# Raios de extincta luz poesias ineditas (1859-1863)

## Part 5

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A mais pobre creancinha Se quiz ser sua madrinha, Uma fada... ai, que feliz! São palacios, n'um momento... Belleza, que é um portento... Riqueza, que nem se diz...

Ou então, prendas, talento, Sciencia, discernimento, Graças, chiste, discrição... Vê-se o pobre innocentinho Feito um sabio, um adivinho, Que aos mais sabios vae á mão!

Mas, com tudo isto, as fadas São muito desconfiadas; Quem as vê não hade rir. Querem ellas que as respeitem, E não gostam que as espreitem, Nem se lhes hade mentir.

Quem as offende... Cautela! A mais risonha, a mais bella, Torna-se logo tão má, Tão cruel, tão vingativa! É inimiga aggressiva, É serpente que alli está!

E têm vinganças terriveis! Semeiam cousas horriveis, Que nascem logo no chão... Linguas de fogo que estalam! Sapos com azas, que falam! Um anão preto! um dragão!

Ou deitam sortes na gente... O nariz faz-se serpente, A dar pulos, a crescer... É-se morcego ou veado... E anda-se assim encantado, Emquanto a fada quizer!

Por isso quem por estradas Fôr, de noite, e vir as fadas Nos altos mirando o céo, Deve com geito falar-lhes Muito cortez e tirar-lhes Até ao chão o chapéo.

Porque a fortuna da gente Está ás vezes sómente N'uma palavra que diz; Por uma palavra, engraça Uma fada com quem passa, E torna-o logo feliz.

Quantas vezes, já deitado, Mas sem somno, inda acordado, Me ponho a considerar Que condão eu pediria, Se uma fada, um bello dia, Me quizesse a mim fadar...

O que seria? um thesouro? Um reino? um vestido de ouro? Ou um leito de marfim? Ou um palacio encantado, Com seu lago prateado E com pavões no jardim?

Ou podia, se eu quizesse, Pedir tambem que me désse Um condão, para falar A lingua dos passarinhos, Que conversam nos seus ninhos... Ou então, saber voar!

Oh, se esta noite, sonhando, Alguma fada, engraçando Commigo (podia ser!) Me tocasse da varinha, E fosse minha madrinha Mesmo a dormir, sem a vêr...

E que ámanhã acordasse E me achasse... eu sei? me achasse Feito um principe, um emir!... Até já, imaginando, Se estão meus olhos fechando... Deixa-me já, já dormir!

XXVIII

O SOL DO BELLO

O SOL DO BELLO

RECITADA NA NOITE DE 13 DE MAIO DE 1862, NO THEATRO ACADEMICO, POR A. FIALHO MACHADO

O sol do bello a todos alumia! Sua auréola cinge cada fronte Bem como o rei do dia, mal desponte, Dá luz egual a todo o sêr creado! Este baptismo santo envolve e lava Todos na mesma onda inspiradora! Queima com a mesma chamma abrasadora! Orvalha em egual pranto derramado! Juntas as almas, que o sentir enlaça, Commungam, como irmãs, na mesma taça!

Vê-os, agora, artista.--Elles estendem-te Os seus braços e o affecto é que os impele! Esse braço, que vezes mil repele O laço, que em vão, tenta escravisal-o... A corrupção hypocrita de tantos... Que sabe resistir a quem o opprime... É esse que, n'um impeto sublime, Se ergue a ti, se ergue ao irmão para estreital-o. É que a alma, que não verga á tyrannia, Curva-se, livre, ao bello que a alumia!

Sim! aquelles que do alto de um _vão throno_ --Mal firme throno que estremece ao vento-- Pedem, como tributo de um momento, Respeito, amor, affecto á mocidade, (Mas pedem como quem ordena a escravos) Não são esses aqui os respeitados! Não são esses que são aqui amados! Não escuta voz de imperio a liberdade! Mas quem de amor nos labios traz doçura Esse é que leva a flor de uma alma pura!

Pura e nobre! Embora, despeitados, Lhe chamem louco e frio a esse peito... Não se acreditam vozes de despeito. Frio! quem diz que é frio o peito moço? Que o sentimento é extincto n'estas almas? Dil-o a _velhice_ que não tem no seio Nem uma voz de amor, nem um anceio, A dar ao bello, que arrebata o nosso:-- Dil-o quem a deseja corrompida... Porém na mocidade habita a vida!

A vida! sim! Bem como em cofre de ouro Se guarda o que ha melhor, o que ha mais puro, Deu-lhe o Senhor a guarda do futuro, Confiou-lhe em deposito essas gemas --O amor, a fé, o bello, a liberdade! O amor! o que nos dá sentir profundo! A fé! a que nos mostra melhor mundo! A liberdade! a que espedaça algemas! O bello! a nossa flammula brilhante! E sobre tudo, a voz que brada--avante!

XXIX

IBERIA

(_Do_ Seculo XIX, _de Penafiel, n.^o 20, 1864_).

IBERIA

I

Flor dos povos! oh tu que inda te embalas, E inda em botão, aos ventos do futuro! Que tens por vazos e jardins e salas Toda a vasta extensão do tempo escuro! E frontes gloriosas a adornal-as, A fronte da historia, o grande auguro! Lirio que saes do seio á humanidade Como filha melhor--Fraternidade!

Deixa que escreva aqui teu nome todo, E já d'aqui aspire teu perfume! E, arredando co'as mãos o frio lodo Do presente, me aqueça a esse teu lume! Deixa beijar-te em sonho, e d'este modo Trazer-te unida ao seio, que consumme Esta ancia ardente de destino novo, E este fogo roubado ao seio do povo!

Porque te vemos só quando sonhamos... E, irmã! só nos sorris em nosso somno... E, a dormir, doce amiga, te beijamos! Tu--só em nossas almas--tens teu throno Ainda! mas, sem ver-te, te adoramos, E, como um cão fiel segue o seu dono, Trazemos ante o olhar tua lembrança, E caminhamos cheios de confiança!

Fraternidade! esta palavra é suave, Como antegosto de melhor destino! Como a onda de um Ganges que nos lave! E como a pósse de um penhor divino! Como o vôo sereno de uma ave Que, sendo apenas ponto pequenino, Emtanto faz, transpondo ao longe um monte, Sonhar com melhor céo e outro horisonte!

O grande céo! o céo da humanidade! Onde os povos serão constellações, E, destillando a luz da liberdade, Serão astros e estrellas as nações! Onde hade o grande laço da egualdade Reunir a vontade e os corações! Cobrindo-os, a dormir, os mesmos céos, Terão todos tambem o mesmo Deus.

Não vejo outro Evangelho de ouro escripto Dentro no homem,--nem sei que outro areal, Outro cabo, outro monte de granito, Do grande navegar surja a final! Guiados pelo instincto do infinito É para lá que os povos--náo real!-- Hão a prôa virar lá quando um dia Marearem pela bussula harmonia!

II

Hãode então, como irmãos, reconhecer-se Os amigos--ha tanto tempo ausentes! Hão então (caso novo e estranho!) ver-se Face a face as nações, sem que dementes As entranhas se rasguem! e hade lêr-se Um protocolo, em letras de ouro, ingentes, Escripto, sem emenda e sem errata, Por mãos do amor--o grande diplomata!

III

Elle é quem concilia as differenças, Quem nos concilios hade erguer a voz, Tirando nova ideia e novas crenças Das esfriadas cinzas dos avós! E, sem trabalhos, e sem dôres immensas, E sem rios de sangue e pranto após, Rasgando o ventre á velha liberdade Sairá á luz a joven Egualdade!

É doce vêr assim, á luz da esperança, Pelo futuro dentro, as cousas bellas... Prevêr do céo humano essa mudança, Que em sóes converte as minimas estrellas! Do passado infeliz eis a vingança! E dos _mortos_ as faces amarellas, Córando de ventura e de alegria, Hãode surgir, emfim, á luz do dia!

IV

E nós tambem, tambem commungaremos Na grande communhão das novas gentes: Tambem os nossos braços ergueremos --Braços livres de jovens impacientes-- E o cinto d'este _Velho_ quebraremos, De aonde a espada e o sceptro estão pendentes, (Já tão gastos!) lançando-os á ribeira... Para o coroar de palmas e oliveira!

Hespanha--irmã! que boda alegre a nossa! Como hãode então teus seios palpitar! Que ribeira de lagrimas tão grossa Teu branco véo de noiva hade estancar! Como hade parecer pequena poça Para os _banhos_, então, o grande mar! E entornar-nos volupia nos desejos O mixto de odio antigo e novos beijos!

........................................

Mas tu 'stás presa!... e nós... 'stamos dementes! Separa-nos o abysmo! os teus algozes... A _cruz de Ignacio_... e as garras inclementes Dos _leões_ orgulhosos e ferozes... E a estupidez do _povo dos valentes_, D'estes pardaes de atroadoras vozes... Entre nós nos cavaram oceanos... Sejam-lhe ponte os corpos dos tyrannos!

Porque beijas teus ferros, pobre louca, E cuidas 'star beijando cousa santa? E, tendo em tuas mãos cousa tão pouca, Tão tenue como a capa de uma santa, Pensas avassalar a terra amouca, E te ergues com vaidade e _gloria_ tanta? Oh! tu, cuidando os orbes abraçar, Só ruinas abraças--Throno e Altar!

Lembre-te a voz do Cid! a atroadora Voz que se ouvia ao longe nos combates! Porque tu estás feita psalmeadora No côro das egrejas--porque bates No peito, em vez de erguer dominadora A tua mão em meio de combates, E livre e bella, oh Hespanha, olhar os céos Procurando por lá teu novo Deus!

V

Como nos amaremos, doce amiga! Como então amaremos! que noivado O nosso não será!... Não tem a espiga No campo côr melhor, nem mais doirado Esplendor, do que tu, bella _inimiga_. Hasde vêr a ventura... quando o estrado Do leito nupcial fôr Liberdade, E fôr docel o céo--Fraternidade.

XXX

VERSÕES E IMITAÇÕES

EXCERPTOS DE UMA TRADUCÇÃO DO FAUSTO

I

*DEDICATORIA*

Ainda uma outra vez, imagens fluctuantes, Vos ergueis ante mim, como outr'ora radiantes Ante mim, que vos fito em vago enleio incerto! Voaes... mas eu hesito em vos retêr agora... Assusta o meu olhar a luz da vossa aurora, E teme as illusões, meu coração desperto!

Que aérea multidão! que virginaes choreas! Meu velho coração, pois que inda te incendeias Não é melhor ceder? sim, sim, rejuvenesce! D'entre as nevoas surgi, visões do tempo antigo! Sim, levae-me tambem no vosso bando amigo, Levae-me aonde ha luz e cantos, e alvorece!

Reconheço entre vós as sombras fugidías De outro tempo melhor, de mais alegres dias: Meu coração evoca imagens adoradas... Susurra em torno a mim voz de saudoso encanto: É o primeiro amor, que passa como um canto De antigas tradições vagamente escutadas...

E as lagrimas, tambem, correm silenciosas! O lamento dorido, as magoas saudosas, Renovam-se; desperta a dor que dormitava... Sim, a dor, ante mim, mostra-me os dias idos, E nomeia-me os bens, sob meus pés fundidos, Quando em minha illusão julguei que os abraçava!

Almas a quem cantei, não me ouvireis agora! O circulo fiel dos amigos d'outr'ora Desfez-se como a voz d'este canto primeiro! Rodeia-me hoje a turba: o seu applauso é triste: Quem folgou de escutar-me, em tempo, se inda existe Disperso erra no mundo, ah! n'um mundo estrangeiro...

Como a saudade então, uma longa saudade, D'esse reino encantado, onde ha paz e verdade, Me falla ao coração n'uma queixa sumida! Meu canto sobe e desce, incerto e fluctuante, Sobe e desce indeciso e com tom murmurante, Bem como uma harpa eólea aos ventos suspendida.

E tremo sem saber porquê, e lentamente Sinto o pranto nascer, correndo docemente, Ungindo o coração que embala e adormece... O que tenho, o que sou, mal o vejo a distancia... É a nuvem no mar, é um sonho de infancia... Só, á luz da saudade, o passado apparece!

II

*NA CATHEDRAL*

_Officios; orgão e canto._ MARGARIDA _no meio da multidão. O_ ESPIRITO RUIM _por detrás d'ella_.

O ESPIRITO RUIM

Como foste, como eu te conheci, E como estás mudada, Margarida! Que pensamento é que te traz aqui? Ainda adormecida, Tua alma ha pouco, lembras-te? buscava, Esta sombra do altar--mas não chorava, Não, não chorava as lagrimas que choras! Rezar era então brinco de criança, Para ti, innocente... Lias nas tuas Horas As tuas orações--e docemente Sorria a Deus tua infantil confiança... Margarida! Quantas ruinas em tão curta vida! Que pensamento occulto te tortura? E, no teu coração, Que peccado te roe essa alma impura? Não rezes: Deus não te ouve a oração! Rezas por tua mãe? por ti foi morta, Sim, morta lentamente, a infeliz! Olha o sangue espalhado á tua porta... De quem é elle, diz? E escuta! n'esse seio criminoso O que é que já se move? Sim, o que é que se agita, e te commove Com um presentimento doloroso?

MARGARIDA

Ai de mim! ai de mim! quem podesse livrar-me D'esta turba cruel de negros pensamentos! Vejo-os de toda a parte e a todos os momentos, Erguer-se em volta a mim, correndo a torturar-me!

CÔRO E ORGÃO

Dies irae, dies illa Solvet saeclum in favilla.

O ESPIRITO RUIM

Cae sobre ti a colera do céo! Sôa a trombeta! as campas se quebrantam! A terra estremeceu, Os mortos se levantam. Tambem teu miseravel coração, Que dormia desfeito, Já renasce das cinzas, já o chamam Para os fogos eternos que se inflammam... Teu pobre coração Estala-te tambem dentro do peito!

MARGARIDA

Oh! quem me dera ao menos d'aqui fóra! Esta musica faz-me uma afflicção! Este orgão parece alguem que chora... Parte-me o coração!

CÔRO E ORGÃO

Judex ergo cum sedebit, Quidquid latet apparebit, Nil inultum remanebit.

MARGARIDA

Que oppressão! que quebranto! A abobada estremece! Estas pedras, parece Que querem desabar! Soffocam-me de espanto Estes tectos escuros! Affrontam-me estes muros! Mais ar! mais ar!

O ESPIRITO RUIM

Esconde-te infeliz! e onde irá occultar Seu peccado e vergonha essa alma deshonrada? Mais ar? pedes mais ar? Ai de ti desgraçada!

CÔRO E ORGÃO

Quid sum miser, tunc dicturus, Quem patronum rogaturus Cum vix justus sit securus?

O ESPIRITO RUIM

Os justos no céo de horror e desgosto... De ti, de te vêr, desviam o rosto... Estende o inferno as mãos para aqui... Ai, de ti!

CÔRO E ORGÃO

Quid sum miser, tunc dicturus.

MARGARIDA

Visinha, dê-me os seus saes. (Cae desmaiada)

III

*A CANÇÃO DO REI DE THULE*

Era uma vez um bom rei Em Thule--essa ilha distante, Ao morrer, deixou-lhe a amante Um copo de ouro de lei.

Era um copo de oiro fino Todo lavrado a primor; Se fosse o calix divino Não lhe tinha mais amor.

Seus tristes olhos leaes Não tinham outra alegria: E só por elle bebia, Nos seus banquetes reaes.

Chegada a hora da morte Poz-se o rei a meditar Grandezas da sua sorte Seus reinos á beira-mar.

Deixava um rico thesouro, Palacios, villas, cidades: De nada tinha saudades, A não ser do copo de ouro.

No castello da deveza, N'aquellas salas sem fim, Mandou armar uma meza Para um ultimo festim.

Convidou sem mais tardar Os seus fieis cavalleiros, Para os brindes derradeiros No castello á beira-mar.

Então, vasando-o de um trago, E com entranhada magoa, Poz nas ondas o olhar vago E atirou com a taça á agua.

Viu-a boiar suspendida, 'Té que as ondas a levaram: Os olhos se lhe toldaram, E não bebeu mais em vida!

1870-71.

A DÔR

(DO POETA HUNGARO SANDOR PETÖFI)

O que é a Dôr? Um mar. E a alegria? Pérola occulta n'esse mar fremente. Quantas vezes a pérola encantada, Entre as rochas profundas sepultada, Se dissolve esquecida, lentamente, E nunca chega a vêr a luz do dia?

1881.

A CASA DO CORAÇÃO

IMITADO DO ALLEMÃO

(_No Album da filha de João de Deus_)

O coração tem dois quartos: Moram ali, sem se vêr, N'um a Dôr, n'outro o Prazer.

Quando o Prazer no seu quarto Acorda cheio de ardor, No seu, adormece a Dôr...

Cuidado, Prazer! Cautella, Canta e ri mais devagar... Não vá a Dôr acordar...

ESTANCIAS

IMITADAS DO ALLEMÃO

Rebentam flores mil das minhas lagrimas, E só serpentes nascem dos meus cantos; É que os meus cantos são envenenados, E só puros, só doces os meus prantos.

* * * * *

Se queres conhecer o homem e o mundo, Não desvies de ti o olhar profundo; Mas foge de te ouvir e de te vêr, Se a ti mesmo te queres conhecer.

1887.

ROMANCE DE GOESTO ANSURES

(POSTO EM LINGUAGEM MODERNA)

No figueiral figueiredo, Lá no figueiral entrei. Seis donzellas encontrára, Seis donzellas encontrei; Para ellas caminhára, Para ellas caminhei; Chorando a todas achára, A todas chorando achei; Logo ali lhes perguntára, Logo ali lhes perguntei, Quem foi que ousou maltratal-as, Tratal-as de tão má lei?

No figueiral figueiredo, Lá no figueiral entrei. Uma d'ellas respondera: --Cavalleiro, não o sei... Mal haja, mal haja a terra Que tem máo e fraco rei, Que se eu as armas vestira, Por minha fé, que não sei Se homem ousára levar-me, Levar-me de tão má lei... Com Deus ide cavalleiro, Ide com Deus, que não sei Se onde me fallaes agora Nunca mais vos fallarei.

No figueiral figueiredo, Lá no figueiral entrei. Eu então lhe replicára: --Por minha fé, não irei; Antes olhos d'essa cara Bem caros os comprarei; A longas terras distantes Só por seguir-vos me irei; Por caminhos dasvairados Atraz de vós andarei; Linguas moiras de aravias Por vós eu as fallarei; Moiros se me apparecerem A todos os matarei.

No figueiral figueiredo, Lá no figueiral entrei. N'isto o moiro que as guardára, Perto d'ali encontrei: Se elle bem me ameaçára, Eu melhor o ameacei; Um tronco secco esgalhára, Um tronco secco esgalhei; Com elle a todos matára, A todos desbaratei; As donzellas libertára, Todas sim as libertei; Aquella que me fallára Com ella me casarei. No figueiral figueiredo, Lá no figueiral entrei.

XXXI

SONETOS DESPREZADOS

Incorporamos aqui os Sonetos IV, X, XVI, XVII e XX, da collecção de Coimbra, de 1861, não incluidos no volume dos _Sonetos completos_.

A M. E.

Terra do exilio! Aqui tambem as flores Têm perfume e matiz; tambem vicejam Rosas no prado, e pelo prado adejam Zéfiros brandos suspirando amores:

Tambem cá tem a terra seus primores; Pelos vales as fontes rumorejam; Tem as moitas seus sôpros, que bafejam, E o céo tem sua luz e seus ardores.

Em toda a natureza ha amor e cantos, Em toda a natureza Deus se encerra... E comtudo esta é a causa de meus prantos!

Eu sou bem como a flor que não descerra Em clima alheio. Que importam teus encantos? Não és, terra do exilio, a minha terra.

AD AMICOS

PROPTER SOLATIUM

Renasço, amigos, vivo! Ha pouco ainda Disse ao viver: «_Afunda-te no nada_!» E já, bem vêdes, surjo á luz dourada, --No labio o rir, no peito esp'rança infinda!

Ah, flor da vida! flor viçosa e linda! Envolto na mortalha regelada Do _só_ pensar--perdão!--foste olvidada... Flor do sentir e crêr e amar... bem vinda!

A vida! como a sinto, ardente, immensa! Não unica! tomando a immensidade! Livre! perante Deus surgindo forte!

Que amor! que luz! que pira vasta, intensa! Plenitude! harmonia! realidade! Mas melhor que tudo isto é sempre a morte!

A Q. M. Q.

Fica-te em paz! não pode a mão do homem Partir o seio á arvéloa queixosa, Quando o canto soltar, e a voz chorosa Erguer lá contra as magoas que a consommem.

Respeito o teu sacrario: embora tomem Por orgulho o respeito; eu colho a rosa Mas não a flor modesta e melindrosa, Que se occulta entre as mais... e que as mais somem.

Mais que amor tenho crença: essa existencia Pede-me um culto por quem dera a vida, Por que dou esta dôr, que aqui se encerra.

Mulher! mulher! de que valera a essencia, A essencia pura, a uma alma que é descrida? Fica-te em paz: fique eu com minha guerra!

IGNOTO DEO

Corre aos braços da mãe o filho amado; --Por olvidar, volvendo a sua historia-- Corre á mente do inf'liz doce memoria; Corre á luz de um olhar o olhar buscado;

Vem o alivio animar peito magoado; Corre o forte a buscar na morte a gloria; Desfeita do viver sombra illusoria, Foge o espirito livre ao seu anciado.

Tudo busca quem o ama: a luz dourada Busca do seu viver, como no escuro Quem avista uma luz lhe vae ao encontro.

Só tu, ventura! uma vez sonhada; Só tu, sombra de _amor_! que em vão procuro, Só tu, foges de mim, só não te encontro!

IGNOTO DEO

Senhor! eu sou teu filho! eu sou aquelle Que tanta vez peccou, porém, contrito Tanta vez tem erguido a ti o grito Da aguia que o tufão no alto compelle.

E a aguia soffre tambem, como ave imbele, E mais que ella (que põe mais alto o fito) Mas da aguia que luctou, o brado afflicto, Senhor! o teu ouvido não repelle.

Eu não caio, meu Deus, sem ter luctado; Fraco sou, por que sou de barro e limo, Porém, na tua _Lei_ medito e scismo.

E eu sou teu filho! A um filho desgraçado Que hade um pae recusar? Oh, dá-me arrimo, Estende-me tua mão por sobre o abysmo.

XXXII

FIAT LUX!

(POEMETO)

FIAT LUX!

Et terra erat inanis et vacua.

Tinham os astros já mil annos,--tinham Talvez cem mil--ou tinham um minuto-- (Pois quem sabe contar horas ou seculos No relogio--que tem o firmamento Por quadrante,--e algarismos, sóes e estrellas?)

'Stavam ha muito ali. O velho Cahos, O oleiro do infinito, que entre as duas Mãos--o tempo e o espaço--os amassára, Cansou por fim tambem de fazer mundos, Não tendo já mais barro, nem mais raios Com que o barro pintar.

Ora, limpando As mãos, que estavam sujas do trabalho, E esfregando uma palma contra a outra, Soprou depois os restos, sem vêr onde, Por esse abysmo além.

Oh pó de mundos! Migalha dos banquetes do Principio! Triste parto das sombras, atirado Sobre o berço de luz do firmamento! Morcêgo horrivel, meio tonto e cego, Cahido no salão de lustres de astros!

O pó soprado, informe bola escura, Como filho engeitado, que se esconde Pela sombra dos muros, foi rolando Pelos cantos do espaço, involto em trevas... Que o não vissem os sóes.

* * * * *

E foi descendo, Extranho, negro, horrivel, monstruoso. E, quanto era maior a treva, ainda Mais o medo crescia que o olhassem... E mais o horror de si o endoudecia... E mais girava, immenso já de inchado De terror e delirio!

Os grandes astros Como um viveiro immenso de fulgores Atiravam, de sol em sol, as notas Do eterno concerto...

* * * * *

E foi rolando, Vertiginoso e bebado de horrores!

O feio, ebrio da mesma fealdade! O mal, possesso do seu mal! As trevas Cheias de medo de se vêr tão negras!

E o firmamento arfava n'um delirio De harmonia e ventura! O espaço ardente Suava luz--girando no infinito-- Pelos póros do céo... que são estrellas.

* * * * *

Oh! como a ave da noite eterna, ao vêr-se Dentro do dia eterno... endoidecia! Como rolava tonta a um lado e ao outro Batendo as duas azas--Sombra e Espanto,-- Por todo esse infinito já não via Um só buraco que a escondesse!

* * * * *

O Abysmo --Escravo, mas heroe--chorava mudo... E engulia os soluços. Despojado, Que lhe havia elle dar?

Os outros riam.

* * * * *

Oh! a belleza é cruel! A altura é fria! E impiedosa e feroz! A ave aérea Não tem dó do insecto! A virgem branca Pisa o negro reptil! o louro infante Crucifica o morcêgo! Os astros de ouro Viram a Terra assim... e não choraram!

* * * * *

Um riso louco, então, feito de raios Infinitos de luz, encheu o espaço! O giro das espheras cambaleava E estorcia-se, doido, em grandes frouxos De hilaridade e brilho! E o écco eterno Que em vez de voz, repete os esplendores, Confuso co'as mil ondas tumultuosas Parecia tempestade de harmonia.

Todo o céo se inclinava, incendiado N'uma aurora boreal prodigiosa, Vendo o truão horrivel do infinito!

* * * * *

Foi então que o Abysmo, o triste escravo Dos senhores da luz--partido, oppresso Co'a immensa dôr d'aquelle rir,--não pôde Suster-se mais.

Ouviu-se desde baixo Vir subindo um suspiro--e quantos éccos Da antiga confusão ha 'hi no espaço: E todas as tristezas que ficaram Dos combates de outr'ora: e os soffrimentos De quantas luctas houve, antes do tempo: E essas mil dôres, e essas mil torturas, Que custou cada sol: todo esse inferno De negrumes, que o céo lançou, despindo-os, Quando quiz ser só luz... de ais e gemidos Quando quiz ser só canto... a parte infame Que na injusta partilha coube ao Abysmo... Tudo isto, no suspiro do captivo, --Triste, mas grave; queixa, mas não súpplica... Antes accusação,--na voz debaixo Tudo isto ali subiu!

* * * * *

Os grandes astros Enfiaram de pasmo e emudeceram! E, se em seios de luz ha 'hi remorsos, Sentiram-no n'essa hora...

* * * * *

Então abriram-se As portas do silencio--e, como um sôpro Que agitasse as espheras, voz sem timbre (Se ha ouvir...) se ouviu: «_Quem faz chorar o Abysmo_?»

* * * * *

Oh! o grande bem e a grande formosura, Que tendo a estrella e o céo, inclina a face Para a grande abjecção! A Aurora immensa, Que quer saber quem escurece a Treva! A ventura sem fim, que se conturba Porque a desgraça soffre!

