Quincas Borba

Part 5

Chapter 54,041 wordsPublic domain

--Não posso, não devo, ia dizendo a si mesmo, não é bonito ir adeante. Tambem é verdade que, a rigor, não sou autor de nada; ella é que, desde muito, me anda desafiando. Pois que desafie agora! Sim, é preciso resistir-lhe... Emprestei o dinheiro quasi sem pedido, porque elle precisava muito e eu devia-lhe obsequios; as lettras, sim, as lettras foi elle que me pediu que assignasse, mas não me pediu mais nada. Sei, que é honrado, que trabalha muito; o diabo da mulher é que fez mal em metter-se de permeio, com os lindos olhos e a figura... Que admiravel figura, meu pae do ceu! Hoje então estava divina. Quando o braço della roçava no meu, á meza, apezar da minha manga...

Confuso, incerto, ia a cuidar na lealdade que devia ao amigo, mas a consciencia partia-se em duas, uma increpando a outra, a outra explicando-se, e ambas desorientadas...

Deu por si na praça da Constituição. Viera andando á toa. Teve ideia de ir ao theatro, mas era tarde. Então dirigiu-se ao largo de S. Francisco para metter-se em um tilbury e ir para Botafogo. Achou tres, que vieram logo ao encontro delle, oferecendo os seus serviços e louvando principalmente o cavallo, um bom cavallo,--um animal excellente.

CAPITULO XLVI

O rumor das vozes e dos vehiculos acordou um mendigo que dormia nos degráos da egreja. O pobre diabo sentou-se, viu o que era, depois tomou a deitar-se, mas accordado, de barriga para o ar, com os olhos fitos no ceu. O ceu fitava-o tambem, impassivel como elle, mas sem as rugas do mendigo, nem os sapatos rotos, nem os andrajos, um ceu claro, estrellado, socegado, olympico, tal qual presidiu ás bodas de Jacob e ao suicidio de Lucrecia. Olhavam-se n'uma especie de jogo do sizo, com certo ar de majestades rivaes e tranquillas, sem arrogancia, nem baixeza, como se o mendigo dissesse ao ceu:

--Afinal, não me hasde cair em cima.

E o ceu:

--Nem tu me hasde escalar.

CAPITULO XLVII

Rubião não era philosopho; a comparação que alli fez entre os seus cuidados e os do maltrapilho apenas lhe trouxe á alma uma sombra de inveja. Aquelle malandro não pensa em nada, disse elle comsigo; d'aqui a pouco está dormindo, emquanto eu...

--Meu amo, entre que o animal é bom. Vamos lá em quinze minutos.

Os outros dois cocheiros diziam-lhe a mesma cousa, quasi por eguaes palavras:

--Meu amo, venha aqui e verá...

--Olhe o meu cavallinho...

--Faça favor; são treze minutos de viagem. Em treze minutos está em casa.

Rubião, depois de hesitar ainda, deu consigo dentro do tilbury que lhe ficava á mão, e mandou tocar para Botafogo. Então lembrou-se de um velho episodio esquecido, ou foi o episodio que lhe deu inconscientemente a solução. Uma ou outra cousa, Rubião guiou o pensamento, com o fim de escapar ás sensações daquella noite.

La iam longos annos. Elle era então muito rapaz, e pobre. Um dia, ás oito horas da manhã, sahiu de casa, que era na rua do Cano (Sete do Setembro), entrou no largo do S. Francisco do Paula; d'alli desceu pela rua do Ouvidor. Ia com alguns cuidados; morava em casa de um amigo, que começava a tratal-o como hospede de tres dias, e elle ja o era de quatro semanas. Dizem que os de trez dias cheiram mal; muito antes d'isso cheiram mal os defuntos, ao menos nestes climas quentes... Certo é que o nosso Rubião, singelo como um bom mineiro, mas desconfiado como um paulista, ia cheio de cuidados, pensando em retirar-se quanto antes. Póde crer-se que desde que sahiu de casa, entrou no largo de S. Francisco, e desceu a rua do Ouvidor até a dos Ourives, não viu nem ouviu cousa nenhuma.

Na esquina da rua dos Ourives deteve-o um ajuntamento de pessoas, e um prestito singular. Um homem, judicialmente trajado, lia em voz alta um papel, a sentença. Havia mais o juiz, um padre, soldados, curiosos. Mas, as principaes figuras eram dous pretos. Um delles, mediano, magro, tinha as mãos atadas, os olhos baixos, a côr fula, e levava uma corda enlaçada no pescoço; as pontas do baraço iam nas mãos de outro preto. Este outro olhava para a frente e tinha a cor fixa e retinta. Sustentava com galhardia a curiosidade publica. Lido o papel, o prestito seguiu pela rua dos Ourives adeante; vinha do aljube e ia para o largo do Moura.

Rubião naturalmente ficou impressionado. Durante alguns segundos esteve como agora á escolha de um tilbury. Forças intimas offereciam-lhe o seu cavallo, umas que voltasse para traz ou descesse para ir aos seus negocios,--outras que fosse ver enforcar o preto. Era tão raro ver um enforcado! Senhor, em vinte minutos está tudo findo!--Senhor, vamos tratar de outras cousas! E o nosso homem fechou os olhos, e deixou-se ir ao acaso. O acaso, em vez de leval-o pela rua do Ouvidor abaixo até á da Quitanda, torceu-lhe o caminho pela dos Ourives, atraz do prestito. Não iria ver a execução, pensou elle; era só ver a marcha do réo, a cara do carrasco, as cerimonias... Não queria ver a execução. De quando em quando, parava tudo, chegava gente ás portas e janellas, e o porteiro dos auditorios relia a sentença. Depois, o prestito continuava a andar com a mesma solemnidade. Os curiosos iam narrando o crime,--um assassinato em Mata-porcos. O assassino era dado como homem frio e feroz. A noticia dessas qualidades fez bem a Rubião; deu-lhe força para encarar o réo, sem deliquios de piedade. Não era já a cara do crime; o terror dissimulava a perversidade. Sem reparar, deu consigo no largo da execução. Já alli havia bastante gente. Com a que vinha formou-se multidão compacta.

--Voltemos, disse elle consigo.

Verdade é que o réo ainda não subira a forca; não o matariam de relance; sempre era tempo de fugir. E, dado que ficasse, porque não fecharia os olhos, como fez certo Alypio deante do expectaculo das feras? Note-se bem que Rubião nada sabia desse tal rapaz antigo; ignorava, não só que fechára os olhos, mas tambem que os abrira logo depois, devagarinho e curioso...

Eis o réo que sobe a forca. Passou pela turba um fremito. O carrasco pôz mãos á obra. Foi aqui que o pé direito de Rubião descreveu uma curva na direcção exterior, obedecendo a um sentimento de regresso; mas o esquerdo, tomado de sentimento contrario, deixou-se estar; lutaram alguns instantes... Olhe o meu cavallo!--Veja, é um rico animal!--Não seja máo!--Não seja medroso! Rubião esteve assim alguns segundos, os que bastaram para que chegasse o momento fatal. Todos os olhos fixaram-se no mesmo ponto, como os delle. Rubião não podia entender que bicho era que lhe mordia as entranhas, nem que mãos de ferro lhe pegavam da alma e a retinham alli. O instante fatal foi realmente um instante; o réo esperneou, contrahiu-se, o algoz cavalgou-o de um modo airoso e destro; passou pela multidão um rumor grande, Rubião deu um grito, e não viu mais nada.

CAPITULO XLVIII

Vossa Senhoria hade ter visto que o cavallinho é bom...

Rubião abriu os olhos, meio fechados, e deu com o cocheiro que sacudia ao de leve a pontinha do chicote para espertar o animal. Interiormente zangou-se com o homem, que o veiu tirar de recordações antigas. Não eram bellas, mas eram antigas,--antigas e enfermeiras, porque lhe davam a beber um elixir que de todo parecia cural-o do presente. E vae o cocheiro empurra-o e accorda-o. Iam subindo a rua da Lapa; o cavallo, em verdade, comia o espaço como se fosse a descer.

--Este cavallo tem-me uma amizade, continuou o cocheiro, que se não acredita. Podia contar cousas extraordinarias. Ha pessoas que até dizem que é mentira minha; mas, não, senhor, não é. Quem não sabe que cavallo e cachorro são os animaes que mais gostam da gente? Cachorro parece que inda gosta mais...

Cachorro trouxe á memoria de Rubião o Quincas Borba, que lá devia estar em casa, á espera delle, ancioso. Rubião não esquecia a condição do testamento; jurava cumpril-a á risca. Convem dizer que, de envolta com o receio de vel-o fugir, entrava o de vir a perder os bens. Não valiam affirmações do advogado; não ha, dizia-lhe este, não ha no testamento clausula reversivel para outrem, no caso de fuga do cachorro; os bens não podiam sair-lhe das mãos. Que lhe importava a fuga, se era até melhor, um cuidado menos? Rubião aceitava apparentemente a explicação, mas lá ficava a duvida, o exemplo de longas demandas, a variedade das opiniões juridicas sobre uma só materia, a acção de algum invejoso ou inimigo, e, o que resumia tudo, o terror de ficar sem nada. Dahi os rigores da reclusão; dahi tambem o remorso de ter passado a tarde e a noute sem pensar uma só vez no Quincas Borba.

--Sou um ingrato! disse comsigo.

Emendou-se logo; mais ingrato era não ter pensado no outro Quincas Borba, que lhe deixou tudo. Vae se não quando, teve uma ideia extraordinaria, a de serem os dous Quincas Borbas a mesma creatura, por effeito da entrada da alma do defunto no corpo do cachorro, menos a purgar os seus peccados que a vigiar o dono. Foi uma preta de S. João d'El-rei que lhe metteu, em creança, essa ideia de transmigração. Dizia ella que a alma cheia de peccados ia para o corpo de um bruto; chegou a jurar que conhecera um escrivão que acabou feito gambá...

--Vossa Senhoria, não se esqueça de dizer onde é a casa, disse-lhe repentinamente o cocheiro.

--Pare. Já passámos, é aquella.

O tilbury deu volta e foi parar á porta; Rubião pagou e desceu.

CAPITULO XLIX

O cão ladrou de dentro; mas, logo que Rubião entrou, recebeu-o com grande alegria; e por mais importuno que fosse, Rubião desfez-se em caricias. A idéa de poder estar alli o testador dava-lhe arrepios. Subiram juntos a escada de pedra; alli ficaram por alguns instantes, á luz do lampeão que Rubião mandára deixar acceso. Rubião era mais credulo que crente; não tinha razões para atacar nem para defender nada:--terra eternamente virgem para se lhe plantar qualquer cousa. A vida da côrte deu-lhe até uma particularidade; entre incredulos, chegava a ser incredulo...

Olhou para o cão, emquanto esperava que lhe abrissem a porta. O cão olhava para elle, de tal geito que parecia estar alli dentro o proprio e defuncto Quincas Borba; era o mesmo olhar meditativo do philosopho, quando examinava as cousas humanas... Novo arrepio; mas o medo, que era grande, não era tão grande que lhe atasse as mãos. Rubião estendeu-as sobre a cabeça do animal, coçando-lhe as orelhas e a nuca.

--Pobre Quincas Borba! Gosta de seu senhor, não gosta? Rubião é muito amigo de Quincas Borba...

E o cão movia devagar a cabeça, para a esquerda e para a direita, ajudando a distribuição das caricias ás duas orelhas pendentes; depois levantava o queixo, para que lhe coçasse em baixo, e o dono obedecia; mas então os olhos do cão, meio fechados de gosto, tinham um ar dos olhos do philosopho, na cama, contando-lhe cousas de que elle entendia pouco ou nada... Rubião fechava os seus. Abriram-lhe a porta; despediu-se do cão, mas com taes carinhos, que era o mesmo que pedir-lhe que entrasse. O creado hespanhol incumbiu-se de o levar para baixo.

--Não lhe dê pancadas, recommendou Rubião.

Não lhe deu pancadas; mas só a descida era dolorosa, e o cão amigo gemeu por muito tempo no jardim. Rubião entrou, despiu-se e deitou-se. Ah! tinha vivido um dia cheio de sensações diversas e contrarias, desde as recordações da manhã, e o almoço aos dous amigos, até aquella ultima ideia de metempsycose, passando pela lembrança do enforcado, e por uma declaração de amor não aceita, mal repellida, parece que adivinhada por outros... Misturava tudo; o espirito ia de um para outro lado como bola de borracha entre mãos de creanças. Comtudo, a sensação maior era a do amor. Rubião estava admirado de si mesmo, e arrependia-se; mas o arrependimento era obra da consciencia, ao passo que a imaginação não soltava por nenhum preço a figura da bella Sophia... Uma, duas, tres horas... Sophia ao longe, os latidos do cão embaixo... O somno esquivo... Onde iam já as tres horas? Tres e meia... Emfim, depois de muito cuidar, appareceu-lhe o somno, espremeu os classicas papoulas, o foi um instante; Rubião dormiu antes das quatro.

CAPITULO L

Não, senhora minha, ainda não acabou este dia tão comprido; não sabemos o que se passou entre Sophia e o Palha, depois que todos se foram embora. Póde ser até que acheis aqui melhor sabor que no caso do enforcado.

Tende paciencia; é vir agora outra vez a Santa Thereza. A sala está ainda alumiada, mas por um bico de gaz; apagaram-se os outros, e ia apagar-se o ultimo, quando o Palha mandou que o creado esperasse um pouco la dentro. A mulher ia a sair, o marido deteve-a, ella estremeceu.

--A nossa festa esteve bem bonita, disse elle.

--Esteve.

--O Siqueira é um cacete, mas paciencia; é alegre. A filha não estava mal arranjada. Viste o Ramos como devorava tudo o que se lhe poz no prato? Tu verás que elle um dia engole a mulher.

--A mulher? disse Sophia, sorrindo.

--É gorda, concordo; mas a primeira era muito mais gorda, e creio que não morreu, elle enguliu-a, com certeza.

Sophia reclinada no canapé, ria das graças do marido. Criticaram ainda alguns episodios da tarde e da noite; depois, Sophia, acariciando os cabellos do marido, disse-lhe de repente:

--E você ainda não sabe do melhor episodio da noite.

--Que foi?

--Adivinhe.

Palha ficou algum tempo calado, olhando para a mulher, a ver se adivinhava qual tinha sido o melhor episodio da noite. Não podia acertar; acudia-lhe isto ou aquillo, nada; Sophia abanava a cabeça.

--Mas então que foi?

--Não sei; adivinha.

--Não posso. Dize logo.

--Com uma condição, accudiu ella; não quero zangas nem barulhos.

Palha foi ficando mais serio. Zangas? barulhos? Que diabo podia ser? pensava elle. Já se não ria; tinha só um resto de sorriso forçado e resignado. Olhou bem para ella, e perguntou-lhe o que era.

--Você promette o que lhe disse?

--Vá lá. Que foi?

--Pois saiba que ouvi nada menos que uma declaração de amor.

Palha empallideceu. Não promettera deixar de empallidecer. Gostava da mulher, como sabemos, até o ponto singular de publical-a; não podia ouvir a frio a noticia. Sophia viu a pallidez, e gostou da má impressão causada; para saboreal-a mais, inclinou o busto, soltou o cabello atraz, que a incommodava um pouco, recolheu os grampos em um lenço, depois sacudiu a cabeça, respirou largo, e pegou nas mãos do marido, que ficara de pé.

--É verdade, meu velho, namoraram-te a mulher.

--Mas quem foi o patife? disse elle impaciente.

--Mau, se vamos assim, não digo nada. Quem foi? Quer saber quem foi? Hade ouvir quietinho. Foi o Rubião.

--O Rubião?

--Nunca imaginei tanto. Parecia-me acanhado e respeitoso; fica sabendo que não é o habito que faz o monge. De tantos homens que aqui vêm, e até rapazes solteiros, não ouvi nunca a menor cousa. Olhava para mim; naturalmente, porque não sou feia... Para que estás andando assim de um lado para outro? Pára, que não quero levantar a voz... Bem, assim... Vamos ao caso. Não me fez declaração positiva...

--Ah! não? accudiu vivamente o marido.

--Não, mas vem a dar na mesma.

E depois de contar o que se passara no jardim, desde que alli chegaram os dous, até que o major appareceu:

--Foi só isso, concluiu; mas é bastante para ver que se elle não disse amor é porque não lhe chegou a lingua, mas chegou-lhe a mão, que me apertou os dedos... Só isso, e é demais. Ainda bem que te não zangas; mas é preciso trancar-lhe a porta,--ou de uma vez ou aos poucos; eu preferia logo, mas estou por tudo. Como achas melhor?

Mordendo o beiço inferior, Palha ficou a olhar para ella a modo de estupido. Sentou-se no canapé, mas não fallou logo. Considerava o negocio. Achava natural que as gentilezas da esposa chegassem a captivar um homem,--e Rubião podia ser esse homem; mas confiava tanto no Rubião, que o bilhete que Sophia mandara a este, acompanhando os morangos, foi redigido por elle mesmo; a mulher limitou-se a copial-o, assignal-o e mandal-o. Nunca, entretanto, lhe passou pela cabeça que o amigo chegasse a declarar amor a alguem, menos ainda a Sophia, se é que era amor deveras; podia ser gracejo de intimidade. Rubião olhava para ella muita vez, é certo; parece tambem que Sophia, em algumas occasiões, pagava os olhares com outros... Concessões de moça bonita! Mas, emfim, contanto que lhe ficassem os olhos, podiam ir alguns raios delles. Não havia de ter ciumes do nervo optico, ia pensando o marido. Sophia levantou-se, foi pôr o lenço com os grampos em cima do piano, e deu uma olhada ao espelho para ver-se com a tranca cahida. Quando voltou ao canapé, o marido pegou-lhe na mão, rindo:

--Parece-me que te amofinaste mais do que o caso merecia. Comparar os olhos de uma moça ás estrellas, e as estrellas aos olhos, afinal de contas é cousa que até se póde fazer á vista de todos, em familia, e em prosa ou verso para o publico. A culpa é de quem tem olhos bonitos. Demais, apesar do que me contas, sabes que elle é ainda matuto...

--Então o diabo tambem é matuto, porque elle pareceu-me nada menos que o diabo. E pedir-me que a certa hora olhasse para o Cruzeiro, afim de que as nossas almas se encontrassem?

--Isso, sim, isso já cheira a namoro, concordou Palha; mas bem vês que é um pedido de alma candida. É assim que as moças fallam aos quinze annos; é assim que fallam os tolos em todos os tempos, e os poetas tambem; mas elle nem é moça nem poeta.

--Creio que não; mas segurar-me nas mãos para reter-me no jardim?

Palha teve um calefrio; a ideia do contacto das mãos e da força empregada para reter a mulher é que o mortificava mais. Francamente, se pudesse, era capaz de ir ter com elle, e deitar-lhe as mãos ao gasnate. Outras ideias, porém, acudiram e dissiparam o effeito da primeira; de modo que, cuidando Sophia havel-o irritado, viu-o dar de hombros com desprezo, e responder-lhe que effectivamente era um acto de grosseria.

--E depois, Sophia, que ideia foi essa de convidal-o a ir ver a lua, não me dirás?

--Chamei D. Tonica para ir comnosco.

--Mas uma vez que D. Tonica recusou, devias ter achado meios e modos de não ir ao jardim. São cousas que acodem logo. Tu é que déste occasião...

Sophia olhou para elle, contrahindo as grossas sobrancelhas; ia responder, mas calou-se. Palha continuou a desenvolver a mesma ordem de ideias; a culpa era della, não devia ter dado occasião...

--Mas você mesmo não me tem dito que devemos tratal-o com attenções particulares? Seguramente, que eu não iria ao jardim, se pudesse imaginar o que se passou. Mas nunca esperei que um homem tão pacato, tão não sei como, se tirasse dos seus cuidados para rir dizer-me cousas esquisitas...

--Pois daqui em diante evita a lua e o jardim, disse o marido, procurando sorrir.

--Mas, Christiano, como queres tu que lhe falle a primeira vez que elle cá vier? Não tenho cara para tanto; olha, o melhor de tudo é acabar com as relações.

Palha atravessou uma perna sobre a outra e começou a rufar no sapato. Durante alguns segundos ficaram calados; cada um delles pensava em alguma cousa. Palha cuidava na proposta de acabar com as relações, não que quizesse acceital-a, mas não sabia como responder á mulher, que mostrava tanto resentimento, e se portava com tal dignidade. Era preciso nem desapproval-a, nem aceitar a proposta, e não lhe acendia nada. Levantou-se, metteu as mãos nas algibeiras das calças, e depois de alguns passos, parou defronte de Sophia.

--Talvez nos estejamos a incommodar com um simples effeito de vinhos. Olha que elle não mandou o seu quinhão ao vigario; cabeça fraca, um pouco de abalo, e entornou o que tinha dentro... Sim, eu não nego que lhe possas ter causado certa impressão, como tantas outras senhoras. Ha dias foi a um baile no Cattete, e fallou-me depois encantado das senhoras que lá vira, de uma principalmente, a viuva Mendes...

Sophia interrompeu-o:

--Porque é que não convidou essa belleza a ver o Cruzeiro?

--Não jantou lá, naturalmente, e não havia jardim nem lua. O que eu quero dizer é que o _nosso amigo_ não estaria em si. Talvez se ache a agora arrependido do que fez, envergonhado, sem saber como se hade explicar, ou se não explicará nada... É muito possível até que se ausente...

--Era melhor.

--...Se o não chamarmos, concluiu Palha.

--Mas para que chamal-o?

--Sophia, disse-lhe o marido, sentando-se ao pé della. Não quero entrar em minudencias; digo só que não permitto que alguem te falte ao respeito...

Houve uma pequena pausa; Sophia olhava para elle, esperando.

--Não permitto, e ai d'aquelle que o fizesse, assim como ai de ti se o consentires; sabes que sou de ferro, a este respeito, e que a certeza da tua amizade,--ou, vá logo tudo,--do amor que me tens é que me tranquillisa. Pois bem, nada me abala relativamente ao Rubião. Crê que o Rubião é nosso amigo, devo-lhe obrigações...

--Alguns presentes, algumas joias, camarotes no theatro, não são motivos para que eu fite o Cruzeiro com elle.

--Prouvera a Deus que fosse só isso! suspirou o zangão.

--Que ha mais?

--Não entremos em minudencias... Ha outras cousas... Fallaremos depois... Mas fica certa que nada me faria recuar, se visse no que contaste alguma gravidade. Não ha nenhuma. O homem é um simplorio.

--Não.

--Não?

Sophia levantou-se; tambem não queria entrar em minudencias. O marido pegou-lhe na mão, ella ficou de pé e calada. Palha, com a cabeça reclinada nas costas do sophá, olhava sorrindo, sem achar que dizer. Ao cabo de alguns minutos, ponderou a mulher que era tarde, que ia mandar apagar tudo.

--Bem, tornou o Palha depois de breve silencio; escrevo-lhe amanhã que não ponha aqui os pés.

Olhou para a mulher esperando alguma recusa. Sophia coçava as sobrancelhas, e não respondeu nada. Palha repetiu a solução; e póde ser que desta vez com sinceridade. A mulher então com ar de tedio:

--Ora, Christiano... Quem é que te pede cartas? Já estou arrependida de haver fallado nisto. Contei-te um acto de desrespeito, e disse que era melhor cortar as relações,--aos poucos ou de uma vez.

--Mas como se hão de cortar as relações de uma vez?

--Fechar-lhe a porta, mas não digo tanto; basta, se queres, aos poucos...

Era uma concessão; Palha aceitou-a; mas immediatamente ficou sombrio, soltou a mão da mulher, com um gesto de desespero. Depois, agarrando-a pela cintura, disse em voz mais alta do que até então:

--Mas, meu amor, eu devo-lhe muito dinheiro.

Sophia tapou-lhe a boca e olhou assustada para o corredor.

--Está bom, disse, não fallemos mais nisto. Verei como elle se comporta, e tratarei de ser mais fria... Nesse caso, tu é que não deves mudar, para que não pareça que sabes alguma cousa. Verei o que posso fazer.

--Você sabe, cousas do negocio, algumas perdas... é preciso tapar um buraco daqui, outro dalli... o diabo! É por isso que... Mas riamos, meu bem; não vale nada. Sabes que confio em ti...

--Vamos, que é tarde.

--Vamos, repetiu o Palha dando-lhe um beijo na face.

--Estou com muita dor de cabeça, murmurou ella. Creio que foi do sereno, ou desta historia... Estou com muita dor de cabeça...

CAPITULO LI

Banhado, barbeado, meio vestido, Palha lia os jornaes, á espera do almoço, quando viu entrar a mulher no gabinete, um tanto pallida.

--Estás peior?

Sophia respondeu com um gesto dos labios, que tanto negava como affirmava. Palha acreditou que, pelo dia adeante, passaria o incommodo; a agitação da vespera, o jantar tarde... Depois, pediu que lhe deixasse acabar de ler um artigo relativo a certo negocio da praça. Era uma briga entre dous commerciantes, a proposito de uns saques; na vespera escrevêra um delles, hoje vinha a resposta do outro. Resposta completa, disse elle acabando a leitura; e explicou longamente á mulher a questão dos saques, o mecanismo da cousa, a situação dos dous adversarios, os boatos da praça, tudo com o vocabulario technico. Sophia ouvia e suspirava; mas para o despotismo da profissão não ha suspiros de mulher, nem cortezia de homem. Felizmente, o almoço estava na mesa.