Quincas Borba

Part 7

Chapter 73,801 wordsPublic domain

--Não sabe, ao menos, o nome do pequeno?

--Ouvi chamar Deolindo. Vamos ao que importa. Venho assignar a sua folha; recebi um numero, e quero contribuir para...

Camacho acudiu que não precisava de assignaturas. Em assignaturas, a folha ia bem. O que ella precisava era de material typographico e desenvolvimento no texto; ampliar a materia, pôr-lhe mais noticiario, variedades, traducção de algum romance para o folhetim, movimento do porto, da praça, etc. Tinha annuncios, como viu.

--Sim, senhor.

--Estou com o capital quasi subscripto. Bastam dez pessoas, e já somos oito; eu e mais sete. Faltam dous. Com mais duas pessoas está completo o capital.

--Quanto será? pensou Rubião.

Camacho batia com um canivete na beira da escrevaninha, calado, olhando ás furtadellas para o outro. Rubião passou uma vista á sala, poucos moveis, alguns autos sobre um tamborete ao pé do advogado, estante com livros, Lobão, Pereira e Souza, Dalloz, _Ordenações do reino_, um retrato na parede, deante da escrevaninha.

--Conhece? disse Camacho apontando para o retrato.

--Não, senhor.

--Veja se conhece.

--Não posso saber. Nunes Machado?

--Não, acudiu o ex-deputado dando á cara um ar pesaroso. Não pude obter um bom retrato delle. Vendem-se ahi umas lithographias que me não parecem boas. Não; aquelle é o marquez.

--De Barbacena?

--Não, de Paraná; é o grande marquez, meu particular amigo. Tentou conciliar os partidos, e foi por isso que me achei com elle. Morreu cedo; a obra não pôde ir adeante. Hoje, se elle a quizesse, ter-me-hia contra si. Não! nada de conciliações; guerra de morte. Havemos de destruil-os; leia a _Atalaia_, meu bom companheiro de lutas; recebel-a-ha em casa...

--Não, senhor.

--Porque não?

Rubião baixou os olhos deante do nariz interrogativo do Camacho.

--Não, senhor; sou firme, desejo ajudar os amigos. Receber a folha de graça...

--Mas, se já lhe disse que de assignaturas vamos bem, retorquiu Camacho.

--Sim, senhor, mas não disse tambem que faltam duas pessoas para o capital?

--Duas, sim; temos oito...

--Quanto é o capital?

--O capital é de cincoenta contos; cinco por pessoa.

--Pois entro com cinco.

Camacho agradeceu-lh'o em nome das ideias. Tinha intenção de convidal-o para entrar com elles; era um direito adquirido pela convicção, pela fidelidade, pelo amor aos negocios publicos do seu recente amigo. Uma vez que espontaneamente se alistou, pedia-lhe que o desculpasse... Mostrou-lhe a lista dos outros; Camacho era o primeiro; entrava com a folha, o material existente, as assignaturas, e o trabalho herculeo... Ia a emendar-se, mas repetiu corajosamente: trabalho herculeo. Podia dizer que o era, sem deslustre, nem mentira; esganou cobras, em creança. Já agora era um vicio; gostava da luta, morreria nella, envolvido na bandeira...

CAPITULO LXII

Rubião despediu-se. No corredor passou por elle uma senhora alta, vestida de preto, com um arruido de seda e vidrilhos. Indo a descer a escada, ouviu a voz do Camacho, mais alta do que até então:--Oh! senhora baroneza!

No primeiro degráo parou. A voz argentina da senhora começou a dizer as primeiras palavras; era uma demanda... Baroneza! E o nosso Rubião ia descendo a custo, de manso, para não parecer que ficára ouvindo. O ar mettia-lhe pelo nariz acima um aroma fino e raro, cousa de tontear, o aroma deixado por ella. Baroneza! Chegou á porta da rua; viu parado um _coupê_; o lacaio, em pé, na calçada, o cocheiro na almofada, olhando; fardados ambos... Que novidade podia haver em tudo isso? Nenhuma. Uma senhora titular, cheirosa e rica, talvez demandista para matar o tedio. Mas o caso particular é que elle, Rubião, sem saber porque, e apezar do seu proprio luxo, sentia-se o mesmo antigo professor de Barbacena...

CAPITULO LXIII

Na rua, encontrou Sophia com uma senhora edosa e outra moça. Não teve olhos para ver bem as feições desta; todo elle foi pouco para Sophia. Fallaram-se acanhadamente, dous minutos apenas, e seguiram o seu caminho. Rubião parou adeante, e olhou para traz; mas as tres senhoras iam andando sem voltar a cabeça. Depois do jantar, comsigo:

--Irei lá hoje?

Reflexionou muito sem adeantar nada. Ora que sim, ora que não. Achara-lhe um modo exquisito; mas lembrava-se que sorriu,--pouco, mas sorriu. Poz o caso á sorte. Se o primeiro carro que passasse viesse da direita, iria; se viesse da esquerda, não. E deixou-se estar na sala, no _pouf_ central, olhando. Veiu logo um tilbury da esquerda. Estava dito; não ia a Santa Thereza. Mas aqui a consciencia reagiu; queria os proprios termos da proposta: um carro. Tilbury não era carro. Devia ser o que vulgarmente se chama carro, uma caleça inteira ou meia, ou ainda uma victoria... D'ahi a pouco vieram chegando da direita muitas caleças, que voltavam de um enterro. Foi.

CAPITULO LXIV

Sophia deu-lhe a mão gentilmente, sem sombra de rancor. As duas senhoras do passeio estavam com ella, em trajes caseiros; apresentou-as. A moça era prima, a velha era tia,--aquella tia da roça, autora da carta que Sophia recebeu no jardim das mãos do carteiro, que logo depois deu uma queda. A tia chamava-se D. Maria Augusta; tinha uma fazendola, alguns escravos e dividas, que lhe deixára o marido, alem das saudades. A filha era Maria Benedicta,--nome que a vexava, por ser de velha, dizia ella; mas a mãe retorquia-lhe que as velhas foram algum dia moças e meninas, e que os nomes adequados ás pessoas eram cousas de poetas e contadores de historias. Maria Benedicta era o nome da avó della, afilhada de Luiz de Vasconcellos, o vice-rei. Que queria mais?

Contaram isto ao Rubião, sem que ella se vexasse. Sophia, ou por attenuar o caso, ou por outro motivo, accrescentou que os mais feios nomes eram lindos, segundo a pessoa. Maria Benedicta era lindissimo.

--Não lhe parece? concluiu voltando-se para Rubião.

--Deixa de caçoada, prima! acudiu Maria Benedicta, rindo.

Podemos crer que a velha nem Rubião entenderam o dito,--a velha, porque começava a cochilar,--Rubião porque affagava um cãosinho que tinham dado a Sophia, pequeno, delgado, leve, boliçoso, olhos negros, com um guizo ao pescoço. Mas, insistindo a dona da casa, elle respondeu que sim, sem saber o que era. Maria Benedicta deu um muchocho. Em verdade, não era bonita; não lhe pedissem olhos que fascinam, nem d'essas boccas que segredam alguma cousa, ainda caladas. Altinha, mãos grandes, grandes olhos attonitos quando escutavam somente, mas que sabiam fallar, se a bocca fallava tambem,--ahi fica o principal das feições da moça. Era natural, sem acanho de roceira; e tinha um donaire particular, que corrigia as incoherencias do vestido.

Nascera na roça e gostava da roça. A roça era perto, Iguassú. De longe em longe vinha á cidade, passar alguns dias; mas, ao cabo dos dous primeiros, já estava anciosa por tornar a casa. A educação foi summaria: ler, escrever, doutrina e algumas obras de agulha. Nos ultimos tempos (ia em dezenove annos), Sophia apertou com ella para apprender piano; a tia consentiu; Maria Benedicta veiu para a casa da prima, e alli esteve uns dezoito dias. Não pôde mais; doeram-lhe as saudades da mãe e voltou para a roça, deixando consternado o professor, que annunciou n'ella, desde os primeiros dias, um grande talento musical.

--Oh! sem duvida, um grande talento!

Maria Benedicta riu-se quando a prima lhe contou isto, e nunca mais pode ver a serio o homem. Ás vezes, no meio de uma licção, deitava a rir; Sophia contrahia as sobrancelhas, a modo de ralho, e o pobre homem perguntava o que era, e de si mesmo explicava que havia de ser alguma lembrança de moça, e continuava a licção. Nem piano nem francez,--outra lacuna, que Sophia mal podia desculpar. D. Maria Augusta não comprehendia a consternação da sobrinha. Para que francez? A sobrinha dizia-lhe que era indispensavel para conversar, para ir ás lojas, para ler um romance...

--Sempre fui feliz sem francez, respondia a velha; e os meia-linguas da roça são a mesma cousa: não vivem peior que os creoulos.

Um dia accrescentou:

--Nem por isso lhe hão de faltar noivos. Póde casar, já lhe disse que póde casar quando quizer, que eu tambem casei; e até deixar-me na roça, sosinha, morrer como uma besta velha...

--Mamãe!

--Não tenha pena; é só apparecer o noivo. Em apparecendo, vá com elle, e deixe-me ficar. Olha Maria José o que fez commigo? Vive lá pelo Ceará...

--Mas se o marido é juiz de direito, ponderava Sophia.

--Torto que seja! Para mim é a mesma cousa. Cá fica o frangalho da velha. Casa, Maria Benedicta, casa depressa; eu morrerei com Deus... Não terei filhos, mas terei Nossa Senhora, que é mãe de todos. Casa, anda, casa!

Toda essa rabugem era calculo; tinha em mira arredar a filha do matrimonio, excitando-lhe o terror e a piedade. Quando menos, retardar-lh'o. Não creio que revelasse esse peccado ao confessor, nem que chegasse a entendel-o: era obra de um egoismo edoso e melindroso. D . Maria Augusta fora longamente querida; a mãe era douda por ella, o marido amou-a até o ultimo dia com a mesma intensidade. Mortos ambos, todas as suas saudades filiaes e matrimoniaes foram postas na cabeça das duas filhas. Uma fugira-lhe, casando. Ameaçada da solidão, se a outra casasse tambem, D. Maria Augusta fazia tudo o que podia por evitar o desastre.

CAPITULO LXV

Curta foi a visita de Rubião. As nove horas levantou-se elle discretamente, esperando qualquer palavra de Sophia, um pedido para que ficasse ainda algum tempo, que esperasse o marido que já vinha, um espanto que fosse: _Já!_ mas nem isso. Sophia estendeu-lhe a mão, em que elle mal pôde tocar. Comtudo, a moça, durante a visita, mostrou-se tão natural, tão sem azedume... Não teve seguramente os olhos longos e loquazes, como d'antes; parecia até que não houvera nada, nem bem nem mal, nem morangos, nem lua. Rubião tremia, não achava palavras; ella achava todas as que queria, e, se era preciso olhar para elle, fazia-o direitamente, tranquillamente...

--Lembranças ao nosso Palha, murmurou elle de chapéo e bengala na mão.

--Obrigada! Foi fazer uma visita; parece que ouço passos; hade ser elle.

Não era elle; era Carlos Maria. Rubião ficou espantado de o ver alli, mas achou logo que a presença da fazendeira e da filha explicaria tudo; podia ser até que fossem aparentados.

--Ia saindo, quando o senhor entrou, disse-lhe Rubião depois de o ver sentado ao pé de D. Maria Augusta.

--Ah! respondeu o outro, olhando para o retrato de Sophia.

Sophia foi até á porta despedir-se do Rubião; disse-lhe que o marido ficaria com pena de não estar em casa; mas que a visita era imperiosa. Negocios... Iria pedir-lhe desculpa.

--Que desculpa? acudiu Rubião.

Parece que quiz dizer ainda alguma cousa; mas o aperto de mão de Sophia e a reverencia que esta lhe fez, deram-lhe o signal de despedida. Rubião inclinou-se, atravessou o jardim, ouvindo a voz de Carlos Maria, na sala:

--Vou denunciar seu marido, minha senhora; é homem de muito mau gosto, e _le mauvais goût mène au crime..._

Rubião parou.

--Porque? disse Sophia.

--Tem este seu retrato na sala, continuou Carlos Maria; a senhora é muito mais bella, infinitamente mais bella que a pintura... Comparem, minhas senhoras.

CAPITULO LXVI

--Como elle diz aquellas cousas tão naturalmente! pensou Rubião, em casa, relembrando as palavras de Carlos Maria. Desfazer no retrato só para elogiar a pessoa! Note-se que o retrato é muito parecido...

CAPITULO LXVII

De manhã, na cama, teve um sobresalto. O primeiro jornal que abriu foi a _Atalaia._ Leu o artigo editorial, uma correspondencia, e algumas noticias. De repente, deu com o seu nome.

--Que é isto?

Era o seu proprio nome impresso, rutilante, multiplicado, nada menos que uma noticia do caso da rua da Ajuda. Depois do sobresalto, aborrecimento. Que diacho de ideia aquella de imprimir uma cousa particular, contada em confiança? Não quiz ler nada; desde que percebeu o que era, deitou a folha ao chão, e pegou em outra. Infelizmente, perdera a serenidade, lia por alto, pulava algumas cousas, não entendia outras, ou dava por si no fim de vinte linhas sem saber como viera escorregando até alli...

Ao levantar-se, sentou-se na poltrona, ao pé da cama, e pegou da _Atalaia._ Lançou os olhos pela noticia: era mais de uma columna. Columna e tanto para cousa tão diminuta! pensou comsigo. E afim de ver como é que Camacho enchera o papel, leu tudo, um pouco ás pressas, vexado dos adjectivos e da descripção dramatica do caso.

--Foi bem feito! disse em voz alta. Quem me mandou ser linguarudo?

Passou ao banho, vestiu-se, penteou-se, sem esquecer a bisbilhotice da folha, acanhado com a publicação de um negocio, que elle reputava minimo, e ainda mais pelo encarecimento que lhe dera o escriptor, como se se tratasse de dizer bem ou mal em politica. Ao café, pegou novamente na folha, para ler outras cousas, nomeações do governo, um assassinato em Garanhuns, meteorologia, até que a vista desastrada foi cair na noticia, e leu-a então com pausa. Aqui confessou Rubião que bem podia crer na sinceridade do escriptor. O enthusiasmo da linguagem explicava-se pela impressão que lhe ficou do facto; tal foi ella que lhe não permittiu ser mais sobrio. Naturalmente é o que foi. Rubião recordou a sua entrada no escriptorio do Camacho, o modo porque fallou; e dahi tornou atraz, ao proprio acto. Estirado no gabinete, evocou a scena: o menino, o carro, os cavallos, o grito, o salto que deu, levado de um impeto, irresistivel:--Agora mesmo não podia explicar o negocio; foi como se lhe tivesse passado uma cousa pelos olhos... Atirou-se á creança, e aos cavallos, cego e surdo, sem attender ao proprio risco... E podia ficar alli, embaixo dos animaes, esmagado pelas rodas, morto ou ferido; ferido que fosse... Podia ou não podia? Era impossivel negar que a situação foi grave... A prova é que os paes e a visinhança...

Rubião interrompeu as reflexões para ler ainda a noticia. Que era bem escripta, era. Trechos havia que releu com muita satisfação. O diabo do homem parecia ter assistido á scena. Que narração! que viveza de estylo! Alguns pontos estavam accrescentados,--confusão de memoria,--mas o accrescimo não ficava mal. E certo orgulho que lhe notou ao repetir-lhe o nome? «O nosso amigo, o nosso distinctissimo amigo, o nosso valente amigo...»

Ao almoço, riu-se de si mesmo; achou-se mortificado em demasia. Afinal, que tinha que o outro désse aos seus leitores uma cousa que era verdadeira, que era interessante, dramatica,--e, seguramente,--não vulgar? Sahindo, recebeu alguns comprimentos; Freitas chamou-lhe S. Vicente de Paula. E o nosso amigo sorria, agradecia, diminuia-se, não era nada...

--Nada? replicou alguem. Dê-me muitos desses nadas... Salvar uma creança com risco da propria vida...

Rubião ia concordando, ouvindo, sorrindo; contava a scena a alguns curiosos, que a queriam da propria bocca do autor. Certos ouvintes respondiam com proezas suas,--um que salvara uma vez um homem, outro uma menina, prestes a afogar-se no boqueirão do Passeio, estando a tomar banho. Vinham tambem suicidios malogrados, por intervenção do ouvinte, que tomou a pistola ao infeliz, e fel-o jurar... Cada gloriasinha occulta picava o ovo, e punha a cabeça de fóra, olho aberto, sem pennas, em volta da gloria maxima do Rubião. Tambem teve invejosos, alguns que nem o conheciam, só por ouvil-o louvar em voz alta. Rubião foi agradecer a noticia ao Camacho, não sem alguma censura pelo abuso de confiança, mas uma censura molle, ao canto da bocca... D'alli foi comprar uns tantos exemplares da folha para os amigos de Barbacena. Nenhuma outra transcreveu a noticia; elle, a conselho do Freitas, fel-a reimprimir nos _a pedidos_ do _Jornal do Commercio_, interlinhada.

CAPITULO LXVIII

Maria Benedicta consentiu finalmente em apprender francez e piano. Durante quatro dias a prima teimou com ella, a todas as horas, de tal arte e maneira, que a mãe da moça resolveu appressar a volta á fazenda, para evitar que ella acabasse aceitando. A filha resistiu muito; respondia que eram cousas superfluas, que moça de roça não precisa de prendas da cidade. Uma noite, porém, estando alli Carlos Maria, pediu-lhe este que tocasse alguma cousa; Maria Benedicta fez-se vermelha. Sophia acudiu com uma mentira:

--Não lhe peça isso; ainda não tocou depois que veiu. Diz que agora só toca para os roceiros.

--Pois faça de conta que somos roceiros, insistiu o moço.

Felizmente, fallou logo de outra cousa, do baile da baroneza do Piauhy (casualmente, a mesma que o nosso amigo Rubião encontrou no escriptorio do Camacho), um baile esplendido, oh! esplendido! A baroneza presava-o muito. No dia seguinte, Maria Benedicta declarou á prima que estava prompta a apprender piano e francez, rabeca e até russo, se quizesse. A difficuldade era vencer a mãe. Esta, quando soube da resolução da filha, poz as mãos na cabeça. Que francez? que piano? Bradou que não, ou então que deixasse de ser sua filha; podia ficar, tocar, cantar, fallar cabinda ou a lingua do diabo que os levasse a todos. Palha é que a persuadiu finalmente; disse-lhe que, por mais superfluas que lhe parecessem aquellas prendas, eram o minimo dos adornos de uma educação de sala...

--Mas eu criei minha filha na roça e para a roça, interrompeu a tia.

--Para a roça? Quem sabe lá para que cria os filhos? Meu pae destinara-me a padre; é por isso que arranho algum latim. A senhora não hade viver sempre; os seus negocios andam atrapalhados. Pode acontecer que Maria Benedicta fique ao desamparo... Ao desamparo, não digo; emquanto vivermos somos todos uma só pessoa. Mas não é melhor prevenir? Podia ser até que, se lhe faltassemos todos, ella vivesse á larga, só com ensinar francez e piano... Basta que os saiba para estar em condições melhores. É bonita, como a senhora foi no seu tempo; e possue raras qualidades moraes. Pode achar marido rico... Sabe a senhora se já tenho alguem em vista, pessoa séria?

--Sim? Então ella vae apprender francez, piano e namoro?

--Que namoro? Fallo-lhe de pensamentos intimos, de um plano que me parece adequado á felicidade della e de sua mãe. Pois eu havia... Ora, tia Augusta!

Palha mostrou-se tão mortificado, que a tia deixou o tom aspero pelo tom secco. Resistiu ainda; mas a noite deu-lhe bons conselhos O estado dos seus negocios, e a possibilidade de um genro abastado fizeram mais que outras razões. Os melhores genros da roça alliavam-se a outras fazendas, a familias de representação e riqueza segura. Dous dias depois acharam um _modus vivendi_: Maria Benedicta ficaria com a prima; iriam de quando em quando á roça, e a tia tambem viria á capital, para vel-os. Palha chegou a dizer que, logo que o estado da praça o permittisse, arranjaria meio de liquidar-lhe os negocios e transportal-a para aqui. Mas a isto a boa senhora abanou a cabeça.

Não se pense que tudo isso foi tão facil como ahi fica escripto. Na pratica, vieram os obices, amofinações, saudades, rebelliões de Maria Benedicta. Dezoito dias depois da volta da mãe á fazenda, quiz ir visital-a, e a prima acompanhou-a; estiveram lá uma semana. A mãe, dous mezes depois, veiu passar uns dias aqui. Sophia acostumava habilmente a prima ás distracções da cidade; theatros, visitas, passeios, reuniões em casa, vestidos novos, chapéos lindos, joias. Maria Benedicta era mulher, posto que mulher exquisita; gostou de taes cousas, mas tinha para si que, logo que quizesse, podia arrebentar todos esses liames, e andar para a roça. A roça vinha ter com ella, ás vezes, em sonho ou simples devaneio. Depois dos primeiros saráos, quando voltava para casa, não eram as sensações da noite que lhe enchiam a alma, eram as saudades de Iguassú. Cresciam-lhe mais a certas horas do dia, quando a quietação da casa e da rua era completa. Então batia as azas para a varanda da velha casa, onde bebia café, ao pé da mãe; pensava na escravaria, nos moveis antigos, nas bonitas chinellas que lhe mandara o padrinho, um fazendeiro rico de S. João d'El-rey,--e que lá ficaram em casa. Sophia não consentiu que ella as trouxesse.

Os mestres de francez e piano eram homens sabedores do officio. Sophia teve modo de dizer-lhes em particular que a prima vexava-se de apprender tão tarde, e pediu-lhes que não fallassem nunca de tal discipula. Prometteram que sim; o de piano apenas referiu o pedido a alguns collegas d'arte, que lhe acharam graça, e contaram outras anedoctas da clientela. O certo é que Maria Benedicta apprendia com singular facilidade, estudava com afinco, quasi todas as horas, a tal ponto que a mesma prima julgava acertado interrompel-a.

--Descança, filha de Deus!

--Deixa recobrar o tempo perdido, respondia ella rindo.

Então Sophia inventava passeios, á toa, para fazel-a descançar. Ora um bairro, ora outro. Em certas ruas, Maria Benedicta não perdia tempo: lia as taboletas francezas, e perguntava pelos substantivos novos, que a prima, algumas vezes, não sabia dizer o que eram, tão estrictamente adequado era o seu vocabulario ás cousas do vestido, da sala e do galanteio.

Mas não era só nessas disciplinas que Maria Benedicta fazia progressos rapidos. A pessoa ajustára-se ao meio, mais depressa do que fariam crer o gosto natural e a vida da roça. Já competia com a outra, embora houvesse nesta um desgarre, e não sei que expressão particular que, para assim dizer, dava côr a todas as linhas e gestos da figura. Não obstante essa differença, é certo que a outra era vista e notada ao pé della, de tal geito que Sophia, que começára por louval-a em toda a parte, não a deslouvava agora, mas ouvia calada as admirações. Fallava bem;--mas, quando calava, era por muito tempo; dizia que eram os seus «calundús». Contradansava sem vida, que é a perfeição desse genero de recreio; gostava muito de ver polkar e valsar. Sophia, imaginando que era por medo que a prima não valsava nem polkava, quiz dar-lhe algumas lições em casa, sosinhas, com o marido ao piano; mas a prima recusava sempre.

--Isso é ainda um bocadinho de casca da roça, disse-lhe uma vez Sophia.

Maria Benedicta sorriu de um modo tão particular, que a outra não insistiu. Não foi riso de vexame, nem de despeito, nem de desdem. Desdem, porque? Comtudo, é certo que o riso parecia vir de cima. Não menos o é que Sophia polkava e valsava com ardor, e ninguem se pendurava melhor do hombro do parceiro; Carlos Maria, que era raro dansar, só valsava com Sophia,--dous ou tres giros, dizia elle;--Maria Benedicta contou uma noite quinze minutos.

CAPITULO LXIX

Os quinze minutos foram contados no relogio do Rubião, que estava ao pé da Maria Benedicta, e a quem ella perguntou duas vezes que horas eram, no principio e no fim da valsa. A propria moça inclinou-se para ver bem o ponteiro dos minutos.

--Está com somno? perguntou Rubião.

Maria Benedicta olhou para elle de soslaio. Viu-lhe o rosto placido, sem intenção nem riso.

--Não, respondeu; digo-lhe até que estou com medo que prima Sophia se lembre de ir cedo para casa.

--Não vae cedo. Já acabou a desculpa de Santa Thereza, por causa da subida. A casa fica perto daqui.

De facto, as duas moravam agora na praia do Flamengo, e o baile era na rua dos Arcos.