Ramo de Flores acompanhado de varias criticas das Flores do Campo
Chapter 4
João de Deus não canta para a sociedade, canta para si. Quer discorra por vergeis de poesia singela e perfumada, quer se eleve a alturas desmedidas, não se importa de que lhe não oiçam nem entendam o canto sempre harmonioso. É talvez por isso que elle não publicou, nem publicaria as _Flores do Campo_.
Ao amigo que lh'as estampou, muito devemos nós todos os que presamos as nossas boas letras.
Agora se me offerece caso para cogitações profundas: as _Flores do Campo_ saíram a lume ha quasi um mez, e, até á data em que te escrevo, dormem os nossos criticos a bom levar, sem que uma palavra lhes haja irrompido dos labios, sobre o merecimento d'este magnifico livro. Aqui, ha por força caso virgem, mas... ponto em bôcca.
E pois que os criticos não querem, ou não ousam, pronunciar o seu _veredictum_, vou eu mostrar-te o valor em que tenho as _Flores do Campo_, por que me digas ao depois se não são ellas, para a nossa litteratura, prenuncios d'um outono avergado de fructos.
Quando o visconde de Chateaubriand trabalhava por agremiar em torno da cruz as multidões, que ainda sentiam nos ouvidos a voz tentadora de Robespierre e Mirabeau, surgia na Inglaterra um homem extraordinario, personificação pasmosa do genio e do scepticismo--lord Byron.
Ninguem como o cantor do _Childe Harold_, pôde jámais aliar uma alma de poeta ao scepticismo, á duvida, á frieza, que ressumbram de cada verso do _Don Juan_:
For me, I know nought; nothing I deny, Amit, reject, contemn; and what knew you, Except perhaps that you were born to die? And both may after all turn out in true.
Mas... na mente de Byron reflectia-se uma das tendencias mais caracteristicas da sociedade contemporanea; o scepticismo apresentou-se revestido com a aureóla do genio, ergueu-se como chamma incendiaria, e lavrou pela litteratura do seculo.
Que restava aos adeptos da poesia? O maior numero, como os companheiros de Ulysses, deixou-se arrastar pelos cantos da sereia, e, se não abordou á ilha encantada, d'onde lhe acenava a gloria, mediu a profundeza do abysmo que a tentação lhe abriu aos pés...; outros, refugiram á attração, e velejaram alegres por onde os não batessem os pampeiros da descrença e do scepticismo.
A poesia que abre o livro de João de Deus é o emblema dos dous rumos por onde tomam os argonautas da arte, e estrema o scepticismo e crença, _Camões_ e _Byron_. Não sei se esta composição vale muito aos olhos dos mestres; para mim, é das mais somenos de João de Deus, e, se não fôra collocada alli para denunciar, talvez, as crenças litterarias do auctor, não a quizera vêr á entrada d'este livro. A arte exige para um edificio primoroso um portico lavrado a primor.
Na composição alludida, se a ideia é grande e original, a fórma que a reveste não, não é perfeita; sem fórma, não concebo arte, e sem arte não se traduz o sentimento do bello.
Não vás porém julgar que estou dando lições de poetica a um poeta como João de Deus. Mais do que ninguem, conhece elle por ventura os defeitos do seu livro, e, se os poupou, ao limar os seus versos, é que não teve em tanta conta, como geralmente se tem, certas exigencias da arte.
Que vês?--Sóes, de tal sorte Que os crêra tochas _pallidas_, Quando as guedelhas, _madidas_ De sangue, arrasta a morte.
...........................
--Falla.--Deus! que harmonia! Aqui a alma _exalta-se_; A alma aqui _dilata-se_... _Camões!_--É a poesia.
Nem a critica imparcial tanto exige, nem eu tenho logar bastante para transcrever aqui todas as estrophes, em que as rimas se me deparam defeituosas e erradas. Cito-te de passagem _queime_ e _geme_, _deixe_ e _feche_, _confesso_ e _immenso_, _cuides_ e _virtudes_, _outro_ e _encontro_, _géra_ e _inteira_, _teimo_ e _supremo_, _prega_ e _negra_, _avaro_ e _ara_, _sêde_ e _hei-de_, _põe_ e _foi_, _vê_ e _adorei_, _inteiro_ e _quero_, etc.
E comtudo João de Deus parece brincar com as maiores difficuldades da rima. Para não fallar na poesia _Boas Noites_, basta apontar-te aquelle trecho da poesia _O Musgo_:
Um dia, não sei que tinha... Uma tristeza tamanha! E lembra-me ir á montanha Que temos aqui visinha, Onde em tempo me entretinha Horas e horas sósinha, Quando ainda não se extranha Que n'uma teia de aranha Se prenda uma innocentinha, Ou atrás d'uma avesinha Se cance a vêr se a apanha.
Em metricação tambem as _Flores do Campo_ nos offerecem provas de que João de Deus não é, n'este ponto, nimiamente escrupuloso. Assim ficou errado este decassyllabo:
Chamando-os com enternecimento,
e aquelle septissylabo que vae sublinhado:
Que é a torre exactamente _De David n'esses ares,_
para não citar passagens como estas:
_Adeus tranças côr de ouro,_ Adeus peito côr de neve.
_Tornaram-se-me em estrellas_ _As lagrimas de dôr._
Versos ha tambem nas _Flores do Campo_ defeituosos pela disposição dos accentos predominantes. Bastam tres exemplos em versos decassyllabos:
Ha puros sonhos de imaginação.
E eu digo, digo á luz scismadora.
Expôz aos coices... leão moribundo.
Mas um verso completamente errado, e que por certo não sahiu assim da penna de João de Deus, é aquelle
Que fez tremer as abobadas do inferno.
Não é necessario ser auctor das _Flores do Campo_, para condemnar um verso tal. Descuido do impressor, e falta de cuidado na revisão, occasionaram aquelle erro, a que de prompto se obviaria com a suppressão de dous _ss_ inuteis.
O que para alguém não será defeito, mas que para muitos torna inintelligiveis algumas passagens, do livro, é, por vezes o abstruso da ideia, velada por sombras impenetraveis. Dá-me tu, se podes, a chave d'este enigma:
Oh! ha tres vistas com que as coisas vêmos; Ha tres rasões que as coisas determinam; Uma a dos olhos; outra a que escondemos N'isso ante que os álamos se inclinam; Outra a que dentro no coração temos, Que os limites do espaço só terminam: Coube a primeira em sorte á borboleta; A outra ao homem; a terceira ao poeta.
E quando João de Deus, á vista d'um retrato, exclama:
És tu! Amo-te e muito! O que fluctua Na fornalha que o sopro eterno acende, Não beija a mão do anjo que o suspende Com mais amor que eu beijo a sombra tua!»
Quem é que fluctua na fornalha acesa pelo sôpro eterno? Será o sol?
Especialmente n'aquelle fragmento que principia na pagina 130, mais alguns pontos se me deparam, para cuja interpretação me não sinto com forças. Não te faço mais citações, a este proposito, porque bem póde ser que toda a gente penetre o que para mim é escuro. Demais d'isto, parece-me que o poeta nem sempre tem obrigação restricta de moldar os vôos da sua imaginação pela myopia dos que só podem curvar-se diante das nuvens que velam a sarça ardente...
Agora, vaes talvez esquecer as manchas que divisastes n'esta joia litteraria, para festejares comigo quadros esplendidos de poesia originalissima, rica de sentimento, de graça e de harmonia.
Originalidades litterarias, poucos ha, já agora, que n'ellas creiam. Escorre de vez em quando, por ahi uma sanie de novidade tão asquerosa pelas folhas volantes da nossa litteratura de hoje, que os apreciadores de pituitaria melindrosa, não ha quem os desatrelle da sentença de que _tudo o que é novo é mau, e que tudo o que é bom é velho_.
_Nihil sub sole novum!_--cantava o Gessner biblico, asseguravam os juizes de Galileu, e rouqueja Boileau com os demais amphyctiões da litteratura. Respeitemos o talento; mas aos que duvidam da grandeza do genio, e pedem ao passado a chave do futuro, atiremos-lhe á face com a resposta de Galileu:--_E pur si muove._--
Admittida a originalidade, moldada pelo bom gosto, devemos saudal-a em João de Deus, o poeta mais original que eu conheço entre os nossos homens de letras. Estudo João de Deus, dês que leio versos, e ainda não pude encontrar o segredo d'aquella harmonia tão sua, d'aquella elegancia tão despretenciosa, d'aquelle sentimento que tanto nos captiva a alma, sem sabermos como.
Ou eu me engano muito, ou da poesia de João de Deus me vêm uns aromas que não desdizem d'aquella fragrancia que o esposo dos _Canticos_ aspirava nos jardins da Sulamite biblica; d'aquella gravidade scismadora que resaltava das cordas do psalterio de David; d'aquelle adejar sublime e vago da aguia de Páthmos. Tranemos agora o mar dos seculos, ponhamos ao lado das _Flores do Campo_ as fantazias de Schiller a Laura, e verás que muitos arrojos da imaginação do bardo portuguez não desmerecem a companhia dos do bardo do norte.
Mas, sobretudo, o que mais me enfeitiça nas _Flores do Campo_ é aquelle mimo e suavidade que matizam estrophes como estas:
Ah! quando no seu collo reclinado --Collo mais puro e candido que arminho,-- Como abelha na flôr do rosmaninho Osculava seu labio perfumado;
Quando á luz dos seus olhos... (que era vêl-os, E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!) Lia na sua bôca a Biblia Santa Escripta em letra côr dos seus cabellos;
Quando a sua mãosinha pondo um dedo Em seus labios de rosa pouco aberta, Como timida pomba sempre álerta, Me impunha ora silencio, ora segredo;
.....................................
Quando em balsamo d'alma piedosa Ungia as mãos da supplice indigencia, Como a nuvem nas mãos da Providencia Um lagrima estila em flôr sequiosa;
Quando a cruz do collar do seu pescoço Estendendo-me os braços, como estende O symbolo d'amor que as almas prende, Me dizia... o que ás mais dizer não ouço;
........................................
Tinha o céo da minha alma as sete côres, Valia-me este mundo um paraizo, Distillava-se a alma em dôce riso, Debaixo dos meus pés nasciam flôres.
É assim que João de Deus se recorda da visão fugitiva que lhe doirou os sonhos de poeta e moço. Mais adiante, parece esquecer o lucto da saudade, mas não perde a doçura da harmonia:
Como os teus pés são lindos! como é doce A curva do teu peito! Oh! se o meu coração fosse o teu leito, E o teu amado eu fosse!
Que preciosas perolas descobre Teu meigo, humilde labio! E virgem! como Deus foi justo e sabio Em te deixar tão pobre!
.................................... ........................ Tu não tens mais do que uma pobre saia, E essa, curtinha e leve.
Onde o corpo te alteia, a saia avulta; Onde te abaixa, desce... És como a rosa! A rosa nasce e cresce, Não para estar occulta.
O que te falta, pois? os teus desejos Quaes são? de que precisas? Ah! não ser eu o marmore que pisas... Calçava-te de beijos!
Ao terminar a transcripção d'este mimosissimo trecho, sinto não poder attribuir a João de Deus a chave que o fecha. O aprimorado e suave oratoriano Manoel Bernardes já tinha dito na sua excellente _Luz e Calor_, fallando a Jesus menino:
«Menino da minha alma, meu eterno nascido de ainda agora, meu gracioso molhinho de amores perfeytos, minhas bellezas encantadoras do coração humano: faze-me Serafim, para que te ame muito: dá-me limpeza grande em meus labios _para calçar teus pésinhos de mil osculos santos_: deyxa cahir das conchinhas de teus olhos hua lagryma sobre meu peyto, etc.» (Pag, 556, ediç. 1724.)
Mas que importa isso? Prouvera a Deus que os plagiatos, de que a litteratura anda eivada, se pautassem por este!
Vivacidade de expressão, galanteria e graça, podes vêr d'isso um modelo no madrigal, epigramma, ou como quizeres chamar-lhe, feito _A uns olhos azues_:
Cáe a folha da rosa pudibunda, Cáe a rosa da face virginal, Cáe das nuvens a aguia moribunda, Cáe o sol na montanha occidental.
.................................
Cáe do céo a centelha incendiaria, A nuvem cáe, se um sopro Deus lhe dá, Cáe ante o dia a noite solitaria Como o falso Dagon ante Jehovah.
Cáe tudo, flôr! cáe tudo; eu só não caio: Mais do que um rei, que o sol, egual a Deus, Cahir, mulher! só posso á luz d'um raio Se elle cahir do céo dos olhos teus!
De vez em quando, o poeta apparece-nos pensador e philosopho; mas, ainda assim, a razão não vence o sentimento:
Irmãs da Caridade! A Caridade Tem só duas irmãs--a Fé e a Esperança: Não traja as côres só d'uma irmandade, Traja as côres do Arco da Alliança; Leva sósinha o pão da piedade; Tira da roda essa infeliz criança...
....................................
Mais longe iria eu, se me propozesse trancrever tudo o que nas _Flores do Campo_ se apresenta digno dos mais levantados encomios. Assim, por não alongar em demasia a presente carta, recommendo-te a leitura da _Heresta_, da _Rachel_, do _Ultimo adeus_, da _Marina_, do _Remoinho_, do _Leito nupcial_, da _Innocencia_, da _Joven captiva_, e, muito especialmente, do _Cantico dos canticos de Salomão_.
Lamennais e Renan haviam traduzido esplendidamente o _Cantico dos canticos_; João de Deus inspirou-se da pastoral de Sulem, e fez um poema quasi seu: seu pela fórma, pelo colorido, e pela disposição das scenas.
O _Cantico dos canticos_ pertence, como sabes, ao numero dos livros sagrados, e é ponto inconcusso, entre os padres da Egreja, que os desposorios de que falla Salomão exprimem a união mystica do Verbo incarnado com a natureza humana, com a Egreja e com as almas justas.
Os presidentes da synagoga judaica prohibiam a leitura d'este livro a quem não tivesse mais de trinta annos; e, ainda em tempos do piedoso João Gerson, nem os doutores o liam antes d'essa edade. E de feito nem Theocrito nem Florian deram jámais aos seus idylios aquelle perfume voluptuoso que, por entre flôres de poesia immorredoira, livremente se respira no idylio de Salomão.
Theodoro Mopsueste teve o ousio de ligar a esse idylio um sentido exterior, e não mystico, interpretando-o litteralmente, mas foi condemnado pelo segundo concilio de Constantinopla. Hoje não ha temor de que a Egreja condemne João de Deus, e todos os que separam da poesia o dogma, talvez porque a Egreja, boa mãe, não quer vêr o mundo coalhado de herejes.
E que importam ao leitor as convicções de João de Deus? A alma piedosa que se edificava na contemplação dos amores da Sulamite, pela versão de S. Jeronymo, que perde ella contemplando-os na lingua de Camões? «Para um coração puro, tudo é puro.»--É palavra de Deus, com que o poeta se auctorisa para trazer a lume a interpretação litteral do _Cantico dos canticos_.
Já agora, apezar da extensão d'esta carta, deixa-me ainda expôr á tua vista algumas das paizagens mais seductoras d'este paraizo de amor, onde a volupia oriental se escoa semi-nua por ondulantes pradarias em flôr. Ouve:
A SALUMENSE.
Sou trigueira, mas formosa, Moças de Jerusalem! Senão, vêde o pavilhão Que arma em campo Salomão, Se ha coisa mais preciosa, E por fóra a cór que tem; Vêde as barracas dos moiros, Por dentro tantos thesoiros, Por fóra, negras tambem.
Não vos dê pois isso pena Ter assim a côr morena: Minha mãe mandou-me pôr, Por culpa de meus irmãos, De guarda á vinha; o calor Queimou-me o rosto e as mãos E eu, a vinha, é escusado Dizer-vos que nem eu tinha Senão agora o cuidado De estar a guardar a vinha. Oh! para que banda vás Com o gado, meus amores! E pela folga onde estás? Bem vês os outros pastores, E a gente não adivinha. Eu não hei de andar atrás D'esses rebanhos sósinha.
.........................
SALOMÃO.
Que enlevo! que formosura! A pomba não tem de certo No olhar tanta doçura: E fóra o que anda encoberto.
O cabello, em quantidade E tamanho, é singular; E não me lembra senão Das cabras de Galaad Ques lhes roja pelo chão Em ellas indo a andar.
Os dentes, em tu abrindo A tua boca, que lindo! Nem um rebanho de ovelhas Todas brancas e parelhas Quando em sendo tosquiadas Vêem sahindo do banho D'uma em uma, enfileiradas, E atrás d'ellas cada uma Seus dois gemeos d'um tamanho, Sem ser maninha nenhuma.
Pois a boca é comparada A uma fita encarnada. A voz, ouvil-a é um gosto. Parte a romã pelo meio Verás as rosas do rosto; E fóra no que eu receio Fallar, que me não é dado.
O pescoço, pensa a gente, Em o vendo de collares, Que é a torre exactamente De David n'esses ares, De baluartes, e toda, Lá cima, escudos á roda.
Os peitos, é um casal De corcinhas, que o seu pasto São açucenas do valle: Nada mais timido e casto. E deitam um cheiro á gomma Da myrrha mais do incenso, A ponto que ás vezes penso Que elles são duas collinas Por onde aquellas resinas Espalham aquelle aroma.
Se a esta hora me não accusasses de abuso de paciencia, ainda te repetia toda aquella mimosa _carta_ que principia:
Maria! vêr-te á porta a fazer meia, Olhando para mim de vez em quando, É o que n'esta vida me recreia.
Acordo até de noite, suspirando Por que rompa a manhã, e tenha o gosto De te vêr já tão cedo trabalhando.
Desde pela manhã até sol posto, Que não tens de descanço um só momento; Por isso tens tão bella côr do rosto!
E eu pallido, Maria! o pensamento Não é trabalho que nos dê saude, --Esta imaginação é um tormento!...[10]
Mas... basta. O livro de João de Deus tem defeitos: escaceia a revezes a ligação dos pensamentos, a clareza das ideias, a exactidão do metro, a perfeição da rima, e não metteria uma lança em Africa o linguista que nas _Flores do Campo_ descortinasse, uma vez por outra, impureza e incorrecções de linguagem. Se, porém, eu mirasse a comprovar, n'esta rapida e singela revista, com os versos de João de Deus a sympathia e a admiração que elles me devem, não seria este o espaço que abrangesse tudo o que alli me pareceu filho d'uma inspiração verdadeira e original. Demais, o poeta não lucraria com estas transcripções a esmo, sobre não poderes fazer do livro uma ideia exacta, á mingua de apreciador conspicuo.
Alexandre Herculano diz bem: a critica em Portugal é impossivel. Mas se nós todos cruzarmos os braços diante dos Ananias da litteratura que introduzem a mercancia do encomio, o servilismo e a chocarrice no santuario das letras, quem expulsará ámanhã os vendilhões, do templo? Já que me não ouvem, prega tu a estas multidões que não sabem o que amam, nem o que detestam; e praza a Deus que a tua voz não seja a voz do que bradava no deserto.
Post-scriptum
Bem avisado andei eu, quando, a proposito dos versos obscuros de João de Deus, tive a franqueza de conceder que toda a gente penetrasse o que para mim era obscuro. Os versos nublosos que lá citei, eram, pelo que me dizem, claros como agua. Um amigo nosso, optimo charadista ao que parece, pôz-me tudo em pratos limpos; e, pelos modos, o nosso OEdipo tem artes para desdar o nó aos mais envencilhados enigmas da mais implacavel Sphynge. Ora eu, que respeito o mysterio mas desadoro o enigma, e a quem nunca charadas desvelaram as noites, não pasmei de vêr luz onde se me antolhavam trevas. O discipulo amado de Jesus não jubilaria tanto, se visse quebrar os sete sêllos do livro que elle viu na visão do Apocalypse, como eu jubilei quando, a par de outras revelações, soube que o individuo que _fluctua na fornalha accêsa pelo sopro eterno_ é o anjo que as lendas piedosas figuram no purgatorio, dando a mão aos que lá se purgam das culpas temporaes para subirem ás regiões do premio eterno.
Pelo que vejo, a decifração não era para fazer suar o cabello; mas confesso-te que, se cem braços eu tivera, como Briareu, para revolver o embotado escalpello da minha critica, cem braços me desfalleceriam diante dos cem olhos d'estes Argos que espreitam maliciosos o rumo indeciso dos mineiros obscuros da justiça e da verdade...
Seguiu-se-me noite de insomnia. Visões estranhas vieram povoar-me o leito. Sobre o meu travesseiro dormiam comigo as magestosas _Torrentes_ de Theophilo Braga, livro de que, em seguida ás _Flores do Campo_, eu contava fallar-te. Por cima de mim, por cima do livro, emtorno do meu leito, adejavam uns demoniosinhos, microscopicos como os lilliputianos de Gulliver: uns expediam risadinhas agudas, como de feiticeiras em noites de S. João; outros folheavam o livro e dobravam os joelhos por baixo das estrophes de mais levantada inspiração; estes murmuravam monotono kyrie em volta do livro, arrancando-m'o da mão, como da mão d'um profano se arranca a hostia sacrosanta; aquelles desfaziam o livro em tiras, entreteciam com ellas uma corôa, e collocavam-n'a na cabeça. Se me voltava para a direita, os da esquerda escouceavam-me com um arreganho diabolico; se me voltava para a esquerda, os da direita afiavam a pequenina dentadura, e arranhavam-me as pantorrilhas. O equilibrio era impossivel: esmagava-me um pesadelo! Acordei.
Sobre a minha meza de trabalho estava um livro, notavel pela despretenção e suavidade do estylo, e pelo primor da versificação, sobre ser escripto em portuguez sem mistura; mas apenas no frontispicio li o nome de Antonio Feliciano de Castilho, passou-me pela mente a visão das _Torrentes_, e os lilliputianos da noite acercaram-se do _Medico á força_, reproduzindo os sarcasmos ou as ovações, os afagos ou as mordeduras, consoante as tendencias de cada qual.
Estava entre a bigorna e o martello, entre a cruz e a caldeirinha. Quem me salvaria de posição tão melindrosa? Um esforço supremo: fechar as _Torrentes_ e o _Medico á força_, e não aventurar juizo sobre estes notaveis livros.
Suspendo, pois, a revista do anno litterario de 1869, em quanto me vier á ideia aquella visão aterradora. Sinto-me com algumas forças para luctar com os lilliputianos da visão, mas não me sinto com paciencia para lhes soffrer os motejos e os tripudios, as risadinhas e as beliscaduras. Quero dormir a somno solto, e levar estas noites de Coimbra a sonhar sem pesadêlos, em paz com anjos e demonios, e até com os individuos das mais infimas classes animaes.
Não quero luctar como Chatterton. Chatterton luctou, mas teve depois Vigny que o cingiu de louros, immortalisando-o. A troco da immortalidade, ainda eu me atiraria á lucta: ve lá se queres ser o meu Alfred de Vigny.[11]
*Candido de Figueiredo.*
[10] Já que ao generoso critico merece especial menção a _carta_, advertiremos que o primeiro verso da ultima quadra é assim:
Nas asas da ventura atravessando.
[11] A Folha, (1869) n.º 7, 8, 9 e 10.
Fim das criticas das "Flores do Campo."
* * * * *
INDEX
RAMO DE FLORES
I--Sede de amor 5
II--Lamento 13
III--Enlevo 15
IV--Sempre 19
V--Espera 21
VI--Adeos 23
VII--Melancholia 25
VIII--Sympathia 29
IX--11 de Maio 31
X--Attracção 35
XI--Desânimo 37
XII--N'um Album 41
XIII--O seu nome 43
XIV--Saudade 51
XV--* * * 57
Criticas das Flores do Campo
Flores do Campo, por Alexandre da Conceição 63
Livros--Revista critica-bibliographica, por Luciano Cordeiro 75
Flores do Campo, por D. Guiomar D. Torrezão 105
Anno litterario de 1869, por Candido de Figueiredo 113
FIM DO INDEX.
* * * * *
Á VENDA
NA
LIVRARIA INTERNACIONAL
DE
ERNESTO CHARDRON
Obras de fundo e edições: