Quincas Borba

Part 3

Chapter 33,931 wordsPublic domain

Jantou lá muitas vezes. Era timido e acanhado. A frequencia attenuou a impressão dos primeiros dias. Mas trazia sempre guardado, e mal guardado, certo fogo particular, que elle não podia extinguir. Emquanto durou o inventario, e principalmente a denuncia dada por alguem contra o testamento, allegando que o Quincas Borba, por manifesta demencia, não podia testar, o nosso Rubião distrahiu-se; mas a denuncia foi destruida, e o inventario caminhou rapidamente para a conclusão. Palha festejou o acontecimento com um jantar em que tomaram parte, alem dos tres, o advogado, o procurador e o escrivão. Sophia tinha nesse dia os mais bellos olhos do mundo.

CAPITULO XXVI

--Parece que ella os compra em alguma fabrica mysteriosa, pensou Rubião, descendo o morro; nunca os vi como hoje.

Seguiu-se a mudança para a casa de Botafogo, uma das herdadas; foi preciso alfaial-a, e ainda aqui o amigo Palha prestou grandes serviços ao Rubião, guiando-o com o gosto, com a noticia, acompanhando-o ás lojas e leilões. Ás vezes, como já sabemos, iam os tres; porque ha cousas, dizia graciosamente Sophia, que só uma senhora escolhe bem. Rubião acceitava agradecido, e demorava o mais que podia as compras, consultando sem proposito, inventando necessidades, tudo para ter mais tempo a moça ao pé de si. Esta deixava-se estar, fallando, explicando, demonstrando.

CAPITULO XXVII

Tudo isso passava agora pela cabeça do Rubião, depois do café, no mesmo logar em que o deixamos sentado, a olhar para longe, muito longe. Continuava a bater com as borlas do chambre. Afinal lembrou-se de ir ver o Quincas Borba, e soltal-o. Era a sua obrigação do todos os dias. Levantou-se e foi ao jardim, ao fundo.

CAPITULO XXVIII

--Mas que peccado é este que me persegue? pensava elle andando. Ella é casada, dá-se bem com o marido, o marido é meu amigo, tem-me confiança, como ninguem... Que tentações são estas?

Parava, e as tentações paravam tambem. Elle, um Santo Antão leigo, differençava-se do anachoreta em amar as suggestões do diabo, uma vez que teimassem muito. D'ahi a alternação dos monologos:

--É tão bonita! e parece querer-me tanto! Se aquillo não é gostar, não sei o que seja gostar. Aperta-me a mão com tanto agrado, com tanto calor... Não posso affastar-me; ainda que elles me deixem, eu é que não resisto.

Quincas Borba sentiu-lhe os passos, e começou a latir. Rubião deu-se pressa em soltal-o; era soltar-se a si mesmo por alguns instantes daquella perseguição.

--Quincas Borba! exclamou, abrindo-lhe a porta.

O cão atirou-se fóra. Que alegria! que enthusiasmo! que saltos em volta do amo! chega a lamber-lhe a mão de contente, mas Rubião dá-lhe um tabefe, que lhe doe; elle recua um pouco, triste, com a cauda entre as pernas; depois o senhor dá um estalinho com os dedos, e eil-o que volta novamente com a mesma alegria.

--Socega! socega!

Quincas Borba vae atraz delle pelo jardim fóra, contorna a casa, ora andando, ora aos saltos. Saboreia a liberdade, mas não perde o amo de vista. Aqui fareja, alli pára a coçar uma orelha, acolá cata uma pulga na barriga, mas de um salto galga o espaço e o tempo perdido, e cose-se outra vez com os calcanhares do senhor. Parece-lhe que Rubião não pensa em outra cousa, que anda agora de um lado para outro unicamente para fazel-o andar tambem, e recuperar o tempo em que esteve retido. Quando Rubião estaca, elle olha para cima, á espera; naturalmente, cuida delle; é alguma ideia, algum projecto, sairem juntos, ou cousa assim agradavel. Não lhe lembra nunca a possibilidade de um pontapé ou de um tabefe. Tem o sentimento da confiança, e muito curta a memoria das pancadas. Ao contrario, os affagos ficam-lhe impressos e fixos, por mais distrahidos que sejam. Gosta de ser amado. Contenta-se de crer que o é.

A vida alli não é completamente boa nem completamente má. Ha um moleque que o lava todos os dias em agua fria, usança do diabo, a que elle se não acostuma. Jean, o cosinheiro, gosta do cão, o criado hespanhol não gosta nada. Rubião passa muitas horas fóra de casa, mas não o trata mal, e consente que vá acima, que assista ao almoço e ao jantar, que o acompanhe á sala ou ao gabinete. Brinca ás vezes com elle; fal-o pular. Se chegam visitas de alguma ceremonia, manda-o levar para dentro ou para baixo, e, resistindo elle sempre, o hespanhol toma-o a principio com muita delicadeza, mas vinga-se d'ahi a pouco, arrastando-o por uma orelha ou por uma perna, atira-o ao longe, e fecha-lhes todas as communicações com a casa:

--_Perro del infierno!_

Machucado, separado do amigo, Quincas Borba vae então deitar-se a um canto, e fica alli muito tempo, calado; agita-se um pouco, até que acha posição definitiva, e cerra os olhos. Não dorme, recolhe as idéas, combina, relembra; a figura vaga do finado amigo passa-lhe ao longe, muito ao longe, aos pedaços, depois mistura-se á do amigo actual, e parecem ambas uma só pessoa; depois outras ideias...

Mas já são muitas ideias,--são ideias demais; em todo caso são ideias de cachorro, poeira de ideias,--menos ainda que poeira, explicará o leitor. Mas a verdade é que este olho que se abre de quando em quando para fixar o espaço, tão expressivamente, parece traduzir alguma cousa, que brilha lá dentro, lá muito ao fundo de outra cousa que não sei como diga, para exprimir uma parte canina, que não é a cauda nem as orelhas. Pobre lingua humana!

Afinal adormece. Então as imagens da vida brincam nelle, em sonho, vagas, recentes, farrapo d'aqui remendo d'alli. Quando accorda, esqueceu o mal; tem em si uma expressão, que não digo seja melancolia, para não aggravar o leitor. Diz-se de uma paizagem que é melancolica, mas não se diz egual cousa de um cão. A razão não pode ser outra senão que a melancolia da paizagem está em nós mesmos, emquanto que attribuil-a ao cão é deixal-a fóra de nós. Seja o que fôr, é alguma cousa que não a alegria de ha pouco; mas venha um assobio do cosinheiro, ou um gesto do senhor, e lá vae tudo embora, os olhos brilham, o prazer arregaça-lhe o focinho, e as pernas voam que parecem azas.

CAPITULO XXIX

Rubião passou o resto da manhã alegremente. Era domingo; dous amigos vieram almoçar com elle, um rapaz de vinte e quatro annos, que roia as primeiras aparas dos bens da mãe, e um homem de quarenta e quatro ou quarenta e seis, que ja não tinha que roer.

Carlos Maria chamava-se o primeiro, Freitas o segundo. Rubião gostava de ambos, mas differentemente; não era só a edade que o ligava mais ao Freitas, era tambem a indole deste homem. Freitas elogiava tudo, saudava cada prato e cada vinho com uma phrase particular, delicada, e sahia de lá com as algibeiras cheias de charutos, provando assim que os preferia a quaesquer outros. Tinha-lhe sido apresentado em certo armazem da rua Municipal, onde jantaram uma vez juntos. Contaram-lhe alli a historia do homem, a sua boa e má fortuna, mas não entraram em particularidades. Rubião torceu o nariz; era naturalmente algum naufrago, cuja convivencia não lhe traria nenhum prazer pessoal nem consideração publica. Mas o Freitas attenuou logo essa primeira impressão; era vivo, interessante, anecdotico, alegre como um homem que tivesse cincoenta contos de renda. Como Rubião fallasse das bonitas rosas que possuia, elle pediu-lhe licença para ir vel-as: era doudo por flores. Poucos dias depois appareceu lá, disse que ia ver as bellas rosas, eram poucos minutos, não se incommodasse o Rubião, se tinha que fazer. Rubião, ao contrario, gostou de ver que o homem não se esquecêra da conversação, desceu ao jardim onde elle ficara esperando, e foi mostrar-lhe as rosas. Freitas achou-as admiraveis; examinava-as com tal affinco que era preciso arrancal-o de uma roseira para leval-o a outra. Sabia o nome de todas, e ia apontando muitas especies que o Rubião não tinha nem conhecia,--apontando e descrevendo, assim e assim, deste tamanho (indicava o tamanho abrindo e arredondando o dedo pollegar e o index), e depois nomeava as pessoas que possuiam bons exemplares. Mas as do Rubião eram das melhores especies; esta, por exemplo, era rara, e aquella tambem, etc. O jardineiro ouvia-o com espanto. Tudo examinado, disse Rubião:

--Venha tomar alguma cousa. Que hade ser?

Freitas contentou-se com qualquer cousa. Chegando acima, achou a casa muito bem posta. Examinou os bronzes, os quadros, os moveis, olhou para o mar.

--Sim, senhor! disse elle, o senhor vive como um fidalgo.

Rubião sorriu; fidalgo, ainda por comparação, é palavra que se ouve bem. Veiu o creado hespanhol com a bandeija de prata, varios licores, e calices, e foi um bom momento para o Rubião. Offereceu elle mesmo, este ou aquelle licor; recommendou afinal um que lhe deram como superior a tudo que, em tal ramo, poderia existir no mercado. O Freitas sorriu incredulo.

--Talvez seja encarecimento, disse elle.

Tomou o primeiro trago, saboreou-o devagar, depois segundo, depois terceiro. No fim, pasmado, confessou que era um primor. Onde é que comprara aquillo? Rubião respondeu que um amigo, dono de um grande armazem de vinhos, o presenteara com uma garrafa; elle, porém, gostou tanto que já encommendára tres duzias. Não tardou que se estreitassem as relações. E o Freitas vae alli almoçar ou jantar muitas vezes,--mais vezes ainda do que quer ou póde,--porque é difficil resistir a um homem tão obsequioso, tão amigo de ver caras amigas.

CAPITULO XXX

Rubião perguntou-lhe uma vez:

--Diga-me, Sr. Freitas, se me désse na cabeça ir á Europa, o senhor era capaz de acompanhar-me?

--Não.

--Porque não?

--Porque eu sou amigo livre, e bem podia ser que discordassemos logo no itinerario.

--Pois tenho pena, por que o senhor é alegre.

--Engana-se, senhor; trago esta mascara risonha, mas eu sou triste. Sou um architecto de ruinas. Iria primeiro ás ruinas de Athenas; depois ao theatro, ver o _Pobre das Ruinas_, um drama de lagrymas depois, aos tribunaes de fallencias, onde os homens arruinados...

E Rubião ria-se; gostava daquelles modos expansivos e francos.

CAPITULO XXXI

Queres o avêsso disso, leitor curioso? Vê este outro convidado para o almoço, Carlos Maria. Se aquelle tem os modos «expansivos e francos»,--no bom sentido laudatorio,--claro é que elle os tem contrarios. Assim, não te custará nada vel-o entrar na sala, lento, frio e superior, ser apresentado ao Freitas, e estender-lhe a mão, olhando para outra parte. Freitas que já o mandou cordialmente ao diabo por causa da demora (é perto do meio dia), corteja-o agora rasgadamente, com grandes alleluias intimas.

Tambem podes vêr por ti mesmo que o nosso Rubião, se gosta mais do Freitas, tem o outro em maior consideração; esperou-o até agora, e esperal-o-ia até amanhã. Carlos Maria é que não tem consideração a nenhum delles. Examinai-o bem; é um galhardo rapaz de olhos grandes e placidos, muito senhor de si, ainda mais senhor dos outros. Olha de cima; não tem o riso jovial, mas escarninho. Agora, ao sentar-se á meza, ao pegar no talher, ao abrir o guardanapo, em tudo se vê que elle está fazendo um insigne favor ao dono da casa,--talvez dous,--o de lhe comer o almoço, e o de lhe não chamar pascacio.

E, máo grado essa disparidade de caracteres, o almoço foi alegre. Freitas devorava, com alguma pausa é certo,--e, confessando a si mesmo que o almoço, se tivesse vindo á hora marcada (onze) talvez não trouxesse o mesmo sabor. Agora orçava pelos primeiros bocados que acodem á fome do naufrago. Ao cabo de uns dez minutos, pôde começar a fallar; e fallou como de costume, cheio de riso, multiplicando-se em gestos e olhares, desfiando um rosario de ditos agudos e anecdotas picarescas. Carlos Maria ouviu a maior parte delles com seriedade, para humilhal-o, a ponto que o Rubião, que realmente achava graça no Freitas, já não ousava rir. Para o fim do almoço, Carlos Maria afrouxou um tanto a gravata do espirito, expandiu-se, referiu algumas aventuras amorosas de outros; Freitas, para lisongeal-o, pediu-lhe uma ou duas delle mesmo. Carlos Maria estourou de riso.

--Que papel quer o senhor que eu faça? disse elle.

Freitas explicou-se; não era uma apologia, eram factos, pedia-lhe factos; não havia inconveniente, nem ninguém era capaz de suppor...

--O senhor dá-se bem com a residencia aqui em Botafogo? interrompeu Carlos Maria dirigindo-se ao dono da caza.

Freitas, interrompido, mordeu os beiços, e, pela segunda vez, mandou o moço ao diabo. Collou-se ao espaldar, teso, grave, olhando para um painel da parede. Rubião respondeu que se dava bem, que a praia era linda.

--A vista é bonita, mas nunca pude tolerar o máo cheiro que ha aqui, em certas occasiões, disse Carlos Maria. Que lhe parece? continuou voltando-se para o Freitas.

Freitas desencostou-se, e disse tudo o que pensava, que um e outro podiam ter razão;--mas insistiu em que a praia, a despeito de tudo, era magnifica; fallou sem amúo, nem vexame; fez até o obsequio de chamar a attenção do Carlos Maria para um pedacinho de fructa que lhe ficára na ponta do bigode.

Chegaram ao fim, era pouco mais de uma hora. Rubião, calado, recompunha mentalmente o almoço, prato a prato, via com gosto os copos e os seus residuos de vinho, as migalhas esparsas, o aspecto final da meza, em vesperas de café. De quando em quando dava um olhar á casaca do criado. Chegou a apanhar o rosto de Carlos Maria em flagrante prazer, quando tirava as primeiras fumaças de um dos charutos que elle mandára distribuir. Nisto entrou o criado com uma cestinha coberta por um lenço de cambraia, e uma carta, que acabavam de trazer.

CAPITULO XXXII

--Quem é que manda isto? perguntou Rubião,

--D. Sophia.

Rubião não conhecia a lettra; era a primeira vez que ella lhe escrevia. Que podia ser? Via-se-lhe a commoção no rosto e nos dedos. Em quanto elle abria a carta, Freitas familiarmente descobria a cestinha: eram morangos. Rubião leu tremulo estas linhas:

«Mando-lhe estas fructinhas para o almoço, se chegarem a tempo; e, por ordem do Christiano, fica intimado a vir jantar comnosco, hoje, sem falta. Sua verdadeira amiga

Sophia».

--Que fructas são? perguntou Rubião fechando a carta.

--Morangos.

--Chegaram tarde. Morangos? repetiu elle sem saber o que dizia.

--Não é preciso córar, meu caro amigo, disse-lhe rindo o Freitas, logo que o criado saiu. Estas cousas acontecem a quem ama...

--A quem ama? repetiu Rubião corando deveras. Mas, póde ler a carta, veja...

Ia mostral-a; recuou e metteu-a no bolso. Estava fóra de si, meio confuso, meio alegre; Carlos Maria deleitou-se em dizer-lhe que elle não podia encobrir que o mimo era de alguma namorada. E não achava que reprehender; o amor era lei universal: se era alguma senhora casada, louvava-lhe a discrição...

--Mas pelo amor de Deus! interrompeu o amphytrião.

--Viuva? Estamos no mesmo caso, continuou Carlos Maria; a discrição aqui é ainda um merecimento. O maior peccado, depois do peccado, é a publicação do peccado. Eu, se fosse legislador, propunha que se queimassem todos os homens convencidos de indiscrição nestas materias; e haviam de ir para a fogueira, como os réos da Inquisição, com a differença que, em vez de sambenito, levariam uma capa de pennas de papagaio...

Freitas não podia ter-se com riso, e batia na mesa, á maneira de applauso; Rubião, meio enfiado, acudia que não era casada nem viuva...

--Solteira então? replicou o moço. Um casorio em breve? Vá, que é tempo. Morangos de noivado, continuou pegando alguns entre os dedos. Cheiram a alcova de donzella e a latim de padre.

Rubião não sabia mais que dissesse; afinal tornou atraz e explicou-se; eram da senhora de um seu amigo particular. Carlos Maria piscou o olho; Freitas interveiu dizendo que, agora, sim, senhor, estava explicado; mas que, a principio, o mysterio, o arranjo da cestinha, o ar dos proprios morangos,--morangos adulteros, disse elle, rindo,--todas essas cousas davam ao negocio um aspecto immoral e peccaminoso; mas tudo ficara acabado.

Tomaram em silencio o café; depois passaram á sala. Rubião desfazia-se em obsequios, mas preoccupado. Corridos alguns minutos, estava satisfeito com a primeira supposição dos dous convivas: a de um amor adultero; achou até que se defendera com demasiado calor. Uma vez que não dissesse o nome de ninguem, podia ter confessado que era, em verdade, um negocio intimo. Mas tambem podia acontecer que o proprio calor da negativa deixasse alguma duvida no animo dos dous, alguma suspeita... Aqui sorriu consolado.

Carlos Maria consultou o relogio; eram duas horas, ia-se embora. Rubião agradeceu-lhe muito e muito o obsequio e pediu-lhe que repetisse; podiam passar alguns domingos assim em boa palestra amigavel.

--Apoiado! bradou Freitas aproximando-se.

Tinha mettido meia duzia de charutos no bolso, e ao sair, disse ao ouvido do Rubião:

--Cá vae a lembrança do costume; seis dias de delicias, uma delicia por dia.

--Leve mais.

--Não; virei busca-los depois.

Rubião acompanhou-os ao portão de ferro. Quincas Borba, logo que ouviu vozes, correu do fundo do jardim e veiu saudal-os, particularmente ao senhor; fez festas a Carlos Maria, quiz lamber-lhe a mão; o rapaz affastou-se com repugnancia. Rubião deu um pontapé no cachorro, que o fez gritar e fugir. Afinal despediram-se todos.

--O senhor para onde vae? perguntou Carlos Maria ao Freitas.

Freitas calculou que elle iria a alguma visita para os lados de S. Clemente, e quiz acompanhal-o.

--Vou até o fim da praia, disse.

--Eu volto para traz, tornou o outro.

CAPITULO XXXIII

Rubião viu-os ir, entrou, metteu-se na sala, e ainda uma vez leu o bilhete de Sophia. Cada palavra d'essa pagina inesperada era um mysterio; a assignatura uma capitulação. _Sophia_ apenas; nenhum outro nome da familia ou do casal. _Verdadeira amiga_ era evidentemente uma metaphora. Quanto ás primeiras palavras: _Mando-lhe estas fructinhas para o almoço_ respiravam a candidez de uma alma boa e generosa. Rubião viu, sentiu, palpou todas essas cousas pela unica força do instincto e deu por si beijando o papel,--digo mal, beijando o nome, o nome dado na pia de baptismo, repetido pela mãe, entregue ao marido como parte da escriptura moral do casamento, e agora roubado a todas essas origens e posses para lhe ser mandado a elle, no fim d'uma folha de papel... Sophia! Sophia! Sophia!

CAPITULO XXXIV

--Por que veiu tão tarde? perguntou-lhe Sophia, logo que elle appareceu á porta do jardim, em Santa Thereza.

--Depois do almoço, que acabou ás duas horas, estive arranjando uns papeis. Mas não é tão tarde assim, continuou Rubião vendo o relogio; são quatro horas e meia.

--Sempre é tarde para os amigos, replicou Sophia em ar de censura.

Rubião cahiu em si; mas não teve tempo de emendar a mão. Deante delle, ao pé da casa, estavam sentadas em bancos de ferro umas quatro senhoras, caladas, olhando para elle, curiosas; eram visitas de Sophia que esperavam a vinda de um capitalista Rubião. Já tinham ouvido fallar delle. Sophia foi apresental-o a ellas. Tres d'ellas eram casadas, uma solteira, ou mais que solteira. Contava trinta e nove annos, e uns olhos pretos, cansados de esperar. Era filha de um major Siqueira, que d'ahi a alguns minutos appareceu no jardim.

--O nosso Palha já me tinha fallado em Vossa Excellencia, disse o major depois de apresentado ao Rubião. Juro que é seu amigo ás direitas. Contou-me o acaso que os ligou. Geralmente, as melhores amizades são essas. Eu, em trinta e tantos, pouco antes da Maioridade, tive um amigo, o melhor dos meus amigos daquelle tempo, que conheci assim por um acaso, na botica do Bernardos, por alcunha o _João das pantorrilhas_... Creio que usou d'ellas, em rapaz, entre 1801 e 1812. O certo é que a alcunha ficou. A botica era na rua de S. José, ao desembocar na da Misericordia... _João das pantorrilhas_... Sabe que era um modo de engrossar a perna... Bernardes era o nome delle, João Alves Bernardes... Tinha a botica na rua de S. José. Conversava-se alli muito, á tarde, e á noite. Ia a gente com o seu capote, e bengalão; alguns levavam lanterna. Eu não; levava só o meu capote... Ia-se de capote; o Bernardes,--João Alves Bernardes era o nome todo delle; era filho de Maricá, mas criou-se aqui no Rio de Janeiro... _João das pantorrilhas_ era a alcunha; diziam que elle andára de pantorrilhas, em rapaz, e parece que foi um dos petimetres da cidade. Nunca me esqueci: _João das pantorrilhas_... Ia-se de capote...

A alma do Rubião bracejava debaixo deste aguaceiro de palavras; mas, estava n'um becco sem sahida por um lado nem por outro. Tudo muralhas. Nenhuma porta aberta, nenhum corredor, e a chuva a cahir. Se pudesse olhar para as moças viria, ao menos, que era objecto de curiosidade de todas, principalmente da filha do major, D. Tonica; mas não podia; escutava, e o major chovia a cantaros. Foi o Palha que lhe trouxe um guarda-chuva. Sophia tinha ido dizer ao marido que o Rubião acabára de chegar; d'ahi a nada estava o Palha no jardim, e saudava o amigo, dizendo-lhe que viera tarde. O major, que explicava ainda uma vez a alcunha do boticario, abandonou a presa, e foi ter com as moças; depois sahiu á rua.

CAPITULO XXXV

As senhoras casadas eram bonitas; a mesma solteira não devia ter sido feia, aos vinte e cinco annos; mas Sophia primava entre todas ellas.

Não seria tudo o que o nosso amigo sentia, mas era muito. Era daquella casta de mulheres que o tempo, como um esculptor vagaroso, não acaba logo, e vae polindo ao passar dos longos dias... Essas esculpturas lentas são miraculosas; Sophia rastejava os vinte e oito annos; estava mais bella que aos vinte e sete; era de suppor que só aos trinta désse o esculptor os ultimos retoques, senão quizesse prolongar ainda o trabalho, por dous ou tres annos.

Os olhos, por exemplo, não são os mesmos da estrada de ferro, quando o nosso Rubião fallava com o Palha, e elles iam sublinhando a conversação... Agora, parecem mais negros, e já não sublinham nada; compõem logo as cousas, por si mesmos, em lettra vistosa e gorda, e não é uma linha nem duas, são capitulos inteiros. A boca parece mais fresca. Hombros, mãos, braços, são melhores, e ella ainda os faz optimos por meio de attitudes e gestos escolhidos. Uma feição que a dona nunca póde supportar,--cousa que o proprio Rubião achou a principio que destoava do resto da cara,--o excesso de sobrancelhas,--isso mesmo, sem ter diminuido, como que lhe dá ao todo um aspecto mui particular.

Traja bem; comprime a cintura e os seios no corpinho de lã fina côr de castanha, obra simples, e traz nas orelhas duas perolas verdadeiras,--mimo que o nosso Rubião lhe deu pela Pascoa.

A bella dama é filha de um velho funccionario publico. Casou aos vinte annos com este Christiano de Almeida e Palha, zangão da praça, que então contava vinte e cinco. O marido ganhava dinheiro, era geitoso, activo, e tinha o faro dos negocios e das situações. Em 1864, apezar de recente no officio, adivinhou,--não se póde empregar outro termo,--adivinhou as fallencias bancarias.

--Nós temos cousa, mais dia menos dia; isto anda por arames. O menor brado de alarma leva tudo.

O peior é que elle despendia todo o ganho e mais. Era dado á boa chira; reuniões frequentes, vestidos caros e joias para a mulher, adornos de casa, mórmente se eram de invenção ou adopção recente,--levavam-lhe os lucros presentes e futuros. Salvo em comidas, era escasso consigo mesmo. Ia muita vez ao theatro sem gostar delle, e a bailes, em que se divertia um pouco,--mas ia menos por si que para apparecer com os olhos da mulher, os olhos e os seios. Tinha essa vaidade singular; decotava a mulher sempre que podia, e até onde não podia, para mostrar aos outros as suas venturas particulares. Era assim um rei Candaules, mais restricto por um lado, e, por outro, mais publico.