Raios de extincta luz poesias ineditas (1859-1863)
Part 4
Oh Italia aviltada! Oh não sem rumo No meio da tormenta! E era esta a rainha das provincias? Hoje... cloaca informe! Outr'ora mal bradasse:--«Patria, Patria!» Um cidadão, um filho, Alma nobre--acolhias-l'o no seio No seio que lhe abrias! Agora espreita cada um o peito Do visinho e olha o gladio: E os que estreita no cinto o mesmo muro E o mesmo fôsso... comem-se! Alonga, alonga, oh triste, pelas praias Teus olhos macerados; Desce-os, desce, infeliz, ao proprio seio... A paz! onde a encontraste?
Julho, 1862.
XVI
MOMENTOS DE TEDIO
SONETOS
MOMENTOS DE TEDIO
I
Sinite parvulos ad me venire
Ventura! aurora d'outro eterno dia-- Amor--Verdade--Bem--Quanto desprende Seu vôo cá da terra e quanto estende Azas no céo, só busca esta harmonia,
E as alturas fechadas! tudo esfria E morre, lá por cima, e não se entende... Certo é que o fructo só p'ra terra pende, Parece que p'ra terra a luz se cria!
Ha tanto quem sem lucta espere havel-a! Sem se erguer, quêdo o mundo, cuide vêl-a... Talvez, se assim quedasse, a possuisse!
Chama-se isto voar! Toda essa altura Dava-a bem por uma hora de ventura... Antes minha alma não voasse... e visse!
Coimbra, Novembro, 1862.
II
A UM CRUCIFIXO
(_Primeira elaboração do Soneto de p. 20 dos_ Sonetos Completos)
Dieu n'est pas! Dieu n'est plus
Ha mil annos, oh Christo, ergueste os magros braços, E clamaste da cruz: «Ha Deus!» e olhaste, oh crente, O horizonte futuro, e viste em tua mente O alvor _do céo_ banhar _de luz_ esses espaços!
Porque morreu sem ecco o ecco de teus passos? E de tua palavra (oh Verbo!) o som fremente? Morreste! ó dorme em paz: não volvas, que descrente Arrojáras de novo á campa os membros lassos!...
_Ha mil annos! ha mil! Que é d'ella a tua esp'rança? Ainda, como então, Amor--traduz--Vingança, E é o int'resse glacial das almas o sudario_!
_Ainda_, como então, víras o mundo exangue? E ouvíras perguntar: «De que serviu o sangue Com que regaste, oh Christo, as urzes do Calvario?!»
Coimbra, Novembro, 1862.
* * * * *
VARIANTE DO 2.^o TERCETO
Agora, como então, na mesma terra erma, A mesma humanidade é sempre a mesma enferma, Sob o mesmo ermo céo, frio como um sudario.
III
DECOMPOSIÇÃO
«Eu não sou dos que a patria só adoram» Como adora o regato a propria serra: Deus n'uma gleba apenas não se encerra; Se visita esses mundos, que demoram
De céo a céo, tambem cafres o imploram. Mas deixae que uma lagrima sincera Possam os olhos dar, olhando-a, á terra De onde a primeira vez aos céos se foram.
Sim, vêr-te, Portugal! eu chóro ao ver-te!... Como ao Leão gigante do Occidente Lhe cáe a garra, e em nada se converte!...
Não é isto o que eu chóro: o que me dóe, É como aquella juba omnipotente, Em pennas de pavão se decompõe!...
Coimbra, Janeiro, 1863.
IV
NIHIL
Homem! Homem! mendigo do Infinito! Abres a bocca e estendes os teus braços A vêr se os astros cáem dos espaços A encher o vacuo immenso do finito!
Porque sóbes á rocha de granito? Porque é que dás no ár tantos abraços? E cuidas amarrar com ferreos laços Um reflexo da sombra de um esp'rito?
Vê que o céo, por escarneo, a luz nos lança! Que, á tua voz, a voz da immensidão Responde com immensa gargalhada!
A idéa fechou a porta á esp'rança, Quando lhe foi pedir gazalho e pão... Deixou-a cara a cara com o Nada!!...
Maio, 1863.
V
QUINZE ANNOS
(_Primeira elaboração do Soneto de p. 30 dos_ Sonetos Completos)
Eu amo a vasta sombra das montanhas Que estendem sobre os largos continentes Os seus braços de rocha negra, ingentes, Bem como braços colossaes de aranhas.
D'ali o nosso olhar vê tão extranhas Coisas, por esse céo! e tão ardentes Visões _amostra_ o mar de ondas trementes E as estrellas, d'ali, vê-as tamanhas.
Amo a grandeza _tenebrosa e_ vasta: A grande idéa como _um grande fruito_ De _um_'arvore colossal que _isto_ domina;
Mas tu, criança, sê tu boa... e basta, Sabe amar e sorrir... _mulher, é muito_... Mas a ti só te quero pequenina...
Coimbra, 18 de abril de 1863.
VI
SARCASMOS
Está deserta a estrada do Infinito, É apenas o cêo do nada espelho, A eternidade é fossil: Deus é velho, E o homem olha o céo de fito em fito!
A cruz de Christo está feita um palito, Embrulham-se caminhos no Evangelho; Cada qual dá a Deus o seu conselho: Nem já é Verbo o verbo... é só um _Dito_!
Nada d'isto me dá a mim cansado; Mas morrer Satanaz tambem de frio... Mas não haver já mal que se combata...
Não poder já ao demo um condemnado Render a alma immortal... por desfastio... É isto o que me dóe, o que me mata!...
Maio, 1863.
XVII
AMOR DE FILHA
AMOR DE FILHA
(NO ALBUM DE UMA SENHORA)
...........o sangue é vida, e as Mães a fonte d'ella...
João de Deus
Ainda a trabalhar, dedos formosos! Nem tanto affinco: Deus tambem não quer Que se cumpra o preceito tanto á letra; Preceito é trabalhar, não que se estraguem Esses formosos dedos de mulher.
Já o sol se escondeu atraz da serra, E o bordado não céssas de bordar; Quando abri de manhã esta janella, Já lá estavas no posto, de olhos roxos, Como se foram roxos de chorar!
Forte trabalho! não me enganas, bella! Bem sei eu quem te dá tamanho ardor... Pois nem um olhar a quem passou na rua, Dizendo:--É bella! e olhando-te? nem isso?... Ai tanto trabalhar! só por amor...
Que importa o que passou? no peito um nome Te domina, e na mente uma imagem só... Feliz cabeça, que hade ornar em breve O bordado gentil em que trabalhas Com esse affinco, que causou meu dó.
Feliz! sim; que lhe guarda aquelle peito Largo e rico thesouro de affeição; Pois magoar estes olhos, e estes dedos Formosos estragar--homem ditoso-- Só faz o amor que vem do coração!...
Tu, que talvez repouzes no ocio brando, (Se não corres talvez de flôr em flôr) Vê tu que sacrificios immerecidos!... Mas um menino cego é quem nos vence, Que a isto e a mais obriga o louco amor! ........................................
Mas, não! Quem lá no fundo, meio occulto Entrevejo na sombra, como quem Teme do dia a luz--luz orgulhosa, Luz que ao feliz afaga, ao triste afflige-- Quem triste e só, se occulta mais além?
Quem, se o dia findou, recebe o beijo E outro recebe logo que é manhã? Quem--emquanto a alampada nocturna Alumia a vigilia--sente em sonhos Uma lagrima de amor molhar-lhe as cans?
Perdão, mulher! e mais que mulher, filha, Perdão! louco julguei e impio tambem, Que tinhas outro amor: como se possa Ter uma filha amor ou pensamento Que todo não pertença a sua mãe!
Feliz, quem--pobre--tem um tal arrimo; Quem--cega--pode vêr uma tal luz: Quem--cega e pobre e triste e desprezada-- Tem uma mão de filha que piedosa Té aos degráos do tumulo a conduz!... ........................................
É nobre o teu trabalho, mulher bella-- Bella d'aquella luz que vem dos céos, A quem nas áras da fiel piedade Sacrifica illusões da mocidade E segue o seu caminho crente em Deus!
Nem mais um riso, amigos! Respeitemos O que ella faz ali com tanto ardor; Não são enfeites vãos, do prazer socios, É o pão de uma mãe que ali grangêa, Trabalha por amor... mas outro amor.
Trabalha e enchuga o pranto á velha enferma: Trabalha noite e dia; é Deus que o quer: Que importa á filha, quando a mãe lhe soffre, Que o sol nasça ou decline, ou que se estraguem Os seus formosos dedos de mulher?
Coimbra, 1862.
XVIII
GARGALHADAS
GARGALHADAS
(NO ALBUM DO SEU CONDISCIPULO DR. JOSÉ BERNARDINO)
_Risum teneatis_!
Bem é fallar de tristezas Por estes tempos de risos, Em que passa a Gargalhada Na face dos paraisos,
E, como o vento do pólo Forte--mas triste, mas frio-- Que leva as folhas co'as flores, Como as enchentes do rio.
É o nivel da egualdade Desde a rocha até á flor, Desde o amor da virtude 'Té á virtude do amor.
Como os remoinhos de pó Que a gente vê, a tremer, Sob-la tarde, nas estradas, Como demonios correr;
Como a espuma batida Que a rocha escarra no mar E a onda depois atira, Com escarneo, por esse ár;
Como os grôus em debandada Ao partir-se-lhe a cadeia: E o torvelinho que atira No deserto os grãos de areia;
Como tudo, emfim, que geme No abraço dos turbilhões E, de olhos postos no inferno, Lança ao céo as maldições:
Folhas mortas e flores vivas, Pó da terra e diamantes, Aguas correntes e charcos, Os de perto e os mais distantes;
Vozes profundas da terra, Vozes do peito gementes, De envolto as feras bravias Com as aves innocentes;
Como as palhas assopradas Depois das malhas, na eira, Ou gottas de agua rolando De alta náo na larga esteira--
Tudo partido, enlaçado, Em desesp'rados abraços, Ruindo pelas quebradas, Rolando pelos espaços,
Nos _paraisos perdidos_ E--agora--feitos desertos, Como legião de demonios Rugindo infernaes concertos;
Tudo vae, se rasga e parte, Como em cidade assaltada, Sob esses tufões gelados Da tormenta--Gargalhada!
Das tormentas! Que sem conto São esses ventos de morte; E d'um ao outro horizonte; E d'um modo e d'outra sorte.
Os suões do céo humano E os simúns do seu deserto; O que a gente vê ao longe, O que a gente sente ao perto;
A gargalhada do sabio, Que se chama... indagação; A gargalhada do sceptico, Que tem nome... negação:
A gargalhada do santo, Que tem nome--fé e crença; A gargalhada do impio, Que se chama... indifferença:
A gargalhada da historia Que se chama... Revolução: E a gargalhada de Deus, Que tem nome... Escuridão;
Eil-as 'hi vêm, as tormentas, De todos os horizontes, Subindo de todos vales, Descendo de todos montes.
Eil-as 'hi vêm: já espectros, Já como lavas ruindo: Já nuvem, já mar, já fogo, Mas sempre, sempre cahindo,
Desde a França... e são revoltas; Da Allemanha... e são idéas; Desde a America... e são fardos; E da Russia... e são cadeias;
De Inglaterra... e são carvões De fumo enchendo os pórtos; Do Oriente... e são os sonhos; E da Italia... Christos mortos;
Da Hespanha... e são traições, Á noite, por traz dos brejos, --Mão na faca e mão nas costas-- E _dê cá_... e são bocejos.
É d'estes lados que sopram... E são os ventos assim... Levando os cedros do monte Como os lyrios do jardim...
* * * * *
E, comtudo, no meio da _alegria_ Terrivel, que enche o espaço como o ecco Das grandes trovoadas--e debaixo De tantos ventos e de tantos climas, A Alma--a flor do Paraiso antigo-- Lyrio bello do valle--peito humano, A Sulamite da Sião celeste-- A Psyche triste e palida, que vaga Nas praias do infinito--a Alma, oh homens, Em meio do folgar que vae no mundo, Cada vez chora mais e mais soluça, E mais saudosa--a eterna expatriada!-- ........................................ ........................................
É que o rir do leão sempre é rugido-- E isto, que sae da bocca tenebrosa Do mundo--e o mundo escuro diz Progresso, E Força, e Vida, e Lei--isto é soluço Que sae do peito condemnado,--e quando Vae a sahir, para illudir o misero, Diz á bocca: «Olha tu como nós rimos»... Mas não é mais que o arranco da agonia! Nem pode ser.--Aquelle riso enorme Quando sae é co'o ruido das tormentas E, como as grandes aguas, vae rolando, E esmaga... e não consola! É como a orgia Que cuidando folgar... se está matando! E como esses que dizem dos rochedos Que _brincam_ com as ondas... quando as partem!
Não é o riso bello da Harmonia, É apenas gargalhada de Possessos! Ha dentro d'este mundo algum demonio, Que o obriga a torcer assim a bocca Lá quando mais se agita e mais lhe dóe! Senão, olhae e vêde essa alegria --Quer seja Idéa ou Força ou Arte, ou seja A Industria ou o Prazer--de qualquer lado Que rebente dos labios--vêde como Faz frio a quem a vê! como entristece Vêr o gigante louco dar-se beijos Como em mulher formosa... e ao longe, ao longe Todo o campo alastrado de flôr's mortas! ........................................ ........................................
Mas basta! A luz doirada Um dia hade surgir! E a venda, d'esses olhos, Por fim tambem cahir!
E a Gargalhada immensa Fechar a horrivel bocca! E ser canto suave Essa atroada rouca! Então!.................. ........................ ........................ ........................
Alma, que sonhas? Que louco desvairar!... _Então!!_... Mas--Hoje--esta hora... É toda p'ra chorar!
Coimbra, Novembro, 1863.
XIX
Á ITALIA
Á ITALIA
POESIA RECITADA NO THEATRO ACADEMICO POR A. FIALHO DE MACHADO
_na noite de 22 de outubro de 1862_
Italia e Portugal! que duas patrias! Ambas tam bellas, tam amadas ambas! Uma, a patria do berço; outra a das almas: Uma, a das artes; outra a dos combates!
Oh! deixae que hoje, aqui, sobre o meu peito, As estreite, a final.--Ha quanto tempo Eu quizera juntar-vos, pelas frontes, Beijar-vos, bem unidas, soluçando, Como quem, tendo pae, mãe encontrasse.
Portugal! nobre filho de guerreiros! Viste, primeiro, o sol da liberdade, Mais feliz, não maior e nem mais digno Que tua irmã, a Italia.--Ella, entretanto, Chorava, olhando o céo, negro de nuvens!
Cobriram-n'a de affrontas! sobre os hombros A toga negra, já como sudario: O seu corpo partido em dez retalhos: O extrangeiro assentado nos seus lares... E não se via sol no céo da Italia!
Dizei-me vós, se pode o grande rio Existir, sem que as fontes o basteçam? Se pode quem nasceu fadado ás glorias, Esquecido morrer? Se os fortes netos De Mario e de Catão, ir assentar-se Sosinhos sobre o tumulo dos fortes --Olhos no chão e pulsos algemados? Se é possivel que exista um povo--um povo!-- Sem ser livre, e sem sol o céo da Italia?!
O céo da Italia!... esse céo Tem, por sol, a liberdade! Riqueza... de claridade... Mas se foi Deus quem lh'a deu?!
O que Deus dá é sagrado!... 'Stava o povo escravisado E par'cia, de esquecido, Prostrar-se tam compungido Ante os pés de seu Senhor?!
Pois bem! a esse povo escravo Bastou-lhe o brado d'um bravo Para se erguer,--eil-o em pé! E aos tyrannos, aos senhores, Aos fortes, cheios de fé, Bastou-lhes ouvir os clamores D'essa turba esfomeada
Para deixarem a espada... Raia a nova claridade, A aurora da liberdade, D'um proscripto no palor!
O povo toma as espadas, Meias gastas e olvidadas,
Sobre as campas dos avós: E, ainda vestido de dó, Com esforço sobrehumano, Ergue os hombros... e o tyranno Treme... nuta... eil-o no pó!...
Quem derruba, sobranceiro, Altos colossos por terra? Quem é que faz d'uma guerra A festa do mundo inteiro?
Um homem? Não! A Justiça!... Deus!--o unico juiz Dos povos na grande liça!
Só Deus!-- Elle dá ao triste Allivios... não odios vís! A essa Italia que hoje existe Segredou-lhe, em quanto oppressa, Como sagrada promessa, Em vez de iras da vingança, Estas palavras d'esperança:
«Tudo tem allivio á magoa: A flôr murcha, a gotta d'agua; Cruz, o moribundo exangue; Um filho, a fera mais seva; Amor, o martyr; a treva, Um raio de claridade... E o povo, que é vida e sangue, Não hade ter liberdade?!»
XX
A GENNARO PERRELLI
A GENNARO PERRELLI
AO ARTISTA E AO PATRIOTA ITALIANO
A arte é como a luz: brilha do alto, Mas quer livre brilhar: do Deus do bello Ella é religião: seu templo immenso Quer sacerdotes mas rejeita o bonzo. E o artista é como astro gravitando Em céo e espaço livre: acaso o servo Pode entoar um canto de ventura?
Só a mão, que não aperta Grilhão de escravo, disperta Na arte tal magestade, Tal sentir e tal verdade-- Vêde essa fronte inspirada Do artista, allumiada Ao clarão da liberdade!
XXI
GUITARRILHA DE SATAN
Estes versos appareceram pela primeira vez publicados com o pseudonymo de _Carlos Fradique Mendes_.
GUITARRILHA DE SATAN
Estranha apparição Que em minhas noites vejo, Ó filha do desejo! Ó filha da soidão!
Não sei qual é o teu nome, E d'onde vens ignoro: Sei só que tremo e choro Como de frio e fome!
Que por fundir comtigo Suspiros, ais, rugidos, Déra ideaes queridos, Deuses e fé que sigo.
Sim! dera as prophecias E os cultos salvadores, E os Golgothas e as dôres E as Biblias dos Messias!
Por ti minh'alma clama, Corre a meus braços breve, Sejas de fogo ou neve, Sejas cristal ou lama!
Se és Beatriz, sou Dante; Sou santo, se és divina; Se és Laïs ou Messalina, Sou Nero, ó minha amante!
1869.
XXII
SERENATA
D'esta poesia escreveu o auctor ao sr. dr. Wilhelm Storck, em carta por este communicada a J. de Araujo: «A... _Serenata_ nunca foi impressa que eu saiba, embora não seja de modo algum inédita, pois tendo sido composta ha 4 annos, na Ilha de S. Miguel, a pedido de um grupo de rapazes, que ali formaram uma sociedade cantante, é lá muito conhecida e cantada por esses e outros nos seus passeios musicaes em bellas noites de verão.»
Storck traduziu esta poesia. Ácerca da traducção escrevia-lhe D. Carolina Michaëlis, em maio de 1891: «A. de Q. recebeu a sua traducção da _Serenata_, a qual lhe agrada extraordinariamente. Antepõe-na ao original d'elle, e diz que lhe sôa como uma canção allemã.»
SERENATA
Cahiu do céo uma estrella, Ai, que eu bem a vi tombar! Era a noite pura e bella, Murmurava ao longe o mar...
Era tudo extase e calma, Perfume, encanto, fulgor... Só no fundo da minha alma Que desconforto e que dôr!
Dorme e sonha, minha bella, Emballada ao som do mar... Cahiu do céo uma estrella, Triste do que a viu tombar!
Era uma estrella cahida, Uma entre tantas, não mais! Era uma illusão perdida, Era um ai entre mil ais!
E has de viver torturado, Louco, incerto coração, Só por um astro apagado, Por uma morta illusão?
Dorme e sonha, minha bella... Como chora ao longe o mar! Cahiu do céo uma estrella, Ai de mim que a vi tombar!
1873.
XXIII
O POSSESSO
O POSSESSO
(_Commentario ás_ Litanies de Satan)
I
Não creio em ti, Deus-Padre omnipotente, Creador d'esse espaço constellado, Que do Cahos e o Nada conglobado Arrancaste o Universo refervente;
Não creio em ti, Deus-Filho, em cuja mente Foi o Bem inefavel feito e nado; E não creio no Espirito gerado Do eterno Amor, como uma chamma ardente;
Saibam-n'o a terra e os céos: do Crédo antigo, Cheio de Graça e Fé, refugio e abrigo, Benção da noite e prece da manhã,
Só creio no Peccado ineluctavel, Na Maldição primeira inexpiavel, E no eterno reinado de Satan!
II
Quando o Tedio, com plumbeo capacete, Esmaga a fronte ao homem desolado, E o Fausto pensador vê a seu lado A Negação sentada ao seu bufete,
Seu labio é vil tres vezes, se repete Preces vãs e esconjuros, humilhado: O nome de Homem, tragico e sagrado, Só a quem desafia a Deus compete!
É grata a maldição á alma robusta Do que nenhum pavor divino assusta, E no Vasio ergueu seu templo e altar...
Mais fecundo que o Céo, creou o Inferno A blasfemia.--Honra, pois, e preito eterno A Satan, que nos deu o blasfemar!
1873.
XXIV
EPIGRAMMA TRANSCENDENTAL
EPIGRAMMA TRANSCENDENTAL
Quem vos fez, céo profundo e luminoso, Terra fecunda, poderoso oceano, E a ti deu vida, coração humano, Que és todo um céo e um mar mysterioso,
Bem sabia que o céo, o mar, a terra, Tinham de ser só carcere e gehena; Que havia a vida ser só lucto e pena, E campo, o coração, de eterna guerra.
Por isso o estranho artifice sombrio, Que, concebendo o plano da obra ingente, Ironico talvez, talvez demente, Logo se arrependeu e o confundiu;
Não deu seu nome, como o archonte epónymo, Á obra de sua mente e sua mão: O Creador furtou-se á Creação... E sendo um máo auctor ficou--anonymo.
1879.
XXV
NA SEPULTURA DE ZARA
Estes bellos versos não eram destinados á imprensa, e appareceram publicados em uma revista de Lisboa, sem consentimento do auctor ou da familia da menina cuja morte pranteiam. Anthero recusara-se a imprimil-os, como se vê da seguinte carta que appareceu entre os papeis de Eduardo Coimbra e que a mãe do mallogrado moço, a sr.^a D. Anna Coimbra offereceu com varios outros documentos ao mais querido amigo de seu filho:
«_Villa do Conde, sabbado.
Meu joven poeta
São reservados, e pertencem ao nosso Joaquim os versos a que allude. É claro que sem licença d'elle não devem imprimir-se. Deixe-os no tumulo da desditosa criança, que lá fallam melhor aos que a estremeceram. Se porém combinarem trasladal-os para qualquer publicação, addiccione o meu amigo ao nome da pobre Zara o do desolado irmão. Para elle foram feitos, a elle serão dedicados.
E nada mais por hoje, meu amado poeta
Seu do C._
Anthero de Q.»
ZARA
A JOAQUIM DE ARAUJO
Feliz de quem passou por entre a magoa E as paixões da existencia tumultuosa, Inconsciente, como passa a rosa, E leve, como a sombra sobre a agua.
Era-te a vida um sonho. Indefinido E tenue, mas suave e transparente... Acordaste, sorriste... e vagamente Continuates o sonho interrompido.
1881.
TRADUCÇÃO ALLEMÃ
DE WILHELM STORCK
Glückselig wer vorüberging am Weh Des Lebens und der Leidenschaft Getose Unwissend, wie vorübergeht die Rose, Und flüchtig, wie der Schatten ob der See.
Dein Leben war ein Traum, begriffen kaum Und leicht und Lieblichkeit D'u trankest; Du wachtest auf und lacheltest und sankest Züruck in Deinen unterbroch'nen Traum.
Münster, abril, 91.
XXVI
GLOSA CAMONIANA
Dous ou tres dias antes da morte de Eduardo Coimbra (8, outubro, 84) escreveu Anthero esta bella quadra junto do leito, em que o moço poeta, quasi agonisante, lhe pedia «um improviso» para a carteira-album que pouco antes mandara comprar. Essa carteira offereceu-a a mãe do poeta em recordação dolorosa, ao fiel amigo, que rubricára n'ella o seu nome, junto do de Anthero, e que dias depois lhe entregava a chave do caixão do pobre Eduardo.
GLOSA CAMONIANA
(NA CARTEIRA DE EDUARDO COIMBRA)
Pés em chagas, seguimos pela via Dolorosa, em demanda da Verdade; Mas achal-a entre os homens ninguem hade... _Triste o que espera_! _triste o que confia_!
1884.
XXVII
AS FADAS
Estes versos foram escriptos em Lisboa, para a collecção--_Thesouro poetico da infancia_, que o proprio auctor coordenou. Foram lidos no dia immediato a João de Deus, «que delles se mostrou satisfeito», como Anthero escrevia a um amigo. «Para mim, poeta de genero apocalyptico, foi um verdadeiro _tour de force_.»
AS FADAS
As fadas... eu creio n'ellas! Umas são moças e bellas, Outras, velhas de pasmar... Umas vivem nos rochedos, Outras, pelos arvoredos, Outras, á beira do mar...
Algumas em fonte fria Escondem-se, emquanto é dia, Sáem só ao escurecer... Outras, debaixo da terra, Nas grutas verdes da serra, É que se vão esconder...
O vestir... são taes riquezas, Que rainhas, nem princezas Nenhuma assim se vestiu! Porque as riquezas das fadas São sabidas, celebradas Por toda a gente que as viu...
Quando a noite é clara e amena E a lua vae mais serena, Qualquer as póde espreitar, Fazendo roda, occupadas Em dobar suas meadas De ouro e de prata, ao luar.
O luar é os seus amores! Sentadinhas entre as flóres Horas se ficam sem fim, Cantando suas cantigas, Fiando suas estrigas, Em roca de oiro e marfim.
Eu sei os nomes d'algumas: Viviana ama as espumas Das ondas nos areaes, Vive junto ao mar, sósinha, Mas costuma ser madrinha Nos baptisados reaes.
Morgana é muito enganosa; Ás vezes, moça e formosa, E outras, velha, a rir, a rir... Ora festiva, ora grave, E vôa como uma ave, Se a gente lhe quer bulir.
Que direi de Melusina? De Titania, a pequenina, Que dorme sobre um jasmim? De cem outras, cuja gloria Enche as paginas da historia Dos reinos de el-rei Merlin?
Umas tem mando nos áres; Outras, na terra, nos mares; E todas trazem na mão Aquella vara famosa, A vara maravilhosa, A varinha do condão.
O que ellas querem, n'um pronto, Fez-se alli! parece um conto... Mesmo de fadas... eu sei! São condões que dão á gente, Ou dinheiro reluzente Ou joias, que nem um rei!