Resumo elementar de archeologia christã
Chapter 14
As cornijas do estylo ogival têem geralmente pouca importancia. Nos edificios que pertencem ao periodo de transição, e mesmo, na Belgica, em algumas que são dos primeiros annos do periodo ogival, o _larmier_ superior da cornija assenta ainda muitas vezes, de distancia em distancia, do mesmo modo que na época _roman_, sobre cachorros servindo de modilhões, com muita sacada, mas de grande simplicidade.
Em França, as cornijas dos monumentos mais principaes compõem-se, quasi sempre, de duas fiadas de cantaria. A fiada inferior está ornada de crochetes vegetaes no XIII seculo, de folhagens ondeadas no XIV, e de folhas de repôlho encrespadas no XV. Algumas vezes vê-se tambem, entre estas esculpturas, modilhões formados por cabeças humanas ou por carrancas.
As cornijas dos grandes edificios belgas apresentam as mesmas fórmas geraes que as cornijas francezas, porém não têem esculpturas, sendo substituidas por arcaduras simples, ogivaes, ou triboladas. Estas arcaduras apparecem principalmente nos paizes onde, durante o periodo Roman, as arcaduras serviam de decoração, imitando-se o estylo Lombardo, e foram usadas para ornar certas partes dos edificios.
Desde o começo da ultima metade do XIII seculo até o final do XIV, os edificios de segunda ordem, e mesmo os de primeira ordem na Belgica, têem as cornijas compostas de simples perfis, formados por um pequeno numero de molduras pouco importantes.
*Platibandas*
As _platibandas_ que corôam as cornijas no exterior dos edificios principiaram nos primeiros annos do XIII seculo. Antes, a agua da chuva caía dos telhados directamente sobre o solo; até o meiado do XIII seculo sómente os edificios mais importantes tiveram canos de chumbo para dar vasão á agua da chuva e se assentaram platibandas sobre a beira do telhado. Estas platibandas encanavam a agua por gargúlas, que a lançavam para longe da face das paredes, e impediam por esta maneira que as aguas da chuva podessem prejudicar a base da construcção, introduzindo-se-lhe a humidade. As platibandas, cujo destino principal era evitar o perigo que apresentava passar sobre as gargúlas, facilitam além d'isso os concertos do telhado, e resguardam das telhas da beira quando cáem; permittindo aos architectos darem melhores decorações ao exterior dos monumentos.
As mais antigas platibandas têem a fórma de arcaduras rendilhadas, compostas de columnatas, sobre as quaes vem assentar um remate vasado, na sua parte inferior, em arco ogival, _trilobado_. No final do XIII seculo substituiram-se as arcaduras pelas folhas de trêvo e de quatro folhas vasadas.
A altura e o feitio das platibandas variam conforme os materiaes empregados. No XIV seculo as platibandas, as mais das vezes, tinham folhas de trêvo e de quatro folhas, vasadas e divididas de distancia em distancia, na prumada dos contra-fortes, por pinaculos. No XV seculo, as prumadas são compostas, umas vezes pela reunião de rhombos, de triangulos equilateraes curvilineos, ou por figuras geometricas angulares; outras vezes por desenhos flammejantes, parecidos com os que caracterisam os tympanos das janellas d'esta época. No final do XIV seculo apparecem, principalmente nos edificios civis, as platibandas com ameias, nas quaes se vêem os mesmos feitios que nas platibandas vulgares. O seu uso persistiu até ao final do periodo ogival.
As platibandas com arcaduras verticaes apparecem ainda aqui ou acolá nos edificios do XIV, XV e mesmo do XVI seculo.
_Abobadas_. As abobadas ogivaes distinguem-se ao mesmo tempo pela sua elegancia e leveza. Isto foi resultado da pouca grossura dos triangulos do enchimento que vedava a parte composta de arcos-duplos e de nervuras. Comtudo a leveza não excluia a solidez; pelo contrario, as abobadas ogivaes são mais solidas e mais resistentes que as dos periodos anteriores, posto que sejam muito menos massiças.
_Estabilidade e plano das abobadas_. Já explicámos que a estabilidade das abobadas não depende do mesmo principio dos edificios antigos e do periodo ogival; e fizemos notar, em poucas palavras, os progressos tão importantes realisados pelos architectos do XII e XIII seculos nas construcções das abobadas.
Fizemos tambem conhecer que as abobadas com o feitio das nervuras, como são construidas as abobadas ogivaes, causam um esforço lateral que tende a desviar para fóra dos seus pontos de apoio as columnas, contra-fortes ou paredes. Os constructores do periodo ogival evitavam esse esforço lateral, oppondo-lhe quer um esforço em sentido inverso, quer um obstaculo rigido que, impedindo de operar, resolveu-o empregando cargas verticaes. É caso particularmente para notar, porque constitue egualmente uma differença essencial do systema de construcção dos antigos, esses obstaculos apresentam as dimensões unicamente necessarias para preencher o fim ao qual são destinados.
Esta neutralisação dos esforços lateraes não se obtem da mesma maneira nos edificios religiosos, cuja nave principal é notavelmente mais alta do que as naves lateraes, e n'aquelles em que todas as naves teem egual altura.
_Egrejas que teem a sua nave central muito mais elevada do que as outras lateraes_. Foi o systema adoptado, desde o final do XII seculo, pelos constructores da Europa occidental, afim de conservar o equilibrio das differentes partes de que se compunham os seus monumentos; porque o arco-duplo da abobada principal á parede mestra, o arco butante, o contraforte e a columna que separavam a nave principal da nave lateral do seu arco-duplo, formavam um triplo esforço motivado pelo arco-duplo da abobada principal e os seus dois arcos ogivaes, que faziam pender para fóra a parede mestra do edificio. A este esforço, o constructor da edade média oppunha o arco butante, que vinha apoiar-se sobre a parede mestra, ficando collocado ao mesmo nivel. Por esta maneira o esforço triplo causado n'esse ponto era transferido sobre o contraforte, onde se quebrantava por causa da sua rigidez; e devido a essa rigidez, o seu peso juntando-se ao da parede mestra do edificio, que comprime sobre a columna que sepára as duas naves; por ambas as forças reunidas, tornava-se esta bastante fixa para aguentar e neutralisar o triplo esforço exercido pelo arco-duplo da nave lateral e pelas nervuras proximas da mesma nave. O esforço do arco-duplo d'esta nave e das duas nervuras ficam supprimidas pelo encontro do contraforte.
_Egrejas em que as naves ficam na mesma altura_. N'estas egrejas os esforços lateraes que a abobada da nave principal opéra sobre os seus pontos de apoio ficam diminuidos pela pressão das abobadas exteriores d'estas mesmas naves lateraes, ficando supprimidos pelos contrafortes, geralmente bastante salientes, os quaes lhes oppõem um obstaculo rigido, que produz o equilibrio das abobadas.
_Abobadas de feitio de tecido_. As abobadas sobre plano _quadrado longo_, formadas por arcos ogivaes que se entroncam uma só vez, foram geralmente abandonadas proximo do meiado do XV seculo. Apparecem então as abobadas em _tecido_, designadas tambem pelos archeologos, abobadas _com divisões prismaticas_. N'estas abobadas as nervuras bifurcam-se, ramificam-se e encruzam-se em todos os sentidos, de maneira a figurar um verdadeiro tecido, como está representado na surprehendente abobada do cruzeiro da egreja monumental dos Jeronymos em Belem. Todos os pontos de intersecção das nervuras estão regularmente ornados de esculpturas.
_Perfis das nervuras nas abobadas ogivaes_. As nervuras ou arcos ogivaes das abobadas construidas no final do periodo Roman consistem muitas vezes em um grosso tóro, algumas vezes tendo dois ou quatro tóros de menos vulto. Os arcos-duplos da mesma época, muito mais massiços que as nervuras, apresentam secções quadradas ou rectangulares, e teem os angulos das partes concavas da abobada talhadas em tóro. Desde o principio do XIII seculo, os arcos-duplos tiveram, com raras excepções, os mesmos perfis que os arcos ogivaes.
Durante os primeiros annos do periodo ogival, vê-se ainda arcos-duplos e arcos ogivaes muito grossos, semelhantes aos dos edificios romans. Todavia não tardou a adelgaçarem, a diminuirem de grossura. Pouco depois, a parte redonda do tóro principal apresenta uma aresta viva. Esta fórma teve logar em França desde o final do XII seculo, e na Belgica sómente no meiado do seculo seguinte. Mais tarde, em França ao principio, e na Belgica proximo do meiado do XIII seculo, a aresta viva é substituida por um filete, que ficou adoptado até ao final do periodo ogival. Nos edificios francezes apparece tambem o filete sobre os tóros secundarios desde o meiado do XIV seculo. No final do XV e no começo do XVI seculo, as nervuras apresentam muitas vezes o perfil composto de molduras concavas e redondas.
Comparando-se os perfis mais antigos com os mais recentes, nota-se que os primeiros apresentam uma superficie mais larga e menos alta que as dos ultimos. Esta mudança na fórma dos perfis não se fez sem motivo: os constructores tinham aprendido por experiencia que a resistencia de um arco ou de uma nervura está em razão directa da altura da peça de voltas e não em razão da sua largura.
_Fecho da abobada_. No XII seculo, tinham principiado a ornar com esculpturas os fechos da abobada. Estes primeiros fechos esculpidos representavam Jesus Christo deitando a benção, o Cordeiro Divino, Nossa Senhora, os anjos, os animaes symbolicos dos evangelistas, santos, e muitas vezes tambem carrancas ou animaes phantasticos. Nas abobadas dos edificios de segunda ordem contentavam-se algumas vezes de indicar um simples florão ou entrelaços.
No XIII seculo o emprego dos fechos de abobadas com esculpturas veiu a ser geral, sendo representado nas abobadas do côro, Jesus Christo, o Cordeiro Divino, os symbolos dos evangelistas e outros objectos religiosos. Na nave principal e nas lateraes a ornamentação distingue-se por ser vegetal. Os fechos de abobada no XIV seculo, e tambem na primeira metade do XV seculo, apresentam bastantes vezes a mesma decoração que a do XIII seculo; todavia na sua esculptura vegetal ha os caracteres proprios da ornamentação de cada um d'estes seculos. No XV seculo, os brazões dos bemfeitores da egreja são esculpidos frequentemente sobre os fechos da abobada.
No final do XV seculo, apparecem os fechos da abobada ornados de um appendice que recebeu o nome de _pendente_, que ficou em uso durante uma parte do XVI seculo, imitando stalactites que estão suspensas ás superficies superiores das grutas. Algumas vezes tem o feitio de um florão ou um ornamento extravagante; outras representa uma estatua pegada á abobada.
Muitas vezes os fechos da abobada são furados por um buraco circular, para se poder içar os sinos e outros objectos acima das abobadas: como havia dois oculos na abobada da egreja de Belem, indicando não sómente essa applicação, mas que o edificio _deveria ter duas torres_: todavia, construiram modernamente um torreão colossal, que esmaga aquelle monumento, e não respeitaram o que fôra projectado na sua primitiva edificação!
_Arcos butantes_. Chama-se _arcos butantes_ aos arcos destinados a transportar até aos contrafortes exteriores o esforço lateral das abobadas mais elevadas de um edificio. Nascem dos contrafortes e apoiam-se sobre as paredes da nave principal nos differentes pontos onde vão confinar os resultantes dos _encostes_ dos arcos ogivaes e dos arcos-duplos.
Já explicámos os dois systemas empregados durante o periodo roman para contramurar o esforço lateral produzido pelas abobadas superiores sobre as paredes altas das egrejas em que a abobada principal é muito mais alta que as outras das naves inferiores, e notámos os inconvenientes que resultavam de uma e de outra applicação. Estes dois systemas foram em pouco tempo abandonados, primeiramente porque a nave principal ficava sem claridade, sobretudo nos edificios de maior largura, e em segundo logar porque, n'um como no outro systema, as abobadas das naves lateraes precisavam de ser muito altas para attingir o ponto onde se effectuava o encontro combinado das nervuras das abobadas altas. Raciocinadores dispostos a sujeitar tudo aos principios dos architectos do XII seculo e do XIII seculo, conheceram que os semicirculos das abobadas em berço contiguo, do qual alguns dos seus antecessores se tinham servido com o fim de neutralisar o esforço lateral das abobadas altas, não era necessario na sua fórma completa, e que se obtinha o mesmo resultado applicando sobre a parede exterior do edificio no ponto onde viesse dar a resultante dos encostes, um arco partindo de um contraforte exterior: foi esta combinação que deu origem aos arcos-butantes.
Para que satisfaça á sua applicação deve o arco-butante: 1.^o, ter as juntas das peças de sua construcção _normaes_ ou perpendiculares á curva por elle descripta; 2.^o, ficar o seu vertice sobre a parede exterior no ponto onde passe a resultante do esforço da abobada. Esse ponto acha-se entre o nascimento das nervuras ou arcos ogivaes e perto da metade da altura da abobada. Em theoria esse ponto é um ponto geometrico; todavia na prática é preciso que a summidade ou cabeça do arco-butante seja larga; primeiro porque é impossivel, na execução, determinar de uma maneira exacta a direcção da resultante dos differentes esforços das abobadas; depois porque a direcção d'esta linha póde facilmente desviar-se em resultado de ter dado de si nos pontos de apoio verticaes, effeito que acontece frequentemente nas grandes construcções medievaes cujos pontos de apoio são delgados e supportam uma pesada carga.
Os arcos-butantes são geralmente reforçados, no seu _extradoz_, por um encosto em linha recta, construido em cantaria. O espigão d'este encosto é muitas vezes ornatado de _crochets_.
Desde o final do XII seculo e no principio do XIII seculo, os arcos-butantes vieram a ser de uso geral em todos os grandes monumentos religiosos, cuja nave principal era mais alta que as naves lateraes. Os mais antigos são geralmente formados por um quarto de circulo. Depois a curvatura veiu a ser menos curva, approximando-se da linha recta.
Empregaram tambem desde os primeiros annos do XIII seculo, arcos-butantes _duplos_, isto é, dois arcos-butantes collocados um por cima do outro.
Os arcos-butantes foram empregados durante todo periodo ogival; todavia eram menos usados durante a ultima metade do XV seculo. Em muitos monumentos d'esta época, mesmo os mais principaes, julgavam-se sufficientes os contrafortes muito massiços e salientes para diminuir o esforço das abobadas.
Quando no principio do XIII seculo collocaram por baixo do madeiramento um canal para receber as aguas da chuva, dirigiam as aguas do telhado principal para os contrafortes exteriores por um canal de cantaria posto sobre o capello do arco-butante. As aguas passavam atravez no cimo dos contrafortes, e eram depois lançadas fóra por gargulas, caindo afastadas da base do monumento. As infiltrações causadas pela passagem das aguas sobre o capello dos arcos-butantes, e atravez dos contrafortes, produziram damnos tão consideraveis nas construcções que ficou em pouco tempo abandonado este systema de dar escoante ás aguas da chuva.
_Contrafortes_. Durante os primeiros annos do periodo ogival, os contrafortes dos edificios de abobadas foram demasiadamente engrossados e tiveram bases bastante salientes; á proporção que se elevavam assim, iam diminuindo consideravelmente por grandes resaltos successivos sobre cada uma das faces.
No meiado do XIII seculo, os contrafortes ficam mais regulares, erguem-se quasi verticalmente da base á extremidade superior, e não apresentam já por cima do envasamento um ou dois resaltos bastante pequenos e sómente sobre a face principal.
Estes contrafortes terminavam por uma face chanfrada que ia ter até á cornija, e muitas vezes era de fórma abahulada, quando ficavam isolados ou excediam a base do madeiramento. Nos monumentos principaes limitavam-se algumas vezes a pôr pinaculos, e ornavam as suas faces lisas de arcaduras e estatuas postas sobre misula, tendo docel.
No XIV seculo a fórma dos contrafortes ficou quasi a mesma que durante a ultima metade do seculo precedente. Tinham a sua extremidade, como d'antes, quer em pinaculos e fórma abahulada, quer ficando os pinaculos assentes sobre base quadrada ou octogona, terminando por agulhas pyramidaes, cujas arestas estão ornadas de cróchets.
Os contrafortes do XV seculo semelham-se ainda muitas vezes aos dos dois seculos precedentes. Como estes, apresentam, de distancia em distancia, diminuição de grossura pouco apparente sobre a sua face anterior, e são ornados de arcaduras, nichos e doceis, ornamentação no gosto da época. Todavia, desde o fim do XIV seculo, principiaram a modificar algumas vezes a sua disposição; regularmente deixaram subsistir a base quadrada ou rectangular, tendo a face anterior parallela e as duas faces lateraes perpendiculares com o liso da parede; porém, a certa distancia acima do solo (ao primeiro ou segundo resalto), a face anterior, parallela á parede, passa a ser angular; mesmo ás vezes se vêem contrafortes cuja face anterior fica angular á parede desde a base do edificio. Estes contrafortes, com lados chanfrados, acabam como todos os outros, por um plano inclinado, platafórma ou espigão de feitio abahulado, ou por um pinaculo bastante ornado.
No XIII e no XIV seculo, os contrafortes collocados no ponto de intersecção de paredes que se encontram em angulo recto, são sempre em numero de dois. No XV seculo, julgavam ás vezes ser sufficiente um unico contraforte collocado de maneira a fazer face ao angulo; sendo estes contrafortes angulares muito communs nos edificios d'esta época.
Por causa do excessivo esforço lateral que produzem sobre os seus pontos de apoio, as abobadas ogivaes necessitavam o emprego de contrafortes com base de bastante largura. Nos monumentos dos primeiros annos do periodo ogival, esses contrafortes, que teem tres de suas faces inteiramente livres, apresentam saliencias grandes sobre as paredes exteriores dos edificios. Estas sacadas desagradaram em pouco tempo aos constructores, que cogitaram em as diminuir ou fazel-as desapparecer inteiramente disfarçando os contrafortes. Para esse fim recuáram até á parede mestra a divisoria que havia antes na nave lateral, aproveitando na parte interna do monumento o espaço de um rectangulo que communicava com a extremidade da nave lateral e servia ás vezes de capella.
Nos edificios do periodo ogival, cobertos por simples fôrro do tecto, de madeira, os contrafortes tinham pequena sacada sobre o liso das paredes.
_Gargulas_. Dá-se o nome de _gargulas_ aos canaes salientes pelos quaes as aguas da chuva sáem dos telhados e são lançadas longe da base das paredes dos edificios. Teem quasi sempre a configuração de animaes monstruosos e phantasticos, e raramente a figura humana. Admira-se, n'estas esculpturas, uma variedade prodigiosa, e seria difficil de achar duas do mesmo feitio, todavia a maior parte dos edificios ogivaes apresentam um grande numero. N'este genero ha duas no nosso paiz bastante exquisitas, uma no angulo da cimalha da egreja de Caminha, na capella mór, voltada para o norte da fronteira do paiz, estando a figura humana revirada, isto é, em posição dobrada, com a cabeça para o lado do telhado e a parte trazeira do corpo para fóra do edificio, e é pelo anus que sáem as aguas da chuva: no castello de Pombal ha outra com a figura de mulher na mesma attitude, saindo a agua da chuva pelo que distingue o seu sexo. Eram de proporções curtas e solidas no principio da sua applicação; vieram a ser mais compridas e com melhores fórmas desde o final do XIII seculo.
_Nichos e doceis_. Dá-se o nome de _nicho_ a qualquer espaço aberto, mais ou menos profundo, feito na grossura de uma parede, pilar ou contraforte, para n'elle se collocar uma estatua, um grupo, um vaso, ou qualquer objecto de decoração. Os nichos apparecem poucas vezes nos monumentos do XIII e XIV seculos; n'essa época as estatuas, com as quaes ornavam ás vezes certas partes dos monumentos, eram postas sobre misulas salientes, tendo doceis egualmente salientes sobre a face das paredes.
No XV seculo, o uso dos nichos vem a ser mais geral; vêem-se bastantes vezes no exterior dos monumentos, sobre as fachadas, nos contrafortes e nos tympanos dos portaes.
Os doceis, isto é, os remates salientes, mais ou menos ornamentados de esculpturas, ficando collocados por cima da cabeça das estatuas, são muito geraes desde o final do periodo roman. No XII e no XIII seculos, esses doceis primitivos representam quasi sempre edificios, fortalezas, e mesmo algumas vezes cidades inteiras cercadas de muralhas. Não havia ainda n'esta época, por cima, pinaculos ou pyramides delgadas, posto que em certas partes do centro da França, as tiveram desde o meiado do XIII seculo, sendo terminadas por _clochetons_. As fórmas architectonicas dos edificios representadas pelos doceis são muitas vezes anteriores á época em que foram esculpidos; é por isso que no XIII seculo apparecem n'elles zimborios, arcos de volta inteira, etc., que todavia não se vêem já nos monumentos contemporaneos.
No XIV seculo, os doceis mudam totalmente de aspecto, cobrem-se de arcaduras com ornamentação e com outros detalhes imitados da architectura; teem geralmente por cima vistosos pinaculos, muitas vezes vasados.
No XV seculo, apresentam quasi as mesmas fórmas que no seculo precedente, porém exaggeradas; sendo os doceis contornados demasiadamente, e a sua ornamentação feita com muita delicadeza.
_Madeiramentos_. Distinguem-se, nos edificios do periodo ogival, duas especies principaes de madeiramentos: os que não ficavam apparentes, porque não revestiam as construcções abobadadas, e os apparentes que se empregavam nos edificios que não tivessem abobadas, sendo estes que interessam sobretudo os archeologos.
Quando os madeiramentos ficam apparentes, isto é, visiveis no interior do edificio, apresentam sempre o aspecto de uma abobada de fórma de berço. Este berço é algumas vezes semi-cylindrico, semelhante aos que se encontram em algumas egrejas romans; as mais das vezes, todavia, são traçados por tres centros. _Ripas_ de carvalho, ou de qualquer outra especie de madeira, tendo as juntas sobrepostas, são pregadas sobre as _cambotas_, circulares ou ogivaes, formadas pelas asnas e _varedo_. Tendo pinturas por decoração, e algumas vezes as extremidades das peças de madeira ficam visiveis, tendo esculpturas, que representam anjos com escudos ou phylacterias, cabeças de gente, figuras de cocoras com carranca, ou animaes phantasticos. Muitas vezes as nervuras ou as _franquias_ ficam parallelas ás nervuras das _asnas_, porém sendo mais estreitas, estão pregadas sobre o varedo e sustentam no seu logar as ripas. Estas nervuras são cobertas com vivas côres ou com elegantes entrelaçados.
Algumas vezes tambem são assentes sobre as ripas, as nervuras que se encruzam do mesmo modo que os arcos diagonaes ou as ogivas das abobadas de cantaria.
As abobadas cobertas de gesso, taes como as constroem os architectos modernos na maior parte das novas egrejas ruraes, eram inteiramente desconhecidas durante o periodo ogival. Quando a verba de que dispunham não lhes permittia o estabelecer abobada de alvenaria, serviam-se do madeiramento apparente, que se ornava tão artisticamente quanto fosse possivel. Nunca se empregavam pueris dissimulações, fingimentos architecturaes, onde as _ripas_ appareciam a imitar a cantaria com a capa desprezivel de gesso ou de argamassa! Não se esquecia n'esta época, que a verdade é a condição essencial da existencia da arte; esta deve engrandecer o espirito, encantar a vista, e não enganal-a.
_Telhados_. No meiado do XII seculo, os telhados teem grandes inclinações nos edificios da Europa Central e Septentrional; emquanto nos paizes meridionaes conservam pequena correnteza, como se praticava nos telhados da antiguidade e no periodo roman.