Resumo elementar de archeologia christã

Chapter 15

Chapter 153,635 wordsPublic domain

Cobriam-se os madeiramentos com chumbo, cobre, ardozia e telhas. Ás grandes cathedraes e aos edificios mais importantes punham chapas de chumbo ou de cobre, por tal maneira, que podiam, sem alterar a sua superficie, dilatar-se ou encolher-se, conforme fosse a temperatura.

_Cumieira e cimeira_. Dá-se o nome de _cumieira_ ao remate do espigão de um edificio. Durante o periodo ogival este remate era de metal (quasi sempre de chumbo), de barro cozido ou de cantaria. As _cimeiras_ são telhas que formam uma cumieira; eram de barro de cozedura.

O maior numero dos grandes monumentos da edade média tinham d'antes por remate cumieiras nos madeiramentos, egualmente recortadas, imitando quasi sempre folhagens. Infelizmente são poucos os edificios do XIII e XIV seculos que conservam esse ornato primitivo. De todas as cumieiras de chumbo anteriores ao XV seculo (e eram as mais em uso n'essa época) não ha já vestigios: a oxydação do metal e muitas outras causas de destruição as teem feito desapparecer.

Nos paizes onde a telha foi empregada para cobrir os edificios, como, por exemplo, na Borgonha, as cumieiras dos madeiramentos compunham-se de uma continuação de cimeiras de barro de cozedura, mais ou menos ornado. Uma capa esmaltada e envernizada ao fogo tinham sempre estas cumieiras para se tornarem menos permeaveis á humidade.

Desde o XI seculo, o emprego das cumieiras de pedra veiu a ser geral no meio dia de França. Encontra-se ainda hoje n'este paiz um grande numero de cumieiras dos periodos roman e ogival, as quaes escaparam á sua destruição. As mais antigas apresentam enlaçamentos e figuras geometricas; as que pertencem ao XIV e XV seculos são compostas de ornamentação com remate de folhagens, como ha na egreja de Belem.

_Torres e campanarios_. Do mesmo modo que no periodo roman os campanarios da época ogival são compostos de dois ou mais andares sobrepostos. A separação dos differentes andares é indicada, no exterior, quer por um resalto saliente, quer por uma pequena diminuição de grossura do andar superior sobre o inferior. Estes andares não teem já, como precedentemente, a mesma altura: são baixos ou altos, conforme as disposições internas dos campanarios. O rez-do-chão das torres é geralmente construido sobre plano quadrado; mas no primeiro ou no segundo andar, e as mais das vezes sómente no principio da flecha o plano vem a ser octogono. Os espaços triangulares, que ficam livres nos angulos do quadrado, pela passagem da fórma de quadrado para octogono, apresentam quasi sempre quatro pinaculos ou clochetões.

As frentes das torres teem aberturas nos differentes andares, janellas estreitas ogivaes, muitas vezes geminadas, sendo raro estarem separadas ou reunidas em tres vãos.

Desde o principio do periodo ogival, os campanarios acabavam por flechas construidas de madeira ou de cantaria, com muita elevação, tendo a fórma de uma pyramide com oito lados eguaes. Já no XIII seculo, as arestas das flechas de pedra e os pinaculos collocados na base do octogono estão por vezes ornados, de distancia em distancia, por crochets vegetaes; no XIV seculo, principia-se a vasar os lados das flechas fazendo-se pequenas aberturas do feitio de flor de trevo, ou quatro folhas e com florão. No XV seculo, essas ornamentações são substituidas por feitios de chammas e por outras figuras geometricas vasadas. No final do XV seculo e no principio do seculo seguinte, construiram-se, em muita parte, os campanarios com flechas rendilhadas.

Muitos campanarios mais importantes, de grandes proporções, ficaram por concluir desde a base da flecha projectada, e ás vezes ainda mais abaixo. Algumas vezes tambem, as flechas da primitiva construcção, depois de terem sido destruidas por uma tempestade ou incendio causado pelo raio, foram substituidas por corpos simples ou remates hybridos, que não teem nada de commum com as lindas pyramides da época ogival.

No XIV e no XV seculos, muitos campanarios teem na base da flecha uma platibanda vasada, composta de arcaduras ou com feitios chammejantes.

A maior parte das egrejas ogivaes de segunda e terceira ordem tinham campanarios de uma extraordinaria simplicidade, cujo effeito é agradavel e mesmo admiravel, se reflectirmos na pouca resistencia dos meios empregados para a execução. Estes campanarios, sem nenhum ornato, compunham-se de dois andares quadrados, dos quaes o superior só tinha as quatro frentes com janellas geminadas ou com tres aberturas, servindo para sair o som do sino. Uma flecha octogona limita a sua extremidade.

Os constructores da edade média comprehendiam que, sobretudo nos edificios de menor importancia, as combinações geraes mais simples eram as unicas mais acertadas para produzirem um aspecto monumental.

Em Flandres maritima tem-se conservado até ao presente um grande numero de campanarios ogivaes de segunda e terceira ordem, dignos de chamar a attenção dos archeologos e dos architectos; encontram-se alguns muito bellos até nas modestas freguezias do campo. Estes campanarios, construidos com tijolos, como todas as outras partes dos edificios d'este paiz, são geralmente terminados por uma flecha octogona tambem de tijolos, muitas vezes tendo quatro pinaculos nos angulos da sua base; as arestas da flecha e dos pinaculos são quasi sempre decoradas de crochets egualmente com tijolos. As platibandas que ligam entre si os pinaculos são cheias, pouco altas e ornadas com arcaduras fingidas. Uma outra particularidade que apresentam alguns campanarios de Flandres maritima, é inclinarem-se um pouco para o lado oeste, que se suppõe ser um facto intencional do architecto para fazer resistir melhor contra os ventos d'este quadrante que sopram com extrema violencia á beira mar.

Muitas egrejas monasticas, e algumas vezes tambem as parochiaes, teem um campanario collocado quer na extremidade da capella mór, quer em um dos dois angulos formados pela intersecção da capella mór e o cruzeiro. Esta disposição é bastante geral nas egrejas ruraes na Baviera e na Austria. As abbadias preferiam esta collocação afim de que os frades incumbidos de darem signal pelos sinos para as ceremonias religiosas não fossem obrigados a afastar-se da egreja.

Os constructores romans construíam muitas vezes um campanario no logar da intersecção da nave e do cruzeiro. Na Inglaterra e na Normandia, estes campanarios centraes conservam-se durante o periodo ogival; por toda parte, fóra d'isso, são raros desde o XIII seculo, e muitas vezes foram substituidos por simples campanariosinhos de madeira. Na Belgica, encontram-se por vezes campanarios centraes de cantaria, porém de resumida dimensão, nos edificios do periodo de transição.

As _escadas dos campanarios_ e tambem as que servem em outras partes dos monumentos para subirem aos madeiramentos, são geralmente de caracol com centro cylindrico ou octogono. Estas caixas das escadas, collocadas no exterior do edificio nos angulos formados pela saliencia dos contrafortes, nunca são dissimuladas, mas visiveis, facilitando as seteiras que estão abertas darem luz á escada.

Durante o periodo ogival, collocavam quasi sempre _cruzes de ferro batido_ no cimo das flechas dos campanarios, na extremidade do espigão do côro por cima da abside, e algumas vezes tambem sobre os espigões do cruzeiro. Estas cruzes distinguem-se geralmente por uma composição de bastante trabalho. As cruzes dos campanarios são quasi sempre encimadas por um gallo servindo de catavento. Primitivamente este adorno encontrava-se sobre as torres das egrejas parochiaes ou dos capitulos apenas. O gallo collocado no cimo da egreja symbolisa a imagem dos prégadores; pois o gallo vela durante a noite escura e assignala as horas pelo seu canto, faz despertar aquelles que dormem, e annuncia a aurora que se approxima; mas antes d'isso, elle se excita a si mesmo a cantar, dando ás azas.

_Pavimentos_. Os pavimentos romans eram compostos com mosaicos. Nos paizes meridionaes esses mosaicos foram formados de marmores differentes. Tanto em França como na Belgica, Allemanha, Inglaterra e Portugal, eram compostos de ladrilhos esmaltados ou de lagedo gravado e com embutido egualmente de côres diversas. Os ladrilhos e os lagedos gravados continuaram a ser empregados nos pavimentos dos edificios ogivaes na Europa Occidental e Septentrional.

Esses pavimentos eram ora de uma grande simplicidade, ora esplendidos. Poucas vezes o chão todo das egrejas estava coberto por bellos mosaicos; em geral, não se adoptou este genero de decoração senão para a capella mór e para as capellas do corpo da egreja, porque nas naves, onde todas as pessoas são admittidas indistinctamente, o roçar do calçado em pouco tempo teria destruido o verniz do ladrilho ou o lagedo com gravuras.

Como já explicámos, o amarello e o verde-escuro são as côres preferidas no final do periodo roman, nos pavimentos de ladrilho do Norte e Oeste da Europa. No XIII seculo, substituiu-se muitas vezes a côr verde-escura, o encarnado e o avermelhado escuro, empregando-se o amarello para os embutidos. As côres carregadas e escuras deixaram de ser usadas nos pavimentos.

Os ladrilhos esmaltados são geralmente de pequenas dimensões, como havia no cruzeiro da egreja monumental do convento de Alcobaça, cujos ladrilhos estão agora _escondidos por baixo de simples lagedo_, na profundidade de _0^{m},34 centimetros_!

Quando os desenhos dos ladrilhos ficam completos sobre um só ladrilho, ou se completam em quatro e mesmo em maior numero de ladrilhos reunidos, formam regularmente figuras geometricas, brazões, florões, animaes existentes ou phantasticos. Circulos, flores de liz, veados, aguias com duas cabeças, é o que mais frequentemente se vê.

No XIII e no XIV seculos, figuras de homens em pé foram algumas vezes representadas pela reunião de um certo numero de ladrilhos pintados. Estas effigies de personagens eram muitas vezes acompanhadas de letreiros, empregados nas campas de cantaria.

Durante o XIV e o XV seculos, os desenhos dos ladrilhos conservam quasi o mesmo caracter precedente, mas são menos vistosos e não teem o vigor das côres e o desenvolvimento que apresentavam os do XIII seculo. No XIV seculo, as ornamentações são muitas vezes substituidas por firmas, letras, inscripções, escudos, e mesmo pequenas vistas. Pelo mesmo tempo apparecem os tons verdes e azues-claros.

Nos edificios de segunda e terceira ordem, e tambem em algumas egrejas abbaciaes, principalmente da Ordem de Cister, fazia-se uso, durante o periodo ogival, de pavimentos compostos de ladrilhos de differentes côres, sem nenhum ornato.

Em alguns sitios fabricavam-se tambem ladrilhos sem ser esmaltados, apresentando figuras em relevo. Estes ladrilhos são muito raros, porque não se podiam fazer senão com barro muito rijo, para que os relevos não ficassem em pouco tempo gastos.

_Lages gravadas e com embutidos_. Desde o XII seculo, empregaram-se algumas vezes, para cobrir o chão das egrejas, lages de pedra e de marmore gravadas e com embutidos. Os desenhos dos ornatos eram indicados em parte pelos espaços conservados da propria lage, ou por um betume colorido que enchia as cavidades deixadas pela gravura. As lages d'este genero não foram muito communs, e um limitado numero escapou da sua destruição! Um dos mais bellos e mais completos é o que ornava a capella mór da cathedral de _Saint-Omer_ (França), e do qual bastantes fragmentos se têem conservado até ao presente. Os fundos dos arabescos são de côr castanho-escuro, assim como a inscripção; os traços do contorno das personagens e do cavallo são a encarnado, assim como está representado em gravura o nobre cavalheiro, no meio d'essa composição, que é do meiado do XIII seculo.

_Labyrinthos_. Na antiguidade pagã designavam-se com o nome de _labyrinthos_, as galerias subterraneas ou os edificios construidos em cima do solo, com ramificações em grande numero e complicadas. Todos sabem da existencia do labyrintho de Creta, onde, conforme a mythologia, o Minotauro foi morto por Theseo. Durante a edade média o nome de labyrintho foi dado a uma disposição particular que se vê no pavimento de algumas egrejas dos periodos Latino, Roman e Ogival. A disposição, divisão e côr das lages, formam, pelas suas combinações, linhas sinuosas com bastantes voltas, todas para um ponto central. Os Romanos e os Gregos representavam já, por vezes, labyrinthos nos pavimentos em mosaico ou sobre as paredes de seus templos e de suas habitações. Os labyrinthos que existem desde os primeiros seculos nas egrejas christãs, por exemplo, na de S. João Vidal de Ravana (Italia), que é do VI seculo, acharam, sem nenhuma duvida, a sua origem nos labyrinthos dos edificios pagãos. A presença da figura de Theseo combatendo o Minotauro, que se vê no centro dos labyrinthos de alguns monumentos christãos, como em Pavia e em Luca, dão uma prova evidente d'esta affirmação. Os christãos introduzindo os labyrinthos nas egrejas, deram-lhes uma significação symbolica. Seria comtudo difficil, por não dizer impossivel, determinar de uma maneira irrefutavel o symbolismo dos labyrinthos nas antigas egrejas christãs.

Na edade média, parece ter-se reputado os labyrinthos como emblema da viagem á terra Santa, ou, segundo outras opiniões, o transito doloroso de Jesus Christo desde a casa de Pilatos até ao Calvario. Indulgencias eram concedidas ás pessoas que os percorressem de joelhos, recitando as orações prescriptas. Os labyrinthos n'esta epoca eram tambem designados com o nome de _dedalo_, _meandro_, _caminhos de Jerusalem_.

A fórma dos labyrinthos não é sempre a mesma, O de _Chartres_ é circular; o de _Saint-Quentin_, octogono; taes eram tambem os de _Arrhas_, _Amiens_ e _Reims_. Na egreja de _Saint-Bertin_ em _Saint-Omer_, tinha a fórma quadrada. Muitas vezes havia, ao centro e aos angulos do labyrintho, pedras com inscripção lembrando algum facto relativo á construcção do edificio. Em _Amiens_, por exemplo, a pedra central representava os architectos da egreja e o bispo _Évrard_, seu fundador, com os nomes dos personagens e a época da construcção, gravados sobre laminas de cobre embebidas na parede.

_Pinturas das paredes_. Já descrevemos os caracteres da pintura mural na época roman. Esses caracteres e o systema do colorido modificam-se de uma maneira evidente seguindo o desenvolvimento da architectura ogival.

Se o leitor tiver presente na memoria o que fizemos notar a respeito do estylo ogival, da sua decoração esculpida e do seu systema de construcção, comprehenderá facilmente que uma modificação notavel motivou tambem o colorido da decoração. Com effeito, nas construcções ogivaes os membros das paredes desapparecem, por assim dizer, e cedem o espaço para aberturas de janellas; os membros da architectura multiplicam-se e apresentam-se com grande evidencia; a vista examina sem custo a sua fórma e os seus fins, desde a base da columna até ao fecho da abobada que reune as nervuras da abobada. Além d'isso, as superficies das paredes, que não foi possivel supprimir, ficavam com esses espaços divididos. Como acontece nas paredes divisorias sobre os peitorís das janellas inferiores, as paredes são todas cheias de series de arcaduras estreitas, muitas vezes cheias parcialmente de esculpturas. Finalmente a multiplicidade dos detalhes e a vista de ornamentações esculpidas, diminuindo a escala dos elementos embellezadores para augmentar o espaço de união, modificaram a seu modo as condições da pintura, dando-lhe caracteres novos.

O augmento extraordinario dos vãos das janellas e o aspecto grandioso que lhes deram nos edificios motivou que nas vidraças pintadas eram quasi todas as preoccupações do constructor do periodo ogival. Era ali, em certo modo, que devia apparecer o effeito da decoração. Os progressos da arte da pintura sobre o vidro corresponderam então ás exigencias que esta arte tinha a satisfazer, e a palheta abundante, vigorosa e variada do pintor vidraceiro impôz á coloração adoptada pelo pintor ornatista uma harmonia e combinações novas. Por outras palavras, a pintura historica e legendaria, não tendo mais do que um espaço limitado e parcimonioso medido sobre a superficie das paredes foi servir-se das vidraças para os seus trabalhos, e por este motivo as figuras mostram, onde apparecem, ainda umas proporções acanhadissimas. A intensidade da coloração das vidraças pede, pela logica dos preceitos da harmonia, maior energia na pintura ornamental das paredes. Todavia, não foi essa a unica consequencia do emprego das vidraças excessivamente coloridas: a luz não entrando já no interior da massa vitrea a qual atravessava como peneirada atravez d'um tecido multicolor, dava á pintura mural um aspecto differente d'aquelle que teria a luz natural do dia; havia pois a attender simultaneamente ao reflexo das côres translucidas com as da pintura mural que se devia harmonisar com a luz colorida e sombria que as vidraças pintadas projectam sobre as paredes e partes architecturaes. D'aqui veiu o emprego, principalmente no XIII seculo, de côres vivas sem ficarem separadas: encarnado, purpura, verde, azul carregado, realçado, ás vezes, por tons claros e ouro com bastante profusão quando os meios o permittiam. D'aqui ainda uma outra grande divisão dos elementos decorativos e desenho dos detalhes.

Não é pois para estranhar que as _pinturas historicas e legendarias_ tivessem tido muita voga durante o periodo roman, vindo a ser bastante raras nos edificios do estylo ogival. As arcaduras decorativas debaixo dos peitorís das janellas inferiores, são muitas vezes as unicas superficies convenientes para terem pinturas com assumptos, e mesmo esse espaço é muito limitado e regularmente dividido em pequenos compartimentos por columnadas ou nervuras, sobre as quaes assentam as archivoltas das arcaduras. As pinturas das arcaduras decorativas representam muitas vezes personagens isolados.

A influencia das tradições byzantinas sobre a arte occidental é manifesta durante todo o tempo do periodo roman. Todavia, se desde o XII seculo se observa no _desenho_ uma tendencia a abandonar os typos byzantinos, não foi senão nos seculos seguintes que o caracter das pinturas mudou completamente no Occidente. Nas figuras das pinturas muraes, como nas outras que ornam as miniaturas dos manuscriptos, se observa uma transformação cada vez mais visivel no que respeita ao estylo do desenho. Este se desprende insensivelmente das formas tradicionaes afim de adquirir maior liberdade. As attitudes veem a ser mais variadas, o gesto mais natural, o caracter das cabeças mais individual, a expressão dos rostos mais viva ou mais serena conforme as situações. Uma tendencia ao naturalismo principia a apparecer desde o começo do XIII seculo, e torna-se mais notavel nos seculos seguintes.

Na _colorisação_ succederam, tanto como no desenho, transformações successivas durante o periodo ogival. Nas pinturas muraes do periodo roman, os tons claros são frequentes, e seu aspecto é geralmente suave.

No XIII seculo, a colorisação teve, na _pintura decorativa_, as mesmas transformações que na pintura historica e legendaria. Nos edificios romans, em que as janellas eram relativamente pequenas e envidraçadas as mais das vezes com vidros brancos ou muito claros, a luz diffusa e pouco dilatada dos fundos podia-se usar para a pintura decorativa, de tons brilhantes e brandos ao mesmo tempo; porém, quando, no XIII seculo, os vãos das janellas se alargaram e tiveram vidraças extremamente coloridas, esses tons suaves ficaram inteiramente sumidos pela intensidade da colorisação das novas vidraças. O azul e o encarnado, entrando com maior emprego na composição das vidraças pintadas, davam um aspecto turvo aos tons claros e terreos ás pinturas: os verdes, por exemplo, ficavam pardos e baços; os brancos, e em geral todos os tons claros, ficavam estriados. Com os vidros coloridos, foi preciso necessariamente mudar a gamma de colorisação das pinturas muraes, fazendo uso de tons brilhantes e fortes. Além d'isso, os tons, para terem toda a sua apparencia, devem ser acompanhados e contornados com traços pretos. É assim que se veem n'esta epocha as nervuras, os fechos das abobadas, e muitas vezes mesmo os tympanos das abobadas pintados com vivas côres. O uso de destacar o vertice das nervuras das abobadas servindo-se de côres vivas e com desenho chaveiroado continuou durante todo o tempo do periodo ogival.

No XIV seculo e durante a primeira metade do XV seculo, as pinturas de decoração por baixo dos peitorís das janellas inferiores, muitas vezes representavam pannos de armações. No XV seculo, viam-se bastantes vezes sobre as paredes das capellas dedicadas a um santo, os attributos caracteristicos d'esse santo, dispostos symetricamente sobre um fundo colorido. Descobriram-se, ha pouco tempo, pinturas d'este genero n'uma egreja de Bruxellas.

Motivos de economia e, nas egrejas dos monges de Cister, prescripções da regra monastica fizeram que por vezes tambem se empregasse um modo de pintura de decoração muito simples, consistindo na imitação das pedras de construcção: traçavam-se sobre fundo mais ou menos claro traços de côres differentes, pardos, encarnados ou amarellos, sobrepostos, representando as juntas dos apparelhos, e algumas vezes com ornamentação.

Da mesma maneira que a pintura historica e legendaria, a pintura de decoração da idade media não se servia da perspectiva; nem conservava nos monumentos as paredes lisas e opacas, não procurando affastal-as, por assim dizer, do espectador pela illusão da perspectiva linear e aerea. São principalmente as pinturas representando as formas architectonicas, por exemplo as arcaduras e columnas, que mostram não ter o artista nenhuma intenção de disfarçar a ornamentação em relevo; o que elle pretende é sómente um effeito de decoração, não pensa por nenhum modo em produzir exactamente as dimensões relativas, o modelo, apparencia real com relevos, molduras, columnas, capiteis; contenta-se de apresentar essas formas para servirem a dar mais attractivo aos monumentos.

Muito poucos monumentos do periodo ogival têem conservado as suas pinturas bastante completas para se poder formar uma idéa cabal do systema empregado e do resultado obtido. A mais notavel de todas pela esplendida decoração, e além d'isso pela sua restauração tão habil quanto perfeita, é a da Capella Santa de Paris.

A estatuaria e a esculptura ornamental seguem o systema geral da decoração pictorica; tanto assim, que muitas estatuas e baixos relevos têem conservado até ao presente bastantes vestigios de dourados e polychromia, concorrendo para se harmonisarem com as vidraças pintadas e as pinturas a fresco das paredes.

A decadencia da pintura monumental, decoração historica e legendaria, data da ultima metade do XV seculo; vindo a ser completa desde o principio do seculo seguinte. As pinturas das abobadas das egrejas não vão além do XVI seculo.

_Cruz de consagração_. O Pontifical romano prescreve que, para a dedicação de uma egreja, doze cruzes serão pintadas ou esculpidas sobre as columnas ou paredes internas do edificio. Estas cruzes, que o Prelado consagrante unge com os Santos oleos, devem ficar apparentes. Desde o periodo roman, estabeleceu-se o uso de ornar essas cruzes, que geralmente eram pintadas. As cruzes de consagração datam do periodo roman e vieram a ser bastante raras; conservam-se muito singulares no oratorio carlovingiano de Nimégue. Encontraram-se em grande numero da epocha ogival debaixo de grossas _camadas de cal_ na parte interna das egrejas antigas, que ficaram escondidas na occasião do renascimento. Todas são executadas com grande esmero e esplendidamente coloridas.

Acontece ás vezes que as doze cruzes de consagração do XIII e XIV seculos são sustentadas pelas figuras dos Apostolos pintados ou em esculptura.

*Altares, tabernaculos, piscinas, cadeiras do côro, bancos para os celebrantes, tribunas e separações da capella-mór*