Resumo elementar de archeologia christã
Chapter 23
As doze sibyllas são: 1.^a A Sibylla da Persia, _percicae_, que tem na mão uma lanterna, porque ella annunciou a vinda do Messias; bastantes vezes o sol brilha por cima da sua cabeça. 2.^a A de Libya, _libicae_, que tem um brandão acceso e prediz o Redemptor como a luz do mundo. 3.^a A de Delphos, _delphicae_, que tem na mão uma corôa de espinhos, porque prophetisou as mortificações de Jesus Christo. 4.^a A do Mar Vermelho ou de Erythrea, _erythracae_, uma das mais celebres, que havia predito a ruina de Troyes; era a prophetisa das vinganças divinas; traz uma espada nua. 5.^a A de Cumas, _cumana_, egualmente muito citada, tem um presepio, porque annunciou o nascimento de Christo em uma manjadoura. 6.^a A de Samos, _samia_, traz uma corôa de espinhos como a de Delphos, e um caniço, porque prophetisou a Paixão. 7.^a A Cimmerianna, _cimmeria_, prophetisou a crucificação, e por esta razão traz uma cruz da paixão. 8.^a A de Tivoli, _tiburtina_, tem na mão uma vara, por haver annunciado a flagellação do Redemptor. 9.^a A de Phrygia, _phrygia_, traz uma cruz de resurreição, no cimo da qual fluctuam tres bandeirolas encarnadas. 10.^a A de Hellesponto, _hellespontica_, tem por attributo uma rozeira florida, ou então uma cruz, porque annunciou algumas circumstancias da Paixão. 11.^a A Europa, _europaea_, tem um alfange, porque predisse a degolação dos innocentes. 12.^a Finalmente, a Sibylla Agrippa tem a vara como a de Tivoli.
CAPITULO VI
Periodo da Renascença
_NOÇÕES PRELIMINARES_
Não nos demoramos muito sobre as differentes phases da arte na epoca da renascença, mais apropriadamente moderna do que antiga; e que, por conseguinte, não pertence ao dominio da archeologia.
Chama-se _renascença das artes e das lettras_ ao retrocesso para a arte classica antiga e para as litteraturas grega e latina. A renascença das artes estendeu-se não sómente á architectura, mas a todas as artes de desenho. A reacção favoravel para a architectura grega, romana ou classica, produziu-se primeiramente na Italia, onde nunca o estylo ogival tinha vigorado summamente, nem dominado só com poder absoluto.
Proximo ao principio do XVI seculo, a architectura néo-classica transpoz os Alpes, e passou successivamente á França, Hespanha, Portugal, Belgica, Allemanha e Inglaterra. Os paizes mais afastados do renascimento, foram tambem os ultimos a adoptarem os seus principios architectonicos.
Na França como na Belgica o progresso do novo estylo foi rapido, tendo apparecido quasi ao mesmo tempo.
O retrocesso tão rapido e tão universal para as fórmas da arte classica, foi motivado em grande parte por um desejo de novidade, e por uma reacção contra a architectura ogival. Nota-se, realmente, que em architectura, mais que em qualquer outra arte, o gosto é sempre movido para a variedade; e é isto que explica como se póde dizer com verdade, que a historia da architectura offerece uma continuação de transições sem repouso. A esta causa principal vieram ajuntar-se muitissimas causas secundarias, taes como a reacção que se operou nos XV e XVI seculos, a protecção aos estudos gregos e latinos, e a invenção da imprensa, que concorreu tão admiravelmente para a diffusão das obras primas da litteratura e da arte antiga, pelas quaes se tinham apaixonado.
Até ao meiado do XVIII seculo, a renovação das fórmas antigas fez-se exclusivamente conforme os modelos antigos de Roma e de Italia, modelos quasi todos não satisfazendo a respeito da conformidade artistica. Foi sómente n'esta epocha que se principiou a estudar os monumentos da melhor epocha ainda conservados em Athenas e na Grecia.
Houve, entre o estylo ogival e o do renascimento, um periodo de transição, durante o qual se notou muitas vezes, no mesmo monumento, uma mistura, uma fusão de fórmas particulares a cada estylo. Portanto encontram-se edificios, os quaes, entre os detalhes melhor caracterisados do estylo ogival do XVI seculo, apresentam ornatos, taes como medalhões, folhagens e arabescos, copiados dos monumentos da Roma antiga. Outras vezes, janellas em ogiva são compostas de pinasios com os perfis no gosto da renascença. Finalmente, ás vezes as abobadas pendentes, os pinaculos e os campanariosinhos estão cheios de ornatos imitados dos edificios da antiguidade.
*Caracteres da architectura da Renascença*
_Comêço_. A architectura da renascença seguiu os mesmos principios fundamentaes que a architectura classica, isto é, as cinco ordens greco-romanas.
Os primeiros architectos da renascença inspiram-se unicamente dos monumentos de Roma e da Italia. Ora, n'um grande numero d'estes monumentos, o _entablamento_, isto é, a parte superior da Ordem, composto do _friso_, da _architrava_ e da _cornija_, membros que, nas Ordens Gregas, servem sempre para ligar duas columnas proximas, tinha sido supprimido e substituido por arcos, os quaes vinham firmar-se nos capiteis d'essas columnas. Quando procuram empregar materiaes de pequena dimensão, a substituição do arco pelo entablamento é perfeitamente logica; porém esta não é a pratica seguida na epocha da _decadencia_ romana, de interpôr ao fecho inferior do arco e ao açafate do capitel, um simulacro de entablamento da Ordem, entablamento que ficava completamente inutil, visto que o seu emprego está preenchido pelo _arco_. Na época da renascença, esta prática pouco racional e pouco reflectida foi geralmente adoptada, principalmente d'áquem dos Alpes. Além de que, foram buscar aos mesmos edificios da decadencia romana outros defeitos tambem notaveis no que diz respeito ás cornijas: em primeiro logar, quando muitas Ordens estão sobrepostas na altura de um monumento, como acontece frequentemente nas fachadas, põem-se _tantas cornijas_ quantas são as _Ordens_; depois, coisa mais singular ainda, a Ordem collocada _no interior_ de um monumento _conserva_ a sua cornija, isto é, o _remate do edificio_ destinado a ter _um telhado_ e um algeroz para dar saída ás aguas da chuva!
A architectura do renascimento, todavia, não é uma simples mescla, uma copia servil da architectura greco-romana. Serve-se ella, na verdade, das cinco Ordens, mas ajustou-as para outros usos e para outros climas, aproveitando os progressos obtidos pela arte de edificar durante o estylo ogival. Os edificios que executou conforme os principios de construcção d'este ultimo estylo, foram enfeitados á maneira antiga, ornamentado superficialmente, ou desfigurados, como em S. Paulo de Londres, por paredes isoladas que encobrem a configuração architectonica do monumento; emquanto na Belgica, nas egrejas do renascimento, o systema do apparelho das abobadas ogivaes foi em toda a parte conservado, porém dissimulado com arte. As paredes exteriores das naves lateraes, muito grossas, preenchem o fim dos contrafortes, e muitas vezes esses arcos-butantes ficam revirados (isto é, collocados de maneira que a sua curva convexa fica posta na direcção do telhado d'essas naves), e apoiados nos arcos duplos d'elles.
_Decoração_. Sob o ponto de vista da decoração pintada e esculpida, muito mais que sob o ponto de vista architectonico, o periodo da renascença, no sentido mais lato, póde-se dividir em muitos estylos, apresentando cada um caracteres distinctos. Estas sub-divisões se applicam particularmente ás producções da arte Franceza. 1.^o o estylo da renascença propriamente chamado, o qual comprehende o XVI seculo e a primeira metade proximo do XVII seculo; todavia sepára-se algumas vezes d'esta época nos annos 1610 a 1642, para lhe constituir o estylo Luiz XIII; 2.^o o estylo Luiz XIV (1643 a 1715); 3.^o o estylo Luiz XV (1715 a 1774); 4.^o o estylo Luiz XVI (1774 a 1796); 5.^o finalmente o estylo, designado do imperio (primeiros annos do XIX seculo).
Na origem da _renascença_, os ornamentos foram, como na architectura imitados quasi servilmente dos monumentos da antiguidade. As almofadas, frizos, pilastras e um grande numero de outros trabalhos architectonicos se revestiram, nos edificios os mais sumptuosos, de assumptos de decoração proveniente da arte greco-romana. As palmetas, folhas de acantho e triglyphos tornaram a apparecer em todo o logar. Viam-se tambem, genios alados, figuras naturaes e phantasticas de toda a especie enlaçadas nas grinaldas e em espiraes formando desenhos os mais caprichosos. Estes ultimos ornamentos, compostos principalmente conforme os modelos antigos achados em Roma nas _grutas_ ou ruinas do palacio de Titus, tiveram no principio o nome de _grotescos_, denominação mais propria do que a de _arabescos_, a qual lhe foi dada depois, porque os Arabes proscreviam severamente da sua decoração qualquer representação da natureza animada.
O estylo da renascença não se conservou intacto senão até o principio do XVI seculo.
Os ornamentos do estylo Luiz XIV consistem principalmente em grandes espiraes, palmas muito desenvolvidas, separadas ou envolvidas com os elementos de ordem architectural, medalhões, trophéus, etc.
O estylo Luiz XV, que prima antes de tudo pela elegancia exaggerada nos pequenos detalhes, desce á affectação na lindeza. A esculptura decorativa abunda nas espiraes com folhagens myrrhadas e subtilmente contornadas; faz com frequencia uso de conchas ou embrechado, misturando-as em todas as suas composições. A linha recta cede o logar á linha curva, e sobretudo a symetria não é observada. No principio do XVIII seculo, o gosto se corrompeu de novo; volta-se no traçado do plano e nas fachadas dos edificios ás fórmas torcidas e ás linhas quebradas. Nos ornamentos dos maiores e soberbos contornos, as plantas vistosas do estylo Luiz XIV transformam-se em definhados filetes, torcendo-se e entrelaçando-se uns nos outros da maneira a mais singular, e acompanhados de abundantes obras de conchas e de grande numero de cupidos; o que fez dar a este _estylo exquisito e todo affectado_ o appellido de estylo _embrechado_ e estylo _Pompadour_.
A affectação e o grande exaggero que caracterisam o estylo de Luiz XV motivaram cedo uma reacção. No reinado de Luiz XVI voltaram a empregar menos entrelaçados e menos entalhaduras. A descoberta de Herculanum e a publicação das _Antiguidades de Athenas_ contribuiram a levar o entendimento para o gosto mais serio, uma decoração menos contrafeita; fizeram vigorar as fórmas classicas da arte grega e romana, cujas investigações recentes vieram a descobrir os especimens importantes e notaveis.
A época da revolução franceza e do directorio causou um extraordinario prejuizo á industria artistica. Quando, no principio do actual seculo, um novo estado politico ficou definitivamente constituido, o seu novo soberano, vencedor na Italia e no Egypto, cuidou em conservar junto de si as coisas que lhe recordassem as suas victorias gloriosas.
No _estylo do imperio_ viu-se apparecer os gryphos, as sphinges, os feixes consulares, victorias com palmas e corôas de carvalho. Pouco tempo depois, esses assumptos foram quasi os unicos empregados na decoração tanto de architectura, como na mobilia.
_Plano das egrejas_. A maior parte das egrejas da renascença têem a fórma da cruz Latina. As capellas que havia ao correr das naves lateraes e na nave principal das egrejas ogivaes, ficaram supprimidas em França, na Belgica e na Allemanha, porém conservaram-se na Italia. A capella mór e o cruzeiro terminavam geralmente por uma abside semicircular ou polygonal, apresentando no interior uma disposição de pilastras corinthias ou compositas, entre as quaes ha janellas e nichos. Arcadas de volta inteira, descançando sobre columnas ou pilares põem a nave principal em communicação com as naves lateraes. As portas, as janellas e todas as aberturas estão tapadas na sua parte superior por um arco de volta inteira.
Os _triforiuns_ das egrejas ogivaes não se construiram na renascença. Primeiramente substituiu-os, durante algum tempo, uma galeria em sacada, tendo parapeito de cantaria vasado ou de obra de ferro; todavia pouco depois esse logar foi occupado por uma simples cornija com sacada bastante solida para servir como galeria, podendo-se andar á roda da nave principal, ficando na altura das janellas superiores.
O monumento mais gigantesco e grandioso que tem produzido a architectura do renascimento é, sem duvida, a basilica de S. Pedro do Vaticano em Roma, cuja construcção foi dirigida pelos mais celebres architectos, Bramante, Raphael, os dois S. Gallo, Peruzzi, Miguel Anjo, Vignola, Maderno e finalmente Bernini, este artista de quem infelizmente o seu mau gosto em bellas-artes veiu a ser proverbial, sendo originado pela inveja dos seus emulos, que pretendiam tirar a fama ao seu superior talento: imaginando dar formas novas e as mais extravagantes ás suas composições architectonicas afim de supplantar os seus rivaes, morreu _desesperado_ por nada ter conseguido; posto que fosse dotado de talento, o seu desmarcado amor proprio veiu a causar-lhe o descredito do seu nome. N'esta colossal construcção da Basilica de S. Pedro consumiu-se mais de seculo e meio.
_Fachadas das egrejas_. As fachadas compõem-se regularmente de duas, e algumas vezes de _tres Ordens de columnas sobrepostas_. A ordem inferior abrangendo ao mesmo tempo a nave principal e as lateraes, é mais larga que a ordem superior; essa corresponde á unica nave central, pois que o madeiramento das naves lateraes não sóbe nunca até o entablamento da primeira ordem. A ordem mais superior sempre terminada por uma attica ou um frontão triangular, tendo no vertice uma cruz ornatada nos angulos, acrotéros com vasos, fogaréos e tocheiros. Duas misulas deitadas de cada lado da ordem superior, preenchem os espaços dos angulos rectos produzidos pela superposição das duas ordens tendo desigual largura. As columnas da fachada estão geralmente embebidas um terço ou metade do seu diametro. Um ou tres portaes, conforme a importancia do edificio, dão ingresso nas naves.
Os jesuitas, cuja Ordem se fundou no XVI seculo, vindo a ser muito rica e poderosa no XVII seculo, adoptaram em toda a parte esta composição para as fachadas de suas egrejas; por isso dá-se o nome do _estylo dos Jesuitas_ á architectura religiosa d'esta época. A maior parte das egrejas que estes religiosos construiram distinguem-se pela abundancia dos seus ornamentos, principalmente as edificadas na Belgica.
_Abobadas_. As abobadas têem, como as da época antecedente, nervuras encruzadas, as quaes, em logar da fórma da ogiva, descrevem uma curva de volta inteira ou um arco de volta abatida. Os arcos duplos são largos e muitas vezes formados por almofadas pouco fundas. No XVI seculo, as abobadas tinham ás vezes decorações pintadas, e os seus fechos sustentam abobadas pendentes com muitas sacadas de bastante peso. Depois abandonou-se, além dos Alpes, a decoração pintada, substituindo-lhe os ornatos em relevo.
_Torres_. As torres, geralmente construidas sobre plano quadrado, e compostas de dois, tres ou quatro andares sobrepostos e ornados de pilastras ou de columnas embebidas, têem muitas d'ellas uma balaustrada á bôca da flecha, com as fórmas mais variadas; campanulada, piriforme, pyramidal ou uma fórma mais complicada ainda.
*Mobilia religiosa*
_Altares_. Durante algum tempo continuou o uso dos retabulos com divisões multiplices, no genero d'aquelles dos ultimos annos do periodo ogival, porém tendo as molduras das almofadas em detalhes no gosto do renascimento.
Foi proximo do XVI seculo que uma mudança radical appareceu na fórma e disposição dos altares. Os retabulos foram então substituidos pelos porticos copiados dos arcos de triumpho da antiguidade, encimados com frontões de fórmas muito variadas. Serviram-se quasi sempre de marmores raros e preciosos, sobretudo para as columnas, adquirindo-os com grande despeza, dos paizes os mais distantes. A arcada imitando o _arco de triumpho_ foi ornada, no principio, de estatuas e de altos e baixo-relevos, depois por retabulos de grandes dimensões; e estes mesmos acabaram em pouco tempo para serem substituidos geralmente por esculpturas.
Quando no XVII e no XVIII seculos, as fórmas extravagantes (_rocôcó_) prevaleceram no systema da decoração, os altares tambem ficaram sobrecarregados de ornamentos de pessimo gosto, e appareceram as columnas _torcidas_, em _espiral_ e em _saca-rolhas_!
_Tabernaculos_. O uso de collocar tabernaculos para conservar a eucharistia sobre os altares principaes e secundarios, generalisou-se no fim do XVI seculo. Até essa época as particulas se conservaram, como durante o periodo ogival, nos tabernaculos isolados em fórma de torre ou em armarios abertos na parede, por detraz ou á ilharga do altar. Houve mesmo paizes onde o antigo costume não ficou abandonado inteiramente só muito depois do XVII seculo.
Os tabernaculos de marmore e de madeira que se collocavam sobre o altar desde a época do renascimento, compõem-se geralmente de um cylindro ôco ornado com riqueza e reunido a _predella_ ou throno, no qual se põem castiçaes sobre misulas reviradas. O cylindro fechado no seu cume por uma tampa de fórma hemispherica tem por remate um crucifixo, dividido por um, dois ou tres compartimentos com separação, e girando sobre um eixo vertical.
_Cadeiras do côro, obra de talha e confissionarios_. As obras de entalhador que ornam muitas egrejas do XVII seculo, são as principaes obras deixadas pela época da renascença.
As costas das cadeiras do côro compõem-se sempre de almofadas de marcenaria ornadas de baixos-relevos ou de pinturas, separadas umas das outras por columnasinhas da Ordem Corinthia ou Composita, sustentadas em sacadas por misulas com bella obra de talha. Os fustes d'essas columnasinhas, rectos ou torcidos, estão cheios de lindos arabescos e delicadas folhagens. A obra de talha e dos confissionarios apresentam na sua decoração de esculptura bastante similhança com as das cadeiras do côro.
_Jubéos e balaustradas_. Os _jubéos_ da renascença compõem-se geralmente de tres arcadas de volta inteira, que descançam sobre columnas ou pilastras imitadas das Ordens classicas.
Collocam-se os jubéos á entrada da capella mór nas grandes egrejas até proximo do meiado do XVII seculo.
No meiado do XV seculo, uma grande reacção se fez contra os jubéos, porque, dizia-se então, destruiam o aspecto architectonico e impediam os fieis de vêr o sacerdote no altar. Muitos foram desmanchados n'esta época, outros transportados proximo da fachada Occidental da egreja, a fim de servirem de tribunas para collocar os orgãos.
As _balaustradas_ destinadas a vedar a capella mór e a separar das naves lateraes as capellas, ou resguardar certas partes da mobilia religiosa, foram poucas vezes feitas de ferro ou de madeira, faziam-se de preferencia de marmore ou latão. A sua composição era de repetidas columnasinhas de fórma classica, quer com balaustres em pé ou _revirados_, o que lhe fez dar o nome de _balaustrada_.
Muitas vezes assentavam extraordinarios monumentos funerarios entre essas separações da capella mór e as naves nas cathedraes e nas egrejas importantes.
_Caixas de orgão_. Na época do renascimento, deu-se ás caixas dos orgãos as maiores dimensões. Collocaram-se, primeiramente, nas egrejas ogivaes, do lado do Evangelho, na parte inferior do _triforium_, no primeiro ou segundo vão da nave principal. Depois, isto é, perto do meiado do XVI seculo, foram assentes proximo do cruzeiro, á entrada dos lados lateraes da capella mór. Finalmente, quando as dimensões dos orgãos se foram desenvolvendo desmedidamente, estabeleceram-se tribunas especiaes na nave central, proximo da frente Occidental da egreja. As mais antigas caixas dos orgãos estão cobertas de obra de talha.
_Pulpitos_. Durante o periodo da renascença, o pulpito teve dimensões muito maiores que precedentemente. No XVI e XVII seculos foram construidos geralmente de madeira; porém desde o meiado do seculo seguinte, ajunta-se algumas vezes o marmore á madeira. Os pulpitos das egrejas de primeira ordem compõem-se muitas vezes de grupos de estatuas acompanhadas de arvores, rochedos e outros detalhes pittorescos representando factos da historia sagrada ou ecclesiastica.
_Tumulos e campas_. No XVI seculo os cenotaphios eram compostos ainda como durante o periodo ogival, d'um sóco ou macisso de alvenaria, coberto por uma grande lousa, sobre a qual se vê a estatua do finado. Á roda do sóco acham-se por vezes estatuasinhas debaixo de arcaduras de volta inteira descançando sobre columnelos jonicos, corinthios e compositos, outras vezes, as arcaduras e as estatuasinhas estão substituidas por uma ordem de brazões. A figura do finado vê-se umas vezes deitada, outras de joelhos sobre uma almofada ou genuflexorio. Esta ultima attitude foi a mais commum no fim do periodo: todavia no XVII seculo, os monumentos sepulchraes veem a ter uma composição muito mais complicada; os sarcophagos tiveram as mais variadas fórmas, e as estatuas dos finados foram acompanhadas de outras estatuas allegoricas, como a morte tendo uma foice, figuras de anjos, a Fé, Esperança, Caridade, etc.
No XVII seculo, os mausoleus encontram-se muitas vezes collocados por baixo de uma arcada muito ornada no estylo do renascimento. Esta decoração architectonica applicada sobre as paredes de uma capella ou das naves lateraes, da nave principal e capella mór conservou-se nos XVII e XVIII seculos, mas disposta com acerto, com as modificações introduzidas successivamente na architectura. Na segunda metade do XVII seculo, e muito mais frequentemente no seculo seguinte, rematavam os tumulos com pyramides e obeliscos em meio relevo, ornados de bustos, em medalhão, do finado. Os cyprestes, as columnas quebradas, as urnas funereas, genios com fachos derribados, todas as reminiscencias pagãs vieram a ser tambem uma decoração mais seguida n'esta ultima época.
O uso das _campas_ continuou durante o periodo do renascimento, e o seu numero augmentou muito relativamente á época precedente. No XVI e no XVII seculos eram postas no pavimento das egrejas e dos claustros; tambem ás vezes se assentavam na grossura da parede, junto do logar em que fôra sepultado o finado. As mais antigas, especialmente as da segunda classe, estão cobertas em parte por figuras em alto e baixo relevo, em parte com inscripções. Mais tarde limitaram-se a uma simples inscripção acompanhada de um symbolo ou de um brazão.
A maior parte das campas são de calcareo azul ou de marmore preto, e muitas vezes têem as inscripções embutidas com marmore branco. Acham-se tambem algumas lousas funerarias de latão, cujos traços gravados estão cheios de um esmalte encarnado ou preto, posto a frio.
Desde o começo do XVII seculo, as inscripções funereas principiam frequentemente pela fórma pagã D (_eo_) O (_ptimo_) M (_aximo_), ou com as letras P. M. interpretadas PIAE MEMORIAE, mas isso tem o inconveniente de fazer directamente allusão ao P (_iis_) M (_anibus_) dos antigos romanos.
_Pias baptismaes_. As pias baptismaes apresentam pouca importancia; a iconographia tão esplendida e tão abundante de symbolismo que se notava sobre as pias romãs, e algumas vezes ainda sobre as do periodo ogival, desapparece de todo. Ellas foram então formadas de simples pias de marmore, circulares ou polygonaes, tendo a fórma de uma semi-esphera ôca e achatada, ás vezes ornadas com molduras de fórma de perolas e assentes sobre um pedunculo com molduras. As tampas são de latão ou de madeira.