Resumo elementar de archeologia christã
Chapter 19
_As pyxides sem pé_, de cobre dourado e esmaltado, compostas de pequenas caixas cylindricas, tendo uma tampa de fórma de cone, ficaram em uso pelo menos até o XVI seculo; empregando-se principalmente para levar o Viatico aos enfermos.
Encontram-se ainda presentemente muitas d'estas pyxides, mais ou menos valiosas e ornadas. Não poucas devem a sua conservação a esta circumstancia, que depois da introducção das grandes pyxides aproveitaram-nas para guardar as reliquias destinadas a ficar chancelladas no altar no momento da consagração: portanto, não é raro encontrarem-se nos desmanchos dos altares do XVI e XVII seculos.
As pyxides _pediculares_, isto é, tendo um pé, que eram raras antes, vieram a ser as mais communs desde o XVIII seculo. Algumas destinadas a ficarem suspensas por cima do altar, sob o sacrario, ou na voluta do baculo, teem o pé muito pequeno, e a taça assim como a tampa bastante grandes e quasi hemisphericas, de maneira a formar reunidas uma bola ôca, geralmente um pouco achatada.
No seculo XII, as pyxides, em logar de ficarem suspensas por cima do altar, foram postas nos sacrarios, deram-lhes regularmente um pé mais alto, similhante aos dos calices e dos relicarios. No principio, bastava collocar sobre um pé as pequenas pyxides de cobre dourado e esmaltado; depois fizeram tambem as pyxides em metal com cinzelados e rebatidos, vindo a ser unicamente usadas. As mais antigas da ultima especie teem a taça e o pé circular.
No XIV seculo, a taça e a tampa tiveram a fórma hexagonal, isto é, seis faces, e o pé divide-se em seis lobulos.
Durante a ultima metade do XIV seculo e todo o XV seculo, as pyxides pediculadas têem muitas vezes as arestas da tampa decorada de crochetes; os angulos formados pela intersecção dos seis lados da taça, sendo flanqueados de contra-fortes, e os lados tambem ornados de arcaduras com ou sem estatuasinhas.
Quando no XV seculo, ficou introduzido o costume de conservar o maior numero de hostias consagradas, afim de poder dar a communhão aos fieis, mesmo sem ser na occasião da missa, as pyxides tiveram dimensões muito maiores. Continuou-se geralmente a dar-lhe fórmas architecturaes, porém essas fórmas vieram a ser, sobretudo na Allemanha, mais altas e mais complicadas ajuntando-se arcos-butantes aos contra-fortes e ás arcaduras com as quaes já as ornavam precedentemente. Em França e na Belgica, appareceram proximo do final do XV seculo as pyxides esphericas, cuja fórma faz lembrar a dos antigos ciborios suspensos. Não é raro, além d'isso, achar pyxides transformadas em relicarios.
Não será inutil aqui repetir, que, salvo raras excepções, todas as pyxides anteriores ao XVI seculo teem a tampa presa á taça por um gonzo.
_Custodias_. A solemnidade do _Corpus Domini_, ou festa do Corpo de Deus, instituida em Liège em 1246, e extensiva á Egreja Universal, dezoito annos mais tarde pelo pontifice Urbano IV, trouxe o uso de expôr publicamente o Santissimo Sacramento á veneração dos fieis. Foi este uso que deu origem ao vaso chamado _custodia_, ou _apresentação_ nome derivado dos verbos latinos _ostendere_ e _monstrare_, significam, um e outro, _mostrar_.
No principio, parece que o _Santissimo Sacramento_, estava exposto publicamente nas pyxides _transparentes_ com cruzes e torrinhas cheias de aberturas; mas, dentro em pouco adoptaram-se, geralmente as custodias.
Algumas d'estas custodias primitivas apresentam a maior analogia com os relicarios expostos contemporaneos. São pequenos edificios de metal, com recortes, tendo um pé e furados sobre dois ou muitos dos seus lados, com aberturas, as mais das vezes sob a fórma de janella ogival.
As custodias mais communs durante todo o periodo ogival, foram as de _cylindro_, assim designadas porque são formadas d'um cylindro de crystal ou de vidro posto sobre um pé de metal. No XIV, XV e XVI seculos, o cylindro tem geralmente por cima um campanariosinho e nos flancos contra-fortes e arcos-butantes, igualmente de metal. Depois do XIII seculo, o campanariosinho e o pinaculo não são usados. A hostia colloca-se no interior do cylindro n'uma luneta sustentada por um ou mais anjos. O pé e o nó d'estas custodias apresentam a maior similhança com os calices e as pyxides contemporaneas; todavia, o diametro do pé é geralmente maior nas custodias que nas pyxides e calices.
As custodias em que o cylindro de crystal é substituido por um _sol radiante_ vieram a ser geraes desde o XVI seculo. Antes d'esta epocha, eram extremamente raras, e sómente se conhecem pela noticia que se encontra nos inventarios dos thesouros das egrejas pertencentes ao XV seculo.
_Relicarios_. Os relicarios do periodo ogival apresentam fórmas tão variadas como os da epocha Roman. Seria difficil descrevel-os todos; occupar-nos-hemos dos principaes.
_Relicario da vera Cruz_. Como precedentemente dava-se muitas vezes a estes relicarios a fórma d'uma cruz com travessa dupla; porém empregavam-se os ornatos proprios da ourivesaria da epocha ogival. A maior parte d'estas _cruzes-relicarios_, sobretudo as mais bellas, são do XIII seculo.
Depois d'essa epocha abandonou-se o costume de encaixilhar os relicarios da vera cruz, nas cruzes relicarias com travessa dupla, e serviram-se geralmente da cruz com uma unica travessa.
Deu-se tambem algumas vezes a fórma de uma cruz aos relicarios contendo reliquias de santo; mas n'este caso a cruz tem sempre uma só travessa.
No XIII seculo, os relicarios da vera cruz, collocados n'uma pequena cruz ou bocota, eram ainda ás vezes, como durante o periodo Roman, encaixilhados dentro de placas metallicas fixas sobre o meio da madeira e ornados de esmaltes, gravuras e cinzelados de maneira a formar uma especie de quadro com portas de metal ou madeira pintada.
_Relicario da corôa com espinhos_. Os espinhos da corôa trazida pelo Redemptor durante a sua paixão, eram collocados regularmente em corôas de ouro ou de prata enriquecidas de joias. Algumas d'estas corôas, feitas no Oriente, foram enviadas para a Europa Occidental pelos imperadores que as conquistas dos cruzados tinham collocado sobre o throno de Constantinopla.
A Santa Corôa de espinhos que tinha vindo em poder dos cavalleiros cruzados em seguida ás suas conquistas no Oriente, ficou conservada religiosamente no throno sagrado do novo imperio byzantino até 1237, epocha em que o imperador Bauduino II foi obrigado a dal-a em penhor aos commerciantes venezianos, os quaes lhe haviam feito um emprestimo da quantia de quatro mil marcos de prata para occorrer ás necessidades mais urgentes das finanças imperiaes.
Pouco tempo depois, S. Luiz IX, rei de França, tendo tido a felicidade de occupar o logar dos emprestadores, ficando responsavel pela quantia entregue, pôde obter a preciosa reliquia, e a fez transportar para França por dois frades dominicanos.
O santo rei mandou pôr muitos espinhos nas corôas do mesmo feitio que tinha a corôa real, e presenteou com ellas um certo numero de estabelecimentos religiosos.
Os Santos Espinhos foram tambem por vezes encaixilhados em relicarios mais simples e d'um feitio differente.
Os relicarios do periodo ogival apresentam o mesmo aspecto que os do XII seculo, isto é, teem a fórma d'um cofre oblongo, fechado por uma tampa imitando um telhado com duas aguas.
Os grandes relicarios do XIII seculo são cofres de madeira coberta com chapas de metal esmaltado, cinzelado e por vezes simplesmente gravado. Quasi todos são rectangulares; ha todavia, por exemplo, a grande caixa das reliquias de Nossa Senhora de _Aix-la-Chapelle_, que se vê sobre os seus dois compridos lados, saliencias que a faz parecer com uma egreja tendo um cruzeiro. As suas faces verticaes são ornadas de estatuasinhas de ouro, prata ou de cobre dourado, ficando collocados debaixo de docéis ou arcaduras. Jesus Christo abençoando, sentado ou de pé, só ou entre dois santos, se vê, como nos relicarios Romans, sobre um dos dois pequenos lados formando empena, emquanto o outro lado fica occupado por Nossa Senhora, ou pelo Santo cujas reliquias se conservam no relicario, igualmente collocado entre dois santos.
Os dois lados compridos estão divididos n'um certo numero de compartimentos tendo como remates frontões dentro dos quaes estão inscriptas ogivas quasi sempre trilobaes. Estes compartimentos formam docéis ou arcaduras, mostrando estatuasinhas dos apostolos ou de outros santos assentados.
Sobre as abas da tampa ha figuras em pé ou baixos relevos representando os mysterios da vida de Jesus Christo e os principaes factos do corpo que encerra o relicario.
Finalmente, algumas vezes a aresta superior do cofre, e mesmo os lados inclinados dos frontões, teem na summidade folhagens de esmerado lavor, interrompidas de distancia a distancia, por castões.
As linhas inclinadas dos frontões, os docéis, os molduramentos e os fustes das columnasinhas que sustentam os docéis estão bastantes vezes cheios de esmaltes e filigranas como se fazia precedentemente.
Desde o final do XIV seculo, os relicarios em metal perdem o aspecto de feretro ou cofre, como haviam tido até então; transformam-se pouco a pouco e tomam a apparencia de capellas e mesmo de pequenas egrejas.
Alguns relicarios do XIV seculo fingem, d'uma maneira extremamente caracterisada as fórmas architectonicas: representando rosaceas, galerias, campanariosinhos e contrafortes; os seus docéis e frontões teem as inclinações dos contornos decorados de crochetes acabando no feitio d'um florão.
O maior numero dos relicarios metallicos dos XV e XVI seculos imitam servilmente a maneira de se construirem os monumentos de cantaria; vindo a ser reproducções em pequeno das grandes egrejas ogivaes. Tendo egualmenle arcos-butantes, na summidade recortes, parapeitos vasados em trefles ou de quatro folhas, uma nave principal e as lateraes, etc., e ás vezes tambem uma torre se ergue no centro do espigão.
Usaram tambem, durante o periodo ogival, de _relicarios de madeira_ cobertos de pinturas representando assumptos religiosos que recordam geralmente os principaes factos da vida do santo que contém o relicario.
O relicario de madeira mais notavel como objecto d'arte por causa de suas pinturas, é o de Santa Ursula, que está no hospital de S. João em Burges. Tem a data do XV seculo e constitue uma das obras primas do pintor Hans Memlinc.
Ha tambem poucos exemplares de relicarios de pedraria do periodo ogival.
Os relicarios não contém sempre os corpos inteiros dos santos, e são tambem destinados a conservar reliquias diversas.
_Bustos, braços, pés, estatuasinhas_, etc. O uso de conservar as reliquias dos santos dentro de bustos ou nos relicarios preciosamente ornados imitando a fórma dos ornatos a que os relicarios pertenciam já no periodo roman, manteve-se durante toda a epocha ogival, e encontram-se ainda muitos exemplares do periodo do renascimento.
O maior _busto-relicario_ conhecido, pois mede 1^{m},62 centimetros de altura e um dos mais magnificamente ornados, é o de S. Lamberto da cathedral de Liège, obra de 1506 a 1512. É de prata dourada e está posto sobre um plintho decagono decorado de seis baixos relevos representando differentes scenas da vida do santo bispo de Maestricht. O bispo está paramentado com as vestes pontificaes e todo coberto de joias e perolas.
Os ossos dos braços e dos pés estão muitas vezes introduzidos nos relicarios apresentando a fórma d'esses membros do corpo humano. Nos relicarios de fórma de braço, a mão fica sempre representada _benzendo_ á maneira Latina.
No thesouro da egreja de Nossa Senhora de Tongres ha sete relicarios com a fórma de braços. Dois são do final do XIII ou principio do XIV seculo, estando compostos de chapas de prata com faxas de cobre dourado guarnecido de joias e filigranas; os outros cinco são de madeira pintados e dourados. Os tres mais admiraveis e preciosos, têem dois a fórma d'um pé, e no terceiro, com a fórma de meia lua, guarda-se uma costella do apostolo S. Pedro.
Ha tambem relicarios apresentando o feitio de estatuasinhas. Geralmente as reliquias estão contidas em um pequeno cylindro de crystal, guarnecido de prata ou cobre dourado, fechado nas duas extremidades e posto ao lado da estatuasinha ou trazendo-o na mão. Algumas vezes, posto que raramente, estão fixos n'um medalhão ou pequena cruz, sobre o peito ou sobre outra qualquer parte da estatuasinha.
_Mostrador-relicario_. Estes relicarios compõem-se de vasos de crystal ou de qualquer outra materia transparente, engastados em obra de ourivesaria, onde se mettem as reliquias, depois de as ter embrulhado em pellica, seda ou estofo, tecidos de ouro ou prata. Estes vasos, geralmente de fórma de cylindro ôco, põem-se muitas vezes n'uma posição vertical, e ficam limitados por um remate tambem conico. O maior numero dos mostradores-relicarios são postos sobre pés similhantes aos dos calices e das custodias; alguns são sustentados por anjos ou levitas; finalmente ha os que ficam postos sobre um sóco; por vezes acontece não terem essa base.
No XIII seculo, e mesmo ainda ás vezes no seculo seguinte, os ourives, á imitação das obras dos esculptores contemporaneos, iam buscar os feitios de decoração para os mostradores-relicarios ás reliquias nos engastes das joias, ás filigranas e as folhagens imitando a flora indigena.
Ao começar do XIV seculo, muitos relicarios fingem fórmas architecturaes e imitam mais ou menos certas partes dos edificios do estylo ogival. Os feitios da decoração tirados até ali ao reino vegetal, dão logar para formar pinaculos, contra-fortes, arcosbutantes e docéis, estando delicadamente lavrados e executados, não pela imitação servil dos edificios de cantaria, mas com uma intelligencia apurada que distingue todas as producções artisticas da idade media e que attendiam á natureza da materia que se punha em obra. O ourives, posto que conservasse as fórmas geraes da architectura, dava-lhes uma leveza que seria impossivel, se fosse executada na pedra.
Quando o cylindro ficava na posição vertical, a fórma do mostrador-relicario confundia-se geralmente com a das custodias, como já referimos.
Vêem-se tambem algumas vezes relicarios com cylindro vertical e feitio da decoração imitando a architectura, não tendo peanha.
Quando, pelo contrario, o cylindro tem a posição horisontal, é geralmente executado em obra de ourivesaria de fórma de egreja com uma ou mais naves, encimado d'uma torresinha elevada e ligada por arcos-butantes sahindo do engaste que encerra o cylindro.
_Phylacteras_. Não podemos deixar de mencionar uma outra fórma de relicarios que foi commum no XII e no XIII seculos. Estes objectos compõem-se de pequenos moldes de madeira cobertos de prata e cobre dourado e esmaltado, sobre os quaes estão traçadas, em esmalte ou relevo, imagens, scenas historicas e legendarias, emmolduradas n'uma cercadura de filigrana recamada de joias sem serem lapidadas. Muitas vezes mesmo as representações dos assumptos, das figuras e symbolos faltam inteiramente. As costas, formadas igualmente d'uma chapa de metal, são ornadas de lavores, gravuras ou pinturas. Têem sempre pequenas dimensões (o seu diametro não é de mais que dois a tres decimetros), e fórma redonda, ellyptica ou, as mais das vezes, com quatro folhas. Alguns archeologos lhes dão o nome especial de _phylacteras_, posto que, conforme a etymologia, este nome, derivado do grego, _guardar_, designa qualquer especie de custodia ou recipiente, e deveria por conseguinte applicar-se indistinctamente a todos os relicarios.
Algumas vezes as phylacteras são, como os relicarios de cylindro de crystal, postas sobre um pé de metal com figuras de anjos ou de santos.
_Cofres-relicarios_. Continuou-se, durante o periodo ogival, a encerrar as reliquias dos santos nos cofres de metal, madeira, marfim e couro com figuras em relevo. É bastante raro achar, sobre estes cofres, scenas historicas ou symbolos religiosos.
No XV seculo principiou-se a fazer cofres de ferro, e o seu uso não se demorou a generalisar. Não devemos pois admirar-nos, se um grande numero d'estes objectos curiosos têem sido conservados até ao presente. A maior parte eram destinados a uso profano: guardavam joias e outros objectos preciosos. Ha todavia alguns que serviram de relicarios, principalmente os que têem inscripções religiosas, como--AVE MARIA GRATIA PLENA e O MATER DEI MEMENTO MEI.
Ás vezes estes cofres eram inteiramente de ferro; sendo todavia formados d'uma caixa de carvalho ou de faia forrada de couro encarnado, sobre o qual assentava uma chapa de ferro recortada e segura por enfeites de ferro. O ferrolho tinha ás vezes a fórma d'um lagarto ou de salamandra. A maior parte d'estes cofres eram cobertos de florões scintillantes, o que faz vêr que no XV seculo os serralheiros como os ourives iam buscar á architectura as suas principaes fórmas de decoração.
Os cofres de marfim, dos quaes se haviam servido muitas vezes para os relicarios durante o periodo Roman, ficaram em uso até á epocha ogival juntamente com os de madeira, de metal e de couro.
_Trombetas-relicarios_. Não é raro achar, nos thesouros de egrejas, antigas trombetas de guerra e de caça transformadas em relicarios. Durante a idade media, os christãos não receiavam empregar no culto certos objectos profanos emquanto á sua origem e á sua ornamentação, mais preciosos como materia ou como obra d'arte. Já assignalamos esta pratica para os camafêos e pedras antigas gravadas concavamente, das quaes os ourives da idade media frequentemente faziam uso para dar mais brilho ao metal nos differentes objectos para o culto; encontrando-se tambem nas trombetas dos caçadores de que tratamos agora e dos esmoleres de que fallaremos depois.
Quasi todas as trombetas-relicarios são de marfim e apresentam a mesma fórma, imitando a defeza do elephante de cuja materia eram fabricadas. É do nome d'este animal, que as trombetas de marfim têem tirado o de _olifante_, pelos quaes são geralmente conhecidos. Na idade media o _olifante_ era tanto se não fosse mais, um instrumento de guerra como para a caça; servia principalmente para dar signal de commando, reunir as tropas e annunciar a presença do inimigo.
Os elephantes e as trombetas estão guarnecidos de aros de metal, floreado com florões ou redentados que facilitam suspendel-os em bandoleira. Estas virolas, algumas mostrando a cabeça de bezerro, estão fixas nas duas extremidades, e de distancia em distancia sobre o comprimento do objecto. Algumas vezes tambem ornam-se os elephantes de esculpturas em baixo-relevo, e então as virolas não têem ornatos.
As principaes officinas para a esculptura dos oliphantes e guarnecel-as de metal existiam durante a idade media no Norte de França, principalmente em Abbeville e Paris.
Encontram-se tambem trombetas relicarios em chifre de boi e de bufalo; posto que guarnecidas pela mesma maneira que os _oliphantes_, são todavia faceis de reconhecer, não sómente pela sua côr, mas ainda pela sua curva muito mais fechada, approximando-se geralmente d'um semi-circulo.
_Esmoleres-relicarios_. Chama-se _esmoler_ a uma pequena bolsa com cordões ou fechos, que se traz suspenso á cintura para guardar o dinheiro e os objectos de serviço habitual. Estas bolsas, que formavam na idade media o complemento indispensavel do vestuario dos dois sexos, eram de couro ou estofos de preço. Dava-se-lhes tambem o nome de algibeira.
A fórma mais antiga é d'uma pequena bolsinha com dois cordões de correr para fechar, e d'um outro cordão para suspender á cintura. Mais tarde supprimiram-se os cordões e dobraram na frente do bolsinho uma parte do estofo, que se levantava quando se queria introduzir a mão no esmoler.
Não se tem conservado até ao presente esmoleres de estofo, e mesmo os de couro não se encontram senão casualmente. Entre estes estofos uns são de seda lavrada, outros têem bordados sobre linho ou seda com fios de ouro ou seda de differentes côres traçando simples ornamentos, symbolos e mesmo algumas vezes assumptos.
Na idade media serviam-se, muitas vezes dos esmoleres para embrulhar as reliquias dos santos e deposital-as nos relicarios. É mesmo a esta circumstancia que deve ter-se conservado um grande numero d'esses curiosos objectos, o que serve tambem para se explicar acharem-se nos thesouros das egrejas. Poucas vezes esses esmoleres mostram symbolos ou assumptos religiosos; no maior numero vêem-se simples ornamentos; algumas vezes mesmo estão decorados com assumptos profanos.
_Relicarios diversos_. Além dos relicarios que acabamos de descrever por classes, ha tambem outros de que seria impossivel formar grupo, havendo infinita variedade, e ao mesmo tempo um gosto singular, que os artistas de todo o periodo ogival empregaram no feitio d'esses objectos.
_Custodias_ d'Agnus Dei. Chama-se _Agnus Dei_ a pequenos medalhões de cera branca, de fórma circular ou oval, ornados sobre as duas faces com a impressão d'um cordeiro deitado, uma cruz de resurreição, estandarte e tendo dois ou tres guiões fluctuantes. Por baixo do cordeiro ha n'um segmento de circulo, o nome do Pontifice que benzeu o objecto. N'uma epocha bastante recente, tem-se muitas vezes completado esta indicação, ajuntando-se-lhe o anno do pontificado; havendo-se substituido ao cordeiro collocado no reverso do medalhão, o brazão d'armas do papa ou uma imagem. Em exergo lê-se quasi sempre: AGNE DEI MISERERE MEI QUI CRIMINA TOLLIS.
Desde o IV seculo é provavel se estabelecesse o uso de aproveitar, no domingo depois da Paschoa, os restos do cirio paschal do anno precedente para o dividir em pequenos fragmentos e distribuil-os depois aos fieis, os quaes os levavam comsigo para suas casas e serviam como objecto bento de devoção. É n'esta pratica ao presente conservado em algumas dioceses com as modificações accessorias, que se acha a origem da devoção dos _Agnus Dei_. Em Roma, principiaram cedo a ajuntar cera pura e oleo aos fragmentos do cirio paschal e com esta mistura, se moldavam medalhões em forma de distico, tendo a effigie do cordeiro Divino. Estes medalhões eram já conhecidos em Roma perto do fim do VI seculo. Mais tarde, e ainda presentemente, os restos do cirio paschal foram completamente excluidos da materia dos _Agnus Dei_, e serviram-se unicamente da cêra sem nenhuma addição de substancias estranhas, que o soberano Pontifice mergulha durante algum tempo em agua benta misturada dos Santos Oleos e de balsamo puro.
Em todos os tempos os _Agnus Dei_ têem sido recebidos pelos fieis com grande veneração, e muitas vezes encerrados em pequenas bocetas de metal mais ou menos precioso, cuja forma e ornamentação apresentam a maior analogia com os dos relicarios. Estas bocetas têem geralmente uma argola para se suspender; são circulares como os antigos _Agnus Dei_, trazendo em exergo a legenda como está: AGNE, (ou mais vezes ainda AGNUS) DEI MISERERE MEI QUI CRIMINA TOLLIS, ou uma outra oração. São muitas vezes recortadas de maneira a mostrarem uma maior ou menor parte da cêra. Os espaços que occupam o metal são ora dispostos em simples cruz grega tendo na intersecção dos ramos, um medalhão cinzelado, gravado ou esmaltado, ora em relevo sob a fórma de cordeiro, imagens, ou simples florão.
Os mais antigos _Agnus Dei_ conservados até ao presente não vão além do principio do XIV seculo; porém os d'uma epocha posterior encontram-se com bastante frequencia.
_Armarios para reliquias_. Os relicarios, os vasos sagrados, os livros do Evangelho e outros objectos preciosos conservam-se regularmente em armarios ou tendo simples nichos feitos na grossura da parede; outras vezes formavam construcções de pedra encostadas a uma parede; todavia as mais das vezes eram moveis de madeira com mais ou menos obra de apurado trabalho.