Reprezentação à Academia Real das Ciências sobre a refórma da ortografia

Part 2

Chapter 23,466 wordsPublic domain

Não se empréga--e--a reprezentar--i--; empréga-se--i--, escrevendo por ezemplo: _ifeito_ _infermo_ _irmida_, _istudo_ _iscavar_, _imposto_ _izâme_, _rédia_ _côdia_ _ólio_, _passiar_ _isbofetiar_.

13.^a

Não se empréga--o--a reprezentar--u--; empréga-se--u--.

14.^a

O som de--o--fexado será reprezentado por este mesmo sinal, e criar-se-ão sinais privativos para reprezentar--a e o--abértos e--a e--fexados.

15.^a

Não se emprégão--m n--como sinal de nazalidade; empréga-se sòmente o til.

Régras relativas a consoantes

1.^a

Não se dóbra nenhuma consoante.

2.^a

Não se emprégão consoantes nulas; como são:

O--b--em _substancial_ _subtil_, _Job_ _Jacob_ etc.

O--c--em _acção_ _factor_, _inspecção_ _insecto_, _interdicção_ _afflicto_ etc.

O--g--em _augmento_ _assignar_, _Emigdio_ _Ignacio_ etc.

O--h--em _habito_ _humido_, _inhabil_ _inhumano_, _theatro_ _rhetorica_, _epocha_ _parocho_ _chlamide_ etc.

O--m--em _damno_ _solemne_ _condemno_ _hymno_ _somno_ _alumno_ etc.

O--p--em _psalmo_ _recepção_ _inscripção_ _adopção_ _corrupção_, _prescripto_ _adoptar_ _corruptivel_ etc.

O--s--em _sciencia_, _crescer_ _nascer_ etc.

O--x--em _excepto_ _excitar_ etc.

3.^a

Não se empréga--ph--a reprezentar a articulação--fe--; substitue-se por--f--.

4.^a

Não se empréga--s--a reprezentar a articulação--ze--; substitue-se por--z--.

5.^a

Não se empréga--x--a reprezentar a articulação especial que--s--reprezenta no fim das sílabas, como em _duplex_ _Felix_, _mixto_ _sexto_ _texto_, _excluir_ _exposto_ etc.; substitue-se pelo--s--.

6.^a

Não se empréga--x--a reprezentar a articulação--ze--, como em _exame_ _exemplo_ _exito_ etc.; substitue-se por--z--.

7.^a

Não se empréga--x--a reprezentar a articulação--ce--; substitue-se por--c--, escrevendo por ezemplo: _mácimo_ _àucílio_ _flècível_, _reflèção_ _conèção_, _flèçor_ _refléço_ _flèçura_ etc.

8.^a

Não se empréga--z--a reprezentar a articulação especial de que fala a régra 5.^a; substitue-se por--s--.

9.^a

Não se empréga--ch--nem--k--a reprezentar a articulação--qe--; substitue-se por--q--.

10.^a

Não se empréga--g--a reprezentar a articulação--je--; substitue-se por--j--.

11.^a

Não se empréga--ch--a reprezentar a articulação--xe--; substitue-se por--x--.

12.^a

Não se empréga--x--a reprezentar o som--qce--; substitue-se por--qc--.

13.^a

Não se emprégão consoantes compóstas; o--lh--e o--nh--serão substituídos, cada um por um signal próprio e único.

14.^a

Criar-se-á um segundo carátèr de--r--, para que cada um dos sons que ésta letra reprezenta, tenha o seu sinal privativo.

15.^a

Não se empréga--s--a reprezentar a articulação--ce--; substitue-se por--c---, conservando neste a cedilha antes de---a o u--, em quanto for precizo para evitar que se pronuncie--qe--.

16.^a

Não se empréga--c--a reprezentar a articulação--qe--; substitue-se por--q--.

Senhores, paréce á comissão que, embóra póssa não ser este, ao menos a alguns respeitos, o único módo de realizar a ortografia sónica, esse sistema déve ser considerado m[~u]ito aceitável; paréce-lhe que quem o ezaminar com atenção, o admitirá sem relutáncia. Entretanto convem que diga alguma couza em apoio das alteraçõis que póssão càuzar estranheza por qualquér motivo, ou parecer menos justificadas.

A respeito de vogais, entende que a sua reprezentação onomatópica, como propõi, não póde ser rejeitada em princípio; quando m[~u]ito poderá aver dúvida àcerca da ocazião de realizar uma ou outra das alteraçõis respètivas.

Não déve com tudo deixar de dizer algumas palavras a respeito das régras 12.^a e 13.^a, por motivo do seu m[~u]ito alcance; pois são inúmeras as palavras em que--e--reprezenta o som de--i--, e em que--o--reprezenta o som de--u--.

Todos reconhecerão que nos cazos em que--e--fás as vezes de--i--, acontéce que, se se quizésse dar-lhe o som de--e--surdo, a pronúncia éra forçada e dezagradável; dá-se-lhe pois o som de--i--, porque não póde ser de outro módo: escute-se a pronúncia, por ezemplo, de _escrever_ _espaço_, _escavacar_ _esgotar_, _enfermo_ _enjenho_, _área_ _óleo_, _cabecear_ _passear_, e ficar-se-á cérto d'isso. A pronúncia reclama pois o--i--; e sucéde que a etimolojia o não repéle. Nos cazos como _escrever_ _escavacar_ _cabecear_, nada tem que ver a etimolojia, puzémos alí--e---como podíamos pôr--i--; nos cazos como _área_ _óleo_, é verdade que se ofende a etimolojia, sendo--e--substituído; mas nos de _enfermo_ _enjenho_, etc., a substituição vinga a etimolojia ofendida, visto que o latim éra _infirmus_ _ingenium_.

Sucéde outro tanto com--u--, que é inquestionàvelmente reclamado pela pronúncia. Á parte os cazos de--o--reprezentando--u--no princípio e meio das palavras, em que algumas vezes se ofende a etimolojia com a substituição, temos a considerar o--o--da sílaba final, que é o cazo mais importante, com cuja substituição não será ofendida e em inúmeros cazos será dezafrontada. Dízem jeralmente que os nómes portuguezes, derivados do latim, se formárão do ablativo e não do nòminativo, e que portanto em _filho reino_, por ezemplo, a raís é _filio regno_ e _não filius regnum_. Acreditâmos que é assim, e concedemos que por conseguinte escrevendo _filhu reinu_ se ofende a etimolojia; mas em tal cazo escrever _pôrtu cúrsu_ é dezagravar éssa etimolojia, porque éra terminado em--u--o ablativo de _portus cursus_; assim como será dezagraval-a, se escrevermos por ezemplo _amámus_ _bebêmus_ _vestímus_, porque no latim tínhão--u--na sílaba final todas as vózes da 1.^a pessoa do plural dos vérbos, o qual nós substituímos por--o--. Nóte-se porem que, escrevendo _filhu reinu_, não se ofenderá a etimolojia; averá a diferença da derivação se fazer do nòminativo e não do ablativo. Donde se conclue que a substituição do--o--pelo--u--, não será uma _ofensa_ mas um _dezagravo_ da etimolojia, ao passo que é uma omenájem á pronúncia.

Ségue-se pois que as duas substituiçõis são justificadíssimas; e se a comissão propõi o seu adiamento, é só por evitar a impressão desfavorável que receia que produzíssem, sobre tudo pelo aparecimento m[~u]ito freqüente do--u--na sílaba final.

Alguem por ventura estranhará a eliminação do--y--. Tôdavia para justifical-a basta dizer, que éssa letra não reprezentava em grego o som--i--, mas sim um cérto som de--u--. Se nas respètivas palavras se mudou o som reprezentado, é racional que se mude o sinal reprezentativo. É em verdade singular, que se xame--i--grego e se uze como--i--, o que éra a letra--u--dos gregos.

Quanto á acentuação, a comissão está quázi cérta de que as suas indicaçõis não serão vistas sem alguma estranheza; porque, como os latinos não uzávão dos acentos, entende alguem que tambem os não devemos admitir.

Com tudo, se eles fôrão proscritos do latim, os gregos empregárão-nos superabundantemente. Álem dos acentos avia em grego os _espíritos_. É m[~u]itíssimo rara a palavra grega que não tenha acento em uma das três últimas sílabas; toda a vogal ou ditongo porque principia uma palavra, tem algum dos espíritos; nos ditongos põi-se o espírito e o acento sobre uma mesma vogal.

Vê-se portanto, que os gregos acentuárão tudo e que os latinos não acentuárão nada. A comissão julga pois, que faremos bem, se seguirmos um meio termo, acentuando tanto quanto for precizo; e por isso paréce-lhe que não deve ser rejeitada a sua propósta, tanto mais que as quatro eicèçõis poupão uma infinidade d'acentos, e se facilita assim a tranzição para o uzo dos caratéres nóvos propósos na régra 14.^a: d'este módo, por meio de acentos e de régras que os dispênsão, fica determinado o valor de cada vogal. E com éssa inovação bem simples dezaparecerá uma grande dificuldade que os estranjeiros encôntrão ao aprender a nóssa língua, e que aos mesmos nacionais é grande embaraço para aprender, e para ler corrètamente.

* * * * *

Em fim, quanto ao número dos sons vogais, cumpre á comissão dizer o seguinte.

Admitiu o som de--a--fexado, por entender que o--a--predominante antes de--m n nh--tem esse som segundo a pronúncia mais jeral, com eicèção da terminação _amos_ do pretérito dos vérbos em--ar--. O som abérto que m[~u]itos lhe dão, e que ele tem antes de todas as outras consoantes, é mais eufónico e mais bélo, mas uza-se menos; e a opinião dos que dízem que ésta e as outras vogais, naquele cazo, tem todas som nazal menos--e o--abértos, não paréce á comissão que póssa nem deva ser aceita.

Não ignóra que alguns úzão--e o--abértos com entoação nazal, dizendo _escóndes_ _escónde_ _rómpes_ _rómpe_, _véndes_ _vénde_ _séntes_ _sénte_; mas entende que ésta pronúncia não déve prevalecer, embóra--e o--abértos de entoação nazal sêjão menos fanhózos e portanto mais eufónicos que--e o--fexados, porque a pronúncia contrária é a do màiór número e a supressão dos dois sons nazais é uma simplificação apreciável.

Sabe que á m[~u]ito quem não queira admitir o ditongo--ou--, dizendo que nos cazos respètivos o som vogal é o de--o--fexado; mas não crê que seja assim, pois axa notável e óbvia diferença de som nas primeiros sílabas de _coro_ _lobo_ e últimas de _avô_ _Pàssô_ por ezemplo, e nas de _couro_ _louvo_, _lavou_ _passou_: no primeiro cazo á som de--o--fexado; no segundo, de ditongo--ou--, m[~u]ito mais eufónico e agradável que aquele. Bem como sabe, que á quem uze este ditongo em lugar do--o--fexado nos cazos como _bôa_ _corôa_, _sôa_ _pavôa_; mas julga que este uzo déve rejeitar-se por não ser o jeral.

E sabe igualmente que se tem sustentado, que nos ditongos nazais só a prepozitiva tem entoação nazal; éssa ideia porem, a seu ver, é errónea,--os ditongos nazais não se fórmão juntando uma vogal oral a uma nazal anterior, mas sim dando entoação nazal a um ditongo oral.

Assim como, a este propózito, déve notar que não desconhéce cértas pronúncias, sobre as quais xama a atenção para que sêjão emendadas, por viciózas que são segundo crê. Por um lado alguem sustenta, que--e--predominante, antes de--lh--, tem som de--a--fexado na pronúncia jeral, e se dis por ezemplo _cançâlho_ _sâlha_ _abâlha_ e não _concêlho_ _sêlha_ _abêlha_ (o que éla não considéra aceitável); bem como sustenta que «em todas as sílabas não acentuadas é o--a--fexado, eicéto nas finais em que é mudo». Por outro lado, á quem tróque o--e--fexado por--ei--antes de--j lh nh--, dizendo por ezemplo _igreija_ _teilha_ _leinha_--em vês de dizer _igrêja_ _têlha_ _lênha_.

A comissão não póde crer que o primeiro--a--de _batalha_, por ezemplo, seja diferente do último, ou que sêjão divérsos os últimos _aa_ de _sáfara_. E do mesmo módo, entende que não á motivo para que o--e--predominante, que póde ser fexado antes de todas as outras consoantes, o não póssa ser antes de--j lh nh--em cértos cazos, e se pronuncie--ei--contra a pronúncia jeral.

E cumpre notar ainda outra pronúncia que fora bom corrijir: é a do ditongo--ão--nos nómes que oje fórmão o plural em--ões--, e nas respètivas vózes dos vérbos. M[~u]itos pronuncíão _bordão_ _tacão_ _timão_ _portão_ _amarão_, etc., como se o ditongo fora--ou--nazalado; óra este ditongo é m[~u]ito menos eufónico e bélo do que o outro, pelo que déve ser rejeitado: e assim o ditongo--ão--déve sempre pronunciar-se como se pronuncia em _mão_ _irmão_ _tão_ _cão_.

A propózito d'isto dirá tambem, que pensa ter ido confórme com a pronúncia jeral, considerando que em--ex--inicial--e--não reprezenta--ei--senão onde é sílaba predominante como em _exito_, ou onde ao--x--se ségue--ce ci--como em _exceto_ _excitar_, e no cazo de _ex-ministro_ _ex-deputado_, etc. Próvão-lho a sua observação, as m[~u]itas palavras onde o--x--já foi substituído, como _izenção_ _estranho_ _espremer_, etc., etc., e a opinião de gramáticos àutorizados, que dízem que a pronúncia é _ezacerbar_ _ezemplo_ _ezistir_ _ezórdio_.

Por último dirá, que o emprego do til como único sinal de nazalidade, m[~u]itíssimo racional a todos os respeitos, não lhe paréce que póssa ser rejeitado; até porque se recomenda pelas facilidades que trará á leitura do mànuscrito,--vantájem que advirá igualmente da supressão do--u--e demais letras nulas.

* * * * *

Com relação a consoantes, a comissão julga que as refórmas que propõi, são tambem de todo o ponto justificadas. A evolução por meio da qual se constituiu a língua como oje a falâmos, operou-se suprimindo e transformando por todos os módos e em todos os sentidos. Móstra isso uma infinidade de palavras, e bástão a proval-o estes poucos ezemplos: de _actio_ _c[oe]sius_ _crates_ _faba_ _ficus_ _lupus_ _lutum_ _nunquam_ _pluvia_ _pr[ae]da_ _quinque_ _ratio_, _angelus_ _bubulcus_ _coquina_ _cymbalum_ _cytisus_ _germanus_ _mespilum_ _miscere_ _pustula_ _sacellum_ _sanare_ _vagina_ _videre_, _apotheca_ _auricula_ _caveola_ _invidia_ _quiritare_ _infundibulum_, fizémos _acção_ _gazeo_ _grade_ _fava_ _figo_ _lobo_ _lodo_ _nunca_ _chuva_ _presa_ _cinco_ _razão_ _anjo_ _bifolco_ _cozinha_ _timbales_ _codeço_ _irmão_ _nespera_ _mexer_ _bostella_ _capella_ _sarar_ _bainha_ _ver_ _adega_ _orelha_ _gaiola_ _inveja_ _gritar_ _funil_.

Óra, éssa evolução está pela màiór parte já tambem operada na escritura. As alteraçõis propóstas são o seu complemento; e constituirão os dois grandes progréssos--a unidade da reprezentação dos sons e a conformidade da linguájem escrita com a linguájem falada--reclamados pela necessidade de tornar fácil ao povo a aquizição da instrução que se quér que ele tenha, poisque com eles se aprenderia a ler em m[~u]itíssimo menos tempo do que oje se gasta. E o pouco que résta fazer, está àutorizado de um módo irrecuzável pelo m[~u]ito que se axa feito.

Alem d'isso a refórma nésta parte tambem se não aprezentará menos justificada a quem a quizér considerar nas diferentes ipótezes; como passa a mostrar-se a respeito das principais d'entre élas.

A comissão votou unànimemente a supressão das letras nulas; e julga que com razão o fês. Tais letras são motivo de grande confuzão e portanto um grande embaraço; porque todas élas, em circunstáncias idênticas, umas vezes são nulas, outras não (menos as dobradas que o são sempre), sem ser possível dar régras que satisfáção, para indicar quando o são ou deixão de ser. E tem unicamente valor etimolójico,--valor esse iluzório e sem importáncia, porque a etimolojia não fica perdida com a sua supressão, como não se perdeu a d'éssas m[~u]ito numerózas centenas de palavras cujas raízes se áxão alteradas; em quanto que os embaraços a que dão cauza, são um mal m[~u]ito grande e m[~u]ito real e pozitivo.

Por contemporizar com ábitos e sucètibilidades, póde aceitar-se o adiamento da supressão do--u---nulo, visto poder dar-se régra cérta que indique a sua nulidade; porque depois de--q--nenhuma outra razão póde motivar a sua conservação. Pois se os latinos o uzávão, pronunciávão-no, como oje o pronuncíão sempre os italiânos; e se os francezes, e até os espanhóis, o emprégão sem o pronunciar, é por um méro caprixo que não devemos seguir.

Por esse mesmo motivo a comissão lembrou-se de se adiar tambem a supressão do--h--inicial, mas por fim não lhe pareceu justificada éssa rezolução. Paréce provado que o--h--, que nunca foi uzado pelos gregos, éra para os latinos simplesmente sinal d'aspiração. Por isso juntávão-no ao _t_, ao _p_ e ao _c_, para reprezentar _téta_, _fi_ _qi_, consoantes mudas aspiradas do alfabéto grego, e tambem ao _r_ nas palavras tomadas do grego em que ésta letra éra aspirada; e para que fosse aspirada a vogal seguinte, o empregávão no começo das palavras,--razão por que escrevíão por ezemplo _hora_, palavra tomada do grego onde éra _ora_. E assim compreende-se que os francezes o empréguem no começo d'aquélas palavras cuja primeira vogal aspírão, e ainda se compreende o seu emprego em espanhol, visto uzar-se a aspiração respètiva em algumas províncias do reino vizinho; mas nós que não aspirâmos nenhuma vogal inicial, é lójico que suprimâmos esse inútil sinal d'aspiração, evitando os embaraços que rezúltão do seu emprego.

A comissão, a propózito da supressão do--h--no vérbo _haver_, discutiu os inconvenientes da anfibolojia produzida pelas omonímias; assim como discutiu a ezistencia do--h--nas interjeiçõis _hui_ _ah_ _oh_, onde paréce aver quem admite aspiração. Óra, quanto á anfibolojia, impórta considerar que as omonímias que proviríão da refórma, são nada em comparação das que ezístem já na língua sem ninguem sentir os inconvenientes da supósta anfibolojia d'élas rezultante; que na pronúncia não á meio d'evitar esses inconvenientes, que alguem se aprás em recear; e que na escritura, melhór que na fala, indica o sentido qual é a significação da palavra, se ésta a tem dupla ou múltipla: se por ezemplo se escrever--_ás_ _á_, _avias_ _avia_, _avíão_, _ouve_--, em vês de--_has_ _ha_, _havias_ _havia_, _havião_, _houve_--, ninguem desconhecerá quando respètivamente se trata do vérbo _haver_, ou da craze da prepozição _a_ com o artigo _as_ _a_, do vérbo _aviar_ e do vérbo _ouvir_. Em quanto ás três interjeiçõis, no cazo de decidir-se que á aspiração, seria melhór indical-a pondo na vogal o espírito áspero dos gregos--uma vírgula ás avéssas; mas a comissão não vê razão por que a aja, nem lhe paréce que aja com efeito, e tão pouco julga conveniente avêl-a, porque a sua aspereza tornaria a interjeição menos eufónica.

Em fim, a respeito do fato da nulidade das letras, sucitárão-se dúvidas quanto ao--x--, e ao--s--no meio das palavras. Porem um ezame reflètido móstra, que só em pronúncia afètada se fás ouvir o som sibilante que éssas letras reprezentaríão nas palavras respètivas, e que éssa pronúncia é forçada e tórna a palavra mais áspera, sendo por isso menos confórme ao jénio da língua. E o fato do--s--se não axar em documentos das primeiras éras da língua, e em livros de épocas menos remótas (de Càmõis, Fr. Luís de Souza, J. Freire de Andrade, Padre Vieira, etc.), e de não se empregar oje mesmo em várias d'aquélas palavras, é próva de que éssa letra tem sido e é nula na pronúncia jeral.

No que tóca á substituição de letras a fim de se xegar á unidade de reprezentação das consoantes, cumpre á comissão notar que, sendo éla reclamada pelo princípio fundamental da ortografia sónica, é ao mesmo tempo ezijida pela necessidade de remover os obstáculos que a reprezentação múltipla oferéce aos que aprêndem o português. Os dois sons de--c--de--g--e de--r--, os três de--s--e os cinco de--x--, são um martírio para professores e alunos d'instrução primária. E não á razão para que continuemos a suportar éssas dificuldades.

Com efeito, tendo o--j--que é sinal onomatópico da articulação--je--, por que não avemos d'empregar sempre esse sinal a reprezentar ésta articulação? Tendo da mesma sórte o--z--, sinal onomatópico de--ze--, não dis tambem a razão que reprezentemos sempre ésta articulação por aquele sinal? Dando nós ao--c--um nóme que é onomatópico da articulação--ce--, e empregando-o só por eicèção a reprezental-a, ao passo que o empregâmos a reprezentar a articulação--qe--no màiór número dos cazos tendo tambem para ésta um sinal onomatópico, não averá nisto um duplo absurdo? E a anomalia dos cinco sons do--x--é tambem injustificável. Os gregos tínhão ésta letra, a que atribuíão uma só reprezentação; os latinos adòtárão-na, e reprezentávão com ela a mesma articulação que os gregos. Por isso a comissão entende, que deveremos empregal-a unicamente a reprezentar a articulação da qual é para nós sinal onomatópico; nos demais valores déve ser substituída pelos respètivos sinais. E o mesmo julga a respeito do--c--; assim como julga que a boa razão manda que--s--fique reprezentando sòmente o seu som sibilante, que oje reprezenta talvês 99 vezes sobre 100.

A todas éstas substituiçõis só se póde objètar com a razão estimolójica, mas éla não reziste a um ezame reflètido. A comissão aprecia a etimolojia no que vale; não póde porem esquècer o que reclâmão outras consideraçõis, á frente das quais está a incalculável vantájem das estraordinárias facilidades que d'aquélas substituiçõis advirão a quem aprende o português. Alem d'isso a etimolojia não fica perdida; e como já foi indicado, o que se tem a fazer, é nada em comparação do que já se fês: ólhe-se para a série d'ezemplos das alteraçõis operadas, que acima se aprezentou, e ficar-se-á convencido de que as substituiçõis que se propõi e é precizo realizar, são uma simples emitação.

Quanto á criação de um carátèr privativo para um dos sons de--r--, e á reprezentação de--lhe--, assim como de--nhe--, por um carátèr único, parece-lhe que por si mesmas se justifícão; e mais justificada ainda se deverá julgar a criação dos nóvos caratéres para as vogais acentuadas: bem como julga irrecuzável a vantájem, que os que aprêndem a ler, axarão em sêrem os ditongos reprezentados por caratéres especiais. E do mesmo módo lhe paréce, que dispensa justificação a eliminação do--ph--; assim como a do--ch--em qualquér das suas duas reprezentaçõis (onde nada justifica o seu emprego), atentos os embaraços que ele prodús.

* * * * *

Finalmente a comissão, depois da espozição e demonstração feitas, julga dever acrecentar que, ao ezemplo que nos dérão espanhóis e italiânos, para a refórma que propõi, se junta outro vindo de mais alto e de mais lonje. Todas as consideraçõis lévão a crer, que a formóza língua da tão celebrada Grécia antiga tinha ortografia sónica. A prozódia grega contava 7 elementos vogais e 17 consoantes, e a sua ortografia 24 caratéres, um para cada um d'esses elementos privativamente; e com os acentos e espíritos sobre os caratéres, indicávão-se as variaçõis de quantidade e de tom: se se dobrávão letras, éra cèrtamente por que a pronúncia das letras dobradas diferia da das sinjélas, como acontéce em italiâno. Nem outra couza se devia esperar d'éssa tão douta nação, por isso que a unidade de reprezentação dos sons éra conseqüéncia lójica da substituição da escritura simbólica pela escritura alfabética,--razão ésta pela qual póde bem aceitar-se a opinião d'aqueles que pênsão, que tinha tambem ortografia sónica o sanscrito, o qual tanto está xamando a atenção dos filólogos.

Espéra pois, que se lhe não léve a mal ter-se tambem inspirado em ezemplo semilhante.

* * * * *

Senhores, pelo que se deixa dito, paréce manifésto que a ortografia sónica nos é impósta por todas as consideraçõis, ao tratar-se de dotar a língua com uma ortografia nòrmal. Mas, se á comissão isto paréce fóra de toda a dúvida, éla, como está já indicado e deixa compreendêl-o o próprio plâno acima transcrito, reconhéce ao mesmo tempo que a sua ezecução não póde ser operada imediàtamente por compléto. O ábito é uma segunda natureza, cujas leis é precizo respeitar; adqüire-se pouco a pouco, e é m[~u]ito defícil perder-se de gólpe. O respeito pois pelos ábitos, tórna indispensável levar a refórma á prática passo a passo; mas a comissão entende que o primeiro passo póde ser largo. E determinar esse passo foi ponto difícil da sua taréfa, porque não queria ficar atrás do possível, mas tambem não queria ir àlem do realizável sem repugnáncia; querendo sobre tudo não deixar de remover, quanto ser pudésse, as dificuldades que a ortografia uzual opõi ao adiantamento dos alunos d'instrução primária, e facilitar assim, o mais possivel, aos portuguezes aprender a ler e escrever, e aos estranjeiros aprender a língua portugueza.

Óra, depois de maduro ezame a comissão está convencida, de que o primeiro passo a dar no caminho da refórma póde consistir na ezecução das refórmas parciais que encérra o primeiro dos três seguintes grupos de régras, e que dois passos mais, consistindo cada um na ezecução das refórmas de um e de outro dos dois grupos restantes, podíão levar a óbra a cabo.

1.^o Grupo

As primeiras 6 régras relativas a vogais.

As primeiras 12 régras relativas a consoantes.

As seguintes régras de carátèr provizório:

_1._^a Quando--u--, precedido de--g--ou de--q--e seguido de--e--ou de--i--, se pronuncia, põi-se-lhe o trema (ü).