Resumo elementar de archeologia christã
Chapter 18
_Cruz de cemiterio_. Erguiam tambem, nos cemiterios, grandes cruzes de pedra durante o periodo Roman, ajuntavam-lhe, poucas vezes, a imagem de Christo; porém do começo do XIII seculo, essa imagem vê-se quasi sempre acompanhada de Nossa Senhora e do Menino Jesus, postos no revesso da cruz, ou encostados á columna que serve para a sustentar. Outras vezes, e isso é mais seguido, a cruz fica entre a imagem de Nossa Senhora sem o Menino e a de S. João. As hastes que forma a columna ou o pilar sobre os quaes está assente a cruz, são geralmente postas sobre um sóco mais ou menos alto, tendo na sua base um pequeno altar.
As cruzes de pedra que se erigiam muitas vezes, na idade media, nas encruzilhadas das vias e no meio das praças publicas, apresentavam as mesmas fórmas que as cruzes de cemiterios; sómente não tinham altar na base do seu sustentaculo. Em Lisboa havia um excellente especimen no cruzeiro de Arroyos, estando presentemente guardadas as esculpturas na egreja d'esse bairro.
As cruzes de cemiterio e dos cruzeiros não eram todas de cantaria; havia-as tambem de bronze, de ferro e madeira. Inutil é declarar que as cruzes de madeira ficaram destruidas já ha muito tempo. As de bronze têem desapparecido egualmente, para fundirem o metal! Mas ha ainda, em alguns paizes, as que foram feitas com ferro forjado.
As cruzes de cemiterio continuaram a estar em uso durante a epocha do renascimento, e estão quasi sempre acompanhadas das imagens de Nossa Senhora e S. João, e algumas vezes d'uma pintura representando o purgatorio. Quando o cemiterio fica adjacente á egreja, a cruz colloca-se sobre um alpendre junto do coro, na parte interna. As cruzes triumphaes, que se viam durante o periodo ogival por cima do Jubé foram aproveitadas, em muitos logares, para servirem de cruzes de cemiterios.
*Pias baptismaes*
A pia de baptismo no periodo ogival é geralmente menos larga e profunda do que a em uso no periodo Roman. Esta differença foi motivada pelo abandono do baptismo por _immersão_ no XIII seculo. Como precedentemente, algumas das pias têem o feitio d'uma tina sem pé, redonda, quadrada ou com seis ou oito lados; outras assentam sobre um grosso pilar central acompanhado nos angulos da pia por quatro columnasinhas, mas o maior numero são monopediculados.
As pias de feitio de tina sem pé encontravam-se ainda algumas vezes no periodo ogival, porém muito poucas durante o periodo Roman.
_As pias monopediculadas_, isto é, firmadas sobre um só pilar, foram as mais communs na Belgica durante todo o tempo do periodo ogival. Estas pias baptismaes, em vez de serem como as Romans, circulares ou quadradas na parte externa, eram geralmente de seis ou oito lados. A pia continua a apresentar, como durante o periodo Roman, a fórma hemispherica ou oval; havendo muitas vezes, na parte mais baixa, um orificio servindo para vasar a pia.
Na Allemanha e na Belgica desde o final do seculo XIV, e principalmente no XV seculo, havia pias monopediculadas em latão.
O maior numero de pias Romans estavam cobertas de esculpturas decorativas, symbolicas ou historicas. Sobre as pias do periodo ogival, pelo contrario, os assumptos historicos e legendarios, assim como as figuras symbolicas e phantasticas são raras; por excepção se vê ainda n'ellas o baptismo de Jesus Christo e outras scenas biblicas ou tambem personagens isolados collocados debaixo de arcaduras.
Os ornatos simplesmente decorativos, taes como folhagens e carrancas, são tambem bastante raros sobre as pias do XIV e XV seculo. Toda a decoração das pias ogivaes, principalmente no XV seculo, consiste as mais das vezes n'um certo numero de molduras que se vêem sobre a pia e sobre o pilar em que se fórmam.
*Pias para agua benta*
Ha duas qualidades de pias para agua benta: as _fixas_ e as _portateis_.
As pias fixas são cylindricas ou polygonaes, com reservatorio hemispherico, collocadas junto da entrada da egreja, no interior ou exterior do edificio: umas isoladas e postas sobre um pé, outras sem terem apoio. Estas ultimas, que estão sempre unidas com as construcções, vê-se quer em nichos, quer em sacada sobre o liso da parede ou d'um pilar, no qual estão encaixadas.
Posto que as pias para agua benta pediculadas estivessem já em uso no XIII seculo, e talvez ainda antes, foi todavia no XIV e XV seculos que vieram a ser mais communs. Em muitos paizes, apresentam bastante analogia com as pias baptismaes contemporaneas, de maneira que é muitas vezes difficil distinguir de repente, se o objecto que está presente serviria na primitiva de pia para agua benta ou de pia baptismal, pela sua grandeza. A capacidade limitada do reservatorio e a falta do orificio destinado para dar sahida ás aguas baptismaes, dão algumas vezes um indicio para designar que o objecto seja uma pia para agua benta e não uma pia baptismal.
O maior numero das pias para agua benta fixas do periodo ogival que existem, ainda são de pedra. Havia tambem em outro tempo um certo numero d'ellas de bronze e de latão. A memoria de algumas d'estas pias de metal nos foi conservada, quer por desenhos e gravuras, quer por testemunhos de escriptores antigos. Encontram-se mesmo raros especimens que escaparam á destruição vandalica.
As pias para agua benta _portateis_ são vasos com azas, destinados a conter a agua benta. Como já referimos, serviam durante o periodo Roman, para apresentar a agua benta aos imperadores, reis e outros distinctos personagens, na occasião da sua entrada na egreja. Serviam tambem n'esta epocha, para a agua com que se faziam as aspersões prescriptas pela liturgia. O costume de principiar a missa solemne do domingo por uma procissão dentro da egreja, durante a qual se aspergia o povo com agua benta, remonta aos primeiros seculos do christianismo. As capitulares de Carlos Magno confirmam já este costume, e no Concilio reunido em Nantes em 911 determina aos curas que benzam a agua ao domingo, em um vaso limpo e apropriado, para que o povo seja aspergido, e o sacerdote possa leval-a aos enfermos, aspergil-os e á sua habitação.
As mais antigas pias para agua benta portateis são de marfim. As pias para agua benta em metal, já conhecidas durante o periodo Roman, vieram a ser muito communs no XIII e XIV seculos. Todas as pias para a agua benta portateis são, comparativamente ás em uso desde o XV seculo, de muito pequena dimensão: medem apenas 20 centimetros pouco mais ou menos de altura, com um diametro entre 10 e 13 centimetros.
Quando, no XV seculo, as pias para a agua benta portateis de metal vieram a tornar-se de uso geral, deram-lhes dimensões maiores. Todavia encontram-se ainda muitas d'esta epocha, que são muito pequenas.
Quasi todas as pias para agua benta antigas têem a fórma d'um balde; algumas apresentam um engrossamento consideravel sobre a borda superior, diminuindo sensivelmente para a base. Vêem-se com uma inscripção mostrando como as das pias fixas, assim como a allusão ao symbolismo de agua benta pelo baptismo de Jesus Christo.
*Grades e barreiras*
_Grades de ferro_. As grades do XIV seculo apresentam mais ou menos o aspecto geral que as do periodo Roman. Como antecedentemente, têem os prumos verticaes com um caixilho de ferro a que ficam reunidos por ornatos em fórma de _X_ composto por barrinhas de ferro com secção differente; e todavia, quando as grades são destinadas para as cathedraes ou para os edificios importantes, as barrinhas das extremidades simplesmente enroscadas não têem por ornato senão algumas hastes verticaes. A suppressão das couceiras póde ter logar sem inconveniente nos vãos de pequena largura, de pouco peso e fórmas delicadas, mas para grades maiores e expostas aos encontrões da multidão, o systema de almofadas com ornato entre as couceiras e as travessas é o unico modo que dará a solidez precisa sem obstar ao aspecto de leveza.
Os cenotaphos erguidos nos logares frequentados da egreja, os reliquarios expostos publicamente á veneração dos fieis e os armarios dos thesouros eram muitas vezes resguardados por grades com importante trabalho de mão d'obra. Estas grades ornadas geralmente por barrinhas estampadas do lado externo sómente estão por vezes armadas com grandes pontas e ganchos de ferro que impossibilitam o assalto.
Nas grades do XIV e XV seculo, os prumos servindo de couceiras e as travessas continúam a ser empregadas; porém as barrinhas torcidas e estampadas das grades do XIII seculo ficaram substituidas por ornatos obtidos, servindo-se de chapas de ferro batido, recortadas em florões ou folhagens. Depois, em logar de ficarem seguros como precedentemente os prumos por bracedeiras, não soldados, esses ornatos estão fixos por cavilhas arrebitadas. Os caixilhos de ferro são muitas vezes supprimidos, e a esses prumos depois de lhe assentar na extremidade remates mais ou menos vistosos, compostos de flôres de liz ou florões de folha de ferro soldadas.
As grades que se não abrem, que assentam na frente das janellas, nos thesouros das egrejas, casas de capitulo, depositos do archivo, casas nobres e mesmo nas casas particulares, estão muitas vezes guarnecidas de pontas de ferro dispostas em espigas nas duas extremidades das couceiras. Algumas vezes as grades com espigas têem, álem d'isso, as suas couceiras e travessas reunidas de maneira impossivel para fazer mover as couceiras nos olhaes das travessas ou nos olhaes das couceiras; estes olhaes estão alternativamente feitos nas travessas e nas couceiras.
_Barreiras de madeira_. Em logar de grades de ferro, tambem se serviam de barreiras de madeira, a fim de separar as capellas. Estas barreiras são geralmente tapadas até á altura quasi d'um metro, não ficando interrompida a vista na parte superior. Quasi todas são feitas com madeira de carvalho, devendo a sua duração não sómente ao bem feito da obra, como á excellente qualidade do material empregado. A começar do XIV seculo, a parte inferior tapada é formada de duas ou muitas ordens sobrepostas de almofadas encaixadas entre as couceiras e as travessas. Estas almofadas teem muitas vezes obra de talha figurando pinasios dos caixilhos, ou folhas de pergaminho dobradas. A parte superior d'estas barreiras compõe-se quasi sempre de arcaduras rotas, deixando passar a vista entre os prumos em que se dividem.
*Orgãos e caixas para elles*
Os primeiros orgãos de que os chronistas occidentaes fazem menção, são os que o rei Pepin recebeu de presente da côrte imperial de Constantinopla no meiado do VIII seculo, e que fez collocar no seu palacio de _Compiègne_. Carlos Magno tambem no principio do seculo seguinte mandou fabricar orgãos, conforme o modelo byzantino para ornar a sua egreja de _Aix-la-Chapelle_. Depois de Carlos Magno, o uso dos orgãos para o acompanhamento de certas partes cantadas do officio divino, introduziu-se pouco a pouco na egreja Latina. Desde o final do X seculo, a maior parte das egrejas cathedraes e abbaciaes de primeira ordem tinham-os adquirido, e durante os dois seculos seguintes continuaram a generalisar-se.
Os orgãos primitivos eram muito defeituosos e d'uma grande singeleza, como vemos nas miniaturas dos manuscriptos contemporaneos.
Durante o periodo ogival a predilecção pelos orgãos tomou novos desenvolvimentos, e, no final do XV seculo, todas as egrejas de alguma importancia e mesmo as capellas tinham o seu orgão. No XIII seculo, começaram já, em alguns logares, a multiplicar o numero dos orgãos em uma só e mesma egreja. Ao principio contentavam-se com dois d'estes instrumentos; porém no XIV e XV seculos tinham tres, quatro e até cinco. Na egreja do convento de Mafra, el-rei D. João V mandou collocar quatro grandiosos orgãos nos angulos do cruzeiro, no XVII seculo.
_Até ao XV seculo_, diz o insigne architecto Violet-le-Duc, _não parece que os grandes orgãos estivessem em uso. Serviam-se apenas de instrumentos de mediocres dimensões e que podiam ficar dentro d'um movel assentes na capella-mór, nos jubés ou sobre tribunas mais ou menos espaçosas, destinadas não sómente aos orgãos, mas ainda aos cantores e musicos. Foi no final do XV e principio do XVI seculo que houve a ideia de dar aos orgãos, dimensões extraordinarias_ desconhecidas até então, tendo uma _grande força de som e exigindo, caixas collossaes_. Todavia esses orgãos não são nada em comparação com os instrumentos que se fizeram depois no XVII seculo.
No fim do periodo ogival, a fórma das caixas dos orgãos era determinada pela disposição que tinha esse instrumento. A obra de entalhador para as caixas dos orgãos do XV e XVI seculos, e mesmo de alguns orgãos do XVII seculo era independente do instrumento e servia para o resguardar, cobrindo-o. O mechanismo e os folles ficam inteiramente mettidos entre as almofadas macissas dos sócos; as almofadas recortadas enchem os espaços rotos existentes entre a extremidade superior dos canudos e os tectos, afim de facilitar a emissão do som. A marceneria ornada de esculpturas e de polychromia e os canudos eram muitas vezes estampados e dourados. Tudo ficava encerrado por portas que o organista abria quando tocava; estas portas eram, as mais das vezes, ornadas, pelo menos na parte interna, com pinturas historicas que se viam quando servia o instrumento. Os orgãos e as caixas, anteriores ao XVI seculo, são muitissimo raros.
*Alfaias religiosas*
_Ourivesaria e esmaltadores_. No XIII seculo, a arte de ourives transformou-se completamente sob a influencia do novo estylo architectural. Durante o primeiro quartel e mesmo durante a primeira metade d'esse seculo, os vasos sagrados e os objectos do culto apresentavam ainda, é verdade, as mesmas fórmas geraes que durante o periodo Roman; porém o systema da decoração teve modificações importantes. O artista, fosse quem fosse, esculptor, pintor ou ourives, ia procurar as suas inspirações, jamais como precedentemente aos objectos byzantinos ou aos estofos orientaes, mas sim na flora do seu paiz; serviam-lhe de modelos os vegetaes indigenas e applicava-se interpretal-os artisticamente.
As chapas esmaltadas e os engastes das joias, com algumas folhagens de filigrana, ficam geralmente em uso até ao meiado do XIII seculo; continuando a dar o principal modelo de decoração para os objectos de grandes dimensões, taes como os reliquarios e os frontaes dos altares.
Todavia n'uma parte da Belgica, o uso dos esmaltes de côres desappareceu mais cedo que nas outras partes. Desde o primeiro quartel do seculo XIII, encontra-se, sobre as margens do _Lambre_, uma escola de ourives tendo em pratica principios inteiramente novos. Á frente d'esta escola e ao impulso artistico que produz, apparece o irmão Hugo, frade Agostinho do priorado de _Oignies_. Este humilde religioso executou durante o primeiro quartel do XIII seculo, (um dos seus trabalhos tem a data de 1220), em alguns annos, uma serie de obras-primas que ainda não foram imitadas, algumas das quaes teem resistido aos estragos dos tempos, e guardam-se devotamente no thesouro das freiras de Nossa Senhora em _Nemours_, produzindo a admiração de todos os entendedores. Desprezando o emprego dos esmaltes com muitas côres, elle procurou o principal effeito de decoração n'um trabalho original, que consiste em cobrir os objectos, no todo ou em parte, com delicadas folhagens formadas de cachos, de flôrsinhas e pequenas folhas estampadas, reunidas pela soldadura a delicados pés. A estas folhagens ajuntava figuras de veados, cães e caçadores, tudo produzido da mesma maneira. O tecido muito unido que resultava d'estes trabalhos era depois arribitado ou soldado sobre as differentes partes do objecto do qual elle abrangia todos os contornos.
Hugo empregou ainda as joias; mas ás vezes, em logar de dispôl-as sobre chapas rectangulares e ligal-as pela filigrana, as dispunha artisticamente entre as suas delicadas folhagens. Além d'isto, seguindo o exemplo dos seus antecessores, não empregava camafeus e com gravuras concavas á maneira antiga, todas as vezes que não tinha joias novas para o seu trabalho.
Quanto ás massas coloridas embutidas no metal, Hugo não conserva quasi o negro do buril que serve para traçar as inscripções, ornamentos e tambem as figuras.
Depois do meiado do XIII seculo, os objectos de ourivesaria principiaram pouco a pouco por imitar na sua fórma e aspecto geral os monumentos de architectura: os relicarios, que antes eram cofres, sarcophagos, remedando o feitio dos edificios religiosos, vieram a ser pequeninas egrejas em ouro e prata: os relicarios tinham enfeites, por vezes remates, torrinhas ladeadas de contra-fortes e bastantes arcos; em uma palavra, as fórmas elegantes e graciosas da architectura ogival foram copiadas nos objectos do culto. A cinzelura tambem faz cada vez mais progresso; e vê-se mesmo a maior parte das vezes pequenos objectos apresentarem as esculpturas e altos relevos, o que não se fazia antes, excepto nos grandes objectos de ourivesaria.
Os objectos de ourivesaria propriamente chamados conservam, no XIV seculo, as fórmas que tinham precedentemente, isto é, imitam o aspecto dos monumentos de architectura, ou, pelo menos, são decorados com certos detalhes architectonicos. Todavia na França, e sem excesso na Belgica, os ourives executaram, para relicarios, estatuas pequenas de alto relevo, grupos e imitações de membros de corpo humano, ou outros objectos que se desejava encerrar dentro d'elles. Desde o XIV seculo, os vasos sagrados e os outros objectos do culto perdem a nobre simplicidade do estylo grave da época precedente.
No XV seculo os trabalhos de ourivesaria correctos differençavam pouco, quanto ao aspecto geral, dos do seculo anterior. As suas fórmas patenteavam todavia as modificações successivas que teve a architectura n'esta época. Os ourives empregavam menos simplicidade nas suas composições, menos elegancia nas fórmas, porém o seu trabalho é geralmente mais apurado e mais delicado; levado por vezes até á exaggeração pelo acabamento e perfeição dos pequenos detalhes.
Quando empregavam ainda algumas esmaltes para realçar o oiro e a prata, os ourives do XIII seculo, como os seus predecessores do XII seculo, indicavam sobre o liso do metal o contorno das figuras, e dispunham depois todas as partes internas do desenho, quer por um cinzelado produzindo um relevo pouco saliente, quer, mais simplesmente ainda, por uma delicada gravura, cujos traços refaziam o desenho dos contornos das figuras; emfim, abaixavam o fundo á roda das figuras e enchiam-no de um esmalte, geralmente escuro, adequado para fazer sobresair a composição. Até ao final do XIII seculo, os traços da gravura delicada ficavam geralmente vasios; era só excepcionalmente que os enchiam de preto. Mas, no começo d'esta época, enchiam-n'os quasi sempre de encarnado ou pardo-escuro.
_Dinanderie_. Dá-se o nome de _dinanderie_ a um objecto de cobre ou latão coado e martellado, conforme o modo de fabricar esses objectos. Esta palavra tira a sua origem da cidade de _Dinant_ sobre o _Meuse_, a qual tinha adquirido, na edade média, uma grande fama pela execução de objectos de latão. Portanto, em virtude d'esta etymologia, alguns archeologos continuaram com o uso recebido, escrevendo--Dinan_te_rie, em logar de Dinan_de_rie.
A arte de _dinanderie_ estava prospera desde o fim do XI seculo nos Paizes-Baixos, e durante os seculos seguintes, os bate-folhas de cobre obtiveram de differentes soberanos muitos privilegios, que facilitaram a exportação dos productos de sua industria para Allemanha, França, Inglaterra e todo o norte da Europa.
As pias baptismaes executadas com este material, as primeiras de 1112, e as outras de 1149, ainda se conservam na Belgica.
_Calices e Patenas_. A communhão sob a especie de vinho tendo sido abolida na Egreja Latina, proximo do XII seculo, os calices _ministraes_ com aza cessaram de ser empregados no Occidente, e a sua fabricação ficou completamente abandonada. Assim, todos os calices ministraes de origem occidental são anteriores ao periodo ogival. Na Grecia e no Oriente, pelo contrario, onde a communhão se dava ainda aos seculares sob as especies de pão e vinho, o uso dos calices ministraes conservou-se até ao presente.
_Os calices vulgares_, isto é, os de uso do sacerdote que celebra a missa, teem geralmente no XIII seculo, como nos dois seculos precedentes, a taça muito larga e pouco funda, o pé redondo e de grande diametro; a tige está ornada de um nó grosso, composto muitas vezes de arestas salientes, mas raramente de medalhões circulares.
No XIV seculo, e mesmo no fim do XIII uma mudança notavel se deu na fórma dos calices. A taça estreitou-se, e de hemispherica, como era antes, veiu a ser conica ou enfundibuliforme, isto é, similhando-se a um funil. A fórma desegual, quasi desconhecida nos calices do XIII seculo, veiu a ser commum, sem todavia tomar uma grande importancia. A hastea, que durante a primeira metade do XIII seculo, era regularmente cylindrica, tornou-se angulosa e prismatica, tendo geralmente seis faces. Os lados do nó foram mudados para botões redondos, quadrados ou rhombos, egualmente em numero de seis, e quasi sempre embutidos de esmalte, gravuras ou joias. Sobre os seis botões estão algumas vezes inscriptas as seis letras do nome de Jesus, como ortographavam então: IHESUS. O pé está dividido em seis lobulos ornados de esmaltes e de gravuras a traço representando imagens, e mesmo composição completa; estes lobulos correspondem ás faces da hastea e aos botões do nó. O sóco do pé está recortado em folhas de trevo, quatro folhas ou arcaduras; seu diametro, sempre menor que o dos calices romans, conserva não obstante uma base bastante larga para evitar a quéda. Em resumo, os calices do XIV seculo, comparados com os dos seculos precedentes, tem mais altura, mas o diametro da taça e do pé é muito menor.
A fórma geral dos calices do XV seculo é pouco mais ou menos a mesma dos calices do XIV seculo. Todavia, em certos paizes, por exemplo na Belgica, observa-se que os lobulos do pé, as faces das hasteas e os botões do nó teem muitas vezes o numero oito em logar de seis. Esta mudança foi introduzida proximo do meiado do XV seculo.
A _patena_ do periodo ogival tem como a do periodo roman, a fórma de uma pequena salva, apresentando no meio uma cavidade circular. O fundo da salva traz muitas vezes, gravado a traço, um circulo ou um quadrilobo, circumdando quer o Cordeiro Divino, quer a Mão com aureola que symbolisa a Divindade, quer qualquer outro assumpto. Colloca-se algumas vezes uma pequena cruz sobre a borda da salva.
_Galhetas_. Existem raros especimens de galhetas da época ogival. Havia-as de cobre esmaltado e em crystal de rocha com guarnição de prata cinzelada e algumas de prata dourada com guarnições gravadas.
Durante a edade média serviram-se tambem mais frequentemente de galhetas de vidro, mas por causa da fragilidade da materia, muito poucos objectos d'esta especie escaparam da destruição.
_Custodias Eucharisticas_. Em alguns paizes, particularmente em França, a Eucharistia continuou, durante o periodo ogival, a estar conservada, como anteriormente, nas pombas douradas e esmaltadas, collocada, a maior parte das vezes, em uma torresinha ou pequena tenda forradas de telas custosas, ficando suspensa por cima do altar, quer sob a pyxide, quer no baculo de metal.
No XIII, no XIV, e mesmo ainda durante uma parte do XV seculo, as pyxides eram geralmente como as do periodo Roman, de muito pequeno tamanho, porque, até proximo do meiado do XV seculo, serviam sómente para conservar o numero necessario de hostias de que havia precisão para a communhão dos doentes em perigo de vida. Os fieis que podiam assistir aos officios religiosos, recebiam a Santa Eucharistia depois da communhão do sacerdote, com as especies consagradas durante a missa, sendo distribuidas servindo-se da patena.
Quasi todas as pyxides do periodo ogival eram de metal; as de marfim e cobre não apparecem senão excepcionalmente.