Reprezentação à Academia Real das Ciências sobre a refórma da ortografia
Part 1
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REPREZENTAÇÃO Á ACADEMIA REAL DAS CIÊNCIAS SOBRE A REFÓRMA DA ORTOGRAFIA
LISBOA IMPRENSA NACIONAL 1878
REPREZENTAÇÃO Á ACADEMIA REAL DAS CIÊNCIAS SOBRE A REFÓRMA DA ORTOGRAFIA
Senhores.--Os abaixo assinados dirijem-se á academia real das ciências em cumprimento de um dever.
Numa reunião pública, celebrada nésta cidade em 23 do corrente, fôrão encarregados de, em comissão, pedir a éssa real academia que ocorra a uma necessidade que quázi só d'éla póde esperar satisfação; e vem dezempenhar-se do onrozo encargo.
Paréce-lhes ociozo aduzir argumentos para justificar o pedido. Não tendo a língua uma gramática e um dicionário que póssão dizer-se oficiais, não avendo nórma para a ortografia, nem para a pronúncia, e sendo isso o que se péde á academia, déve considerar-se desnecessária qualquér justificação.
O parecer de que ésta reprezentação vai acompanhada, contem um sistema de ortografia e um método de o pôr em prática, os quais avaliareis como merecêrem. Os abaixo assinados apenas esprímem o dezejo e a esperança de que julgueis dever adòtal-os.
Dando pois ezecução á primeira parte da propósta que termina esse parecer, e que a mencionada reunião aprovou com escluzão das palavras--ou outro que julgue melhór, no cazo de rejeitar este--, os abaixo assinados pédem á academia real das ciências que, publicando uma gramática e um dicionário ao mesmo tempo ortográfico e prozódico ou ao menos um vocabulário, se digne preenxer éssa lacuna e satisfazer éssa necessidade que todos reconhécem e sêntem,--a de uma ortografia nòrmal.
Não pódem porem deixar de xamar a vóssa atenção para a alteração aludida, que a reunião onde fôrão eleitos, fês no parecer da comissão. Por éla vê-se que a opinião d'aquéla assembleia é, que a refórma a realizar na ortografia déve ser em sentido sónico.
Dignai-vos acreditar, senhores académicos, em nóssos sentimentos de consideração e respeito.
Porto, 26 de dezembro de 1878.==_Adriano de Abreu Cardoso Machado_, prezidente==_Conde de Samodães_==_Manuel Felippe Coelho_==_Agostinho da Silva Vieira_==_Jozé Barbóza Leão_.
*Parecer da comissão de refórma ortografica*
Senhores.--Reconhecendo o estado anárquico da nóssa ortografia, e que é precizo fazêl-o cessar, nomeastes em reunião de 27 de maio uma comissão, encarregada d'estudar e propor-vos os meios de alcançar esse _desideratum_; o qual só póde conseguir-se dotando a língua com uma ortografia nòrmal.
Aceitando uma parte dos eleitos o espinhozo mas onrozo encargo, a comissão constituiu-se. E ao encetar os seus trabalhos ofereceu-se-lhe, como questão prévia, determinar qual o dezenvolvimento que deveria dar-lhes.
Efètivamente alguem podia entender que éla teria satisfeito propondo simplesmente, que se reprezentasse á àutoridade competente para que determinasse aquéla ortografia, e fizésse com que só éla fosse ensinada nas escólas, e empregada nas repartiçõis públicas assim como nas tipografias e litografias da sua dependência em tudo que tivésse carátèr oficial. Outros podíão julgar que se devia ao mesmo tempo pedir, que a ortografia determinada fosse o mais simples possível: a fim de que o aprender a ler e escrever se tornasse por esse módo tão fácil, como póde realmente. E podia tambem querer-se, que se lhe propuzésse a ortografia que devia ser adòtada.
Teve portanto de rezolver ésta questão, depois de a estudar sôb este tríplice módo de ver.
Pareceu-lhe porem, que uma pouca de reflèção bastava para se pôr de parte a primeira ideia. Todos sábem a consideração que em jeral merécem, e os rezultados que é costume alcançárem, reprezentaçõis d'éssas em assuntos d'ésta natureza; e a comissão não podia acreditar que ficásseis satisfeitos com uma propósta que não teria utilidade prática. Assim como lhe pareceu que a segunda ideia, sendo sujeita aos mesmos inconvenientes, devia ser pósta de parte como a primeira.
Julgou pois, que éra seu dever tomar no sentido mais amplo a missão que recebera, e dezempenhal-a néssa conformidade; isto é, no sentido de se indicar a ortografia, que deveria pedir-se que fosse estabelecida como ortografia nòrmal. Éra árdua a taréfa, mas não podia declinal-a.
Neste ponto, a comissão teve de reconhecer que a ortografia portugueza não podia deixar de ser etimolójica, sónica ou mista.
Óra, a mista é a ortografia que temos e cuja refórma se reclama jeralmente; e por mais que a sistematizássemos, pareceu á comissão que não seria possível obter-se uma ortografia como déve dezejar-se que tenhâmos. Seríão precizas m[~u]itas régras com m[~u]ito numerózas eicèçõis, ficando ainda m[~u]itas couzas sem ser reguladas; de módo que o conhecimento da ortografia tornar-se-ia tão difícil de alcançar, como é o de algumas artes e ciências. Suceder-nos-ia como aos francezes, que, apezar de tantos trabalhos e tão àutorizados como são os da sua academia, tem ainda uma ortografia que, em parte tambem pelas dificuldades peculiares da língua, se não considéra digna d'aquéla nação culta.
Restava portanto tomar por baze da ortografia que se propuzésse, ou a etimolojia ou a pronúncia.
A respètiva escolha éra o ponto mais grave da taréfa a cargo da comissão. Tratou por isso d'esclarecer-se bem a esse respeito; e entre outras couzas, procurou conhecer o jénio da língua, àlem d'outros meios pelo da sua istória, a fim de guiar-se por ele.
Veja-se pois, que é o que sobre o assunto nos dis a istória.
* * * * *
A istória ensina, que o português primitivo, a língua do berço da monarquia (Entre Douro e Minho), a que falávão os senhores e ómens d'armas que ajudárão Afonso Enriques a fundar este reino, éra uma mistura da linguájem rude dos aboríjenes (mistura tambem) e do latim bárbaro das lejiõis românas,--mistura alterada com elementos introduzidos pelos conquistadores do nórte, principalmente os suévos e vizigódos, e tambem pelos sarracenos, e alterada ainda, depois de conquistado o sul, por motivo das relaçõis com os seus abitantes já meio árabes e outros árabes verdadeiros, e, depois de estabelecida a capital em Lisboa, por cauza da colonização vinda de Marrócos e do grande número d'estranjeiros que concorríão ao seu porto, particularmente os cruzados m[~u]itos dos quais aí ficárão; bem que móstre que predominava o elemento latino, pelo m[~u]ito que se encarnara na Península o módo de ser dos românos, por ser o latim a língua dos atos religiózos e das relaçõis com Roma e com os outros governos da Európa, e porque os sacerdótes érão quázi os únicos ómens de letras no país. Assim como nos ensina que esse amálgama éra apenas língua falada; porque pouco ou nada se lia e escrevia, visto que o elemento burguês apenas se fazia sentir, e os senhores só cuidávão de armas, desdenhando até o saber ler e escrever,--erro de educação que durou em parte até não m[~u]ito lonje de nós.
Póde pois imajinar-se o que éra o português d'éssas épocas, e atésta-o o m[~u]ito pouco que d'ele résta. Póde dizer-se que não se escrevia; e falava-se um português tão simples, quanto érão simples os ómens e a vida que vivíão.
A istória móstra que foi assim, até que no fim do século XIII D. Dinís, esse modelo de reis, criou em Lisboa as _escólas jerais_, começo da _universidade_, que depois tanto se tem ilustrado em Coimbra. Mas móstra ao mesmo tempo, que isto não fês mais que àumentar o predomínio do latim; porque para as escólas jerais e depois para a universidade viérão vários professores estranjeiros, jente m[~u]ito versada no latim que éra a língua dos ómens de letras, e viérão tambem os compêndios das universidades estranjeiras que érão todos em língua latina. E as escólas que D. Dinís e seus sucessores estabelecêrão fóra d'alí, érão ou de primeiras letras onde só se ensinava a ler e escrever, ou de gramática latina, sendo lá absolutamente desconhecida a gramática portugueza,--circunstáncias que sòmente cessárão no fim do segundo quartel do prezente século.
E as escólas jerais e a universidade criárão os ómens de letras que, com o andar do tempo, fixárão a língua e lhe determinárão a ortografia, a qual, como éra natural, aferírão pelo latim, dando lugar a Càmõis poder dizer:
E na língua na qual quando imajina, Com pouca corrução crê que é latina.
Se é que póde dizer-se que foi determinada uma ortografia, tendo cada clássico e cada lèccicógrafo ortografado a seu módo.
Com tudo a istória ensina tambem, que a nação continuou a falar a sua língua, aceitando sòmente os aperfeiçoamentos que recebia a gramática, e modificando racionalmente a prozódia. Éssa língua alatinada pela ortografia que se estabeleceu, ficou circunscrita aos impréssos e á escritura dos eruditos, sendo apenas falada por alguem que queria afètar de sêl-o.
Em fim éla ensina que por isso, apezar do latim continuar dominando como senhor, apezar da gramática latina continuar a ser a única professada oficialmente, limitados sempre os professores d'instrução primária ás xamadas primeiras letras, a linguájem falada foi sucessivamente ganhando vitória sobre vitória contra a linguájem escrita. O que se escrevia e imprimia em 1836, aí está para demonstrar como já se axava alterada a ortografia estabelecida nos séculos XV e XVI.
E pela sua parte o prezente móstra a todos, quão fecundo foi o impulso dado pelas leis sobre instrução publicadas néssa época recente, e qual o rezultado d'élas e de outras que viérão depois, principalmente as de 1844. Oje temos nos liceus um curso m[~u]ito dezenvolvido de português, e em quázi todas as escólas primárias se ensina alguma couza de gramática portugueza. Quanto á latina, de que em outro tempo avia uma cadeira quázi em cada concelho, basta dizer que, fóra dos liceus, os distritos de Leiria e Béja, por ezemplo, tem cada um a sua, e o de Lisboa tem duas; e os dicionários aprezêntão próvas irrecuzáveis de quanto vai diminuído o respeito pela etimolojia latina.
Desde m[~u]ito, finalmente, que o latim deixou de ser a língua das relaçõis internacionais. Quando este âno o mundo católico acudiu ao Vaticâno a celebrar o meio centenário do venerável bispo d'Imola, oje assentado na cadeira de S. Pedro, fôrão bem raros os discursos e missivas em latim. Apenas de Roma vem ás nóssas xancelarias diplomas néssa língua, mas que são dados ao público em português. Passárão de móda as apóstrofes e sentenças latinas, com que d'antes se apimentávão entre nós os discursos e escritos; e até já os prègadores quázi si limítão a dar em latim o tema dos sermõis. De módo que, se ele não fora a língua dos ofícios divinos e preparatório obrigado para os estudos superiores, teria já partilhado a sórte das línguas mórtas; e vel-o-íamos em bréve a par do grego, de que temos apenas três ou quatro cadeiras, que m[~u]ito poucos alunos freqüêntão: como o móstra a d'ésta cidade, onde no âno passado se matriculárão _dois_, e este âno _nenhum_.
* * * * *
Em vista pois de tudo isso que dis o passado e móstra o prezente, a decizão da comissão axava-se determinada por si mesma. A influência do latim está m[~u]i decadente, e o português afirma nóbre e dezassombràdamente a sua vitalidade e direito a pléna emancipação. A nóssa língua tem feito regulàrmente a sua evolução na pronúncia, constituindo-se aquí em compléta independência; tentou-se por vezes tornal-a tambem independente na escritura; e foi isto conseguido em parte pela própria força das couzas. Parecia pois não se poder deixar de realizal-a complètamente, ao tratar-se de dar-lhe uma ortografia nòrmal.
Entendeu portanto a comissão, que xegara o momento de estabelecermos a pléna independência da língua em matéria ortográfica; fazendo com o latim, o que os latinos fizérão com o grego. O latim recebeu intato do grego, o que se julgou apropriado á sua índole e circunstáncias; o que o não éra, mas se julgou apropriável, aceitou-se apropriando-o; o que se considerou inapropriável, rejeitou-se. É o caminho que já seguírão espanhóis e italiânos, e que em França se tem instado e insta para que seja seguido; e não crê a comissão que possâmos seguir outro.
O jénio da língua portugueza definiu-se já bem na sua evolução; língua do meio dia, repúgnão-lhe as asperezas que a acumulação de consoantes tórna inerentes ás línguas do nórte; a pronúncia jeral admite quázi só as consoantes necessárias á articulação das vogais entre si. Esse jénio pois, as circunstáncias àtuais da língua, a conveniência de facilitar o seu ensino, as tendências da época, etc., tórnão impossível o retrocésso, e forçozo adòtar a pronúncia como baze da ortografia.
Nem podia impedir a comissão, de o fazer, a pretendida incapacidade para reprezentar esse importante papel, de que os etimolojistas tem sempre acuzado e continúão acuzando a pronúncia, atribuindo-lhe uma estrema inconstáncia. Neste mesmo momento acaba de publicar-se em París uma m[~u]ito erudita óbra, cujo àutor (G. Berchère), narrando os m[~u]ito grandes e muitíssimo repetidos esfórços que em França se tem feito constantemente para estabelecer a ortografia sónica, se aprás em repetir todas as objèçõis que se lhe tem oposto; e néla se dis que «abandonada aos caprixos da pronúncia, a palavra é como um cavalo indócil sempre pronto a escapar-se», reclamando que para se assegurar a estabilidade da língua, aquéla se consérve «amarrada ao póste da etimolojia».
A comissão considéra ésta objèção sem valor. A pronúncia não é imutável; mas, se nós vemos entrar a miúdo palavras nóvas na língua, não vemos que se mude sensivelmente a pronúncia das que néla ezístem. E contra a mobilidade natural da pronúncia já se mostrou com a istória na mão, que não é a etimolojia barreira competente. M[~u]ito mais fórte barreira á-de ser o dicionário, onde éssa pronúncia seja determinada, assim como a ortografia; ele fixará uma e outra; ainda mais, ele concorrerá para a unificação da pronúncia, porque na escóla nòrmal se ensinará a pronúncia nòrmal, e os professores alí abilitados irão derramal-a em todo o país. Se a _Academia_, como assevéra o àutor citado, domina de tal módo aquéla volúvel França, que a sua submissão é tão compléta que éla fás passar por ignorante e sem educação literária todo aquele que cométe uma falta contra a ortografia recomendada pelo _Dicionário_, podemos ficar cértos de que os nóssos compatriótas, m[~u]ito dóceis, menos vários e pouco recalcitrantes, se sujeitarão sem relutáncia e cumprirão fielmente as prescriçõis do dicionário que lhes dérem.
E não válem a seu ver, mais que este, os outros argumentos dos etimolojistas, que a comissão, como éra seu dever, ezaminou cuidadóza e concienciòzamente; entre os quais avulta o de se ficar inabilitado, adòtada a ortografia sónica, para utilizar os tezouros de saber encerrados nos livros escritos em ortografia etimolójica: com isso, esclâma o mesmo àutor francês, ficaria sendo uma mentira o pensamento de Pascal--que a umanidade é como um ómem que, subsistindo sempre, aprenderia sempre ao passo que envelhecia--. Em primeiro lugar quázi todos se limítão oje a ler as variadas publicaçõis da àtualidade; são da àtualidade quázi todos ou todos os livros por que se estuda nas nóssas escólas de todos os graus d'ensino; e os que vão consultar os vélhos abitadores das bibliotécas enfádão pouco os reprezentantes da nóssa literatura. Em segundo lugar um passo mais, no caminho já tão trilhado da transformação da língua, não nos levava tão lonje do estado prezente que se não pudésse fazer o que oje se fás. Nos dicionários d'agóra as palavras são bem diferentes do que fôrão em outras éras, e os literatos nem por isso deixão de entender os livros respètivos; do mesmo módo aconteria depois. A etimolojia lá estaria marcada no competente léccicòn; e num dicionário manual, bastaria pôr em parêntezis a palavra com a àtual ortografia, para ficar tudo remediado quanto aos livros modérnos: quem manuziava o dicionário, vendo sempre a palavra com ambas as ortografias, ficava conhecendo tão bem uma como outra.
Conseguintemente, a razão e a lójica aconselhávão á comissão a ortografia sónica, que é o progrésso; e decidiu adòtal-a em princípio.
Avendo aceitado e tendo de propor o princípio, a comissão julgou dever estudar e propor tambem um método para ele ser levado á prática. Óra, a eicelencia da ortografia sónica deriva principalmente do seu princípio fundamental,--a unidade da reprezentação dos sons; isto é, cada som é segundo éla reprezentado sòmente por um sinal, e cada sinal reprezenta unicamente o seu respètivo som. Éra tal princípio, por conseguinte, um ponto de partida forçado; e para aplical-o, tornava-se tambem forçozo determinar o número de sons elementares que avia a reprezentar, e os sinais mais próprios para éssa reprezentação.
Passando pois a estudar este momentozo assunto, éla teve de decidir-se sobre a pronúncia que devia tomar por nórma; e pareceu-lhe que, para este e para quàisquér outros pontos relativos a pronúncia, devia pôr de parte tanto a d'aqueles que são mais ou menos analfabétos, como a dos eruditos apàixonados pelas raízes etimolójicas que quérem que a pronúncia se subordine á ortografia em vês d'ésta se subordinar àquéla, e que devia aceitar como pronúncia nòrmal a dos que lem e escrévem mais ou menos regulàrmente, a qual é tambem a da màiór parte dos eruditos. E do seu estudo, assim como do ezame do nósso alfabéto, concluiu o seguinte:
_1.^o_ Que os elementos da nóssa prozódia são _10_ sons vogais simples, isto é--_a_ aberto, fexado e surdo,--_e_ abérto, fexado e surdo,--_i_,--_o_ abérto e fexado,--_u_--; os quais se fázem ouvir, o _a_ fexado na primeira sílaba de _gâmo_ e os outros no fim das seguintes _9_ palavras: _òlá_ _cóva_, _café mercê vide_, _ali_, _cipó_ _avô_, _tu_. (O som de--_o_--surdo é igual a--_u_--brève).
Que d'esses sons recébem a entoação nazal cinco,--_a_ abérto, _e_ e _o_ fexados, _i_, _u_--, como se vê da primeira sílaba d'éstas _5_ palavras: _lança_, _pênte_, _tinta_, _pônte_, _mundo_.
Que temos _11_ ditongos ou sons vogais compóstos, isto é, _ái_, _áu_, _éi_ _éu_, _iu_, _ói_, _ui_, _ei_ _eu_, _oi_ _ou_; do que dão ezemplo as palavras: _ráiva_ _Páulo_, _cordéis_ _arpéu_, _feriu_, _bóia_, _ruivo_, _peito_ _feudo_, _boi_ _Vouga_.
Que não averá dúvida quanto á subjuntiva de todos estes ditongos, nem quanto á prepozitiva dos primeiros _7_, mas que póde avêl-a quanto á dos _4_ últimos; a qual a comissão entende não ser _e_ fexado para os _2_ primeiros nem _o_ fexado para os segundos, mas um som intermédio entre o som abérto e o som fexado de cada um.
Que d'esses ditongos recébem a entoação nazal _ái_ _áu_, _ei_, _oi_, _ui_; como se obsérva por ezemplo nas palavras _mãi_ _mão_, _bem_, _põi_, _m[~u]i_.
E que, àlem dos elementos vogais temos _20_ consoantes ou articulaçõis, que são--_be_, _ce_, _de_, _fe_, o som gutural de _g_, _je_, _le_, _me_, _ne_, _pe_, _qe_, _te_, _ve_, _xe_, _ze_, _rre_, _re_, _lhe_, _nhe_, e o som sibilante que o _s_ reprezenta no fim das sílabas, o qual se aprocima muitíssimo de _ze_; articulaçõis que se áxão respètivamente na segunda sílaba das _20_ palavras seguintes: _sébe_, _téce_, _póde_, _Fafe_, _dógue_, _oje_, _fóle_, _nóme_, _cóne_, _tópe_, _léque_, _póte_, _léve_, _peixe_, _onze_, _bérre_, _fére_, _mólhe_, _ganhe_, _bàús_.
_2.^o_ Que o módo de reprezentar os sons vogais, racionalmente e em armonia com o princípio da unidade de reprezentação, é aquele por que vão acima dezignados nos ezemplos, á parte as vogais acentuadas e algum sinal por meio do qual se queira notar que _e_, prepozitiva de _ei_ _eu_, e _o_, prepozitiva de _oi_ _ou_, reprezêntão sons especiais; adòtando-se, como sinal de entoação nazal, unicamente o acento nazal ou _til_.
E que a maneira mais racional de reprezentar os consoantes ou articulaçõis, é tambem aquéla por que vão dezignados, isto no que tóca aos _15_ primeiros e ao último e tambem ao som brando do _r_; pois que o som áspero d'ésta letra, assim como as articulaçõis _lhe_ _nhe_, dévem ter sinais próprios e únicos.
* * * * *
Ora, em vista d'éstas concluzõis, a comissão julgou dever seu propor as duas seguintes colèçõis de régras, que constitúem um sistema compléto para levar á prática a ortografia sónica em toda a sua pureza, quando no futuro isto seja realizável, unicamente com ésta restrição: que os nómes de línguas estrânhas, em quanto não são nacionalizados, se emprégão tais quais são na língua respètiva, sendo os apelativos sublinhados no mànuscrito e póstos em itálico nos impréssos.
E advérte que coordenou as régras de cada uma, segundo a facilidade com que entende que as alteraçõis que encérrão, pódem ser aceitas pelo público; isto é, em armonia com o módo, pelo qual a refórma se poderá ir ezecutando, que vai indicado no fim.
Régras relativas a vogais
1.^a
Não se empréga--e--a reprezentar--i--nos ditongos; empréga-se--i--, escrevendo por ezemplo: _pai_ _navais_ _amais_, _mãi_ _cãis_; _dói_ _erói_, _dóis-te_ _faróis_; _foi_ _bois_, _põi_ _põis_ _coraçõis_; _azuis_.
2.^a
Não se empréga--o--a reprezentar--u--nos ditongos orais; empréga-se--u--, escrevendo por ezemplo: _pau_ _bacalhau_, _céu_ _véu_, _meu_ _deu_, _viu_ _feriu_.
3.^a
Não se empréga--y--a reprezentar--i--; empréga-se--i--.
4.^a
Não se empréga--e--a reprezentar--ei--nos cazos da terminação--ea--(que outros escrévem--êa--e tambem--éa--), nos de _sexto_ _texto_, etc., e nos de--ex--inicial em que é sílaba predominante ou seguido de--ce ci--, e tambem em _ex-ministro_, etc.; empréga-se--ei--, escrevendo por ezemplo: _correia_ _plateia_, _deistra_ _seisto_, _eizito_ _eicéto_ _eicitar_ _eis-ministro_.
5.^a
As vogais--a e o--abértos, que não são sílaba predominante da palavra, acentúão-se com acento _grave_ (`): ezemplo, _àcerca_ _esquècer_ _mòrdomo_.
6.^a
As vogais--a e o--abértos, bem como as vogais--_i_ _u_--, acentúão-se com acento agudo (´), quando são a sílaba predominante; as vogais--a e o--fexados acentúão-se com acento circunfléço (^).
Eicètúão-se os cazos seguintes:
_1.^o_ Não se acentua a vogal em--al el--(eicéto nas palavras esdrúxulas) e nas terminaçõis---ar ol--, em que é abérta; menos nos cazos como _vêl-o_ _pôl-o_ _fazêl-a_ _perdêl-os_ _comêl-as_, em que é fexada.
(Nos cazos como _ámal-o_ _fázel-a_ _pérdel-as_, _amal-o-ei_ _sel-o-á_ _perdel-a-ia_, _pol-o-ias_, etc., é surda).
_2.^o_ Não se acentua a vogal nas terminaçõis--il ul ir ur--; e nas terminaçõis---er or--, quando é fexada; eicéto no vérbo _pôr_. (Acentua-se quando é abérta. É surda unicamente nas prepoziçõis _per_ _por_).
_3.^o_ Não se acentua o--a--dos ditongos--ái áu--nos monossílabos e na sílaba final; e na primeira sílaba, em palavras de duas, quando for surda a vogal da última, como em _caixa_ _caixas_ _baixo_ _baixos_ _baile_ _bailes_ _cauza_ _cauzas_ _auto_ _autos_ _fraude_ _fraudes_.
_4.^o_ Não se acentúão, em penúltima sílaba, as vogais nazaladas nem---a---abérto e--e o--fexados nem--i u--, quando for surda a vogal da última; menos--i u--nos cazos como _saída_ _faísca_ _saúde_ _balaústre_ _reúne_ _miúdo_ _ruído_ e semelhantes, para evitar que se faça ditongo.
7.^a
Não se empréga--u--depois de--g--e de--q--quando é nulo.
8.^a
Não se empréga--e--a reprezentar--ei--nos cazos de--em en--, como em _bemaventurado_ _bemdito_ _Bempósta_ _àlem-mar_ _semsaboria_, _tem_ _tens_, _desdem_ _desdens_, _imájem_ _imájens_; empréga-se--ei--nazal.
9.^a
Não se empréga--o--a reprezentar--u--em--au--nazal; empréga-se--u--, escrevendo por ezemplo: _mãu_ _sòtãu_ _barãu_, _âmãu_ _amárãu_ _amarãu_.
10.^a
Para reprezentar os ditongos orais emprégão-se caratéres próprios, formados das duas respètivas letras ligadas convenientemente.
11.^a
Para reprezentar os ditongos--ai au ei oi ui--nazais, emprégão-se sinais próprios, formados das duas letras com o _til_ a abranjêl-as ambas.
Dos ditongos--au ei--averá carátèr longo e bréve. O carátèr longo terá um acento agudo a cortar o til.
12.^a