Resumo elementar de archeologia christã

Chapter 17

Chapter 173,722 wordsPublic domain

As cadeiras do côro do XV seculo distinguem-se geralmente das precedentes por uma abundancia extraordinaria no ornato esculptural. São cheias de bastante decoração e executadas com mais primor e delicadeza que nos seculos XIII e XIV. Os seus altos encostos compõem-se quasi sempre de baixo relevos dentro de arcaduras com redentes feitos delicadamente, e cada cadeira tem um docel em que um pinaculo vasado muito alto forma a extremidade. Os baixos relevos das costas representam assumptos tirados da Biblia, da historia ecclesiastica ou da legenda; successos da vida de Jesus Christo ou de Nossa Senhora são representados quasi sempre. As esculpturas dos lados internos das cadeiras e das misericordias apresentam muitas vezes figuras com carantonhas, animaes reaes ou phantasticos, symbolisando os vicios. Poucas vezes as esculpturas das cadeiras representam santos ou assumptos religiosos.

Na Belgica ha um limitado numero de cadeiras do côro do XV e XVI seculos.

Em França, as mais notaveis são as da cathedral d'Amiens (XV seculo), e d'Auch (principio do XVI seculo), e na Allemanha, as da cathedral d'Ulm, com esculpturas de Jorge Syrlino de 1474 a 1476; em Portugal as da Sé Velha de Coimbra.

_Bancos e docéis dos celebrantes_. O banco dos officiantes era destinado para o celebrante, diacono e subdiacono se assentarem emquanto se canta o _Gloria_, _Credo_, e _Dies irae_; servia ao mesmo fim as poltronas que é costume collocar presentemente no côro proximo dos degraus do altar. Estes bancos, que havia na idade media em todas as egrejas de primeira e segunda ordem, estavam regularmente no _presbyterium_, do lado da Epistola defronte do tabernaculo, e apresentavam uma certa analogia com as cadeiras do côro. Conforme as prescripções lithurgicas, distinguia-se por uma grande simplicidade; eram lisos e sem subdivisões. Algumas vezes, todavia, se compunha de tres cadeiras mais ou menos similhantes ás do côro. Este banco, liso ou subdividido, tinha muitas vezes um docel cheio de esculpturas, formado por um nicho aberto na grossura da parede do côro, quando este não tinha naves lateraes ou sustentado por columnas e de paredes mestras quando o côro estava rodeado de naves lateraes.

_Jubes, Screens[4] e Cruzes triumphales_. Antigamente chamava-se _Jube_ á tribuna (em latim _doxale_) especie de barreira com tres e mais arcadas esplendidamente ornadas que nas egrejas separava o côro das naves; tinha por cima uma especie de galeria ou tribuna com _guarda-peito_, havendo na extremidade uma ou duas escadas em espiral, em cuja tribuna um abbade vinha lêr o Evangelho, depois de ter pronunciado a formula: _Jube, Domine, benedicere_.

D'ahi vem o nome _Jube_.

As escadas ficavam algumas vezes escondidas detraz dos pilares dentro de caixas rendilhadas com linda decoração.

Durante a primeira parte do periodo ogival, a arcada do meio estava tapada por uma parede, as duas outras arcadas ficavam abertas, tendo portas ou grades. Mais tarde mudou-se em alguns paizes esta disposição primitiva; na Belgica, por exemplo, na França e em certas partes da Allemanha, a arcada central só ficou aberta com uma grade de pau ou de ferro servindo de porta; taparam com parede as duas outras lateraes encostando-lhe altares.

Na primeira metade do XIII seculo, os _Jubes_ eram raros. Foi sómente no final d'este seculo, e principalmente durante os seculos seguintes que se fizeram geralmente nas cathedraes, collegiadas, e nas abbaciaes. No XV e no XVI seculo tambem, os collocaram nas egrejas parochiaes, mais importantes. Alguns se teem conservado na Belgica até ao presente: o mais antigo é da era 1490.

O mais magestoso é o da cathedral de Milão.

Os _jubes_ teem sempre proxima a _cruz triumphal_. Esta cruz, de grande dimensão, é geralmente de madeira e ornada de pinturas e dourados. Os seus quatro ramos com florões teem muitas vezes quadrilobos, nos quaes estavam do lado da nave os symbolos dos quatro evangelistas, e do lado do côro, os quatro doutores da egreja latina; S. Gregorio, S. Ambrosio, S. Agostinho e S. Jeronymo. Ao pé da cruz estão as imagens de Nossa Senhora, e do apostolo S. João; a primeira á direita, e a segunda á esquerda.

Antes da introducção dos _jubes_ a cruz triumphal estava igualmente suspensa por tres correntes no meio do arco chamado _triumphal_, que occupa a entrada da capella-mór.

Havia tambem antigamente nas egrejas do periodo Latino e Roman uma _haste_ (Tress). Era costume collocar nas basilicas entre o côro e a parte reservada para o publico uma viga atravez do côro, sobre o qual se punham luzes e tambem suspendiam lampadas, e tambem durante a quaresma, servia para pôr o véu chamado _velum templi_.

_Separações do côro_. A disposição dos antigos bancos da clerezia ao comprimento da parede absidal do côro, ja descripto, não foi conservada durante o periodo ogival, sendo em Italia e tambem em Portugal, onde continua ainda, assim como em algumas egrejas da Allemanha, principalmente nas cathedraes de Spire e de Mayence.

Desde o XI seculo, a maior parte das abbadias da _Europa central e occidental_ tinham, como já referimos, transferido para o cruzeiro, os bancos, alem das cadeiras dos ecclesiasticos, que occupavam antes a capella da abside. Mais tarde tambem a mesma mudança se introduziu pouco a pouco nas cathedraes e nas collegiadas d'essas mesmas regiões, principalmente depois da reunião das naves lateraes e capellas absides á roda da capella mór. Os bancos de pedra do periodo roman transformados em cadeiras do côro ou cadeiras de madeira, foram collocados diante do sanctuario, sobre o lado d'esta parte da egreja. O côro ficou separado das naves lateraes pelas barreiras, as mais das vezes de cantaria, bastante alta, vedado por detraz com as cadeiras do côro collocadas entre as columnas da capella-mór. A roda do sanctuario propriamente chamado, ás vezes, recortavam aberturas, de maneira que as pessoas que estivessem nas naves lateraes podessem vêr o altar, e outras vezes tambem substituiam as barreiras da porta circular da capella-mór por tumulos ou mausoléos. Nas grandes cathedraes, numerosas esculpturas em alto relevo ornavam as partes lizas das separações tanto no exterior como no interior da capella-mór. Alguns monumentos, por exemplo as cathedraes de Paris e de Amiens, teem conservado, por completo ou em parte, as suas antigas separações da capella-mór.

*Pulpitos e confessionarios*

_Pulpitos_. Durante os primeiros seculos da era christã, as tribunas do alto onde se fazia a leitura do Evangelho e da Epistola, serviam ao mesmo tempo de pulpito.

Ao uso de prégar do alto da tribuna, veiu juntar-se o de um pulpito saliente que se conservou na Europa central e occidental até ao final do XV seculo. Por isso, os pulpitos anteriores ao meiado do XV seculo se encontram mui raras vezes. Foi sómente no começo d'esta epocha que se principiou a pôl-os isolados na nave principal das egrejas d'esta parte da Europa.

Os mais antigos pulpitos são quasi todos de pedra; no XV e XVI seculos fizeram-se egualmente de madeira.

O espaço dentro do pulpito, para o prégador, no periodo ogival é geralmente hexagono e ornatado no cimo dos lados, ficando o sexto lado reservado para a entrada n'elle; a decoração compõe-se de estatuas, baixos relevos, e algumas vezes tambem, de simples desenhos geometricos ou chammas. Vê-se com frequencia Jesus Christo e Nossa Senhora entre quatro evangelistas ou os quatro doutores da egreja do Occidente, S. Gregorio, Santo Ambrosio, Santo Agostinho e S. Jeronymo.

Ha em Portugal um pulpito de pedra de admiravel composição, que pertence á egreja de Santa Cruz de Coimbra, de que tirámos o modelo e figurou na exposição universal de Paris em 1867; depois o museu de Londres quiz compral-o, ao que nos oppozemos.

O pulpito apoia-se por vezes sobre uma curva em sacada, sobre um macisso de alvenaria ou sobre columnatas enfeixadas; as mais das vezes, todavia, está assente sobre uma columnata ou sobre um pedunculo. Esta ultima maneira foi mais commum no XV e no XVI seculo. Estes apoios eram ornados com esculpturas, muitas vezes muito intrincadas conforme o uso adoptado no final do periodo ogival. Na Allemanha haviam por vezes representado as figuras de Adão, Eva ou Moysés em alto relevo nas frentes do pulpito.

O sobreceu dos pulpitos principiou a servir no final do periodo ogival, e mesmo não era muito imitado n'essa epocha. Veiu a ser de uso geral no fim do XVI seculo. Os sobreceus do XV seculo têem geralmente a forma d'uma pyramide, d'um coruchéo ou d'um campanariosinho. Na Inglaterra vêem-se sobreceus sómente com uma simples guarnição. Esta ultima forma nos parece a melhor, pois não causa a desagradavel vista do remate de tanto vulto, que parece abafar a voz. Ha poucos exemplares de pulpitos do periodo ogival.

_Confessionarios_. Os confessionarios em que o confessor fica separado do penitente por uma rotula, foram desconhecidos durante o periodo ogival. N'essa epocha, o confessor collocava-se, para ouvir as confissões, em uma poltrona ou nas cadeiras do côro, e o penitente ajoelhava deante d'elle. A recordação d'esta maneira de se confessar foi conservada nas miniaturas, paineis e gravuras do XV seculo.

Foi proximo do final do XVI seculo que os confessionarios com rotula foram introduzidos na Belgica.

*Capellas funereas, tumulos, campas, lanternas dos defunctos e cruz de cemiterio*

_Capellas funereas_. Estas capellas funereas eram construidas isoladas nos cemiterios durante o periodo ogival. São raras em quasi todos os paizes. Não ha nenhuma na Belgica nem em Inglaterra. Em França vêem-se algumas nos cemiterios bretões, e existe uma muito notavel, do XV seculo, em Avioth nas _Ardennes_ francezas. É na Austria que são mais communs.

_Tumulos apparentes_. O uso de encerrar os cadaveres nos sarcophagos e pôl-os sobre o solo ficou completamente abandonado no norte da Europa desde o XIII seculo.

Na Inglaterra, Belgica, Allemanha, e nas provincias septentrionaes da França, os tumulos apparentes do periodo ogival são cenotaphios, consistindo em socos de cantaria com massiços de alvenaria postos sobre uma sepultura subterranea, tendo a effigie do finado. Compõem-se geralmente, como no XIII seculo, de um sóco ou macisso coberto de uma grande lousa, sobre a qual está deitada a estatua do defuncto. Este estendido sobre uma cama ricamente disposta, apresentando todas as insignias de sua dígnidade: os bispos e os abbades trazendo mitra e baculo; os reis e principes, a corôa e o sceptro; os cavalleiros, o seu escudo e a sua armadura. Os pés dos bispos e dos ecclesiasticos, e em certos paizes tambem dos seculares, apoiam-se contra um dragão ou um monstro phantastico; os dos clericaes, principes e nobres, contra um leão, symbolo de coragem, e mesmo, ás vezes, como para as damas tendo os pés sobre um rafeiro, emblema da fidelidade conjugal. Pequenas figuras de anjos agitam thuribulos, sustentando tochas ou almofadas em que descança a cabeça do personagem. Depois do XIII seculo, os anjos com thuribulos tornaram-se raros. Durante muito tempo, a effigie do finado não apresenta nenhum dos caracteres da morte.

No XIII seculo e ainda no principio do XIV seculo, as estatuas deitadas têem os olhos abertos e reproduzem os gestos e as attitudes dos personagens vivos. Sómente depois do XIV seculo o defuncto principia a ser representado morto ou adormecido, com os olhos fechados.

Muitas vezes, columnatas reunidas por arcaduras são dispostas em roda do sóco, no qual estão assentes; algumas vezes, mas, raramente, as arcaduras são vasadas, e a estatua _deitada_ do finado occupa o _logar_ do sóco supprimido.

Os cenotaphios do periodo ogival são geralmente de pedra, poucas vezes de cobre ou de outro metal. Os tumulos de pedra têem quasi um metro de altura, em quanto que os sepulchros de metal, que se conservam até ao presente têem apenas 50 centimetros acima do solo; todavia o unico de metal que possue a Sé de Braga tem maior altura.

Para evitar o estorvo nas egrejas, não se permittia, salvo raras vezes, erguer-se um cenotaphio. Na capella-mór admittia-se o tumulo do fundador ou de um bemfeitor distincto, collocando os dos outros personagens de distincção nas capellas que cercam os lados do côro e da nave principal. Estes monumentos apresentavam muitas vezes uma decoração de pinturas e dourados. Alguns ficavam encostados á parede e dentro de um grande nicho sob fórma de arcadura ogival; outros, e era o maior numero, ficavam separados em todos os seus lados.

_As campas com gravuras a traço_ tornaram-se vulgares desde o XIV seculo. Muitas têem sido conservadas até ao presente, não obstante o grande numero de causas de destruição, ás quaes têem ficado expostas desde seis seculos. A maior parte estão ornadas de imagens do finado, debaixo de arcaduras trilobadas do feitio de docel, muito simples e sustentado por columnatas. Quasi sempre vê-se uma mão deitando a benção, symbolo de Deus, sahida do cimo da ogiva; e anjos agitando thuribulos occupam os _seguintes_ da arcadura. Sobre as campas dos bispos, dos abbades e dos padres, vê-se tambem, algumas vezes, aos dois lados do personagem, clerigos, ou anjos de pequeno tamanho, segurando em velas accesas.

Muito antes do XIII seculo, as campas têem, bastantes vezes ainda, como durante o periodo roman, a forma de um trapezio, isto é, são mais estreitas do lado dos pés. A inscripção que quasi sempre têem, forma geralmente o contorno exterior da pedra, menos geral do que o emmoldurado de ogiva; principia por uma cruz a inscripção e quasi no fim do XIII seculo, ajuntam já por vezes, aos quatro angulos, os emblemas dos evangelistas collocados nos quadrilobos.

As campas dos tumulos do XIII seculo que não têem um emblema, um symbolo ou um escudo com armarias, são bastante raras na Belgica.

Sobre as campas do XIV seculo, a effigie do finado continua a ser collocada debaixo de uma arcadura, poucas vezes trilobada, porém não durante os primeiros annos. Sómente esta arcadura é muito mais carregada de detalhes architectonicos do que precedentemente, taes como ridentes, crochetes, florões, pinaculos e rosaes; além d'isso, as arcaduras principiam a não ser sustentadas por columnatas com base e capitel, mas sim por pés-direitos do feitio de contra-fortes ornados de pinaculos e nichos, nos quaes se vêem pequenas figuras de homens.

Quando uma unica campa cobre uma sepultura dupla ou tripla, as arcaduras estão reunidas no numero de duas ou tres, e contéem, cada uma, sua effigie. O leão, o cão e os outros symbolos, que acompanham quasi sempre as estatuas deitadas dos cenotaphos, se vêem tambem sobre as campas do XIV seculo. Estas são geralmente de fórma rectangular, e não têem o feitio de um trapezio. Os anjos incensadores e ceroferários não se vêem excepcionalmente a começar do XVI seculo.

As arcaduras e o contorno com curvas em rampa que formam o remate caracteristico dos moldurados do XIV e XV seculos, são regularmente substituidos no XV seculo por docéis, representados em perspectiva e muitas vezes compostos de ogivas inflexas com desenhos complicados; os pinaculos, os nichos, as rosaceas flammejantes se multiplicam sobre todo o moldurado; além d'isso, os arcos-butantes apparecem para ligar os docéis aos contrafortes.

Será bom notar que os moldurados das campas do XIV e do XV seculos apresentam a maior similhança com as decorações do mesmo genero que se vêem nas vidraças pintadas contemporaneas.

Como no XIII seculo, a inscripção apparece no XIV e no XV seculos sobre a borda da campa e está inscripta entre duas linhas parallelas. Nos angulos formados pela intersecção d'essas quatro linhas se vêem quadrilobos com os emblemas dos evangelistas, ou tambem algumas vezes, desde o começo do meiado do XIV seculo, as armarias; acontece mesmo que a inscripção está, além d'isso, interrompida pelo escudo da armaria sobre os seus lados mais compridos.

Já explicámos que, quando são applicados para ornar os quatro angulos de um quadrado ou de um rectangulo, os symbolos dos evangelistas põem-se, pelo menos, até ao XIII seculo, da maneira seguinte: o homem alado no angulo superior á _esquerda_ do espectador; a aguia á _direita_, o leão no angulo inferior á _esquerda_ e o novilho á _direita_. No XIV seculo, houve uma mudança; desde esta epocha, vê-se quasi geralmente a aguia no _angulo superior esquerdo_, e o homem alado no _angulo superior direito_. É ali tambem o logar que estes symbolos occupam sobre as campas.

Os caracteres das campas que acabamos de indicar por cada seculo do periodo ogival, não são de tal maneira proprios como os que são mais proximos da epocha indicada. Pelo contrario, acontece muitas vezes, principalmente na Belgica, que as campas do XV seculo apresentam ainda, por assim dizer, os caracteres que não se está acostumado a encontrar n'outra parte nas campas do seculo precedente. Não é raro tambem achar campas do XIII, XIV e XV seculos, nas quaes o ornamento architectural seja moderado de detalhes, ou inteiramente os supprimiram.

Em França quasi sempre e algumas vezes na Belgica, as carnes, em vez de serem imitadas a traço, são represeutadas por embutidos de marmore ou de metal.

_Tumulos chatos de cobre_. Durante o periodo ogival, introduziu-se o uso do cobre ou de laminas de latão sobre as quaes as linhas do desenho são feitas a traços gravados bastante fundos, estando cheios com uma substancia rezinosa de côr preta e de tom mate. Essas largas linhas pretas se destacam perfeitamente sobre a superficie brilhante do metal brunido ou adamascado, até mesmo dourado, cujo reflexo luzidio é muitas vezes realçado pela armaria colorida em esmalte da composição da campa, a qual fica solidamente fixa na grossura do cobre. Devido a estas qualidades, os tumulos lizos em cobre contribuiam admiravelmente, assim como o pavimento e as vidraças pintadas, para a decoração das egrejas. É na Inglaterra e Flandres que têem sido mais communs durante toda a idade media.

Os tumulos chatos de cobre podem dividir-se em duas classes. A primeira, de maior numero, comprehende as laminas de cantaria, quer de marmore ou de gres, nas quaes a figura do finado fica recortada em _silhoeta_ na lamina de metal, assim como differentes ornatos; as armarias, emblemas, inscripções em feitio de fita, gravadas sobre tantas peças distinctas, ficam embutidas e arrebitadas separadamente nos entalhes correspondentes da pedra, designados _casements_ pelos auctores inglezes. A segunda classe parece ter sido menos numerosa, porém contém especimens mais bellos e preciosos. Acham-se comprehendidos n'ella os monumentos que apparecem debaixo do aspecto de grandes placas de cobre, d'uma só peça, mas que, na realidade, são muitas vezes compostas de muitas laminas ajustadas, das quaes com grande habilidade ficam disfarçadas as juntas na profundura dos traços. A figura do finado, geralmente de grandeza do natural, representa-se de pé ou deitada.

Os tumulos de latão consistem em grandes laminas soltas, não destinadas a ser embutidas nas laminas de pedra, e que formam por si um todo completo; foram communs na Belgica durante todo o periodo ogival; o seu uso continuou, em certos sitios, até o XVII seculo. Na Allemanha e igualmente no Norte da França tiveram acceitação. Sobre as laminas, não sómente a figura do finado, como tambem os accessorios symbolicos e de decoração que lhe servem, foram executadas da mesma maneira que sobre as pedras das campas gravadas. Todavia, a composição do assumpto é regularmente mais superior, e a execução mais esmerada que das outras; os mais insignificantes detalhes do vestuario, os docéis do remate, as pequenas figuras dos anjos e dos santos que os ornam muitas vezes assim como os pés-direitos, todas as partes, em uma palavra, são feitas com fidelidade, com arte e com delicadeza. Além d'isso, o fundo sobre o qual se destaca a effigie do finado, em logar de ser lizo e sem ornato, como sobre as pedras das campas gravadas, é regularmente adamascado, isto é, coberto de ornatos differentes imitando os desenhos que apresentam certos estofos orientaes; esses desenhos assemelham-se aos que se vêem á roda dos personagens nas vidraças pintadas do XIV seculo. São compostos de folhas do trevo, de quatro folhas, folhagens, côres matizadas, figuras de animaes, gritos de guerra, ou com divisas muitas vezes repetidas. Parece mesmo por vezes no XV e no XVI seculo, que os detalhes architectonicos desapparecem completamente para dar logar aos fundos adamascados. Finalmente, uma particularidade que apresentam ainda as laminas de cobre funereas do XV e do XVI seculo, vem a ser que as _phylactéres_ se veem muito mais frequentemente que sobre as pedras das campas. Chama-se _phylactéres_ a bandeirolas compridas e estreitas, saindo da boca das personagens ou estão seguras nas suas mãos, e sobre as quaes está inscripta uma oração, uma divisa ou uma sentença.

_Pequenos monumentos funereos do XV e do XVI seculo_. Além dos cénotaphos, das campas e dos tumulos chatos de latão, erigiam-se tambem, nos XV e XVI seculos, pequenos monumentos funereos de pedra ou latão, encaixados na face da parede proxima do logar da sepultara. Estes monumentos curiosos encontram-se, não só no interior das egrejas, mas tambem nos claustros das cathedraes, collegiaes e mosteiros. Compõe-se regularmente d'um epitaphio, por cima do qual se vê um assumpto religioso, por exemplo, a SS. Trindade, a flagellação, a crucificação ou qualquer scena da Paixão. Muitas vezes tambem se vê Nossa Senhora com o Menino Jesus. O finado está regularmente representado ao lado da scena principal, de joelhos em oração e por vezes acompanhado do santo da sua devoção, o qual fica em pé por detraz d'elle e parece recommendal-o á clemencia Divina; sobre a bandeirola saindo da boca na direcção da scena principal, lêem-se frequentemente as palavras que é natural dirigir a Deus ou aos santos, por exemplo: _Qui potes, oro, rei, Christe, mementa mei_, e _O mater Dei, memento mei_.

A scena religiosa está esculpida em relevo ou gravada a traço. Quando feita em alto relevo, vê-se quasi sempre em um nicho ogival, aberto na grossura da parede, e o epitaphio inscripto na parte inferior do nicho, sobre uma pequena chapa de latão, de marmore ou de pedra.

Nos baixos relevos e nas pedras gravadas a traço, o assumpto e o epitaphio são geralmente collocados sobre uma unica pedra; ora n'uma, ora n'outra occupa a maior parte. A scena é coberta por um docél servindo de remate; algumas vezes, comtudo este docel não apparece.

Não obstante as mutilações lamentaveis que lhe causaram os iconoclastas, estes monumentos merecem chamar a attenção, não sómente dos archeologos, mas tambem dos artistas e sobretudo dos esculptores.

Serviram-se tambem de monumentos similhantes para perpetuar a fundação praticada por generosos bemfeitores. Na parte superior d'uma pedra ou de uma placa de latão, vê-se uma scena religiosa, diante da qual está de joelhos o fundador muitas vezes acompanhado do santo da sua devoção. Uma inscripção commemorativa da fundação substitue o epitaphio, o qual nos monumentos funereos se vê por baixo da scena. Algumas vezes sómente apparece uma simples inscripção gravada sobre uma pedra ou lamina de cobre.

_Lanternas dos defunctos_. Dá-se o nome de _lanternas dos defunctos_ e _pharol de cemiterio_, a columnas ou pyramides ôcas que se collocavam n'outro tempo nos cemiterios. Este pequeno monumento tinha no cimo um pavilhão vasado, no qual se suspendia de noite uma lampada accesa com o fim de lembrar aos caminhantes que orassem pelos defunctos e para lhes indicar a presença da casa de Deus.