Part 9
Rubião lembrou-se de Santa Thereza,--daquella famosa noite da conversação com Sophia,--e sentiu correr-lhe um frio pelas costas; mas a voz do major não tinha nenhum sarcasmo. Tambem não lhe fallava por interesse. A filha estava ainda qual a deixámos no capitulo XLXIII, com a differença que os quarenta annos vieram. Quarentona, solteirona. Gemeu-os comsigo, logo de manhã, no dia em que os completou; não poz fita nem rosa no cabello. Nenhuma festa; tão sómente um discurso do pae, ao almoço, lembrando-lhe cousas de criança, anecdotas da mãe e da avó, um dominó de baile de mascaras, um baptisado de 1848, a solitaria de um coronel Clodomiro, varias cousas assim de mistura, para entreter as horas. D. Tonica mal podia ouvil-o; mettida em si mesma, ia roendo o pão da solitude moral, ao passo que se arrependia dos ultimos exforços empregados na busca de um marido. Quarenta annos; era tempo de parar.
Nada disso lembrava agora ao major. Fallou sinceramente; achou que a casa de Rubião não tinha alma. E repetiu, ao despedir-se:
--Case-se, e diga que eu o engano.
CAPITULO LXXIX
--E por que não? perguntou uma voz, depois que o major sahiu.
Rubião, apavorado, olhou em volta de si; viu apenas o cachorro, parado, olhando para elle. Era tão absurdo crer que a pergunta viria do proprio Quincas Borba,--ou antes do outro Quincas Borba, cujo espirito estivesse no corpo deste, que o nosso amigo sorriu com desdem; mas, ao mesmo tempo, executando o gesto do capitulo XLIX, estendeu a mão, e coçou amorosamente as orelhas e a nuca do cachorro,--acto proprio a dar satisfação ao possivel espirito do finado.
Era assim que o nosso amigo se desdobrava, sem publico, deante de si mesmo.
CAPITULO LXXX
Mas a voz repetiu:--E porque não? Sim, porque não havia de casar, continuou elle raciocinando. Mataria a paixão que o ia comendo aos poucos, sem esperança nem consolação. Demais, era a porta de um mysterio. Casar, sim, casar logo e bem.
Estava ao portão, quando esta idéa começou a abotoar;--foi dalli para dentro, subindo os degráos de pedra, abrindo a porta, sem consciencia de nada. Ao fechar a porta, é que um pulo do Quincas Borba, que o viera acompanhando, fel-o dar por si. Onde ficara o major? Quiz descer para vel-o, mas advertiu a tempo que acabava de o acompanhar até á rua. As pernas tinham feito tudo; ellas é que o levaram por si mesmas, direitas, lucidas, sem tropeço, para que ficasse á cabeça tão sómente a tarefa de pensar. Boas pernas! pernas amigas! muletas naturaes do espirito!
Santas pernas! Ellas o levaram ainda ao canapé, estenderam-se com elle, devagarinho, emquanto o o espirito trabalhava a ideia do casamento. Era um modo de fugir a Sophia; podia ser ainda mais alguma cousa.
Sim, podia ser tambem um modo de restituir á vida a unidade que perdera, com a troca do meio e da fortuna; mas esta consideração não era propriamente filha do espirito nem das pernas, mas de outra causa, que elle não distinguia bem nem mal, como a aranha. Que sabe a aranha a respeito de Mozart? Nada; entretanto, ouve com prazer uma sonata do mestre. O gato, que nunca leu Kant, é talvez um animal metaphysico. Em verdade, o casamento podia ser o laço da unidade perdida. Rubião sentia-se disperso; os proprios amigos de transito, que elle amava tanto, que o cortejavam tanto, davam-lhe á vida um aspecto de viagem, em que a lingua mudasse com as cidades, ora hespanhol, ora turco. Sophia contribuia para esse estado; era tão diversa de si mesma, ora isto, ora aquillo, que os dias iam passando sem accôrdo fixo, nem desengano perpetuo.
Rubião não tinha que fazer; para matar os dias longos e varios, ia as sessões do jury, á camara dos deputados, á passagem dos batalhões, dava grandes passeios, fazia visitas desnecessarias, á noite, ou ia aos theatros, sem prazer. A casa era ainda um bom repouso ao espirito, com o seu luxo rutilante e os sonhos que vagavam no ar.
Ultimamente, occupava-se muito em ler; lia romances, mas só os historicos de Dumas pae, ou os contemporaneos de Feuillet, estes com difficuldade, por não conhecer bem a lingua original. Dos primeiros sobravam traducções. Arriscava-se a algum mais, se lhe achava o principal dos outros, uma sociedade fidalga e régia. Àquellas scenas da côrte de França, inventadas pelo maravilhoso Dumas, e os seus nobres espadachins e aventureiros, as condessas e os duques de Feuillet, mettidos em estufas ricas, todos elles com palavras mui compostas, polidas, altivas ou graciosas, faziam-lhe passar o tempo ás carreiras. Quasi sempre, acabava com o livro cahido e os olhos no ar, pensando. Talvez algum velho marquez defuncto lhe repetisse anedoctas de outras eras.
CAPITULO LXXXI
Antes de cuidar da noiva, cuidou do casamento. Naquelle dia e nos outros, compoz de cabeça as pompas matrimoniaes, os coches,--se ainda os houvesse antigos e ricos, quaes elle via gravados nos livros de usos passados. Oh! grandes e soberbos coches! Como elle gostava de ir esperar o Imperador, nos dias de grande gala, á porta do paço da cidade, para ver chegar o prestito imperial, especialmente o coche de Sua Magestade, vastas proporções, fortes molas, finas e velhas pinturas, quatro ou cinco parelhas guiadas por um cocheiro grave e digno! Outros vinham, menores em grandeza, mas ainda assim tão grandes que enchiam os olhos.
Um desses outros, ou ainda algum menor, podia servir-lhe ás bodas, se toda a sociedade não estivesse já nivellada pelo vulgar _coupé._ Mas, emfim, iria de _coupé_; imaginava-o forrado magnificamente, de que? De uma fazenda que não fosse commum, que elle mesmo não distinguia, por ora; mas que daria ao vehiculo o ar que não tinha. Parelha rara. Cocheiro fardado de ouro. Oh! mas de um ouro nunca visto. Convidados de primeira ordem, generaes, diplomatas, senadores, um ou dous ministros, muitas summidades do commercio; e as damas, as grandes damas? Rubião nomeava-as de cabeça; via-as entrar, elle no alto da escada de um palacio, com o olhar perdido por aquelle tapete abaixo,--ellas atravessando o saguão, subindo os degraus com os seus sapatinhos de setim, breves e leves,--a principio, poucas,--depois mais, e mais, e ainda mais. Carruagens após carruagens... Lá vinham os condes de Tal, um varão guapo e uma singular dama... «Caro amigo, aqui estamos», dir-lhe-hia o conde, no alto; e, mais tarde, a condessa: «Senhor Rubião, a festa é esplendida...»
De repente, o internuncio... Sim, esquecera-se que o internuncio devia casal-os; lá estaria elle, com as suas meias roxas de monsenhor, e os grandes olhos napolitanos, em conversação com o ministro da Russia. Os lustres de crystal e ouro allumiando os mais bellos collos da cidade, casacas direitas, outras curvas ouvindo os leques que se abriam e fechavam, dragonas e diademas, a orchestra dando signal para uma valsa. Então os braços negros, em angulo, iam buscar os braços nús, enluvados até o cotovello, e os pares saiam girando pela sala, cinco, sete, dez, doze, vinte pares. Ceia explendida. Crystaes da Bohemia, louça da Hungria, vasos de Sèvres, criadagem lesta e fardada, com as iniciaes do Rubião na gola.
CAPITULO LXXXII
Esses sonhos iam e vinham. Que mysterioso Prospero transformava assim uma ilha banal em mascarada sublime? «Vae; Ariel, traze aqui os teus companheiros, para que eu mostre a este joven casal alguns feitiços da minha feitiçaria.» As palavras seriam as mesmas da comedia; a ilha é que era outra, a ilha e a mascarada. Aquella era a propria cabeça do nosso amigo; esta não se compunha de deusas nem de versos, mas de gente humana e prosa de sala. Mais rica era. Não esqueçamos que o Prospero de Shakespeare era um duque de Milão; e, eis ahi, talvez, porque se metteu na ilha do nosso amigo.
Em verdade, as noivas que appareciam ao lado do Rubião, naquelles sonhos de bodas, eram sempre titulares. Os nomes eram os mais sonoros e faceis da nossa nobiliarchia. Eis aqui a explicação: poucas semanas antes, Rubião apanhou um almanack de Laemmert,e, entrando a folheal-o, deu com o capitulo dos titulares. Se elle sabia de alguns, estava longe de os conhecer a todos. Comprou um almanack, e lia-o muitas vezes, deixando escorregar os olhos por alli abaixo, desde os marquezes até os barões, voltava atraz, repetia os nomes bonitos, trazia a muitos de cór. Ás vezes, pegava da penna e de uma folha de papel, escolhia um titulo moderno ou antigo, e escrevia-o repetidamente, como se fosse o proprio dono e assignasse alguma cousa:
Marquez de Barbacena Marquez de Barbacena Marquez de Barbacena Marquez de Barbacena Marquez de Barbacena Marquez de Barbacena
Ia assim, até o fim da lauda, variando a lettra, ora grossa, ora miuda, cabida para traz, em pé, de todos os feitios. Quando acabava a folha, pegava nella, e comparava as assignaturas; deixava o papel e perdia-se no ar.
D'ahi a jerarchia das noivas. O peor é que todas traziam a cara de Sophia;--podiam parecer-se nos primeiros instantes com alguma visinha, ou com a moça que elle comprimentára, á tarde, na rua; podiam começar muito magras ou gordas;--mas não tardavam em mudar de figura, encher ou desbastar o corpo, e sobre isto vinha rutilar o rosto da bella Sophia, com os seus mesmos olhos amotinados ou quietos. Não havia fugir, ainda casando? Rubião chegou a pensar na morte do Palha; foi em certo dia, ao sahir da casa delle, tendo-lhe ouvido a ella uma porção de cousas bonitas e vagas. Grande foi a sensação de ventura, posto que elle repellisse dahi a pouco a ideia, como um ruim agouro. Dias depois, trocadas as maneiras, tornava elle definitivamente aos seus planos. Mais de uma vez,era o proprio Palha que o accordava daquelles sonhos conjugaes.
--Tem onde ir hoje á noite?
--Não.
--Pegue lá uma entrada para o Theatro Lyrico; camarote n. 8, primeira ordem, á esquerda.
Rubião chegava mais cedo, ia esperar por elles, e dava o braço a Sophia. Si ella estava de bom humor, a noite era das melhores do mundo. Si não, era um martyrio, para repetir as proprias palavras delle, ao cão, um dia:
--Vim hontem de um martyrio, meu pobre amigo.
--Case-se, e diga que eu o engano, latiu-lhe Quincas Borba.
--Sim, meu pobre amigo, accudiu elle pegando-lhe nas patas deanteiras e collocando-as sobre os joelhos. Você tem razão; precisa de uma boa amiga que lhe dê cuidados que não posso ou não sei dar. Quincas Borba, você ainda se lembra do nosso Quincas Borba? Bom amigo meu, grande amigo, eu tambem fui amigo delle, dous grandes amigos. Se fosse vivo, seria o padrinho do meu casamento, levantaria os brindes,--ao menos, o de honra, aos noivos;--e seria por um copo de ouro e diamantes, que eu lhe mandaria fazer de proposito... Grande Quincas Borba!
E o espirito de Rubião pairava sobre o abysmo.
CAPITULO LXXXIII
Um dia, como houvesse sahido mais cedo de casa, e não soubesse onde passar a primeira hora, caminhou para o armazem. Desde uma semana que não ia á praia do Flamengo, por haver Sophia entrado em um dos seus periodos de sequidão. Achou o Palha de luto; morrera a tia da mulher, D. Maria Augusta, na fazenda; a noticia chegara na ante-vespera, á tarde.
--A mãe daquella mocinha?
--Justo.
Palha fallou da defuncta com muitos encarecimentos; depois contou a dôr de Maria Benedicta; estava que mettia pena. Perguntou-lhe porque é que não ia ao Flamengo, logo á noite, para ajudal-os a distrail-a? Rubião prometteu ir.
--Vá, é favor que nos faz; a pobre pequena vale tudo. Não imagina que primor alli está. Boa educação, muito severa; e quanto a prendas de sociedade, se não as teve em criança, ressarsiu o tempo perdido com rapidez extraordinaria. Sophia é a mestra. E dona de casa? Isso, meu amigo, não sei se em tal edade, se achará pessoa tão completa. Já agora fica comnosco. Tem uma irmã, Maria José, casada com um juiz de direito, no Ceará; tem tambem o padrinho, em S. João d'El-rei. A defuncta fallava delle com elogio; não creio que elle a mande buscar, mas ainda que mande, não a dou. Já agora é nossa. Não hade ser pelo que o padrinho lhe quizer deixar em testamento que nos desfaremos della. Aqui ficará, concluiu tirando com o dedo um pouco de poeira da gola do Rubião.
Rubião agradeceu. Depois, como estavam no escriptorio, ao fundo, olhou por entre as grades, e viu entrar uns fardos no armazem. Perguntou que traziam.
--São uns morins inglezes.
--Morins inglezes, repetiu Rubião, com indifferença.
--A proposito, sabe que a casa Moraes & Cunha, paga a todos os credores, integralmente?
Rubião não sabia nada, nem se a casa existia, nem se elles eram credores della; ouviu a noticia, respondeu que estimava muito, e dispoz-se a ir embora. Mas o socio reteve-o ainda alguns instantes. Estava alegre agora; parecia que não lhe morrera ninguem. Voltou a fallar de Maria Benedicta. Tinha intenção de casal-a bem; nem ella era moça de dar lerias a pelintras, nem se deixava ir por phantasias tolas; era ajuizada, merecia um bom esposo, pessoa seria.
--Sim, senhor, ia dizendo Rubião.
--Olhe, murmurou de repente o socio; não se admire do que lhe vou dizer. Creio que você é que casa com ella.
--Eu? acudiu Rubião, espantado. Não, senhor. E em seguida, para attenuar o effeito da recusa: Não nego que seja moça digna e perfeita; mas... por ora... não penso em casar...
--Ninguem lhe diz que seja amanhã ou depois; casamento não é cousa que se improvise. O que eu digo é que tenho cá um palpite. São cousas; palpites. Sophia nunca lhe fallou neste meu palpite?
--Nunca.
--É exquisito, disse-me que lhe fallára uma vez, ou duas, não me lembro bem.
--Pode ser, sou muito distrahido. Que queriam casar-me com a moça?
--Não, que eu tinha um palpite. Mas, não fallemos mais n'isto. Demos tempo ao tempo.
--Adeus.
--Adeus; vá cedo.
CAPITULO LXXXIV
Com que então, Sophia queria casal-o? sahiu pensando o Rubião; era naturalmente o processo mais expedito para descartar-se d'elle. Casal-o, fazel-o seu primo. Rubião palmilhou muita rua, antes que chegasse a esta outra hypothese:--Talvez Sophia não se houvesse esquecido de fallar, mas mentisse de proposito ao marido para não dar andamento ao projecto. N'este caso o sentimento era outro. Esta explicação pareceu-lhe logica; a alma voltou á serenidade anterior.
CAPITULO LXXXV
Mas não ha serenidade moral que corte uma polegada siquer ás abas do tempo, quando a pessoa não tem maneira de o fazer mais curto. Ao contrario, a ancia de ir ao Flamengo, á noite, vinha tornar as horas mais arrastadas. Era cedo, cedo para tudo, para ir á rua do Ouvidor, para voltar a Botafogo. O Dr. Camacho estava em Vassouras defendendo um réo no jury. Não havia divertimento algum publico; festa nem sermão. Nada. Rubião, profundamente aborrecido, trocava as pernas, á toa, lendo as taboletas, ou detendo-se ao simples incidente de um atropello de carros. Em Minas, não se aborrecia tanto, porque? Não achou solução ao enigma, uma vez que o Rio de Janeiro tinha mais em que se distrahir, e que o distrahia deveras; mas havia aqui horas de um tedio mortal.
Felizmente, ha um deus para os enojados. Accudiu á memoria de Rubião que o Freitas,--aquelle Freitas tão alegre--estava gravemente enfermo; Rubião chamou um tilbury e foi visital-o á Praia Formosa, onde morava. Gastou alli perto de duas horas, conversando com o doente; este adormeceu, elle despediu-se da mãe,--um caco de velha,--e á porta antes de sair:
--A senhora hade ter tido seus apertos de dinheiro, disse o Rubião; e, vendo-a morder o beiço e baixar os olhos: Não se envergonhe; necessidade afflige, mas não envergonha. Eu o que queria era que a senhora acceitasse alguma cousa, que lhe vou deixar para acudir á despeza; pagará um dia, se puder...
Tinha aberto a carteira, tirou seis notas de vinte mil reis, fez um bolo de todas ellas, e deixou-lh'o na mão. Abriu a porta e saiu. A velha, espantada, nem teve alma para agradecer; só ao rodar do tilbury, é que correu á janella, mas já não podia ver o bemfeitor.
CAPITULO LXXXVI
Tudo aquillo saiu tão expontaneamente ao Rubião, que elle só teve tempo de reflectir, depois que o tilbury começou a andar. Parece que chegou a levantar a cortina do postigo; a velha ia entrando; viu-lhe ainda o resto do braço. Rubião sentiu toda a vantagem de não estar invalido. Reclinou-se, desabafou o peito com um grande suspiro e olhou para a praia; logo depois inclinou-se. Na vinda, mal pudera vel-a.
--Vossa Senhoria está gostando, disse-lhe o cocheiro contente com o bom freguez que tinha.
--Acho bonito.
--Nunca veiu aqui?
--Creio que vim, ha muitos annos, quando estive no Rio de Janeiro pela primeira vez. Que eu sou de Minas... Pare, moço.
O cocheiro fez parar o cavallo; Rubião desceu, e disse-lhe que fosse andando de vagar.
Em verdade, era curioso. Aquellas grandes braçadas de matto, brotando do lodo, e postas alli ao pé da cara do Rubião, davam-lhe vontade de ir ter com ellas. Tão perto da rua! Rubião nem sentia o sol. Esquecera o doente e a mãe do doente. Assim sim,--dizia elle comsigo,--fosse o mar todo uma cousa daquelle feitio, alastrado de terras e verduras, e valia a pena navegar. Para lá daquillo ficava a praia dos Lazaros e a de S. Christovão. Uma pernada apenas.
--Praia Formosa, murmurou elle; bem posto nome.
Entretanto, a praia ia mudando de aspecto. Dobrava para o Sacco do Alferes, vinham as casas edificadas do lado do mar. De quando em quando, não eram casas, mas canoas, encalhadas no lodo, ou em terra, fundo para o ar. Ao pé de uma dessas canoas, viu meninos brincando, em camisa e descalços, em volta de um homem que estava de barriga para baixo. Todos elles riam; um ria mais que os outros porque não acabava de fixar o pé do homem no chão. Era um pecurrucho do tres annos; agarrava-se-lhe á perna e ia-a estendendo até nivelal-a com o chão, mas o homem fazia um gesto e levava pelo ar o pé e o menino.
Rubião deteve-se alguns minutos deante daquillo. O sujeito, vendo-se objecto de attenção, redobrou o exforço no brinco; perdeu a naturalidade. Os outros meninos mais edosos detiveram-se a olhar espantados. Mas Rubião não distinguia nada; via tudo confusamente. Foi ainda a pé durante largo tempo; passou o Sacco do Alferes, passou a Gamboa, parou deante do cemiterio dos inglezes, com os seus velhos sepulchros trepados pelo morro, e afinal chegou á Saude. Viu ruas esguias, outras em ladeira, casas apinhadas ao longe e no alto dos morros, beccos, muita casa antiga, algumas do tempo do rei, comidas, gretadas, estripadas, o caio encardido, e a vida lá dentro. E tudo isso lhe dava uma sensação de nostalgia... Nostalgia do farrapo, da vida escassa, acalcanhada e sem vexame. Mas durou pouco; o feiticeiro que andava nelle transformou tudo. Era tão bom não ser pobre!
CAPITULO LXXXVII
Rubião chegou ao fim da rua da Saude. Ia á toa com os olhos espraiados e desattentos. Rente com elle, passou uma mulher, não bonita, nem feia, singella sem elegancia, antes pobre que remediada, mas fresca de feições; contaria vinte e cinco annos, e levava pela mão um menino. Este atrapalhou-se nas pernas do Rubião.
--Que é isso, nhonhô? disse a moça, puxando o filho pelo braço.
Rubião inclinara-se ao pequeno, para amparal-o.
--Muito obrigada, desculpe, disse ella sorrindo; e comprimentou-o.
Rubião tirou o chapéo, e sorriu tambem. A visão da familia apoderou-se delle outra vez.--«Case-se, e diga que eu o engano!»--Parou, olhou para traz, viu ir a moça, tique-tique, e o menino ao pé della, amiudando as perninhas, para ajustar-se ao passo da mãe. Depois, foi andando lentamente, pensando em varias mulheres que podia escolher muito bem, para executar, a quatro mãos, a sonata conjugal, musica séria, regular e classica. Chegou a pensar na filha do major, que apenas sabia umas velhas mazurkas. De repente, ouvia a guitarra do peccado, tangida pelos dedos de Sophia, que o deliciavam, que o estonteavam, a um tempo; e lá se ia toda a castidade do plano anterior. Teimava novamente, forcejava por trocar as composições; pensava na moça da Saude, modos tão bonitos, creancinha pela mão...
CAPITULO LXXXVIII
A vista do tilbury fez-lhe lembrar o doente da praia Formosa.
--Pobre Freitas! suspirou.
Logo depois, pensou tambem no dinheiro que deixára á mãe do enfermo, e achou que fizera bem. Talvez a ideia de haver dado uma ou duas notas de mais esvoaçou por alguns segundos no cerebro do nosso amigo; elle a sacudiu depressa, não sem se zangar consigo, e, para esquecel-a de todo, exclamou ainda em voz alta:
--Boa velha! pobre velha!
CAPITULO LXXXIX
Como a ideia tornasse ainda, Rubião atirou-se depressa ao tilbury, entrou e sentou-se, faltando ao cocheiro, para fugir a si mesmo.
--Dei uma caminhada grande; mas, sim, senhor, isto aqui é bonito, é curioso; aquellas praias, aquellas ruas, é differente dos outros bairros. Gósto disto. Heide vir mais vezes.
O cocheiro sorriu para si de um modo tão particular, que o nosso Rubião desconfiou. Não atinava com o motivo do riso; talvez lhe houvesse escapado alguma palavra que no Rio de Janeiro tivesse máo sentido; mas repetiu-as e não descobriu nada; eram todas usadas e communs. Entretanto, o cocheiro sorria ainda, com o mesmo ar do principio, meio subserviente, meio velhaco. Rubião esteve a pique de o interrogar, mas recuou a tempo. Foi o outro que reatou a conversação.
--Vossa Senhoria está então muito admirado do bairro? disse elle. Hade deixar que eu não acredite, sem se zangar, que não é para offender a Vossa Senhoria, nem eu sou pessoa que aggrave um freguez serio; mas não creio que esteja admirado do bairro.
--Porque? aventurou Rubião.
O cocheiro meneou a cabeça para um e outro lado, e insistiu em não crer,--não porque o bairro não fosse digno de apreço, mas porque naturalmente já o conhecia muito, Rubião ratificou a primeira affirmação; tinha ido alli muitos annos antes, quando esteve da outra vez no Rio de Janeiro, mas não se lembrava da nada. E o cocheiro ria; e, á medida que o freguez ia demonstrando, elle ia ficando mais familiar, fazia negativas com o nariz, com os beiços, com a mão.
--Já sei disso, concluiu elle. Nem eu sou homem que não veja as cousas. Vossa Senhoria pensa que não vi a maneira porque olhou para aquella moça que passou ainda agora? Basta só isso para mostrar que Vossa Senhoria tem faro e gósta...
Rubião, lisongeado, sorriu um pouco; mas emendou-se logo:
--Que moça?
--Que lhe dizia eu? redarguiu o homem. Vossa Senhoria é fino, e faz muito bem; mas eu sou pessoa de segredo, e cá o carro tem servido para estas idas e vindas. Não ha muitos dias trouxe aqui um bello moço, muito bem vestido, pessoa fina,--já se sabe, negocio de rabo de saia.
--Mas eu... interrompeu o Rubião.
Mal podia conter-se; a supposição agradava-lhe; o cocheiro cuidou que elle dissimulava a culpa.
--Olhe, eu bem digo,--continuou elle; tal qual o moço da rua dos Invalidos. Vossa Senhoria póde ficar descançado; não digo nada; cá estou para outras. Então, quer que eu acredite que é por gosto que uma pessoa, que tem carro ás ordens, vem andando a pé desde a praia Formosa até aqui? Vossa Senhoria veiu ao logar marcado, a pessoa não veiu...
--Que pessoa? Fui ver um doente, um amigo que está para morrer.
--Tal qual o moço da rua dos Invalidos, repetiu o homem. Esse veiu ver uma costureira da mulher, como se fosse casado...
--Da rua dos Invalidos? perguntou Rubião, que só agora attentava no nome da rua.
--Não digo mais nada, acudiu o cocheiro. Era da rua dos Invalidos, bonito, um moço de bigodes e olhos grandes, muito grandes. Oh! eu tambem se fosse mulher, era capaz de apaixonar-me por elle... Ella não sei d'onde era, nem diria ainda que soubesse; sei só que era um peixão.
E vendo que o freguez o escutava com os olhos arregalados:
--Oh! Vossa Senhoria não imagina! Era de boa altura, bonito corpo, a cara meia coberta por um veu, cousa papafina. A gente, por ser pobre, não deixa de apreciar o que é bom.
--Mas... como foi? murmurou Rubião.