Part 6
Ficando só, a nossa amiga, que apenas tomou um caldo, lá para as duas horas, foi sentar-se á porta de casa, no jardim. Naturalmente, voltou a pensar no lance da vespera. Não estava bem em si nem fóra de si, nem com Deus nem com o diabo. Arrependia-se de haver contado o episodio ao marido, e ao mesmo tempo irritava-se com as tentativas de explicação que este lhe deu. No meio das reflexões, ouviu distinctamente as palavras do major: «Olá! estão apreciando a lua?» como se as folhas as tivessem guardado, e repetido agora que a aragem começava a movel-as. Sophia teve um calefrio. Sequeira era indiscreto,--indiscreto em farejar e indagar das cousas alheias; sel-o-hia ao ponto de publical-as? Sophia considerava-se já objecto de suspeita ou de calumnia... Formava planos. Não visitaria ninguem; ou iria para fóra, para Nova Friburgo ou mais longe. A exigencia do marido em receber o Rubião, como d'antes, era excessiva; maiormente pela causa dada. Não querendo obedecer nem desobedecer, cuidava em deixar a cidade, pretextando o que quer que fosse.
--A culpa foi minha! suspirou ella comsigo.
A culpa eram as attenções especiaes com o homem, carinhos, lembranças, obsequios familiares, e, na vespera, aquelles olhos tão longamente pregados nelle... Se não fosse isso... Ia-se assim perdendo em reflexões multiplicadas. Tudo a aborrecia, plantas, moveis, uma cigarra que cantava, um rumor de vozes, na rua, outro de pratos, em casa, o andar das escravas, e até um pobre preto velho que, em frente á casa della, trepava com dificuldade um pedaço de morro. As cautellas do preto boliam-lhe com os nervos.
CAPITULO LII
Nisto passou um rapaz alto, que a cortejou sorrindo e vagarosamente. Sophia cortejou-o tambem, um pouco espantada da pessoa e da acção.
--Quem é este sujeito? pensou ella.
E entrou a cogitar donde é que o conhecia, porque, em verdade, a cara não lhe era extranha, nem as maneiras, nem os olhos placidos e grandes. Onde é que o teria visto? Percorreu varias casas, sem acertar com a verdadeira; afinal pensou em certo baile,--no mez anterior,--em casa de um advogado que fazia annos. Era isso; viu-o lá, dansaram uma quadrilha, por simples condescendencia delle, que não dansava nunca; lembrava-se de lhe ter ouvido muitas cousas agradaveis, relativamente á belleza da mulher, que, dizia elle, consistia principalmente nos olhos e nos hombros. Os della, como sabemos, eram magnificos. E quasi não tratou de outra cousa,--os hombros e os olhos;--a proposito de uns e outros contou varias anecdotas succedidas com elle, algumas sem interesse, mas fallava tão bem! e o assumpto era tão della! É verdade; lembrava-se agora que, apenas elle a deixou, Palha veiu ter com ella, sentou-se na cadeira, ao lado, e disse-lhe o nome do rapaz, porque ella não ouvira bem á pessoa que lh'o apresentara era Carlos Maria,--o proprio do almoço do nosso Rubião.
--É a primeira figura do salão, disse-lhe o marido com orgulho de vêr que se occupára tanto tempo com ella.
--Entre os homens, explicou Sophia.
--Entre as senhoras és tu, acudiu elle mirando-se no collo da mulher, e circulando depois os olhos pela sala, com uma expressão de posse e dominio, que a mulher já conhecia e que lhe fazia bem.
Quando acabou de recordar tudo, já iria longe o rapaz; ao menos, foi uma interrupção na serie de tedios que lhe tomavam a alma. Tinha uma dor nas costas, que se calára por instantes. Voltou logo, teimosa, aborrecida; Sophia reclinou-se na cadeira e fechou os olhos. Quiz ver se passava pelo somno, mas não pôde. Os pensamentos eram tão teimosos como a dor, e ainda mais ruins que ella. De quando em quando um bater de azas, rapido, quebrava o silencio: eram as pombas de uma casa visinha que tornavam ao pombal. Sophia a principio abriu os olhos, umas duas vezes; depois, acostumou-se ao rumor, e deixou-os fechados, a ver se dormia. Passado algum tempo, ouviu passos na rua, e levantou a cabeça, suppondo que era Carlos Maria que regressava; era um carteiro que lhe trazia uma carta da roça. Entregou-lh'a em mão. Ao sair do jardim, tropeçou o carteiro no pé de um banco e caiu de bruços, espalhando as cartas no chão. Sophia não pôde conter o riso.
CAPITULO LIII
Perdoem-lhe esse riso. Bem sei que o desassocego, a noite mal passada, o terror da opinião, tudo contrasta com esse riso inopportuno. Mas, leitora amada, talvez a senhora nunca visse cair um carteiro. Os deuses de Homero,--e mais eram deuses,--debatiam uma vez no Olympo, gravemente, e até furiosamente. A orgulhosa Juno, ciosa dos colloquios de Thetis e Jupiter em favor de Achilles, interrompe o filho de Saturno. Jupiter troveja e ameaça; a esposa treme de colera. Os outros gemem e suspiram. Mas quando Vulcano pega da urna de nectar, e vae coxeando servir a todos, rompe no Olympo uma enorme gargalhada inextinguivel. Porque? Senhora minha, com certeza nunca viu cair um carteiro.
Ás vezes, nem é preciso que elle caia; outras vezes nem é sequer preciso que exista. Basta imaginal-o ou recordal-o. A sombra da sombra de uma lembrança grotesca projecta-se no meio da paixão mais aborrecivel, e o sorriso vem ás vezes á tona da cara, leve que seja,--um nada. Deixemol-a rir, e ler a sua carta da roça.
CAPITULO LIV
Quinze dias depois, estando Rubião em casa, appareceu-lhe o marido de Sophia. Vinha perguntar-lhe o que era feito delle? onde se tinha mettido que não apparecia? estivera doente? ou já não cuidava dos pobres? Rubião mastigava as palavras, sem acabar de compor uma phrase unica. No meio disto, Palha viu que havia na sala um homem mirando os quadros, e abafou a voz.
--Desculpe, não vi que estava com visitas, disse elle.
--Desculpar o que? é um amigo, como o senhor. Doutor, aqui está o meu amigo Christiano de Almeida e Palha. Creio que já lhe fallei delle. Este é o meu amigo Dr. Camacho,--João de Souza Camacho.
Camacho fez um signal de cabeça, disse uma ou duas cousas, e quiz sair; mas Rubião acudiu, que não, senhor, que ficasse. Eram ambos amigos; e depois a lua não tardava a illuminar a bella enseada de Botafogo.
A lua,--outra vez a lua,--e esta phrase: _Creio que já lhe fallei delle_, atordoaram de tal geito o recem-chegado, que não lhe foi possivel proferir uma palavra durante algum tempo. Bom é accrescentar que o dono da casa tambem não sabia que dissesse. Estavam os tres sentados, Rubião no canapé, Palha e Camacho em cadeiras defronte um do outro. Camacho, que conservára a bengala na mão, pol-a verticalmente nos joelhos, batendo no nariz e olhando para o tecto. Fóra, rumor de carros, tropel de cavallos, e algumas vozes. Eram sete horas e meia da noite, ou mais, perto de oito. O silencio foi mais longo do que era licito na occasião; nem Rubião nem Palha davam por elle. Camacho é que, aborrecido, foi á janella, e exclamou dalli para os dous:
--Lá vem o luar entrando!
Rubião fez um gesto, Palha outro; mas quão differentes! Rubião era para transportar-se á janella; Palha ia a agarral-o pela gola. Cedia menos á divulgação possivel da aventura do que á lembrança da violencia com que elle pegára nas mãos da mulher para attrahil-a a si. Um e outro contiveram-se; logo depois, Rubião, cruzando a perna esquerda sobre a direita, voltou-se para o Palha, e perguntou-lhe:
--Sabe que vou deixal-os?
CAPITULO LV
Tudo esperava o outro, menos isto. Dahi o espanto em que se dissolveu a colera; dahi tambem uma sombrinha de pezar, que é o que o leitor menos espera. Deixal-os? Naturalmente ia-se embora do Rio de Janeiro; era o castigo que a si mesmo impunha, pela acção ruim que praticára, em Santa Thereza; logo, vexára-se, arrependera-se... Não tinha cara de apparecer á esposa do amigo... Tal foi a primeira conclusão do Palha; mas vieram outras hypotheses... Por exemplo, a paixão podia persistir, e a sahida delle era um modo de affastar-se da pessoa amada... tambem podia acontecer que entrasse ahi algum plano de casamento.
A ultima hypothese trouxe á physionomia do Palha um elemento novo, que não sei como chame. Desappontamento? Já o elegante Garrett não achava outro termo para taes sensações, e nem por ser inglez o desprezava. Vá desappontamento. Misturem-lhe o espanto da noticia de separação, e a sombrinha de pezar; não se esqueçam da colera que primeiro trovejou surdamente, e não faltará quem ache que a alma deste homem é uma colxa de retalhos.
Póde ser; mas as colxas inteiriças são tão raras! O principal é que as cores se não desmintam umas ás outras,--quando não possam obedecer á symetria e regularidade. Era o caso do nosso homem. Tinha o aspecto baralhado á primeira vista; mas attentando bem, por mais oppostos que fossem os matizes, lá se achava a unidade moral da pessoa.
CAPITULO LVI
Mas, porque é que Rubião ia deixal-os? Que razão? Que negocio?
No dia seguinte ao do caso de Santa Thereza, acordou oppresso. Almoçou mal. Não cuidou de nada; calçou as chinellas africanas sem interesse, não cuidou das cousas bellas, ou simplesmente ricas, que lhe enchiam a casa. Não pôde supportar as caricias do cão mais de dous minutos; tão depressa o recebeu na sala, como o mandou embora. Elle é que enganou os criados e tornou ao amo; mas, tal foi o tabefe que recebeu na orelha, que não repetiu os affagos: estirou-se no chão com os olhos no amigo.
Rubião estava arrependido, irritado, envergonhado. No cap. X deste livro ficou escripto que os remorsos deste homem eram faceis, mas de pouca dura; faltou explicar a natureza das acções que os podiam fazer curtos ou compridos. Lá tratava-se daquella carta escripta pelo finado Quincas Borba, tão expressiva do estado mental do autor, e que elle occultou do medico, podendo ser util á sciencia ou á justiça. Se entrega a carta, não teria remorsos, nem talvez legado,--o pequeno legado que então esperava do enfermo. No caso presente, era uma tentativa de adulterio. Certo que elle suspirava ha muito, e tinha impetos interiores; mas foi só a animação indiscreta da moça, e a propria excitação do momento que o levou a fazer a declaração repellida. Passados os vapores da noite, não era só vexame que sentia, mas tambem remorsos. A moral é uma, os peccados são differentes.
Saltemos por cima de tudo o que elle sentiu e pensou durante os primeiros dias. Chegou a esperar alguma cousa no domingo, um bilhete como o do anterior,--com morangos ou sem elles. Na segunda feira estava determinado a ir a Minas passar uns dous mezes; tinha necessidade de restaurar a alma aos ventos de Barbacena. Não contava com o Dr. Camacho.
--Deixar-nos? perguntou finalmente o Palha.
--Creio que sim; vou a Minas.
Camacho, voltando da janella, sentou-se na cadeira em que estivera antes.
--Que Minas? disse elle sorrindo.--Deixe-se de Minas por ora; lá irá quando fôr preciso, e não se demorará muito que o seja.
Palha não ficou menos admirado das palavras deste que das do outro. Donde surgira semelhante homem, com ar de dominar o Rubião? Olhou para elle; era pessôa de estatura media, rosto estreito, pouca barba, queixo comprido, orelhas de pavilhão largo e aberto. Foi tudo o que pôde observar rapidamente. Viu tambem que a roupa era fina, sem luxo, e que os pés não estavam mal calçados. Não examinou os olhos, nem o sorriso, nem as maneiras; não chegou a reparar no principio de calva, nem nas mãos magras e cabelludas.
CAPITULO LVII
Camacho era homem politico. Formado em direito em 1844, pela faculdade do Recife, voltara para a provincia natal, onde começou a advogar; mas a advocacia era um pretexto. Já na academia, escrevera um jornal politico, sem partido definido, mas com muitas ideias colhidas aqui e alli, e expostas em estylo meio magro e meio inchado. Pessoa que recolheu esses primeiros fructos de Camacho fez um indice dos seus principios e aspirações:--_ordem pela liberdade, liberdade pela ordem;--a autoridade não pode abusar da lei, sem esbofetear-se a si propria;--a vida dos principios é a necessidade moral das nações novas como das nações velhas;--dai-me boas finanças, dar-vos-hei boa politica_ (Barão Louis);--_mergulhemos no Jordão constitucional;--dai passagem aos valentes, homem do poder; elles serão os vossos sustentaculos, etc, etc._
Na provincia natal, essa ordem de ideias teve de ceder a outras; e o mesmo se pode dizer do estylo. Fundou alli um jornal; mas, sendo a politica local menos abstracta, Camacho aparou as azas e desceu dos intermundios de Epicuro ás nomeações de delegados, ás obras provinciaes, ás gratificações, á luta com a folha adversa, e aos nomes proprios e improprios. A adjectivação exigiu grande apuro. Nefasto, esbanjador, vergonhoso, perverso, foram os termos obrigados, emquanto atacou o governo; mas, logo que, por uma mudança de presidente, passou a defendel-o, as qualificações mudaram tambem: energico, illustrado, justiceiro, fiel aos principios, verdadeira gloria da administração, etc., etc. Esse tiroteio durou tres annos. No fim delles, a paixão politica dominava a alma do joven bacharel.
Membro da assemblea provincial, logo depois da camara dos deputados, presidente de uma provincia de segunda ordem, onde, por natural mudança do destino, leu nas folhas da opposição todos os nomes que escrevera outr'ora, nefasto, esbanjador, vergonhoso, perverso, Camacho teve dias grandes e pequenos, andou fóra e dentro da camara, fallou, escreveu, lutou constantemente. Acabou por vir morar na capital do imperio. Deputado da conciliação dos partidos, viu governar o marquez de Paraná, e instou por algumas nomeações, em que foi attendido; mas, se é certo que o marquez lhe pedia conselhos, e usava confiar-lhe os planos que trazia, ninguem podia affirmal-o, porque elle, em se tratando da propria consideração, mentia sem difficuldade.
O que se pode crer é que queria ser ministro, e trabalhou por obtel-o. Aggregou-se a varios grupos, segundo lhe parecia acertado; na camara discorria largamente sobre materias de administração, accumulava algarismos, artigos de legislação, pedaços de relatorio, trechos de autores francezes, embora mal traduzidos. Mas, entre a espiga e a mão, está o muro de que falla o poeta; e por mais que o nosso homem estendesse a mão do seu desejo para colhel-a, a espiga la ficava do lado opposto, d'onde a arrancavam outras mãos, mais ou menos soffregas, ou até descuidadas.
Ha solteirões na politica. Camacho ia entrando nessa categoria melancolica, em que todos os sonhos nupciaes se evaporam com o tempo; mas não tinha a superioridade de abandonal-a. Ninguem que organisasse um gabinete se atrevia, ainda que o desejasse, a dar-lhe uma pasta. Camacho ia-se sentindo cair; para simular influencia, tratava familiarmente os poderosos do dia, contava em voz alta as visitas aos ministros e a outras dignidades do Estado; mas nem por isso dava um passo adeante.
Não lhe faltava que comer. A familia era pequena; mulher, uma filha, que ia nos dezoito annos, um afilhado de nove, e para isso dava a advocacia. Mas trazia a politica no sangue; não lia, quasi não fallava de outra cousa. De litteratura, sciencias naturaes, historia, philosophia, artes, não se preoccupava absolutamente nada. Tambem não conhecia grandes cousas de direito; guardava algum do que lhe dera a academia, e mais a legislação posterior e as praticas forenses. Com isso ia arrazoando e ganhando.
CAPITULO LVIII
Dias antes, indo passar a noite em casa de um conselheiro, viu alli Rubião. Fallava-se da chamada dos conservadores ao poder, e da dissolução da camara. Rubião assistira á sessão em que o ministerio Itaborahy pediu os orçamentos. Tremia ainda ao contar as suas impressões, descrevia a camara, tribunas, galerias cheias que não cabia um alfinete, o discurso de José Bonifacio, a moção, a votação... Toda essa narrativa nascia de uma alma simples; era claro. A desordem dos gestos, o calor da palavra tinham a eloquencia da sinceridade. Camacho escutava-o attento. Teve modo de o levar a um canto da janella, e fazer-lhe considerações graves sobre a situação. Rubião opinava de cabeça, ou por palavras soltas e approbatorias.
--Os conservadores não se demoram no poder, disse-lhe finalmente Camacho.
--Não?
--Não; elles não querem a guerra, e tem de cahir por força. Veja como andei bem no programma da folha.
--Que folha?
--Conversaremos depois.
No dia seguinte, almoçaram no _Hotel de la Bourse_, a convite de Camacho. Este referiu ao outro que fundára, mezes antes, uma folha com o unico programma de continuar a guerra a todo o transe... Andava muito accesa a dissenção entre liberaes; pareceu-lhe que o melhor modo de servir ao proprio partido era dar-lhe um terreno neutro e nacional.
--E isto agora serve-nos, concluiu elle, porque o governo inclina-se á paz. Já amanhã sae um artigo meu, furibundo.
Rubião ouvia tudo, quasi sem tirar os olhos do outro, comendo rapidamente, nos intervallos em que o proprio Camacho inclinava a cabeça ao prato. Folgava de vêr-se confidente politico; e, para dizer tudo, a ideia de entrar em luta para colher alguma cousa depois, um logar na camara, por exemplo, espanejou as azas de ouro no cerebro do nosso amigo. Camacho não lhe fallou em mais nada; procurou-o no dia seguinte, e não o achou. Agora, pouco depois de entrar, vinha o Palha interrompel-os.
CAPITULO LIX
--Sim, mas eu preciso ir a Minas, teimou Rubião.
--Para que? perguntou Camacho.
E o Palha fez-lhe egual pergunta. Para que iria a Minas, salvo se era negocio de pouco tempo. Ou já estava aborrecido da Corte?
--Não, aborrecido não estou; ao contrario...
Ao contrario, gostava muito della; mas a terra natal--por menos bonita que seja,--um logarejo,--dá saudades á gente;--ainda mais quando a pessoa veiu de lá homem. Queria ver Barbacena. E Barbacena era a primeira terra do mundo. Durante alguns minutos, Rubião pode subtrahir-se á acção dos outros. Tinha a terra natal em si mesmo: ambições, vaidades da rua, prazeres ephemeros, tudo cedia ao mineiro saudoso da provincia. Se a alma delle foi alguma vez dissimulada, e escutou a voz do interesse, agora era a simples alma de um homem arrependido do goso, e mal accommodado na propria riqueza.
Palha e Camacho olharam um para o outro... Oh! esse olhar foi como um bilhete de visita trocado entre as duas consciencias. Nenhuma disse o seu segredo, mas viram os nomes no cartão, e comprimentaram-se. Sim, era preciso impedir que o Rubião sahisse; Minas podia retel-o. Concordaram que lá fosse, mas depois,--alguns mezes depois;--e talvez o Palha fosse tambem. Nunca vira Minas; seria excellente occasião.
--O senhor? perguntou Rubião.
--Sim, eu; ha muito que desejo ir a Minas e a S. Paulo. Olhe, ha mais de anno que estivemos vae não vae... Sophia é companheira para estas cousas. Lembra-se quando nos encontrámos no trem da estrada de ferro?... Vinhamos de Vassouras; mas esta ideia de Minas nunca nos deixou. Iremos os tres.
Rubião agarrou-se ás eleições proximas; mas aqui interveiu Camacho, affirmando que não era preciso, que a serpente devia ser esmagada cá mesmo na capital; não faltaria tempo depois para ir matar saudades e receber a recompensa... Rubião agitou-se no canapé. A recompensa era, com certeza, o diploma de deputado. Visão magnifica, ambição que nunca teve, quando era um pobre diabo... Eil-a que o toma, que lhe aguça todos os appetites de grandeza e gloria... Entretanto, ainda insistiu por poucos dias de viagem, e, para ser exacto, devo jurar que o fez sem desejo de que lhe aceitassem a a proposta.
A lua estava então brilhante; a enseada, vista pelas janellas, apresentava aquelle aspecto seductor que nenhum carioca póde crêr que exista em outra parte do mundo. A figura de Sophia passou ao longe, na encosta do morro, e diluiu-se no luar; a ultima sessão da camara, tumultuosa, resoou aos ouvidos do Rubião... Camacho foi até á janella e voltou logo.
--Mas quantos dias? perguntou elle.
--Isso é que não sei, mas poucos.
--Em todo o caso, amanhã fallaremos.
Camacho despediu-se. Palha ficou ainda alguns instantes, para dizer-lhe que seria exquisito voltar a Minas, sem que elles liquidassem as contas... Rubião interrompeu-o. Contas? Quem lhe fallava em contas?
--Bem se vê que o senhor não é homem de comercio, redarguiu Christiano.
Não sou, é verdade; mas as contas pagam-se quando se podem. Entre nós, tem sido isto. Ou, quem sabe? Seja franco; precisa de algum dinheiro?
Não, não preciso. Obrigado. Tenho que propor um negocio, mas hade ser mais demoradamente. Vim vel-o para não botar annuncios nos jornaes: «Desappareceu um amigo, por nome Rubião, que tem um cachorro...»
Rubião gostou da facecia. Palha saiu e elle foi accompanhal-o até a esquina da rua marquez de Abrantes. Ao despedir-se prometteu visital-o em Santa Thereza, antes de ir a Minas.
CAPITULO LX
Pobre Minas! Rubião voltou para casa, sosinho, a passo lento, pensando no modo de lá não ir agora. E as palavras dos dous andavam-lhe no cerebro, como peixinhos de ouro em globo de vidro, abaixo, acima, rutilantes: «_aqui é que se deve esmagar a cabeça da cobra_;»--«_Sophia é companheira para estas cousas._» Pobre Minas!
No dia seguinte recebeu um jornal que nunca vira antes, a _Atalaia._ O artigo editorial desancava o ministerio; a conclusão, porém estendia-se a todos os partidos e á nação inteira:--_Mergulhemos no Jordão constitucional._ Rubião achou-o excellente; tratou de ver onde se imprimia a folha para assignal-a. Era na rua da Ajuda; lá foi, logo que saiu de casa; lá soube que o redactor era o Dr. Camacho. Correu ao escriptorio delle.
Mas, em caminho na mesma rua:
--Deolindo! Deolindo! bradou angustiadamente uma voz de mulher á porta de uma colchoaria.
Rubião ouviu o grito, voltou-se, viu o que era. Era um carro que descia e uma creança de tres ou quatro annos que atravessava a rua. Os cavallos vinham quasi em cima della, por mais que o cocheiro os sofreasse. Rubião atirou-se aos cavallos e arrancou o menino ao perigo. A mãe, quando o recebeu das mãos do Rubião, não podia fallar; estava pallida, tremula, e chorava. Algumas pessoas puzeram-se a altercar com o cocheiro, mas um homem calvo, que vinha dentro, ordenou-lhe que fosse andando. O cocheiro obedeceu. Assim, quando o pai, que estava no interior da colchoaria, veiu fóra, já o carro dobrava a esquina de S. José.
--Ia quasi morrendo, disse a mãe. Se não fosse este senhor, não sei o que seria do meu pobre filho.
Era uma novidade no quarteirão. Visinhos entravam a vêr o que succedêra ao pequeno; na rua, creanças e moleques, espiavam pasmados. A creança tinha apenas um arranhão no hombro esquerdo, produzido pela queda.
--Não foi nada, disse Rubião; em todo caso, não deixem o menino sair á rua; é muito pequenino.
--Obrigado, acudiu o pae; mas onde está o seu chapéo?
Rubião advertiu então que perdêra o chapéo. Um rapazinho esfarrapado, que o apanhára, estava á porta da colchoaria, aguardando a occasião de restituil-o. Rubião deu-lhe uns cobres em recompensa, cousa em que o rapazinho não cuidára, ao ir apanhar o chapéo. Não o apanhou senão para ter uma parte na gloria e nos serviços. Entretanto, aceitou os cobres com prazer; foi talvez a primeira ideia que lhe deram da venalidade das acções.
--Mas, espere, tornou o colchoeiro, o senhor feriu-se?
Com effeito, a mão do nosso amigo tinha sangue; havia um ferimento na palma, cousa pequena, e que elle não podia saber se era obra do dente do cavallo, se de algum ferrão das correias. A verdade é que só agora começou a sentil-o. A mãe do pequeno correu a buscar uma bacia e uma toalha, apezar de dizer o Rubião que não era nada, que não valia a pena. Veiu a agua; emquanto elle lavava a mão, o colchoeiro correu á pharmacia proxima, e trouxe um pouco de arnica. Rubião curou-se, atou o lenço na mão; a mulher do colchoeiro escovou-lhe o chapéo; e, quando elle sahiu, um e outro agradeceram-lhe muito o beneficio da salvação do filho. A outra gente, que estava á porta e na calçada, fez-lhe alas.
CAPITULO LXI
--Que é que tem ahi na mão? inquiriu Camacho, logo que Rubião entrou no escriptorio.
Rubião narrou o incidente da rua da Ajuda. O advogado fez-lhe muitas perguntas sobre a creança, os paes, o numero da casa; mas, o proprio Rubião pôz termo ás respostas.