Part 4
E aqui façamos justiça á nossa dama. A principio, cedeu sem vontade aos desejos do marido; mas taes foram as admirações colhidas, e a tal ponto o uso accommoda a gente ás circumstancias, que ella acabou gostando de ser vista, muito vista, para recreio e estimulo dos outros. Não a façamos mais santa do que é, nem menos. Para as despezas da vaidade, bastavam-lhe os olhos, que eram ridentes, inquietos, convidativos, e só convidativos: podemos comparal-os á lanterna de uma hospedaria em que não houvesse commodos para hospedes. A lanterna fazia parar toda a gente, tal era a lindeza da côr, e a originalidade dos emblemas; parava, olhava e andava. Para que escancarar as janellas? Escancarou-as, finalmente; mas a porta, se assim podemos chamar ao coração, essa estava trancada e retrancada.
CAPITULO XXXVI
--Meu Deus! como é bonita! Sinto-me capaz de fazer um escandalo! pensava Rubião, á noite, ao canto de uma janella, de costas para fóra, olhando para Sophia, que olhava para elle.
Cantava uma senhora. Os tres maridos de fóra, que alli estavam de visita, interromperam o voltarete, em attenção á cantora, e vieram á sala, por alguns instantes; a cantora era mulher de um d'elles. O Palha, que a acompanhava ao piano, não via o contemplação mutua da esposa e do capitalista. Não sei se todas as outras pessoas estavam no mesmo caso. Uma dellas, sim, essa sei que os via: D. Tonica, a filha do major.
--Meu Deus! como é bonita! Sinto-me capaz de fazer um escandalo! continuava a pensar o Rubião, encostado á janella, de costas para fóra, com os olhos esquecidos na bella dama, que olhava para elle.
CAPITULO XXXVII
Entende-se bem que D. Tonica observasse a contemplação dos dous. Desde que Rubião alli chegou, não cuidou ella mais que de attrahil-o. Os seus pobres olhos de trinta e nove annos, olhos sem parceiros na terra, indo já a resvalar do cançaço na desesperança, acharam em si algumas fagulhas. Volvel-os uma e muitas vezes, requebrando-os, era o longo officio d'elles: Não lhe custou nada armal-os contra o capitalista.
O coração, meio desenganado, agitou-se outra vez. Alguma cousa lhe dizia que esse mineiro rico era destinado pelo ceu a resolver o problema do matrimonio. Rico era ainda mais do que ella pedia; não pedia riquezas, pedia um esposo. Todas as suas campanhas fizeram-se sem a consideração pecuniaria; nos ultimos tempos ia baixando, baixando, baixando; a ultima foi contra um estudantinho pobre... Mas quem sabe se o ceu não lhe destinava justamente um homem rico? D. Tonica tinha fé em sua madrinha, Nossa Senhora da Conceição, e investiu a fortaleza com muita arte e valor.
--Todas as outras são casadas, pensou ella.
Não tardou em perceber que os olhos de Rubião e os de Sophia caminhavam uns para os outros; notou, porém, que os de Sophia eram menos frequentes e menos demorados, phenomeno que lhe pareceu explicavel, pelas cautellas naturaes da situação. Podia ser que se amassem... Esta ideia affligiu-a; mas o desejo e a esperança mostraram-lhe que um homem, depois de um ou mais amores, podia muito bem vir a casar. A questão era captal-o; a idéa de casar e ter familia podia ser que acabasse de matar qualquer outra inclinação da parte delle, se alguma houvesse.
Eil-a que redobra esforços. Todas as suas graças foram chamadas a postos, e obedeceram, ainda que murchas. Gestos de ventarola, apertos de labios, olhos obliquos, marchas, contra-marchas para mostrar bem a elegancia do corpo e a cintura fina que tinha, tudo foi empregado. Era o velho formulario em acção; nada lhe rendera até alli, mas a loteria é assim mesmo: lá vem um bilhete que resgata os perdidos.
Agora, porém, á noite, por occasião do canto ao piano, é que D. Tonica deu com elles embebidos um no outro. Não teve mais duvida; não eram olhares apparentemente fortuitos, breves, como até alli, era uma contemplação que eliminava o resto da sala. D. Tonica sentiu o grasnar do velho corvo da desesperança. _Quoth the Raven_: NEVERMORE.
Ainda assim continuou a luta; chegou a conseguir que Rubião viesse sentar-se ao pé della, por alguns minutos, e tratou de dizer cousas bonitas, phrases que lhe ficaram de romances, outras que a propria melancholia da situação lhe ia inspirando. Rubião ouvia e respondia, mas inquieto, quando Sophia deixava a sala, e não menos quando tornava a ella. Uma das vezes a distracção foi excessiva. D. Tonica confessava-lhe que tinha muita vontade de ver Minas, principalmente Barbacena. Que taes eram os ares?
--Os ares, repetiu machinalmente o outro.
Olhava para Sophia, que estava então em pé, de costas para elle, fallando a duas senhoras sentadas. Rubião admirou-lhe ainda uma vez a figura, o busto bem talhado, estreito em baixo, largo em cima, emergindo das cadeiras amplas, como uma grande braçada de folhas sae de dentro de um vaso. A cabeça podia então dizer-se que era como uma magnolia unica, direita, espetada no centro do ramo. Era isto que Rubião mirava, quando D. Tonica lhe perguntou pelos ares de Barbacena, e elle repetiu a palavra della, sem lhe dar sequer a mesma fórma interrogativa.
CAPITULO XXXVIII
Rubião estava resoluto. Nunca a alma de Sophia pareceu convidar a delle, com tamanha instancia, a voarem juntas até ás terras clandestinas, donde ellas tornam, em geral, velhas e cançadas. Algumas não tornam. Outras param a meio caminho. Grande numero não passa da beira dos telhados...
CAPITULO XXXIX
A lua era magnifica. No morro, entre o céo e a planicie, a alma menos audaciosa era capaz de ir contra um exercito inimigo, e destroçal-o. Vede o que não seria com este exercito amigo. Estavam no jardim. Sophia enfiara o braço no delle, para irem ver a lua. Convidára D. Tonica, mas a pobre dama respondeu que tinha um pé dormente, que já ia, e não foi.
Os dous ficaram calados algum tempo. Pelas janellas abertas viam-se as outras pessoas conversando, e até os homens, que tinham acabado o voltarete. O jardim era pequeno; mas a voz humana tem todas as notas, e os dous podiam dizer poemas sem ser ouvidos.
Rubião lembrou-se de uma comparação velha, mui velha, apanhada em não sei que decima de 1850, ou qualquer outra pagina em prosa de todos os tempos. Essa ideia foi chamar aos olhos de Sophia as estrellas da terra, e ás estrellas os olhos do céu. Tudo isso baixinho e tremulo.
Sophia ficou pasmada. De subito endireitou o corpo, que até alli viera pesando no braço do Rubião. Estava tão acostumada á timidez do homem... Estrellas? olhos? Quiz dizer que não caçoasse com ella, mas não achou como dar fórma á resposta, sem rejeitar uma ideia que tambem era sua, ou então sem animal-o a ir adeante. Dahi um longo silencio.
--Com uma differença, continuou Rubião. As estrellas são ainda menos lindas que os seus olhos, e afinal nem sei mesmo o que ellas sejam; Deus, que as poz tão alto, é porque não poderão ser vistas de perto, sem perder muito da formosura... Mas os seus olhos, não; estão aqui, ao pé de mim, grandes, luminosos, mais luminosos que o céu...
Loquaz, destemido, Rubião parecia totalmente outro. Não parou alli; fallou ainda muito, mas não deixou o mesmo circulo de ideias. Tinha poucas; e a situação, apezar da repentina mudança do homem, tendia antes a cerceal-as, que a inspirar-lhe novas. Sophia é que não sabia que fizesse. Trouxera ao collo um pombinho, manso e quieto, e sae-lhe um gavião,--um gavião adunco e faminto.
Era preciso responder, fazel-o parar, dizer que ia por onde ella não queria ir, e tudo isso, sem que elle se zangasse, sem que se fosse embora... Sophia procurava alguma cousa; não achava, porque esbarrava na questão, para ella insoluvel, se era melhor mostrar que entendia, ou que não entendia. Aqui lembraram-lhe os proprios gestos della, as palavrinhas doces, as attenções particulares; concluia que, em tal situação, não podia ignorar o sentido das finezas do homem. Mas confessar que entendia, e não despedil-o de casa, eis ahi o ponto melindroso.
CAPITULO XL
Em cima, as estrellas pareciam rir daquella situação inextricavel.
Vá que a lua os visse! A lua não sabe escarnecer; e os poetas, que a acham saudosa, terão percebido que ella amou outr'ora algum astro vagabundo, que a deixou ao cabo de muitos seculos. Pode ser até que ainda se amem. Os seus eclypses (perdôe-me a astronomia) talvez não sejam mais que entrevistas amorosas. O mytho de Diana descendo a encontrar-se com Endymião bem pode ser verdadeiro. Descer é que é de mais. Que mal ha em que os dous se encontrem alli mesmo no céo, como os grilos entre as folhagens cá de baixo? A noite, mãe caritativa, encarrega-se de velar a todos.
Depois, a lua é solitaria. A solidão faz a pessoa seria. As estrellas, em chusma, são como as moças entre quinze e vinte annos, alegres, palreiras, rindo e fallando a um tempo de tudo e de todos.
Não nego que são castas; mas tanto peor,--terão rido do que não entendem... Castas estrellas! é assim que lhes chama Othello, o terrível, e Tristram Shandy, o jovial. Esses extremos do coração e do espirito estão de accordo n'um ponto: as estrellas são castas. E ellas ouviam tudo (castas estrellas!) tudo o que a boca temeraria de Rubião ia entornando na alma pasmada de Sophia.O recatado de longos mezes era agora (castas estrellas!) nada menos que um libertino. Dissereis que o Diabo andára a enganar a moça com as duas grandes azas de archanjo que Deus lhe poz; de repente, metteu-as na algibeira, e desbarretou-se para mostrar as duas pontas malignas, fincadas na testa. E rindo, daquelle riso obliquo das mãos, propunha comprar-lhe não só a alma, mas a alma e o corpo... Castas estrellas!
CAPITULO XLI
--Vamos para dentro, murmurou Sophia.
Quiz tirar o braço; mas o delle reteve-lh'o com força. Não; ir para que? Estavam alli bem, muito bem... Que melhor? Ou seria que elle a estivesse aborrecendo? Sophia acudiu que não, ao contrario, mas precisava ir fazer sala ás visitas... Ha quanto tempo estavam alli!
--Não ha dez minutos, disse o Rubião. Que são dez minutos?
--Mas podem ter dado pela nossa ausencia...
Rubião estremeceu diante deste possessivo: _nossa_ ausencia. Achou-lhe um principio de complicidade. Concordou que podiam dar pela _nossa_ ausencia. Tinha razão, deviam separar-se; só lhe pedia uma cousa, duas cousas; a primeira é que não esquecesse aquelles dez minutos sublimes; a segunda é que, todas as noites, ás dez horas, fitasse o Cruzeiro, elle o fitaria tambem, e os pensamentos de ambos iriam achar-se alli juntos, intimos, entre Deus e os homens.
O convite era poetico, mas só o convite. Rubião, em quanto fallava, ia devorando a moça com olhos de fogo, e segurava-lhe uma das mãos para que ella não fugisse. Nem os olhos nem o gesto tinham poesia nenhuma. Sophia esteve a ponto de dizer alguma palavra aspera, mas engoliu-a logo, ao advertir que Rubião era um bom amigo da casa. Quiz rir, mas não pôde; mostrou se então arrufada, logo depois resignada, afinal supplicante; pediu-lhe pela alma da mãe delle, que devia estar no ceu... Rubião não sabia do ceu nem da mãe, nem de nada. Que era mãe? que era ceu? parecia dizer a cara delle.
--Ai, não me quebre os dedos! suspirou baixinho a moça.
Aqui é que elle começou a voltar a si; afrouxou a pressão, sem soltar-lhe os dedos.
--Vá, disse elle, mas primeiro...
Inclinava-se para beijar a mão, quando uma voz, a alguns passos, veiu accordal-o inteiramente.
CAPITULO XLII
--Olá! estão apreciando a lua? Realmente, está deliciosa; está uma noite para namorados... Sim, deliciosa... Ha muito que não vejo uma noite assim... Olhem só para baixo, os bicos de gaz... Deliciosa! para namorados... Os namorados gostam sempre da lua. No meu tempo, em Icarahy...
Era Siqueira, o terrivel major. Rubião não sabia que dissesse; Sophia, passados os primeiros instantes readquiriu a posse de si mesma; respondeu que, em verdade, a noite era linda; depois contou que Rubião teimava em dizer que as noites do Rio não podiam comparar-se ás de Barbacena, e, a proposito disso, referira uma anecdota de um padre Mendes... Não era Mendes?
--Mendes, sim, o padre Mendes, murmurou o Rubião.
O major mal podia conter o assombro. Tinha visto as duas mãos presas, a cabeça do Rubião meia inclinada, o movimento rapido de ambos, quando elle entrou no jardim; e sae-lhe de tudo isto um padre Mendes... Olhou para Sophia; viu-a risonha, tranquilla, impenetravel. Nenhum medo, nenhum acanhamento; fallava com tal simplicidade, que o major pensou ter visto mal. Mas o Rubião estragou tudo. Vexado, calado, não fez mais que tirar o relogio para ver as horas, leval-o ao ouvido, como se lhe parecesse que não andava, depois limpal-o com o lenço, devagar, devagar, sem olhar para um nem para outro...
--Bem, conversem, vou vêr as amigas, que não podem estar sós. Os homens já acabaram o maldito voltarete?
--Já, respondeu o major olhando curiosamente para Sophia. Já, e até perguntaram por este senhor; por isso é que eu vim ver se o achava no jardim. Mas estavam aqui ha muito tempo?
--Agora mesmo, disse Sophia.
Depois, batendo carinhosamente no hombro do major,passou do jardim á casa; não entrou pela porta da sala de visitas, mas por outra que dava para a de jantar; de maneira que, quando chegou áquella pelo interior, era como se acabasse de dar ordens para o chá.
Rubião, voltando a si, ainda não achou que dizer, e comtudo urgia dizer alguma cousa. Boa ideia era a anecdota do padre Mendes; o peior é que não havia padre nem anecdota, e elle era incapaz de inventar nada. Pareceu-lhe bastante isto:
--O padre! o Mendes! Muito engraçado o padre Mendes!
--Conheci-o, disse o major sorrindo. O padre Mendes? Conheci-o; morreu conego. Esteve algum tempo em Minas?
--Creio que esteve, murmurou o outro, espantado.
--Era filho aqui de Saquarema; era um que não tinha este olho, continuou o major levando o dedo ao olho esquerdo. Conheci-o muito, se é que é o mesmo; póde ser que seja outro.
--Póde ser.
--Morreu conego. Era homem de bons costumes, mas amigo de ver moças bonitas, como se mira um painel de mestre; e que maior mestre que Deus? dizia elle. Esta D. Sophia, por exemplo, nunca elle a viu na rua que me não dissesse: Hoje vi aquella bonita senhora do Palha... Morreu conego; era filho de Saquarema... E, na verdade, tinha bom gosto... Realmente, a mulher do nosso Palha, é um primor, bella de cara e de figura; eu ainda a acho mais bem feita que bonita... Que lhe parece?
--Parece que sim...
--E boa pessoa, excellente dona de casa; continuou o major accendendo um charuto.
A luz do phosphoro deu á cara do major uma expressão de escarneo, ou de outra cousa menos dura, mas não menos adversa. Rubião sentiu correr-lhe um frio pela espinha. Teria ouvido? visto? adivinhado? Estava alli um indiscreto, um mexeriqueiro? A cara do homem dizia que sim e que não; em todo caso, era mais seguro crer no peior. Aqui temos o nosso heroe como alguem que, depois de navegar cosido com a praia, longos annos, acha-se um dia entre as ondas do alto mar; felizmente o medo tambem é official de ideias, e deu-lhe alli uma, lisongear o interlocutor. Não hesitou em achal-o gracioso e interessante, e dizer-lhe que tinha uma casa ás suas ordens, na praia de Botafogo, numero tantos. Dava-lhe muita honra em travar relações com elle. Contava poucos amigos aqui: o Palha, a quem devia grandes obsequios,--D. Sophia que era uma senhora de rara gravidade, e mais tres ou quatro pessoas. Vivia só; podia ser até que se retirasse para Minas.
--Já?
--Não digo já, mas póde ser que me não demore. Sabe que uma pessoa que viveu toda a sua vida em um logar, custa-lhe muito a acostumar-se em outro.
--Isso conforme.
--Sim, conforme... Mas é a regra.
--Regra será, mas o senhor vae ser uma excepção. A côrte é o diabo; apanha-se uma paixão como se apanha uma constipação; basta uma fresta de ar, fica-se perdido. Olhe, eu não me dava de apostar que o senhor, antes de seis mezes, está casado...
--Não viu nada, pensou Rubião.
E depois, alegre:
--Póde ser, mas tambem em Minas ha casamentos; nem lá faltam padres.
--Falta o padre Mendes, acudiu rindo o major.
Rubião sorriu constrangido, não entendendo se a palavra do major era innocente ou maliciosa. Este é que colheu as rédeas ao assumpto, e fallou de outras cousas, do tempo, da cidade, do ministerio, da guerra, e do marechal Lopez. E vede o contraste da occasião: esse aguaceiro, maior que o da entrada, pareceu um raio de sol ao nosso Rubião. Eil-o que espaneja a alma ao calor do discurso infinito do major, intercallando alguma palavrinha, se pode, e sempre cabeceando com applauso. E pensava outra vez que não, que elle não vira nada.
--Papae Papae está ahi? disse uma voz á porta que dava para o jardim.
Era D. Tonica; vinha chamal-o para irem embora. O chá estava na meza, é verdade; mas não podia esperar mais, tinha dor de cabeça, disse ella ao pae, baixinho. Depois estendeu os dedos ao Rubião; este pediu-lhe que ficasse ainda alguns minutos; o estimavel major...
--Perde o seu tempo, interrompeu o major; ella é que me governa.
Rubião offereceu-lhe a casa com instancia; exigiu até que lhe marcasse um dia, n'aquella mesma semana, mas o major acudiu que não podia dispor de dia certo; iria, logo que lhe fosse possivel. A vida delle era muito trabalhosa; tinha os negocios do arsenal, que já eram muitos, e tinha mais...
--Papae! vamos!
--Vamos. Está vendo? Não posso conversar um instante. Já te despediste? Onde está o meu chapéo?
CAPITULO XLIII
Ladeira abaixo, D. Tonica foi ouvindo o resto do discurso do pae, que mudou de assumpto, sem mudar de estylo,--diffuso e derramado. Ouvia sem entender. Ia mettida em si mesma, absorta, remoendo a noite,recompondo os olhares de Sophia e de Rubião.
Chegaram a casa na rua do Senado; o pae foi dormir, a filha não se deitou logo, deixou-se estar em uma cadeirinha, ao pé da commoda, onde tinha uma imagem da Virgem. Não trazia ideias de paz nem de candura. Sem conhecer o amor, tinha noticia do adulterio, e a pessoa de Sophia pareceu-lhe hedionda. Via nella agora um monstro, metade gente, metade cobra, e sentiu que a aborrecia, que era capaz de vingar-se exemplarmente, de dizer tudo ao marido.
--Conto-lhe tudo,--ia pensando--ou de viva voz, ou por uma carta... Carta não; digo-lhe tudo um dia, em particular.
E imaginando o colloquio, antevia o espanto do homem, depois o agastamento, depois os improperios, as palavras duras que elle havia de dizer á mulher, miseravel, indigna, vil... Todos esses nomes soavam bem aos ouvidos do seu desejo; ella fazia derivar por elles a propria colera; fartava-se de a rebaixar assim, de a pôr debaixo dos pés do marido, já que o não podia fazer por si mesma... Vil, indigna, miseravel...
Durou muito tempo essa explosão de raiva interior,--perto de vinte minutos; mas a alma cançou, e tornou a si. A imaginação não podia mais, e a realidade proxima attrahiu-lhe a vista. Olhou em volta de si, mirou a alcova de solteira, arrumadinha com arte,--dessa arte engenhosa que faz da chita seda e de um retalho velho uma fita, que recama, enlaça, alegra o mais que póde a nudez das cousas, enfeita as paredes tristes, aprimora os trastes modestos e poucos. E tudo alli parecia feito para receber um noivo amado.
Onde li eu que uma tradicção antiga fazia esperar a uma virgem de Israel, durante certa noite do anno, a concepção divina? Seja onde fôr, comparemol-a á desta outra, que só differe daquella em não ter noite fixa, mas todas, todas, todas... O vento, zunindo fóra, nunca lhe trouxe o varão esperado, nem a madrugada alva e menina lhe disse em que ponto da terra é que elle móra. Era só esperar, esperar...
Agora, aquietada a imaginação e o resentimento, mira e remira a alcova solitaria; recorda as amigas do collegio e de familia, as mais intimas, casadas todas. A derradeira dellas desposou aos trinta annos um official de marinha, e foi ainda o que reverdeceu as esperanças á amiga solteira, que não pedia tanto, posto que a farda de aspirante foi a primeira cousa que lhe seduziu os olhos, aos quinze annos... Onde iam elles? Mas lá passaram cinco annos, cumpriu os trinta e nove, e os quarenta não tardam. Quarentona, solteirona; D. Tonica teve um calafrio. Olhou ainda, recordou tudo, ergueu-se de golpe, deu duas voltas e atirou-se á cama chorando...
CAPITULO XLIV
Não vão crer que a dor aqui foi mais verdadeira que a colera; foram eguaes em si mesmas, os effeitos é que foram diversos. A colera deu em nada; a humilhação debulhou-se em lagrimas legitimas. E contudo não faltaram a esta senhora impetos de estrangular Sophia, calcal-a aos pés, arrancar-lhe o coração aos pedaços, dizendo-lhe na cara os nomes crus que attribuia ao marido... Tudo imaginações! Crede-me: ha tyrannos de intenção. Quem sabe? Na alma desta senhora passou agora um tenue fio de Caligula...
CAPITULO XLV
E em quanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monotono, tudo rindo cançativo; mas uma boa distribuição de lagrimas e polkas, soluços e sarabandas, acaba por trazer á alma das cousas a variedade necessaria, e faz-se o equilibrio da vida.
A outra que ri é a alma do Rubião. Escutai a cantiga alegre, brilhante, com que ella desce o morro, dizendo as cousas mais intimas ás estrellas,--ás castas estrellas,--especie de rhapsodia feita de uma linguagem que ninguem nunca alphabetou, por ser impossivel achar um signal que lhe exprima os vocabulos. Cá em baixo, as ruas desertas parecem-lhe povoadas, o silencio é um tumulto, e de todas as janellas debruçam-se vultos de mulher, caras bonitas e grossas sobrancelhas, todas Sophias e uma Sophia unica. Uma ou outra vez, Rubião acha que foi temerario, indiscreto, recorda o caso do jardim, a resistencia, o enfado da moça, e chega a arrepender-se; tem então calefrios, fica atterrado com a ideia de que podem fechar-lhe a porta, e cortar inteiramente as relações; tudo porque precipitou os acontecimentos. Sim, devia esperar; a occasião não era propria; visitas, muitas luzes, que ideia foi aquella de fallar de amores, sem cautellas, desbragadamente...? Achava-lhe razão; era bem feito que o despedisse logo.
--Fui um maluco! dizia em voz alta.
Não fallava do jantar, que foi lauto, nem dos vinhos, que eram generosos, nem da electricidade propria de uma sala em que ha senhoras, galantes; achava-se maluco, completamente maluco.
Logo depois, a mesma alma que se accusava, defendia-se. Sophia parecia tel-o animado ao que fez; os olhos frequentes, depois fixos, os modos, os requebros, a distincção de o mandar sentar ao pé de si, á mesa de jantar, de só cuidar delle, de lhe dizer melodiosamente cousas affaveis, que era tudo isso mais que exhortações e solicitações? E a boa alma explicava a contradicção da moça, depois, no jardim: era a primeira vez que ouvia taes palavras, fóra do gremio conjugal, e alli perto de todos, devia tremer naturalmente; demais, elle expandira-se muito, e precipitou tudo. Nenhuma graduação; devia ter ido pé ante pé, e nunca segurar-lhe as mãos com tanta força que chegasse a molestal-a. Em conclusão, achava-se grosseiro. Voltava o receio de lhe fecharem a porta; depois, tornava ás consolações da esperança, á analyse das acções da moça, á propria invenção do padre Mendes, mentira de complicidade; pensava tambem na estima do marido.. Aqui estremeceu. A estima do marido deu-lhe remorsos. Não só merecia a confiança delle, mas accrescia certa divida pecuniaria, e umas tres lettras que Rubião aceitou por elle.