Resumo elementar de archeologia christã

Chapter 21

Chapter 213,740 wordsPublic domain

Quando, proximo ao fim do XIII seculo, os detalhes de architectura substituiram-se as peças de ourivesaria, e a decoração foi buscar aos reinos animal e vegetal, real ou phantastico, os baculos mudaram egualmente de aspecto. Ornaram-se então de nichos, estatuasinhas, flechas e pinaculos. O nó principalmente, e tambem a hostia, ficaram sobrecarregados com estes ornatos.

_Estofos preciosos_. Durante o periodo ogival, serviram-se muitas vezes, para os vestuarios sagrados, de estofos preciosos, nos quaes os desenhos da decoração eram feitos, _juntamente_ com o tecido mesmo, por meio de uma trama de differentes côres, sendo depois urdido pela applicação de bordados feitos com agulha. O uso dos pannos de raz para a decoração das egrejas generalisou-se cada vez mais durante o periodo.

_Tecidos_. A arte de fabricar os tecidos de seda foi trazida da Italia no XIII seculo. Os desenhos embellezadores que ornam bastantes vezes os tecidos no XIII seculo e durante uma parte do XIV são geralmente copiados sobre os estofos orientaes. As figuras symbolicas e os assumptos pertencentes á historia do antigo e novo Testamento, que se acham excepcionalmente nos tecidos sicilianos ou italianos antes do meado do XIV seculo, apparecem frequentemente depois d'esta epocha, com cercadura, ou não tendo este enfeite.

No XV seculo, a industria do tecido da seda desenvolveu-se cada vez mais a Oeste e Norte da Europa. A Suissa, França e a Belgica, que possuíam, depois do XIII seculo, alguns teares isolados para a fabricação da seda, do veludo, e do setim, viram então os seus teares a multiplicar-se e tomar consideravel incremento.

Em Flandres tambem se tinha alcançado, desde o XIII seculo, bastante fama pelos tecidos preciosos, para os quaes os primeiros aprestos foram fornecidos pela Inglaterra. De todos os estofos o mais estimado e de preço fabricado em Flandres era o setim de _Bruges_.

_Bordados_. Nas bordaduras do XIII seculo, como nas pinturas e esculpturas contemporaneas, o desenhador abandonou pouco a pouco as tradicções byzantinas. Os gestos dos personagens perdem a sua expressão archaica, as cabeças não são delineadas conforme typos convencionaes, as pregas dos vestidos, em logar de serem comprimidas e paralellas, são executadas com fidelidade; finalmente, as figuras teem muitas vezes a presença curvada.

Desde o fim do XIII seculo, a arte de bordar, designada muito distinctamente na idade média _pintura com a agulha, acupictura_, attingiu a um subido gráo de prosperidade; desenvolvendo-se cada vez mais durante o XIV seculo, e chegou ao seu apogeu no principio do XV seculo. N'esta ultima epocha, tres paizes se distinguiram sobretudo pelo talento e habilidade no acabamento dos bordados: foram a _Belgica_, a _Prussia rhenal_ e a _Bourgogne_. Os dois principaes centros de manufactura para os estofos bordados encontravam-se em Arrhas, em _Flandres_ e em _Cologne_; a estas duas cidades se póde ajuntar em segundo logar _Malines_, _Liége_, _Tournai_ e _Reims_.

_Pannos de Raz_. Chama-se panno de raz a _um tecido no qual os fios de côr, enrolados sobre uma urdidura fixa vertical ou horisontalmente, faz corpo juntamente, e produz combinações de linhas e tons similhantes aos de pintura que se obtem com o pincel, e o mosaista com os cubos de marmore ou de esmalte_. O panno de raz distingue-se do bordado em que as figuras fazem parte integrante do tecido, em quanto os bordados são simplesmente sobrepostos sobre um tecido já feito. Distingue-se por outro modo, dos estofos tecidos de ouro e seda, porque constitue sempre um trabalho manual, e não é obtido por um mechanismo representando sem fim o mesmo padrão. Cada uma das producções do _panno de raz_ é uma obra original.

Os fios com que o tecelão delinea as sua composições, seus symbolos e ornatos, são o ouro, prata, seda e lã.

A arte dos pannos de raz era já conhecida no XI seculo. Antes do anno 1025, havia, em _Potiers_, uma fabrica de pannos de raz, cujos trabalhos tinham sido muito apreciados, mesmo fóra de França. Os productos d'estas officinas eram ornados de retratos dos reis, de imperadores, de figuras de animaes, assim como de assumptos da biblia.

No XII seculo a Allemanha toma egualmente uma parte activa no desenvolvimento do fabrico dos pannos de raz.

No XIV seculo, a arte do tapisseiro, posto que continuando a empregar o mesmo fabrico technico do seculo precedente, progride como todas as outras artes.

Desde o principio do XIV seculo a manufactura dos pannos de raz de alto-liço prosperou em Paris, Bruxellas e Arrhas; depois foi introduzida em muitas outras cidades de Flandres e do Brabante. No fim do XIV seculo os pannos de raz de Arrhas principiaram a ter a primazia; devendo a sua reputação á perfeição dos seus tecidos e á sua tintura. Desde esta epocha, os pannos de raz de alto-liço foram designados, principalmente pelos Italianos e Inglezes, sendo da fabrica de Arrhas, pelo nome de _finos pontos de Arrhaz, e arazzi_.

O XV seculo foi a idade de ouro para os pannos de raz. Realisaram-se então notaveis progressos na execução material. Os fios vieram a ser cada vez mais finos, a proporção da seda e do ouro augmentaram consideravelmente, os tintureiros inventaram graduação de côres novas, emfim os tecelões aprenderam a combinar as côres com tal habilidade que não podia ser nunca excedida. N'esta epocha os pannos de Arrhas eram os mais estimados e por isso muito procurados.

_Vestimentas sagradas_. Durante toda a idade média, as vestimentas sagradas, das quaes se serviam nos dias ordinarios, eram feitas de tecido de lã, ou algumas vezes tambem de linho. Os estofos de seda empregavam-se nas vestimentas ricas e preciosas.

A _casula_ conserva, até ao meado do XV seculo, a fórma que tinha durante o periodo Roman, isto é, de um vestuario largo, comprimido á roda do collo, cobrindo inteiramente os braços e caindo negligentemente de todos os lados á roda do corpo. Da mesma maneira que precedentemente, quasi sempre as estolas com bordaduras são comprimidas e estreitas, representando assumptos religiosos. Na Italia, nos paizes meridionaes e no meio dia de França, estas estolas são geralmente em numero de duas postas verticalmente, uma por diante e a outra por detraz do peito; a de diante fica com o feitio de um _tau_ T. Na Belgica, na Hollanda, na Allemanha, e em Inglaterra, duas outras pequenas faxas saindo do peito passam sobre os hombros e vão ter ao meio das costas, formando assim, pela sua combinação com as estolas verticaes, duas cruzes cujos braços ficam levantados com o feitio de Y.

As casulas com dupla cruz entraram em uso no norte da Europa até ao XV seculo, epocha na qual uma mudança notavel se operou na fórma e disposição das estolas. Primeiramente, estas ficavam com muito mais largura; depois em toda a parte onde a dupla cruz com braços levantados havia tido uso precedentemente, pozeram sobre o lado opposto da casula, uma cruz latina [Símbolo], e sobre a frente uma columna.

No XIII e XIV seculos, sendo sempre estreitas, eram regularmente ornadas com figuras geometricas ou pequenas folhagens simplesmente de decoração. Quando no XV seculo se fizeram mais largas, representavam muitas vezes imagens ou assumptos religiosos.

_A estola e o manipulo_ consistiam, durante o periodo ogival, em faxas compridas e estreitas, quasi sempre ficando as extremidades um pouco mais largas.

As estolas e os manipulos, geralmente de uma grande simplicidade, eram feitos de linho, de lã ou de seda, acabando n'um bordado e franjas. Os de ornamentos ricos eram por vezes bordados e apresentavam uma certa analogia com as faxas de recamo d'ouro das casulas, que lhes pertenciam. As suas extremidades não tinham ornatos com bordados symbolicos, que só se usaram depois da primeira metade do XV seculo.

No principio o _pluvial_, em latim _coppa_, isto é, capote para resguardo da chuva (_pluvia_) era usado sómente pelo clero inferior, principalmente pelos chantres e mesmo por vezes pelos seculares, tomando uma parte na celebração do culto. Foi sómente no XIII seculo que veiu a ser commum para todas as ordens da hierarchia ecclesiastica, incluindo mesmo o pontifice.

Serviam-se do pluvial, como se pratíca ainda hoje, nas procissões e em todos os outros officios da missa; por exemplo, no canto solemne de vesperas. O seu feitio é o mesmo da casula; sómente, em logar de ser, como esta, inteiramente fechada de maneira a esconder todo o corpo, é aberto na frente desde os pés até ao collo.

O pluvial da idade media tinha, sobre as costas, um capuz de ponta muito comprida, com a qual se podia cobrir a cabeça. Nos pluviaes ricos as orlas da abertura de diante, e tambem a orla inferior, estão cobertas de faxas de estofo colorido, bastante estreitas e ornadas, principalmente no principio do XIV seculo, sendo os assumptos religiosos feitos com bordados. No XIV seculo as faxas veem a ser mais largas, e proximo da mesma época, o capuz augmenta, ficando a sua extremidade redonda, e como as faxas, ornada.

_Colchete do pluvial_. Prendia-se o pluvial sobre o peito com um grande colchete coberto de medalhões em metal precioso, ornado de esmaltes ou delicadamente cinzelado. Estes _medalhões colchetes_, em latim _fibulae_, _morsus_, _monilia_ ou _pectoralia_, teem muitas vezes a fórma de quatro folhas; ha tambem circulares, ovaes, e mesmo quadrados. São geralmente ornados com assumptos religiosos ou com estatuasinhas de santos. Acompanham-os, principalmente no XV seculo, a figura ajoelhada e os brazões do doador.

A _alva_ e o _amicto_ conservaram as fórmas primitivas durante o periodo ogival. Eram geralmente de linho, algumas vezes tambem de seda ou brocado. Continuou-se a guarnecel-os de faxas rectangulares com recamo de oiro, bordados ou tecidos vistosos. Estas vestimentas prendiam-se no meio da orla superior do amicto; e sobre a alva nas extremidades das mangas á roda do punho, por diante e detraz sobre a orla inferior proximo dos pés, e algumas vezes tambem sobre o peito.

A _cintura_, da qual o sacerdote se serve para arregaçar a alva, prende-se á estola em cruz sobre o peito; não teve nunca na idade média a fórma de cordão que apresenta actualmente. N'essa época geralmente consistia em um comprido cinto, especie de fita comprida de dois metros e meio, com a largura de cinco a seis centimetros. Dá-se-lhe algumas vezes o comprimento symbolico, por exemplo, do tumulo de Jesus Christo.

A _dalmatica_ é a vestimenta decima do diacono, a _tunicella_, a do sub-diacono. Não existe, ha muito differença entre estas duas vestimentas, posto que n'outro tempo a tunicella teve mangas mais curtas e era mais comprida, porém menos ornada que a dalmatica.

Durante o periodo Roman e no principio do ogival, a dalmatica consistia em um comprido vestido inteiramente fechado, com mangas e uma abertura para passar a cabeça. Era enfeitada diante e detraz por duas faxas verticaes com recamo de ouro ou de côr, descendo até a orla inferior. Estas faxas, muito estreitas no XIII seculo, vieram a ser cada vez mais largas desde o XIV seculo.

No XIII seculo, a dalmatica não era ainda aberta nos dois lados da orla inferior até quasi á quarta parte do seu comprimento. No XIV e XV seculos, estas aberturas augmentaram até meia altura do vestuario; tendo então, do mesmo modo, toda a parte inferior da dalmatica, bordados de faxas de côr ou as superiores de recamo de ouro.

_Mitras_. As mitras com dois bicos, o uso das quaes se tinha generalisado no XII seculo, foram definitivamente adoptadas no XIII seculo, como um ornamento episcopal e abbacial. Comparadas com as mitras modernas, as primitivas eram muito baixas, a sua altura variava entre 0,20 a 0,25 centimetros.

As differentes partes de que se compõem as mitras são: 1.^o as peças triangulares formando pela sua reunião o barrete; 2.^o as duas fitas pendentes da mitra mais largas nas extremidades inferiores, ficando prezas por detraz da mitra.

Havia na idade média duas qualidades de mitras: simples ou lisas, e com bordaduras recamadas de oiro, designadas na latinidade da idade media pelo nome _mitrae auriphry giatae_. Sobre estas ultimas as bordaduras recamadas de oiro dispunham-se por tres maneiras: 1.^o verticalmente ou, como dizem os livros lithurgicos, _en titre in titulo_; 2.^o horisontalmente ou _in circulo_; 3.^o em titulo e em circulo juntamente.

No meiado do XIV seculo, os bicos da mitra são maiores. A maior parte das mitras da ultima metade d'este seculo medem de 32 a 35 centimetros de altura. Esta altura chega regularmente a 40 centimetros no seguinte. N'esta ultima época tambem as orlas dos bicos são algumas vezes guarnecidas com bordaduras recamadas de oiro, ou tendo uma especie de renda de prata dourada similhando-se a folhas de repolho ou de crochetes vegetaes.

*Abbadias e Mosteiros*

_Observações preliminares_. As partes principaes de que se compõem as abbadias e os mosteiros da idade media são a egreja, o claustro, o refeitorio, a sala do capitulo, o dormitorio, o aposento para o abbade e para os hospedes, o celleiro, o palheiro, a prisão e as casas de arrecadações. Estas differentes partes ficavam geralmente da mesma maneira, principalmente nos conventos que observavam a mesma regra.

A egreja era sempre _orientada_, isto é, ficando a capella mór voltada para o Oriente. No lado meridional da nave fica encostado o claustro, do qual se entra para a egreja por duas portas collocadas nas extremidades da galeria encostada á parede lateral da egreja: uma junto do alpendre, outra na proximidade do cruzeiro. A galeria opposta, que fórma o lado meridional do claustro, dá entrada para o refeitorio. A sala do capitulo e o parlatorio occupam o rez-do-chão ao longo da galeria oriental, que se liga por uma extremidade com o cruzeiro; no andar por cima está o dormitorio, o qual communica com a egreja por uma escada conduzindo do dormitorio ao transepte. As construcções do occidente do claustro serviram primitivamente aos irmãos conversos, os quaes eram em grande numero nas grandes abbadias do XII e XIII seculos. Porém, quando mais tarde se supprimiu esta instituição, e se limitaram os irmãos conversos ao numero estrictamente necessario para o serviço dos religiosos, ellas foram destinadas para outros usos. Muitas vezes serviram para aposentos dos hospedes, e uma parte foi transformada em celleiros e armazens.

As differentes Ordens religiosas distinguem-se na escolha do local; quando pretendiam fundar uma nova abbadia, cada uma dava preferencia aos sitios de mais predilecção. Os Benedictinos escolhiam geralmente os sitios altos e as montanhas; os Bernardos, pelo contrario, gostavam de se estabelecer nos valles sobre as margens dos ribeiros, como exprimem estes dois versos:

_Bernardus valles, montes Benedictus amabat, Oppida Franciscus, magnas Ignatius urbes_.

A similhança que apresentam a maior parte das abbadias cistercienses na disposição das suas differentes fórmas é bastante notavel; quasi todas, quando o accidentado do terreno o permittia, reproduziam, por assim dizer, servilmente o plano das abbadias primitivas da Ordem de Cister; plano typo adoptado para a construcção d'estas abbadias na Europa occidental do XII e XIII seculos.

A egreja era muito vasta; a sua nave meridional ficava encostada ao claustro, com as suas galerias para passeiar; a Leste do claustro está a casa do capitulo; o parlatorio era o grande recinto onde se reuniam os monges; no andar sobre este lado ficava o dormitorio e o refeitorio, e a cozinha do lado da galeria meridional do claustro. O rez-do-chão era destinado para reuniões durante o dia, e o andar superior para as de noite; como se dizia na idade média, _domus conversorum_. O rio ou ribeiro passava por baixo do refeitorio ou cozinha para levar o lixo de toda a qualidade. Defronte dos aposentos dos irmãos conversos, havia um grande pateo murado, no qual estava, na direcção de sudoeste, a porta da entrada principal da abbadia. Temos em Portugal um famoso modelo na antiga abbadia de Alcobaça.

As outras grandes ordens religiosas adoptaram muitas vezes, para os seus mosteiros, disposições analogas.

As ordens de S. Domingos e S. Francisco, fundadas ambas no principio do XIII seculo, estabeleciam-se regularmente nos grandes centros da povoação, onde não achavam sempre espaço bastante vasto para se poderem desenvolver á vontade e dispôr as differentes partes dos seus mosteiros seguindo dados uniformes. É por esta razão que, em muitos casos, o plano dos seus conventos differe sensivelmente da disposição tradicional observada escrupulosamente pelos monges de Cister, mesmo, porém, com mais liberdade pelos Benedictinos.

_Egrejas_. A planta das egrejas monasticas apresenta geralmente, como a das cathedraes e das collegiadas, a fórma de uma cruz Latina. Muitas vezes a capella-mór não é muito comprida. Foi então no XIII seculo que na Europa occidental e central se pozeram as cadeiras no côro para os frades, não sómente na capella-mór, mas tambem no cruzeiro, e mesmo em uma parte da nave principal, como existia na egreja de Alcobaça.

As egrejas dos frades Dominicanos e dos Franciscanos não tinham ordinariamente nem cruzeiro nem torre. No XIII seculo, os Dominicanos, construiram em Paris, Augsbourg, Dresde e outras muitas cidades, egrejas com esta disposição excepcional, ficando divididas por duas naves com um unico renque de columnas. Encontra-se tambem esta disposição, porém, raramente, nas egrejas das outras Ordens religiosas.

_Claustros_. Durante o periodo ogival, os claustros eram geralmente construidos de abobada de barrete com nervuras, e communicando com o pateo do convento por arcadas ogivaes, vasadas e separadas umas das outras por contrafortes. Nas arcadas collocavam nos XIII, XIV e XV seculos, trabalhos rendilhados em cantaria, similhantes aos feitios que se viam nas janellas contemporaneas; e de que temos exemplos nos edificios religiosos da Batalha e de Belem. Muitas vezes esses caixilhos de pedra não tinham vidros; todavia, principalmente no Norte e Oeste da Europa, vedavam os tympanos com vidros brancos ou de côres, a fim de dar abrigo contra os rigores da temperatura a quem passeasse pelas galerias do claustro.

Desde o XIV seculo algumas vezes, e bastantes no XV seculo, substituiram nos claustros, as arcadas ogivaes pelo feitio de janellas com pinasios de pedra similhantes aos das arcaduras ornadas, que se veem nos peitoris das janellas inferiores nas egrejas do ultimo periodo ogival.

Fizemos notar, que as egrejas cathedraes e collegiaes tinham antigamente um claustro, porque, do mesmo modo que os frades, os conegos viviam a principio em communidade. Este uso, que principiou a não se seguir desde o XIII seculo, persistiu não obstante em muitas partes até ao fim do periodo ogival.

Quasi todos os claustros, grandes e pequenos, construidos na idade média, possuiam um _lavabo_, _lavadouro_, tendo uma pia com uma fonte. A fonte occupava, no principio, o centro do pateo do convento. Mais tarde approximaram-a da galeria do refeitorio; ficando então collocada em frente da entrada do refeitorio, ou em um dos angulos da galeria ao longo d'elle. Os frades voltando do trabalho da lavoura, lavavam ahi as mãos antes de se pôrem á mesa ou ir ás rezas.

_Refeitorio_. O refeitorio estava geralmente situado ao correr da galeria meridional do claustro. Como já referimos, compunha-se d'uma vasta sala traçada sobre um plano rectangular, abobadada em geral ou por vãos descançando sobre um fuste de columnas. Por cima do claustro, havia muitas vezes um andar pouco alto, servindo de celleiro para abastecimento no inverno, com alimentos e fructas passadas.

Nos conventos dos Cistercienses, o refeitorio era sempre dividido em duas naves por um renque de columnas, collocadas ao meio longitudinal; além d'isto, ficava este renque perpendicular á galeria proxima do claustro. No refeitorio dos frades de S. Bento, e em geral, em todas as outras abbadias, o grande eixo corria parallelo á galeria do claustro, e o renque das columnas muitas vezes não é representado.

Ao lado do grande refeitorio, quasi sempre a oeste d'elle, ficava a cosinha, geralmente com uma grande chaminé quadrada.

_Casa do Capitulo_. No rez-do-chão ao correr da galeria oriental do claustro era a casa do Capitulo, a casa para as visitas e a sala dos frades. O dormitorio occupava o andar d'este lado uma escada conduzindo directamente do andar superior ao cruzeiro do lado do sul, facilitava aos frades descerem á egreja para os officios nocturnos sem se expôrem ao ar exterior.

A casa do Capitulo, isto é, o logar onde os frades se reuniam sob a presidencia do abbade, afim de tratarem dos negocios espirituaes e temporaes do mosteiro, era edificado sobre um plano quadrado ou rectangular com um ou muitos renques de pilares sustentando as abobadas e as suas nervuras, dividindo-se em duas ou mais naves. Bancos de pedra guarneciam as paredes em roda. Na Inglaterra dá-se frequentemente ao plano das casas de capitulo a fórma circular ou polygona; e n'este caso, uma unica columna central sustenta a abobada e as suas nervuras, como ha em Westminster e em Lincoln.

_Parlatorio_. O parlatorio, _collocutorium_, era uma pequena casa entre a do capitulo e a escada conduzindo ao dormitorio. Ali os frades tinham licença de conversarem em voz baixa, quando relações indispensaveis da vida commum o exigissem. Em todas as outras partes do mosteiro se devia guardar o maior silencio.

Ao lado da escada proxima do parlatorio, havia um corredor pelo qual se podia passar para o grande claustro e annexos da abbadia perto do côro da egreja.

_Casa e dormitório dos frades_. A casa onde os frades passavam o dia, que os _antigos_ designavam _domus fratrum_ e que os inglezes designam ainda sob o nome de _fratres_, isto é, logar onde vivem os frades, consistia n'um vasto espaço abobadado e occupava sempre o rez-do-chão, na extremidade Sul do lado Oriental do mosteiro.

No andar da casa de que acabamos de fallar, encontrava-se o dormitorio commum dos frades, pois a regra de S. Bento determinava que os frades dormissem n'uma só casa, mas em camas separadas: _Monachi singuli, per singula lecta dormiant; si potest fieri, omnes in uno loco dormiant_.

O uso das cellas, que havia em alguns raros mosteiros desde o XII seculo, não veiu a ser commum senão na epocha do renascimento.

_Aposento dos irmãos leigos_. Todas as grandes abbadias benedictinas e cistercienses tinham, no XII e no XIII seculos, um numero consideravel, chegando a ter 300 a 400 leigos, designados nos necrologios com o nome de _conversi_ ou _fratres ad succurrendum_. Estes irmãos, que não entravam nas ordens sagradas, mas faziam profissão de religiosos, destinavam-se, sob a direcção dos frades, aos trabalhos da agricultura e ao exercicio de diversos officios. Habitavam o lado occidental dos edificios monasticos, designados por esta razão casa dos leigos, _domus conversorum_, e prolongava-se muitas vezes desde o portico da egreja até muito álem do grande refeitorio.

Nos edificios cistercienses, a habitação dos leigos compunha-se regularmente, no rez-do-chão, d'uma só e vasta casa abobadada, dividida em duas naves por um renque de columnas; e no andar por cima, de uma casa do mesmo tamanho da inferior, coberta as mais das vezes por um telhado tendo o madeiramento visivel na parte interna.

_Casa abbacial_. Originariamente o aposento do padre abbade consistia n'uma simples cella. D'ahi a pouco, todavia, o aposento do chefe do mosteiro veiu a ser uma construcção importante; e viam-se muito raramente, na idade média, os abbades contentarem-se com o dormitorio commum ou uma simples cella. A começar do XIV seculo, e principalmente na epocha do renascimento, as casas abbaciaes vieram a ser muitas vezes verdadeiros palacios, constando d'uma capella particular, grandes salas, pateos, cavallariças, jardins com terraços, etc.