Quincas Borba

Part 19

Chapter 193,933 wordsPublic domain

--Pois então? continuou Sequeira, voltandp-se para Rubião. Vá, vá, dobre a rua de S. Lourenço, e caminhe direito para o Campo. Adeus, até amanhã.

Rubião desceu tres degráos,--eram cinco--e parou deante do recem-chegado, fitou-o alguns instantes e declarou que estimava muito conhecel-o, que fosse bom esposo e bom genro. Como se chamava?

--João José Rodrigues.

--Rodrigues. Heide mandar-lhe uma fitinha aqui para a casaca. É o meu presente de nupcias. Lembre-me, Sequeira.

Sequeira pegou-lhe no braço para fazel-o descer os dons últimos degráos, e pol-o na rua.

--No Campo, dizes tu?

--No Campo.

--Adeus.

Da rua, ainda Rubião olhou para as janellas, com os dedos no chapéo, afim de comprimentar D. Tonica; mas D. Tonica estava na sala, onde Rodrigues acabava de entrar, fresco e delicioso, como a primeira rosa de verão.

CAPITULO CLXXXII

Rubião não cuidou mais do coche nem do esquadrão de cavallaria. Foi dar comsigo abaixo, andou por varias ruas, até que subiu pela de S. José. Desde o paço imperial, vinha gesticulando e fallando a alguem que suppunha trazer pelo braço, e era a imperatriz. Eugenia ou Sophia? Ambas em uma só creatura,--ou antes a segunda com o nome da primeira. Homens que iam passando, paravam; do interior das lojas corria gente ás portas. Uns riam-se, outros ficavam indifferentes; alguns, depois de verem o que era, desviavam os olhos para poupal-os á afflicção que lhes dava o expectaculo do delirio. Uma turba de moleques acompanhava o Rubião, alguns tão proximos, que lhe ouviam as palavras. Creanças de toda a sorte vinham juntar-se ao grupo. Quando elles viram a curiosidade geral, entenderam dar voz á multidão, e começou a surriada:

--Ó gira! ó gira!

Esse vozear chamou a attenção de outras pessoas, muitas janellas dos sobrados começaram a abrir-se, appareceram curiosos de ambos os sexos e todas as edades, um photographo, um estofador, tres e quatro figuras juntas, cabeças por cima de outras, todas inclinadas, espiando, acompanhando o homem, que fallava á parede, com o seu gesto cheio de grandeza e de obsequio.

--Ó gira! ó gira! berravam os vadios.

Um delles, muito menor que todos, apegava-se ás calças de outro, taludo. Era já na rua da Ajuda. Rubião continuava a não ouvir nada; mas, de uma vez que ouviu, suppoz que eram acclamações, e fez uma cortezia de agradecimento. A surriada augmentava. No meio do rumor, distinguiu-se a voz de uma mulher á porta de uma colchoaria:

--Deolindo! vem para casa, Deolindo!

Deolindo, a creança, que se aggarrava ás calças da outra mais velha, não obedeceu; póde ser que nem ouvisse, tamanha era a grita, e tal a alegria do pecurrucho, clamando coma vozinha miuda:--Ó gira! ó gira!

--Deolindo!

Deolindo tratou de esconder-se entre os outros, para escapar ás vistas da mãe que o chamava; esta, porém, correu ao grupo, e arrancou-o de lá. Em verdade, era pequeno de mais para andar em tumultos de rua.

--Mamãe, deixa eu vêr...

--Qual vêr! anda!

Metteu-o em casa, e ficou á porta, a olhar para a rua. Rubião estacara o passo; ella pôde vel-o bem, com os seus gestos e fallares, o peito alto, e uma barretada que deu em volta.

--Os malucos teem graça, ás vezes, disse ella sorrindo a uma visinha.

Os rapazes continuavam a bradar e a rir, e Rubião foi andando, com o mesmo côro atraz de si. Deolindo, á porta da loja, vendo o grupo alongar-se, pedia chorosamente á mãe que o deixasse ir tambem, ou então que o levasse. Quando perdeu as esperanças, enfeixou todas as energias em um só gritosinho esganiçado:

--Ó gira!

CAPITULO CLXXXIII

A visinha riu-se. A mãe riu-se tambem. Confessou que o filho era uma péstesinha, um endiabrado, que não socegava; não podia perdel-o de vista. Qualquer distracção, estava na rua. E isto desde pequenino; tinha ainda dons annos, quando escapou de morrer em baixo de um carro, alli mesmo; esteve por um fio. Se não fosse um homem que passava, um senhor bem vestido, que acudiu depressa, até com perigo de vida, estaria morto e bem morto. Nisto o marido, que vinha pela calçada opposta, atravessou a ma, e interrompeu a conversação. Trazia o senho carregado, mal comprimentou a visinha, e entrou; a mulher foi ter com elle. Que era? O marido contou a surriada.

--Passou por aqui, disse ella.

--Não conheceste o homem?

--Não.

O marido cruzou os braços e ficou a olhar, fixo, calado. A mulher perguntou-lhe quem era.

--É aquelle homem que nos salvou o Deolindo da morte.

A mulher teve um calefrio.

--Viste bem? perguntou.

--Perfeitamente. Se eu já o tinha encontrado outras vezes, mas então não estava assim. Coitado! E a molecada berrava atraz delle. Qual! não ha policia nesta terra.

O que lhe doia á mulher não era tanto o mal do homem, nem ainda a surriada; mas a parte que teve nesta o filho,--a mesma creança que o homem salvara da morte. Realmente, como podia o menino reconhecel-o, nem saber que lhe devia a vida? Doia-lhe o encontro, a coincidencia. Afinal, contentou-se de pôr todas as culpas em si. Se tivesse tido mais cuidado, o pequeno não haveria sahido, e não entraria na troça. Tremia de quando em quando, e estava inquieta. O marido pegou na cabeça do filho, e deu-lhe dous beijos.

--Você viu a scena toda? perguntou á mulher.

--Vi.

--Eu ainda quiz dar o braço ao homem, e trazel-o para aqui; mas, tive vergonha; os moleques eram capazes de dar-me uma vaia. Desviei o rosto, porque elle podia conhecer-me. Coitado! Nota que não parecia ouvir nada, e seguia satisfeito, creio que até ria... Que triste cousa que é perder o juizo!

A mulher pensava na travessura do filho; não a referiu ao marido, pediu á visinha que não alludisse a ella, e, de noite, só pregou olho tarde. Mettera-se-lhe em cabeça que, annos depois, o filho endoudecia, era castigado pela mesma troça, e que ella cuspia para o céu, indignada, blasphemando.

CAPITULO CLXXXIV

Duas horas depois da scena da rua da Ajuda chegou Rubião á casa de D Fernanda. Os vadios foram-se dispersando, a pouco e pouco, e os claros não se preenchiam; os tres ultimos juntaram os seus adeuses em um berro unico e formidavel. Rubião continuou sosinho, mal percebido pelos moradores das casas, porque a gesticulação diminuia ou mudava de feitio. Não fallava para o lado da parede, á supposta imperatriz; mas era ainda imperador. Caminhava, parava, murmurava, sem grandes gestos, sonhando sempre, sempre, sempre, envolvido naquelle veo, atravez do qual todas as cousas eram outras, contrarias e melhores; cada lampião tinha um aspecto de camarista, cada esquina uma feição de resposteiro. Rubião seguia direito á sala do throno, para receber um embaixador qualquer, mas o paço era interminavel, cumpria atravessar muitas salas e galerias, verdade é que sobre tapetes,--e por entre alabardeiros, altos e robustos.

Das gentes que o viam e paravam na rua, ou se debruçavam das janellas, muitas suspendiam por instantes os seus pensamentos tristes ou enfastiados, as preoccupações do dia, os tedios, os resentimentos, este uma divida, outro uma doença, desprezos de amor, vilanias de amigo. Cada miseria esquecia-se, o que era melhor que consolar-se; mas o esquecimento durava um relampago. Passado o enfermo, a realidade empolgava-os outra vez, as ruas eram ruas, porque os paços sumptuosos iam com Rubião. E mais de um tinha pena do pobre diabo; comparando as duas fortunas, mais de um agradecia ao ceu a parte que lhe coube,--amarga, mas consciente. Preferiam o seu casebre real ao alcaçar phantasmagorico.

CAPITULO CLXXXV

Rubião foi recolhido a uma casa de saude. Palha esquecera a obrigação que Sophia lhe impoz, e Sophia não se lembrou mais da promessa feita á rio-grandense. Cuidavam ambos de outra casa, um palacete em Botafogo, cuja reconstrucção estava prestes a acabar, e que elles queriam inaugurar, no inverno, quando as camaras trabalhassem, e toda a gente houvesse descido de Petropolis. Mas agora a promessa foi cumprida; Rubião deu entrada no estabelecimento, onde ficou occupando uma sala e um quarto especiaes, recommendado pelo Dr. Falcão e pelo Palha. Não resistiu a nada; acompanhou-os com satisfação, e entrou nos seus aposentos, como se os conhecesse desde muito. Quando elles se despediram, dizendo que já voltavam, Rubião convidou-os para uma revista militar, no sabbado.

--Pois sim, sabbado, assentiu Falcão.

--Sabbado é bom dia, continuou Rubião. Não faltes, duque de Palha.

--Não falto, disse o Palha andando.

--Olha, mandar-te-hei um dos meus coches, novo em folha; é preciso que tua mulher pouse o seu lindo corpo, onde ninguem ainda ousou sentar-se. Almofadas de damasco e velludo, arreios de prata e rodas de ouro; os cavallos descendem do proprio cavallo que meu tio montava em Marengo. Adeus, duque de Palha.

CAPITULO CLXXXVI

--Para mim, é claro, sahiu pensando o Dr. Falcão, aquelle homem foi amante da mulher deste sujeito.

CAPITULO CLXXXVII

Lá ficou o homem. Quincas Borba tentára entrar na carruagem que levou o amigo, e porfiou em acompanhal-a, correndo; foi necessaria toda a força do criado para aggarral-o, contel-o e trancal-o em casa. Era a mesma situação de Barbacena; mas a vida, meu rico senhor, compõe-se rigorosamente de quatro ou cinco situações, que as circumstancias variam e multiplicam aos olhos. Rubião pediu instantemente que lhe mandassem o cão. D. Fernanda, alcançado o consentimento do director, cuidou de satisfazer o desejo do doente. Quiz escrever a Sophia, mas foi ella propria ao Flamengo.

CAPITULO CLXXXVIII

--Mando ver, é aqui perto, propôz Sophia.

--Vamos nós mesmas. Que tem? Já pensei em uma cousa. Valerá a pena conservar a casa prompta e alugada, quando a cura póde prolongar-se? Melhor é deixal-a, vender os trastes e apurar o que houver.

Foram a pé do Flamengo á rua do Principe; tres a quatro minutos. Raymundo estava na rua, mas viu gente á porta e veia abril-a. O interior da casa tinha a feição do abandono, sem a fixidez e regularidade das cousas, que parecem conservar um resto da vida interrompida; era o abandono do desmazelo. Mas, por outro lado, o transtorno dos moveis da sala exprimiam bem o delirio do morador, suas idéas tortas e confusas.

--Elle foi muito rico? perguntou D. Fernanda a Sophia.

--Tinha alguma cousa, respondeu esta, quando chegou de Minas; mas parece que estragou tudo. Olhe, levante o vestido que o chão parece que não se varre ha um seculo.

Não era só o chão; os trastes tinham a crosta da incuria. Nem por isso o creado explicava nada; olhava, escutava, e, baixinho, assobiava uma polka do dia. Sophia não lhe perguntou pelo asseio; estava morta por sahir «daquella immundicie», dizia a si mesma, e tinha vontade de fallar no cão, que era o principal motivo da visita; mas, não queria mostrar interesse por elle nem pelo resto. A trivialidade daquillo tudo não lhe dizia nada ao espirito nem ao coração; a lembrança do alienado não a ajudava a supportar o tempo. De si para si achava a companheira singularmente romantica ou affectada. «Que Bobagem!» ia pensando, sem desconcertar o sorriso approvador com que acudia a todas as observações de D. Fernanda.

--Abra aquella janella, disse esta ao creado; tudo cheira a mofo.

--Oh! insupportavel! acudiu Sophia, respirando com asco.

Mas, apezar da exclamação, D. Fernanda não se resolveu a sahir. Sem que nenhuma recordação pessoal lhe viesse daquella miseravel estancia, sentia-se presa de uma commoção particular e profunda, não a que dá a ruina das cousas. Aquelle expectaculo não lhe trazia um thema de reflexões geraes, não lhe ensinava a fragilidade dos tempos, nem a tristeza do mundo; dizia-lhe tão somente a molestia de um homem, de um homem que ella mal conhecia, a quem fallára algumas vezes. E ia ficando e olhando, sem pensar, sem deduzir, mettida em si mesma, dolente e muda. Sophia não ousava articular nada, com receio de ser desagradavel a tão conspicua dama. Tinham ambas os vestidos apanhados, para evitar a macula da poeira; mas Sophia accrescentou a essa precaução a agitação viva, continua e impaciente da ventarola, como pessoa que suffocasse naquella atmosphera. Chegou a tossir algumas vezes.

--E o cachorro? perguntou D. Fernanda ao creado.

--Está preso no quarto, lá dentro.

--Vá buscal-o.

Quincas Borba appareceu. Magro, abatido, parou á porta da sala, estranhando as duas senhoras, mas sem latir; mal erguia os olhos apagados. Chegou a dar meia volta ao corpo na direcção do interior da casa, quando D. Fernanda fez uns estalinhos com os dedos; elle parou, agitando a cauda.

--Como é mesmo que se chama? perguntou a D. Fernanda.

--Quincas Borba, respondeu o criado, rindo, com a voz arrastada. Tem nome de gente. Eh! Quincas Borba! vae lá! a senhora está chamando.

--Quincas Borba! vem cá! Quincas Borba! repetiu D. Fernanda.

Quincas Buba acudiu ao chamado, não pulando, nem alegre. D. Fernanda inclinou-se, fallou-lhe, perguntou-lhe pelo amigo, se estava longe, se queria ir vel-o. Assim mesmo inclinada, interrogava o creado sobre o trato do cão.

--Agora come, sim, senhora; logo que meu amo sahiu, não queria comer nem beber;--eu até pensei que estivesse damnado.

--Come bem?

--Come pouco.

--Procura pelo senhor?

--Parece que procura, respondeu Raymundo tapando o riso com a mão; mas eu tranquei elle no quarto, para não fugir. Já não chora; a principio chorava muito, que até me accordava... Era preciso eu bater com um cacete na porta e gritar, para elle socegar...

D. Fernanda coçava a cabeça do animal, cujos olhos, de mortos que eram, tornaram-se languidos. Era o primeiro affago depois de longos dias de solidão e desprezo. Quando D. Fernanda cessou de acaricial-o, e levantou o corpo, elle ficou a olhar para ella, e ella para elle, tão fixos e tão profundos, que pareciam penetrar no intimo um do outro. A sympathia universal, que era a alma desta senhora, esquecia toda a consideração humana deante daquella miseria obscura e prosaica, e estendia ao animal uma parte de si mesma, que o envolvia, que o fascinava, que o atava aos pés della. Assim, a pena que lhe dava o delirio do senhor, dava-lhe agora o proprio cão, como se ambos representassem a mesma especie. E sentindo que a sua presença levava ao animal uma sensação boa, não queria prival-o do beneficio.

--A senhora está-se enchendo de pulgas, observou Sophia.

D. Fernanda não a ouviu. Continuou a mirar os olhos meigos e tristes do animal, até que este deixou cahir a cabeça e entrou a farejar a sala. Sentira o cheiro do senhor. A porta da rua estava aberta; elle teria fugido por ella, se Raymundo não acudisse a prendel-o. D. Fernanda deu algum dinheiro ao creado para que o fosse lavar e conduzir á casa de saude, recommendande-lhe o maior cuidado, que o levasse ao collo, ou preso por um cordão. Nesta parte acudiu tambem Sophia, ordenando que a procurasse antes, em casa.

CAPITULO CLXXXIX

Sahiram. Sophia, antes de por o pé na rua, olhou para um e outro lado, espreitando se vinha alguem; felizmente, a rua estava deserta. Ao ver se livre da possilga, Sophia readquiriu o uso das boas palavras, a arte maviosa e delicada de captar os outros, e enfiou amorosamente o braço no de D. Fernanda. Fallou-lhe de Rubião e da grande desgraça da loucura; fallou tambem do palacete de Botafogo. Porque não ia com ella ver as obras? Era só lanchar um pouco, e partiriam immediatamente.

CAPITULO CXC

Sobreveiu um successo que distrahiu D. Fernanda do Rubião; foi o nascimento de uma filha de Maria Benedicta. Ella correu á Tijuca, encheu de beijos a mãe e a creança, deu a mão a beijar a Carlos Maria.

--Sempre exuberante! exclamou o joven pae, obedecendo.

--Sempre seccarrão! retorquiu ella.

Apesar da resistencia do primo, D. Fernanda acompanhou a convalescença de Maria Benedicta, tão cordial, tão boa, tão alegre, que era um encanto conserval-a em casa. A felicidade d'aqui fel-a esquecer a desgraça d'acolá; mas, convalescida a recente mãe, D. Fernanda acudiu ao enfermo.

CAPITULO CXCI

«Conto restituil-o á razão no fim de seis ou oito mezes. Vae muito bem.»

D. Fernanda mandou a Sophia esta resposta do director da casa de saude, e convidou-a a irem ver o enfermo, se achasse que não lhes ficava mal. «Que mal póde haver? respondeu Sophia em um bilhete. Mas eu é que não teria animo de vel-o; foi tão nosso amigo, que não sei se poderia supportar a vista e a conversação do pobre homem. Mostrei a carta a Christiano, que me declarou ter liquidado os bens do Sr. Rubião: apurou tres contos e duzentos.»

CAPITULO CXCII

--Seis mezes, oito mezes passam depressa, reflexionou D. Fernanda.

E elles vieram vindo, com os successos ás costas,--a queda do ministerio, a subida de outro em março, a volta do marido, a discussão da lei dos ingenuos, a morte do noivo de D. Tonica, tres dias antes de casar. D. Tonica espremeu as ultimas lagrymas,--umas de amizade, outras de desesperança,--e ficou com os olhos tão vermelhos, que pareciam doentes.

Theophilo, que merecera do novo gabinete a mesma confiança do antigo, teve parte copiosa nos debates da sessão parlamentar. Camacho declarou pela sua folha que a lei dos ingenuos absolvia a esterilidade e os crimes da situação. Em Outubro, Sophia inaugurou os seus salões de Botafogo, com um baile, que foi o mais celebre do tempo. Estava deslumbrante. Ostentava, sem orgulho, todos os seus braços e espaduas. Ricas joias; o collar era ainda um dos primeiros presentes do Rubião, tão certo é que, neste genero de atavios, as modas conservam-se mais. Toda a gente admirava a gentileza daquella trintona fresca e robusta; alguns homens faltavam (com pena!) das suas virtudes conjugaes, da profunda adoração que ella tinha ao marido.

CAPITULO CXCIII

No dia seguinte ao baile, D, Fernanda accordou tarde. Foi ao gabinete do marido, que já devorara cinco ou seis jornaes, escrevera dez cartas e rectificava a posição de alguns livros nas estantes.

--Recebi esta carta, ha pouco, disse elle.

D. Fernanda leu-a; era do director da casa de saude; noticiava que Rubião, desde tres dias, desapparecera, não tendo podido ser encontrado por mais esforços que houvessem empregado a policia e elle. «Tanto mais me espanta esta fuga, concluia a carta, quanto que as melhoras eram grandes, e podia contar que, em dous mezes, o poria inteiramente bom.»

D. Fernanda ficou consternada; alcançou do marido que escrevesse ao chefe de policia e ao ministro da justiça, pedindo-lhes que ordenassem as mais severas pesquizas. Theophilo não tinha o menor interesse no achado nem na cura de Rubião; mas quiz servir á mulher cuja bondade conhecia, e, porventura, gostava de cartear-se com os homens da alta administração.

CAPITULO CXCIV

Como achar, porém, o nosso Rubião nem o cachorro, se ambos haviam partido para Barbacena? Oito dias antes, Rubião escrevera ao Palha que lhe fosse fallar; este acudia á casa de saude, viu que elle raciocinava claramente, sem a menor sombra de delirio.

--Tive uma crise mental, disse-lhe Rubião; agora estou bom, perfeitamente bom. Peço-lhe que me ponha fóra daqui. Creio que o director não se opporá. Entretanto, como quero deixar algumas lembranças á gente que me tem servido, e servido tambem ao Quincas Borba, veja se me póde adiantar cem mil réis.

Palha abriu a carteira sem hesitação, e deu-lhe o dinheiro.

--Vou tratar de o fazer sair, disse elle; mas, provavelmente são precisos alguns dias (estava em vesperas do baile); não se afflija por isso; daqui a uma semana está na rua.

Antes de sair, falou ao director, que lhe deu boas noticias do enfermo. Uma semana é pouco, disse elle; para pôl-o bom, bom, preciso ainda uns dous mezes. Palha confessou que o achára são; em todo caso, mandava quem sabia, e se fossem necessarios seis ou sete mezes mais, não precipitasse a alta.

CAPITULO CXCV

Rubião, logo que chegou a Barbacena e começou a subir a rua que ora se chama de Tiradentes, exclamou parando:

--Ao vencedor, as batatas!

Tinha-as esquecido de todo, a formula e a allegoria. De repente, como se as syllabas houvessem ficado no ar, intactas, aguardando alguem que as podesse entender, uniu-as, recompoz a formula, e proferiu-a com a mesma emphasis daquelle dia em que a tomou por lei da vida e da verdade. Não se lembrava inteiramente da allegoria; mas, a palavra deu-lhe o sentido vago da luta e da victoria.

Subiu, acompanhado do cão, e foi parar defronte da egreja. Ninguem lhe abriu a porta; não viu sombra de sacristão. Quincas Borba, que não comia desde muitas horas, collava-se-lhe ás pernas, cabisbaixo, esperando. Rubião voltou-se, e do alto da rua estendeu os olhos abaixo e ao longe. Era ella, era Barbacena; a velha cidade natal ia-se-lhe desentranhando das profundas camadas da memoria. Era ella; aqui estava a egreja, alli a cadeia, acolá a pharmacia, donde vinham os medicamentos para o outro Quincas Borba. Sabia que era ella, quando chegou; mas, á medida que os olhos se derramavam, as reminiscencias vinham vindo, escassas, mais numerosas, em bando. Não via ninguem; uma janella, a esquerda, parecia ter alguem que espiava. Tudo o mais deserto.

--Talvez não saibam que cheguei, pensou Rubião.

CAPITULO CXCVI

Subito, relampejou; as nuvens amontoavam-se ás pressas. Relampejou mais forte, e estalou um trovão. Começou a choviscar grosso, mais grosso, até que desabou a tempestade. Rubião, que aos primeiros pingos, deixara a egreja, foi andando rua abaixo, seguido sempre do cão, faminto e fiel, ambos tontos, debaixo do aguaceiro, sem destino, sem esperança de pouso ou de comida... A chuva batia-lhes sem misericordia. Não podiam correr, porque Rubião temia escorregar e cahir, e o cão não queria perdel-o. A meia rua, acudiu á memoria do Rubião a pharmacia, voltou para traz, subindo contra o vento, que lhe dava de cara; mas ao fim de vinte passos, varreu-se-lhe a ideia da cabeça; adeus, pharmacia! adeus, pouso! Já se não lembrava do motivo que o fizera mudar de rumo, e desceu outra vez, e o cão atraz, sem entender nem fugir, um e outro alagados, confusos, ao som da trovoada rija e continua.

CAPITULO CXCVII

Vagaram sem destino. O estomago de Rubião interrogava, exclamava, intimava; por fortuna, o delirio vinha enganar a necessidade com os seus banquetes das Tulherias. Quincas Borba é que não tinha egual recurso. E toca a andar acima e abaixo. Rubião, de quando em quando, sentava-se no lagedo, e o cão trepava-lhe ás pernas, para dormir a fome; achava as calças molhadas, e descia; mas tornava logo a subir, tão frio era o ar da noite, já noite alta, já noite morta. Rubião passava-lhe as mãos por cima, resmungando algumas palavras magras.

Se, apezar de tudo, Quincas Borba conseguia adormecer, accordava logo, porque Rubião levantava-se e punha-se outra vez a descer e subir ladeiras. Soprava um triste vento, que parecia faca, e dava arrepios aos dois vagabundos. Rubião andava de vagar; o proprio cançaço não lhe permittia as grandes pernadas do principio, quando a chuva cabia em bategas. As paradas eram agora mais frequentes. O cão, morto de fome e de fadiga, não entendia aquella odysséa, ignorava o motivo, esquecera o logar, não ouvia nada, senão as vozes surdas do senhor. Não podia ver as estrellas, que já então rutilavam, livres de nuvens. Rubião descobriu-as; chegara á porta da egreja, como quando entrou na cidade; acabava de sentar-se e deu com ellas. Estavam tão bonitas, reconheceu que eram os lustres do grande salão e ordenou que os apagassem. Não pôde ver a execução da ordem; adormeceu alli mesmo, com o cão ao pé de si. Quando accordaram de manhã, estavam tão juntinhos que pareciam pegados.

CAPITULO CXCVIII

--Ao vencedor, as batatas! exclamou Rubião quando deu com os olhos na rua, sem noite, sem agua, beijada do sol.

CAPITULO CXCIX

Foi a comadre do Rubião, que o agasalhou e mais ao cachorro, vendo-os passar defronte da porta. Rubião conheceu-a, aceitou o abrigo e o almoço.

--Mas que é isso, seu compadre? Como foi que chegou assim? Sua roupa está toda molhada. Vou dar-lhe umas calças de meu sobrinho.