Ramo de Flores acompanhado de varias criticas das Flores do Campo
Chapter 2
Bem intima ser deve A pena que te opprime, Flôr tenra como o vime, Flôr pura como a neve!
.......................
Vós, lobos! ide em bando, Trepae pelo rochedo, Uivae, mettei-lhe medo, Levae-a recuando!
Que faz quem se approxima D'um precipicio, diz-m'o? Que buscas tu no abysmo Se o ceu é lá em cima?
É só a lyrica intitulada--_Heresta_--que me fornece estes quatro exemplos; podia fornecer-me trinta e dois, porque são trinta e duas as quadras d'essa formosa composição.
Ás vezes o verso deixa de ser uma phrase e transforma-se n'um suspiro, a estrophe deixa de ser um canto e converte-se n'um arrulho. Tudo alli é muito amar, profundamente sentir e divinamente cantar:
Que é d'esses cabellos d'ouro Do mais subido quilate, D'esses labios escarlate, Meu thesouro!
.............................
Que é d'uma flôr da grinalda Dos teus dourados cabellos, D'esses olhos, quero vêl-os, Esmeralda!
Que é d'essa alma que me deste! D'um sorriso, um só que fosse. Da tua bôca tão dôce Flôr celeste!
Tua cabeça que é d'ella A tua cabeça d'ouro, Minha pomba! meu thesouro! Minha estrella!
..........................
E as desgraças, podia prevêl-as Quem a terra sustenta no ar, Quem sustenta no ar as estrellas, Quem levanta ás estrellas o mar.
Deus podia prevêr a desgraça, Deus podia prevêr e não quiz; E não quiz, não... se a nuvem que passa Tambem póde chamar-se infeliz.
Quem escreve d'isto, sente-o. Um homem não arranca ao seu espirito d'estas perolas sem as lá ter em sentimento e em amor. E só o alto calor d'um grande, d'um immenso coração póde _cristallisar_ taes diamantes; o fogo sómente do craneo não produz d'estes milagres d'inspiração:
Não se é só pó no fim de tanta magoa, Senão diga-me alguem que allivio é este Que sinto, quando á abobada celeste Alevanto os meus olhos rasos d'agoa.
....................................
Ha depois d'esta vida inda outra vida, Não se reduz a nada o grão d'areia, E havia de a nossa alma, a nossa ideia Nas ruinas do pó ficar perdida?
Se isto não é inspiração, e alta inspiração, não sei que nome se ha de dar ás maravilhas do genio de Dante, de Shakspeare, de Camões ou de Victor Hugo.
Um espirito que se eleva a taes alturas tem obrigação de produzir um _Hamlet_, uma _Divina Comedia_ ou uns _Lusiadas_.
Sente-se pela leitura d'este volume que Camões é o auctor predilecto de João de Deus. O livro abre até por uma composição que póde considerar-se uma verdadeira profissão de fé em poesia. A propria fórma poetica da maior parte das lyricas de João de Deus, um certo geito facil e correntio na composição grammatical dos periodos, a suavidade das rhimas, a doçura das expressões, a harmonia cadenciosa dos versos e um certo tom de intima melancolia que se faz sentir até nas idêas as mais graciosas revelam a decidida predilecção que o cantor da _Heresta_ tem pelo desafortunado scismador de Macau.
É esta a feição seria, a feição elevada e talvez caracteristica do genio poetico de João de Deus. Como todas as grandes vocações, como todas as naturezas ricas, João de Deus porém não é menos apreciavel, nem menos digno de estudo pelo lado alegre, malicioso e a espaços finamente epigrammatico. Ás vezes chega a ser um observador digno de competir com Molière ou Tolentino. Os _Caturras_ é composição de emparelhar com a _Funcção_ ou com o _Bilhar_ do diabolico professor de rhetorica; e o _Gaspar_ póde pedir meças em ridiculo a qualquer dos _frades_ grotescos da numerosa collecção de Bocage. E o epigramma aqui é tanto mais pungente quanto menos grosseiro, e a caricatura tanto mais graciosa quanto menos exagerada.
Ha alli o sal attico de Terencio e não a especiaria acinante de Plauto, a não ser talvez nos versos intitulados--_Uma femea_,--brazileiros no titulo e no sabor, d'um _piquesinho_ de gosto bastante equivoco.
E já que entramos no capitulo das maculas, convém dizer-se que João de Deus é por vezes revolucionario de mais em assumptos de metrificação. Eu não gosto de absolutistas nem mesmo em poesia, mas tambem não morro de amores pelos tão republicanos que nos levem á demagogia. É preciso que sejamos um pouco _constitucionaes_ em tudo. Ora a _constituição_ poetica tem artigos que se não podem infringir sem se incorrer no crime de leso bom gosto, porque o bom gosto foi e ha de ser sempre o eterno legislador d'estes codigos. Um verso frouxo ou manco e uma rhima equivoca ou violenta hão de ser perpetuamente defeitos.
Quem disser o contrario ou é tolo ou tem ouvidos de cortiça. João de Deus cahe por vezes nestes dous peccadilhos, deixando alguns versos arrastados, e outros duros; estes porém muito menos frequentes do que os primeiros. Mais frequentes são as rhimas violentas, algumas realmente d'um mau gosto insustentavel, taes como: _justiça_ rhimando com pinça, como a paginas 152; _rio_ e _viu_, como a paginas 159, e ainda algumas outras.
É da tarifa dizer-se em occasiôes similhantes, como são da tarifa todas as vulgaridades, que não ha livro sem defeitos. Eu creio piamente na sentença, e até creio que um livro sem defeitos, se existisse, devia ser o mais defeituoso de todos os livros, o mais sorna e o mais semsaborão. Eu porém quando abro um livro não é para lhe andar a catar os defeitos pagina por pagina, como quem anda ao _pulgão_ pelos vinhedos. O que busco n'um livro são ensinamentos, calor de vida, fogo de coração e luz de intelligencia; esplendores de espirito e esplendores de palavra; genio, alma e sentimento.
Ora um livro de versos onde ha composição como a _Rachel_, _O Musgo_, _Ultimo adeus_, _o Remoinho_, _a Carta_, e trinta outras lyricas de tal novidade e tal merecimento, tem obrigação de ter defeitos, por que sem elles... seria um livro impossivel, uma verdadeira monstruosidade. Diga-se aqui pois, e para se pôr ponto ao aranzel, que o livro de João de Deus tem maculas, mas que estas, como as do sol, desapparecem no meio dos esplendores d'aquella immensa luz de vida, de genio e de inspiração. _Flores do Campo_ é finalmente um livro de versos, como ha poucos n'este paiz, desde que por cá se escrevem versos.[1]
Guarda, 4 de fevereiro de 1869.
*Alexandre da Conceição.*
[1]Jornal do Porto (1869) n.º 33.
LIVROS
REVISTA CRITICA BIBLIOGRAPHICA
Flores do campo, _por João de Deus, publicadas pelo seu amigo José Antonio Garcia Blanco_--Lisboa, typ. Franco-portugueza, 1868--Em casa de Ferin & Robin--1 vol. in-16.º--271.
João de Deus é um personagem semi-lendario na tradicção academica, e apesar de homem do nosso tempo, e tão do nosso que até com um diploma de deputado se nos apresentou ha pouco, anda-lhe o nome rodeado de quasi os mesmos fulgores e as mesmas sombras em que uma historia superficial ou mentirosa envolveu os velhos trovadores da Provença.
Permittam-me uma digressão.
Ha n'esta sociedade portugueza--já agora, ao que parece--condemnada a refocilhar em monturo de sanefas lantejouladas e rotas que lhe deixou o passado, e a dar ao mundo o triste espectaculo d'uma nacionalidade sem _idêa_ que a represente na historia philosophica de amanhã, sem _ideal_ que lhe seja pharol e bussola na tormentosa navegação das sociedades d'hoje; ha, digo, n'esta nossa sociedade amortecida: extraordinarias visões, mysteriosos anceios, esforços convulsivos como que filhos de ignotos impulsos, que bem poderiam passar por agonias e paroxismos annunciadores da proxima dissolução, se um diagnostico escrupuloso não encontrasse antes n'aquillo promessas de reacção proxima, de rejuvenescimento que não vem longe, de evolução fatal, que, em Portugal como em toda a parte, denuncia por aquellas aberrações e anormalidades a sua sublime prenhez d'uma nova idêa, d'uma era nova.
Erguem-se no meio da grasnada petulante ou esteril da litteratura, vozes persistentes... doces ou enthusiasticas, sympathicas ou ameaçadoras... frescas, novas, _originaes_--_raræ voces!_--que parece irem na turba desmoralisada pôr em vibração alguma cellulasinha não contaminada do mal.
E a turba põe-se a escutar, a applaudir, a aspirar soffregamente os frescores e doçuras, que tão enormemente se distanceiam dos miasmas do ambiente habitual, do sabor da habitual pitança.
Alteiam-se, no meio da calaçaria geral, do geral e natural desanimo, vontades energicas que a pedraria da mestrança ignorante, intolerante e madraça não consegue desviar um momento da faina do estudo e da evangelisação scientifica.
E a turba vae attentando n'ellas, vae sympathisando com aquelles revolucionarios heroicos do marasmo, vae comparando-os com os idolos anões que, sem ella saber como nem porque se grudaram aos altares da sua admiração, vae fitando os novos horizontes para onde lhe apontam os novos chefes, vae-os seguindo já ao impulso d'uma necessidade indefinivel mas fatal. Ha n'isto, já se vê, alguma cousa d'allucinação infantil. Crê-se que os novos Moysés levam comsigo, completas, as verdadeiras taboas da lei, e rasgarão com a magica varinha as brumas que envolvem a terra da promissão.
Engano. Não lhes dão as forças para mais que para um terço do caminho, se tanto. Mas isso mesmo é muito, é o que basta. Hão de apparecer novos guias. A questão é saír da esterilidade do deserto.
Citemos porém dois factos, tiremos dois exemplos, apenas, de tantos que podiamos apresentar da revolução litteraria que se realisa surdamente no seio da nossa pequena sociedade.
Sejam elles, por hoje, dois poetas: Theophilo Braga e João de Deus; dois verdadeiros revolucionarios como outros de que para o diante terei de fallar. Um, apesar do mal que dizem d'elle, e do mal, que é maior talvez, que elle a si proprio faz, é inegavelmente um dos nossos poucos talentos originaes na concepção e na manifestação litteraria, na _idêa_ e na _fórma_, e se não é marco que no futuro atteste um grande e brilhante progresso na litteratura patria, é como que atrio imperfeito e tosco, mas espaçoso e altaneiro que póde servir d'entrada a _pantheon_ de explendidos engenhos.
E grande engenho é Theophilo, de certo.
Por entre uma saraivada d'apodos e improperios de _mau gosto_ ou _má fé_, conquistou elle um logar elevado, na poesia portugueza d'hoje, cujos magnates na maxima parte, persistem, com risivel teimosia, em trazer-lhe engastada na corôa á laia de fina joia, o carvão da ignorancia, ou em mascararem-na com um falso e retrogrado _classissismo_.
Theophilo porém avançou menos do que devia.
O _idealismo_ desvairou-o, o _romancismo_ perdeu-o.
Um dia a voz sympathica, insinuante, ora melancholica e dolorida, ora--bem poucas vezes!--alegre e enthusiastica de João de Deus começou de fluctuar por sobre o borburinho cançado e monotono das nossas letras. Não se sabe como nem quando foi. Perdeu-se a chronologia biographica nos encantos do _quasi_--extasis. Sabe-se sómente que a reputação do poeta não nos entrou na terra, dentro do cavallo de pau d'algum chefe _grego_, mestrão consummado n'estas maquinações. Sabe-se tambem que João de Deus não andou por salas e officinas, annunciando a fazenda que tempos depois, atirada ao mercado, podia realisar o caso da _mons parturiens_.
João de Deus apparecia-nos uma ou outra vez n'um periodico de Coimbra; ora nos segredava uma estrophe singela e melodiosa pelo postigo de uma typographia alemtejana; ora surgia em um periodico da capital a contar-nos umas duvidas que o magoavam, umas saudades indefiniveis que o pungiam, uns vagos amores que lhe andavam rumorejando lá dentro em vagas harmonias.
E ninguem sabia quem era João de Deus. E ninguem procurava saber quem fosse. Ou antes, julgavam todos sabel-o. Conheciam-no todos. Era um cerebro em ebullição, um coração em ataxia permanente, um estomago que valia por uma adega.
João de Deus era um doudo que forrava as paredes do albergue com as folhas das _sebentas_, que dormia dentro da enxerga, porque achava mais commodo isto do que dormir-lhe em cima, que se matriculava todos os annos na faculdade em que o secretario-universitario se lembrava de matriculal-o, que fôra de Coimbra a casa, d'algibeira vasia e lapis constantemente occupado em fazer magnificos versos ou magnificos desenhos, que se fizera um dia sachristão, e pozera n'outro, todo um bairro em sobresalto, subindo aos telhados para apostrophar a lua, etc., etc.
E as anecdotas galantes succediam-se, e a cada nova poesia annexava-se uma historieta, e quando as poesias escaceavam, attribuiam-se ao poeta novas doudices, novas excentricidades, como a certo honrado e já defuncto general se attribuiam quantos dispauterios o soalheiro burguez produzia. Se eu fosse biographo de João de Deus havia talvez de lavrar aqui um protesto esmagador.
Como não sou, limito-me a dizer o que penso do illustre algarviense. _Mais_ ou _menos_ todos somos poetas. N'este _mais_ e n'este _menos_ está, creio eu, o segredo da organisação _sensorial_, se póde dizer-se assim, organisação modificada é certo, mas não completamente transformada pelo _meio_ e pelo _habito_.
Tal _sensação_ que n'uns individuos poria o cerebro n'um estado de effervescencia que lhe _exagerasse_ a realidade, a ponto muitas vezes de a substituir por uma concepção puramente subjectiva, em taes outros póde dar apenas o facto funccional em condições normaes e ordinarias, e, concentrando-se, converter-se em reflexão. Precisava isto longo desenvolvimento. Ora como o primeiro modo de ser _sensorial_ póde dar-se em todos, mas com mais ou _menos_ intensidade, com _maior_ ou _menor_ frequencia, digo eu (e dizem bons escriptores) que todos são _mais_ ou _menos_ poetas. Isto quanto ao facto intellectivo. Quanto á expressão, o mesmo se póde dizer sem receio de contestação seria.
Pois na concepção como na palavra eu tenho João de Deus por verdadeiro poeta.
Dizia Merck, homem de profundo bom senso, a Goëthe, seu amigo:
«A tendencia irresistivel do teu genio é a de imprimir a fórma poetica ás cousas _reaes_. Outros procuram uma _soi-disant_ poesia tranformando em realidades, puras _imaginações_, o que só produz disparates.»[2]
Sem concordar incondicionalmente com a primeira phrase do sensato allemão, sem querer acceitar a segunda como lei comprovada de critica litteraria, parece-me que de João de Deus se poderá dizer que reune as duas tendencias, as duas feições designadas, a _idealisação_ (phrase consagrada e porventura inexacta) do _real_, e a personificação, melhor talvez, a realisação plastica do _imaginario_.
Como que as sensações sensoriaes[3] n'aquelle cerebro delicado, ou atravez d'aquelle organismo exageradamente impressionavel se destacam algumas vezes do estimulo, ou alteram a natureza da propria objectividade e criam um mundo novo, um mundo mystico, permittam-me a expressão, a que o poeta dá uma realidade objectiva moldando-o pelas manifestações plasticas do mundo em que vive. Acontece porém, poucas vezes, nem podia deixar de ser assim, quando a indole da época e a illustração do poeta se estão oppondo á formação e sustentação d'estas concepções puramente subjectivas. Adivinha-se aqui ou alli a lucta tremenda que vae no cerebro de João de Deus, lucta que é a feição caracteristica do seculo, e que o manto esfarrapado do eclectismo immoral não consegue abafar, lucta entre o velho _crêr_ e a _duvida_, a duvida, que como a hydra da mythologia surge após cada decepamento, e que não é possivel destruir como aquella decepando-lhe o tronco. Ouvide um exemplo:
Prestes, se inda na rocha de granito D'onde em tempo me vias, te sentares, Não olhes para a terra, ou para os mares, _Olha sim para o céo, que é lá que habito._
_Lá, tão longe de ti mas não do terno,_ _Bondoso pae que os dois nos ha gerado,_ _Só para magoas não, que bem guardado_ _Nos tem tambem no céo prazer eterno._
Que profunda crença, que certeza _mystica_, se póde dizer-se assim, não rescende a suave _morbidezza_ d'estes versos! Ha alli alguma cousa do cantor da Bice. Vêde porém a tempestade que se annuncia; a duvida atravessou como um relampago o cerebro do poeta. Ouvide:
Não se é só pó no fim de tanta magoa. _Senão_, diga-me alguem que allivio é este Que sinto quando á abobada celeste Alevanto os meus olhos rasos d'agua?
Mentem os céos _tambem_? Os céos maldigo. Feras, tigres _tambem_ o céo povoam? _Tambem_ os labios lá sorrindo coam Veneno desleal em beijo amigo?
_Mas na dôr é que os astros nos sorriem,_ E os homens não sorriem na desdita. Astros! fio-me em vós, e Deus permitta Que os infelizes sempre em vós se fiem.
Refaz-se a crença, resurge a esperança consoladora:
Ha depois d'esta vida uma outra vida. _Não se reduz a nada um grão d'areia,_ _E havia de a nossa alma, a nossa ideia,_ Nas ruinas do pó ficar perdida?
Pobre sonhador! Aquelle segundo verso é um protesto ironico contra o teu ideal mystico, é o _grão d'areia_ que ha de intorpecer e desmandar todo o machinismo psycologico da tua crença!
Continúa:
_Isso que pensa e quer_ (até me admiro) Isso que a luz nos traz, que a luz nos leva, etc.
e accrescenta:
_Onde_, não sei eu bem, mas sei que existe Deus remunerador. Depois de mortos Hemos de vêr-nos e um no outro absortos Fartar de glorias este amor tão triste.
Tão triste e... (o coração que me adivinha?) N'este supplicio nosso, _este tormento_, Nunca dos labios teus minimo alento Num só beijo bebi em vida minha!
Fulge de novo o relampago, baqueia o edificio da crença, vêde que tormento:
_E morro sem te vêr!_ Cabeça douda Desasissado amor? sonhar afflicto Um sonho até morrer...
Pobre Hamlet!
_... the rest is silence_
Um sonho até morrer... Não: resuscito; Morto tenho vivido a vida toda.
Pobre Faust! O _insufficiente_ (das Unzuloengliche) atormenta-te, porque te fascina o _inenarravel_ (das Unberchreiblichee). Que tempo precioso perde comtigo o sensato Mephistopheles!
Preferes á gargalhada que te chama á realidade da vida, o _chorus mysticus_ que te amargura a existencia com a mentira da miragem!
João de Deus é rigorosamente um artista _insaciavel_: «Satiari artis cupiditate non quit,» como diria Plinio.
Adivinha-se em cada estrophe d'elle um ancear indefinivel, um vago aspirar, se póde dizer-se assim, uma como que miragem que atráe o poeta, que o alenta umas vezes e o desespera não poucas, que parece enviar-lhe dos visos do horisonte uns suaves frescores envoltos em deliciosos perfumes, e que como a miragem do deserto, lhe foge sempre aos labios sequiosos.
E o pobre viandante vae caminhando e cantando sempre. É um descantar dolorido geralmente, como que descantar de saudade do que sonhou e não acha, e não gosa, e não encontra no caminho, como que de _saudade_ do que lhe foge sempre, deixem-me usar a dôce palavra que bem sei eu que não fica ella bem lexicographicamente applicada.
E assim com a imaginação embalada por um vago _ideal_ vae João de Deus _poetisando_ como Goëthe na opinião do seu, já citado amigo, tudo o que no caminho encontra. Poucas vezes se lhe altera a harmonia cerebral ao impulso d'uma vibração mais violenta. Os successivos amores--fundem quasi n'uma abstracção, parecem subtilisar-se até no _feminino eterno_ do cantor do Fausto. Hoje Margarida, amanhã Helena, depois... Depois quem sabe?
Hoje Marina. É uma recordação.
Como esse olhar é dôce! Dôce dâ mesma sorte Como se nunca fosse Toldado pela morte,
Como se alumiasse O sol ainda em vida As rosas d'essa face Agora carcomida.
Colhesse-as eu mais cedo E logo que alvorece, Já não tivesse mêdo Que a terra m'as comesse. .........................
Se um dia nos meus braços Te desbotasse as côres, Passavam os abraços... Passavam os amores!...
Oh não: mil vezes antes No céo lá onde habitas E os rapidos instantes Que vens e me visitas
N'este degredo nosso Que tanta gente estima, E eu, só porque não posso Não largo e vou lá cima.
Vem tu cá baixo, abala, etc.
.......................
Ha uma hora ou mais, Marina! que contemplo A casa de teus paes Que é para mim um templo.
É esta vida um mar E bem se póde a gente Marina, comparar A rapida corrente
Que vae de lado a lado Por esses valles fóra Sem nunca lhe ser dado Ter a menor demora:
Pára quando a engole Aquelle mar sem fundo; Nem pára, é como o sol E como todo o mundo.
.......................
Custa a resistir á tentação de transplantar para aqui completas, estas magnificas _singelesas_. Não ha n'aquillo alguma coisa do que é espontaneo e bello na _Vita Nuova_?
Mas, como dissemos, o poeta approxima-se tambem do _Faust_ na volubilidade artistica.
Maria! vêr-te á porta a fazer meia Olhando para mim de vez em quando É o que n'esta vida me recreia.
...................................
E eu pallido, Maria! o pensamento Não é trabalho que nos dê saude, Esta imaginação é um tormento.
...................................
É que a gente na sua mocidade Não cabe em si, não pára de contente E assim fui eu na flôr da minha edade.
Tu eras n'esse tempo simplesmente A flôr que vae nascendo e mais valia Seres tão terna ainda e innocente.
Já esse lindo pé que tens, Maria! Esse quadril tão largo e cinta estreita Me não vinha á ideia noite e dia;
Esses encontros de mulher perfeita, Esse peito redondo e arqueado Como a pomba farta e satisfeita;
Talvez vivesse então mais socegado Ou já que a minha sorte é sempre triste Ao menos não andasse enfeitiçado. ...................................
Depois é Margarida:
Oh! que formosos dias, Margarida! Esses, etc. etc.
Depois... Ha nomes que não se proferem, que não se denunciam. São como certo nome do Deus judaico.
O poeta diz simplesmente: _No leito nupcial._ Um nome depois d'isto fôra mais que uma profanação, fôra uma infamia. Julgaes porém que ides ouvir uma recriminação amarga ou uma indiscripção villã?
Dorme, estatua de neve, Vergontea de marfim, Tocar que impio se atreve No que é sagrado assim!
Dois são: o mais, mysterio Vedado á terra, Deus Talvez do solio ethereo Nem baixe os olhos seus.
Respeita-os, tapa-os, como Japhet e Sem, o pae... Pende sagrado pomo, A vista ergue-se e cáe.
Ergue-se e cáe, conforme A lei que o manda assim, _Ergue-se_ e... dorme, dorme, Vergontea de marfim!
.......................
Não segue acaso a sombra Teu corpo sempre, flôr? E pois porque te assombra Meu insensato amor?
.......................
Depois é Beatriz:
Tu és o cheiro que exhala Ao ir-se abrindo uma flôr; Tu és o collo que embala Suas primicias d'amor.
Tu és um beijo materno, Tu és um riso infantil; Sol entre as nuvens do inverno, Rosa entre as flôres d'abril.
Tu és a rosa de maio, Tua és a flamula azul Que atam á flecha do raio As nuvens negras do sul.
.......................
E assim vae cantando sempre, de nome em nome, e de mysterio em mysterio e d'amor em amor, de duvida em duvida, de saudade em saudade, d'anceio em anceio. Não ha Beatriz que o retenha e lhe oiça o _Ecce Deos fortior me veniens dominabitur mihi_.
Um dia encontra uma mulher formosa, joven, alegre. Ama. Será amado?
Amas-me a mim! perdoa, É impossivel! Não, Não ha quem se condoa Da minha solidão.
Como podia eu triste, Ah! inspirar-te amor, Um dia que me viste, Se é que me viste... flôr!
.......................
Via-te arfar o seio... Córar... mudar de côr, E embora, ah! não, não creio, Tu não me tens amor!
E o sonho foi-se e a visão desappareceu. Como se chamava aquella mulher? Vão lá saber como se chama a estrella cadente que rasga a amplidão do espaço e desapparece n'ella?
E foi uma estrella cadente, aquella. Perdoem a indiscripção.
Outro dia é o poeta que se afasta, que foge, porque receia macular com o seu halito o puro fulgor da estrella.