Raios de extincta luz poesias ineditas (1859-1863)
Part 6
O Abysmo horrivel Sentiu que seus mil males vacillavam, Sobre a base da eterna injúria, e se íam Co' esse sôpro de amor.--E estranho, e pávido, Duvidou se soffria e teve, em sonho, Como visões do céo d'onde o lançaram... E quasi perdoou...
'Stava adorando!
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Oh, gotta de piedade, que adoçaste Aquelle oceano de injustiça! Oh, lagrima Teda feita de bem!... Bebeu-te o Abysmo!
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E a Terra informe viu.
Como o silencio De algum poço--que o fundo das montanhas Guarda velado pela treva--pode Ouvir, cheio de horror, o écco primeiro De uma pedra descendo: como o centro Da mina pode vêr o alvião primeiro Que a abre de par em par,--assim a Terra Viu a coisa sem nome que descia Pelo infinito abaixo.
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Olhou transida. Era uma Mão--que parecia treva, Tanto brilhava! E vinha-se alongando Com cinco dedos--cinco continentes De luz--fixa, sem côr, indefinivel, Leviathan de brilho, pelo ether Descia--e as ondas de harmonia erguiam-se Como em tormenta de espleddor--horrivel... Tanto era bello!
Ao longe, ao longe, ao longe, 'Té aonde a visão abre os espaços, A orla do infinito radiava.
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E cada sol, e cada estrella, vendo Aquella Mão descer, dizia--_Certo Que me vem afagar_!--E estremecia.
E a Mão passou em face das estrellas... Mas não as viu.--Passou o grande côro Dos sóes... e não os viu.--A via-lactea... E não a viu.--E foi seguindo ávante.
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Lá onde o escuro é tanto que suffoca O tempo, no nevoeiro esquecimento, Onde em vaga fronteira se confundem O sêr e o não sêr--lá para o extremo, É onde a Mão já ía...
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E os grandes astros, De sol em sol, de um horisonte ao outro, Inquietos, através do ether immenso, Lançavam vozes de ouro, perguntando «_Onde vae o Senhor_?»
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E a Mão descia.
Já não havia mais. Tinha chegado Por defronte da Terra. E n'essa hora Dois infinitos--um de horror, e o outro Infinito esplendor, se contemplaram.
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E os astros de ouro pelo céo disseram: «_Eis que Deus vae brincar tambem co'a Terra_!» E a Mão estava.
E a Terra negra olhava-a, Como um selvagem um espelho; o susto Co'o prazer inefavel combatiam-se Lá dentro... e a massa informe estremecia.
Convulsa se agitava. Fascinada Parecia recuar... e approximava-se! E, n'um ultimo esfôrço, dando um salto Enorme, por fugir--cahiu no centro D'aquella Mão.
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E os astros murmuravam Aos sóes: «_Certo que Deus a precipita_!»
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Mas a Mão não se abriu para lançal-a. Os grandes dedos sobre a massa horrivel Se fecharam. Pareciam, sobre o corpo Tenebroso, que tinham apertado, Cinco chagas de luz.
E consultaram.
* * * * *
Os cinco dedos entre si disseram: «_Que havemos nós fazer a isto_?» E todos Immoveis ali estavam.
E entre os dedos D'onde--bem como um sapo entre os dois seios De uma virgem--a Terra olhava o espaço, Pareceram-lhe ao longe os grandes astros Como pontinhos negros.
Um segundo Roubado á eternidade é quanto basta, Quer se seja morrão, quer seja estrella.
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Então a grande Mão abriu-se e disse Á Terra: _Vae_!--E como aguia sublime Desde os Alpes se atira, a Terra ergueu-se, Levando um vôo immenso entre as estrellas!
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Viam-se-lhe luzir no dorso negro Cinco traços de luz! Leito de brilho Aonde os cinco dedos se poisaram! E lepra de esplendor!
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Rolou no espaço.
E os astros entre si se consultaram: «_Dar-lhe-hemos nós logar_?»
E o Sol altivo Fallou e disse:--Eu vejo-lhe no dorso Uma mancha de luz--a _Natureza_!
E a Lyra disse:--Eu vejo-lhe outra fórma Resplendente--é _Idéa_!
E Vesper disse: --Eu vejo-lhe um signal de affago--é _Alma_!
E Venus disse:--Eu vejo reluzir-lhe Uma cicatriz de luz--é _Amor_!
E disse, Então, o Sete-estrello:--Eu adoro-lhe Como o sitio de um beijo do Eterno... --É _Immortalidade_!
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E o côro immenso Abriu-se e deu logar á Terra escura, De cuja face cinco grandes f'ridas Gottejavam a luz--a _Natureza_, Que tem de Deus a força; a _Idéa_, filha Da immensidade d'elle; a _Alma_, eterna Como seu sêr; o _Amor_, que é olhar d'elle; E a _Immortalidade_ luminosa, Que é o berço onde n'elle repousámos.
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........................................ ........................................ ........................................ E, agora, oh Terra! que és, entre mil rodas, Uma roda do carro--vae rolando E desprende, ao rodar por sobre o tempo, Tuas cinco faíscas prodigiosas, Pela estrada do Sêr--a Eternidade!
Bussaco, Outubro de 1863.
XXXIII
OMBRA
OMBRA
(DA ANTHERO DE QUENTAL)
Quando Cristo sentì che la sua ora Giunta era alfine, a quei che lo cercavano Grave, calmo, sereno appresentossi. Venia la turba in arme! Ma di tanti Non un sol si attentó muovere il passo E por la mano in su il figliuol dell'uomo. Tutti con bassi gli occhi, a Gesú innanzi Inerme, nascondean l'armi. Ma quegli, Che il doveva tradir, fattosi presso, Lo strinse fra le braccia mormorando _Dio ti salvi Maestro_! E, siccome era Pattuito, baciollo in sulla faccia. Cosí gli altri avanzandosi, lo presero. Ma Gesú, gli occhi al ciel, senza vederli Li perdonava e li seguia sereno. Era scabro il cammino. In cima a un monte Saliano; e da' due fianchi e giuso al basso, Su la terra era notte. E, quando al fine Aggiunser la più eccelsa erta del colle, Di repente fu visto illuminarsi Uno de' lati d'una blanda e dolce Luce; ma immensa. E quanta terra in quella Dal monte all' oceàn capia, su cui, Dall'alto riflettendosi, la viva Face splendea, si rischiarava tutta Da valle a monte, e risalia la bianca Luce a mezzo l'azzurro arco del cielo. E puro somigliava albor lunare O da quel lato rinascente aurora. Ed era questo il lume che su Giuda Non risplendea,
Dall' altra parte intanto Era tenebra fonda e parea come Di quei triste il delitto ella ascondesse Tutt' all' ingiro, in procellosa notte Biancicante di neve all' orizzonte. Cosí, divisa in due parti la terra, Involta questa rimanea nell' ombra.
........................................
Fu da quest' ombra che la chiesa nacque.
Domenico Milelli, _Rottami_, p. 39. 1890.
FIM
INDICE
Dedicatoria
Explicação prévia Escorso biographico de Anthero de Quental Autobiographia de Anthero Bibliographia
I--Palavras aladas II--Laço de amor III--Força--Amor IV--Paz em Deus V--N'uma noite de primavera VI--Psalmo VII--Á beira-mar VIII--Aspiração IX--A Pyramide no deserto X--Desalento--Conforto XI--A senda do Calvario XII--A João de Deus XIII--Per amica silentia lunae XIV--Na primeira pagina do Inferno de Dante XV--Dante--Divina Comedia XVI--Momentos de Tedio (Sonetos) I. Sinite parvulos II. A um Crucifixo III. Decomposição IV. Nihil V. Quinze annos VI. Sarcasmos XVII--Amor de filha XVIII--Gargalhadas XIX--Á Italia XX--A Gennaro Perrelli XXI--Guitarrilha de Satan XXII--Serenata XXIII--O Possesso (Sonetos) XXIV--Epigramma transcendental XXV--Na Sepultura de Zara Versão do Dr. Storck XXVI--Glosa camoniana XXVII--As Fadas XXVIII--O sol do Bello XXIX--Iberia XXX--Versões e imitações Excerptos de uma traducção do _Fausto_: I. Dedicatoria II. Na Cathedral III. A canção do Rei de Thule A Dôr, imitação de Petöfi A casa do Coração (do allemão) Estancias (do allemão) Romance de Goesto Ansures (ao moderno) XXXI--Sonetos desprezados XXXII--Fiat lux! (Poemeto) XXXIII--Ombra, versão italiana de Domenico Milelli
_Acabado de imprimir_ EM 10 DE JUNHO DE 1892 _commemorando o 312.^o anno_ DA MORTE DE CAMÕES
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NA TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS para *M. GOMES*, LIVREIRO-EDITOR estabelecido na Rua Garrett (Chiado), 70-72 LISBOA.
M. GOMES, Livreiro-Editor
_70, RUA GARRETT (CHIADO), 72--LISBOA_
Livreiro de Suas Magestades e Altezas
EDIÇÕES
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O Mosteiro da Batalha, 1 vol. gr. in folio illustrado com 26 heliogravuras 13$500
Alberto Braga
Contos escolhidos, ed. illustrada por Casanova. 1$000
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O socialismo perante a sciencia social, 1 vol. $200
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Poesias: O ultimo romantico--Paginas soltas--Severo Torrelli, 1 vol. 1$000
Griselia, mysterio, traducção em verso, 1 vol. $500
Colette (Claudia de Campos)
Rindo, 1 vol. de Contos.
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Endeixas e Madrigaes, 1 vol. de poesias
Cartonado
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Flor de pantano, 1 vol. de poesias
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José da Silva Carvalho e o seu tempo, 1 gr. vol. e _fac-similes_
ULTIMAS NOVIDADES
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Assignaturas de jornaes, pelos preços do estrangeiro, para o que tem montado serviço especial
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COMMISSÕES
Encarrega-se de quaesquer que lhe incumbam para o que tem correspondentes especiaes em todos os paizes.
End of Project Gutenberg's Raios de extincta luz, by Antero de Quental