Part 8
É de saber que tinham decorrido oito mezes desde o principio do capitulo anterior, e muita cousa estava mudada. Rubião é socio do marido de Sophia, em uma casa de importação, á rua da Alfandega, sob a firma Palha & Comp. Era o negocio que este ia propor-lhe, naquella noite, em que achou o Dr. Camacho na casa de Botafogo. Apezar de facil, Rubião, recuou algum tempo. Pediam-lhe uns bons pares de contos de réis, não entendia de commercio, não lhe tinha inclinação. Demais, os gastos particulares eram já grandes; o capital precisava do regimen do bom juro e alguma poupança, a ver se recobrava as cores e as carnes primitivas. O regimen que lhe indicavam não era claro; Rubião não podia comprehender os algarismos do Palha, calculos de lucros, tabellas de preço, direitos da alfandega, nada; mas, a linguagem fallada suppria a escripta. Palha dizia cousas extraordinarias, aconselhava ao amigo que aproveitasse a occasião para pôr o dinheiro a caminho, multiplical-o. Se tinha medo, era outra cousa; elle, Palha, faria o negocio com John Roberts socio que foi da casa Wilkinson, fundada em 1844, cujo chefe voltou para a Inglaterra, e era agora membro do parlamento.
Rubião não cedeu logo, pediu prazo, cinco dias. Consigo era mais livre; mas desta vez a liberdade só servia para atordoal-o. Computou os dinheiros despendidos, avaliou os rombos feitos no cabedal, que lhe deixára o philosopho. Quincas Borba, que estava com elle no gabinete, deitado, levantou casualmente a cabeça e fitou-o, Rubião estremeceu; a idéa de que naquelle Quincas Borba podia estar a alma do outro nunca se lhe varreu inteiramente do cerebro. Desta vez chegou a ver-lhe um tom de censura nos olhos; riu-se, era tolice; cachorro não podia ser homem. Insensivelmente, porém, abaixou a mão e coçou as orelhas ao animal, para captal-o.
Atraz dos motivos de recusa, vieram outros contrarios. E se o negocio rendesse? Se realmente lhe multiplicasse o que tinha? Accrescia que a posição era respeitavel, e podia trazer-lhe vantagens na eleição, quando houvesse de propor-se ao parlamento, como o velho chefe da casa Wilkinson. Outra razão mais forte ainda era o receio de magoar o Palha, de parecer que lhe não confiava dinheiros, quando era certo que, dias antes, recebera parte da divida antiga, e a outra parte restante devia ser-lhe restituida dentro de dous mezes.
Nenhum desses motivos era pretexto de outro; vinham de si mesmos. Sophia só appareceu no fim, sem deixar de estar nelle, desde o principio, ideia latente, inconsciente, uma das causas ultimas do acto, e a unica dissimulada. Rubião abanou a cabeça para expellil-a, e levantou-se. Sophia (dona astuta!) recolheu-se á inconsciencia do homem, respeitosa da liberdade moral, e deixou-o resolver por si mesmo que entraria de socio com o marido, mediante certas clausulas de segurança. Foi assim que se fez a sociedade commercial; assim é que Rubião legalisou a assiduidade das suas visitas.
--Senhor Rubião, disse Maria Benedicta depois de alguns segundos de silencio, não lhe parece que minha prima é bem bonita?
--Não desfazendo na senhora, acho.
--Bonita e bem feita.
Rubião aceitou o complemento. Um e outro acompanharam com os olhos o par de valsistas, que passeava ao longo do salão. Sophia estava magnifica. Trajava de azul escuro, mui decotada,--pelas razões ditas no cap. XXXVIII, os braços nús, cheios, com uns tons de ouro claro, ajustavam-se ás espaduas e aos seios, tão acostumados ao gaz do salão. Diadema de perolas feitiças, tão bem acabadas, que iam de par com as duas perolas naturaes, que lhe ornavam as orelhas, e que Rubião lhe dera um dia...
Ao lado della, Carlos Maria não ficava mal. Era um rapaz galhardo, como sabemos, e trazia os mesmos olhos placidos do almoço do Rubião. Não tinha as maneiras subditas, nem as curvas reverentes dos outros rapazes; fallava com a graça de um rei benevolo. Entretanto, se, á primeira vista, parecia fazer apenas um obsequio áquella senhora, não é menos certo que ia desvanecido, por trazer ao lado a mais esbelta mulher da noite. Os dous sentimentos não se contradiziam; fundiam-se ambos na adoração que este moço tinha de si mesmo. Assim, o contacto de Sophia era para elle como a prosternação de uma devota. Não se admirava de nada. Se um dia accordasse imperador, só se admiraria da demora do ministerio em vir comprimental-o.
--Vou descançar um pouco, disse Sophia.
--Está cançada ou... aborrecida? perguntou-lhe o braceiro.
--Oh! cançada apenas!
Carlos Maria, arrependido de haver supposto a outra hypothese, deu-se pressa em climinal-a.
--Sim, creio; porque é que estaria aborrecida? Mas eu affirmo que é capaz de fazer me o sacrificio de passear ainda algum tempo. Cinco minutos?
--Cinco minutos.
--Nem mais um que seja? Pela minha parte, passearia a eternidade.
Sophia abaixou a cabeça.
--Com a senhora, note bem.
Sophia deixou-se ir com os olhos no chão, sem contestar, sem concordar, sem agradecer, ao menos. Podia não ser mais que uma galanteria, e as galanterias é de uso que se agradeçam. Já lhe tinha ouvido outr'ora palavras analogas, dando-lhe a primazia entre as mulheres deste mundo. Deixou de as ouvir durante seis mezes,--quatro que elle gastou em Petropolis,--dous em que lhe não appareceu. Ultimamente é que tornou a frequentar a casa, a dizer-lhe finezas daquellas, ora em particular, ora á vista de toda a gente. Deixou-se ir; e ambos foram andando calados, calados, calados,--até que elle rompeu o silencio, notando-lhe que o mar defronte da casa della, batia com muita força, na noite anterior.
--Passou lá? perguntou Sophia.
--Estive lá; ia pelo Cattete, já tarde, e lembrou-me descer á praia do Flamengo. A noite era clara; fiquei cerca de uma hora, entre o mar e a sua casa. A senhora aposto que nem sonhava commigo? Entretanto, eu quasi que ouvia a sua respiração...
Sophia tentou sorrir; elle continuou:
--O mar batia com força, é verdade, mas o meu coração não batia menos rijamente;--com esta differença que o mar é estupido, bate sem saber porquê, e o meu coração sabe que batia pela senhora.
--Oh! murmurou Sophia.
Com espanto? Com indignação? Com medo? São muitas perguntas a um tempo. Estou que a propria dama não poderia responder exactamente, tal foi o abalo que lhe trouxe a declaração do moço. Em todo caso, não foi com incredulidade. Não posso dizer mais senão que a exclamação saiu tão frouxa, tão abafada que elle mal pode ouvil-a. Pela sua parte, Carlos Maria disfarçou bem, ante os olhos de toda a sala; nem antes, nem durante, nem depois das palavras, mostrou no rosto a menor commoção; tinha até umas sombras de riso caustico, um riso de seu uso, quando mofava de alguem; parecia ter dito um epigramma. Comtudo, mais de um olho de mulher espreitava a alma de Sophia, estudava o gesto da moça, tal ou qual acanhado, e as palpebras teimosamente cahidas.
--A senhora está perturbada, disse elle; disfarce com o leque.
Sophia machinalmente entrou a abanar-se e levantou os olhos. Viu que muitos outros a fitavam, e empallideceu. Os minutos iam correndo, com a mesma brevidade dos annos; os primeiros cinco e os segundos iam longe; estavam no decimo terceiro, atraz deste iam apontando as azas de outro, e mais outro. Sophia disse ao braceiro que queria sentar-se.
--Vou deixal-a e retiro-me.
--Não, disse ella precipitadamente.
Depois, emendou-se:
--O baile está bonito.
--E tá, mas eu quero levar commigo a melhor recordação da noite. Qualquer outra palavra que ouça agora será como o coaxar das rãs, depois do canto de um lindo passaro, um dos seus passaros lá de casa. Onde quer que a deixe?
--Ao lado de minha prima.
CAPITULO LXX
Rubião cedeu a cadeira, e acompanhou Carlos Maria, que atravessou a sala, e foi até o gabinete da entrada, onde estavam os sobretudos e uns dez homens conversando. Antes que o rapaz entrasse no gabinete, Rubião pegou-lhe do braço, familiarmente, para lhe perguntar alguma cousa,--fosse o que fosse,--mas, em verdade, para retel-o comsigo, e procurar sondal-o. Começava a crer possivel ou real uma ideia que o atormentava desde muitos dias. Agora, a conversação dilatada, os modos della...
Carlos Maria não tinha noticia da longa paixão do mineiro, guardada, mortificada, não se podendo confessar a ninguem,--esperando os beneficios do acaso,--contentando-se de pouco, da simples vista da pessoa, dormindo mal as noites, dando dinheiro para as operações mercantis... Que elle não tinha ciumes do marido. Nunca a intimidade do casal lhe excitara os odios contra o legitimo senhor. E lá iam mezes e mezes, sem alteração do sentimento, nem morte da esperança... Mas a possibilidade de um rival de fóra veiu atordoal-o; aqui é que o ciume trouxe ao nosso amigo uma dentada de sangue.
--Que é? disse Carlos Maria voltando-se.
Ao mesmo tempo entrou no gabinete, onde os dez homens tratavam de politica, porque este baile,--ia-me esquecendo dizel-o,--era dado em casa de Camacho, a proposito dos annos da mulher. Quando os dous alli entraram, a conversação era geral, o assumpto o mesmo, e todos fallavam para todos,--um turbilhão de ditos, de pareceres, de affirmações diversas... Um, que era doutrinario, conseguiu dominar os outros, que se calaram por instantes, fumando.
--Podem fazer tudo, disse o doutrinario, mas a punição moral é certa. As dividas dos partidos pagam-se com juros até o ultimo real e até a ultima geração. Principios não morrem; os partidos que o esquecem expiram no lodo e na ignominia.
Outro, meio calvo, não acreditava na punição moral, e dizia porquê; mas um terceiro, fallou da demisão de uns collectores, e os espiritos, meio tontos com a doutrina, tomaram pé. Os collectores não tinham outra culpa, alem da opinião; e nem ao menos se podia defender o acto com o merecimento dos substitutos. Um destes trazia ás costas um desfalque; outro era cunhado de um tal Marques que dera um tiro de garrucha no delegado, em S. José dos Campos... E os novos tenentes-coroneis? Verdadeiros réos de policia...
--Já se vae embora? perguntou Rubião ao moço, quando o viu tirar o sobretudo d'entre os outros.
--Já; estou com somno. Ajude-me a enfiar esta manga. Estou com somno.
--Mas ainda é cedo; fique. O nosso Camacho não deseja que os rapazes saiam; quem é que hade dansar com a moças?
Carlos Maria replicou sorrindo que era pouco dado a dansas. Valsára com D. Sophia, por ser mestra no officio; senão, nem isso. Estava com somno; preferia a cama á orchestra. E estendeu-lhe a mão com benignidade; Rubião apertou-lh'a, meio incerto.
Não sabia que pensasse. O facto de sair, de a deixar no baile, em vez de esperar para acompanhal-a á carroagem, como de outras vezes... Podia ser engano delle... E pensava, recordava a noite de Santa Thereza, quando elle ousou declarar á moça, o que sentia, pegando-lhe na bella mão delicada... O major interrompera-os; mas porque não insistiu elle mais tarde? Nem ella o maltratou, nem o marido percebera cousa nenhuma... Aqui voltava a ideia do possivel rival; é certo que se retirára com somno, mas os modos della... Rubião ia á porta do salão, para ver Sophia, depois chegava-se a um canto ou á meza do voltarete, inquieto, aborrecido.
CAPITULO LXXI
Em casa, ao despentear-se, Sophia fallou daquelle saráo como de uma cousa enfadonha. Bocejava, doiam-lhe as pernas. Palha discordava; era má disposição della. Se lhe doiam as pernas é porque dançára muito. Ao que retorquiu a mulher que, se não dançasse, teria morrido de tedio. E ia tirando os grampos, deitando-os a um vaso de crystal; os cabellos cahiam-lhe aos poucos sobre os hombros, mal cobertos pela camisola de cambraia. Palha, por traz della, disse-lhe que o Carlos Maria valsava muito bem. Sophia estremeceu; fitou-o no espelho, o rosto era placido. Concordou que não valsava mal.
--Não, senhora, valsa muito hem.
--Você louva os outros porque sabe que ninguem é capaz de o desbancar. Anda, meu vaidoso, já te conheço.
Palha, estendendo a mão e pegando-lhe no queixo, obrigou-a a olhar para elle. Vaidoso, porque? porque é que elle era vaidoso?
--Ai, gemeu Sophia; não me machuques.
Palha beijou-lhe a espadua; ella sorriu, sem tedio, sem dor de cabeça, ao contrario daquella noite de Santa Theresa, em que relatou ao marido os atrevimentos do Rubião. É que os morros serão doentios, e as praias saudaveis...
No dia seguinte, Sophia acordou cedo, ao som dos trillos da passarada de casa, que parecia dar-lhe um recado de alguem. Deixou-se estar na cama, e fechou os olhos para ver melhor.
Ver melhor o que? Não, seguramente, os morros doentios. A praia era outra cousa. Posta á janella, dalli a meia hora, Sophia contemplava as ondas que vinham morrer defronte, e, ao longe, as que se levantavam e desfaziam á entrada da barra. A imaginosa dama perguntava a si mesma se aquillo era a valsa das aguas, e deixava-se ir por essa torrente de ideias abaixo, sem velas nem remos. Deu comsigo olhando para a rua, ao pé do mar, como procurando os signaes do homem que alli estivera, na ante-vespera, alta noite... Não juro, mas cuido que achou os signaes. Ao menos, é certo que cotejou o achado com o texto da conversação:
«A noite era clara; fiquei cerca de uma hora, entre o mar e a sua casa. A senhora aposto que nem sonhava commigo? Entretanto, eu quasi que ouvia a sua respiração... O mar batia com força, é verdade, mas o meu coração não batia menos rijamente; com esta differença que o mar é estupido, bate sem saber porque, e o meu coração sabe que batia pela senhora...»
Sophia teve um calefrio, procurou esquecer o texto, mas o texto ia-se repetindo: «A noite era clara...»
CAPITULO LXXII
Entre duas phrases, sentiu que alguem lhe punha a mão no hombro; era o marido, que acabava de tomar café e ia para a cidade. Despediram-se affectuosamente; Christiano recommendou-lhe Maria Benedicta, que acordara muito aborrecida.
--Já de pé! exclamou Sophia.
--Quando eu desci, já a achei na sala de jantar. Accordou com ideias de ir para a roça; teve um sonho... não sei que...
--Calundús! concluiu Sophia.
E com os dedos habeis e leves concertou a gravata ao marido, puxou-lhe a gola do fraque para deante, e despediram-se outra vez. Palha desceu e sahiu; Sophia deixou-se estar á janella. Antes de dobrar a esquina, elle voltou a cabeça, e, na fórma do costume, disseram adeus com a mão.
CAPITULO LXXIII
«A noite era clara; fiquei cerca de uma hora entre o mar e a sua casa. A senhora aposto que...»
Quando Sophia pôde arrancar-se de todo á janella, o relogio de baixo batia nove horas. Zangada, arrependida, jurou a si mesma, pela alma da mãe, não pensar mais em semelhante episodio. Considerou que não valia nada; o erro foi deixar que o rapaz chegasse ao fim dos seus atrevimentos. Verdade é que, procedendo assim, evitou algum grande escandalo, porque elle era capaz de a acompanhar até a cadeira e dizer-lhe o resto ao pé de outras pessoas. E o resto repetia-se ainda uma vez na memoria della, como um trecho musical teimoso, as mesmas palavras, e a mesma voz: «A noite era clara; fiquei cerca de uma hora...»
CAPITULO LXXIV
Emquanto ella repetia a declaração da vespera, Carlos Maria abria os olhos, estirava os membros, e, antes de ir para o banho, vestir-se e dar um passeio a cavallo, reconstruiu a vespera. Tinha esse costume; achava sempre nos successos do dia anterior algum facto, algum dito, alguma cousa que lhe fazia bem. Ahi é que o espirito se demorava; ahi eram as estalagens do caminho, onde elle descavalgava o corpo, para beber vagarosamente um golpe d'agua fresca. Se não havia successo nenhum desses,--ou se os havia só contrarios, nem por isso as sensações eram desconfortativas; bastava-lhe o sabor de alguma palavra que elle mesmo houvesse dito,--de algum gesto que fizesse, a contemplação subjectiva, o gosto de se ter sentido viver,--para que a vespera não fosse um dia perdido.
Na vespera figurava Sophia. Parece até que foi o principal da reconstrucção, a fachada do edificio, larga e magnifica. Carlos Maria saboreou de memoria toda a conversação da noite, mas, quando se lembrou da confissão de amor, sentiu-se bem e mal. Era um compromisso, um estorvo, uma obrigação; e, posto que o beneficio corrigisse o tedio, o rapaz ficou entre uma e outra sensação, sem plano. Ao recordar-se da noticia que lhe deu de haver ido á praia do Flamengo, na outra noite, não pôde suster o riso, porque não era verdade. Nascera-lhe a ideia da propria conversação; mas nem lá foi nem pensara nisso. Afinal susteve o riso, e até arrependeu-se delle; o facto de haver mentido trouxe-lhe uma sensação de inferioridade, que o abateu. Chegou a pensar em rectificar o que dissera, logo que estivesse com Sophia, mas reconheceu que a emenda era peor que o soneto, e que ha bonitos sonetos mentirosos.
Depressa ergueu a alma. Viu de memoria a sala, os homens, as mulheres, os leques impacientes, os bigodes despeitados, e estirou-se todo n'um banho de inveja e admiração. De inveja alheia, note-se bem; elle carecia desse sentimento ruim. A inveja e a admiração dos outros é que lhe davam ainda agora uma delicia intima. A princeza do baile entregava-se-lhe. Definia assim a superioridade de Sophia, posto lhe conhecesse um defeito capital,--a educação. Achava que as maneiras polidas da moça vinham da imitação adulta, após o casamento, ou pouco antes, e ainda assim não subiam muito do meio em que vivia.
CAPITULO LXXV
Outras mulheres vieram ali,--as que o preferiam aos demais homens no trato e na contemplação da pessoa. Se as requestava ou requestára todas? Não se sabe. Algumas, vá: é certo, porém, que se deleitava com todas ellas. Taes havia de provada honestidade que folgavam de o trazer ao pé de si, para gostar o contacto de um bello homem, sem a realidade nem o perigo da culpa,--como o expectador que se regala das paixões de Othello, e sae do theatro com as mãos limpas da morte de Desdemona.
Vinham todas rodear o leito de Carlos Maria, tecendo-lhe a mesma grinalda. Nem todas seriam moças em flor; mas a distincção suppria a juvenilidade. Carlos Maria recebia-as, como um deus antigo devia receber, quieto no marmore, as lindas devotas e suas offerendas. No borborinho geral distinguia as vozes de todas,--não todas a um tempo,--mas ás tres e ás quatro.
A derradeira dellas foi a da recente Sophia; escutou-a ainda namorado, mas sem o alvoroço do principio, porque a lembrança das outras donas, pessoas de qualidade, diminuia agora a importancia desta. Comtudo, não podia negar que era mui attractiva e que valsava perfeitamente. Chegaria a amar com força? Nisto appareceu-lhe outra vez a mentira da praia. Levantou-se aborrecido da cama.
--Quem diabo me mandou dizer semelhante cousa?
Tornou a encarar a ideia de restabelecer a verdade; e desta vez mais seriamente que da outra. Mentir, pensava elle, era para os lacaios e seus congeneres.
D'ahi a meia hora, trepava ao cavallo e sahia de casa, que era na rua dos Invalidos. Cattete adeante, veiu-lhe á ideia que a casa de Sophia era na praia do Flamengo; nada mais natural que torcer a redea, descer uma das ruas perpendiculares ao mar, e passar pela porta da valsista. Achal-a-hia, talvez á janella; vel-a-hia córar, comprimental-o. Tudo isto passou pela cabeça ao rapaz, em poucos segundos; chegou a dar um geito á redea, mas a alma,--não o cavallo,--a alma empinou--; era ir muito depressa atraz della. Deu outro geito á redea, e continuou o passeio.
CAPITULO LXXVI
Montava bem. Toda a gente que passava, ou estava ás portas não se fartava de mirar a postura do moço, o garbo, a tranquilidade régia com que se deixava ir. Carlos Maria,--e este era o ponto em que cedia á multidão,--recolhia as admirações todas, por infimas que fossem. Para adoral-o, todos os homens faziam parte da humanidade.
CAPITULO LXXVII
--Já de pé! repetiu Sophia, ao ver a prima lendo os jornaes.
Maria Benedicta teve um sobresalto, mas aquietou-se logo; dormira mal, e accordou cedo. Não estava para aquellas folias até tão tarde, disse ella, mas a outra replicou logo que era preciso acostumar-se, a vida do Rio de Janeiro não era a mesma da roça, dormir com as galinhas e accordar com os gallos. E depois perguntou-lhe que impressões trouxera do baile; Maria Benedicta levantou os hombros com indifferença, mas verbalmente respondeu que boas. Custava-lhe fallar, as palavras sahiam-lhe poucas e molles. Sophia, entretanto, ponderou-lhe que dansara muito, salvo polkas e valsas. E porque não havia de polkar e valsar tambem? A prima lançou-lhe uns olhos máos.
--Não gosto.
--Qual não gosta! É medo.
--Medo?
--Falta de costume, explicou Sophia.
A outra teve uma ideia, e quiz retel-a; mas a ideia escapou-lhe, a despeito do exforço:
--Não gosto que um homem me aperte o corpo ao seu corpo, e ande commigo, assim, á vista dos outros. Tenho vexame.
Sophia tornou-se séria; não se defendeu nem continuou, fallou-lhe da roça, perguntou-lhe se era certo o que lhe dissera Christiano, que ella queria ir para casa. Então a prima, que folheava os jornaes, á toa, respondeu animadamente que sim; não podia viver sem a mãe.
--Mas porque? Você não estava tão contente comnosco?
Maria Benedicta não disse nada; passeou os olhos em um dos jornaes, como se procurasse alguma cousa, trincando o beiço, tremula, inquieta. Sophia teimou em querer saber a causa daquella mudança repentina; pegou-lhe nas mãos, achou-as frias.
--Você precisa casar, disse finalmente. Tenho já um noivo.
Era Rubião; o Palha queria acabar por ahi, casando o socio com a prima; tudo ficava em casa, dizia elle á mulher. Esta tomou a si guiar o negocio. Accudia-lhe agora a promessa; tinha um noivo prompto, era só fallar.
--Quem? perguntou Maria Benedicta.
--Uma pessoa.
Crel-o-heis, posteros? Sophia não pôde soltar o nome de Rubião. Já uma vez, dissera ao marido haver fallado nelle, e era mentira. Agora, indo a fallar deveras, o nome não lhe sahiu da boca. Ciumes? Seria singular que esta mulher, que não tinha amor áquelle homem, não quizesse dal-o de noivo á prima, mas a natureza é capaz de tudo, amigo e senhor. Inventou o ciume de Othello e o do cavalleiro Desgrieux, podia inventar este outro de uma pessoa que não quer ceder o que não quer possuir.
--Mas quem? repetiu Maria Benedicta.
--Direi depois, deixe-me arranjar as cousas, respondeu Sophia, e mudou de conversa.
Maria Benedicta trocou de rosto; a boca encheu-se-lhe de riso, um riso de alegria e de esperança. Os olhos agradeceram a promessa e o trabalho, e disseram palavras que ninguem podia ouvir nem entender, palavras curiosas e obscuras:
--Gosta de valsar; é o que é.
Gosta de valsar quem? Provavelmente a outra. Tinha valsado tanto na vespera, com o mesmo Carlos Maria, que bem se poderia achar na dansa um pretexto; Maria Benedicta concluia agora que era o proprio e unico motivo. Conversaram muito nos intervallos, é certo, mas naturalmente era della que fallavam, uma vez que a prima tinha a peito casal-a, e só lhe pedia que deixasse arranjar as cousas. Talvez elle a achasse feia, ou sem graça. Uma vez, porém, que a prima queria arranjar as cousas... Tudo isso diziam os olhos gaios da menina.
CAPITULO LXXVIII
Rubião é que não perdeu a suspeita assim tão facilmente. Teve ideia de fallar a Carlos Maria, interrogal-o, e chegou a ir á rua dos Invalidos, no dia seguinte, tres vezes; não o encontrando, mudou de parecer. Encerrou-se por alguns dias; o major Siqueira arrancou-o á solidão. Ia participar-lhe que se mudara para a rua Dous de Dezembro. Gostou muito da casa do nosso amigo, das alfaias, do luxo, de todas as minucias, ouros e bambinellas. Sobre este assumpto fallou longamente, relembrando alguns moveis antigos. Como só elle fallasse, parou de repente, para dizer que o achava aborrecido; era natural, faltava-lhe alli um complemento.
--O senhor é feliz, mas falta-lhe aqui uma cousa; falta-lhe mulher. O senhor precisa casar. Case-se, e diga que eu o engano.