Ramo de Flores acompanhado de varias criticas das Flores do Campo
Chapter 3
Tenho-te muito amor, E amas-me muito, creio, Mas ouve-me, receio Tornar-te desgraçada. O homem, minha amada, Não perde nada, gosa; Mas a mulher é rosa... Sim, a mulher é flôr!
Ora, e a flôr, vê tu, No que ella se resume... Faltando-lhe o perfume. Que é a essencia d'ella, A mais viçosa e bella, Vê-a a gente e... basta. Sê sempre, sempre casta! Terás... quanto possuo!
Vou findar com as transcripções, que bastam as que ficam feitas para comprovar o que ácerca d'estas mimosas poesias e d'este original poeta tenho dito e hei de para o diante dizer. Não posso porém resistir á tentação de citar ainda uns trechos d'uma das mais bellas e caracteristicas composições de João de Deus. Podesse eu transcrevel-a toda!
Não tem nome. Chamam-lhe alguns «A vida». Innumeras vezes tem ella feito cessar as alegrias das salas e interrompido brilhantes festas como o austero bispo de certa poesia de Thomaz Ribeiro, para mendigar ao sentimento das damas um condoimento de triste sympathia pelas intimas amarguras do poeta. Tem por epigraphe aquellas formosas palavras do Tasso:
Cosi trapassa al trapassar d'um giorno, etc.
e começa:
Foi-se-me pouco a pouco amortecendo A luz que n'esta vida me guiava, Olhos fitos na qual até contava Ir os degraus do tumulo descendo.
Em se ella annuveando, em a não vendo, Já se me a luz de tudo anuveava; Despontava ella apenas, despontava Logo em minha alma a luz que ia perdendo.
Alma gemea da minha, e ingenua e pura, Como os anjos do céo (_se o não sonharam..._) Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura.
Não sei se me voou, se m'a levaram, Nem saiba eu nunca a minha desventura Contar aos que inda em vida não choraram.
Estas linhas fazem recordar Camões. Ha n'este tristuras que se manifestam por versos parecidos, mas eu prefiro estes ao tão conhecido soneto da «Alma minha gentil,» etc. Parece denunciar-se n'esta singelesa _morbida_, se póde dizer-se assim, mais sentimento e espontaneidade.
Vamos mais além. Que superabundancia de ímagens! Que riquesa e variedade de _sensação_! Que esplendidos quadros! Que magnificencia de colorido!
Ah! quando no seu collo reclinado --Collo mais puro e candido _que arminho_, _Como abelha na flôr do rosmaninho_ Osculava seu labio perfumado;
Quando _á luz dos seus olhos_... (que era vêl-os, E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!) Lia na sua bôcca a _Biblia santa_ Escripta em letra _côr dos seus cabellos_:
Quando aquella mãosinha pondo um dedo Em seus labios de _rosa pouco aberta_, _Como timida pomba_ sempre alerta, Me impunha ora silencio, ora segredo;
Quando, _como a alveloa_, delicada, E linda _como a flôr_ que haja mais linda Passava _como o cysne_ ou _como ainda_ Antes do sol raiar, _nuvem dourada_;
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Quando a _cruz_ do collar do seu pescoço, _Estendendo-me os braços, como estende_ _O symbolo d'amor que as almas prende,_ _Me dizia_... o que ás mais dizer não ouço;
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Quando o _ouro da trança_ aos ventos dando E a _neve_ do seu collo e seu vestido --_Pomba_ que do seu par se ia perdido, Já de longe lhe ouvia o peito arfando;[4]
Tinha o _céo_ da minha alma as sete cores, etc.
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Que é d'esses cabellos d'ouro Do mais subido quilate, D'esses labios escarlate, Meu thesouro!
Que é d'esse halito, que ainda O coração me perfuma! Que é de teu collo de espuma, Pomba linda!
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De dia a estrella d'alva empallidece; E a luz do dia eterno te ha ferido. Em teu languido olhar adormecido Nunca me um dia em vida me amanhece.
Foste a concha da praia. A flôr parece Mais ditosa que tu. Quem te ha partido, Meu calix de crystal, onde hei bebido Os nectares do céo... _se um céo houvesse!_
Fonte pura das lagrimas que choro![5] Quem tão menina e moça desmanchado Te ha pelas nuvens os cabellos d'ouro! .....................................
A vida é o dia d'hoje, A vida é ai que mal sôa, A vida é sombra que foge, A vida é nuvem que vôa; A vida é sonho tão leve Que se desfaz como a neve E como o fumo se esvae: A vida dura um momento; Mais leve que o pensamento, A vida leva-a o vento, A vida é folha que cáe!
A vida é flôr na corrente, A vida é sopro suave, A vida é estrella cadente, Vôa mais leve que a ave; Nuvem que o vento nos ares, Onda que o vento nos mares Uma apoz outra lançou, A vida--penna cahida Da aza da ave ferida, De valle em valle impellida A vida o vento a levou!
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_Talvez_, é hoje a Biblia, o livro aberto Que eu só ponho ante mim nas rochas, quando Vou pelo mundo vêr se a posso vêr; E onde, como a palmeira do deserto, Apenas vejo aos pés inquieta ondeando A sombra do meu ser.
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Depois d'isto comprehendeu-se que João de Deus se propozesse a traduzir o _Cantico dos Canticos_.
Como, se bem me lembro, diz Herder, os elementos primordiaes da poesia hebraica são a _sensação_ e a _imagem_, e posto que, no meu entender, a boa critica não possa monopolisar aquella feição em favor apenas d'aquella poesia, porque ella é caracteristica de todas as litteraturas na sua genese, e nos primeiros periodos de constituição, em quanto predominam no homem os sentimentos elementares como diz Veron[6], comtudo a poesia hebraica propriamente tal quasi não chega a ultrapassar o periodo d'aquelle predominio. Poderiam talvez accusar-se os versos que acabo de transcrever de certo _garridismo_ que mal iria ao sentimento que exprimem, se a violencia d'esse sentimento, o estado de exaltação sensorial não estivessem justificando o que parece defeito aos leitores que não sintam a transfusão psychologica que muitos hão de experimentar ante aquelles versos magnificos.
A poesia de João de Deus é verdadeira musica. Se eu estivesse agora para combater os que julgam como Lamartine[7] que a _versificação_, o rhythmo, a cadencia, a rima, são cousas indifferentes á poesia na «época adiantada e verdadeiramente intellectual dos povos modernos», os que teem tudo isso, como Heine (cit. por Max. Buchon) por completa puerilidade, para valente comprovação me podiam servir os versos do nosso poeta.
São elles geralmente como que uma psalmodía. Allia-se a musica e a poesia que tantos querem distancear, como se o rythmo fosse apenas elemento especial d'uma arte. João de Deus como que tem uma rhythmopêa espontanea. Sahe-lhe o verso moldado pela ideia e pelo sentimento, e n'este como n'aquelle a modulação existe pelas fataes variantes dos estimulos e das vibrações cerebraes. Procuraram os gregos systematisar as relações do rhythmo para com a idêa e o sentimento, como se fôra possivel marcar limite numerico aos modos de ser do pensamento, ou aos productos da actividade intellectual e esthetica. Se, pois, em muitos casos, são acceitaveis as velhas regras, geralmente a rhythmopêa deve ser producto espontaneo, e não _canon_ de escóla. E porque se dá o primeiro caso em João de Deus, é que talvez se revela nos seus versos, bem salientemente o cunho da personalidade, condição essencial d'uma obra poetica. É necessario não perder aquella de vista, porque, como diz o critico francez, que atraz citei, o verdadeiro merecimento, na poesia, está antes na esthesia do poeta de que na do leitor. Ora bastam as transcripções que fiz para vêr como a personalidade do poeta, o seu sentir e pensar se patentêam na expressão, na _fórma_, que em outros escriptores mal disfarça com arrebiques e ouropeis a carencia da sensibilidade e inspiração pessoal.
Ha mais poesia n'algumas _singelezas_ de João de Deus do que em muitos _versos_ laureados que por ahi correm como modêlos de _metrificação_, e que bem podem sêl-o, o que não basta de certo.
Mais poesia em pobre margarida Que aos pés se pisa, enthesourada vejo, Que em muita madreperola polida Que as cinzas guarda de finado arpejo.
Toquei eu agora n'uma das melhores poesias de João de Deus, poesia que elle diz ser fragmento, e fragmento que bem faz desejar a apparição da obra toda.
Vou ainda transcrever alguns trechos que lançam de certo muita luz sobre o vulto, quasi lendario do poeta, em pontos menos esclarecidos pelas transcripções anteriores.
Padre, ministro do Crucificado É bom ferreiro afeiçoando o ferro Com que ha de prestes ir rompendo o arado Os campos d'este secular desterro...
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Na montanha da Fé, mulher formosa Se ante mim a meus pés desenrolasse Como o demonio a vastidão pasmosa Que elle dava a Jesus se o adorasse E me pedisse em premio uma só cousa Ás mãos de minha mãe furtar a face; Eu lançava-lhe cuspo...
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Vêde-a ao berço, sofrega de vida Que a sua é pouca para dar ao filho; _Ella_ em cama de espinhos, mal vestida, _Elle_ enfaxado, em berço de tomilho; _Ella_ em continua, asafamada lida, _Elle_ vendo se apanha á luz o brilho... _Já descobrindo em tão tenrinha edade_ _Que toda a sua sêde é de verdade._
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Irmãs da Caridade! A caridade Tem só duas irmãs--a Fé e a Esperança: Não traja as côres só d'uma irmandade, Traja as côres do Arco d'alliança; Leva sósinha o pão da piedade, Tira da roda essa infeliz creança... Roda da vida que anda de tal sorte Que, em se lhe dando, é já contar com a morte.
Bemdita sejas tu, victima triste D'um peito amante e d'um amante ingrato! Que nunca á mesma loba lançar viste Inda mamando o cachorrinho ao mato; Bemdita sejas tu, que o que pariste Teu fructo, imagem tua e teu retrato Conservas como espelho onde te vejas; Bemdita sejas tu, bemdita sejas.
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Acaso é só dourada, altiva estola Que liga os corpos em as mãos ligando, Confunde corações e faz em summa Que a Deus se elevem duas almas n'uma?
Ahi tendes o apostolo, o campeão social. Não lhe aceiteis, muito embora, a doutrina. Acatae-lhe a generosidade, a grandeza da _ideia_, a robustez da convicção. Que poema enorme, magestoso e bello não será aquelle!
Colligir as poesias de João de Deus que por ahi andavam dispersas, mutiladas e perdidas, foi de certo um grande serviço ás patrias letras.
Prestou-o o snr. José Antonio Garcia Blanco.
Poeta mais original, mais rico, mais verdadeiro do que aquelle, não conheço na litteratura portugueza, e tanto como elle, ha de ser difficil de encontrar entre nós, na litteratura d'hoje. Um certo _mysticismo_ mal definido que recendem as suas poesias, é menos producto da tradicção que originalidade genial. João de Deus é um homem do Meio-dia com o vago ancear d'um poeta do norte. Opprime-o o _insufficiente_ como ao Faust. Se lhe désse para ser philosopho, onde iria parar?...
Como poeta tem alguma cousa de Ossian com alguma cousa de Goëthe...[8]
*Luciano Cordeiro.*
[2] «Goethe et Schiller» por E. Rambert. (Revue Suisse--fev. 1869).
[3] Quando digo «sensações sensoriaes», fallo das sensações «externas e internas», como vulgarmente se classificam, e não excluo as que se dão sem realidade objectiva que as provoque, e que constituem o estado pathologico da «allucinação», estado a que porventura se poderia reduzir algumas vezes, creio, o «mens divinior» dos antigos. Esta ultima observação é minha, as anteriores são de Luys (Recherches sur le système nerveux, etc., etc., cit. par Littré) e E. Littré, De la méthode en psychologie (Phil. posit.--Revue--1.^er vol.)
[4] Seguia-se a seguinte quadra, que não apparece na collecção e que eu acho não só egual em bellesa ás citadas, mas superior a algumas:
Quando _o annel_ da bôcca lusidia, Vermelha _como a rosa cheia d'agua_ Em beijos á saudade abrindo a magua _Mil rosas_ pelas faces me esparzia;
[5] Variante:
Oh lagrima das lagrimas que choro!
[6] Superiorité des artes modernes.
[7] Cours fam. de litt.
[8] Revolução de Setembro (1869) n.^os 8012, 8015 e 8023.
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FLORES DO CAMPO
DE
João de Deus
É indispensavel crêr na poesia como se crê no Evangelho, como se acredita em Deus. No perpassar d'esta via dolorosa, cortada a todo o passo de agrestes sinuosidades, a poesia luzindo de quando em quando ao viageiro extenuado como um iris de bonança, significa a mais completa redempção da materia pelo espirito.
Aguia sobranceira que elevando-se até perder de vista o lodo em que se immergem tantos e tantos seres, vae roçar com a fimbria da aza a crista das nuvens, confundindo os seus arrulhos mysteriosos com as melodias dos seraphins!
Creou Deus a poesia para que a primavera com os seus canticos e perfumes, com a sua opulenta vegetação, encontrasse quem a comprehendesse, quem a cantasse: creou Deus a poesia para escarmento ao vicio, distanceando-nos do finito que é o começo do scepticismo, para o infinito que é Deus! Surgiu a poesia para que nas trevas de um mundo que ri de tudo como Democrito, que tudo amesquinha, brilhasse uma luz que só de vêl-a a alma se purificasse e o espirito adejasse para o ideal.
Não chamem á poesia trivialidade.
Estudem os seculos; contemplem as nações e digam se a poesia teve ou não extraordinaria influencia nos grandes acontecimentos sociaes.
Quem, senão Roger de l'Isle, ergueu palpitante toda a França com umas quantas estrophes, a _Marseillaise_?
Não foram os versos de Shakespeare, de Milton, de Pope, que poderosamente concorreram a immortalisar a Inglaterra?
Portugal não deve a fama da sua gloria aos _Lusiadas_ de Camões?
Consintam os homens de algarismos, os materialistas que antepõem a carne ao espirito, que fazem d'ella o seu credo, que os poetas, os sonhadores de chimeras deixem devanear a imaginação por esses horisontes de anil; deixem que reclinados á proa do baixel da vida namorem o azul das aguas depois de terem contemplado o dos céos.
Ai da humanidade, se o poeta deixar pender a fronte desalentada ao partirem-se-lhe as cordas da lyra! a prosa invadirá o sanctuario dos mais nobres estimulos, e o sceptico exultará ao soltar a sua risada infernal como a dos condemnados do Dante.
Não sei quantas vezes temos lido as _Flores do Campo_, exhaurindo sempre novos e exquisitos perfumes.
Tem isso a originalidade, que é o distinctivo d'este poeta. Costumamos dizer com referencia a qualquer notavel escriptor nosso: aquelle talento tem a suavidade de Lamartine, o sentimento de A. de Musset, o mysticismo de Chateaubriand, a ironia de Byron, a energia apaixonada de Victor Hugo.
Porque não havemos de dizer que João de Deus tem o cunho original da poesia portugueza na sua mais genuina expressão?! Quem se compraz em parodiar constantemente os usos e idiomas dos de fóra, deve uma vez por outra, ufanar-se do que tem de seu original e portuguez de lei, como o é João de Deus em todos os seus escriptos.
Atravez dos versos do mimoso poeta contemplam-se as noites estrelladas de Portugal, o Tejo com as risonhas margens, Coimbra com a sua _Fonte das Lagrimas_, o clima emfim e a vegetação esplendida d'este pequeno eden.
Vê-se que este poeta é portuguez de feição, e comprehende-se quanto na patria de Camões e Garrett a poesia se manifesta espontanea e esplendida na fórma e ideia!
Começa o livro com a poesia _Camões e Byron_, e termina com o _Cantico dos Canticos_: abre pois com chave de prata para fechar com chave de ouro.
Ha estrophes de uma suavidade tão nimiamente infantil, tão peculiarmente despretenciosa, que a ninguem senão a João de Deus poderiam attribuir-se, quando mesmo o seu nome não estivesse engrinaldando luxuosamente o adito d'este livro.
Citaremos, entre muitas, estas:
Maria! vêr-te á porta a fazer meia Olhando para mim de vez em quando, É o que n'esta vida me recreia. ..................................
Esses olhos azues... que olhar! Receio E desejo estar sempre a contemplal-o; Não ha mais doce e mais custoso enleio.
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Bem poderas, Maria andar tapada Só com o teu cabello, á similhança Do sol em nuvem de manhã doirada.
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A bôca é tão vermelha que, em te rindo, Lembra-me uma romã aberta ao meio, Quando já de madura está caindo.
Na poesia _Innocencia_ revela o poeta, a par de uma finura de sentimento e extrema sensibilidade, um preito á virtude, que toda a mulher que a lêr deve necessariamente sentir-se attrahida por um sentimento de gratidão para quem a escreveu:
Casta innocencia, de Deus filha e bella Entre as mais bellas! virginal aroma! Rosa ineffavel, que se á luz assoma, Haste e raiz apodreceu com ella!
Percebemos tambem que João de Deus pertence ao numero dos crentes, ainda tão mal limitado; prova-o exuberantemente as suas poesias _Luz da Fé_, _Fragmento_, e varias outras.
Deus era inda meu pae. E em quanto pude Li o seu nome em tudo quanto existe; No campo em flor; na praia arida e triste, No céo, no mar, na terra e... na virtude!
Como o poeta adora a poesia e o quanto tem d'ella feito o seu credo, dil-o eloquentemente esta quadra:
Oh! poesia, poesia altissima Como o fecho do impyreo! eu me ajoelho E beijo a tua base, harpa celeste! O coração--a corda que nos deste.
Na alma d'este homem que tem na fronte uma estrella de fogo e talvez um martyrio no coração, suspiram ternuras indiziveis que a sua lyra traduz em canticos suavissimos:
É do sangue e das mães que eu fallo, e certo, Que ha na vida mais sancto? O sangue é vida; E as mães fontes de vida: eu nunca esperto Esta lampada d'alma, suspendida Na abobada eterna e que tão perto Parece ter a origem.............. ....................senão quando Vejo essa cara imagem suspirando.
Querem dizer, e talvez com razão, que João de Deus abusa da rima deixando-a por vezes defeituosa.
A meu vêr esta pecha está na razão das manchas que o sol contém, mas que os nossos olhos não descobrem sem o auxilio do telescopio, o que não obsta a que o sol seja o astro do dia.
«Marcar balisas á poesia, é impossivel, diz um illustre poeta e critico, a poesia é livre como o pensamento, e grande como a immensidade.»
Eis-ahi está o segredo da culpa, e _feliz culpa_!
Se João de Deus pertencesse a um certo numero de poetas que esgravatam na areia e folheiam livros alheios primeiro que possam rabiscar algumas insulsas linhas, talvez a rima lhe saísse menos incorrecta segundo a arte, mas acanhada e rachitica segundo o pensamento.
A verdadeira poesia, como diz C. de Figueiredo, surge livre como a natureza; irrompe, inunda de luz de fogo, sem muitas vezes poder sujeitar-se aos acanhados moldes da arte.
Apparece-nos o poeta, namorado como Bernardim Ribeiro, n'estas dulcissimas estrophes:
Não ha existencia alguma Que não tenha amor, nenhuma; Porque o amor, é, em summa, Essencia de todo o ser. Ha sempre quem nos attraia, Mil vezes que a onda caia, Ha uma rocha, uma praia Aonde a onda vae ter.
Seria um nunca acabar se fossemos a exarar aqui todas as preciosissimas joias d'esta corôa opulenta que veio enriquecer a nossa litteratura.
Apartamo-nos do livro com extrema saudade, recommendando á leitora, que por acaso ainda o não possue, a prompta acquisiçao d'elle para collocal-o ao lado das rosas, jasmins e violetas com que, durante a formosa estação que se avisinha, ha de perfumar o seu _boudoir_.[9]
*D. Guiomar D. Torrezão.*
[9] Voz Feminina (1869) n.º 60.
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ANNO LITTERARIO DE 1869
CARTAS A J. SIMÕES DIAS
Á hora dos phantasmas, á meia noite, escreveste o _Anno litterario de 1868_. A noite é sombria e triste; e por isso as tuas reflexões humoristicas não occultam de todo a descrença, a tristeza e o desanimo, com que espalhaste a vista pelas coisas litterarias da nossa terra.
Fundado ou infundado, não chamarei eu esse desalento, porque, de onde em onde, nos encontrariamos, se eu fosse ajustar o padrão da tua critica ao juizo que eu fizesse de producções da arte.
Não posso, comtudo, deixar de querer muito a essa franqueza, que é o teu caracter, e a tua regra em materias de critica. E tanto mais lhe quero, quanto eu reconheço que a franqueza, hoje em dia, é fazenda de contrabando nas nossas alfandegas litterarias.
Quando o anno de 1868 pertencia já ao passado, scismavas á meia noite sobre o mau rumo que te pareceu levarem as nossas letras. Eu sou um pouco mais crente, e menos atrabiliario: á entrada de 1869, estendo os olhos ao futuro, e espero e creio muito, porque já não são de pouca monta as primicias que nos offerece o anno litterario de 1869. Fallo das _Flores do Campo_ de João de Deus.
Com a analyse d'este livro, abro uma serie de apreciações, em que te fallarei das obras poeticas que n'este anno, e em Portugal, se derem á estampa. O meu voto, em materia alguma tem força, nem eu procuro dar-lh'a, para se insinuar no animo do publico: é um voto individual, em que apenas acharás o merito da sinceridade e da franqueza.
Direi de caminho que não sigo a trilha que me deixou o teu _Anno litterario_. Não deslembrarei os preceitos da critica analytica, para não apreciar, em synthese, obras que exigem demorado exame das suas partes.
Tambem não escolho, para te escrever, a hora lugubre dos phantasmas. Começo a escrever-te ás horas d'uma esplendida manhã, espalhando os olhos por aquellas duas margens do nosso Mondego: a relva rasteira que as veste, e que me falla de vagas esperanças, ha de desentranhar-se em flores e fructos. Deixa-me crêr muito no dia de ámanhã.
E porque não virão as flôres da poesia derramar perfumes sob este céo de Portugal, n'este _jardim da Europa_, onde já suspirou melodias Bernardim, Camões, Garrett, Castilho! Não morre a poesia portugueza: a estatua da deusa ainda não tremeu na peanha; e quando os iconoclastas do bello quizessem contra ella erguer braços profanos, a quantos apostolos da arte não teriam de suffocar a voz!
Bem-vindos sejam estes sonhadores de chimeras, estes utopistas cheios de alma e coração, luctando de contínuo com o mundo real, e de contínuo erguendo-nos a mundos imaginarios, mas bellos d'uma belleza que não é da terra!
Fallo-te da poesia individual, e eu sei bem que lhe não queres tanto como eu. Desejas que a poesia se concentre no mundo estreito dos fins sociaes; entendes que a poesia deve de limitar-se a mostrar o caminho á humanidade que marcha, ou á exaltação dos dogmas do seculo. Por certo que se não desvirtua a poesia, seguindo por taes veredas; mas o genio não tem peias nem limites: veste de luz o lirio dos valles; alumia a estrada ao caminheiro da vida; doira as arestas do serro escalvado; enche a noite de luz; de fulgores inunda o espirito, e não sei por quantos mundos nos leva a alma absorta!
Marcar balisas á poesia, é impossivel, porque a poesia é livre como o pensamento.
Deixa pois cantar os poetas que levantaram a vista do pó da terra, onde tudo é limitado como a materia, e vil como o gusano das ossadas. Deixa que eu te falle de um poeta, cujo espirito é aguia que raro avisinha a ponta das azas aos marneis da sociedade. A gente pasma da altura a que se eleva aquelle espirito, e acontece ás vezes que a nossa vista não póde acompanhar tão levantados vôos: perde-se elle no vacuo, e, quando divaga em mares de luz, ficamos nós em trevas, sem vêr a direcção que elle toma...