Resumo elementar de archeologia christã
Chapter 16
_Altares_. Como já explicámos, o altar verdadeiramente designado é uma mesa de pedra sobre a qual o padre diz a missa. Sem esta mesa o altar não existe; ella e só ella, forma, todo o altar. Esta mesa é de pedra, porque o altar é a imagem e o symbolo de Jesus Christo em pessoa. Portanto, durante os oito primeiros seculos da nossa era, a egreja quiz, pela veneração por este famoso symbolismo, que o altar ficasse inteiramente independente; prohibiu severamente que n'elle se pozesse o mais simples objecto, salvo o livro dos Evangelhos, a custodia eucharistica com as divinas hostias. No correr do IX, o Papa Leão IV permittiu que se collocassem reliquarios contendo reliquias de santos. Quando o altar é formado de um corpo macisso cubico, o que tinha logar muitas vezes durante o periodo Latino e Roman, os seus lados eram cobertos com laminas de ouro, prata e de cobre dourado e esmaltado, ou ornados de esculpturas e de pinturas, ou ainda revestidos de estofos preciosos.
Algumas vezes, principalmente nas grandes egrejas, o altar estava collocado debaixo de um baldaquino sustentado por quatro columnas, entre as quaes se suspendia, sobre varões, pannos cortinas, que se corriam durante certas partes da missa afim de occultar os sacerdotes da vista dos fieis. No final do XI seculo, introduziu-se tambem o uso dos _retabulos_.
Devemos notar, que todos estes accessorios eram ideiados e dispostos de maneira a não obstar por nenhum modo ao symbolismo sublime do altar.
Explicaremos successivamente, o _altar_ com _a sua verdadeira fórma_, os _frontaes_ dos altares, _baldaquino_, os _cortinados_ e os _retabulos_ do periodo ogival.
_O altar assim designado_. Como os do periodo roman, os altares da epoca ogival compunham-se as mais das vezes de um simples macisso de alvenaria, apresentando regularmente uma especie de ornamentação pintada ou esculpida. Estes macissos estavam rodeados de tapeçarias cujas côres mudavam nos diversos dias de festa. Algumas vezes, porém poucas, se decoravam os lados nús d'estes altares com arcaduras fingidas, cujos arcos assentavam sobre columnasinhas ou pilares embebidos na parede; as arcaduras tinham pinturas historiadas e decorativas, ou estatuas e baixos relevos.
Nos altares cheios ou macissos, decorados de arcaduras, estas eram formadas no XIII e no XIV seculos por ogivas equilateraes ou arcos traçados por tres centros; no XV seculo por ogivas inflexas ou postas a pár, e no XVI por arcos abatidos ou de volta inteira.
Na idade media os altares eram sempre de pedra, nunca de madeira. Consagravam-se ao mesmo tempo que a egreja ou a capella: não havia então as _pedras aras_, bentas, que se podiam assentar depois na meza de um altar sem estar benzido, e como presentemente se usa muitas vezes.
O altar mór das egrejas cathedraes, conservou durante quasi todo o periodo ogival, uma fórma simples e positivamente symbolica. Em geral ou era sem retabulo, ou ficava-lhe por cima um retabulo de pouca altura. Tinha um crucifixo, o livro dos Evangelhos, dois castiçaes, e ás vezes um tabernaculo para a conservação da Eucharistia. Outra maneira de reservar o Santissimo Sacramento usada em certos paizes pelo menos desde o XIII seculo, foi aquella cuja recordação se conservou n'um curioso quadro do XIII seculo, representando o altar mór da antiga cathedral d'Arras com todos os seus accessorios. Uma hastea quadrada, collocada por detraz do altar, que se eleva em dois andares, a uma grande altura, tem por remate um pinaculo sobre o qual ha um crucifixo. Em meia altura da hastea ha um bello baculo ficando a sua voluta suspensa no meio de uma corrente, e a custodia eucharistica é formada com o feitio de torrinha.
Nas egrejas, cathedraes e abbadias, havia, como em muitas egrejas romans, um altar para reliquias, ao fundo da capella mór, por detraz do altar proximo do abside oriental da egreja.
Os grandes reliquarios costumavam a ficar expostos detraz do altar, de modo a deixar passar as pessoas por baixo; ás vezes tinham um docel.
_Frontaes_. São cortinados de seda que cobrem tambem os lados verticaes de um altar, e algumas vezes o retabulo; como se usa ainda hoje em muitos paizes. Designam-se vulgarmente com o nome de _antependium_. Na idade media quasi todos os altares tinham frontaes. Esses frontaes eram cobertos com fazenda de custo; algumas vezes apresentavam laminas de ouro, prata e cobre dourado e esmaltado, ou almofadas de madeira cobertas de pinturas.
Os frontaes metallicos, assaz communs durante os periodos Latino e Roman, vieram a ser mais raros a começar do final do XII seculo, e pouco a pouco o seu uso foi completamente abandonado. Durante a epocha ogival, os frontaes com estofo fôram, por assim dizer, os unicos empregados. A sua côr condizia com as vestimentas lithurgicas e mudava, por conseguinte, conforme os dias festivos. Havia de linho, seda e mesmo de veludo; os mais sumptuosos eram todos bordados e ornados de pedras preciosas. Representavam figuras de Santos e assumptos historicos e legendarios.
_Baldaquino_. O uso do baldaquino cobrindo o altar em signal de veneração, foi bastante geral até ao XII seculo; mas ficou quasi abandonado na Belgica e França durante o periodo ogival; na Europa Occidental e Septentrional não se serviram mais do baldaquino n'esta epocha, como summidade dos reliquarios.
Na Italia, em Roma, n'este paiz onde o estylo ogival nunca teve principio, vê-se ainda um grande numero de baldaquinos da epocha ogival. Os mais notaveis são os de S. Paulo fóra dos muros, os de S. João, de Santa Maria no Trastever, Santa Maria em Cosmedin e de Santa Cecilia.
Na França e na Belgica suppriam algumas vezes a falta do baldaquino, suspendendo por cima do altar um docel esculpido ou forrado com estofo de custo.
O baldaquino parece-nos apresentar a maneira mais adequada para inspirar aos fieis o respeito e a veneração devida ao altar, symbolo do Salvador. Muito melhor que todos os outros accessorios, sem exceptuar o retabulo, preenchia este fim resguardando o altar, sem todavia se confundir com elle, e conservando-lhe assim toda a sua significação symbolica. O retabulo, pelo contrario, liga de certo modo o altar fazendo parte d'elle, desvia a attenção das pessoas para o accessorio com grande perda do objecto principal, que é o altar apropriadamente assim chamado.
_Cortinas_. Chamam-se cortinas a armação suspensa nos dois lados do altar, e por detraz do retabulo quando fôr pouco alto. Essas cortinas, da mesma maneira que os frontaes, eram geralmente muito simples; algumas vezes, todavia, representavam figuras, quer no tecido, quer nos bordados, ornamentação, figuras e objectos religiosos.
Ficavam estas cortinas prezas por varões apoiados muitas vezes em quatro ou seis columnasinhas de cobre ou de madeira, encimadas de figuras de anjos, tendo na mão luzes ou differentes instrumentos da paixão. A côr das cortinas mudava conforme os dias de festa e as differentes occasiões do anno lithurgico.
Além das cortinas do altar, serviam-se tambem, durante a idade media, de duas outras especies de armação lithurgica. Eram: 1.^o a grande cortina que se suspendia durante a quaresma na entrada da capella-mór ou do presbyterio, e que se designava _o véo do templo_; 2.^o os véos que serviam na mesma occasião nos crucifixos, retabulos e imagens, eram designados pelo nome _véos de quaresma_.
_Retabulos_. Como já indicámos, o uso dos retabulos foi introduzido no final do XI seculo. No começo collocavam-os sobre os altares das reliquias e os altares de segunda classe; ficavam encostados á tribuna ou postos no cruzeiro e nas capellas ornando a capella-mór. Nas egrejas matrizes, collegiaes e monasticas de primeira ordem, o altar-mór ficava quasi sempre sem ter retabulo, pelo menos durante todo o seculo XIII. Em França, Belgica, Allemanha, Inglaterra e nos outros paizes septentrionaes da Europa, adoptou-se no XIV seculo, depois que a cadeira do bispo ou do abbade e as cadeiras do côro dos conegos ou dos frades, que até então ficavam por detraz do altar-mór ao correr da parede do hemicyclo obsial, foram mudados, para diante do sanctuario sobre os dois lados do côro, isto é, para o logar onde se vê presentemente nas egrejas do Norte.
Durante o periodo ogival serviram-se de diversa qualidade de materiaes para os retabulos. O mais antigo era o metal; como n'aquelles do periodo roman a cantaria (excepcionalmente a madeira), substituiu o metal. Desde a ultima metade do XIII seculo, os retabulos de cantaria parece terem sido preferidos. No meiado do seculo seguinte, os retabulos de madeira com obra de talha foram mais adoptados, e no XV seculo, substituiram quasi completamenle os retabulos de cantaria. Principiaram, todavia, já n'essa epocha, a introduzir as almofadas pintadas, em fórma de _trypticos_, que, no meiado do XVI seculo supplantaram, para assim dizer, totalmente, os retabulos com obra de talha.
As portas que os retabulos haviam tido muitas vezes desde o XIV seculo, tiveram no principio ornamentação de esculptura na face interior, e pinturas na exterior. Porém o peso das portas com ornatos compostos de estatuas ou baixo-relevos tornavam esse appendice muito difficil, e mesmo por vezes como perigoso, quando era preciso abrir ou fechar o retabulo; preferiram pois d'ali a pouco as pinturas para decoração d'essas duas frentes das portas.
Os retabulos não apresentavam a mesma _fórma_ durante todo o periodo ogival. Quasi sempre com pouca altura no começo, tendo tambem pouca grossura. Os mais antigos eram muitas vezes rectangulares: algumas vezes comtudo a sua parte central tinha mais altura. Esta ultima fórma, principiaram-n'a a usar no meiado do XIII seculo; conservou-se em alguns paizes, até o meiado do XV seculo.
O uso dos retabulos de madeira com obra de talha introduziu-se pouco a pouco no XIV seculo, principalmente na Belgica. Desde o principio, tiveram muitas vezes portas. Esta circumstancia lhe fez dar, como aos retabulos pintados tendo portas, o nome de _tryptycos_ ou _polyptycos_, conforme tinham tres ou maior numero d'esses appendices.
Na Belgica, França, Inglaterra no XV seculo, e na Europa central e meridional já durante o seculo precedente, os retabulos perderam a bella e elegante simplicidade que os distinguiam antes. Os seus contornos e subdivisões se complicam cada vez mais, á proporção que se aproximam do final do periodo ogival. Tinham por remate, no XIII seculo e no XIV seculo, linhas horisontaes e sem nenhum adorno no cimo; os caixilhos dos retabulos do XV seculo passam depois por transições com mistura de linhas rectas e curvas para chegar por fim ás ogivas de requebro, arcos unidos de volta abatida e volta de sarapanel com curvas de todo o genero que ornavam muitas vezes no XVI seculo de crochetes e florões; chegando mesmo a rematar o retabulo com torrinhas e pinaculos, estatuas e enlaçamentos do feitio de firmas.
Devemos todavia notar que as formas dos moldurados do XIII e XIV seculo se encontram ainda no XV e mesmo no XVI seculo, principalmente nos triptycos pintados. Os moldurados d'este ultimo seculo apresentam sempre maior simplicidade que os dos retabulos com obra de talha.
_Os assumptos representados sobre os retabulos_, eram tirados da historia do antigo e novo testamento ou das lendas dos santos. No XII seculo e no XIII, ornavam-se os retabulos quer de baixos relevos, quer de estatuasinhas collocadas em arcaduras; um medalhão central de forma quadrilobada ou de aureola se via as mais das vezes no centro do retabulo, tendo a imagem de Jesus Christo na cruz ou assentado sobre o arco-iris. No XV seculo, as arcaduras não apparecem senão poucas vezes; quasi sempre, n'esta epoca, o retabulo esta dividido em muitas series verticaes e horizontaes com as divisões cheias de baixos relevos sobrepostos uns aos outros. A representação da cruxificação com a Virgem Nossa Senhora e S. José, com os dois ladrões e grupos de personagens, occupa bastantes vezes o compartimento central, commummente mais alto e por vezes tambem mais largo que os compartimentos inferiores.
Os retabulos estavam cobertos, em certas occasiões, por frontaes similhantes aos dos altares. Muitos _retabulos pintados_ do periodo ogival se têem conservado até ao presente. Arrancados quasi todos ao logar que occupavam primitivamente detraz dos altares, apparecem agora como paineis nos museus de pinturas ou estão dependurados nas paredes internas das egrejas.
As obras primas dos pintores do XIV, do XV e do principio do XVI seculo, não são como os antigos retabulos em forma de triptyco.
_Os retabulos esculpidos_ foram usados simultaneamente com os retabulos pintados. Os que se fizeram na Belgica durante o XV seculo e os primeiros annos do XVI seculo compunham-se quasi sempre de um certo numero de grupos com mais ou menos alto relevo, em caixilhos ou collocados debaixo de docel delicadamente recortado; os dos outros paizes, pelo contrario, e particularmente os da Europa Oriental, compõem-se de estatuas perfiladas no compartimento central, e muitas vezes tambem sobre as portas. Ainda que entre os retabulos belgas do ultimo seculo do periodo ogival apparecem alguns de execução grosseira e sem nenhum merito, quasi todos, todavia apresentam bastante apreço artistico e testemunham o estado florescente da esculptura n'esse periodo.
Os retabulos de madeira com talha eram muitas vezes dourados e pintados de côres. Convém advertir que as letras que, n'esses retabulos, se veem frequentemente sobre os bordados das vestimentas dos personagens, não apresentam commummente nenhuma significação, tendo sido ahi collocadas unicamente com o fim decorativo.
No final do periodo ogival, o retabulo firma-se quasi sempre sobre um sóco de 20 a 30 centimetros de altura, e por este modo se liga ao altar.
Esta base se designa _predella_, nome que se dá egualmente aos degrausinhos para os castiçaes do throno dos altares modernos. O lado superior, que corresponde á base do retabulo, é muitas vezes mais comprido que o lado interior; n'este caso a differença de tamanho é disfarçada por um arco de circulo saliente.
A _predella_ (banqueta) é muitas vezes ornada do busto do Redemptor e dos doze apostolos.
Das observações precedentes resulta que, não obstante as dimensões por vezes exageradas, o retabulo parte inteiramente accessoria, conservou até aos fins do periodo ogival, o seu caracter essencial. A maior parte dos artistas modernos que se encarregam de compor os altares no estylo ogival não se preoccupam de forma alguma com o primitivo destino do retabulo, a que dão impropriamente o nome de altar. Desconhecendo a verdadeira significação do retabulo, substituem-lhe tablados ridiculos, muitas vezes de _madeira_, com côr de _pedra!!!_ compostos de socos, arcaduras e pinaculos, onde os symbolos religiosos, as imagens, e os baixos relevos são inteiramente supprimidos ou estão mesquinhamente representados. Muitas vezes estes symbolos, estas imagens, e estes assumptos são executados apesar das regras da iconographia christã, regras das quaes os architectos, esculptores e pintores _não teem geralmente o incommodo de adquirir as noções as mais elementares_! É tambem para lastimar, que nas restaurações das antigas egrejas, não encarreguem os retabulos _triptycos_ ao talento dos pintores que se occupam de trabalhos religiosos.
_Sacrarios_. Durante quasi todo o periodo ogival não se reservava, depois da celebração da missa, senão a quantidade de hostias consagradas e necessarias para levar o viatico aos enfermos em perigo de vida, e para expor o Santissimo Sacramento á veneração dos fieis.
Quando as pessoas que assistiam aos officios divinos queriam commungar, approximavam-se da mesa da communhão durante a missa, e recebiam _uma parte das sacramentaes_ que o padre acabava de consagrar. Não se deve, pois, estranhar que os vasos sagrados destinados á veneração da Santa Eucharistia e o logar onde os depositavam tivessem pequenas dimensões durante o XIII e o XIV seculos.
Conservavam a Santa Eucharistia de muitas maneiras:
1.^o Nas egrejas dos paizes meridionaes, onde a pyxide se manteve em uso durante o periodo ogival, continuaram a ficar suspensos, como se fazia precedentemente, o calix e a pyxide com as hostias.
2.^o Em França e na Belgica e nos paizes septentrionaes da Europa serviram-se muitas vezes durante o XIII e o XIV seculos, da maneira indicada na pag. 272. As hostias encerradas em uma pyxide ou dentro de uma pomba dourada e esmaltada, ficavam collocadas n'uma pequena torre ou pequena tenda (_tabernaculum_) em estofos custozos, que se suspendiam, por cima do altar, n'um baculo de bronze ou de prata.
3.^o Algumas vezes conservam-se as hostias em cofres de forma de arca, relicario ou torre. Estes cofres eram transportados e depositados no sacrario, ou sacristia, ora collocados de vez sobre o altar.
4.^o No maior numero de casos, principalmente nas egrejas de segunda e terceira ordem, a Santa Eucharistia ficava em armarios construidos detraz ou ao lado do altar. O uso de collocar as hostias nos tabernaculos em forma de armario, parece ter sido muito geral na Belgica, pelo menos depois do XIV seculo.
5.^o No XIV e XV seculos, construiram tambem, para a reserva Eucharistica, tabernaculos de fórma de torre, inteiramente isolados e ao lado do Evangelho. Os tabernaculos d'este genero vieram a ser communs na Belgica e na Allemanha desde o XV seculo. Encontram-se muitos n'este ultimo paiz que são do XIV seculo.
O maior numero dos tabernaculos com a fórma de torre são de pedra; encontram-se não obstante, mas excepcionalmente, de madeira ou mesmo de metal.
Do lado da Epistola, defronte do tabernaculo, se faz muitas vezes na parede um armario imitando a fórma de tabernaculo, porém mais pequeno e muito menos ornado.
Os armarios feitos na grossura da parede tinham a frente para o altar sendo destinados a guardar as alfayas e vestuario dos ecclesiasticos que deviam celebrar a missa; encontram-se algumas vezes, nas capellas que guarnecem os lados da capella-mór ou da nave.
_Piscinas_. O uso das piscinas ou pias abertas na parede do lado da Epistola, que havia durante o periodo roman, foi conservado tambem na epocha ogival.
No XIII seculo, a maior parte das piscinas eram _geminadas_, isto é compostas de duas pias ou orificios para passarem as aguas por uma bica, quer por baixo do pavimento da egreja, quer por fóra do pavimento do edificio. Uma d'essas pias era destinada a receber as aguas de uso, a outra, as oblações das mãos do sacerdote e mesmo as do calix; porque, ainda n'esta epocha, as oblações do calix eram lançadas nas piscinas, e não bebidas pelo padre. Encontram-se todavia ainda agora piscinas _simples_, isto é tendo um unico orificio para sahir a agua.
As piscinas gemeas fingem geralmente a fórma de um duplo nicho, separado por uma columnasinha. Muitas vezes, nas egrejas ornadas de arcaduras fingidas debaixo do peitoril das janellas, a piscina occupa duas arcaduras proximas, e une-se a ellas; n'este caso, a columnasinha posta entre as duas arcaduras forma a divisão dos dois nichos da piscina.
As piscinas do XIV seculo não differem muito das outras do seculo precedente senão pelo genero da ornamentação architectonica e esculptura, que harmonisa com o estylo da epocha. As mais das vezes são gemeas, posto que o ecclesiastico beba, desde então, a agua de que se serve para fazer a oblação do calix.
No XV, e mesmo já no final do XIV seculo, as piscinas tornaram-se raras e acabaram proximo do fim do periodo ogival, para desapparecerem completamente.
_Cadeiras de côro_. Estas cadeiras collocadas no côro das egrejas eram destinadas ás dignidades ecclesiasticas assistentes aos officios religiosos. Durante o periodo roman estas cadeiras eram geralmente de pedra; porém desde o fim do XV seculo, sempre se fizeram de madeira.
As cadeiras de madeira compõem-se de differentes partes, tendo cada uma um nome para a designar.
As separações de duas cadeiras são formadas por curvas elegantes com ornamentação de obra de talha na sua parte superior, que lhes dão graça e belleza. Os _arrimos_ são apoios horisontaes que limitam as cadeiras na parte superior; geralmente esta parte tem bastante largura com fórma inclinada, podendo as pessoas de pé encostarem-se facilmente.
Alguns auctores dão impropriamente o nome de encosto á _rampa curva_ da divisão da cadeira, sobre o qual se apoia o cotovello, quando se está sentado. A taboa movediça servindo de assento gira sobre gonzos ou eixos, e póde-se abaixar e levantar como se quizer. Tem, por baixo uma misula que se chama _misericordia_ ou _paciencia_, sobre a qual se póde sentar, _fingindo estar a pessoa de pé_, quando a taboa que pertence ao assento está levantada.
No côro das cathedraes, egrejas collegiaes e abbaciaes, estas cadeiras ficam collocadas á direita ou esquerda do fundo do côro em duplo renque e altura: cadeiras altas para os conegos e religiosos, cadeiras mais baixas para os ecclesiasticos de cathegoria inferior ou de congregação. O piso das cadeiras superiores fica alto com dois ou mais degraus acima do chão; em quanto as cadeiras inferiores assentam sobre o solo ou sobre um unico degrau. As pessoas sentadas em cima podem mais facilmente que as debaixo vêr o altar. As costas das cadeiras do primeiro renque ficam muito baixas e servem de genuflexorio aos conegos que estiverem nas cadeiras superiores; as costas d'estas são muitas vezes inteiramente semilhantes das cadeiras baixas, outras teem por cima obra de madeira bastante alta e limitada por um remate em sacada com a fórma de um docel. As pessoas que occupam as cadeiras baixas se ajoelham sobre o chão com o rosto virado para as costas de suas cadeiras. De distancia em distancia a fila das cadeiras baixas fica interrompida pela suppressão de uma cadeira para dar passagem aos que vão assentar-se nas cadeiras mais altas; estas aberturas chamam-se _entradas_. Encontram-se tambem cadeiras com genuflexorios.
As cadeiras do côro do XIII seculo são notaveis tanto pela sua singeleza como pela sua elegancia. Duas columnasinhas, uma na parte inferior e outra na parte superior, ornam quasi sempre os lados de cada divisão d'estas cadeiras. As mais sumptuosas têem além d'isso, esculpturas sobre as _misericordias_ e nos remates, que no quarto de circulo. E reunem ás columnasinhas servindo de apoio aos braços das cadeiras. Estas ornamentações constam de folhagens, fructos e algumas vezes de figuras de animaes reaes ou phantasticos.
As cadeiras do côro do XIV seculo apresentam o mesmo feitio que as do XIII seculo; só com a differença de maior ostentação na obra de talha.
Muitas vezes no XIII seculo, e mesmo ainda no princípio do XIV seculo, estas cadeiras não tinham costas. Quando as apresentavam eram com uma almofada e arcaduras, tendo regularmente um tecto lavrado similhante a um docel, um pouco saliente na face interna e com poucas esculpturas. No XIV seculo, esse tecto lavrado apparece mais apparatoso; cada vez mais saliente, descança sobre reprezas, acabando em forma de curvatura. Nos dias de grandes festas, suspendiam-se em frente, no cimo do encosto, sedas de côres, bordados e pannos de raz.
Na mesma epocha, os lados superiores das cadeiras do côro, mesmo quando não tenham alto encosto, cobrem-se de diversas esculpturas, representando estatuasinhas, animaes reaes ou phantasticos, e uma decoração vegetal muito vistosa.