Raios de extincta luz poesias ineditas (1859-1863)

Part 2

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Durante o anno de 1867 e parte de 68 viajei em França e Hespanha e visitei os Estados Unidos da America. No fim d'esse anno de 68 publiquei o folheto: _Portugal perante a Revolução de Hespanha_. Advogava ahi a União Iberica por meio da Republica Federal, então representada em Hespanha por Castellar, Pi y Margall e a maioria das Côrtes Constituintes. Era uma grande illusão, da qual porém só desisti (como de muitas outras d'esse tempo) á força de golpes brutaes e repetidos da experiencia. Tanto custa a corrigir um certo falso idealismo nas cousas da sociedade!

O meu _Discurso sobre as causas da decadencia dos Povos peninsulares nos seculos XVII e XVIII_, embora pizasse um terreno mais solido, o terreno da historia, resente-se ainda muito da influencia das ideias politicas preconcebidas, da critica historica com _tendencias_. É do anno de 1871.

N'esse anno e no seguinte tomei parte activa no movimento socialista, que se iniciava em Lisboa, e tanto n'essa cidade como no Porto escrevi bastante nos jornaes politicos. Incidentemente publiquei n'um pequeno volume, uma serie de estudos com o titulo de _Considerações sobre a Philosophia da Historia litteraria portugueza_. Creio que é, ainda assim, o que fiz de melhor, ou pelo menos, de mais razoavel em prosa. Confesso sinceramente que dou muita pouca importancia a todos esses meus escriptosinhos de occasião, e até, ás vezes, preciso de certa força de reflexão para me não envergonhar de ter publicado tanta cousa pouco pensada. E todavia era applaudido! Porque? Em primeiro logar, creio eu, porque os que me applaudiam não pensavam, ainda assim, mais nem melhor do que eu. Em segundo logar, porque me concedeu a natureza o dom da prosa portugueza, não da prosa de convenção, arremedando o estylo dos seculos XVI e XVII mas de uma prosa que tem o seu typo na lingua viva e falada hoje, analytica já nos movimentos da phrase, mas na linguagem ainda e sempre portugueza. Isso agradou, porque era o que convinha e, em summa, acabei por ser citado como modelo da prosa moderna! É certo porém que tudo aquillo são escriptinhos de accasião e que, em prosa, não produzi ainda o que se chama _uma obra_, isto é, uma cousa original, pessoal e aprofundada. Ha muito tempo que sei escrever, mas foi necessario chegar aos 45 annos para ter que escrever. Por isso, deixemos toda essa farragem que não cito senão para corresponder ao desejo de v. ex.^a na materia bibliographica. E passemos aos versos.

Além da collecção de sonetos que v. ex.^a conhece, publiquei ainda mais dois volumes. Um, de 1872, com o titulo de _Primaveras Romanticas_ contêm os meus _Juvenilia_, as poesias de amor e phantasia, compostas na sua quasi totalidade, entre 1860 e 65, que andavam dispersas por varias publicações periodicas, e que só em 72 reuni em volume, juntamente com mais alguma cousa posterior, do mesmo caracter e estylo. Talvez a melhor maneira de caracterisar esse volume será dizer em francez que é _du Heine de deuxième qualité_. Como muitas pessoas, por cá, têm achado essa semelhança, por isso a indico. A 2.^a secção dos _Sonetos completos_ que não contêm senão composições d'esse periodo dará a v. ex.^a uma idéa sufficiente do fundo e do estylo d'aquella poesia; assim como a 3.^a secção lhe dará idéa das _Odes modernas_, cuja 1.^a edição appareceu em 1865. Não sei bem como caracterisar este livro: não é certamente mediocre; ha n'elle paixão sincera e elevação de pensamento; mas além de declamatoria e abstracta, por vezes aquella poesia é indistincta, e não define bem e typicamente o estado de espirito que a produziu. O que ella representa perfeitamente é a singular alliança, a que atraz me referi já, do naturalismo hegeliano e do humanitarismo radical francez. Acima de tudo é, como dizem os francezes, _poesia de combate_: o pamphletario divisa-se muitas vezes por detraz do poeta, e a egreja, a monarchia, os grandes do mundo, são o alvo das suas apostrophes de nivelador idealista. N'outras composições, é verdade, o tom é mais calmo e patenteia-se n'ellas a intenção philosophica do livro, vaga sim, mas humana e elevada. A novidade, o arrojo, talvez a mesma indeterminação do pensamento, apenas vagamente idealista e humanitaria, fizeram a fortuna do livro, junto da geração nova, o que prova pelo menos que _veiu no seu momento_: é tudo quanto poderei dizer. Correspondem a este cyclo os sonetos comprehendidos na 3.^a secção dos _Sonetos completos_, muitos dos quaes já entraram nas _Odes modernas_. Em 1874 teve este livro uma 2.^a edição muito correcta e contendo varias composições novas que considero, tal como é e com todos os defeitos inherente á propria essencia do genero, como definitiva.

N'esse mesmo anno de 1874 adoeci gravissimamente, com uma doença nervosa de que nunca mais pude restabelecer-me completamente. A forçada inacção, a perspectiva da morte visinha, a ruina de muitos projectos ambiciosos e uma certa acuidade de sentimentos, propria da nevrose, puzeram-me novamente e mais imperiosamente do que nunca, em face do grande problema da existencia. A minha antiga vida pareceu-me vã e a existencia em geral incomprehensivel. Da lucta que então combati, durante ou 5 ou 6 annos, com o meu proprio pensamento o meu proprio sentimento que me arrastavam para um pessimismo vacuo e para o desespero, dão testemunha, além de muitas poesias, que depois destrui (subsistindo apenas as que o Oliveira Martins publicou na sua introducção aos _Sonetos_) as composições que perfazem a secção 4.^a (de 1874 a 80) do meu livrinho. Conhece-as v. ex.^a, não preciso commental-as. Direi sómente que esta evolução de sentimento correspondia a uma evolução de pensamento. O naturalismo, ainda o mais elevado e mais harmonico, ainda o de um Goethe ou de um Hegel, não tem soluções verdadeiras, deixa a consciencia suspensa, o sentimento, no que elle tem de mais profundo, por satisfazer. A sua religiosidade é falsa, e só apparente; no fundo não é mais do que um paganismo intellectuel e requintado. Ora eu debatia-me desesperadamente, sem poder sahir do naturalismo, dentro do qual nascera para a intelligencia e me desenvolvera. Era a minha atmosphera, e todavia sentia-me asphixiar dentro d'ella. O Naturalismo, na sua fórma empirica e scientifica, é o _struggle for life_, o horror de uma lucta universal no meio da cegueira universal; na sua fórma transcendente é uma dialetica gelada e inerte, ou um epicurismo egoistamente contemplativo. Eram estas as consequencias que eu via sahir da doutrina com que me creara, da minha _alma mater_, agora que a interrogava com a seriedade e a energia de quem, antes de morrer, quer ao menos saber para que veiu ao mundo.

A reacção forças moraes e um novo esforço do pensamento salvaram-me do desespero. Ao mesmo tempo que percebia que a voz da consciencia moral não pode ser a unica voz sem significação no meio das vozes innumeras do Universo, refundindo a minha educação philosophica, achava, quer nas doutrinas, quer na historia, a confirmação d'este ponto de vista. Voltei a ler muito os philosophos, Hartmann, Lange, Du Bois-Raymond e, indo ás origens do pensammento allemão, Leibnitz e Kant. Li ainda mais os moralistas e mysticos antigos e modernos, entre todos a _Theologia Germanica_ e os livros buddhistas. Achei que o mysticismo, sendo o desenvolvimento psychologico, deve corresponder, a não ser a consciencia humana extravagancia no meio do Universo, á essencia mais funda das cousas.

O naturalismo appareceu-me, não já como a explicação ultima das coisas, mas apenas como o systema exterior, a lei das apparencias e a phenomenologia do Sêr. No _Psychismo_, isto é, no Bem e na Liberdade moral, é que encontrei a explicação ultima e verdadeira de tudo, não só do homem moral mas de toda a natureza, ainda nos seus momentos physicos elementares. A _monadologia_ de Leibnitz, convenientemente reformada, presta-se perfeitamente a esta interpretação do mundo, ao mesmo tempo naturalista e espiritualista. O espirito é que é o typo da realidade: a natureza não é mais do que uma longiqua imitação, um vago arremedo, um symbolo obscuro e imperfeito do espirito. O Universo tem pois como lei suprema o bem, essencia do espirito. A liberdade, em despeito do determinismo inflexivel da natureza, não é uma palavra vã: ella é possivel e realiza-se na santidade. Para o santo, o mundo cessou de ser um carcere: elle é pelo contrario o senhor do mundo, porque é o seu supremo interprete. Só por elle é que o Universo sabe para que existe: só elle realiza o fim do Universo.

Estes pensamentos e muitos outros, mas concatenados systematicamente, formam o que eu chamarei, embora ambiciosamente, a minha philosophia. O meu amigo Oliveira Martins apresentou-me como um buddhista. Ha, com effeito, muita coisa commum entre as minhas doutrinas e o Buddhismo, mas creio que ha n'ellas mais alguma coisa do que isso. Parece-me que é esta a tendencia do espirito moderno que, dada a sua direcção e os seus pontos de partida, não pode sair do naturalismo, cada vez em maior estado de banca rota, senão por esta porta do psychodynamismo ou panpsychismo. Creio que é este o ponto nodal e o centro de attracção da grande nebulose do pensamento moderno, em via de condensação. Por toda a parte, mas sobretudo na Allemanha, encontram-se claros symptomas d'esta tendencia. O occidente produzirá pois, por seu turno, o seu Buddhismo, a sua doutrina mystica definitiva, mas com mais solidos alicerces e, por todos os lados, em melhores condições do que o Oriente.

Não sei se poderei realizar, como tenho desejo, a exposição dogmatica das minhas idéas philosophicas. Quizera concentrar n'essa obra suprema toda a actividade dos annos que me restam a viver. Desconfio, porém, que não o conseguirei; a doença que me ataca os centros nervosos, não me permitte esforço tão grande e tão aturado como fôra indispensavel para levar a cabo tão grande empreza. Morrerei, porém, com a satisfação de ter entrevisto a direcção definitiva do pensamento europeu, o Norte para onde se inclina a divina bussola do espirito humano. Morrerei tambem, depois de uma vida moralmente tão agitada e dolorosa, na placidez de pensamentos tão irmãos das mais intimas aspirações da alma humana e, como diziam os antigos, na paz do Senhor!--Assim o espero.

Os ultimos 21 Sonetos do meu livrinho dão um reflexo d'esta phase final do meu espirito e representam symbolica e sentimentalmente as minhas actuaes idéas sobre o mundo e a vida humana. É bem pouco para tão vasto assumpto, mas não estava na minha mão fazer mais, nem melhor. Fazer versos foi sempre em mim cousa perfeitamente involuntaria; pelo menos ganhei com isso fazel-os sempre perfeitamente sinceros. Estimo este livrinho dos _Sonetos_ por acompanhar, como a notação de um diario intimo e sem mais preoccupações do que a exactidão das notas de um diario, as phases successivas da minha vida intellectual e sentimental. Elle fórma uma especie de autobiographia de um pensamento e como que as memorias de uma consciencia.

Se entrei em tão largos desenvolvimentos biographicos, foi por entender que, sem elles, se havia de perder a maior parte do interesse que a leitura dos meus _Sonetos_ pode inspirar. Os criticos allemães acharão talvez interessante observar as reacções provocadas pela inoculação do Germanismo, no espirito não preparado de um meridional, descendente dos navegadores catholicos do seculo XVI. Poderá essa ser mais uma pagina, embora tenue, na historia do Germanismo na Europa, e porventura parecerá curiosa aos que se occupam de psychologia comparada dos povos.

Ao bom e amavel espirito que me introduz, a mim neophyto, n'esses grandes circulos do pensamento e do saber, tributo, além de muita sympathia, indelevel gratidão.

E sou de v. ex.^a com a maxima consideração

criado m.^o obrg.^o

_Anthero de Quental_.

A OBRA POETICA DE ANTHERO DE QUENTAL

1. _Sonetos de Anthero_. Editor Sténio. Coimbra, Imprensa Litteraria, 1861. In-8.^o de XII e 23 pag. Contém 21 Sonetos, dos quaes 16 foram incorporados nos _Sonetos completos_; os 5 restantes ficam incluidos nos _Raios de extincta Luz_. O prologo é uma apresentação em verso por Santos Valente. A carta a João de Deus sobre a theoria do Soneto foi reproduzida no vol. II do _Circulo camoniano_.

2. _Beatrice_. Coimbra. Imprensa da Universidade, 1863. In-8.^o grande, de 40 pag. Este poemeto, formado de trechos lyricos, está incorporado nas _Primaveras romanticas_.

3. _Fiat lux_. Coimbra. Imprensa da Universidade, 1864. In-8.^o grande, de 16 pag. Extremamente raro, por que foi rasgado pelo auctor poucos dias depois de publicado. Fica incorporado este poemeto nos _Raios de extincta Luz_.

4. _Odes modernas_. Coimbra. Imprensa da Universidade, 1865. In-8.^o grande, de 160 pag. O texto termina a pag. 150, sendo as ultimas 10 pag. occupadas por uma nota.

----Segunda edição (Contendo varias composições ineditas). Porto, 1875. In-8.^o pequeno, de 186 pag. N'esta foi cortada a carta dedicatoria a Germano Meyrelles, e bem assim a dedicatoria dos Sonetos _A Ideia_, a Camillo Castello Branco; os versos que começam: «Como a serpente larga a pelle antiga» (pag. 100), _Á Irlanda_ (pag. 121), e as duas quadras sobre Mahomet e o Christo (pag. 133).

5. _Primaveras romanticas_ (Versos dos vinte annos). Porto, Imprensa Portugueza, 1871. Com retrato photographico. In-8.^o grande, VII e 202 pag. Uma grande parte d'estes versos fora primeiramente publicada no _Seculo XIX_, jornal de Penafiel, em 1864, e outros com o pseudonymo de Carlos Fradique Mendes. (Vid. n.^o 2).

6. _Sonetos_ (Bibliotheca da Renascença, I). Porto, Imprensa Portugueza, 1881. In-8.^o pequeno, de 32 pag. e 4 não numeradas. Contém 28 Sonetos colligidos por Joaquim de Araujo.

7. _Sonetos completos_. Publicados por J. P. de Oliveira Martins. Porto, Livraria Portuense de Lopes e C.^a--Editores. 1886. In-8.^o pequeno; 48 pag. de introducção por Oliveira Martins, e 126 de texto.--Contém a collecção dos _Sonetos_ da Bibliotheca da Renascença, e todos os Sonetos dispersos pelas outras obras de Anthero, á excepção de 5 Sonetos desprezados (Vid. n.^o 1) e do Soneto _Accusação_ (Aos homens de sangue de Versalhes em 1871), que vem nas _Odes modernas_, a pag. 167 (Vid. n.^o 4).

----Segunda edição. Porto, 1891. Accrescentada com a traducção allemã do Dr. Wilhelm Storck, e algumas versões italianas.

8. _Cadencias Vagas_. Separata dos versos colligidos por Joaquim de Araujo para o volume dos _Raios de extincta Luz_. Lisboa, Typographia da Academia real das Sciencias, 1892. In-16.^o, VIII e 72 pag. (Tiragem restricta).

9. _Raios de extincta Luz_. Poesias ineditas (1859-1863) com outras pela primeira vez colligidas. Publicadas e precedidas de um Escorso biographico por Theophilo Braga. Lisboa. M. Gomes. Livreiro-Editor, 70, Rua Garrett (Chiado), 72. Typographia da Academia real das Sciencias, 1892. In-16.^o, de XLVIII pag. de introducção, e 258 pag. de texto. Entram n'esta collecção as seguintes:

*Folhas avulsas*:

I. _Poesia_ de Anthero de Quental recitada na noite de 13 de maio de 1862, no Theatro Academico, por A. Fialho Machado.

II. _A Gennaro Perrelli_, Ao artista e patriota italiano. Imprensa Litteraria (Sem data).

III. _Á Italia_. Poesia de Anthero, recitada no Theatro Academico por A. Fialho Machado, na noite de 22 de outubro de 1862. Coimbra, Imprensa Litteraria.

IV. _Zara_. Poesia. Imprensa portugueza. Porto. Folha solta, com restricta tiragem para as pessoas da familia do Dr. Antonio Joaquim de Araujo.

V. _A casa do Coração_. Impressa sobre um fundo lithographado, com o retrato de Anthero, e distribuida no Saráo da Liga das Artes Graphicas, no Porto, em honra do illustre morto.

* * * * *

ORDEM PARA UMA EDIÇÃO DEFINITIVA DAS OBRAS POETICAS COMPLETAS DE ANTHERO

I. _Raios de extincta Luz_ (1859 a 1863). II. _Primaveras romanticas_ (1863 a 1865). III. _Odes modernas_ (1865 a 1871). IV. _Sonetos completos_ (1860 a 1884).

I

PALAVRAS ALADAS

PALAVRAS ALADAS

Raios de extincta luz, eccos perdidos De voz que se sumiu no espaço absorta-- Meus cantos voarão de edade em edade, Como folhas que ao longe o vento espalha.

Não sabe a folha já mirrada e secca, Que um sôpro do tufão levou revolta, Que outro sopro talvez desfaça em breve-- Não sabe a triste o ramo onde nascera, A seiva que a nutriu, quando inda bella, O tronco que adornou com verde galla, E onde entre irmãs folgou por tarde amena? Soltos do tronco, sem calor, sem vida, Filhos orphãos que um seio não aquece, Um seio maternal ebrio de affectos, Meus cantos voarão de edade em edade, Como folhas que ao longe o vento espalha.

Mas se alguem, vendo a folha abandonada, Lembrar e vir na mente o tempo antigo Em que bella, vestindo pompa e gallas, Brilhou rica de seiva e luz e vida; Se na mente sonhar a pura essencia Que animara esse pó ahi revolto; Se corpo der á sombra fugitiva, E a voz unir ao ecco, e o foco ao raio; Se alguem souber do canto o sentir intimo, Oh, esse ha de entender a vida, a crença D'essa alma que animara outr'ora o canto.

Se alguem tiver no peito a urna mystica Onde o Amor se recolhe, esse hade amar-me; Se livre, por tyrannos não comprado, Pulsar um coração, esse commigo Hade a aurora saudar do _novo dia_; Se uma alma recordar a eterna patria Que lhe dera o Senhor, do céo saudosa Commigo a Deus n'um hymno hade elevar-se.

Aos mais será mysterio o canto e a lyra, Á Liberdade, a Amor e a Deus votada: E já, soltos do tronco onde medraram, Meus cantos voarão de edade em edade, Como folhas que ao longe o vento espalha.

Coimbra, Novembro, 1860.

II

LAÇO D'AMOR

A poesia _As Estrellas_ appareceu pela primeira vez publicada na segunda parte da _Beatrice_ (p. 27 a 31), mas sem titulo, e com a epigraphe _Excelsior_. O poeta leu-m'a em 1861 com o titulo _As Estrellas_, como uma das suas melhores Odes. No manuscripto que possuo tem a data:--_Figueira, Setembro_--1860; não apresenta variantes apreciaveis da edição do 1863, por isso a não reproduzimos.

_T. B._

LAÇO D'AMOR

_Ao amigo Santos Valente enviando-lhe para o seu Album a poesia AS ESTRELLAS_

Que heide dar de melhor? Ai, n'estes tempos De pobres affeições, de tibias crenças, --Fonte que os sóes do estio tem seccado-- Aonde ha fé tam viva, que trasborde, Enchendo um peito n'outro peito amigo? Que esperanças cá da terra ha hi tam firmes, Tam ricas de futuro, que dois sêres Possam firmar-se n'ellas sem receio E abandonar-se todo ao seu arrimo, Qual braço de mulher em braço de homem? E quem pode encontrar-se em egual via, E ir, com norte egual, seguir seu rumo Quando tantos caminhos vão cruzando N'estes tempos o mundo do espirito? Ah, n'este sec'lo, amigo, solitario Cada qual segue triste a sua estrada, Caminheiro de um dia, e silencioso, Contando, como o avaro, os tristes restos Das suas illusões, das suas crenças, A si pergunta o que ficou de tudo; Olha as bandas longiquas do horizonte E de novo interroga, em desalento, Se o futuro lhe guarda alguma esp'rança, Se o abysmo é o termo da jornada?!

Se lá de longe em longe alguma tenda, Se uma fonte que ensombra alta palmeira. Lhe alveja no deserto; se inda um pouco Lhe repousa a cabeça afadigada, Não faz, crente no Deus que o tem guiado, A oração da noite, a acção de graças E, antes que cerre as palpebras, medita...

No repouso só busca o esquecimento: Dorme o somno agitado de uma noite Sob a tenda que o acaso lhe depara; De manhã, sem levar uma saudade, Sem as deixar tambem, eil-o seguindo Do fatal peregrinar a longa via.

Que lhe importa o passado ou o futuro? P'ra dôr que soffre em si tudo é presente, Aqui, ali, em toda a parte o punge... Quem lhe dera esquecer, não recordar-se...

Orações? são incenso cujo aroma É de lagrimas... e as d'elle se hão seccado! Orgulhoso na dôr, da dôr o orgulho Fal-o erguer solitario e silencioso, Como se ergue o granito no deserto Ermo, nú... se medita... e só comsigo.

Assim vae cada qual seguindo o rumo Que o accaso ou o fado lhe depara: Quem se pode encontrar? que laço estreito Ha que os aperte? Idéa ou sentimento Aonde em crença egual juntos communguem? ........................................ ........................................ ........................................ Com tudo Deus existe! e nós, seus filhos, --Ingratos--se n'uma hora o olvidámos, Dentro temos a voz de eterno brado! Quem pode renegar seu pae? Nós somos Como esse Adão occulto no arvoredo Que não quer responder a _quem_ o chama: Porém se a voz do pae clamou tres vezes, Não pode resistir--«Eis-me presente.»--

Dissidentes no mais, Deus nos reune: No impio, ou crente, em todos Deus existe E todos chama a si, e a todos ama. Nós somos como rios que descendem De varia serra, e em vario leito correm: Mas, que importa? essas serpes tortuosas, Após rodeios mil, após mil voltas, Vão todas dar no mar; some-as o Oceano.

Que importa a crença varia e o vario affecto? Este laço de amor a todos une: --Existe um Deus que é Pae; somos seus filhos.

Coimbra, Maio, 1861.

III

FORÇA--AMOR

FORÇA--AMOR

O que destroe os mundos, E dá que os mar's frementes, Em volta aos continentes, Cavem abysmos fundos;

A mão que faz que a noite, Sem luz, amor, encanto, Se envolva em negro manto Aonde o mal se acoite;

Que pôs no olhar o brilho, E deu ao labio o riso, Á planta o pomo liso. Seio de mãe ao filho;

O que é verbo da vida, Do amor, da luz, do affecto, O que sustenta o insecto E a planta desvalida;

E disse á nuvem branca --Em densas trevas morre, E disse ao vento--corre, Assola, espalha, arranca;

Quem faz da vida morte, De puro incenso, fumo; E deixa, em mar sem rumo, O homem luctar co'a sorte;

Se é Deus... oh! não! não pode Do amor o foco immenso, Que abraza em fogo intenso, Se á mente nos acode;

Não pode o sôpro d'elle Mandar a morte e o pranto, Em vez do doce encanto, Que immenso amor revele!

Algum genio das trevas, --Espirito infecundo-- Espalha sobre o mundo Estas vinganças sevas.

Não elle; o Deus suave! D'aquelle seio immenso, Só manda á terra o incenso E o balsamo que a lave!

........................................ ........................................

--«Estranhas ver a morte? De vida andas repleto: O Deus, o Deus do affecto Tambem é o Deus forte:

Poeta! és tu que ignoras --Envolto em sonho aéreo-- O revolto mysterio De mais revoltas horas!--

Dezembro, 1860.

IV

PAZ EM DEUS

PAZ EM DEUS

...pax hominibus bona voluntate.

O Deus que me creou pôz-me no peito Um thesouro tão rico de esperança, Que não ha quem m'o roube ou quem m'o gaste; E pôz-me n'alma fonte tão perenne D'aquelle Eterno-Amor, que de lá desce, Que não ha sol ou calma que m'a seque.

A fonte que nasceu em solo árido Se um dia murmurou, morreu no outro; Mas a que vem dos montes, que o céo tocam, Descendo lentamente e sem ruido, Té que brota entre as flores da campina, Essa não morre com a luz de um dia... Fonte de puras aguas abundantes, Traz do céo sua origem. Lá se esconde, Entre nuvens, o foco que a alimenta: Eterna, como o céo d'onde partira, E serena, como elle, a paz e a vida, Como elle, tem no seio e d'elle manam.

Assim d'aquelle amor. Constante e puro, Que ardor ou calma ou sol pode seccal-o? Que pó da terra conspurcar-lhe o brilho?

A maldade dos homens não te mancha, Oh minha paz, oh minha pomba candida! Na terra o caçador te aponta a flecha, E o tiro parte em vão. Como tocar-te, Se tão alto voaste, e o dardo apenas Mediu a meia altura que levavas? A flecha cae na terra... ao céo tu foges!

Vae pomba immaculada! irei comtigo Abrigar-me tambem no seio eterno, Quando um dia o Senhor julgar que é finda A missão que me deu de aqui servil-o. Aqui fica-me a esp'rança que me alente, Fica a luz que me guia, o Amor, a crença.

E foi Deus quem me deu o meu thesouro, Como á ave que vôa deu a penna, Que a libra pelo espaço; e ao olho morto Do ancião, a luz que aponta melhor mundo.

Na assembléa dos homens, se um, olhando-me Disser--«Aquelle é rei»--irei prostrar-me Diante do Senhor, abrindo o espirito Á voz que dentro d'elle Deus murmura; E Deus vendo-me puro na consciencia Dirá--«Ergue-te em paz: não és culpado»--!