Quincas Borba

Part 2

Chapter 23,922 wordsPublic domain

Rubião mal sustinha o papel nos dedos. Passados alguns segundos, advertiu que podia ser um gracejo do amigo, e releu a carta; mas a segunda leitura confirmou a primeira impressão. Não havia duvida; estava doudo. Pobre Quincas Borba! Assim, as exquisitices, a frequente alteração de humor, os impetos sem motivo, as ternuras sem proporção, não eram mais que prenuncios da ruina total do cerebro. Morria antes de morrer. Tão bom! Tão alegre! Tinha impertinencias, é verdade; mas a doença explicava-as. Rubião enxugou os olhos, humidos de commoção. Depois, veiu a lembrança do possivel legado, e ainda mais o affligiu, por lhe mostrar que bom amigo ia perder.

Quiz ainda uma vez ler a carta, agora devagar, analysando as palavras, desconjuntando-as, para ver bem o sentido e descobrir se realmente era uma troça de philosopho. Aquelle modo de o descompor brincando, era conhecido; mas, o resto confirmava a suspeita do desastre. Já quasi no fim, parou enfiado. Dar-se-hia que, provada a alienação mental do testador, nullo ficaria o testamento, e perdidas as deixas? Rubião teve uma vertigem. Estava ainda com a carta aberta nas mãos, quando viu apparecer o doutor, que vinha por noticias do enfermo; o agente do correio dissera-lhe haver chegado uma carta. Era aquella?

--É esta, mas...

--Tem alguma communicação reservada...?

--Justamente, traz uma communicação reservada, reservadissima; negocios pessoaes. Dá licença?

Dizendo isto, Rubião metteu a carta no bolso; o medico sahiu; elle respirou. Escapára ao perigo de publicar tão grave documento, por onde se podia provar o estado mental de Quincas Borba. Minutos depois, arrependeu-se, devia ter entregado a carta, sentiu remorsos, pensou em mandal-a á casa do medico. Chamou por um escravo; quando este accudiu, já elle mudára outra vez de idéa; considerou que era imprudencia; o doente viria em breve,--d'alli a dias,--perguntaria pela carta, arguil-o-hia de indiscreto, de delator... Remorsos faceis, de pouca dura.

--Não quero nada, disse ao escravo. E outra vez pensou no legado. Calculou o algarismo. Menos de dez contos, não. Compraria um pedaço de terra, uma casa, cultivaria isto ou aquillo, ou lavraria ouro. O peor é se era menos, cinco contos... Cinco? Era pouco; mas, emfim, talvez não passasse disso. Cinco que fossem, era um arranjo menor, e antes menor que nada. Cinco contos... Peor seria se o testamento ficasse nullo. Vá, cinco contos!

CAPITULO XI

No começo da semana seguinte, recebendo os jornaes da corte (ainda assignaturas do Quincas Borba) leu Rubião esta noticia em um d'elles:

«Falleceu hontem o Sr. Joaquim Borba dos Santos, tendo supportado a molestia com singular pbilosophia. Era homem de muito saber, e cançava-se em batalhar contra esse pessimismo amarello e enfesado que ainda nos ha de chegar aqui um dia; é a molestia do seculo. A ultima palavra delle foi que a dor era uma illusão, e que Pangloss não era tão tolo como o inculcou Voltaire... Já então delirava. Deixa muitos bens. O testamento está em Barbacena.»

CAPITULO XII

--Acabou de soffrer! suspirou Rubião.

Em seguida, attentando na noticia, viu que fallava de um homem que tinha apreço, consideração, a quem se attribuia uma peleja philosophica. Nenhuma allusão a demencia. Ao contrario, o final dizia que elle delirára a ultima hora, effeito da molestia. Ainda bem! Rubião leu novamente a carta, e a hypothese da troça pareceu outra vez mais verosimil. Concordou que elle tinha graça; com certeza, quiz debical-o; foi a Santo Agostinho, como iria a Santo Ambrosio ou a Santo Hilario, e escreveu uma carta enigmatica, para confundil-o, até voltar e rir-se do logro. Pobre amigo! Estava são,--são e morto. Sim, já não padecia nada. Vendo o cachorro, suspirou:

--Coitado do Quincas Borba! Se pudesse saber que o senhor morreu ...

Depois, comsigo:

--Agora, que já acabou a obrigação, vou dal-o á comadre Angelica.

CAPITULO XIII

A noticia correra a cidade, o vigario, o pharmaceutico da casa, o medico, todos mandaram saber se era verdadeira. O agente do correio, que a lera nas folhas, trouxe em mão propria ao Rubião, uma carta que viera na mala para elle; podia ser do finado, comquanto a lettra do subscripto fosse outra.

--Então afinal o homem espichou a canella? disse elle, emquanto Rubião abria a carta, corria á assignatura e lia: _Braz Cubas._ Era um simples bilhete:

«O meu pobre amigo Quincas Borba falleceu hontem em minha casa, onde appareceu ha tempos esfrangalhado e sordido: fructos da doença. Antes de morrer pediu-me que lhe escrevesse, que lhe désse particularmente esta noticia, e muitos agradecimentos; que o resto se faria, segundo as praxes do foro.»

Os agradecimentos fizeram empallidecer o professor; mas as praxes do foro restituiram-lhe o sangue. Rubião fechou a carta sem dizer nada; o agente fallou de uma cousa e outra, depois sahiu. Rubião ordenou a um escravo que levasse o cachorro de presente á comadre Angelica, dizendo-lhe que, como gostava de bichos, lá ia mais um; que o tratasse bem, porque elle estava acostumado a isso; finalmente que o nome do cachorro era o mesmo que o do dono, agora morto, Quincas Borba.

CAPITULO XIV

Quando o testamento foi aberto, Rubião quasi cahiu para traz. Adivinhaes porque. Era nomeado herdeiro universal do testador. Não cinco, nem dez, nem vinte contos, mas tudo, o capital inteiro, especificados os bens, casas na Côrte, uma em Barbacena, escravos, apolices, acções do Banco do Brazil e de outras instituições, joias, dinheiro amoedado, livros,--tudo finalmente passava ás mãos do Rubião, sem desvios, sem deixas a nenhuma pessoa, nem esmolas, nem dividas. Uma só condição havia no testamento, a de guardar o herdeiro comsigo o seu pobre cachorro Quincas Borba, nome que lhe deu por motivo da grande affeição que lhe tinha. Exigia do dito Rubião que o tratasse como se fosse a elle proprio testador, nada poupando em seu beneficio, resguardando-o de molestias, de fugas, de roubo ou de morte que lhe quizessem dar por maldade; cuidar finalmente como se cão não fosse, mas pessoa humana. Item, impunha-lhe a condição, quando morresse o cachorro, de lhe dar sepultura decente em terreno proprio, que cobriria de flores e plantas cheirosas; e mais desenterraria os ossos do dito cachorro, quando fosse tempo idoneo, e os recolheria a uma urna de madeira preciosa para deposital-os no lugar mais honrado da casa.

CAPITULO XV

Tal era a clausula. Rubião achou-a natural, posto que só tivesse pensamento para cuidar na herança. Espreitára uma deixa, e sae-lhe do testamento a massa toda dos bens. Não podia acabar de crer; foi preciso que lhe apertassem muito as mãos, com força,--a força dos parabens,--para não suppor que era mentira.

--Sim, senhor, lavre um tento, dizia-lhe o dono da pharmacia que ministrara os remedios ao Quincas Borba.

Herdeiro já era muito; mas universal... Esta palavra inchava as bochechas á herança. Herdeiro de tudo, nem uma colherinha menos. E quanto seria tudo? ia elle pensando. Casas, apolices, acções, escravos, roupa, louça, alguns quadros, que elle teria na côrte, porque era homem de muito gosto, fallava de cousas de arte com grande saber. E livros? devia ter muitos livros, citava muitos delles. Mas emquanto andaria tudo? Cem contos? Talvez duzentos. Era possível; trezentos mesmo não havia que admirar. Trezentos contos! trezentos! E o Rubião tinha impetos de dansar na rua. Depois aquietava-se; duzentos que fossem, ou cem, era um sonho que Deus Nosso Senhor lhe dava, mas um sonho comprido, para não acabar mais.

Aqui a ideia do cachorro pôde tomar pé no torvelinho de ideias que iam pela cabeça do nosso homem. Rubião achava que a clausula era natural, mas desnecessaria, porque elle e o cão eram dous amigos, e nada mais certo que ficarem juntos, para lembrar o terceiro amigo, o extincto, o autor da felicidade de ambos. Havia, sem duvida, umas particularidades na clausula, uma historia de urna, e não sabia que mais; mas tudo se havia de cumprir, ainda que o céo viesse abaixo... Não, com a ajuda de Deus, emendava elle. Bom cachorro! excellente cachorro!

Rubião não esquecia que muitas vezes tentára enriquecer com emprezas que morreram em flor. Suppoz-se n'aquelle tempo um desgraçado, um caipora, quando a verdade era que «mais vale quem Deus ajuda, do que quem cedo madruga.» Tanto não era impossivel enriquecer, que estava rico.

--Impossivel, o que? exclamou em voz alta. Impossivel é a Deus peccar. Deus não falta a quem promette.

Ia assim, descendo e subindo as ruas da cidade, sem guiar para casa, sem plano, com o sangue aos pulos, e as ideias baralhadas. De repente, surgiu-lhe este grave problema:--se iria viver no Rio de Janeiro, ou se ficaria em Barbacena. Sentia cocegas de ficar, de brilhar onde escurecia, de quebrar a castanha na bocca aos que antes faziam pouco caso delle, e principalmente aos que se riram da amizade do Quincas Borba. Mas logo depois, vinha a imagem do Rio de Janeiro, que elle conhecia, com os seus feitiços, movimento, theatros em toda a parte, moças bonitas, «vestidas á franceza.» Resolveu que era melhor, podia subir muitas e muitas vezes á cidade natal.

CAPITULO XVI

--Quincas Borba! Quincas Borba! eh! Quincas Borba! bradou entrando em casa.

Nada de cachorro. Só então é que elle se lembrou de havel-o mandado dar á comadre Angelica. Correu á casa da comadre, que era distante. De caminho accudiram-lhe todas as ideias feias, algumas extraordinarias. Uma ideia feia, é que o cão tivesse fugido. Outra extraordinaria é que algum inimigo, sabedor da clausula e do presente, fosse ter com a comadre, roubasse o cachorro, e o escondesse ou matasse. Neste caso, a herança... Passou-lhe uma nuvem pelos olhos; depois começou a vêr mais claro.

--Não conheço negocios de justiça, pensava elle, mas parece que não tenho nada com isso. A clausula suppõe o cão vivo ou em casa; mas se elle fugir ou morrer, não se ha de inventar um cão; logo, a intenção principal... Mas são capazes de fazer chicana os meus inimigos. Não cumprida a clausula...

Aqui a testa e as costas das mãos do nosso amigo ficaram em agua. Outra nuvem pelos olhos. E o coração batia-lhe rapido, rapido. A clausula começava a parecer-lhe extravagante. Rubião pegava-se com os santos, promettia missas, dez missas... Mas lá estava a casa da comadre. Rubião picou o passo; viu alguém; era ella? era, era ella, encostada á porta e rindo.

--Que figura que o senhor vem fazendo, meu compadre? Meio tonto, jogando com os braços.

CAPITULO XVII

--Sinhá comadre, o cachorro? perguntou Rubião com indifferença, mas pallido.

--Entre, e abanque-se, respondeu ella. Que cachorro?

--Que cachorro? tornou Rubião cada vez mais pallido. O que lhe mandei. Pois não se lembra que lhe mandei um cachorro para ficar aqui alguns dias, descançando, a ver se... em summa, um animal de muita estimação. Não é meu. Veiu para... Mas não se lembra?

--Ah! não me falle nesse bicho! respondeu ella precipitando as palavras.

Era pequena, tremia por qualquer cousa, e quando se apaixonava, engrossavam-lhe as veias do pescoço. Repetiu que lhe não fallasse do bicho.

--Mas que lhe fez elle, sinhá comadre?

--Que me fez? Que é que me faria o pobre animal? Não come nada, não bebe, chora que parece gente, e anda só com o olho para fóra, a ver se foge.

Rubião respirou. Ella continuou a dizer os enfadamentos do cachorro; elle ancioso, queria vel-o.

--Está lá no fundo, no cercado grande; está sósinho para que os outros não bulam com elle. Mas o compadre vem buscal-o? Não foi isso o que disseram. Pareceu-me ouvir que era para mim, que era dado.

--Daria cinco ou seis, se pudesse, respondeu Rubião. Este não posso; sou apenas depositario. Mas deixe estar, prometto-lhe um filho. Creia que o recado veiu torto.

Rubião ia andando; a comadre, em vez de o guiar, acompanhava-o. Lá estava o cão, dentro do cercado, deitado a distancia de um alguidar de comida. Cães, gatos, saltavam de todos os lados, cá fora; a um lado havia um gallinheiro, mais longe porcos; mais longe ainda, uma vacca deitada, somnolenta, com duas gallinhas ao pé, que lhe picavam a barriga, arrancando carrapato.

--Olhe o meu pavão! dizia a commadre.

Mas Rubião tinha os olhos no Quincas Borba, que farejava impaciente, e que se atirou para elle, logo que um moleque abriu a porta do cercado. Foi uma scena de delirio; o cachorro pagava as caricias do Rubião, latindo, pulando, beijando-lhe as mãos.

--Meu Deus! que amizade!

--Não imagina, sinhá comadre. Adeus, prometto-lhe um filho.

CAPITULO XVIII

Rubião e o cachorro, entrando em casa, sentiram, ouviram a pessoa e as vozes do finado amigo. Em quanto o cachorro farejava por toda a parte, Rubião foi sentar-se na cadeira onde estivera, quando Quincas Borba referiu a morte da avó com explicações scientificas. A memoria delle recompoz, ainda que de embrulho e esgarçadamente, os argumentos do philosopho. Pela primeira vez, attentou bem na allegoria das tribus famintas e comprehendeu a conclusão: «Ao vencedor, as batatas!» Ouviu distinctamente a voz roufenha do finado expor a situação das tribus, a luta e a razão da luta, o exterminio de uma e a victoria da outra, e murmurou baixinho:

--Ao vencedor, as batatas!

Tão simples! tão claro! Olhou para as calças de brim surrado e o rodaque cirzido, e notou que até ha pouco fora, por assim dizer, um exterminado, uma bolha extincta; mas que ora não, era um vencedor. Não havia duvida; as batatas fizeram-se para a tribu que elimina a outra, afim de transpor a montanha e ir ás batatas do outro lado. Justamente o seu caso. Ia descer de Barbacena para arrancar e comer as batatas da capital. Cumpria-lhe ser duro e implacavel, era poderoso e forte. E levantando-se de golpe, alvoroçado, ergueu os braços exclamando:

--Ao vencedor, as batatas!

Gostava da formula, achava-a engenhosa, compendiosa e eloquente, além de verdadeira e profunda. Ideou as batatas era suas varias fórmas, classificou-as pelo sabor, pelo aspecto, pelo poder nutritivo fartou-se antemão do banquete da vida. Era tempo de acabar com as raizes pobres e seccas, que apenas enganavam o estomago, triste comida de longos annos; agora o farto, o solido, o perpetuo, comer até morrer, e morrer em colchas de seda, que é melhor que trapos. E voltava á affirmação de ser duro e implacavel, e á formula da allegoria. Chegou a compor de cabeça um sinete para seu uso, com este lemma: AO VENCEDOR AS BATATAS.

Esqueceu o projecto do sinete; mas a formula viveu no espirito de Rubião, por alguns dias:--Ao vencedor as batatas Não a comprehenderia antes do testamento; ao contrario, vimos que a achou obscura e sem explicação. Tão certo é que a paizagem depende do ponto de vista, e que o melhor modo de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo na mão.

CAPITULO XIX

Não esqueça dizer que Rubião tomou a si mandar dizer uma missa por alma do finado, embora soubesse ou presentisse que elle não era catholico. Quincas Borba não dizia pulhices a respeito de padres, nem desconceituava doutrinas catholicas; mas, não fallava nem da egreja nem dos seus servos. Por outro lado, a veneração de Humanitas fazia desconfiar ao herdeiro que essa era a religião do testador. Não obstante, mandou dizer a missa, considerando que não era acto da vontade do morto, mas prece de vivos; considerou mais que seria um escandalo na cidade, se elle, nomeado herdeiro pelo defunto, deixasse de dar ao seu protector os suffragios que não se negam aos mais miseraveis e avaros deste mundo.

Se algumas pessoas deixaram de comparecer, para não assistir á gloria do Rubião, muitas outras foram,--e não da ralé,--as quaes viram a compuncção verdadeira do antigo mestre de meninos. Teve lagrimas; o vigario, quando elle lhe foi fallar á sacristia, viu-lhe ainda os olhos vermelhos. Não seriam saudades; mas a gratidão tambem chora.

CAPITULO XX

Regulados os preliminares para a liquidação da herança, Rubião tratou de vir ao Rio de Janeiro, onde se fixaria, logo que tudo estivesse acabado. Havia que fazer em ambas as cidades; mas, as cousas promettiam correr depressa.

CAPITULO XXI

Na estação de Vassouras, entraram no trem Sophia e o marido, Christiano de Almeida e Palha. Este era um rapagão de trinta e dous annos; ella ia entre vinte e sete e vinte e oito. Vieram sentar-se nos dous bancos fronteiros ao do Rubião, acommodaram as cestinhas e embrulhos de lembranças que traziam de Vassouras, onde tinham ido passar uma semana; abotoaram o guarda-pó, trocaram algumas palavras, baixo.

Depois que o trem continuou a andar, foi que o Palha reparou na pessoa do Rubião, cujo rosto, entre tanta gente carrancuda ou aborrecida, era o unico placido e satisfeito. Christiano foi o primeiro que travou conversa, dizendo-lhe que as viagens de estrada de ferro cançavam muito, ao que Rubião respondeu que sim; para quem estava acostumado a costa de burro, accrescentou, a estrada de ferro cançava e não tinha graça; não se podia negar, porém, que era um progresso.

--De certo, concordou o Palha. Progresso e grande.

--O senhor é lavrador?

--Não, senhor.

--Mora na cidade?

--De Vassouras? Não; viemos aqui passar uma semana. Moro mesmo na Corte. Não teria geito para lavrador, com quanto ache que é uma posição boa e honrada.

Da lavoura passaram ao gado, á escravatura e á politica. Christiano Palha maldisse o governo, que introduzira na falla do throno uma palavra relativa á propriedade servil; mas, com grande espanto seu, Rubião não acudiu á indignação. Era plano deste vender os escravos que o testador lhe deixára, excepto um pagem; se alguma cousa perdesse, o resto da herança cobriria o desfalque. Demais, a falla do throno, que elle tambem lêra, mandava respeitar a propriedade actual. Que lhe importavam escravos futuros, se os não compraria? O pagem ir ser forro, logo que elle entrasse na posse dos bens. Palha desconversou, e passou á politica, ás camaras, á guerra do Paraguay, tudo assumptos geraes, ao que Rubião attendia, mais ou menos. Sophia escutava apenas; movia tão sómente os olhos, que sabia bonitos, fitando-os ora no marido, ora no interlocutor.

--Vae ficar na Côrte ou volta para Barbacena? perguntou o Palha no fim de vinte minutos de conversação.

--Meu desejo é ficar, e fico mesmo, acudiu Rubião; estou cançado da provincia; quero gozar a vida. Póde ser até que vá á Europa, mas não sei ainda.

Os olhos do Palha brilharam instantaneamente.

--Faz muito bem; eu faria o mesmo, se pudesse; por agora, não posso. Provavelmente, já lá foi?

--Nunca fui. É por isso que tive cá umas idéas, ao sahir de Barbacena; ora adeus! é preciso a gente tirar a morrinha do corpo. Não sei ainda quando será; mas hei de...

--Tem razão. Dizem que ha lá muita cousa explendida; não admira, são mais velhos que nós; mas lá chegaremos; e ha cousas em que estamos a par delles, e até acima. A nossa Côrte, não digo que possa competir com Paris ou Londres, mas é bonita, verá...

--Já vi.

--Já?

--Ha muitos annos.

--Ha de achal-a melhor; tem feito progressos rapidos. Depois, quando fôr á Europa...

--A senhora já foi á Europa? interrompeu Rubião, dirigindo-se a Sophia.

--Não, senhor.

--Esqueceu-me apresentar-lhe minha mulher, acudiu Christiano. Rubião inclinou-se respeitosamente; e, voltando-se para o marido, disse-lhe sorrindo:

--Mas não me apresenta a mim? Palha sorriu tambem; entendeu que nenhum delles sabia o nome um do outro, e deu-se pressa em dizer o seu.

--Christiano de Almeida e Palha.

--Pedro Rubião de Alvarenga; mas Rubião é como todos me chamam.

A troca dos nomes pol-os ainda mais a gosto. Sophia não interveiu, porém, na conversa; afrouxou a redea aos olhos, que se deixaram ir ao sabor de si mesmos. Rubião fallava, risonho, e ouvia attento as palavras do Palha, agradecido da amizade com que o tratava um moço que elle nunca tinha visto. Chegou a dizer-lhe que bem podiam ir juntos á Europa.

--Oh! eu não poderei ir nestes primeiros annos, respondeu o Palha.

--Tambem não digo já; eu não irei tão cedo. O desejo que me deu, quando sahi de Barbacena, foi simples desejo, sem prazo; irei, não ha duvida, mas lá para diante, quando Deus quizer.

Palha acudiu, rapido:

--Ah! eu, quando digo que só daqui a annos, accrescento tambem que a vontade de Deus póde ordenar o contrario. Quem sabe se daqui a mezes? A Divina Providencia é que manda o melhor.

O gesto que acompanhou estas palavras era convicto e pio; mas, nem Sophia o viu (olhava para os pés), nem o proprio Rubião escutou as ultimas palavras. O nosso amigo estava morto por dizer a causa que o trazia á capital. Tinha a boca cheia da confidencia, prestes a entornal-a no ouvido do companheiro de viagem,--e só por um resto de escrupulo, já frouxo, é que ainda a retinha. E porque retel-a, se não era crime, e ia ser caso publico?

--Tenho de cuidar primeiro de um inventario, murmurou finalmente,

--O senhor seu pai?

--Não; um amigo. Um grande amigo, que se lembrou de fazer-me seu herdeiro universal.

--Ah!

--Universal. Creia que ha amigos neste mundo; como aquelle, poucos. Aquillo era ouro. E que cabeça! que intelligencia! que instrucção! Viveu doente os ultimos tempos, donde lhe veiu alguma impertinencia, alguns caprichos. Sabe, não? rico e doente, sem familia, tinha naturalmente exigencias... Mas ouro puro, ouro de lei. Aquillo quando estimava, estimava de uma vez. Eramos amigos, e não me disse nada. Vae um dia, quando morreu, abriu-se o testamento, e achei-me com tudo. É verdade. Herdeiro universal! Olhe que não ha uma deixa no testamento para outra pessoa. Tambem não tinha parentes. O unico parente que teria, seria eu, se elle chegasse a casar com uma irmã minha, que morreu, coitada! Fiquei só amigo; mas, elle soube ser amigo, não acha?

--Seguramente, affirmou o Palha.

Já os olhos deste não brilhavam, reflectiam profundamente. Rubião mettera-se por um matto cerrado, onde lhe cantavam todos os passarinhos da fortuna; regalava-se em fallar da herança; confessou que não sabia ainda a somma total, mas podia calcular por longe...

O melhor é não calcular nada, atalhou Christiano. Nunca será menos de cem contos?

--Upa!

--Pois d'ahi para cima, é esperar calado. E, outra cousa...

--Creio que não menos de trezentos...

--Outra cousa. Não repita o seu caso a pessoas extranhas. Agradeço-lhe a confiança que lhe mereci, mas não se exponha ao primeiro encontro. Discrição e caras serviçaes nem sempre andam juntas.

CAPITULO XXII

Chegados á estação da Côrte, despediram se quasi familiarmente. Palha offereceu a sua casa em Santa Thereza; o ex-professor ia para a Hospedaria União, e prometteram visitar-se.

CAPITULO XXIII

No dia seguinte, estava Rubião ancioso por ter ao pé de si o recente amigo da estrada de ferro, e determinou ir a Santa Thereza, á tarde; mas foi o proprio Palha que o procurou logo de manhã. Ia cumprimental-o, ver se estava bem alli, ou se preferia a casa delle, que ficava no alto. Rubião não acceitou a casa, mas acceitou o advogado, um contra-parente do Palha, que este lhe indicou, como um dos primeiros, apezar de muito moço.

--É aproveital-o, em quanto elle não exige que lhe paguem a fama.

Rubião fel-o almoçar, e acompanhou-o ao escriptorio do advogado, apezar dos protestos do cão, que queria ir tambem. Tudo se ajustou.

--Vá jantar logo commigo, em Santa Thereza, disse o Palha ao despedir-se. Não tem que hesitar, lá o espero, concluiu retirando-se.

CAPITULO XXIV

Rubião tinha vexame, por causa de Sophia; não sabia haver-se com senhoras. Felizmente, lembrou-se da promessa que a si mesmo fizera de ser forte e implacavel. Foi jantar. Abençoada resolução! Onde acharia eguaes horas? Sophia era, em casa, muito melhor que no trem de ferro. Lá vestia a capa, embora tivesse os olhos descobertos; cá trazia á vista os olhos e o corpo, elegantemente apertado em um vestido de cambraia, mostrando as mãos que eram bonitas, e um principio de braço. Demais, aqui era a dona da casa, fallava mais, desfazia-se em obsequios; Rubião desceu meio tonto.

CAPITULO XXV