Raios de extincta luz poesias ineditas (1859-1863)
Part 3
Se sentir dentro d'alma alguma f'rida Vertendo sangue e fel, em dor extrema, Buscarei no Senhor o meu alivio: E o Senhor, pondo um dedo sobre a chaga, Dirá--«Fica-te em paz: estás curado»--!
Oh minha doce paz! por ti se cumpram Os decretos do Eterno: tu me escuda Dos tiros que a maldade em mim dispara; A força do leão põe-me na mente, A mansidão da pomba dentro d'alma. Oh pomba ingenua, pomba immaculada, Filha do céo ao céo voemos juntos.
Janeiro, 1861.
V
N'UMA NOITE DE PRIMAVERA
N'UMA NOITE DE PRIMAVERA
(*DO POEMA VASCO*)
1.^o FRAGMENTO
Esta quadra d'amor quanto nos punge, Com tão doce pungir! Como sorrindo Nos mata de desejos; nos esmaga Sob o peso infinito dos anhelos, Que esta vida e mil outras não fartaram! Esta quadra d'amor, com seus sorrisos, Quanto nos punge o peito, ai, quanto mata!
Tal é a essencia do Amor; tal Deus ha posto Um veneno no mal, na flôr um áspide! Prazer e dôr, sereis talvez um unico, Unico sêr, que nos penetra e abraza N'um fogo que nos doe, mas que é tão doce? Punhal, que ferindo o peito, nos consola, Mas, que a affagar nos vae roubando a vida, Antegosto do que é o céo e o inferno? Será isto o amor? será?... quem sabe?
Talvez! Se é laço universal e unico Deve o bem como o mal juntar n'um todo; Se é vida é tambem morte; se é saudade, É desejo tambem; e se algum anjo O creou, ha demonio que o perturba; Se é um sol que nos brilha dentro d'alma, Tambem queima e devora, tambem mata! E é isto amor? será! será! quem sabe?
De vida mais completa é antegosto, De melhor existir que além começa: Talvez! então o amor será a morte? Triste noiva, é mistér esp'rar-lhe a vinda Para amar e gozar e viver muito?! Celebre-se o hymeneo sobre uma campa: Aguarde-se a hora extrema, como aurora De um bem, que além da vida só começa; E contando os momentos como sec'los, O primeiro dos dias seja o ultimo... Mas será isto amor? será!... quem sabe?
Talvez!... Mas quando a lousa funeraria Rangendo, cobre um corpo estremecido: Quando a terra só pode dar-lhe os osc'los, Que inda ha pouco lhe davamos convulsos, Que vem, que vem aos olhos? Vem só lagrimas E ao peito vem só dôr! O lucto, o pranto Se assentam sobre as campas, não a esp'rança! E será isto amor? será!... quem sabe?
Mas as lousas são frias. Quem pernoita Na deveza onde só o eterno somno Se dorme... não! ninguem por lá pernoita! As dôres, como gazes, se evaporam; No ambiente da vida os ais não podem Muito tempo eccoar; ha tanta lagrima, Tantas consolações para os que soffrem! Não duram, não!... a mão que enchuga o pranto Beija-se... e mais... e mais... encontra-se a alma Com quem se casa a pobre solitaria: E a outra! a outra lá! partiu-se o laço... E é isto amor? será! será?... quem sabe?
Feliz do que viaja em mundo novo!... Triste do que ficou sobre uma lousa Assentado a chorar: o que é da esp'rança? Nunca sahiu da campa voz amiga A consolar a dôr! Fica-lhe apenas Um premio, triste premio! o das lagrimas: Esse--se foi constante--hade cingir-lhe A fronte com a c'roa... do martyrio... E será isto amor? será!... quem sabe? ........................................
2.^o FRAGMENTO
........................................ Será! será! Que importa, se é tão doce, Se mata com um sorriso, entre caricias! Vae, razão fria! vae... isto ou aquillo Que importa seja o amor?! É sempre bello --Um momento sequer--gozar a vida.
É bello o amor; é bella a vida; é bello Tudo aonde o Senhor a mão ha posto... E o Senhor fez o mundo! e a ti, ó noite, Noite de primavera, deu-te estrellas, Que são almas no espaço a procurar-se; A ti, mulher, a ti deu-te o mysterio De matar ou dar vida... e a mim, sim!--creio-- Inda hade dar-me uma hora de ventura! ........................................ Oh! dae-me a taça do veneno doce, Que mata embriagando! Dae-me prestes Uma taça de amor aonde libe!...
Abril, 1861.
VI
PSALMO
PSALMO
(CXXXII DE DAVID)
Do amor he santo o laço! O forte ao fraco ajude: Ao irmão mais fraco escude Do irmão mais forte o braço.
E a graça do Senhor virá sobre elles: Virá, bem como um oleo perfumado, Que na fronte de Arão cahido, escorre, Que inunda a barba toda, e vem descendo 'Té que a fimbria da tunica lhe beija.
Virá, bem como o orvalho sobre o monte Sacrosanto de Hermon, e sobre o cimo, O cimo de Sion, que Deus amara: Porque sobre as justas frontes Dos irmãos que estreita o amor, --Mais que o orvalho sobre os montes-- Desce a graça do Senhor.
Novembro, 1860.
VII
Á BEIRA-MAR
Á BEIRA-MAR
*O CREPUSCULO*
Oh! vem Maria! sobre a rocha erguida Em asp'ra costa, sobranceira ao mar, Vamos sósinhos ver as brancas ondas Sobre os rochedos, em cachões, saltar!
Alli, bem juntos, ao cahir da tarde, De mãos trocadas a fallar de amor, Quero, ao contar-te mil segredos d'alma, Ver-te nas faces virginal pudôr.
É proprio o sitio, é propicia a hora, Incerta, dubia entre sombra e luz; Já descem trevas pelos fundos valles, Inda algum brilho sobre o mar reluz:
Inda no dorso das inquietas ondas Dourada fita tremeluz, além; Mas, já ao longe, da campina os viços, Envolvem sombras que dos montes vêm.
Gigante immenso de esplendor e brilho, O sol, um instante, viu-se alli nutar; Depois cançado, declinando rapido A lassa fronte repousou no mar.
Semelha ao entrar-lhe pelo seio tumido, Que de mil fógos inda foi tingir, Medalha de ouro, que em caldeira immensa, A pouco e pouco visse alguem fundir.
Em tanto a sombra vae descendo os montes E envolve as terras mysterioso véo; Já se divisa, vergonhosa e timida, Pallida estrella tremular no céo:
Como em teu seio, pura virgem, nasce Ligeira magoa de fugaz pezar, Que vae crescendo, e transmudada em lagrimas Te vem dos olhos nos crystaes brilhar:
Como nos brota dentro de alma, e lavra A pouco e pouco no veloz crescer, Algum affecto que em paixão tornado Nos vem no peito com fulgor arder:
Assim da estrella nasce o brilho, e cresce A pouco e pouco pelo céo de anil; Ponto luzente, no começo apenas, Por fim brilhante, entre saphiras mil.
Soidão callada pela terra alarga-se Preludio augusto da _nocturna voz_; Em doce enlevo, scisma o homem statico Em Deus, comsigo meditando a sós.
Hora saudosa de incerteza mystica, De lucta harmonica entre sombra e luz. Por ti nos desce sobre o seio ardente A santa crença que p'ra Deus conduz!
Hora em que é grato no regaço amigo De alguma esperança de melhor porvir, Olvidar magoas de um presente incerto, E, esp'rando, e crendo, n'essa fé dormir.
Em que amor gera dentro de alma os laços Que as almas ligam com estreito nó, E que no arroubo de amoroso rapto Funde dois sêres n'uma vida só.
E eu tambem quero sentir n'alma os intimos Celestes gosos que esta hora tem; Em livro aberto lêr um nome augusto Que em lettras de ouro vejo escripto além.
E no regaço da mulher amada, Que é minha esp'rança de melhor porvir, Quero estas magoas ir depôr e apenas Guardar um peito para amor sentir.
E antes que as terras illuminem fógos, Com a luz divina que o Senhor lhe deu; E antes que morram esses brilhos ultimos Do sol nas dobras do nocturno véo;
Quero ao soido gemedor das ondas Casar as magoas d'este immenso amor, Ardente e puro, como aquelles lumes Candentes fócos de vivaz fulgor.
Quero nas horas do crepusculo ameno Sobre o rochedo sobranceiro ao mar, Aos pés da virgem que escolheu minha alma Ler-lhe nos olhos confissões sem par.
Figueira da Foz, 1860.
VIII
ASPIRAÇÃO
ASPIRAÇÃO
Porque é que minha alma anceia De visões e magoas cheia, Porque ao longe devaneia Minha mente sem cessar? Porque á tarde, em fins do dia, Ao cahir da maresia, Vou sobre a costa bravia Magoas carpir sobre o mar?
Porque se me opprime o peito --Já de ha muito á magoa affeito-- N'esse momento imperfeito, Mixto de trevas e luz, Quando tudo, ao longe e ao perto, Se veste de um brilho incerto E eu, d'esta alma no deserto, Só diviso a paz na Cruz?
Porque ao murmurio das fontes, Quando a sombra desce os montes, Fito o olhar nos horizontes E fico mudo a scismar! Porque á noite, á lua cheia, «Por noites da minha aldeia», Chóro e riu e devaneia Meu agitado pensar?
Oh! quem é que assim me inspira Á mente que me delira, Ao coração que suspira Allivios, consôlo e paz? Quem faz que além d'esta vida Veja uma outra promettida E anceie essa patria querida, Não esta patria fallaz?
Não vem de mim nem da terra --Que tal ouvir não encerra-- O que este peito descerra N'um hymno de tanta fé: Eu scismo ás vezes de amores, Porém são outros ardores, Outros são os seus fervores, Outro amor que este não é...
Eu tenho sonhos de gloria, Que me acodem á memoria Como a visão illusoria, Que brilha e que se desfaz: De ouro e nome tenho sêde;-- Do poder aspiro á séde... Mas toda esta gloria cede Á _gloria_ de luz e paz!
Oh! trasborda-me este affecto, Que aqui dentro anda secreto, Como de vaso repleto Trasborda puro o licor! Oh! inunda-me este oceano De um amor tão sobre-humano, Tam puro de todo o engano... Que nem sei se é isto amor!
Oh! embala-me esta esp'rança, Aonde a alma me descança Em pura e santa bonança, Tão bafejada de Deus, Que não pode--eu bem o vejo-- Descender-me este desejo Senão da patria que invejo... Oh! esta esp'rança é dos céos!
És tu oh Deus que me chamas! És tu Senhor que me inflammas N'aquellas ardentes chammas, Que me dão tão pura luz! És tu, oh Pae! que da altura, Olhando a minha amargura, Me estendes a mão segura, A mão que a ti nos conduz!
Sim! minha alma te pressente! Guiada por luz ingente D'esse fanal que não mente, Já p'ra ti desprende o vôo... Oh! quem tem essa luz querida, Não tem outra promettida, Não pode amar outra vida... Senhor! eu busco-te... eu vou!
Coimbra, 1861
IX
A PYRAMIDE NO DESERTO
A PYRAMIDE NO DESERTO
Além na solidão, sobre os desertos, Tu só te ergues altiva e apontas céos; E deixas, sobranceira ás tempestades, Rugir de um mar de areia os escarcéos!
Tu só! Quem te creou? Mysterio immenso Ao nascer te encobriu, te envolve o sêr... E agora eis-te, rival das serranias, Como ellas condemnada a não morrer.
Tu só! Além, na extrema do horizonte, Passa o Arabe no auge do furor, Luz-lhe na mão o alfange, o olhar fuzila, Vão com elle em tropel morte e terror!
Mas lá surge do accaso arroxeado, Ao mando de medonho furacão, Nuvem de ardente pó que rue sobre elle, Que o sepulta em deserto, árido chão.
Mas tu sorris ás furias da tormenta, Não temendo arrostal-a inda uma vez, E ella, a que troou pelos espaços, Vem tremendo morrer-te ahi aos pés.
Do cimo sublimado, erguido ás nuvens, Vês os sec'los nascer, ruir no pó; E em meio da ruina dos imperios Ficas tu, ó gigante, eterno e só!
Além, n'esse deserto a quem assombras, Que vidas, que paixões se hão revolvido! E a todas o deserto, qual sudario, Nas dobras da mortalha ha envolvido.
Tu podes apontar ao viajante Um nome ou um logar na solidão: Dizer--Alli, Palmira foi cidade-- --Aqui, foi um heroe Napoleão.--
Tu só podes dizel-o. Quem mais sabe, Que pó envolve agora o que morreu? Quem pode differençar, n'um mar infindo, Um pó de um outro pó que o envolveu?
Só tu! Na solidão, sobre os desertos, Tu só te ergues altiva, e apontas céos; E deixas, sobranceira ás tempestades, Rugir de um mar de areia os escarcéos!
Coimbra, Dezembro, 1859.
X
DESALENTO-CONFORTO
DESALENTO
_A Sorte, amigo, a sorte é dura ás vezes! Agora nos affaga e nos alenta; E logo nos opprimem seus revezes...
Após leda bonança vem tormenta; Succede a noite escura ao claro dia, E ao rapido prazer a magoa lenta!
Assim de minha ardente phantasia Aos sonhos perfumados de venturas Que a beijar-me a fronte eu já sentia,
Ai! seguiram-se tristes amarguras Que a vida a pouco e pouco vão comendo; Deixando espinhos só onde as verduras Eram brandos aromas rescendendo_!
Alberto Telles
CONFORTO
(*PARAPHRASE DO SONETO ANTECEDENTE*)
A Sorte só p'ra o fraco é dura ás vezes! P'ra o forte, que a virtude e crença alenta, P'ra esse não ha sortes nem revezes...
Porque após da bonança vem tormenta, Porque a noite succede ao claro dia, É força definhar em magoa lenta?
Não! que aos males, que gera a phantasia, O sabio oppõe as intimas venturas Da virtude e da fé que em si sentia.
Não chores mais, poeta, as amarguras Que só os bens da terra vão comendo: A consciencia é jardim onde as verduras Mil perfumes p'ra o céo vão rescendendo.
XI
A SENDA DO CALVARIO
A SENDA DO CALVARIO
Ave, Christus!
Deixae, deixae passar o homem forte, O ungido do Senhor; Se a cruz que arrasta agora é cruz de morte Tambem é cruz de amor!
Deixae! na praça o povo agglomerado Vomita a injuria alli; E elle, sereno o rosto e resignado, Olha o céo, e sorri.
Sorri... não fero riso de despreso Que ao passar pelo labio perde o encanto, Mas riso que transluz por entre o pranto Ao que da cruz de amor arrasta o peso.
Sorri... Que mais importa ao homem forte Ou despreso ou louvor, Se da estrella seguiu, que foi seu norte, O magico pallor? Tem dentro, como em erguida fortaleza, A fé, voz que lhe vae bradando--«Avante! É teu premio o opprobrio do ignorante, De tal morte morrer, tua grandeza!--»
E diz, vendo a consciencia onde serena Lê a imagem de Deus, E do futuro vendo a praia amena: --«Posso subir aos céos! Posso agora, depondo em terra o peso Da missão dolorosa d'esta vida, Buscar a patria minha promettida, D'onde o divino amor transluz acceso.--»
Ai pode! Heroe, e martyr, deixa a terra, Que é cumprida a missão: O Mundo o teu preceito guarda e encerra Na mente e coração... Morres tu; mas a idéa que deixaste Não morre, como a luz em fim do dia, Nem o fogo do céo que em ti ardia, Nem o exemplo sublime, que legaste!
Oh, martyr! cada lagrima chovida N'essa senda de dôr, Conquista mais um espirito p'ra vida, Para a luz do Senhor; E um dia (e talvez cedo venha o dia) De cada dôr que ahi te curva agora, Nascerá qual da noite nasce a aurora Um mundo de verdade e de harmonia! ........................................ Deixae, deixae passar o homem forte, O ungido do Senhor; Se a cruz que arrasta agora é cruz de morte, Tambem é cruz de amor!
S. Miguel, Julho de 1859.
XII
A JOÃO DE DEUS
A JOÃO DE DEUS
DEPOIS DE LER A SUA POESIA
Fique em silencio eterno a minha lyra; Pomba do céo tu vae; Deus te bem fade, N'esta alma em teu logar guardo a saudade, Se a essencia sobrevive á flor que expira. ........................................
Foi o canto do cysne, o canto derradeiro D'aquella augusta voz que se esvaiu no ar; Adeus da terna amante ao seu amor primeiro Que eterno ella julgou, mas cedo viu findar; Ultimo adeus de quem, ha pouco ainda crente --N'uma hora apenas--vê, qual sombra na corrente, Morrer-lhe as illusões co'a morte d'esse amor E triste se envolveu no vêo de uma erma dôr. Soffreu da soledade... E onde ha hi um peito Que não soffra tambem, ainda ao mal affeito?
Soffreu da soledade em que a alma lhe ficou, Depois que ao longe e triste o ecco se finou D'aquella _unica voz_, que ainda repetia A sua voz, bem como, á tarde em fins do dia, A nuvem que passou reflecte um raio ao sol, Que mesmo occulto a tinge aos fogos do arrebol. Soffreu quando da sorte a mão pesada veiu Poisar-lhe sobre o peito e comprimiu alli A ancia que animára o arfar d'aquelle seio, Seio que só bateu--poesia!--amor!--por ti!
E elle então disse: «Aqui deponho a minha lyra: Se esta alma a outros céos, a outra patria aspira, Se esta ancia infinita não posso aqui fartar, Que val'--ecco sem voz--que val' o meu cantar? Val' mais que eu, em silencio, espere o grande dia, Cuja aurora immortal, em luz, em poesia, Me hade envolver, e assim levar-me áquelle céo. Céo do que amou, creu, esperou e soffreu. Emtanto--esp'rando--viva em silencio profundo, Deixando em vão rugir,--qual voz do mar--o mundo; Aqui guardo a saudade, esse talisman só, Como da flor já secca inda se guarda o pó.--»
Cobriu o rosto após co' manto da tristeza; O sol d'aquelle céo fugiu ao longe... além... E a noite sem luar, sem brilho, sem belleza Ao negro que hia lá veiu ajuntar tambem. ........................................ ........................................ Poeta, essa não é tua missão. Curvar-se Um momento é do homem; porém não prostrar-se Gemendo em desalento, e face contra o chão, Como quem acceitou da dôr a escravidão. Poeta é quem tem fé, quem busca no futuro A crença que lhe nega este presente impuro: Não quem deixa cahir a lyra, não quem vae Pedir ao desalento abrigo e amor de pae. É virtude soffrer, nunca perder a crença; É ter esp'rança tal que a dôr mais crua vença; É não pedir seu premio aos homens, mas a Deus, E passar n'este valle, o olhar fito nos céos.
Tal é tua missão:--Luctar! O soffrimento, Ao pé do eterno bem, o que é mais que um momento?
Coimbra, Março, 1861
_Como a poesia de João de Deus citada na epigraphe da p. 73, não foi incorporada nas collecções das_ Flores do Campo _e_ Folhas Soltas, _transcrevemol-a aqui para intelligencia do texto dos nossos cadernos manuscriptos de Coimbra, notando as variantes da primeira estrophe_.
ADEUS
_Fique em silencio eterno a minha lyra_; Vae, effluvio de Deus! _Deus te bem fade: N'esta alma, em teu logar_ fica _a saudade, Se a essencia sobrevive á flôr que expira.
Dizer-te adeus! não pude; quando occorre Tal voz ao labio, o labio empallidece, Como a nota da lyra nos fallece Ante a lua que cae, e o sol que morre:
Ante o sôpro que varre o cedro e o vime, Ante o sublime aspecto do oceano, Ante a esposa do martyr sobrehumano, Ante tudo o que é grande e que é sublime.
Embora!... quando a lampada crepita Já falta d'oleo, languida esvoaça; A nuvem estala; ruge a onda e passa, Guarda silencio a abobada infinita_.
João de Deus
XIII
PER AMICA SILENTIA LUNAE
PER AMICA SILENTIA LUNAE
Guardai in alto......................... ........................................
Dante, _Inf._ C. 1.^o
I
Eu amo a noite ás horas socegadas Que o Senhor manda á terra, como balsamo A tanta dôr que a punge, e o sol do dia Parece escarnecer com tanto brilho, Nem sabe respeitar; quando o silencio Com manto protector envolve os tristes, Os que choram saudades; quando o orvalho Refresca o seio á flôr, e em cada balsa A viração prepassa suspirando; Quando é mais puro o ár, mais doce a brisa, Mais sumidos, mais vagos os rumores, E detraz da montanha, saudosa Como a virgem dos sonhos, surge a lua.
II
Eu amo então a noite.--Paz e esperança A quem soffre, buscando algum allivio; Ao feliz exultando de alegrias A lembrança de Deus a quem as deve; A quem descreu de achar inda na terra Ventura que lhe foge... o olvido ao menos; A toda a crença um exultar de affectos; A todo o desconforto, uma esperança; A toda a natureza, amor e vida; Eis o thesouro santo que nos abre --A nós e ao mundo--a noite, eis seu tributo.
É doce então abrir os seios d'alma Aos effluvios do céo: flor que hão crestado Ardentias do sol, e ainda timida Palpitando entre o susto e a esperança, Retoma agora aos poucos novo alento Ao sentir-se segura, e abrindo o calix Estremece de amor a cada gôtta Dos orvalhos do céo: como que a vida Solta de tanto laço que a comprime, Como gaz que ao calor se ha dilatado, Se expande livre agora e cresce e absorve Em si mil harmonias, mil poderes Que esse universo tem: como as correntes Occultas, que os oceanos communicam, A natureza e o espirito permutam Sympathias e forças, em que a alma Mais cresce e mais comprehende, e mais abrange, E n'este permutar de força e força Quasi na vida universal se funda.
III
Passa a lua; do alto olhando a terra Procura o triste por lhe dar allivio; Prepassa a viração e busca do ermo A florinha minada que refresque; Corre manso o regato, e banha a erva Que um pé calcou, e o sol deixou crestada; Tremúla a estrella, symbolo de esperanças, Enviam-se harmonias as espheras; Tudo amor, tudo affectos communica; E o espirito do homem busca livre Da sob'rana harmonia a eterna fórmula, Do eterno amor o fóco, a patria sua.
Lembranças de um viver já pressentido, Ou memorias--talvez--de uma outra vida, Que nos relembra vaga, e como em sonhos, E sobre o fundo d'esta se destacam Como pela penumbra um vulto incerto... Aspirações, memorias, ou saudades, O que nos enche o peito e nos enleva Como um sonho de amor--e mais ainda-- Senão este mysterio do futuro, Esta attracção do sêr a vida nova, Que se foge e se busca e nos revela A vida universal, então sentida Mais forte na harmonia do Universo?
IV
Busca-se, anceia-se, e o alvejar da campa Mais que o sorriso de uma amante é doce; A lembrança da morte mais que a esp'rança Do poder ou da gloria nos enleva; Terrores, incertezas se dissipam, E sem saudade, sem temor se anhela Mais mundo, mais espaço, e viver novo!
V
E quem pode temer? Teme o que um dia Sonhou na mente uma ambição terrena E mais não vê por todo esse universo, E além d'elle não vê sublime e grande: O, que engolfado nos prazeres do mundo, Esqueceu o seu Deus e seus destinos Nem sonha mais ventura além da campa: O que pungido por cruel espinho De uma duvida atroz, sente a cada hora Cahir-lhe a uma e uma cada crença De sobre alma, deixando-a erma e nua, Como as humidas prégas de um sudario, Aos poucos desdobrado, deixam vêr-se Os descarnados membros do cadaver.
VI
Mas quem se assenta ás horas do mysterio, Entre as flôres do prado, ou sobre a encosta Da collina virente e olhando a lua Que banha em luz a esphera crystallina, Inveja quem habita n'esses mundos... E fita o olhar por esse espaço, e cuida Sondar-lhe o infinito; quem anhela Desvendar-lhe os mysterios e buscando A região que se sonha e não se avista Dal-a por patria á sua alma... oh! esse A viagem não teme, antes anceia, Quebrada a fórma d'este sêr, alar-se Em busca de outra mais perfeita, e sempre De degráo em degráo, de esphera em esphera, --Metempsycose eterna!--sublimar-se Na progressão d'este ascender constante Da parte ao todo, do mortal principio Em busca de um futuro inattingivel, Porém melhor cada hora, e a cada passo.
E quem pode temel-a, essa viagem, Quando fitando o olhar no alto, avista Banhado em luz o espaço immenso e puro, Patente e franca a estrada do Universo, E como que visivel o infinito? Quando tudo no céo e pela terra Parece, como irmão, dar-nos confiança Em nós e em si para seguir avante? Quando se sente palpitar no seio Não só já a mesquinha vida propria Mas todo o grande sêr do que é creado? Quando nas aras do Universo, o espirito Communga, como irmão, na mesma crença, Com tudo quanto vive, e a mais aspira, Ah! quem pode temer, noite de encanto, Noite pura e sagrada ao Deus de affecto, Protegido por tua luz amiga, A aspiração dos immortaes destinos. Um pouco mais ao peregrinar constante, A entrevista do infinito e do homem?
VII
Por ti, noite de amor, por ti nos desce Tanta ventura ao seio; e como o orvalho Que o pó da terra ressequido e árido, Que o vento impelle, fixa sobre o sólo E como que consola e allivia, Assim como teu effluvio o triste espirito Que incerto das paixões refoge á duvida, N'uma crença fixaste--a crença eterna Do amor universal, todo harmonias, Porque és affectos toda! Em cada balsa Descanta um rouxinol; a cada rosa Uma brisa osculou; em cada fonte Brilha um raio da lua; em cada peito Murmura um ecco que de amor só falla!
Mosteiro da Batalha, 1861.
XIV
NA PRIMEIRA PAGINA DO INFERNO DO DANTE
NA PRIMEIRA PAGINA DO INFERNO DO DANTE
(C. C. P. P.)
Este é o livro das vinganças nobres, O inferno dos que têm o céo na terra: Nem vingança; justiça. --Oh vós que as lagrimas Trazeis sempre nos olhos, sem que sequem, Lazaros no banquete da existencia, Oh filhos do dever! lêde este livro, Porque atravez de um mundo de miserias, Do largo perigrinar chegando ao termo, Heisde ouvir, lá das bandas do futuro, A grande voz do Christo, a voz eterna, Erguer-se sobre os filhos da verdade:
«--Felizes dos que soffrem--terão premio: Feliz do pobre e triste, orphão de affectos, Será rico: no céo seu pae o espera!»
Coimbra, Dezembro, 1861.
XV
DANTE--DIVINA COMEDIA
DANTE--DIVINA COMEDIA
(PURGATORIO, CANTO VI)