Resumo elementar de archeologia christã
Chapter 5
No seculo XII, apparecem as janellas geminadas de dois vãos, separados por uma humbreira em fórma de columna, e servindo-lhe de moldura um arco commum de resalva. Vêem-se tambem janellas mesmo de tres vãos reunidos debaixo d'um unico arco. N'estas ultimas ou o vão do meio é mais alto que os dos lados, ou então é o tympano formado pelo grande arco, no qual ha um oculo, inteiramente aberto ou em fórma de trêvo, de quatro folhas e ás vezes com seis e mais lóbulos.
Tambem se encontram nos edificios romans do seculo XIII, olhos-de-boi e que não servem de ornamento aos vãos de janellas. Chamam-se rosaes e são compostos de differentes maneiras.
Nos paizes meridionaes continuaram a vedar os vãos das janellas com caixilhos rendilhados, de madeira ou de marmore. Os desenhos produzidos pelos recortes das travessas apresentam fórmas mais variadas e em harmonia com a ornamentação Roman; compõem-se quasi sempre de figuras geometricas. Os caixilhos recortados foram empregados até ao seculo XVI, na Grecia, Italia e Hespanha e ainda hoje no Oriente.
Na Europa Occidental e Septentrional preferiam tapar as janellas com vidros pequenos assentes em caixilhos de madeira, mas, desde o seculo X, reunidos por meio de filetes de chumbo. Algumas vezes estes vidros, differentemente coloridos, formavam um mosaico transparente, no qual ainda não havia figuras nem ornatos pintados sobre o vidro.
O emprego de vidraças com varios assumptos e personagens pintados, começou provavelmente no final do seculo X.
Em muitas egrejas, o côro e mesmo algumas vezes os braços do transepto terminam por um abside semi-circular ou polygonal.
O abside está ordinariamente ligado por um abside circular coberto d'um tecto quasi sempre mais baixo que o do côro.
As paredes exteriores dos absides são a maior parte das vezes ornadas d'uma ou de muitas ordens de arcadas separadas por faixas de pequena saliencia; columnas ou pilastras envolvidas, ligadas entre si por arcos de volta inteira. As janellas, ordinariamente em numero impar, são abertas debaixo das arcadas.
Os absides de quasi todas as egrejas Romans das margens do Rheno apresentam junto ao tecto uma galeria aberta, formada por uma serie de pequenas arcadas de volta inteira e sustentadas por pequenas columnas. Estes absides receberam o nome de absides _rhenanos_. Serviam outr'ora, e servem ainda hoje, em alguns sitios, para a exposição das reliquias.
Os edificios construidos na Europa Central, no fim do seculo X e principio do XI, não apresentam, muitas vezes, mais do que pilares muito simples, de secção circular, quadrada ou rectangular. No seculo XI, tambem se introduziu, áquem dos Alpes, o uso dos pilares com angulos reintrantes para collocar duas ou quatro columnas envolvidas, de que os constructores Lombardos se serviam já no seculo VIII.
As egrejas, parochias ruraes, de menor importancia teem muitissimas vezes pilares quadrados, curtos, sem base nem capitel, ou tendo por ornamento unicamente uma ou duas molduras pouco salientes que fazem parte do capitel.
Durante o periodo Roman, principalmente no seculo XII, muitos dos fustes das columnas foram cobertos de esculpturas variadas, consistindo em figuras geometricas, espiraes, torçaes, galões, botões, folhagens, cordões, animaes e mesmo representações de assumptos historicos ou legendarios. Estes ornatos são communs principalmente no Sul da Europa.
No fim do periodo Roman e no principio da época Ogival, as columnas são _anneladas_, isto é, formadas d'uma especie de tóro á roda do fuste.
As columnas _anneladas_ constituem um dos caracteres dos monumentos da transição do estylo Roman para o estylo Ogival. Tambem se encontram d'estes anneis nas nervuras das abobadas. No seculo _XII_, as columnas são tambem ás vezes duplas ou enfeixadas.
As bases das columnas são variadissimas.
Muitas das que se encontram nos edificios mais antigos assimilham-se ás bases Lombardas, mas sem ter garras.
As bases ornadas com esculpturas, muito communs no Sul da Europa, são raras nos paizes do Norte.
Foi no meado do seculo XI que começou a apparecer, áquem dos Alpes, o ornato chamado _garra_, que os lombardos já tinham usado muito tempo antes.
A garra Romã tem em geral a fórma d'uma folha applicada sobre o tóro inferior da base no angulo do plintho, e tambem ás vezes, a d'uma carranca ou d'um animal phantastico.
Desde o principio do seculo XII, os constructores romans achatam a forma do tóro inferior, quando a base se approxima da forma Attica; um pouco mais tarde apparece entre os tóros das bases, a moldura concava, bastante profunda, que fórma um dos caracteres distinctivos dos monumentos do fim do seculo XII e da primeira metade do XIII.
Os capiteis de architectura Roman são variadissimos. Ha uns que apenas se compõem de duas ou tres molduras curvas ou chanfradas, imitando o capitel toscano ou dorico.
A cornija dos capiteis é umas vezes elevada e coroada com um ábaco saliente, e outras baixa, tendo um ábaco que não resalta o fuste da columna.
Encontram-se, em muitos monumentos Romans, capiteis chamados _cubicos_, porque têem a configuração d'um cubo. Estes capiteis são algumas vezes chanfrados nos angulos inferiores e em geral arredondados na parte inferior.
A parte inferior do capitel cubico _Rhenano_, do seculo XII, era muitas vezes dividida em quatro porções de esphera, formando assim um grupo de quatro capiteis reunidos debaixo de um mesmo ábaco, mas foi ainda augmentado o numero das subdivisões, produzindo d'este modo os capiteis cubicos _canellados_ ou com resaltos redondos, que se encontram principalmente na Inglaterra e no Noroeste da França.
No tempo da formação do estylo Roman, a arte da esculptura estava quasi totalmente perdida áquem dos Alpes. Os que primeiro tentaram manejar o cinzel esforçaram-se em reproduzir, melhor ou peior, os antigos ornatos que tinham á vista; as producções d'estes artistas improvisados são imperfeitas e grosseiras.
Encontram-se em muitos monumentos Belgas do seculo XII, capiteis cuja ornamentação, simples e rudimentar, consiste unicamente em folhas applicadas sobre o açafate, e algumas vezes contornadas em voluta debaixo dos angulos do ábaco.
Os capiteis de quasi todos os grandes monumentos dos seculos XI e XII, são decorados de esculpturas ou de pinturas de côres carregadas. Os ornatos consistem em galões imitando perolas, folhagens encrespadas, florões artisticamente executados, animaes symbolicos, animaes phantasticos isolados ou em grupos, assumptos tirados da lenda ou da historia, principalmente do Velho e Novo Testamentos.
O capitel de _crochets_ usou-se na Belgica e em algumas partes da Allemanha desde o fim do periodo Roman. Dá-se o nome de _crochets_ e algumas vezes tambem o de _baculo vegetal_, ás folhas mais ou menos compridas, recurvadas em voluta na sua extremidade.
Chama-se _arcada_ toda a abertura, real ou simulada, contornada por uma archi-volta; e _arcadura_, uma arcada de pequenas dimensões.
Até ao seculo XI serviam-se geralmente do arco de volta inteira ou formado por um semi-circulo para ligar duas columnas ou os dois pontos extremos d'uma arcada. Nos seculos XI e XII, começam a apparecer novas formas d'arcos: 1.^o, o arco _elevado_, cujos dois ramos descendentes se prolongam verticalmente abaixo do centro gerador; 2.^o, o arco em fórma de ferradura produzido por uma parte da circumferencia que excede o semi-circulo; 3.^o o arco de volta abatida ou em aza de cesto, formado por uma semi-ellypse cortada segundo a direcção do eixo maior; 4.^o, o arco de tres lóbulos cujo intradoz é composto de tres lóbulos.
As paredes interiores lateraes das egrejas, as capellas, as casas capitulares são em geral ornadas, na sua parte inferior, com arcaduras sustentadas por pequenas columnas mais ou menos embebidas no pé-direito e firmadas sobre um sócco de pedra collocado em roda de todo o edificio.
As arcaduras tambem são muitas vezes empregadas, no exterior dos edificios, para a decoração das fachadas. Encontram-se egualmente sobre as outras partes dos monumentos arcadas pouco salientes, cujas extremidades assentam sobre modilhões muitas vezes executados apenas de feitio chanfrado, e ainda ás vezes ornadas de esculpturas. Em alguns casos foram os modilhões substituidos por grupos de columnas embebidas.
As arcaduras servem principalmente para ornamentar as partes lisas das paredes debaixo das cornijas, os parapeitos das janellas e as platibandas de que se servem para as ligar entre si pelas faixas muraes.
Estas arcaduras foram imitadas do estylo Lombardo. Tambem se encontram principalmente nos edificios romans da Allemanha, da Inglaterra e d'algumas partes da França.
Chamam-se _Triforiums_ as galerias mais ou menos largas, que ficam por cima das arcadas das naves lateraes das egrejas, ou simplesmente por cima das archivoltas das grandes arcadas que ligam dois pilares contiguos.
Encontram-se _Triforiums_, que abrangem todo o comprimento do corpo da egreja, nos edificios Lombardos.
Os _Triforiums_ estreitos são posteriores ao seculo XII, e só durante o periodo Ogival é que se generalisou o seu emprego.
A cornija compõe-se d'uma pedra mais ou menos saliente sobre a face das paredes de maior ou menor grandeza, segundo a maior ou menor dureza dos materiaes de que dispomos.
A cornija é sustentada por consólas ou modilhões collocados regularmente por baixo das juntas das pedras que formam as cornijas. Os modilhões têem a fórma d'um curvo ou d'um florão. Chama-se _curvo_ um modilhão simples, que fica saliente sobre a face d'uma parede ou d'um pilar e que tem as duas faces lateraes parallelas e perpendiculares á mesma parede; e com feitio de florão, é uma consóla que não tem as faces nem parallelas, nem perpendiculares á parede. Ás vezes são os curvos e esses florões ornados de esculpturas representando cabeças humanas, figuras grotêscas, carrancas, monstros, volutas, etc.
A maior parte dos edificios do periodo roman não tinham abobadas senão no abside do côro, no pavimento inferior dos campanarios e algumas vezes ao de cima das naves lateraes. A nave central era ordinariamente coberta com um simples tecto de madeira. As abobadas que hoje se vêem em muitas egrejas do estylo roman foram construidas em epoca bem mais recente.
Nos edificios religiosos que tinham a nave principal coberta d'abobadas, eram estas d'aresta geralmente em nervuras; e como succede nas egrejas lombardas, a cada arco da nave central correspondiam nas paredes lateraes dois arcos de menores dimensões. Para supportar a pressão obliqua, exercida sobre os pilares e sobre as altas paredes da nave pela abobada da nave central, os architectos romans seguiram dois systemas.
Uns, imitando os constructores lombardos, construem as paredes lateraes quasi da altura da nave e dispõem as abobadas de maneira que supportem a curva da abobada central. Outros construem nas paredes lateraes abobadas semi-circulares ou de quarto de cylindro, cuja parte inferior assenta sobre as paredes mestras do edificio, e a parte superior vem apoiar-se contra a principal parede da nave central no logar onde começa a sua abobada.
Até ao principio do seculo XII, os arcos duplos compõem-se de uma ou de duas ordens de cunhas de cantaria geralmente sem molduras nem ornatos, e apresentam uma secção quadrada ou rectangular. No fim do periodo roman, e mais tarde ainda, os angulos do intradoz do arco dobrado têem regularmente o feitio de tóros.
As nervuras das abobadas d'aresta consistem em um simples tóro, algumas vezes acompanhado de dois ou quatro tóros de menor espessura. No fim da época Roman, e durante o periodo da transição, o tóro principal foi em certos paizes achatado e composto de uma aresta viva no intradoz. As nervuras das abobadas do estylo Roman são muito mais toscas que as das Ogivaes.
Os architectos dos seculos XII, XIII e XIV decoravam algumas vezes o nascimento das nervuras das abobadas superiores ao capitel com molduras geometricas.
Chamam-se _contrafortes_ aos pilares embebidos nas paredes exteriores dos edificios, e que servem para sustentar e diminuir a pressão das abobadas, ou supportar o peso do madeiramento do telhado. Estes apoios correspondem sempre exactamente (nos monumentos que não têem abobadas) aos pontos onde assentam as asnas do madeiramento, e nos edificios abobadados, aos pontos onde vem exercer-se a pressão combinada dos arcos duplos e das nervuras das abobadas.
Nas construcções de architectura Roman, especialmente nas mais antigas, os contrafortes apresentam-se algumas vezes com a apparencia de uma pilastra semi-cylindrica.
No XI, e principalmente no seculo XII, apresentam os contrafortes variadissimas fórmas. Uns são muito largos na base, e diminuem successivamente em cada um dos seus tres lados isolados; outros, mais delgados, têem sempre a mesma largura entre as duas faces lateraes e parallelas, e não diminuem senão na face exterior, em que essa diminuição se faz successivamente em diversas partes na sua total elevação. Alguns ha que têem sempre as mesmas dimensões em todas as faces, sem saliencia nem resalto algum, desde a base do edificio até á cornija.
Os madeiramentos nos telhados dos edificios do estylo Roman são raros.
Na Europa Occidental os telhados conservaram até ao seculo XII uma pequenissima inclinação.
É só no meiado d'este seculo, e até mesmo mais tarde, que se encontram declives com excessiva correnteza nos telhados dos edificios da edade média.
As _Torres_, tanto na Europa Central como na Occidental, anteriores ao seculo XI, são em geral quadradas, e sem nenhum ornamento, ou apenas ornadas com simples arcadas, e ordinariamente cobertas por um telhado de quatro abas de fórma concava, formando uma pyramide obtusa.
Os campanarios do seculo XI, e sobretudo do XII, são mais elevados e ornamentados que os dos seculos precedentes. Compõem-se de dois e mais pavimentos, que se sobrepõem, e cujas dimensões vão muitas vezes diminuindo successivamente. A sua fórma e aspecto geral variam de um paiz para outro.
Os campanarios isolados, que são quasi exclusivamente proprios da Italia, distinguem-se por mais duas especies.
Ha uns construidos no ponto de intersecção do transepte com a nave principal, e ainda outros edificados ora sobre a fachada, ora sobre as extremidades do côro ou do transepte. Os primeiros assentam sobre quatro grossos pilares: os segundos erguem-se perpendiculares sobre os seus quatro lados; ou são sustentados por arcadas abertas sobre uma, duas e até mesmo tres das suas faces.
Os campanarios centraes têem em geral differentes fórmas. Ha-os quadrados, octogonaes, e ainda com muito maior numero de lados; existem tambem alguns em fórma de cúpula.
Os campanarios da fachada, e os construidos proximo do côro ou dos transeptes das egrejas, apresentam ainda fórmas mais variadas que os centraes. Os mais simples são quadrados e divididos tanto interior como exteriormente em dois ou mais pavimentos. Outros, elevando-se sobre uma base quadrada, tornam-se em polygonos de maior numero de lados logo no primeiro ou segundo andar, tendo em geral a fórma octogonal.
No XI e no XII seculo eram os campanarios cobertos de madeira com feitio de flecha ou de pyramides construidas de pedra; quadrados ou octogonaes, eram pouco elevados e acachapados. Os angulos das pyramides de base quadrada eram ás vezes ornados com pequenos campanarios. Muitos remates de cantaria foram destruidos pelas chuvas e pelos gêlos, e depois substituidos nos seculos XIII e XIV pelas flechas esguias.
Algumas torres tinham por cobertura um telhado apenas com duas abas, terminando por uma empêna em cada um dos lados. As torres cobertas por este modo só se usaram durante uma parte do periodo Ogival.
Os pavimentos em _opus alexandrinum_ continuaram a usar-se na Italia e em todos os paizes aonde havia marmore. Na Allemanha, na França e na Belgica, por exemplo, serviam-se de tijolos de terra, cota esmaltada, ou de pedras gravadas e com embutidos de massa colorida. Até ao fim do seculo XII cada tijolo tinha a sua côr propria. As côres que se encontram nos pavimentos do fim do periodo Roman, são a preta, cinzenta, vermelha, e principalmente amarella e verde-escuro. As duas ultimas predominam em quasi todos os trabalhos d'este genero do seculo XII.
No Oriente e no Sul da Europa, os edificios historicos, legendarios e symbolicos eram bastante communs no seculo XII; tambem se viam alguns na Europa Occidental.
Se, na sua origem, a pintura das paredes imitou as mesmas fórmas que tinha o mosaico, e se inspirou dos principios d'esta arte, não podia tardar muito que ella tomasse mais livre desenvolvimento e adquirisse certos principios que lhe fossem especiaes em consequencia da propria natureza dos seus processos e da maneira por que estes satisfazem a vontade do artista.
Com effeito, a pintura liga-se ás fórmas da architectura até nas mais delicadas molduras; e por conseguinte de um modo mais intimo que o mosaico. Desde os primeiros seculos até á época da Renascença, a pintura das paredes pôde, sem duvida, modificar o estylo do desenho, e variar o tom e a harmonia das côres empregadas, seguindo o progressivo desenvolvimento da arte de construir, mas ficou sempre subordinada á architectura.
A pintura monumental differe muito da que se emprega ordinariamente n'um painel.
Um painel, no sentido moderno da palavra, não é mais do que uma scena mostrada nos limites de um quadro, atravez de uma janella aberta. A pintura monumental, pelo contrario, é uma arte convencional na qual a imitação da natureza, a reproducção das suas fórmas e dos phenomenos atmosphericos que ella apresenta, quasi que por assim dizer não existem.
A figura humana e as composições em que esta apparece em grupos são geralmente reservadas para as grandes superficies planas das paredes; só muito raramente se encontram nas pilastras e nas columnas. Por toda a parte o symbolismo ou a allegoria constitue um dos grandes caracteres tanto da pintura das paredes como de todas as artes em geral durante o periodo de que nos occupamos.
As pinturas historicas eram tratadas da maneira mais simples. O artista apenas faz figurar o numero de figuras estrictamente necessario para a composição do assumpto de que trata. As côres são applicadas com tintas eguaes, sem indicar sombras nem os differentes accidentes da luz, de fórma que é muitas vezes impossivel determinar qual o lado por onde o artista teve em vista que a scena fosse illuminada. As partes salientes dos corpos são regularmente indicadas por traços finos, e os contornos são representados com linhas cheias.
A pintura a _fresco_, que tem a vantagem de produzir tons agradaveis, foi a preferida para as pinturas historicas e legendarias. A _encaustica_ foi tambem escolhida para certos trabalhos. A intensidade e a harmonia dos tons que resultam do emprego da cêra, a possibilidade de nos occuparmos indefinidamente do trabalho já começado fizeram com que muitas vezes fosse adoptado este processo. Com effeito até mesmo a pintura a oleo é tambem muito antiga. Durante toda a edade média eram preferidos os outros processos, por meio dos quaes, obtendo-se tons baços, evitavam o reflexo tão desagradavel na pintura das paredes.
Durante a edade média a primeira pedra do alicerce dos edificios religiosos era regularmente ornada com uma cruz e uma inscripção. A sua collocação era feita com grandes solemnidades: um prelado ou um dignitario ecclesiastico a benzia publicamente, e elle proprio a collocava na base de um dos principaes pontos de apoio da construcção.
Tambem muitas vezes se serviam de inscripções lapidares para conservar a memoria da fundação do edificio e o nome do architecto ou do mestre da obra. Em algumas egrejas encontram-se pedras com dedicatorias indicando a data da consagração, os nomes dos santos cujas reliquias se acham depositadas no altar, e até mesmo o nome do orago da egreja.
Os altares eram uns fixos e outros portateis.
_Altares fixos_.--As mesas dos altares fixos, ordinariamente de marmore ou de pedra, e de fórma quadrada ou rectangular, continuaram até meiado do seculo XII a ser vasadas em fórma de bandeja, como já se usára no periodo Latino.
O supporte da mesa do altar consiste, muitas vezes, em uma simples base cubica de alvenaria sem ornamentação alguma, e algumas vezes tendo em roda uma inscripção e um simples rebordo. Nos dias solemnes cobriam-se estes altares com alfaias de lã e seda ou de outros tecidos preciosos.
Outras vezes o altar é sustentado por uma ou muitas pequenas columnas.
Os altares de fórma cubica eram muitas vezes revestidos de oiro e de prata e esmaltados, tendo tambem pedrarias, ou ornados com esculpturas e pinturas.
A face dos altares, com esculpturas, ou pintados, era em geral dividida em tres compartimentos com a fórma de arcadas mais ou menos ricamente decoradas. Jesus Christo lançando a benção, de pé ou sentado, occupa ordinariamente a parte central, que é muitas vezes a mais elevada, ou com a fórma de uma auréola oval ou de quatro lóbulos. Nas arcadas lateraes vêem-se figuras de santos e os symbolos dos evangelistas, que se acham dispostos ou em torno do compartimento do meio, ou nos fundos das arcadas.
O altar principal das grandes egrejas era muitas vezes, como succedia no periodo Latino, encimado por um _ciborium_, e o mesmo acontecia com alguns dos altares lateraes.
No final do XI seculo começou o uso dos retabulos, isto é, dos paineis ou quadros assentes verticalmente ao fundo dos altares propriamente ditos. O retabulo não constitue por si só uma parte essencial do altar, mas sim um accessorio. O seu primitivo e principal fim é promover a devoção entre o padre que offerece o santo sacrificio e os fieis que a elle assistem, fazendo-lhes ver assumptos religiosos produzidos pelo cinzel, esculptura, pintura, etc.
A principio era pouco elevado, attingiu uma excessiva altura no fim do periodo ogival e na época da Renascença.
Representavam-se nos retabulos os mesmos assumptos que nas alfaias: Christo, sentado ou em pé, occupava em geral o painel do centro, tendo imagens de Santos e assumptos tirados da Historia Sagrada, ou da lenda, em arcadas lateraes, ou em medalhões de diversas fórmas, collocados em redor da imagem do Salvador.
A maior parte dos primitivos retabulos eram de oiro, prata ou cobre doirado e esmaltado: todavia alguns se encontravam, ainda que em menor numero, construidos de pedra e de madeira pintada ou esculpida. Estes ultimos só se generalisaram no fim do periodo roman e no principio da época ogival.
A principio os retabulos serviam tambem para encerrar os relicarios quando elles não tinham mais ornamentos, ou para os emmoldurar quando os seus frontaes eram ricamente adornados. Parece ter sido nos mosteiros que este uso teve principio. Durante o XI seculo, a maior parte das abbadias da Europa Central e Occidental mudaram a disposição interior das egrejas no que diz respeito ao logar reservado aos religiosos durante a celebração do Santo Officio: as cadeiras ou bancos dos padres, que d'antes occupavam o proprio côro do abside, foram transportadas para o transepte, e desciam ordinariamente até á segunda ou terceira arcada da nave principal, como na egreja d'Alcobaça.
Ao fundo do Sanctuario, proximo á curvatura do abside, elevava-se o altar das reliquias, atraz ou debaixo do qual eram expostos os restos mortaes dos Santos, que até ali se tinbam conservado religiosamente nas cryptas das egrejas.
Algumas vezes as reliquias eram encerradas em caixas ou cofres e collocadas no interior do altar.
Tambem se expunham mesmo sobre os altares, como succedia no IX seculo; mas não é facil actualmente determinar se esta exposição era permanente ou temporaria, isto é, durante certas solemnidades religiosas extraordinarias.