Resumo elementar de archeologia christã

Chapter 20

Chapter 203,764 wordsPublic domain

No XIII seculo, e mesmo ainda muitas vezes no XIV seculo, estes moveis, d'uma fórma sempre simples e adequada ao seu destino eram principalmente ornados com ferragens de feitio esmerado e com pinturas sobre as suas portas. As portas sem molduras compunham-se d'uma serie de taboas simplesmente juntas, duplas, consolidadas na parte interna, por travessas e no lado exterior ornadas com bellas pinturas.

Desde o fim do XIII seculo e durante a primeira parte do XIV seculo, a pintura e a esculptura foram, em certas occasiões, empregadas simultaneamente na decoração dos armarios das reliquias; algumas vezes mesmo, as portas com esculpturas tinham dourados, e o lavor de estojo com ornamentos coloridos. Depois, a esculptura augmenta e pouco a pouco acaba, no fim do XIV seculo, para substituir completamente a polychromia. As portas dos armarios não apresentam já, a contar d'esta epocha, as superficies inteiramente lisas e cheias de pinturas. Compõe-se então de almofadas encaixilhadas e preparadas do mesmo modo que as partes lisas das portas. Entre estas almofadas, algumas têem em relevo molduras com desenhos imitando as travessas das almofadas das janellas, as outras estão cheias de folhagens ou ornatos de talha imitando folhas de pergaminho, como já explicámos. Uma cimeira recortada e vasada e na qual os prumos dos aros veem terminar em florão rematam muitas vezes o movel em todo o seu comprimento.

_Vasos para os santos oleos_. Na quinta feira de cada anno, o bispo benze solemnemente, durante a missa que elle celebra na sua cathedral, tres especies de oleos, os quaes são depois distribuidos pelas egrejas da diocese. São: 1.^o oleos para os cathecumenos; 2.^o, oleo para os enfermos; e 3.^o, oleo para a chrisma.

Acham-se ainda hoje em algumas cathedraes, grandes vasos do periodo ogival que serviram antigamente para benzer os santos oleos na ceremonia de Quinta Feira Santa.

Além d'estes vasos de grandes dimensões, nos quaes o bispo benzia os oleos para toda uma diocese, ás vezes mesmo para muitas, havia recipientes mais pequenos, que continham sómente os santos oleos para o deão de uma grande cidade. Alguns eram cofresinhos rectangulares ou ovaes, de madeira forrada de couro, dividido interiormente em tres separações, podendo em cada uma caber um frasco. Outros em metal mais ou menos precioso, compõe-se de tres vasos, geralmente cylindricos reunidos estando soldados ou simplesmente unidos.

Os vasos contendo os santos oleos para a occasião mesmo em que dar os sacramentos e nas differentes uncções de bençãos, são regularmente muito mais pequenos do que aquelles que fallamos, e podem ser divididos em duas classes. Os da primeira classe, destinados a conter ao mesmo tempo as tres especies de oleos, são triplicados como os dos deões, os quaes se differençam unicamente pela sua menor dimensão. Compõem-se quasi sempre de tres cylindros ôcos, com uma tampa conica, collocados em roda d'um nucleo, porém raras vezes postos em linha. Alguns não têem pés, outros mostram esse appendice.

Para distinguir os differentes oleos, marcam-se os vasos com lettras differentes: I, designa o oleo para os enfermos, _oleum Infirmorum_; C, o santo oleo, _chrisma_. Para o oleo dos cathecumenos servem-se ora da lettra S, _oleum Sacrum_, ora da lettra O, _oleum_, ou mesmo da lettra E, do grego [Grego: Elaion], oleo. Como cada um d'estes oleos não serve sempre nas mesmas ceremonias, e se precisa levar longe o oleo para os doentes, cada um dos pequenos vasos pode-se separar do nó central que os reune.

A segunda classe dos vasos para uso immediato de ungir comprehende aquelles que encerram uma unica especie, geralmente o oleo para os enfermos. Teem quasi sempre a forma cylindrica e estão tapados com uma tampa de fórma conica. Alguns teem pés, outros não.

_Corôas suspensas sobre o altar_. Estas corôas chamadas _votivas_, estiveram em uso pelo menos durante uma parte do periodo ogival, e conservavam a fórma que tinham antes: a de um circulo de metal, cujo brilho era muitas vezes augmentado com joias e esmaltes. Algumas eram feitas de proposito para o serviço do altar; outras pertencentes aos soberanos como insignia de realeza, foram dadas ás egrejas pela generosidade dos principes.

_Corôas com luzes_. As coroas de luzes do periodo ogival são ou _suspensas_ ou sustidas em um _pedicello_.

As corôas _suspensas_, que estiveram em uso desde os primeiros seculos do christianismo, chegaram ao seu maior desenvolvimento no XI e XII seculos. Durante o periodo ogival, perderam muito da sua importancia, e as maiores d'esta epoca, encontram-se muito raro presentemente.

No XV seculo apparecem os lustres, que quaes vieram a ser communs em pouco tempo, e ficaram a substituir as corôas desde o principio do periodo do renascimento.

As corôas de luzes _pediculadas_ são geralmente de ferro forjado e compõe-se quasi sempre de uma tampa da qual se ergue uma hastea vertical ornada de um ou muitos nós. No alto d'esta haste estão postos em diversas alturas, dois ou mais numeros de circulos em fórma de polygonos de diametros differentes, compostas de espigas e dirandellas para terem vellas. Os circulos são movediços e podem girar em roda da hastea que os sustenta; esta disposição permitte aos devotos puxar para si as dirandellas sem vellas pôr-lhes outras vellas offerecidas por promessa. Estas corôas estavam em uso nas egrejas onde numerosos peregrinos vinham venerar as reliquias ou a imagem de algum santo. As mais remotas corôas tendo pé não vão além do XV seculo.

_Cruz de altar e de procissão_. Já dissemos, que até o fim do XV seculo não houve distincção entre as cruzes do altar e as cruzes processionaes ou estacionarias. A mesma cruz servia para o mesmo uso: punham-a sobre o altar ficando firmada sobre uma base ou levavam-a em procissão no cimo de uma comprida hastea.

No XIII seculo, as cruzes processionaes eram de uma grande simplicidade. Tinham geralmente a imagem de Jesus Christo, e nas extremidades dos braços havia os symbolos dos evangelistas collocados em um quadrilobo.

No XIV e no XV seculo, ornam muitas vezes com as fórmas architecturaes, e mesmo tendo estatuasinhas debaixo de docel, o cabo era ôco servindo para fixar a cruz sobre a hastea ou sobre um pé.

Quando no XIV, e principalmente no XV seculo, multiplicaram-se as capellas e os altares em uma mesma egreja por causa do augmento extraordinario da fundação de missas, introduziu-se o uso das cruzes do altar, isto é, assentes permanentemente sobre elle. A cruz do altar principal era a unica que ficava portatil, podendo servir no altar e nas procissões.

_Castiçaes_. Havia, durante o periodo ogival, quatro especies principaes de castiçaes: os castiçaes do _altar_, os castiçaes de _elevação_, e os castiçaes _paschoaes_ aos quaes se podem ajuntar os _tocheiros_ collocados aos lados dos catafalcos.

_Castiçaes de altar_. O uso de collocar _dois castiçaes sobre o altar_ foi introduzido, em certas partes, no fim do periodo roman, e veiu a ser geral no XIII seculo.

Os castiçaes de altar do XIII seculo apresentam uma grande similhança com os do periodo roman. Do mesmo modo eram de metal e compunham-se regularmente de um pé descançando sobre tres garras, d'um nó e d'um prato com uma espiga; sendo todavia menos ornados. É por isso, que apparecem excepcionalmente animaes phantasticos de forma de lagarto ou dragão de azas que sustentam o prato de quasi todos os castiçaes romans.

No XIII seculo, como precedentemente, os castiçaes teem pouca altura, sendo as mais das vezes de 15 a 25 centimetros. Algumas vezes todavia, porém muito raro, proximo do fim do XIII seculo, tinham a hastea com dois ou tres nós quasi 50 centimetros de alto.

O uso de não pôr sobre o altar mais de dois castiçaes pequenos durou até ao XVII seculo.

Nos XIV e XV seculos, os nós da hastea foram substituidos por virólas, sendo o numero de duas ou tres; ha todavia exemplos, principalmente no XIV seculo, onde a hastea tem uma unica viróla.

No fim do XV seculo e no principio do XVI seculo, os castiçaes têem muitas vezes os nós, o pé e o prato com relevos do feitio de meias perolas e a hastea torcida em espiral.

_Castiçaes de elevação_. Este nome foi dado aos castiçaes destinados para terem as vellas accesas antes da elevação da Hostia, e que se apagam depois da communhão do padre. Estes castiçaes, regularmente em numero de dois e collocados aos lados do altar, eram muito mais altos que os castiçaes do altar, tendo de altura muitas vezes um a dois metros de alto.

_Castiçaes paschoaes_. Assenta-se geralmente a hastea do _castiçal paschoal_ n'uma estante vasada, onde se põe o livro para o canto do _Exultet_. Muitas vezes se collocam dois ou mais braços destinados a ter pequenas vellas; ha-os de latão e de ferro forjado.

No XIII seculo, os castiçaes paschoaes são ornados muito simplesmente imitando na ornamentação o reino vegetal.

No XIV seculo, os candelabros para a tocha paschoal estão ornados muito modestamente.

Os castiçaes paschoaes do XV seculo são ainda muito mais simples.

_Os castiçaes postos aos lados do catafalco_. Estes castiçaes geralmente muito simples são as mais das vezes de ferro forjado e ornados com polychromia. A sua altura varia entre um a dois metros. Um grande numero se têem conservado. Algumas vezes estes castiçaes eram tambem de madeira.

Aos lados dos catafalcos, os tocheiros isolados eram muitas vezes substituidos por um _candieiro-triangular_ de pau ou metal composto de um certo numero de bicos ou de pratos e assente sobre um ou dois pés. Esta alfaia é tambem designada, principalmente nos antigos inventarios, _cabide_, _rastrum_ e _rastrellum_.

Vestigios de apparato com luzes para os defuntos, se vêem ainda hoje em muitos monumentos funerarios do XIII seculo, nas egrejas de S. Diniz, proximo de Paris, mandados erigir por S. Luiz Rei de França, em memoria dos reis seus predecessores.

_Braços com vellas e dirandellas_. Os candieiros com braços e as dirandellas vieram a ser de um uso geral no principio do XV seculo. Têem geralmente o mesmo feitio que os braços do candieiro paschoal com o prato adentado. São postos sobre as paredes, e mais vezes ficam defronte de uma imagem. O maior numero são de latão; os de ferro forjado encontram-se raras vezes.

_Estantes para o côro_. Chama-se _estante do côro_ a uma estante de madeira ou de metal sobre a qual se põe os livros para facilitar as leituras lithurgicas.

As estantes do côro fazem parte das alfaias religiosas; são de duas especies: estantes _fixas_, collocadas geralmente no meio da capella-mór e chumbadas no pavimento, ou com um pé tão pesado que se não poderia facilmente mudar para outra parte, e estantes _portateis_. As primeiras serviam para os chantres recitarem os officios; as outras para o diacono e subdiaconos cantarem o Evangelho, a Epistola ou as lições sagradas.

_Observações preliminares_. Desde o VII e VIII seculos, e durante todo o periodo roman, fizeram algumas vezes as _estantes fixas_ independentes da tribuna. Estas estantes isoladas, estando destruidas presentemente, eram quasi sempre de metal, e compunham-se, como tambem as do principio do periodo ogival, d'uma aguia com as azas abertas, pousada sobre um sóco. Muitas vezes a aguia, attributo do evangelista S. João, era acompanhada de symbolos dos tres outros evangelistas.

_Estantes fixas collocadas no meio do côro_. As estantes do côro destinadas aos chantres, são ordinariamente de latão e compõem-se d'uma aguia assente sobre um pé em fórma de pilar ou de columna. Este pé algumas vezes é consolidado por arcos-butantes, os quaes estão ornados de arcaduras vasadas com rosaceas e ornatos variados, similhantes aos que ornam as grinaldas dos tympanos das janellas ogivaes.

Nos antigos documentos a estante do côro é designada _aguia_, em latim _aquila_, porque a maior parte das estantes, tanto do periodo ogival como da renascença, têem a forma d'uma aguia. Muitas _estantes-aguias_ do XV seculo escaparam de serem destruidas, talvez pelo seu peso. Algumas vezes a aguia é substituida por outros animaes, ou por homens e anjos. As estantes de pelicanos, cujo uso foi introduzido no tempo do periodo ogival, veiu a ser bastante commum na epocha do renascimento.

_As estantes moveis_. Estas estantes facilmente transportaveis, foram empregadas durante o periodo ogival, quer para a leitura do Evangelho e da Epistola, quer para as outras ceremonias do culto; eram geralmente de ferro e poucas vezes de madeira. Estas estantes eram regularmente formadas d'uma dupla dobradiça com o feitio d'um _X_, cujas extremidades superiores ficam ligadas entre si por uma cobertura de couro sobre a qual se põem os livros lithurgicos. Acontece todavia, principalmente nas estantes moveis de madeira, que elle não é formado d'uma cobertura de couro, mas sim de taboinhas postas no prolongamento de duas das quatro extremidades superiores da dobradiça da estante.

_Livros do Evangelho e manuscriptos lithurgicos_. Continuou-se, durante o periodo ogival, a _illuminar_ os textos dos livros santos.

No fim do XII seculo, isto é, no momento em que a ogiva tomou o logar da _volta inteira_, fez-se uma revolução completa na arte de pintura. Os miniaturistas da Europa Occidental do mesmo modo que os pintores das vidraças e esculptores libertaram-se das tradicções byzantinas e romans, para se applicarem principalmente á imitação da natureza. Este novo genero nascido em França, como o estylo ogival, generalisou-se por todos os paizes proximos.

A escola dos _miniaturistas_ do XIII seculo dilatou a carreira de suas obras. Até esta epocha, as Biblias, os livros dos Evangelhos e os dos psalterios tinham sido as unicas obras ornadas de estampas illuminadas; depois as obras profanas da antiguidade classica, as dos padres, os romances dos cavalleiros e as chronicas tiveram tambem illustrações calligraphicas.

Proximo do meiado do XIV seculo, uma nova mudança teve a pintura em geral, estendendo a sua influencia sobre todos os ramos d'esta arte. Ao primor do desenho que traça os principaes contornos, esforçou-se o pintor por ajuntar o modelado dos objectos no afrouxamento gradual dos tons e na opposição das sombras e da luz. A começar d'esta epocha, o colorido deu á figura, não sómente a côr, mas ainda a fórma e o relevo.

No XV seculo, a arte da pintura e do miniaturista, subiu em Flandres ao mais alto grau de prosperidade, sob a influencia dos irmãos Hubert e João Van Dyck, Thierry, Streerbout, Roger von der Weyden e Haus Memling; em Portugal, Antonio e Francisco de Hollanda. Todos estes eximios mestres não desprezavam empregar o seu tempo na illuminura dos manuscriptos. O rei Filippe--o Bom--1419-1467--, tinha uma predilecção notavel pela ornamentação dos manuscriptos, como tambem em Portugal el-rei D. João II e D. Manuel[5], contribuiram singularmente para o desenvolvimento d'este genero de trabalho.

Os pintores d'esta epocha applicam-se a reproduzir a belleza real que se colhe da natureza, mais agradavel que uma belleza ideal; substituem de alguma maneira, o realismo ao symbolismo dos seculos findos passados; diligenciando representar com toda a verdade os minimos detalhes da natureza, cogitam o modo de apresentar a mais exacta reproducção do feitio e côr dos objectos.

_Capas dos livros dos Evangelhos_. Até ao IX seculo serviram-se bastantes vezes de capas de marfim; do IX seculo ao XII, o marfim estava misturado ao metal e ás pedras preciosas. Durante o periodo ogival, abandonaram geralmente o uso do marfim, e o metal só ornado com riqueza, sobretudo no XIII seculo, de esmaltes e joias, foi empregado nas capas das Biblias, nos livros dos Evangelhos e nos lithurgicos. Salvo raras excepções, eram cobertos de estofos, de couro, e algumas vezes de madeira com esculpturas ou de chapas de prata em relevo[6].

_Thuribulos e naveta para incenso_. Os thuribulos do XIII seculo compõem-se geralmente, como os dos seculos antecedentes, de duas semi-espheras ôcas, as quaes juntas formam uma bola. A semi-esphera inferior tem um pé que lhe serve de apoio, no qual se põe as brazas e o incenso; vem a ser o verdadeiro perfumador. A semi-esphera superior, que serve de tampa, está crivada de muitos orificíos para sahir o fumo do incenso. Esta tampa que tem como remate muitas vezes uma torrinha com a figura de homem ou de animal, é movediça: sóbe e desce ao correr de tres ou quatro correntes prezas por uma extremidade do thuribulo e por outra parte da mesma tampa atravez da qual passa uma cadeia que fixa o remate, e facilita levantal-a ou abaixal-a como se quizer.

A fórma geral dos thuribulos do XIII seculo é conhecida, não sómente pelos raros especimens em metal conservados até ao presente, mas tambem pelas esculpturas e miniaturas contemporaneas, nas quaes se vêem anjos ou clerigos thuriferarios.

Nos seculos XIV e XV, os thuribulos mudam de aspecto, apresentam poucas vezes a fórma espherica e têem geralmente o feitio de diversas curvas; tomando a fórma de torrinhas com telhado, janellas recortadas, etc. O metal de que geralmente se serviam, era o latão; para os de melhor qualidade empregavam a prata.

_Gomís_ ou _aquamaniles_. Os gomís designados tambem _aquamaniles_ (de _aqua_, agua, e _manile_, vaso para deitar agua nas mãos) faziam parte das alfaias ecclesiasticas e continham agua para as abluções das mãos, durante as ceremonias religiosas. Empregavam-se tambem no uso civil para a lavagem das mãos antes e depois das refeições. No fim do periodo roman e durante todo o período ogival tinham as mais caprichosas e mais varias fórmas. A maior parte apresentam a d'um animal real ou phantastico; a agua é geralmente introduzida no gomíl pelo cimo, na cabeça do animal, servindo de gargalo; a bocca ou o bico finalmente a aza é formada, quer pela cauda do animal revirada sobre o lombo, quer por um lagarto ou um dragão alado; algumas vezes mesmo a torneira está posta diante da figura. Os animaes representados mais vezes são o leão, o cavallo, o veado, o gallo, o dragão, a sereia e differentes passaros. Quasi todos os _aquamaniles_ são de latão ou de cobre.

Alguns gomís de metal têem a fórma do busto de homem, de mulher e de creança. Devemos tambem mencionar os gomis do XIII seculo apresentando a fórma d'um prato côvo, não sendo diverso da bacia que servia senão para pela existencia, sobre a borda d'um bico para sahir a agua sobre as mãos.

No XI seculo principiou o uso de lavatorios collocados no meio das sacristias. Havia-os de fórmas architectonicas, imitando mais ou menos uma fortaleza ou uma torre; outros (e eram os mais communs), compunham-se de vasos de bronze ou latão, de pequenas dimensões, tendo uma grande aza e dois gargalos oppostos; para se lavar as mãos, abaixava-se, empurrando de cima para baixo, um dos gargalos. O seu uso durou até ao XV seculo.

_Pratos para offerendas_. Encontram-se em muitas egrejas grandes pratos ou bacias de latão estampado, cinzelado e gravado, ornados de assumptos, symbolos, brasões, folhagens e figuras geometricas. Estes pratos designados _bacias de offerenda_, porque serviam e servem ainda para receber as offertas dos fieis, principalmente as que se fazem durante as missas para os defuntos, eram feitos no XV e XVI seculo nas officinas dos fundidores de cobre em Augsbourg, Nuremberg e Brunswick. É preciso advertir, que as bacias do XV seculo e do principio do XVI seculo, apresentam os caracteres da decoração ogival, e que as do XVI e XVII seculos apresentam ornatos do estylo da renascença.

Os assumptos e os symbolos, representados geralmente no centro do prato, mais raramente sobre a borda do prato, são quasi sempre religiosos: todavia vê-se tambem algumas vezes com o busto de _Cicero_, de sereias, veados, cães, escudos com brazões, etc.

Inscripções ou legendas estão gravadas dentro d'um ou dois circulos concentricos proximo da borda do prato, e repetem-se geralmente cinco vezes. Entre essas legendas ha um grande numero que apresentam um sentido facil de interpretar, por exemplo: _Got sei met vus, hiff Got aves not, hiff Th_ (esu) _vnd Maria, van allen schriftvren het slodt myt sonder Gost, eh wart_ (ou _gich wart_) _der in fridt, ch_ (ou _ich_) _bart et zeit gelvek, gi seal recorden, gustate et benedicite Deus_; outros pelo contrario (e estes são os que se encontram mais vezes) compõem-se de lettras, as quaes reunidas não apresentam nenhum sentido; taes são as seguintes: _rahe wishnbi et vrmtlife, vrmtielf_ ou _lifevrmto_.

Parece bastante provavel que estas legendas, até ao presente indecifraveis, foram os signaes ou as primeiras lettras de muitas palavras formando uma divisa conhecida geralmente na epocha em que se executavam estas bacias para offerendas.

_Representação da patena_. Em vez de se beijar a patena, recommendava o apostolo S. Paulo aos primeiros christãos, um abraço fraternal. No XIII seculo, por motivo de decencia e de respeito foi substituido em muitas partes, pelo uso d'um _osculatorium_ o abraço porque julgaram então não se poder praticar sem detrimento para a moral e distincção das dignidades.

As regras lithurgicas fallam da patena, mas não determinam nem a fórma nem a representação. Serviram-se pois para este fim indifferentemente da cruz, relicarios, capas dos evangelhos, etc. Todavia a fórma que prevaleceu, foi a d'um pequeno painel, feito com materias de estimação, taes como ouro, prata, madeira rija ou marfim cinzelado, gravado, esmaltado ou pintado, representando um assumpto religioso ou santo. Este pequeno painel tem geralmente um cabo no lado posterior.

_Moldes ou ferros para hostias_. Serviam-se desde muito tempo, e servem-se ainda hoje de ferros para coser o pão que symbolisa a Eucharistia, imprimindo-se-lhe figuras e lettras. Estas hostias teem regularmente a fórma circular. Muitas vezes os moldes representam crucificação, o Cordeiro Divino, a simples cruz, o signal I H S, imagens de santos e symbolos.

_Insignias e medalhas dos peregrinos_. As insignias de _romaria_ compõem-se, durante toda a idade média, de pequenas chapas rectangulares, quadradas ou circulares, muitas vezes de chumbo fundido e de obra vasada, outras de cobre ou prata impressa e aperfeiçoada ao buril. Apresentam geralmente em relevo a imagem do santo para quem ella foi feita. Distinguem-se de duas sortes: umas (e eram em maior numero), cosiam-se sobre o ornato pertencente á cabeça e sobre o vestuario; as outras, bastante raras, fixavam-se na extremidade do bordão ou arrimo do peregrino.

Havia-as egualmente apresentando a fórma de medalhas ornadas, nas duas faces, com imagem de santos e inscripções; muitas vezes são acompanhadas de um carneiro ou argola servindo para se trazer ao collo, ou pegadas quer no vestuario, quer nos objectos de devoção, como são os rosarios, etc.

_Pequenos altares domesticos_. Encontram-se muitas vezes, nos museus publicos e nas collecções particulares, pequenos _triptycos_ e _polyptycos_ de marfim, metal ou madeira, esculpidos, pintados ou esmaltados. Estes objectos, os fieis se serviam antigamente nas suas habitações para satisfazer a sua devoção, teem muitas vezes a fórma de um retabulo com portas, porém, de grandes proporções; sendo como os outros retabulos, ornados de baixo-relevos, estatuas e pinturas.

_Baculos_. Como já explicamos, a voluta do maior numero dos baculos romans era terminado por uma cabeça de serpente ou de dragão; completava-os uma cruz com o Cordeiro Divino. Esta scena, symbolo do triumpho de Redemptor alcançado sobre o demonio pelo sacrificio do Calvario, veiu a ser raro desde o XIII seculo. Algumas volutas, sem duvida, trazem ainda n'esse tempo na extremidade, uma cabeça de dragão ou serpente, mas essa cabeça fica inteiramente separada ou invez já não ao Cordeiro nem sobre uma personagem ou sobre uma scena religiosa. Em um grande numero de baculos a cabeça da serpente é substituida por um ramo de folhagens ou por uma flôr aberta.