Ramo de Flores acompanhado de varias criticas das Flores do Campo
Chapter 1
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RAMO DE FLORES
RAMO DE FLORES
POR
JOÃO DE DEUS
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ACOMPANHADO DE VARIAS
CRITICAS DAS FLORES DO CAMPO
* * * * *
PORTO
Typ. da Livraria Nacional
2--Rua do Laranjal--22
1869.
RAMO DE FLORES
I
SÊDE DE AMOR
I
Vi-te uma vez e (novo Extranho caso foi!) Por entre tanto povo... Tanta mulher... Suppõe
Que mãe estremecida Via o seu filho andar Sobre muralha erguida, Onde o fizesse ir dar
Aquelle remoinho, Aquella inquietação D'um pobre innocentinho Ainda sem razão!
E ora estendendo os braços... Ora apertando as mãos... Vendo-lhe o gesto, os passos, Quantos esforços vãos,
O triste na cimalha Faz por voltar atraz... Sem vêr como lhe valha! A vêr o que elle faz!
Pallida, exhausta, muda, Os olhos uns tições, Com que, a tremer, lhe estuda As mesmas pulsações...
(Porque não é mais fundo O mar no equador, Nem é todo este mundo Maior do que esse amor!
Mais vasto, largo e extenso Todo esse céo tambem Do que o amor immenso D'um coração de mãe!)
Assim, n'essa agonia... N'essa intima avidez... É que entre os mais te eu ia Seguindo d'essa vez!
Porque te adoro!... a ponto, Que ainda hoje, crê! Escuto e oiço e conto Os grãos de arêa até,
Que tu, mulher! andando Fazias estalar Já mesmo longe e... quando Deixei de te avistar!
II
Os olhos são D'uma expressão! Que linda bôca! O pé nem toca, De leve, o chão!
Aquelle pé De leve até Nem se elle sente! E sente a gente Não sei o que é...
E a graça, o ar, D'aquelle a andar! Que véla passa Com tanta graça Á flôr do mar!
Os olhos vêr Um só volver De olhar tão dôce, Que mais não fosse... Era morrer!
Os dentes sãos E tão irmãos E tão luzentes! Que bellos dentes! Que lindas mãos!
III
Estrella, nuvem, ave, Perfume, aragem, flôr! Consola-me! distilla, Da languida pupilla, O balsamo suave De um desditoso amor! Estrella, nuvem, ave, Perfume, aragem, flôr!
A flôr, de que és imagem, A flôr, de que és irmã, Sacia-se, e desata O seu collar de prata Aos beijos da aragem, Aos risos da manhã!... A flôr, de que és imagem, A flôr, de que és irmã!
A perola que encerra A flôr, é sua? Não. O pranto que a amima, Cahiu-lhe lá de cima Para cahir na terra, Para cahir no chão! A perola que encerra A flôr, é sua? Não!
Tu já mataste a sêde, Mata-me a sêde a mim! Se em nuvem piedosa Te refrescaste, rosa! Tambem em ti eu hei de Refrigerar-me!... sim! Tu já mataste a sêde, Mata-me a sêde a mim!
É para que me orvalhes Que te orvalhou o céo! O liquido que veio Aljofarar-te o seio Bem é tambem que o espalhes No chão... o chão sou eu! É para que me orvalhes, Que te orvalhou o céo!
II
LAMENTO
Senhor! Senhor! que um ai nunca me ouviste Na minha dôr! Ai vida, vida minha, como és triste!... Senhor! Senhor!
Quando eu nasci, o sol cobriu o rosto Mal que eu o vi! Tingiu-se o céo de sangue, e era sol-posto, Quando eu nasci!
Pela manhã, a rosa era mais alva Que a alva lã! E o cravo desmaiou á estrella-d'alva, Pela manhã!
Ao longe, o mar se ouviu, leão piedoso, Um ai soltar! Pelas praias, se ouviu gemer ancioso, Ao longe, o mar!
Oh roixinol! a ti, nasce-te o dia Ao pôr do sol! Mostre-me a campa a luz que te alumia, Oh roixinol!
III
ENLEVO
Não brilha o sol, Nem póde a lua Brilhar na sua Presença d'ella!.. Nenhuma estrella Brilha deante Da minha amante, Da minha amada!
A madrugada Quanto não perde! O campo verde Quanto esmorece! Quanto parece A voz da ave Menos suave Que a sua falla!
A flôr exhala Menos perfume Do que é costume O seu cabello! Que basta vêl-o, Prende-se a gente! Prende-se e sente Gosto ineffavel!
Que riso affavel Aquelle riso! Que paraíso Aquella bôca! Penetra, toca, Enche de inveja Um ar que seja Da sua graça!
Onde ella passa, Onde ella chega, Quem lhe não prega Olhos avaros! Ha dotes raros, Rara doçura N'aquella pura Casta existencia!
Oh! que innocencia Que ella respira! A alma aspira Não sei que aroma Mal nos assoma Ao longe aquella Pallida estrella, Que rege o mundo!...
Nunca do fundo Do oceano Foi braço humano Colher tão linda Perola ainda, Como a formosa Candida rosa Que eu amo tanto!
Não sei de santo Que ha no seu gesto! No ar modesto D'aquelle todo... N'aquelle modo... Que tudo esquece, E nos parece Estar no céo!
IV
SEMPRE!
Pensas que te não vejo a ti? Bom era! Gravei tão vivamente n'alma a dôce E bella imagem tua, que eu quizera Deixar de contemplar-te, só que fosse Um momento, e não posso, não consigo!
Foges-me, escondes-te e que importa? Esculpes Mais fundo ainda os indeleveis traços! Realça-te o retrato! E não me culpes! Culpa-te antes a ti!... Sigo-te os passos!... Vejo-te sempre!... trago-te comigo!...
V
ESPERA!
Uivaria de amor a féra bruta Que pela grenha te sentisse a mão! E eu não sou féra, pomba! Espera! Escuta! Eu tenho coração!
Não é mais preto o ébano que as tranças Que adornam o teu collo seductor! Ai não me fujas, pomba! que me canças! Não fujas, meu amor!
A mim nasceu-me o sol, rompeu-me o dia Da noite escura d'olhos taes, mulher! Não me apagues a luz que me alumia Senão quando eu morrer!
Eu não te peço a ti que as mãos de neve, Os dedos afusados d'essas mãos, Me toquem estas minhas nem de leve... Seriam rogos vãos!
Não te peço que os labios nacarados Me deixem esses dentes alvejar, Trocando, n'um sorriso, os meus cuidados Em extasis sem par!
Mas uivando de amor a bruta féra Que pela grenha te sentisse a mão, Eu não sou féra, pomba! escuta, espera! Eu tenho coração!
VI
ADEUS
A ti, que em astros desenhei nos céos, A ti, que em nuvens desenhei nos ares, A ti, que em ondas desenhei nos mares, A ti, bom anjo! o derradeiro adeus!
Parto! Se um dia (que é possivel flôr!) Vires ao longe negrejar um vulto, Sou eu que aos olhos d'esta gente occulto O nosso immenso desgraçado amor.
Talvez as féras ao ouvir meus ais, As brutas selvas, as montanhas brutas, Concavas rochas, solitarias grutas, Mais se condoam, se commovam mais!
E lá d'aquellas solidões se aqui Chegar gemido que uma pedra estala, Que um cedro vibra, que um carvalho abala, Sou eu que o solto por amor de ti...
De ti! que em folha que varrer o ar, Em rama, em sombra que bandeie a aragem, De fito sempre n'essa cara imagem Verei, sorrindo, sentirei passar!
De ti, que em astros desenhei nos céos! De ti, que em nuvens desenhei nos ares! De ti, que em ondas desenhei nos mares, E a quem envio o derradeiro adeus!
VII
MELANCOLIA
Oh dôce luz! oh lua! Que luz suave a tua, E como se insinua Em alma que fluctua De engano em desengano! Oh creação sublime! A tua luz reprime As tentações do crime, E á dôr que nos opprime Abres-lhe um oceano!
É esse céo um lago, E tu, reflexo vago D'um sol, como o que eu trago No seio, onde o afago, No seio, onde o aperto? Oh luz orphã do dia! Que mystica harmonia Ha n'essa luz tão fria, E a sombra que me guia N'este areal deserto!
Embora as nuvens trajem De dia outra roupagem, O sol, de que és imagem, Não tem essa linguagem Que encanta, que namora! Fita-te a gente, estuda, (Sem mêdo que se illuda) Essa linguagem muda... O teu olhar ajuda... E a gente sente e chora!
Ah! sempre que descrevas A orbita que levas, Confia-me o que escrevas De quanto vês nas trevas, Que a luz do sol encobre! As victimas, que escutas, De traças mais astutas Que as d'essas féras brutas... E as lastimas, as luctas Da orphã e do pobre!
VIII
SYMPATIA
Olhas-me tu Constantemente: D'ahi concluo Que essa alma sente!... Que ama, não zomba, Como é vulgar; Que é uma pomba Que busca o par!...
Pois ouve; eu gemo De te não vêr! E em vendo, tremo Mas de prazer!... Foge-me a vista... Falta-me o ar... Vê quanto dista D'aqui a amar!
IX
11 DE MAIO
Se eu fosse nuvem tinha immensa magoa Não te servindo d'azas maternaes Que te podessem abrigar da agoa Que chovesse das mais!
E sendo eu onda, tinha magoa summa Não te podendo a ti, mulher, levar De praia em praia, sobre a alva espuma. Sem nunca te molhar!
E sendo aragem, eu, que pela face Te roçasse de rijo, alguma vez Que o Senhor com mais força respirasse, Que magoa immensa... Vês!
E a luz do teu olhar que me não lusa Um rapido momento, a mim, sequer, Como a aguia no ar... que passa e cruza A terra sem n'a vêr!
Mas que me importa a mim! Se me esmagasses Um dia aos pés o coração a mim, As vozes que lhe ouviras se escutasses, Era o teu nome... Sim!
O teu nome gemido docemente Com toda a fé d'um martyr em Jesus, Se acaso já em Christo pôz um crente A fé que eu em ti puz!
A fé, mais o amor! Porque elle expira Sem que a ninguem lhe estale o coração, E eu, se essa cruz dos olhos me fugira, Sobrevivia? Não!
Assim como em ti vivo, morreria Tambem comtigo, se uma vez (que horror!) Te visse pôr, oh sol!... sol do meu dia! Astro do meu amor!
X
ATTRACÇÃO
Meus olhos sempre inquietos Que posso até dizer, Só acham n'alma objectos Que os possam entreter;
Meus olhos... coisa rara! Porque hão de em ti parar Como a corrente pára Em encontrando o mar!?
E penso n'isto, scismo... Mas é tão natural Cahir-se no abysmo D'uma belleza tal!...
Olhei!... Foi indiscreta A vista que te puz. A pobre borboleta Viu luz... cahiu na luz!
Uma attracção mais forte Que toda a reflexão, (É fado, é sina, é sorte!) Me arrasta o coração...
XI
DESANIMO
Que mimos me confortam? Que doce luz me acena? Eu tenho muita pena De ter nascido até!
Quizera antes ao pé D'uma arvore frondosa Ter já em cima a lousa E descançar emfim!
Alli, nem tu de mim De certo te lembravas, Nem estas feras bravas Me iriam assaltar!
Alli, teria um ar Mais puro e respiravel, E a paz imperturbavel De quem, emfim, morreu!
D'alli, veria o céo Ora sereno e puro, Ora toldado e escuro... Ainda assim melhor,
Que este areal de amor Onde ando ao desamparo, Onde a ninguem sou caro E nem, a mim, ninguem!
Alli passára eu bem A noite derradeira Á sombra hospitaleira Que mais ninguem me dá!
Tu mesma, que não ha Quem eu mais queira e ame, Quem a minha alma inflamme De mais ardente amor,
Os ais da minha dôr A ti o que te importam? Teus olhos nem supportam A minha vista ao pé!
Que mimos me confortam? Que dôce luz me acena? Eu tenho muita pena De ter nascido até!
XII
N'UM ALBUM
É esta vida um mar; e n'este mar Qual é o astro que nos alumia? Que norte, estrella ou bussola nos guia? Um olhar de mulher! um terno olhar!
XIII
O SEU NOME
I
Ella não sabe a luz suave e pura Que derrama n'uma alma acostumada A não vêr nunca a luz da madrugada Vir raiando senão com amargura!
Não sabe a avidez com que a procura Ver esta vista, de chorar cançada, A ella... unica nuvem prateada, Unica estrella d'esta noite escura!
E mil annos que leve a Providencia A dar-me este degredo por cumprido, Por acabada já tão longa ausencia,
Ainda n'esse instante appetecido Será meu pensamento essa existencia... E o seu nome, o meu ultimo gemido
II
Oh! o seu nome Como eu o digo E me consola! Nem uma esmola Dada ao mendigo Morto de fome!
N'um mar de dôres A mãe que afaga Fiel retrato De amante ingrato, Unica paga Dos seus amores...
Que rota e nua, Tremulos passos, Só mostra á gente A innocente Que traz nos braços De rua em rua;
Visto que o laço Que a prende á vida E só aquella Candida estrella Que achou cahida No seu regaço;
(Não que lhe importe A ella nada... Que tudo escusa; E até accusa De descuidada Comsigo a morte!)
Mão bemfazeja Se por ventura Encontra um dia, Com que alegria, Com que ternura, Ella a não beija!...
Mas com mais quanto Amor te escrevo, Soletro e leio Nome de enleio! Nome de enlevo! Nome de encanto!
III
Como a agua d'um lago--toda um nivel, Vae de circulo em circulo ondeando, Se a andorinha a roça ao ir voando Atraz d'algum insecto imperceptivel;
E quebrado esse espelho em mil pedaços (Que a imagem do céo desapparece) Em circulos concentricos parece Tornarem-se a formar novos espaços...
Ou como d'entre as notas ineffaveis Dos canticos do céo--todo harmonia-- Mal sôa o dôce nome de MARIA, Pasmam as multidões innumeraveis;
E de onda em onda cada vez mais larga, De brisa em brisa cada vez mais pura, O nome d'essa excelsa creatura Por todo aquelle immenso mar se alarga;
E tudo quanto cerca o trono eterno Áquella dôce voz desprende o canto, Formando um côro universal, em quanto Reina silencio no profundo inferno...
Assim, n'esta paixão que me devora, Se aos labios essas syllabas me assomam, As negras sombras da minha alma tomam Gradualmente o explendor da aurora!
Toda a idéa má recua um passo, Aplanam-se os dominios do futuro, E do crystal mais transparente e puro Se me arqueia a abobada do espaço!
Desdobra-se o passado á luz do dia, Em valle ameno, aos olhos da memoria; E eu acho não ser perfida, illusoria, A fé que eu punha em certa luz que eu via...
Vejo que aquelle informe e negro monte, Que me tapava a mim o fim da vida, Não era mais que a natural subida Para se dominar vasto horizonte!...
Esse horizonte és tu, pombinha brava! Tu, cujo peito que aliás encerra O que ha de bello e grande em céo e terra, Só com duas conchinhas se tapava...
Mas em quanto não chego áquella altura D'onde se avista a terra promettida, Irei cantando, distrahindo a vida Com essa invocação suave e pura...
Invocação de nome tão suave Como esse olhar!... que eu, só de vêr, suspiro! Mas... que invoco em silencio... como admiro A luz da lua, e o olhar da ave!...
IV
E se algum dia Deres abrigo Ao desgraçado Pobre mendigo Expatriado, Morto de fome, Dize comtigo: «Mais consolado Se elle sentia Lendo o meu nome!»
XIV
SAUDADE
Tu és o cálix; Eu, o orvalho! Se me não vales, Eu o que valho?
Eu se em ti caio E me acolheste Torno-me um raio De luz celeste!
Tu és o collo Onde me embalo, E acho consolo, Mimo e regalo:
A folha curva Que se aljofara, Não d'agoa turva, Mas d'agoa clara!
Quando me passa Essa existencia, Que é toda graça, Toda innocencia,
Além da raia D'este horizonte-- Sem uma faia, Sem uma fonte;
O passarinho Não se consome Mais no seu ninho De frio e fome,
Se ella se ausenta, A boa amiga, Ah! que o sustenta E que o abriga!
Sinto umas magoas Que se confundem Com as que as agoas Do mar infundem!
E quem um dia Passou os mares É que avalia Esses pezares!
Só quem lá anda Sem achar onde Sequer expanda A dôr que esconde;
Longe do berço, Morrendo á mingoa, Paiz diverso... Diversa lingoa...
Esse é que sabe O meu tormento, Mal se me acabe Aquelle alento!
Ah, nuvem branca Ah, nuvem d'oiro! Ninguem me estanca Amargo choro;
E assim que passes Mesmo de largo... Vê n'estas faces Se ha pranto amargo.
Tu és o norte Que me desvias De ir dar á morte Todos os dias;
A larga fita Que d'alto monte Cerca e limita O horizonte!
Tu és a praia Que eu sollicito! Tu és a raia D'este infinito!
Se ha uma gruta Onde me esconda Á força bruta Que traz a onda;
Á força immensa D'esta corrente D'alma que pensa, Alma que sente;
Se ha uma véla, Se ha uma aragem, Se ha uma estrella, N'esta viagem...
É quem eu amo, A quem adoro! E por quem chamo! E por quem choro!
XV
* * * *
Não sei o que ha de vago, Incoercivel, puro, No vôo em que divago Á tua busca, amor! No vôo em que procuro O balsamo, o aroma, Que, se uma fórma toma, É de impalpavel flôr!
Oh como te eu aspiro Na ventania agreste! Oh como te eu admiro Nas solidões do mar! Quando o azul celeste Descança n'essas agoas Bem como n'estas magoas Descança o teu olhar!
Que placida harmonia Então a pouco e pouco Me eleva a fantasia A novas regiões! Dando-me ao uivo rouco Do mar, n'essas cavernas, O timbre das mais ternas E pias orações!
Parece todo o mundo Só um immenso templo! O mar já não tem fundo E não tem fundo o céo! E, em tudo, o que contemplo, O que diviso em tudo, És tu!... esse olhar mudo!... O mundo... és tu... e eu!...
FIM
* * * * *
CRITICAS
DAS
FLORES DO CAMPO
* * * * *
FLORES DO CAMPO
POR
JOÃO DE DEUS
João de Deus não é sómente um grande poeta, é um iniciador. A estrophe sahe-lhe do coração não só transparente e limpida, como um veio de crystal, mas espontanea, harmoniosa e originalissima, como todas as creações dos espiritos profundamente caracterisados e essencialmente creadores.
João de Deus é um grande scismador e um grande artista. Concebe admiravelmente, e executa melhor ainda. Cada lyrica é uma maravilha, cada estrophe um mimo, cada verso um primor. Reune á intelligencia apaixonada de Platão o delicadissimo senso artistico de Cellini. Ha n'aquella lyra notas e harmonias d'uma frescura e de uma novidade dignas de Homero ou de Wainamoinen. É que o talento poetico de João de Deus é essencialmente espontaneo e primitivo, se me permittem a expressão.
Parece que não ha n'aquelles versos nem estudo de modelos, nem influencia de escólas, nem escolha de assumptos.
A natureza poetica de João de Deus é sobre tudo virginal, sincera, innocente. Canta, não para que o escutem, mas porque nasceu poeta; chora, não para que o consolem, mas porque nasceu triste; medita, não para que o considerem, mas porque nasceu scismador. É poeta... e não póde ser mais nada; fizeram-n'o deputado talvez para fazerem um epigramma á poesia, que tantos tem feito--epigrammas, entenda-se.--João de Deus deputado é o mesmo... que um deputado João de Deus, duas entidades a rirem-se constantemente uma da outra, como os dois _oraculos_ de que falla Cicero.
Um João de Deus nasce feito... não se faz d'elle cousa nenhuma; ha de ser sempre João de Deus, quer o façam rei, quer regedor de parochia. _Ego sum qui sum_, dizia o espirito mais profundamente original da humanidade. João de Deus, e os homens de uma individualidade assim tão caracterisada podem, salvo a irreverencia, dizer o mesmo.
A João de Deus deu-lhe para ser poeta; se lhe désse para ser diplomata era Bismark, e tinha a estas horas realisado a união iberica. Foi melhor assim, ao menos para se não acabar com a possibilidade de termos volumes como as _Flores do Campo_.
Dizem-me que João de Deus é um excellente tocador de viola, onde improvisa devaneios arrebatadores. Esta prenda caracterisa-lhe o talento artistico. É poeta como guitarrista e quasi improvisador como poeta. Aquella alma é uma lyra: vibra, estremece e canta ás aragens fugitivas da impressão. Natureza profundamente sympathica, tem um riso para cada alegria, uma lagrima para cada amargura, uma consolação para cada infortunio:
Despe o lucto da tua soledade E vem junto de mim, lirio esquecido Do orvalho do ceu! Tens nos meus olhos pranto de piedade, E se és, mulher! irmã dos que hão soffrido, Mulher! sou irmão teu.
Consolos não te dou, que não existe Quem de lagrimas suas nunca enxuto Possa as d'outro enxugar: Não póde allivios dar quem vive triste, Mas é-me dôce a mim chorar, se escuto Alguem tambem chorar.
E não ha artificios n'esta poesia, que é singela como todos os grandes sentimentos, harmoniosa e virginal como um sorriso de creança, suave e consoladora como uma parabola de Christo, serena e luminosa como um dialogo de Platão:
Mulher, mulher! quando eu n'um cemiterio Levanto o pó dos tumulos sósinho: Eis, digo, eis o que eu sou, Mas quando penso bem n'esse mysterio Da virtude infeliz: Vae teu caminho; Dois mundos Deus creou.
É poesia que se sente e que poucos exprimem, são versos que se admiram e que rarissimos os escrevem.
As imagens adejam-lhe em torno frescas, vivas, alegres e graciosas, como um bando de andorinhas em torno dos frisos d'um campanario:
Quando em silencio finges, Que um beijo foi furtado, E o rosto desmaiado De côr de rosa tinges, Dir-se-ha que a rosa deve Assim ficar com pejo, Quando a furtar-lhe um beijo O zephiro se atreve.
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A bôca é tão vermelha que, em te rindo, Lembra-me uma romã aberta ao meio Quando já de madura está cahindo.
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Quando a sua mãosinha pondo um dedo Em seus labios de rosa pouco aberta, Como timida pomba sempre alerta, Me impunha ora silencio ora segredo.
Não ha nada mais gracioso, mais natural, mais espontaneo, mais facil! A gente chega a pasmar de não encontrar todos aquelles dizeres elegantes, todos aquelles versos formosissimos nos outros poetas, tal é a fluencia e a vitalidade d'esta inspiração.
Na voz de João de Deus ha as inflexões carinhosas de uma creança; os versos parecem caricias; têm a suavidade affectuosa das orações de uma santa e aquelle tom amavel e triste, mas nunca pretencioso, dos verdadeiros scismadores:
Foi-se-me pouco a pouco amortecendo A luz que n'esta vida me guiava, Olhos fitos na qual até contava Ir os degraus do tumulo descendo.
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Alma gemea da minha, e ingenua e pura Como os anjos do ceu (se o não sonharam...) Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura.
Não sei se me voou, se ma levaram, Nem saiba eu nunca a minha desventura Contar aos que inda em vida não choraram.
Camões não a sentiu mais, nem a escreveu melhor esta poesia da tristeza, esta melancolia suave d'um scismador, esta saudade resignada de uma alma nas soledades do infortunio, nos desterros do isolamento. Ha alli poesia para vinte poemas, ha alli suavidade para vinte idyllios.
As rhimas parecem beijos, tão estreitas se enlaçam, tão ardentes se casam, tão apaixonadas se apertam:
Que magoa ou que receio Dos olhos te desata Aljofares de prata No jaspe do teu seio?