Resumo elementar de archeologia christã
Chapter 11
_Fachadas_.--As faces exteriores dos monumentos da edade media são a expressão exacta das disposições interiores.
Em consequencia d'este principio, as fachadas occidentaes das egrejas reproduzem no conjuncto o córte transversal das naves. Além d'isso, como a fórma d'este córte é pouco mais ou menos a mesma em quasi todas as egrejas ogivaes, resulta d'isso, que o aspecto geral de muitas fachadas é d'uma grande semelhança. Apezar d'esta semelhança no conjuncto geral e dos contornos exteriores, a disposição e a ornamentação das fachadas são extremamente variadas. As mais bellas fachadas ogivaes são sem duvida as das grandes cathedraes francezas. Compõem-se em geral de muitas zonas horisontaes e parallelas; o pavimento terreo tem tres portaes, que dão ingresso para as tres naves; o central, que é a porta principal, é mais largo e ornado mais ricamente que os outros dois.
As fachadas das grandes egrejas inglezas e allemãs (excepto a de Colonia), não têem ornamentações tão vistosas como as cathedraes francezas. A disposição é menos regular e a ornamentação destituida ás vezes de bom gosto. Grande numero das egrejas allemãs têem só na fachada Occidental duas torres em cada lado.
Na Belgica poucas egrejas têem tres portaes; geralmente na fachada principal ha apenas um. As rosaceas, que são tão vulgares nas fachadas francezas, raramente se vêem nas egrejas da Belgica.
As fachadas das egrejas ruraes são sempre de uma grande simplicidade. Em geral tem um campanario, e apenas uma porta ao centro da fachada e uma ou tres janellas no frontispicio.
_Alpendres_. Quasi todas as grandes egrejas ogivaes apresentam um ou muitos alpendres, collocados adiante da fachada Occidental, ou das entradas lateraes. Em muitas egrejas romans foi addicionado o alpendre na epocha ogival.
Os alpendres contiguos á fachada principal das egrejas ogivaes ou os construidos debaixo do campanario, que limita esta fachada, quasi se não encontram em França desde o seculo XIII. Ainda são mais raros na Belgica, Allemanha e Inglaterra.
Durante o periodo ogival, muitos alpendres se construiram adiante das entradas lateraes. Os mais bellos monumentos d'este genero são os alpendres ao Norte e ao Sul da Cathedral de Chartres, que datam dos primeiros annos do seculo XIII. Na Belgica tambem ha alguns alpendres lateraes notaveis, compostos d'um ou dois vãos na frente e vedados por tres lados, estando ornados no interior com estatuas collocadas sobre misulas e coroadas de doceis. Tambem se construiam, mas raramente, alpendres abertos em tres lados ou vedados por frestas nos dois lados.
_Portaes_. Na França e mesmo em Colonia as cathedraes e as grandes egrejas ogivaes não têem geralmente alpendres adiante da fachada principal, mas os portaes formam de per si verdadeiros alpendres, que são cuidadosamente adornados.
Os portaes principaes das grandes egrejas francezas do seculo XIII distinguem-se pela riqueza extraordinaria das esculpturas de todos os generos com que são adornados. Apresentam grandes vãos que se abrem do interior para o exterior e divididos em duas partes eguaes por uma parede.
Na fachada de _Notre-Dâme_ de Paris vê-se, em frente d'essa parede e sob um docel, uma grande estatua representando o Salvador deitando a benção, a Santissima Virgem com o seu amado Filho, e tambem ás vezes o orago da Egreja. A base d'essa parede e os rodapés dos vãos são ornados com baixo-relevos.
Os tympanos são regularmente divididos em tres partes horisontaes, onde se figuram em relevo assumptos religiosos, estatuas de grandes dimensões, que em numero consideravel guarnecem as paredes verticaes dos portaes, emquanto que as curvas das abobadas recebem muitas ordens parallelas de estatuetas collocadas debaixo de doceis.
Todas estas esculpturas representam Santos e factos tirados da historia do Velho e Novo Testamento, da lenda e de certos dogmas da Fé.
Os arcos dos portaes, das janellas e das empenas são, algumas vezes, ornados tambem interiormente, d'um appendice chamado _redente_; este ornato tambem ás vezes se encontra no intradorso das grandes arcadas, ligando as columnas que separam as naves das paredes lateraes das egrejas.
Os _redentes_ são recortes em fórma de dente ou de bicos, que guarnecem o intradorso d'um arco. Tambem se applicou este mesmo nome a uns ornatos analogos, que se collocam sobre as prumadas das empenas.
Nos edificios do seculo XIV, os portaes são ainda bem delineados, todavia já não têem a grandeza que caracterisa os do seculo XIII. Os perfis das molduras são agudos e muito multiplicados; a estatuaria, abandonando a nobre simplicidade, preoccupou-se em cogitar formas affectadas, e por isso mesmo a arte declina. Apesar d'estes defeitos, os grandes portaes das egrejas do seculo XIV têem ainda verdadeiro merito quanto á composição e outras qualidades que debalde se procuram nos monumentos dos seculos posteriores.
Os grandes portaes dos seculos XIV e XV têem as mesmas disposições geraes que os do seculo precedente, com a simples differença de que as columnas cylindricas que formavam os vãos dos portaes e que sustentam as archivoltas são substituidas por molduras prismaticas, ordinariamente sem capitel, e que prolongando-se constituem por si só as archivoltas. Estes portaes occupam espaço profundo, porque são regularmente construidos entre dois contrafortes salientes da fachada.
O pilar que separa o portal, e o tympano dos grandes portaes do XIV e XV seculos, tem sempre estatuas de Santos debaixo dos doceis e apoiando-se sobre misulas primorosamente esculpidas. Desapparecem as estatuas em muitos monumentos.
Ordinariamente os vãos ogivaes dos portaes e muitas vezes os da entrada dos alpendres, são emmoldurados por um contorno em forma de empena.
Nos seculos XIII e XIV, este feitio representa a extremidade d'um telhado de duas vertentes com a inclinação d'um angulo que varia entre 45 e 90 gráos. No XV seculo, os vãos de todos os portaes grandes e pequenos, e algumas vezes tambem os das janellas, são formados por ogivas ou por contracurva.
No seculo XII, as inclinações das empenas são quasi sempre ornadas de _colchetes_ enroscados; desde o principio do seculo XIII, os enroscamentos ou extremidades d'estes _colchetes_ desdobram-se e transformam-se em florões. Os _colchetes_ são substituidos, no seculo XIV, por folhas de extraordinaria grandeza, que muitas vezes se designam ainda pelo nome de colchetes, redentes ou animaes phantasticos; nos seculos XV e XVI apparecem as folhas de repolho.
Estes ornamentos pouco numerosos e muito espaçados no XIII seculo, multiplicam-se e approximam-se á medida que a arte ogival vae em decadencia. O vertice das empenas ou das ogivas inflexas que substituem as empenas do XV seculo, termina ora por um florão, ora por uma estatua assente sobre uma quartella, em fórma de sóco.
Os portaes de segunda e terceira ordem offerecem mais simplicidade do que os outros que acabamos de descrever. Não têem pilar de separação e por causa dos seus vãos geralmente pouco profundos, têem molduras menores que os portaes de primeira ordem.
No XIII e XIV seculos, as empenas compõem-se de duas, tres ou quatro columnatas na rectaguarda umas das outras, e ligam-se com os extremos dos arcos superiores. Desde o final do XIV seculo, foram as columnatas substituidas por molduras prismaticas, quasi sempre sem divisão de capitel.
Até meiado do seculo XV, ajuntava-se, muitas vezes, á archivolta dos portaes e tambem ás curvas das janellas, um rebordo exterior em fórma de goteira cujas extremidades assentam á altura da nascença da ogiva, sobre modilhões esculpidos, representando figuras, animaes phantasticos ou carrancas; este rebordo tambem ás vezes é ornado de _colchetes_ com folhas de grande lavor ou figuras grotescas.
_Lemes das portas_. Os constructores romans tinham, como já explicámos, convertido em objecto de ornamentação os lemes e as ferragens que empregavam para reunir os frisos que compõem os batentes. As archivoltas do periodo ogival ultrapassaram os seus precedentes n'este genero de decoração.
No seculo XIII e ainda mesmo no XIV, os lemes representam folhagens entrelaçadas, armadas de flores e fructos. As suas differentes partes são reunidas com uma arte e delicadeza notaveis, apesar de n'esta epoca os meios de fabrico serem muito simples. Um martello movido por uma corrente de agua constituía, por assim dizer, o unico recurso das fabricas da edade media. O ferro obtido em fragmentos de um peso mediocre, era entregue ao ferreiro, que á força de braço convertia estes fragmentos em barras ou peças mais ou menos delgadas. Não eram conhecidas, nem a lima, nem as cisalhas. Apezar da pobreza de meios de fabricação, os ferreiros da edade media produziram obras primas de serralheria. Podemos affirmar que em muitos paizes a arte de serralheria attingiu o seu apogeu no seculo XIII. Os lemes do principio do periodo ogival distinguem-se dos das epocas posteriores em que, ordinariamente, são _estampados_, isto é, trabalhados em relevo por meio de matriz. Foi pela estampagem que se obtiveram ramagens cheias de vigor e estes soberbos cachos que caracterisam os lemes dos portaes de todas as grandes egrejas do XIII seculo.
Os lemes estampados começaram a desapparecer na França no principio do seculo XIV, ao passo que na Belgica foram muito empregados ainda n'este seculo e até mesmo no seculo XV.
Nos fins do seculo XIII começaram a apparecer na França os lemes lisos, isto é, formados por uma peça de ferro batido, poucas vezes executados em relevo. Este uso generalisou-se desde os primeiros annos do seculo XIV; nos outros paizes e especialmente na Belgica eram empregados simultaneamente com as ferragens estampadas, tanto no seculo XIV, como no XV.
Os serralheiros da edade média procuraram para objecto de ornamentação, não só os lemes, mas tambem todos os outros accessorios necessarios para os portaes, taes como os prégos, os fechos, as argolas das fechaduras.
_Janellas_. Durante o periodo de transição e no principio da epoca ogival, os vãos das janellas eram estreitos, pouco elevados e fechados, na sua parte superior, por lancetas ou ogivas agudas. Estes vãos, em geral reunidos em dois ou tres, são separados por pequenos pilares em fórma de humbreira, estando muitas vezes como emmoldurados por um grande arco commum. Chamam-se prumos de cantaria os que dividem uma janella em humbreiras aos vãos ou compartimentos verticaes. A triplice lanceta da janella tem o vão do meio geralmente mais elevado que o dos lados.
Em França, no principio do seculo XIII, e n'outros paizes alguns annos mais tarde, em vez de estreitarem os vãos das janellas, alargavam-nos e formavam por cima bandeira com construcção de cantaria compostas de humbreiras simples e ligeiras. Em geral existe uma abertura independente por cima dos vãos d'estas janellas primitivas. Nas construcções esmeradas e ricas, as humbreiras estão collocadas tanto no interior como no exterior, tendo uma columna com base e capitel, e o tympano da janella é ornado de redentes, com uma ou muitas vidraças compostas de tres, quatro, seis e algumas vezes oito vidros.
As grandes egrejas do XIII seculo e um grande numero de edificios do XIV seculo teem as janellas muito grandes, divididas em muitos vãos.
Estas janellas compõem-se de uma rosacea de grande diametro, que occupa a parte superior do tympano tendo uma columna que divide o vão em duas partes eguaes; em cada um d'estes vãos secundarios, apresenta uma abertura composta egualmente de uma columna central, porém, mais delgada que a primeira e d'um oculo circular do feitio de folha de trêvo, ou uma de quatro folhas. Se mesmo com estas sub-divisões (como succede nas janellas de grande largura), estas columnas não ficam sufficientemente proximas para a segurança das vidraças, estabelecem-se ainda entre si novas humbreiras divisorias, tendo por cima tambem rosaceas de menor grandeza.
Na Belgica, Allemanha e Inglaterra, ha janellas do seculo XIII, divididas por duas humbreiras de menor importancia para formarem tres vãos. Ás vezes é o vão do meio mais estreito que os dos lados. Este feitio de janellas era muito raro na França, no principio do periodo ogival.
Para diminuir o espaço vazio das rosaceas do tympano das grandes janellas, collocavam-se redentes de cantaria seguros por circulos de ferro. Ás vezes, no seculo XIV, se substituiam as rosaceas do tympano por folhas de trêvo, ou compostas de quatro folhas, e tambem com outras combinações de figuras geometricas.
Durante os seculos XIV e XV, o numero dos vãos das janellas varia muito, mas em geral é de tres.
No mesmo edificio, se vêem, conforme a largura dos vãos, janellas de dois, tres, quatro, cinco, seis, sete ou oito compartimentos.
Em alguns monumentos belgas, inglezes e allemães, as grandes janellas das extremidades do transepte e da capella mór, quando esta termina por uma parede recta, ficam divididas em duas partes eguaes por uma columna central de grande grossura formando um verdadeiro pilar.
As humbreiras das janellas dos seculos XIII e XIV são ás vezes formadas por uma só pedra inteiriça; comtudo geralmente são construidas por pedras pequenas. Em grande numero dos edificios francezes, ha, interior e exteriormente, ou n'um dos lados das janellas, uma columna embebida, com base e capitel.
Na Belgica, Allemanha e Inglaterra as humbreiras das janellas de muitos monumentos não têem columnas, principalmente as do seculo XIV.
As columnas servindo de humbreiras apparecem sempre collocadas junto dos pés direitos, no interior e no exterior da janella. Na Belgica vêem-se com frequencia essas columnas embebidas nos angulos das paredes pertencentes ás janellas nas quaes lhes faltam as humbreiras.
Os capiteis das columnas que formam as humbreiras das janellas, são coroados por um ábaco _quadrado_, no principio do periodo ogival, mais tarde tornou-se _circular_, e no principio do XIV seculo, _hexagonal_.
Os constructores dos seculos XIII e XIV, habituados a discorrer sobre todas as suas obras, facilmente comprehendiam que collocar um capitel nas columnas servindo de humbreiras, era ir ao encontro do principio fundamental da architectura ogival, que prescrevia desprezar todas as partes inuteis, todos os motivos de ornamentação que não resultassem d'uma necessidade de construcção. Effectivamente não parece sufficientemente justificada a necessidade d'este capitel, porque a parte superior da columna não serve de ponto de apoio a nenhum peso extraordinario, e tambem não serve de transição ás duas partes realmente distinctas, pois a moldura superior do capitel é em tudo semelhante á fórma do fuste da columna, porquanto o capitel apenas servia de ornato, sem outro fim verdadeiramente util. Tendo em vista o principio fundamental do estylo ogival e todas as consequencias logicas que elle encerra, os architectos da segunda metade do seculo XIV e do principio do XV não se detêem em reconsiderar, supprimem inteiramente o capitel e muitas vezes a propria columna, e dão a todas as humbreiras a mesma espessura. No fim do XIV seculo introduziram egualmente modificações importantes nos desenhos traçados pelas humbreiras dos tympanos das janellas. Os redentes que até aqui serviam para diminuir o espaço roto das grandes rosaceas foram primeiramente substituidos por combinações de figuras geometricas em que predominam as formas ogivaes com curvas compostas de duas em sentido oppostos e do feitio de chamma. É d'esta epocha que data o ornato conhecido pelo nome de _chamma_ e deu o nome de _flammejante_ ao estylo do seculo XV. Este ornato não só se encontra nos tympanos de janellas, mas tambem nas balaustradas, nos batentes das portas, fechos, mobilias, n'uma palavra, em tudo onde é possivel applical-o. Os allemães chamam-lhe Fischblase (bexiga de peixe).
As janellas da _primeira metade_ do seculo XV têem ainda ás vezes alguma analogia com as dos seculos precedentes. Não é raro encontrar-se nos tympanos grandes rosaceas com figuras curvas ou chammas em vez de redentes. Todavia grande numero das rosaceas circulares dos tympanos, durante a primeira metade do seculo XV, foram substituidas com o feitio de triangulos e quadrilateros curvilineos ou por outras figuras geometricas regulares, nas quaes ha chammas representadas. No meado do seculo XV desapparecem do tympano as figuras regulares, e as humbreiras tomando direcções cada vez mais arbitrarias, dão logar aos mais variados desenhos flammejantes.
No fim do XV seculo as archivoltas das janellas tornam-se mais obtusas e tomam no principio do seculo XVI a forma de arcos de volta abatida ou em aza de cesto; os desenhos dos tympanos são toscos e angulosos. A volta inteira ou de semicirculo, que começa a apparecer timidamente nos vãos entre as humbreiras, annuncia o proximo regresso dos typos de architectura classica.
Do que acabamos de dizer resulta que os desenhos geometricos encontram-se principalmente nos tympanos das janellas durante a primeira metade do seculo XV, emquanto que os desenhos flammejantes propriamente ditos são da ultima metade do XV e do principio do XVI seculos.
As archivoltas exteriores das janellas dos edificios de primeira ordem têem ás vezes alguns ornatos.
O cavado mais largo e mais profundo do intradorso d'estas archivoltas é ornado de colchetes nos grandes monumentos francezes do seculo XIII; no seculo XIV é ornado de florões e de cachos, e no XV apparece a folha de repôlho.
As archivoltas exteriores das janellas são do mesmo modo que as dos portaes e dos alpendres rodeadas por um rebordo saliente ou encimadas por uma galeria. Os rebordos que rodeiam as archivoltas das janellas têem o mesmo feitio que os dos portaes.
Nos seculos XIII e XIV, têem a fórma d'uma goteira e são geralmente formados nos proprios fechos da archivolta; as extremidades vêem acabar á altura do nascimento da ogiva, ficando assentes sobre modilhões ou então na direcção horisontal sob a fórma de cordão, que liga entre si duas janellas proximas uma da outra.
Nos edificios mais importantes, os rebordos são em geral decorados de distancia a distancia, com colchetes ou folhas ornamentaes. Nos seculos XV e XVI, os feitios das janellas têem a fórma de uma ogiva com curvas inversas, terminando por um florão. Os remates que coroam muitas vezes as janellas dos grandes monumentos, são similhantes aos dos portaes, tendo do mesmo modo a fórma da empena e os seus lados inclinados têem colchetes, redentes ou folhas de repolho encrispadas. O vertice, que em geral termina em florão, penetra muitas vezes na balaustrada prolongando a altura do tecto e fazendo corpo com elle.
Os architectos do periodo ogival, e até mesmo os do periodo de transição, de ordinario reservaram nas grandes egrejas, galerias passando junto das janellas e que eram principalmente destinadas a facilitar a collocação e conservação das vidraças. Estas galerias são estabelecidas em toda a extensão do edificio, dando muitas vezes a volta completa em todo o monumento; são verdadeiros corredores de serviço. No rez-do-chão, isto é, nas paredes dos lados e no côro, quando este não tem capellas lateraes, são ellas estabelecidas no interior em quanto que no pavimento superior ficam sempre exteriores e atravessam os contrafortes. D'aqui resulta haver galerias em que as vidraças estão assentes por dentro nas janellas inferiores e por fóra nas altas.
_Rosaceas_. As rosaceas são um dos mais bellos ornamentos dos grandes monumentos religiosos do periodo ogival.
Apparecem tanto na fachada Occidental como nas empenas dos transeptes. Na França, as rosaceas são muito communs nos seculos XIII e XIV; pelo contrario na Belgica e na Inglaterra, são raras, mesmo nas maiores egrejas.
As rosaceas e as janellas têem caixilhos de pedra destinados a fixar as vidraças. Estes caixilhos são muitas vezes dispostos em fórma de raios de roda.
Durante a segunda metade do seculo XIII e todo o XIV, foram construidas grande numero de rosaceas em contacto umas das outras e dispostas em muitos renques concentricos á volta d'uma rosacea central, na qual são inseridos caixilhos do feitio de folhas de trêvo ou em quatro folhas.
Foi a brilhante ornamentação d'estas rosaceas e dos tympanos das janellas que deu ao estylo ogival do XIV seculo a denominação de _radiante_.
Os caixilhos das rosaceas do XV seculo descrevem em geral desenhos flammejantes, semelhantes aos que se vêem nos tympanos das janellas da mesma epoca. Ás vezes encontram-se: 1.^o nos monumentos do seculo XIII rosaceas que têem analogia com as dos edificios romans do seculo XII; 2.^o nos edificios dos seculos XIV e XV, rosaceas compostas de folhas de feitio de trevo, e de quatro folhas, ou com figuras geometricas curvilineas.
No seculo XV, e na Belgica já no XIV, os caixilhos das rosaceas, não têem como d'antes, columnas formando as divisões, mas têem os mesmos compartimentos que os caixilhos de janella d'esta epoca.
_Vedações das janellas e vidraças_. Por causa da aspereza do clima nos paizes do Norte foram muito cêdo usadas as vidraças nas janellas.
Os vidros, incolores ou pintados d'uma côr unica e de pequenas dimensões, eram antigamente collocados em caixilhos de madeira ou de cantaria. Depois do seculo X eram fixos por meio de pestanas de chumbo. Foi devido ao emprego do chumbo que conseguiram formar bellas vidraças pintadas, cuja historia vamos expôr succintamente.
As vidraças dividem-se em duas classes: vidraças _incolores_ e _pintadas_.
_Vidraças incolores_. As vidraças incolores dos seculos XII e XIII são compostas de pequenos pedaços de vidro, não excedendo doze a quinze centimetros, na sua maior dimensão, sendo de côr esverdeada escura, irregulares e um pouco convexas.
O chumbo empregado antigamente era muito espesso, convexo nas suas faces e algumas vezes polido nas ranhuras; distingue-se facilmente dos modernos, fabricados depois do fim do seculo XVI, por se servirem de instrumento proprio para o reduzir a tiras, com uma especie de laminador.
Em consequencia da maleabilidade e brandura do chumbo, as tiras que reunem os vidros das vidraças incolores dos periodos roman e ogival apresentam muitas vezes as mais curiosas figuras. N'este caso e em muitos outros a urgencia fornece um motivo d'ornamentação; era necessario vedar uma abertura relativamente alta e larga com pequenos fragmentos de vidro, porque as grandes chapas de vidro eram ainda então desconhecidas. Os vidraceiros da idade média resolveram este problema como verdadeiros artistas: em vez de adoptarem um systema de envidraçar vulgar, consistindo em quadrados ou rhombos, serviram-se das tiras de chumbo para produzir, nas janellas, os mais variados e vistosos desenhos.
Na Belgica as vidraças incolores eram muito communs nos seculos XII e XIII; ha exemplos de vidraças, ainda existentes, que se podem referir com certeza a esta epoca. É verdade que se encontra aqui e ali algumas vidraças representando entrelaçamentos de fitas, anneis, circulos e figuras geometricas, que parecem muito antigas por causa da pequenez das aberturas destinadas a receber as chapas de vidro; mas não é possivel determinar-lhes uma data approximada.
Estes entrelaçamentos de fitas e de figuras geometricas foram usados na Belgica durante todo o periodo ogival e conservaram-se com modificações mais ou menos consideraveis até ao presente.