Resumo elementar de archeologia christã

Chapter 6

Chapter 63,793 wordsPublic domain

Comtudo, está provado que existia em muitos paizes o costume de se conservarem os relicarios sobre os altares. Este costume pouco a pouco se foi generalisando, pelo menos em alguns d'elles. Quando esta exposição se realisava por detraz dos altares, o cofre era collocado pouco mais ou menos dois metros acima do piso e sustentava um dos lados triangulares sobre o proprio altar, ou então sobre um retabulo de pedra, collocado em cima d'aquelle, mas pouco elevado, e o outro sobre uma consola ou um grupo de columnas junto á parede absidal ou interior da egreja.

Os fieis podiam circular em torno do altar e vir collocar-se directamente debaixo das reliquias. O uso de passar debaixo dos relicarios, quer de pé, quer de joelhos, ainda hoje existe em muitos paizes catholicos. Quando a parte superior da urna, que vinha assentar sobre o altar, era desprovida de qualquer ornato, cobria-se então com um retabulo de metal ou de pedra; se pelo contrario, como succedia com as urnas de oiro, de prata ou de cobre doirado e esmaltado, tinha figuras primorosamente executadas, ficava inteiramente livre e visivel por detraz do altar. Construia-se então por cima da urna uma especie de tabernaculo ou de baldaquino. Algumas vezes ornamentavam a parte central do lado triangular, com um retabulo de metal precioso.

O altar-mór das cathedraes assim como das collegiaes que não possuiam grandes reliquias, só veiu a ter retabulo no XIV seculo. Tanto no XII como no XIII seculo, se collocavam n'estes edificios retabulos sobre os altares secundarios do transepte e das Capellas absidaes. Estes retabulos eram de pouca espessura, não se lhes podendo collocar em cima nem crucifixos, nem candeeiros.

_Altares portateis_.--Apresentam ordinariamente, bem como os do periodo Latino, a fórma de um parallelogrammo rectangular, e são compostos de uma lagea de marmore ou de pedra mettida n'um caixilho de carvalho e guarnecida com bordados de oiro ou de prata, de modo a não tornar visivel senão a parte superior da placa.

A lagea que constituia o altar propriamente dito era de porphyro, de jaspe, de onyx, de crystal de rocha, de pedra preta e até mesmo de ardosia. Tambem algumas vezes constava de uma pedra preciosa unicamente como recordação historica que a ella estava ligada, por exemplo, um fragmento das lageas tintas com o sangue de S. Thomaz de Cantorbery.

As reliquias, cuja presença é de rigor em todo o altar, encontram-se entre a lagea de marmore ou de pedra e o caixilho de madeira: algumas vezes era este concavo em fórma de recipiente. Em geral os altares portateis são de pequena altura, apenas alguns têem a fórma de um pequeno cofre sustentado por pés pouco elevados. As laminas de metal que constituem os adornos são muitas vezes cobertas com filigranas, de pedrarias, de folhagens gravadas, ou de figuras esmaltadas.

Usaram-se estes altares até ao final do seculo XIII.

_Piscinas_.--A ablução das mãos, tanto antes como depois do sacrificio da missa, foi sempre um dos preceitos dos padres. Deitava-se nas piscinas não sò a agua de que o padre se servia para a ablução das mãos, mas até mesmo aquella de que os ministros se serviam para lavar tanto os calices ordinarios como os ministeriaes em seguida á communhão do padre e dos fieis.

N'esta época o padre não tomava as abluções do mesmo modo que actualmente.

Algumas piscinas, que são as mais antigas, têem apenas uma abertura ou concavidade para dar passagem á agua; ha porém outras que têem duas, uma para escoadouro das aguas ordinarias, e outra para receber as abluções das mãos.

As primeiras chamam-se _piscinas simples_, e as segundas _duplas_. As mais antigas são de uma grande simplicidade, pois muitas vezes apenas constavam de uma bacia, ou escavada no proprio banco de pedra que havia junto á parte inferior das paredes, ou sustentada por uma pequena columna isolada, ou por muitas formando grupo. As piscinas que são sustentadas por columnas chamam-se _pediculadas_.

No XII seculo começou-se a collocar _piscinas_ em nichos abertos nas paredes exteriores da egreja. As piscinas duplas só no fim do XII seculo appareceram.

_Doceis_.--Foi durante o periodo roman que maior uso tiveram os doceis. Em geral consistem n'uma especie de cúpula quadrada ou polygonal, de marmore, de estuque, ou de pedra. Muitas vezes têem um leão sentado entre a base e o fuste das columnas. A face anterior da cúpula é quasi sempre munida de uma estante, sobre a qual o diácono ou o leitor collocava o livro sagrado.

Esta estante assentava ordinariamente na cabeça de uma aguia, symbolo do Evangelista S. João; e algumas vezes na de um homem munido de azas, emblema de S. Matheus. Quando a estante assentava sobre a cabeça de aguia ou de homem com azas, os symbolos dos outros evangelistas estavam tambem, ás vezes, representados nos angulos da base da cúpula.

Nas egrejas mais ricas havia mesmo doceis cuja cúpula era revestida de oiro, de prata, e de laminas esmaltadas, ou decorada com esculpturas sobre marfim.

_Cadeiras episcopaes ou do clero_.--A cadeira episcopal nas cathedraes, ou do celebrante nas egrejas inferiores, achava-se regularmente, como no periodo Latino, no fundo do abside do côro, contiguo á muralha; e aos lados estendiam-se os bancos ou cadeiras destinadas ao clero. Esta disposição, que foi conservada até nossos dias em algumas egrejas romans, era a que havia em todas as egrejas seculares, tanto cathedraes, como collegiaes e parochiaes.

Havia, já o dissemos, algumas excepções a esta regra, como succedia com certas collegiaes que possuiam um altar das reliquias no fundo do côro, e com as egrejas monasticas. N'estas ultimas cedo foram mudadas as cadeiras para o transepte, e mesmo para o corpo da nave; sem duvida por causa do grande numero de religiosos, que era impossivel collocar convenientemente na curvatura do côro.

Durante a maior parte do periodo roman os bancos dos padres foram de marmore ou de pedra como anteriormente. As cadeiras ou _fórmas_, _formulae_, de madeira, foram raras até ao fim do XII seculo; apenas se encontram algumas que escaparam á destruição. Vê-se perfeitamente que estas cadeiras, apezar de bem feitas em madeira, imitam todavia exactamente as antigas de pedra.

*Capellas funerarias, tumulos e pedras tumulares*

_Capellas funerarias_.--Construiram-se algumas vezes, nos cemiterios e na proximidade das egrejas, capellas funebres, de fórma circular ou polygonal, á similhança da rotunda construida pelo imperador Constantino sobre o Santo Sepulchro, ou o mausoléu de Theodorico em Ravenna (Italia).

_Tumulos_.--O costume de encerrar em sarcophagos os restos mortaes das pessoas ricas e poderosas existiu no Norte da Europa até ao XII seculo, e nos paizes meridionaes, isto é, no Sul da França, na Italia e na Hespanha existiu pelo menos até ao XIV. Estes sarcophagos constavam, como no periodo antecedente, de cofres oblongos, de pedra ou de marmore, muitas vezes mais estreitos para o lado dos pés, e fechados por uma tampa convexa ou em fórma de telhado de duas aguas. Eram esculpidos com ornatos e symbolos; florões, folhagens, monogrammas, cruzes e alguns assumptos allegoricos. Collocavam-nos habitualmente sobre pequenos pilares grossos, ou sobre columnas curtas só com o fim de os isolar do solo.

Durante o periodo roman tambem foi adoptado o uso dos _cenotaphios_ que consistem em sócos de pedra, macissos d'alvenaria ou grupos de columnas, assentes sobre uma sepultura subterranea e sustentando ou um sarcophago simulado ou a effigie do defunto. Em tôrno do sóco ou do macisso d'alvenaria acha-se disposta uma serie de pequenas columnas. Umas vezes são unidas por meio d'arcos, outras, o rebordo da grande lage que corôa o sóco é apoiado sobre as columnas. No XII seculo, os cenotaphios começaram a ser encimados pela effigie do defunto, esculpida em relevo e ás vezes até mesmo gravada ao traço ou representada em esmalte. O personagem é geralmente collocado estendido sobre um leito e tem todas as insignias da sua dignidade; os bispos estão com a mitra e o báculo pastoral; os reis e os principes, com o sceptro e a corôa. Estas estatuas deitadas não apresentam o aspecto d'um morto; porque têem os olhos abertos, os gestos e attitudes de pessoas vivas.

Alguns anjinhos fazem balancear thuribulos ou sustentam a almofada sobre que assenta a cabeça do personagem.

_Tumulos não apparentes_. Consistem, como os do periodo anterior, em cofres de pedra ou de alvenaria mais largos do lado da cabeça que dos pés e fechados por uma tampa chata ou prismatica. No interior do cofre encontra-se algumas vezes, principalmente do XI até ao XIV seculo, um espaço circular destinado a receber a cabeça do cadaver. Alguns têem no fundo dois regos, no prolongamento dos quaes está feita uma abertura destinada a dar vasão ás materias viscosas.

_Pedras tumulares_. O uso das pedras tumulares continuou durante o periodo roman. Em geral têem a fórma d'um trapezio; algumas tambem, as mais antigas, são rectangulares. A sua decoração em geral consiste em figuras geometricas, folhagens ou figuras symbolicas, e raras vezes se lê o nome do defuncto, e a causa e data do seu fallecimento.

_Pias baptismaes_. As pias baptismaes eram de grandes dimensões durante todo o periodo roman, por isso que se continuou a administrar o baptismo por immersão até ao XII seculo. As pias eram em geral de pedra; comtudo algumas havia de bronze e outras de cobre. Em França e especialmente na Inglaterra tambem as havia de chumbo.

As pias romans eram de variadissimas fórmas; sendo algumas similhantes a uma vasilha.

O grande impulso que na Allemanha teve a arte da ourivesaria durante o XI seculo, longe de affrouxar no seculo seguinte, pôde conservar-se na vanguarda do movimento artistico da Europa Central e Occidental.

Com a applicação do _esmalte_, os objectos d'ourivesaria mudaram completamente d'aspecto no XI e XII seculos. Até ali a accumulação das pedrarias ligadas por folhagens de filigranas constituia todo o segredo d'ornamentação dos ourives do Occidente; desde o fim do X seculo que as laminas duplas e lavradas alternam a maior parte das vezes com laminas esmaltadas. Estas encontram-se não só nas grandes peças d'ourivesaria, taes como as molduras e as alfaias dos altares, mas até nos menores objectos.

Os primeiros esmaltes fabricados na Allemanha foram engastados em ouro e prata, semelhantes aos que os Bysantinos fabricavam durante a segunda metade do X seculo; mais tarde tambem se empregou o cobre com o qual se douravam as partes que ainda ficavam visiveis depois da incrustação do esmalte. Foi a começar no XI seculo que em algumas localidades substituiram o esmalte introduzido no rebaixo pelo dividido em separação.

Até meado do seculo XII, a influencia Bysantina é apparente nos esmaltadores Rhenanos. Durante bastante tempo, com effeito, os esmaltadores allemães imitaram o estylo Oriental, reproduzindo mais ou menos fielmente typos bysantinos, modificando-os comtudo segundo o seu proprio engenho. Os seus processos technicos tambem se resentem da origem Bysantina da arte allemã: é assim, por exemplo, que, nos esmaltes em separação, e até mesmo nos mais antigos esmaltes executados em rebaixos, as carnações são substituidas pela pasta vitrea, a exemplo do que se praticava em Constantinopla. Com tudo isto, os esmaltadores das margens do Rheno não tardaram em gravar sobre metal reservado, as figuras de pequenas dimensões, emquanto que para as grandes, continuaram ainda, durante algum tempo, a esmaltar as roupas; e n'este caso só se serviam da gravura para as carnações. No final do XII seculo, para proceder sem duvida d'uma maneira mais expedita, começaram a gravar figuras inteiras, ainda mesmo que tivessem uma certa grandeza, e quasi que não era preciso gravar com esmaltes os entalhos, muitas vezes grandes e profundos da gravura.

Em França, os ourives do XI seculo e dos primeiros annos do XII, continuaram a servir-se exclusivamente, para a decoração das suas obras, de placas cinzeladas ou até simplesmente estampadas, e d'applicações de pedrarias ligadas com filigranas. Até 1145 os ourives francezes ignoravam o modo de gravar do esmalte; tanto que, quando no principio d'esse anno, _Suger_, abbade do mosteiro de S. Diniz, proximo de Paris, quiz mandar fazer uma peanha e cobril-a de placas de esmalte engastadas sobre cobre, viu-se obrigado, segundo elle mesmo conta, a chamar em seu auxilio ourives da Lotharingia, em numero de cinco ou sete, que tiveram o trabalho de terminar esta obra em dois annos.

As producções dos primeiros esmaltadores francezes apresentam grandes analogias com as dos allemães do Rheno, que vieram ensinar a arte de esmaltar, em França.

Uma vez começado, o gosto pela ourivesaria esmaltada em breve foi augmentando em França, e deu logar a que, em 1160, se creasse uma celebre escola de esmaltadores em cobre cuja séde foi em Limoges.

Nos primeiros ensaios, os ourives de Limoges procuraram dar aos seus esmaltes o aspecto do dos allemães; representavam as figuras inteiras, até as proprias carnações, com côres d'esmalte; só aproveitavam o metal para lhe fazer traçar as principaes linhas do desenho. Em pouco tempo, para mais rapida e mais barata producção, renunciaram a este processo e principiaram a gravar logo sobre o metal, todas as figuras e a esmaltar _apenas_ o fundo. Muitas vezes até substituiam as partes gravadas por figuras em alto relevo de bronze fundido e cinzelado. Os esmaltadores de Limoges cederam em parte a sua obra ao gravador, ao esculptor, ao fundidor e ao cinzelador, limitando assim o seu trabalho á simples decoração dos fundos, operação que se tornava pouco difficil.

Pelo lado artistico o esmalte rhenano é muito superior ao de Limoges. Os esmaltes fabricados no XI e no XII seculo nas margens do Mósa, em Liêge, Maestricht, Stavelot, em Waulsort e em Gembloux têem os caracteres da escola rhenana, cujo principal centro de fabrico era em Colonia, constituindo por isso uma variedade dos esmaltes rhenanos. As differenças que se encontram entre os esmaltes com rebaixo de Limoges, os do Rheno e os do Mósa são estas: nos primeiros predominam as côres azul e verde claros, em quanto que nos outros são o verde e o azul carregados. Os esmaltadores do Rheno e os do Mósa servem-se d'algumas côres que lhes são proprias; o bello azul de torqueza, o branco de leite, o vermelho de purpura muito vivo e o preto. Os tons são mais harmonicos na Belgica e na Allemanha, e mais vivos e asperos na França. Os esmaltes do Rheno e do Mósa reproduzem scenas em que toma parte um grande numero de personagens, com inscripções latinas em verso, gravadas e encrustadas de esmalte; nos de Limoges não se encontram inscripções a não ser apenas um ou outro nome. Os differentes lavôres que os esmaltadores do Rheno e do Mósa executavam sobre o cobre e com as incrustações de esmalte, são notaveis pelo bom gosto e variedade de assumptos, qualidade que se não encontra entre os de Limoges.

Os objectos, grandes ou pequenos, ornados com esmaltes do Mósa ou do Rheno apresentam geralmente uma particularidade que se não observa na ourivesaria franceza contemporanea. Têem, além das placas esmaltadas, filigranas e pedrarias, placas de cobre vermelho com ornatos e inscripções douradas sobre campo brunido ou vice-versa.

_Calices e patênas_. Conservou-se, durante o periodo roman, o uso dos calices ordinarios e ministeriaes.

Os calices ordinarios do VIII e do IX seculo, têem muitas vezes, como os do periodo Latino, a taça profunda e estreita, o pé pequeno e ligado á taça por um simples nó sem haste.

No IX seculo começou a usar-se a taça maior, e ás vezes de fórma espherica e com azas. O pé conserva-se ainda n'este seculo com as mesmas dimensões que nos precedentes.

Os calices do XI e do XII seculos têem a taça e o pé muito grandes, o nó bastante grosso e a haste curta quando a têem.

Na Allemanha encontram-se calices do XII seculo que têem o exterior da taça inteiramente coberto de medalhões, de esmaltes, de pedrarias e de filigranas; estes ornatos são apenas interrompidos por um pequeno espaço semi-circular destinado para o padre applicar o labio inferior durante a communhão.

Os mysterios da vida e da paixão do Salvador e principalmente a sua crucifixão, eram os assumptos que os artistas mais gostavam de reproduzir sobre os medalhões circulares ou ovaes com que decoravam a taça e o pé dos calices.

Em geral compõem-se d'um reservatorio sustentado por um grosso fuste cylindrico, ou mesmo por um pilar quadrado, e tambem se encontram alguns cujos angulos se apoiam sobre quatro columnas.

Estas pias baptismaes, exteriormente quadradas, são os reservatorios circulares e ovaes, tendo as faces externas esculpidas com florões, folhagens, arcos, animaes phantasticos, carrancas e até é facil vêrem-se assumptos legendarios ou historicos.

_Grades_. Os romanos faziam muitas vezes grades fundidas em bronze. Na Italia e no Sul da Allemanha ainda se empregaram até ao XI seculo. estas grades.

Carlos Magno empregou o bronze nas grades da egreja de Aix-la-Chapelle que foram, assim como o edificio de que fazem parte, uma importação meridional.

Durante o XI e XII seculo, as grades eram compostas de montantes verticaes mettidos n'uma moldura e encerrando ornatos formados de barras, de secção quadrada ou rectangular; estes ornatos consistem em geral em curvas entrelaçadas.

*Alfaias religiosas*

No seculo VIII estavam as artes e as sciencias inteiramente decahidas no Occidente, em consequencia das continuas guerras provocadas pelas invasões dos barbaros. Os processos technicos das artes industriaes e mais faceis d'adoptar tinham quasi caído no esquecimento. No imperio do Oriente, pelo contrario, o culto das artes não cessou de prosperar desde Constantino Magno até ao XI seculo inclusivamente, graças á protecção generosa dos imperadores bysantinos. Tambem, logo que se seguiram os primeiros momentos de socego depois das tempestades politicas, pensou-se na Italia e no resto do Occidente em dotar d'alfaias convenientes as egrejas, e basilicas que se acabavam de construir ou de restaurar e para isso foram obrigados a dirigirem-se a Constantinopla tanto para procurar os objectos que desejavam como para obter artistas aptos que annuissem a vir trabalhar no Occidente.

Durante muito tempo os artistas verdadeiramente dignos d'este nome, pintores, esculptores, ourives e outros, continuaram a vir de Bysancio, e quando no principio do IX seculo, Carlos Magno quiz decorar com mosaicos e enriquecer com vasos sagrados e outros objectos d'arte o edificio religioso que elle acabára de construir em Aix-la-Chapelle, teve que se dirigir a artistas gregos ou aos discipulos que se haviam formado na Italia, particularmente em Ravenna.

Com os inferiores successores d'este principe, a arte cessou de ter desenvolvimento, retrocedendo tanto na Europa central como na Occidental, ao mesmo estado de barbaria em que se achava antes dos esforços empregados por Carlos Magno para restabelecer o seu progresso.

No fim do X seculo, produziu-se no Occidente um movimento util nos estudos artisticos; os artistas gregos foram ainda aqui, como mais tarde na Italia, os iniciadores que presidiram a este movimento instructivo.

A restauração artistica, começada sob a influencia dos artistas bysantinos, foi extremamente rapida na Allemanha. Desde o fim do X seculo, a escola de Trèves, dirigida pelo bispo Egberto, deu nascimento, no territorio germanico, a muitos outros centros artisticos creados pelos bispos nos seus palacios episcopaes, ou pelos abbades nos seus Mosteiros. Santo Henrique que governou o imperio do Occidente durante o primeiro quartel do XI seculo, foi tambem um dos grandes promotores da restauração artistica na Allemanha.

Os _calices ministeriaes_ conservaram, durante o periodo roman, a mesma fórma que tinham tido anteriormente. A sua decoração é a mesma que a dos calices ordinarios. São munidos d'azas com a fórma de folhagens, ou de dragões e d'outros animaes phantasticos.

Nos medalhões sobre a taça representavam-se scenas da vida do Salvador; nos do pé, as quatro virtudes Cardeaes e assumptos tirados da historia do Velho Testamento; e nos medalhões do nó mostravam-se as personificações dos quatro rios do Paraizo.

As patênas, ordinariamente muito simples, tinham a configuração d'um pires com um esvasamento circular no meio. O fundo interior era liso, com adornos de buril; os bordos, por vezes lavrados em relevos ou gravados ao buril, eram de pequenas dimensões. Encontram-se comtudo algumas patênas da época roman, sobre as quaes abundavam os ornatos e as esculpturas.

_Custodias eucharisticas: pyxides e ciborios_. Desde o XI seculo que as pombas eucharisticas foram substituidas em geral pelas pyxides, cuja origem alguns auctores reputam ser do V seculo. Dá-se o nome _pyxides_ a pequenas caixas de marfim, d'onyx, d'ouro, de prata ou de cobre esmaltado, nas quaes se guardavam as Sagradas particulas. Suspendiam-se, debaixo do docel do altar, n'uma bolsa de tecido precioso, ou então collocavam-se n'um pequeno nicho aberto em parede proxima do altar.

Durante os primeiros seculos do periodo roman as pyxides de marfim empregavam-se em concorrencia com as pombas eucharisticas de metal.

Consistiam regularmente em pequenas caixas cylindricas, tendo muitas vezes no exterior esculpturas em relevo.

As pyxides do XII e do XIII seculo são ordinariamente de cobre dourado e esmaltado; compõem-se d'uma pequena caixa cylindrica encimada por uma tampa de fórma conica ligada ao cylindro por uma charneira. Muitas d'estas pyxides sairam das officinas dos esmaltadores de Limoges.

As pyxides romans têem algumas vezes um pé, e são em geral tanto umas como outras de pequenas dimensões, por isso que apenas servem para guardar um pequeno numero d'hostias necessarias para dar o Sagrado Viatico aos doentes em perigo de vida.

Todas as pyxides anteriores ao XVI seculo, com raras excepções, têem a tampa ligada ao cylindro por meio de charneira.

_Relicarios_. Consideraram-se primeiramente como reliquias os restos mortaes dos Santos, porém, hoje têem um sentido mais lato; considerando-se tambem como taes os paramentos e outros objectos usados por elles durante a sua vida mortal. A Egreja professou sempre um grande respeito pelas reliquias, prestando-lhes um culto particular. Em vista d'isto não é para admirar que nos primeiros seculos se fabricasse um tão grande numero e diversidade de relicarios, afim de conservarem estes preciosos thesouros e expôl-os á veneração dos fieis.

_Relicarios da verdadeira Cruz_. A maior parte dos relicarios que contéem parcellas da verdadeira Cruz foram trazidos do Oriente na época das Cruzadas, ou fabricados na Europa segundo os modêlos bysantinos. São ricamente cravejados de pedraria e d'esmaltes, e têem muitas vezes a fórma de uma dupla cruz chamada cruz do Santo Sepulchro, de Lorrena ou de Caravalla. Como a travessa superior d'esta cruz é menor que a inferior, leva isto a suppôr que o que parece uma repetição dos braços seja simplesmente o _titulo_ da cruz, pelo qual os Gregos e os Orientaes sempre tiveram especial veneração.

Tambem muitas vezes se collocavam as reliquias da Sagrada madeira n'uma cruz com uma simples travessa.

As reliquias da verdadeira Cruz, encerradas n'uma cruzeta, muitas vezes com duas travessas, eram tambem muitas vezes emmolduradas n'uma placa metallica ricamente ornada e fixa sobre um centro de madeira. Estes relicarios, com a fórma d'um pequeno quadro rectangular ou d'um triptyco, eram mettidos em ricos estojos guarnecidos d'esmaltes, filigranas e pedras preciosas.

Não eram só os relicarios da madeira da verdadeira Cruz, que tinham a fórma d'uma cruz com duas travessas horisontaes; os proprios edíficios em que se conservavam estes relicarios eram muitas vezes encimados com uma cruz do mesmo genero. Nas parochias em que os campanarios tinham a dita cruz, eram collocadas sobre os tumulos n'ellas existentes, cruzes de madeira ou de pedra com a mesma fórma.