e algumas vezes uma especie de gorra.

_Os Anjos_. Os anjos têem figurado nos monumentos christãos desde o IV seculo. Os primeiros não tinham azas. Só do V seculo em diante é que começaram a tel-as bem como o nimbo. São representados com uma longa tunica, orlada por duas faixas em fórma de _clavi_, e têem algumas vezes na mão um longo sceptro ou _bastão_, terminado por um florão ou por uma cruz. Os archanjos Miguel, Gabriel e Raphael, tambem muitas vezes são representados.

Os Anjos têem sempre os pés descalços. Symbolisava-se d'esta maneira a sua qualidade de mensageiros celestes.

_Os Evangelistas e seus symbolos_. O uso de representar os Evangelistas sob a fórma humana ou por symbolos, data pelo menos do IV seculo.

Sob a fórma humana encontrâmol-os primeiramente em alguns mosaicos antiquissimos e um pouco mais tarde tambem nas miniaturas dos evangeliarios. Estão regularmente sentados debaixo d'um portico, tendo na sua frente um pulpito chamado _scriptional_, sobre o qual está desenrolada uma folha de pergaminho, com o titulo ou as primeiras palavras do seu Evangelho. Apparecem sempre descalços e ás vezes acompanhados do animal que lhes serve de symbolo.

Os symbolos mais usados dos evangelistas são os seguintes:

_Os quatro rios do Paraizo_. O modo de symbolisar os evangelistas pelos quatro rios: Phisonte, Géhonte, Tigre e Euphrates, tem origem muito remota. Os mais antigos mosaicos e as proprias catacumbas nos offerecem já exemplos d'esta representação. O Salvador com a fórma humana ou com a do Divino Cordeiro, apparece sobre um outeiro d'onde brotam quatro rios, emblemas dos Evangelhos, os quaes, produzidos pela fonte da Vida Eterna, trouxeram ao Universo a fertil doutrina de Christo.

_Os animaes symbolicos_. Os Evangelistas são muitas vezes symbolisados por quatro figuras com azas: um homem, uma aguia, um leão e um bezerro. Estes symbolos devem a sua origem ás visões do propheta Ezequiel e do Apostolo S. João. Eu vi (dizia este ultimo), em torno do throno do Cordeiro quatro animaes. O primeiro com o aspecto de um leão; o segundo, de um bezerro; o terceiro com rôsto humano e o ultimo semelhando-se a uma aguia em pleno vôo.

Os santos Padres consideraram estas visões como os seguintes symbolos: o homem o de S. Matheus; a aguia o de S. João, o leão o de S. Marcos e o bezerro o de S. Lucas.

Encontram-se os animaes symbolicos mais a miudo: 1.^o, sobre as capas dos evangeliarios; 2.^o, nas quatro extremidades das cruzes d'Altar; 3.^o, nos quatro angulos da representação do Christo em sua Gloria, como elle existe sobre as frentes dos altares, e nos tympanos dos portaes d'egreja do XI e XII seculos.

Os symbolos dos evangelistas reduzem-se a quatro sobre um unico objecto ou empregados conjunctamente n'uma pintura, ou esculptura; são regularmente acompanhados de Christo figurado com a fórma humana ou por um symbolo.

É, finalmente, da doutrina de Christo que derivam, como d'uma fonte commum, os quatro Evangelhos.

Quando se dá o caso dos animaes symbolicos ornarem os quatro angulos d'uma superficie quadrada, quadrangular ou redonda, taes como as capas dos livros, os tympanos dos portaes, as frentes d'altar ou a _flabella_, têem certos logares determinados pelo uso: o homem com azas (ao qual muitos auctores dão abusivamente o nome d'anjo) occupa o angulo superior direito (á esquerda do espectador); a aguia, o angulo superior esquerdo; o leão, o angulo inferior direito, e o bezerro, o angulo inferior da esquerda.

Quando collocados nas extremidades dos quatro braços da Cruz, a aguia acha-se no vertice, o homem na extremidade inferior, o leão no braço direito e o bezerro no braço esquerdo da Cruz.

_Os Apostolos_. S. Pedro e S. Paulo eram os unicos Apostolos que durante o periodo Roman se representavam com um typo uniforme.

Desde os tempos mais remotos, que S. Pedro era representado trazendo uma Cruz, ou as chaves, e tem cabello na cabeça, emquanto que S. Paulo é calvo. Até ao XIII seculo não se encontra nos outros Apostolos nenhum attributo caracteristico. Representam-se todos do mesmo modo, com um rôlo ou livro na mão.

Os Apostolos e mesmo Judas, têem os pés descalços.

Os artistas da idade media symbolisavam com este signal iconographico a missão sublime, confiada aos Apostolos, de derramar por toda a terra a doutrina Evangelica.

_Assumptos religiosos representados sobre os monumentos dos seculos XI e XII_. Estes assumptos tirados quasi todos da Biblia, não eram muito variados; tinham em geral um caracter uniforme e reconheciam-se bem ao primeiro golpe de vista. Eis pois os que mais frequentemente eram reproduzidos:

1.^o, a tentação dos nossos primeiros paes; 2.^o, o sacrificio d'Abrahão; 3.^o, a Annunciação; 4.^o, a visitação da Santissima Virgem; 5.^o, o Nascimento de Nosso Senhor, que já se representava sobre os sarcophagos e nas pinturas a fresco das catacumbas do seculo IV; 6.^o, a Adoração dos reis magos; 7.^o, a degolação dos innocentes; 8.^o, a fugida para o Egypto; 9.^o, a exposição do Menino Jesus no Templo; 10.^o, o baptismo de Nosso Senhor; 11.^o, a sua entrada triumphal em Jerusalem; 12.^o, a transfiguração; 13.^o, a ultima ceia; 14.^o, a crucifixão; 15.^o, a descida da Cruz; 16.^o, a Resurreicão; 17.^o, as Santas mulheres no tumulo; 18.^o, a Ascensão de Nosso Senhor.

_Representações symbolicas das virtudes e dos vicios_. Os artistas christãos da idade media estimavam muito symbolisar tanto as virtudes como os vicios. Durante o periodo Roman as virtudes representam-se sob a figura de mulheres tendo corôas, algumas vezes tambem azas, e na cabeça uma especie de gorra. O seu nome acha-se inscripto do seu lado, ou sobre qualquer objecto que conservam nas mãos; ás vezes teem mesmo um emblema. As quatro Virtudes Cardeaes;--prudencia, justiça, força e temperança--encontram-se frequentemente sobre os monumentos Romans de toda a especie.

Os vicios são figurados, ou por monstros phantasticos, ou por homens e mulheres entregues aos excessos de suas paixões; encontram-se muitas vezes sobre o mesmo monumento em concorrencia com as virtudes que lhes são oppostas.

_Animaes phantasticos_. Os monumentos do periodo Roman offerecem-nos a representação de numerosos animaes reaes e phantasticos.

Indicaremos alguns d'estes ultimos.

1.^o O _basilisco_ é um animal com a fórma d'um gallo, mas com a cauda semelhante á d'uma serpente. Reputa-se provir d'um ovo de gallinha chocado por um reptil. O basilisco symbolisava o demonio.

2.^o A _aspide_ é uma especie de serpente que a lenda diz estar de guarda á arvore do balsamo. Se o homem quizer approximar-se d'esta arvore para lhe colher o fructo, torna-se necessario que elle primeiro adormeça a mesma serpente pelo encanto; mas esta, para se subtrahir ao encantamento, tapa uma das orelhas com a cauda e a outra com terra, espojando-se na lama. A _aspide_ representa os que voluntariamente deixam de attender aos mandamentos do Senhor.

3.^o O _griffo_ é um quadrupede com azas e cabeça d'aguia. Symbolisa o demonio. Vê-se muitas vezes sobre os monumentos Romans dos seculos XI e XII.

4.^o A _sereia_ é um monstro com o corpo metade mulher e metade peixe. A parte superior do corpo, que comprehende a cabeça, os braços e o corpo até á cintura, tem a fórma humana; e o resto inferior é a cauda d'um monstro marinho. Entre os Gregos e os Romanos as sereias terminavam em passaro e não em peixe; eram tres e habitavam uns rochedos escarpados entre a ilha de Capri e as costas d'Italia; os seus cantos tinham o poder de fazer esquecer aos navegadores o paiz d'onde vinham. Durante a idade media a sereia foi o symbolo da seducção causada pelos attractivos das pessoas.

Tambem se encontram sobre muitos monumentos os doze signos do zodiaco, muitas vezes acompanhados com os trabalhos do anno que lhes correspondem. Eram frequentemente empregados para ornar as archivoltas dos portaes principaes das egrejas.

_Doadores e doadoras_. Quando os doadores e as doadoras d'um monumento queriam conservar ás gerações futuras a lembrança do seu beneficio, faziam-se representar em pequenissimas proporções, humildemente prostrados aos pés de Jesus Christo, da Santissima Virgem ou d'outros Santos.

Algumas vezes tambem os doadores se figuravam n'uma parte secundaria do monumento, apresentando a Deus ou tendo simplesmente nas mãos um modelo da egreja, do altar ou do objecto que haviam offerecido.

CAPITULO V

/# *Summario.*--Noções preliminares--Diversas fórmas de ogiva--Origem da ogiva e do estylo ogival--Periodo de transição do estylo Roman ao estylo Ogival--Caracteres d'Architectura Ogival--Observações geraes--Plano e disposição das egrejas--Systema de construcção--Materiaes e apparelhos de construcção--Esculptura monumental--Fachadas--Adros--Portaes--Pinturas--Janellas--Rosaes--Caixilhos de janellas e vidros--Vidraças pintadas--Pilares, columnas e columnasinhas--Bases de columnas--Capiteis--Caxorros e misulas--Arcadas e arcaduras--Triforium--Cornijas--Platibandas--Abobadas--Arcos butantes--Contrafortes--Gargulhas--Nichos e Docel--Madeiramentos--Telhados--Torres e campanarios--Pavimentos--Labyrintho--Pinturas das paredes--Cruzes de consagração--Altares--Tabernaculos--Cadeiras de côro--Separação do Altar-mór--Pulpito e confissonarios--Capellas funereas, tumulos, campas, Cruzes de Cemiterio--Pias Baptismaes--Pias de agua benta--Engradamentos--Orgãos--Alfaias religiosas--Calices e patenas--Custodias--Thuribulos--Relicarios--Corôas para luzes--Cruzes de altar e de procissão--Castiçaes--Estantes--Instrumentos de paz--Moldes para Hostias--Baculos--Mitras--Vestimentas sacerdotaes--Abbadias e Mosteiros--Egrejas--Claustros e Refeitorios--Sala de Capitulo--Dormitorios--Casa para hospedes--Celleiros--Prisão--Cartuxa--Hospitaes--Iconographia--O Nimbo--O Crucificado--Os Apostolos e os Evangelistas--O Dia de Juizo--Sibyllas. #/

*Periodo Ogival*

O estylo ogival, tambem chamado _gothico_, foi usado desde o meiado do XII seculo até ao principio do XIV. Chama-se ogival, porque differe de todos os outros estylos que o precederam, pelo emprego da _ogiva_. Os allemães chamam-lhe ás vezes--_estylo em arco bicudo_. As janellas, as arcadas, os vãos das portas, n'uma palavra, todas as aberturas são regularmente terminadas por arcos em fórma de ogiva. Devemos acrescentar que a denominação de _Gothico_, dada ao estylo da idade media, é uma especie de ironia da época da renascença, pois que o estylo ogival nada tem de commum com os _Gôdos_. Foi o italiano Vasari quem primeiro empregou este epitheto como synonimo de _barbaro_!

_Diversas fórmas de ogiva_. Chama-se _ogiva_ toda a figura formada por dois ou mais arcos de circulo, cortando-se segundo um certo angulo.

Expliquemos, segundo a ordem chronologica, as principaes fórmas da ogiva:

_Ogiva obtusa_. Chamada tambem Roman, quando termina superiormente em bico, muitas vezes quasi se confunde com o arco de volta inteira. Os dois arcos que a formam, têem os centros muito proximos; algumas vezes mesmo tão perto um do outro que é necessario um attento exame para distinguir o bico pouco sensivel que o distingue do arco de volta inteira.

A ogiva com esta fórma encontra-se muito frequentemente nos edificios do principio do periodo ogival, reapparecendo mais tarde, já no fim do mesmo periodo, nos monumentos dos ultimos annos dos seculos XV e XVI.

_Ogiva aguda ou lanceta_. É formada por dois arcos cujos centros estão situados além da corda que une as suas duas extremidades inferiores da volta do berço.

Tem o nome de _Lanceta_ pela sua semelhança com o instrumento de cirurgia d'este nome.

_Ogiva equilatera_. É aquella cujos centros se acham nos dois extremos da corda, e na qual podemos por consequencia inscrever um triangulo equilatero. Tambem se dá a esta ogiva o nome de ogiva traçada de terceiro ponto.

_A ogiva alteada_ é aquella cujos arcos se prolongam inferiormente, sendo formados por dois ramos verticaes e parallelos abaixo da linha dos centros. Encontra-se muitas vezes no fundo do côro das grandes egrejas.

As tres fórmas de ogiva acima descriptas empregaram-se durante os seculos XII e XIII.

_A ogiva de terceiro ponto_ é a que tem os centros dos arcos situados no terceiro ponto da linha dos centros ou corda, e está dividida em tres partes eguaes. Chama-se effectivamente ogiva de terceiro ponto, por isso que se colloca a ponta do compasso no terceiro dos pontos de divisão da corda.