Resumo elementar de archeologia christã

Chapter 8

Chapter 83,812 wordsPublic domain

As _casulas_ mais ricas eram de seda; cravejadas de pedras, de perolas e bordadas a ouro, prata, seda ou lã, reproduzindo figuras geometricas, flôres, animaes, symbolos e assumptos religiosos. Estes ornatos espalhavam-se muitas vezes por toda a casula; comtudo, d'ordinario, apenas occupavam as bandas verticaes longas e estreitas, chamadas _praetestae_, _listae_ ou _augusti clavi_; regularmente são duas, uma na frente e outra na parte posterior. Além do modo decorativo que ellas tinham, estas bandas serviam ainda a um fim util, a de tapar as duas costuras precisas para dar feitio ao paramento. Duas outras fachas, egualmente estreitas, passavam sobre os hombros e vinham terminar nas bandas verticaes do peito e ao meio das costas, figurando, adiante e atraz, uma Cruz em fórma de Y.

Ha _casulas_ antigas que não têem as fachas de juncção que passam sobre os hombros e cuja decoração se resume nas duas fachas verticaes. Algumas vezes tambem estas fachas são substituidas por arvores ou plantas com muitas ramificações.

As casulas de uso diario e as das egrejas mais modestas não eram de seda, materia de um preço excessivo n'essa época, mas sim de lã, tela ou outros tecidos mais baratos.

A _estola_ consiste em uma facha comprida e estreita, de seda, de lã ou de tela, medindo em geral 2^{m},70 de comprimento sobre 6 a 7 centimetros de largura. Foi a partir do IX seculo, que ella tomou esta fórma e estas dimensões, que se approximam muito das que ainda hoje tem.

As estolas ricas eram ornadas de pedrarias bordadas, e placas de metal cinzeladas e esmaltadas, e terminavam nas pontas por longas franjas.

O _manipulo_, que d'antes consistia n'uma especie de toalha, com a qual os padres limpavam as mãos e a cara ou purificavam os vasos sagrados, só perdeu a fórma e o destino primitivo, durante o IX seculo, quando se tornou um verdadeiro paramento similhante á estola na fórma, côr e decoração.

A _capa_ conservou, durante o periodo roman, a mesma fórma que tinha antes; especialmente reservada aos chantres e clero inferior, era feita com um tecido ordinario. Os Bispos só raras vezes a vestiam e, por consequencia, não havia capas ricamente decoradas.

A _alva_ era de linho mais ou menos fino e algumas vezes de seda branca. Havia duas especies de alva: as alvas sem ornatos, chamadas _albae purae_ ou _simplices_, e as alvas guarnecidas, _albae paratae_ ou _frisiatae_. As primeiras serviam nos dias ordinarios e nas egrejas de segunda ordem; as outras eram usadas pelos Bispos e pelo clero, especialmente nos grandes dias de festa.

A decoração das alvas dos Bispos consistia apenas em certos ornatos em volta do pescoço, nas extremidades das mangas e no bordo inferior; além de duas orlas parallelas verticaes que lembram as _augusti clavi_ dos Romanos, e que descem do pescoço até aos pés, tanto na frente como nas costas.

O _cinto_ era geralmente ornamentado com grande luxo.

Muitos tecidos preciosos se fabricaram com fio d'ouro; tendo a fórma d'uma grande fita de largura entre tres e seis centimetros, podendo-se mui facilmente assentar, em toda a sua largura, perolas, pedrarias, e placas de metal cinzeladas e esmaltadas.

O _amicto_ é composto d'um pedaço de panno quadrado ou rectangular, que o sacerdote põe na cabeça, quando começa a revestir-se, e que depois faz descer sobre o pescoço.

Os amictos eram em geral de panno de linho. No periodo roman tambem os havia de seda, e de fio d'ouro.

No IX seculo começaram os amictos a ter um ornamento, que se conservou em uso durante toda a edade média, e que recebeu o nome de--_parura plaga_--e tambem, ás vezes o de--_praetextae_. Este adorno consistia, no seu principio, em uma tira rectangular d'ouro, de renda ou tecido de côr brilhante, que se pregava no bordo superior do amicto, e que formava em torno do pescoço uma especie de rico collar, visivel mesmo depois do sacerdote e os ministros sagrados terem revestido a casula ou a dalmatica. Algumas vezes tambem tinham como adorno perolas e pedras preciosas.

A _dalmatica_ é o paramento sacerdotal para vestir por cima, pertencente ao diacono e sub-diacono. Consistia, durante o periodo roman, regularmente n'uma especie de toga fechada muito comprida, com mangas e uma abertura para passar a cabeça. Duas faixas verticaes d'ouro ou de côr brilhante se applicavam, ás vezes, sobre a toga, prolongando-se até ao bordo inferior.

Do seculo XI em diante appareceram dalmaticas abertas nos dois lados até uma certa altura. Eram muitas vezes guarnecidas de faixas douradas em volta do pescoço, e nos canhões das mangas.

O _pallium_ constituia entre os antigos o principal paramento de vestir por cima.

Deu-se com o pallio o mesmo que se havia dado com a estola; a parte principal, e primitivamente essencial, isto é, o manto foi supprimido, e apenas se conservou o ornato accessorio, as faixas que se lhe applicaram. Estas uniam sobre o peito e sobre as costas, em fórma de Y, da mesma maneira que as _listae_ em certas casulas.

Durante o periodo Latino já se decoravam as faixas do _pallium_ com pequenas cruzes gregas. Estas cruzes, pouco numerosas a principio, foram-se multiplicando insensivelmente, e desde o XI que já se contavam muitas sobre toda a extensão das faixas.

*Abbadias, Mosteiros e claustros dos Capitulos*

Desde o VIII seculo que se começaram a levantar estabelecimentos religiosos, compostos de numerosas construcções edificadas e dispostas com arte. Havia já egrejas, edificios para alojamento e exercicios dos frades, enfermarias, escolas, bibliothecas, hospedarias para os estrangeiros, celleiros, jardins, edificações destinadas aos aprovisionamentos, emfim, habitações e officinas para as corporações d'artistas que as abbadias tinham sempre ao seu serviço.

Todos estes antigos mosteiros foram destruidos ou inteiramente modificados com o correr dos seculos.

Examinaremos as suas disposições interiores, quando tratarmos do plano das abbadias do periodo ogival.

A principio os conegos das cathedraes e collegiaes viviam em communidade como os religiosos.

Os claustros dos simples collegiaes eram ordinariamente, como os das abbadias, contiguos ás paredes meridionaes da egreja, porque a exposição ao sol do meio dia é a mais agradavel e a mais vantajosa para a saude. Por estas razões o lado sul nas cathedraes era occupado pelos palacios episcopaes, e os conegos viam-se obrigados a escolher o lado norte das egrejas, para edificarem os seus claustros.

Todavia, esta regra não era geral: existem muitos exemplos de claustros tanto d'abbadias como de capitulos occupando outros logares. Estas excepções á regra geral são devidas a differentes causas, taes como a presença de ruas ou de construcções que era impossivel supprimir, e, nos paizes montanhosos, os accidentes do terreno que torneava a egreja.

Os claustros das egrejas monasticas, cathedraes e collegiaes, compunham-se ordinariamente de um pateo quadrado ou rectangular, rodeado de galerias cobertas, que serviam de passeio aos religiosos e aos conegos.

Estas galerias, abertas para o lado do pateo, eram comtudo d'elle separadas por meio de um apoio quasi continuo, sobre o qual vinham assentar as columnas com archivoltas, tornando a arcada toda contínua. Os mais antigos claustros apenas tinham uma especie de ornamentação com as galerias cobertas d'um simples alpendre de madeira, cujo madeiramento só era visivel no interior. Desde o fim do X seculo foram estes alpendres substituidos por abobadas de berço com aresta, por baixo das quaes muitas vezes tambem se construia um pavimento.

Na maior parte dos claustros romans do XII seculo, as curvas descendentes das archivoltas são sustentadas por columnas duplas, cobertas por uma perna de telhado. Algumas vezes columnas isoladas alternam com columnas duplas.

Os claustros das cathedraes e das collegiaes eram, como os das abbadias, rodeados de edificações indispensaveis para a vida commum dos conegos.

Debaixo d'essas galerias se abriam as portas do refeitorio, do dormitorio, da escola, e da sala capitular e outros locaes affectos ao serviço da communidade. Mais tarde, quando a vida commum foi abandonada pelos capitulos, as habitações privadas dos conegos occuparam, em torno das galerias, o logar d'estes differentes edificios.

A iconographia, isto é, a _sciencia das imagens_, occupa-se das representações figuradas devidas á esculptura e, em geral, a todas as outras artes de modelar.

_A gloria, o nimbo e a auréola_. A gloria é um ornamento symbolisando uma nuvem luminosa, que os artistas da idade média põem em torno da cabeça ou do corpo d'um personagem, como attributo da santidade ou do poder. Quando ella não rodeia senão a cabeça, dá-se-lhe o nome de _nimbo_; quando rodeia o corpo inteiro, chama-se _auréola_.

O nimbo derivado da palavra latina (_nimbus_) é um adorno circular, e tambem ás vezes quadrado, oblongo ou triangular com que se costumam adornar as cabeças das figuras que representam as pessoas divinas, os santos e os homens revestidos d'auctoridade suprema, quer civil, quer ecclesiastica. É costume collocal-o verticalmente na parte posterior da cabeça. Assim como a corôa é o signal da realeza, assim o nimbo é o da santidade ou da auctoridade.

O nimbo circular ou em fórma de disco é o symbolo de Deus, dos anjos e dos Santos; comtudo, quando circumda a cabeça d'alguma das pessoas divinas, o disco é regularmente ornado com uma cruz grega, de que apenas se vêem tres ramos, pelo que se chama nimbo crucifero. A cruz do nimbo crucifero deve ser vertical, e não inclinada como a cruz de Santo André X. Muitos artistas, quando se servem do nimbo, commettem um erro, contra esta regra de iconographia. O nimbo crucifero é o symbolo caracteristico das pessoas divinas, mesmo quando apenas se representam por figuras symbolicas. Assim, por exemplo, a mão, symbolo do Pae Eterno, o cordeiro, symbolo do Filho Jesus Christo, e a pomba, symbolo do Espirito Santo, representam-se sempre com o nimbo crucifero.

Os ramos do nimbo crucifero são geralmente bastante compridos e mais largos nas extremidades. O nimbo circular sem a cruz é o symbolo dos anjos e dos Santos do Novo Testamento. No Oriente tambem os Santos do Velho Testamento têem o nimbo, mas no Occidente não se segue essa pratica. As personificações das virtudes, das provincias e das cidades têem tambem o nimbo. Elle é egualmente concedido aos Papas, aos imperadores, aos reis, e aos padres quando são representados administrando o Sacramento do baptismo, por isso que elles se acham n'estes casos revestidos d'uma auctoridade suprema.

Os personagens vivos depositarios da auctoridade suprema, eram tambem adornados com o nimbo quadrado ou rectangular. O nimbo é muitas vezes substituido pela corôa que se dá ás imagens esculpidas do Salvador crucificado ou da Virgem com seu Filho.

_Origem do nimbo_. Os pagãos já faziam uso do nimbo, para ornamentar os seus deuses e imperadores.

Assim se vê Trajano n'um baixo relevo do arco de Constantino e Antonio o Piedoso em uma moeda, confirmando o uso d'este emblema. Mas que época indicará a introducção do nimbo na iconographia christã? O nimbo parece só ter sido empregado pelos christãos depois da conversão de Constantino. Até este tempo não se conhece monumento algum authentico dos tres primeiros seculos, em que vejamos Christo ou os Santos adornados com o nimbo. Os mais antigos monumentos, de data determinada, em que este ornamento se acha empregado como signal iconographico, são os mosaicos de Roma e de Ravêna.

Ora foi da comparação d'estes differentes monumentos entre si que se conheceu terem sido as imagens do Salvador as primeiras que tiveram nimbo, em segundo logar as dos anjos, depois as dos evangelistas e seus symbolos e emfim as dos Santos e dos soberanos. As imagens de Nosso Senhor começaram a ter nimbo desde o principio do IV seculo; até ao VI seculo se vê o nimbo umas vezes simples, outras crucifero. A Santissima Virgem e os anjos começaram a ter nimbo desde os primeiros annos do seculo V, os Evangelistas e os Apostolos no meado do mesmo seculo, os Santos e os personagens revestidos de auctoridade soberana no começo do seculo seguinte.

Auréola (palavra derivada do latim _aura_, _vento suave_, _sôpro luminoso_) é uma especie de moldura que envolve todo o corpo como se fôsse o nimbo do corpo inteiro.

Os artistas da edade média dão auréola ás tres Pessoas Divinas e á Santissima Virgem e tambem ás almas dos Santos e principalmente á do pobre Lazaro, figuradas por um pequeno corpo inteiramente nú. A alma é assim deificada no momento em que volta ao seio do Creador.

Os Santos, por mais venerados que sejam, nunca têem auréola.

Quando Deus Pae ou Deus Filho se representam sentados na auréola, os seus pés assentam em geral sobre um arco-iris, e sentados sobre um arco similhante.

Estes arco-iris são muitas vezes substituidos, o primeiro por um escabello rendilhado, e o segundo por uma especie de poltrona. Sendo a auréola mais recente do que o nimbo, caíu comtudo em desuso primeiramente do que este ultimo.

_Representações da Santissima Trindade_. Durante o periodo roman eram as pessoas da Santissima Trindade representadas de varios modos.

1.^o--Para inculcar aos fieis o dogma da egualdade dos homens, representavam-se estes com fórmas inteiramente similhantes. Ás vezes tambem o Deus Filho se representa nos pés ou nas mãos, e o Espirito Santo é representado com a fórma d'uma pomba. As pessoas Divinas quando se representam com fórmas humanas, têem sempre nús os pés.

2.^o--Tambem empregavam a representação do baptismo do Senhor nas aguas do Jordão, para figurar as pessoas da Santissima Trindade.

3.^o--Nos ultimos annos do periodo roman representava-se a Santissima Trindade da maneira seguinte: Deus Pae, sentado n'um throno ou sobre um arco-iris, tendo nas mãos uma cruz na qual está crucificado o Salvador; o Espirito Santo, representado por uma pomba, apparece entre a bôca do Pae e a do Filho, para mostrar que o procede tanto d'um como do outro. Este typo foi conservado durante toda a idade e mesmo até aos XVI e XVII seculos.

Comtudo, a partir do XV seculo, deixou de se symbolisar o dogma da procissão do Espirito Santo, e collocava-se a pomba ou no braço da cruz ou no hombro do Pae.

_Representações das tres Pessoas Divinas_. _Deus Pae_. Até ao seculo XI, nunca se attribuiram a Deus Pae fórmas humanas. A sua presença era apenas indicada por uma mão saindo das nuvens. Esta mão symbolica, primeiramente sem nimbo, e mais tarde com o nimbo simples ou crucifero, encontra-se nos sarcophagos e nos antigos cofres. Foi pois no XI seculo que Deus Pae começou a ser representado sob fórmas humanas.

_Deus Filho_. Quando tratámos da iconographia das catacumbas, dissémos que, durante os tres primeiros seculos, só se representava o Salvador, debaixo das fórmas symbolicas ou das scenas historicas. Já no IV seculo se encontram imagens isoladas do Salvador. Até ao X seculo, Christo representa-se muitas vezes com as feições d'um mancebo de quinze a vinte annos, sem barba, de figura agradavel e resplandecente d'uma mocidade Divina; só excepcionalmente Christo tem barba e parece não ter mais de vinte e cinco annos. No XI e XII seculos os artistas dão-lhe uma expressão mais severa; ordinariamente apresenta barba parecendo ter trinta a trinta e cinco annos.

_Deus Espirito Santo_. Até meiado do X seculo foi sempre representado com a fórma d'uma pomba; mas no XI e XII seculos começou tambem a ser figurado com a fórma humana.

*A cruz e a crucificação*

_Considerações geraes_. A historia da representação da crucificação póde resumir-se dizendo que este assumpto não se encontra sobre os monumentos christãos e outros objectos do culto anteriores á conversão de Constantino; a cruz apresenta uma fórma dissimulada.

No IV seculo, a cruz fez a sua apparição na iconographia christã. Desde a conversão de Constantino foi então que appareceu sobre um grande numero de monumentos; mas até ao VI seculo ainda não tinha a imagem de Christo: era no emtanto adornada com pedrarias e ás vezes circumdada por uma auréola.

No VI seculo começam então alguns artistas christãos, ainda que timidamente, a representar o Salvador sobre a cruz. Primeiramente servem-se do Cordeiro symbolico, que elles representavam de differentes maneiras com o signal da redempção. Tambem se vêem cruzes tendo ao centro, e ás vezes nas extremidades dos braços, uns medalhões com o Divino Cordeiro ou com a imagem do Salvador Triumphante.

Desde o VI até ao XI seculo representa-se o Salvador sobre a cruz com o fim manifesto de recordar o Seu Triumpho sem nunca indicar a minima idéa de soffrimento ou d'opprobrio.

Do XI ao XII seculo representa-se Christo crucificado mas Glorioso e Triumphante, apesar de ser manifesta a idéa de soffrimento.

Do XIII ao XV seculo, os artistas christãos, tendo mais ou menos em vista o symbolismo das épocas precedentes, esforçam-se por patentear realmente os soffrimentos do Divino Crucificado.

Durante o periodo do renascimento, o culto da fórma e da realidade constitue por assim dizer a unica preoccupação do artista, que, dominado pela idéa de expressar uma dôr vulgar ou de representar um corpo morto ou moribundo, perde todo o sentimento de nobre symbolismo.

A historia das representações da cruz e do crucifixo comprehende, pois, duas épocas distinctas: a primeira, que durou desde o IV ao XII seculo inclusive, tem por caracter distinctivo a representação glorificada do instrumento da Paixão e da Victima, sem signal de que se tivesse prestado voluntariamente; a segunda, que começa no XIII seculo e termina no XIX, é caracterisada pela expressão dos soffrimentos do Divino Salvador.

A época do soffrimento corresponde ao periodo ogival e ao do renascimento.

No IV seculo a cruz é frequentemente encimada por um monogramma inscripto em uma corôa. Quando não tem o referido monogramma, (o que se dá principalmente desde o V seculo) ou tem os braços eguaes e mais largos nos extremos, ou é ornada de perolas em renques, ou ornada de flôres e folhagens, ou rodeiada de auréola. Ha todo o cuidado de apresentar na cruz qualquer idéa d'opprobrio ou d'ignominia; a cruz não é o instrumento de supplicio, mas sim, a cruz glorificada, o instrumento da Redempção do genero humano.

Estas diversas fórmas de cruz continuaram a usar-se até muito antes do periodo Roman.

Datam do ultimo quartel do VI seculo as primeiras imagens conhecidas do Salvador crucificado. Porém, entre a cruz simples e o Cruxifixo encontra-se uma série de monumentos intermediarios, offerecendo a cruz associada ao Cordeiro symbolico.

Estas cruzes intermediarias, partindo da cruz sem figuras animadas, ao crucifixo propriamente dito, ainda se encontram em alguns monumentos do VII seculo.

Os mais antigos monumentos conhecidos que representam Christo pregado á cruz, pertencem ao ultimo quartel do seculo VI. Taes são a miniatura do celebre manuscripto syriaco de Florença, do anno 586, e muitos objectos enviados por S. Gregorio o Grande, a Theodolinda, rainha dos Longobardos e conservados hoje no thesouro de Monza. Alguns d'estes ultimos mostram-nos claramente Christo na cruz, ao passo que outros, taes como os frascos de chumbo, que continham liquidos recolhidos dos tumulos dos martyres, não fazem mais do que relacionar a imagem de Christo com a cruz, d'uma maneira muito mais sensivel do que a cruz do imperador Justino e outros objectos similhantes. Tres d'estes curiosos frascos têem ao meio da face principal, uma simples cruz folheada, acima da qual se acha o busto do Salvador entre as personificações do Sol e da Lua; aos lados da cruz vêem-se dois adoradores, os dois ladrões, a Santissima Virgem e S. João; inferiormente está figurado o Anjo e as Santas mulheres ao pé do tumulo de Christo.

No reverso acha-se a Ascensão do Senhor, nos dois lados do gargalo uma cruz grega de braços eguaes debaixo d'um arco de triumpho e inscripto n'uma corôa folheada. Sobre o quarto frasco figuram scenas symbolicas analogas: está Nosso Senhor em pé entre os dois ladrões, tendo os braços estendidos em cruz. O instrumento do supplicio, que não se vê na face principal, é comtudo representado no reverso do frasco, debaixo d'um arco de triumpho, e cercado pelas cabeças dos Apostolos inscriptas em medalhões circulares e formando uma especie de corôa. Conclue-se, pois, que o artista christão foi obrigado primeiramente a não representar a menor idéa de opprobrio e de soffrimento; para isto elle transformou a cruz tornando-a de braços eguaes, ornando-a de folhagens e metamorphoseando-a em arvore da vida: quiz affirmar o triumpho alcançado com a morte, por Aquelle que morreu sobre a cruz, recordando a Resurreição e Ascensão do Salvador.

Os crucifixos primitivos não têem quasi nunca Christo esculpido em alto relevo.

Christo está vestido com um _colobium_ ou tunica, ordinariamente sem mangas, que chega até aos pés. O uso d'esta longa veste serviu exclusivamente durante o VII seculo e generalisou-se no IX seculo. N'esta época foi substituida por uma tunica larga cobrindo os rins do Salvador.

Christo tem sempre a cabeça elevada ou ligeiramente inclinada para a direita e os braços estendidos e perfeitamente horisontaes. Os pés estão pregados separadamente á cruz por dois cravos e muitas vezes apoiados sobre um escabello, ou suppedaneum. Algumas vezes parece serem supprimidos os cravos com a intenção manifesta de significar que o Christo se offereceu voluntaria e espontaneamente sobre a cruz para a redempção dos homens.

Desde o VI seculo até ao VIII, a scena da crucifixão é muitas vezes acompanhada de personagens e outros accessorios fundados na verdade historica, mas que se representam, bem como a imagem de Christo, de uma maneira symbolica. Assim vemos a Santissima Virgem e S. João, o phariseu que empunha a lança e o que segura a esponja, o Sol e a Lua, a resurreição do Salvador, o bom e o mau ladrão. Todos estes accessorios, com excepção do bom e do mau ladrão, se encontram ainda representados nos crucifixos do seculo VIII.

O sacrificio da crucifixão e os crucifixos do seculo IX até ao XII, apresentam Christo na mesma attitude que nos seculos precedentes. Os pés conservam-se ainda com dois cravos, mas afastados um do outro e assentes geralmente em um--_suppedaneum_.

Foi no XII seculo que appareceram os primeiros crucifixos apresentando Christo com os pés _sobre-postos_.

Christo poucas vezes se encontra vestido com o _colobium_; apenas em geral tem á volta dos rins uma toalha de linho larga e comprida, que lhe cobre o corpo desde os quadris até aos joelhos. Nos seculos XI e XII, esta toalha tem muitas vezes a configuração d'uma pequena saia que se chama--_perizonium_.

A Cruz tem geralmente quatro ramos.

Algumas vezes teem um rotulo, mas sem inscripção alguma; outras, nem mesmo teem rotulo, que em geral consiste n'uma pequena travessa de madeira rectangular. As inscripções costumam ser variadissimas.

Antes do seculo IX, os personagens e outros accessorios que acompanham a Cruz, são historicos, isto é, a sua presença é justificada pela narração dos proprios Evangelistas. No IX seculo começaram então a apparecer os crucifixos com figuras allegoricas, taes como a Egreja, a Synagoga e as personificações da Terra e do Oceano. Vamos, pois, tratar successivamente dos principaes typos do cyclo d'estas representações, começando pelos accessorios historicos, visto que elles se empregam desde o VI seculo.

*Personagens e accessorios historicos*

_A Santissima Virgem e S. João_.--Santa Maria está á direita e por debaixo da Cruz, e o Apostolo em posição analoga, mas á esquerda do Salvador. Só muito raramente se encontram ambos do lado direito, como succede na miniatura de Florença.

Ordinariamente estão como que erguendo os braços ao Salvador ou occultam o rosto em signal de dôr com a mão núa ou escondida na ponta do manto. A Santissima Virgem tem a cabeça envolvida em um veu e os pés calçados, em quanto que S. João, de cabeça descoberta e com os pés descalços, tem nas mãos um livro.