Part 18
O marido sorriu e tornou á revista ingleza. Ella, encostada á poltrona, passava-lhe os dedos pelos cabellos, muito ao de leve e caladinha para não perturbal-o. Elle ia lendo, lendo, lendo. Maria Benedicta foi attenuando a caricia, retirando os dedos aos poucos, até que sahiu da sala, onde Carlos Maria continuou a ler um estudo de Sir Charles Little, M. P., sobre a famosa estatueta de Narciso, do Museu de Napoles.
CAPITULO CLXXIV
Quando Rubião foi á casa de D. Fernanda, á tardinha, ouviu do criado que não podia subir. A senhora estava incommodada; o senhor estava com ella; parece que esperavam o medico. O nosso amigo não teimou, e sahiu.
Era o contrario; era o senhor que estava doente, e a senhora que o acompanhava; mas o criado não podia trocar o recado que lhe deram. Outro criado desconfiou, é certo, que o doente fosse elle e não ella, porque o vira entrar abatido. Em cima, no quarto delles, havia algum rumor de vozes, ora alto, ora baixo, com intervallos de silencio. Uma criadinha, que subira pé ante pé, desceu dizendo que ouvira lastimar-se o amo; provavelmente a senhora estava perdida. Em baixo, um palavrear surdo, ouvidos compridos, conjecturas; notavam que de cima não pedissem agua, qualquer remedio, um caldo, ao menos. A meza posta, o criado engravatado, o cozinheiro orgulhoso e ancioso... Justamente, um dos melhores jantares!
Que era? Theophilo tinha ainda o gesto abatido com que entrou; estava sentado em um canapé, sem collete, olhos fixos. Ao pé delle, sentada tambem, segurando-lhe uma das mãos, D. Fernanda pedia-lhe que socegasse, que não valia a pena. E inclinava-se para ver-lhe o rosto, chamava-o para si, queria que elle encostasse a cabeça ao hombro della...
--Deixa, deixei, murmurava o marido.
--Não vale a pena, Theophilo! Pois agora um ministerio...? Valerá tanto um cargo de pouco tempo, cheio de desgostos, insultos, trabalhos, para que? Não é melhor a vida tranquilla? Vá que haja injustiça; creio que sim, você tem serviços; mas será tamanha perda assim? Anda, querido, socega; vamos jantar.
Theophilo mordia os beiços, puxando uma das soiças. Não ouvira nada do que a mulher dissera, nem exhortações nem consolações. Ouvia as conversas da noite anterior e daquella manhã, as combinações politicas, os nomes lembrados, os recusados e os acceitos. Nenhuma combinação o incluiu, posto que elle fallasse com muita gente ácerca do verdadeiro aspecto da situação. Era ouvido com attenção por uns, com impaciencia por outros. Uma vez, os oculos do organisador pareceram interrogal-o,--mas foi rapido o gesto e illusorio. Theophilo recompunha agora a agitação de tantas horas e logares,--lembrava os que o olhavam de esguelha, os que sorriam, os que trariam a mesma cara que elle. Para o fim já não fallava; as ultimas esperanças estalavam-lhe nos olhos como lamparina de madrugada. Ouvira os nomes dos ministros, fora obrigado a achal-os bons; mas que força não lhe era precisa para articular alguma palavra! Receiava que lhe descobrissem o abatimento ou despeito, e todos os seus esforços concluiam por accentual-os ainda mais. Empallidecia, tremiam lhe os dedos.
CAPITULO CLXXV
--Anda, vamos jantar, repetiu D. Fernanda.
Theophilo deu um golpe no joelho, com a mão aberta, e levantou-se, dizendo palavras soltas e raivosas, andando de um lado para outro, batendo o pé, ameaçando. D. Fernanda não pôde vencer a violencia daquelle novo accesso, esperou que fosse curto, e foi curto; Theophilo chegou-se a uma poltrona, sacudiu a cabeça e cahiu outra vez prostrado. D. Fernanda pegou de uma cadeira e sentou-se ao pé delle. Os olhos com que lhe fallou não tinham a doçura captiva e dependente de Maria Benedicta, para quem o marido era tudo debaixo do sol. Não era bem a esposa que fallava, mas uma creatura humana que via padecer outra.
--Tens razão, Theophilo; mas é preciso ser homem. És moço e forte, tens ainda futuro, e talvez grande futuro. Quem sabe se, entrando agora no ministerio, não perderias mais tarde? Entrarás em outro. Ás vezes, o que parece desgraça é felicidade.
Theophilo apertou-lhe a mão agradecido.
--É perfidia, é intriga, murmurava elle, olhando para ella; eu conheço toda essa canalha. Si eu contasse a você tudo, tudo... Mas para que? Prefiro esquecer... Não é por causa de uma miseravel pasta que estou aborrecido, continuou elle depois de alguns instantes. Pastas não valem nada. Quem sabe trabalhar e tem talento póde zombar das pastas, e mostrar que é superior a ellas. A maior parte dessa gente, Nanan, não me chega aos calcanhares. Disso estou certo e elles tambem. Sucia de intrigantes! Onde acharão mais sinceridade, mais fidelidade, mais ardor para a luta? Quem trabalhou mais na imprensa, no tempo do ostracismo? Desculpam-se; dizem que os gabinetes já vem organisados de S. Christovão... Ah! eu quizera fallar ao Imperador!
--Theophilo!
--Eu diria ao Imperador: «Senhor, Vossa Magestade não sabe o que é essa politica de corredores, esses arranjos de camarilha. Vossa Magestade quer que os melhores trabalhem nos seus conselhos, mas os mediocres é que se arranjam... O merecimento fica para o lado.» É o que lhe heide dizer um dia; póde ser até que amanhã...
Calou-se. Depois de longa pausa, ergueu-se e foi ao gabinete de trabalho, que ficava ao pé do quarto; a mulher acompanhou-o.
Era já escuro, accendeu o bico de gaz, e circulou pelo gabinete os olhos velados de melancholia. Havia alli quatro largas estantes cheias de livros, de relatorios, de orçamentos, de balanços do Thesouro. A secretária estava em ordem. Tres armarios altos, sem portas, guardavam os manuscriptos, notas, lembranças calculos, apontamentos, tudo empilhado e rotulado methodicamente;--_creditos extraordinarios,--creditos supplementares,--creditos de guerra--creditos de marinha,--emprestimo de 1868,--estradas de ferro,--divida interna,--exercicio de 61-62,--de 62-63,--de 63-64, etc._ Era alli que trabalhava de manhã e de noite, som mando, calculando, recolhendo os elementos dos seus discursos e pareceres porque era membro de tres commissões parlamentares, e trabalhava geralmente por si e pelos seis collegas; estes ouviam e assignavam. Um delles, quando os pareceres eram extensos, assignava-os sem ouvir.
--Homem, você é mestre e basta, dizia-lhe, dê cá a penna.
Tudo alli respirava attenção, cuidado, trabalho assiduo, meticuloso e util. Da parede, em ganchos, pendiam os jornaes da semana, que eram depois tirados, guardados e finalmente encadernados semestralmente, para consultas. Os discursos do deputado, impressos e brochados em-4° enfileiravam-se em uma estante. Nenhum quadro ou busto, adereço, nada para recrear, nada para admirar;--tudo secco, exacto, administrativo.
--De que vale tudo isto? perguntou Theophilo á mulher, após alguns instantes de contemplação triste. Horas cançadas, longas horas da noite até madrugada, ás vezes... Não se dirá que este gabinete é de homem vadio; aqui trabalha-se. Você é testemunha que eu trabalho. Tudo para que?
--Consola-te trabalhando, murmurou ella.
Elle, acerbo:
--Ruim consolação! Não, não, acabo com isto, passo a ignorar tudo. Olha, na camara, todos me consultam, até os ministros--porque sabem que eu applico-me deveras ás cousas da administração. Que premio? Vir para cá, em maio, applaudir os novos senhores?
--Pois não applaudas nada, disse-lhe mansamente a mulher. Queres fazer-me um obsequio? Vamos á Europa, em março ou abril, e voltemos d'aqui a um anno. Pede licença á camara, d'onde quer que estejamos,--de Varsovia, por exemplo; tenho muita vontade de ir a Varsovia, continuou sorrindo e fechando-lhe graciosamente a cara entre as mãos. Diga que sim; responda que é para eu escrever hoje mesmo para o Rio Grande, o vapor sae amanhã. Está dito; vamos a Varsovia?
--Não brinques, Nanan, que isto não é objecto de brincadeira.
--Falo seriamente. Já ha muito tempo que ando para propor a você uma viagem, a ver se descança desta papelada infernal. É demais, Theophilo! Você mal se pode arranjar depois para uma visita. Passeio, é raro. Quasi não conversa. Os nossos filhos mal veem seu pae, porque aqui não se entra quando você trabalha... É preciso descançar; peço-lhe um anno de repouso. Olhe que é serio. Vamos para a Europa em março.
--Não pode ser, balbuciou elle.
--Porque não?
Não podia ser. Era convidal-o a sahir da propria pelle. Politica valia tudo. Que tambem houvesse politica lá fora, sim; mas que tinha elle com ella? Theophilo não sabia nada do que ia por fora, excepto a nossa divida em Londres, e meia duzia de economistas. Comtudo, agradeceu á mulher a intenção da proposta:
--Tu és bôa.
E um sentimento vago de esperança restituia á voz do deputado a brandura que perdera naquella grande crise moral. Os papeis sopravam-lhe animo. Toda aquella massa de estudos apparecia-lhe como a terra adubada e semeada aos olhos do lavrador. Não tardaria a grelar; o trabalho teria a recompensa; um dia mais tarde ou mais cedo, o grelo brotaria e a arvore daria fructos. Era justamente o que a mulher havia dito por outras palavras directas e proprias; mas só agora é que elle via a possibilidade da colheita. Lembrou-se das explosões de colera, de indignação, de desespero, das queixas de ha pouco, ficou vexado. Quiz rir, e fel-o mal. Ao jantar e ao café entreteve-se com os filhos, que naquella noite recolheram-se mais tarde. Nuno, que já andava no collegio, onde ouvira falar da mudança de gabinete, disse ao pae que queria ser ministro.
Theophilo ficou serio.
--Meu filho, disse elle, escolhe outra cousa, menos ministro.
--Diz que é bonito, papae; diz que anda de carro com soldado atraz.
--Pois eu te dou um carro.
--Papae já foi ministro?
Theophilo tentou sorrir e olhou para a mulher, que aproveitou a occasião para mandar deitar os filhos.
--Já, já fui ministro, respondeu o pae beijando a testa ao Nuno; mas não quero mais, é muito feio, dá trabalho. Tu has de ser capellão.
--Que é capellão?
--Capellão é cama, respondeu D. Fernanda; vae dormir, Nuno.
CAPITULO CLXXVI
Ao almoço, no dia seguinte, Theophilo recebeu uma carta por uma ordenança.
--Ordenança?
--Sim, senhor, diz que vem da parte do Sr. presidente do conselho.
Theophilo abriu a carta, com a mão tremula. Que podia ser? Tinha lido nos jornaes a relação dos novos ministros; o gabinete estava completo. Não havia divergencia de nomes. Que podia ser? D. Fernanda, defronte do marido, procurava ler-lhe no rosto o texto da carta. Via uma claridade; percebeu que a boca soffreava um sorriso de satisfação,--de esperança, ao menos.
--Diga que espere, ordenou Theophilo ao creado.
Foi ao gabinete, e tornou minutos depois com a resposta. Sentou-se á mesa, calado, dando tempo a que o creado entregasse a carta á ordenança. Desta vez, como estava prevenido, ouviu as patas do cavallo, e logo depois a galope, rua fóra e sentiu-se bem.
--Lê, disse elle.
D. Fernanda leu a carta do presidente do conselho; era um pedido para ir falar-lhe ás duas horas da tarde.
--Mas então o ministerio...?
--Está completo, deu-se pressa em dizer o deputado; os ministros estão nomeados.
Não acreditava de todo o que dizia. Imaginava alguma vaga da ultima hora, e a necessidade urgente de a preencher.
--Hade ser alguma conferencia politica, ou talvez queira conversar sobre o orçamento,--ou incubir-me algum estudo.
Dizendo isto, para illudir a mulher, sentiu a probabilidade das hypotheses, e outra vez se abateu; mas, tres minutos depois, as borboletas da esperança volteavam deante delle, não duas, nem quatro, mas um turbilhão, que cegava o ar.
CAPITULO CLXXVII
D. Fernanda esperou, cheia de ancias, como se o ministerio fosse para ella, e lhe viesse dar qualquer gosto, que não fosso amargo o complicado. Uma vez, porém, que satisfizesse o marido, tudo iria pelo melhor. Theophilo tornou ás cinco horas e meia. Pelo aspecto reconheceu que vinha satisfeito. Correu a apertar-lhe as mãos.
--Que ha?
--Pobre Nanan! Ahi vamos com a trouxa ás costas. O marquez pediu-me instantemente que acceitas-se uma presidencia de primeira ordem. Não podendo metter-me no gabinete, onde tinha logar marcado, desejava, queria e pedia que eu partilhasse a responsabilidade politica e administrativa do governo, assumindo uma presidencia. Não podia, em nenhum caso, dispensar o meu prestigio (são palavras delle), e espera que na camara acceite o logar de chefe de maioria. Que dizes?
--Que arranjemos a trouxa, respondeu D. Fernanda.
--Achas que podia recusar?
--Não.
--Não podia. Você sabe, não se podem negar serviços destes a um governo amigo; ou então deixa-se a politica. Tratou-me muito bem o marquez; eu já sabia que era homem superior; mas que risonho e affavel! não imaginas. Quer tambem que compareça a uma reunião intima, os ministros e alguns amigos, poucos, meia duzia. Confiou-me já o programma do gabinete, em reserva...
--Quando sahimos?
--Não sei; heide estar com elle amanhã, á noite. A reunião é amanhã ás oito horas... Mas não te parece que fiz bem, acceitando?
--De certo.
--Sim; se recusasse censurar-me-hiam, e com razão. Em politica, a primeira cousa que se perde é a liberdade. Agora você é que se quizesse, podia ficar; daqui a cinco mezes,--ou quatro,--abrem-se as camaras; mal terei tempo de chegar e olhar.
CAPITULO CLXXVIII
D. Fernanda acceitou a proposta; não interrompia a educação do filho; era uma separação de quatro mezes. Theophilo partiu d'ahi a dias. Na manhã do dia do embarque, logo cedo, foi despedir-se do gabinete de trabalho. Deitou os ultimos olhos aos livros, relatorios, orçamentos, manuscriptos, a toda essa parte da familia, que só tinha lingua e interesse para elle. Havia atado os papeis e os folhetos para que se não extraviassem, e fez á mulher grandes recommendações. Parado no centro, circulou a vista pelas estantes, e dispersou a alma por todas ellas. Despedia-se assim dos seus santos e amigos, com verdadeiras saudades. D. Fernanda, que estava ao pé delle, não viveu alli mais que os dez minutos da despedida. Theophilo viveu muitos annos.
--Deixa estar, eu cuidarei delles, eu mesma os espanarei todos os dias.
Theophilo deu-lhe um beijo... Outra mulher recebel-o-hia meia triste, por ver que elle amava tanto os livros que parecia amal-os mais que a ella. Mas D. Fernanda sentiu-se venturosa.
CAPITULO CLXXIX
Rubião, desde o dia da crise ministerial, não tornou á casa de D. Fernanda; nada soube, nem da presidencia, nem do embarque de Theophilo. Vivia entre o cão e um creado, sem grandes crises, nem longos repousos. O creado fazia o serviço irregularmente, comia gratificações, e recebia, a miudo, o titulo de marquez. Ao demais, divertia-se. Quando lhe dava ao amo para conversar com as paredes, o creado corria a espial-o; assistia ao dialogo, porque o Rubião incumbia-se das palavras dellas, respondendo como se houvessem feito alguma pergunta. De noite, ia á palestra com os amigos da visinhança.
--Como vae o gira?
--O gira vae bem. Hoje convidou o cachorro para cantar; o cachorro ladrau muito, e elle gostou que se pellou, mas assim um gosto de figurão. Elle, quando está de pancada, parece que é como quem governa o mundo. Ainda hontem, almoçando, fallou para mim: «Marquez Raymundo... quero que tu ..» e embrulhou o resto, que não entendi nada. No fim deu-me dez tostões.
--Você guardou logo...
--Ora!
Quando Rubião voltava do delirio, toda aquella fantasmagoria palavrosa tornava-se, por instantes, uma tristeza calada. A consciencia, onde ficavam rastos do estado anterior, forcejava por despegal-os de si. Era como a ascensão dolorosa que um homem fizesse do abysmo, trepando pelas paredes, arrancando a pelle, deixando as unhas, para chegar a cima, para não cahir outra vez e perder-se. Ia então á visita dos amigos, uns novos, outros velhos, como a gente do major e a do Camacho, por exemplo.
Este, desde algum tempo, era menos conversado. A mesma politica não lhe dava materia aos discursos de outr'ora. No escriptorio, quando via Rubião assomar á porta, fazia um gesto de impaciencia, que soffreava logo; o outro notava essa mudança, e perdia-se em conjecturas, se lhe sahira alguma offensa, por descuido--ou se começava a aborrecel-o. E para desfazer o tedio ou o resentimento, fallava macio, risonho, abrindo longas pausas respeitosas, á espera que elle dissesse qualquer cousa. Em vão appellava para o marquez de Paraná, cujo retrato continuava a pender da parede; repetia os nomes que lhe ouvira,--o grande marquez! o estadista consummado! Camacho ia apoiando de cabeça, e escrevendo sem parar, consultando os autos e os praxistas, Lobão, Coelho da Rocha, citando, riscando, pedindo-lhe desculpa. Tinha um libello que dar naquelle dia. Interrompia-se para ir á estante.
--Com licença...
Rubião arredava as pernas para deixal-o passar; elle tirava um volume das Ordenações do Reino, e folheava, folheava, pulando adiante, voltando atraz, atoa, sem buscar nada, unicamente para o fim de despedir o importuno; mas o importuno ia ficando, por isso mesmo, e entreolhavam-se disfarçados. Camacho tornava ao libello. Para ler, sentado, inclinava-se muito á esquerda, donde lhe vinha a luz, dando as costas ao Rubião.
--Aqui é escuro, aventurou Rubião um dia.
E não ouviu resposta, tão attento parecia o advogado na leitura dos autos. Realmente, póde ser importunação, pensou o nosso amigo. Espreitava-lhe o rosto duro e serio, o gesto com que pegava da penna para continuar o interminavel libello. Vinte minutos mais de silencio absoluto. No fim desse prazo, Rubião viu-o deixar a penna, retesar o busto, esticar os braços e passar as mãos pelos olhos. Disse-lhe com interesse:
--Cançado, não?
Camacho fez um gesto afirmativo, e preparou-se para continuar; então o nosso homem levantou-se e aproveitou o intervallo para dizer adeus.
--Voltarei, quando estiver menos atarefado.
Estendeu lhe a mão; Camacho segurou-lh'a ao de leve, e tornou ao papel. Rubião desceu a escada, aturdido, magoado com a frieza do seu illustre amigo. Que lhe teria feito?
CAPITULO CLXXX
Daquella vez, teve a fortuna de encontrar o major Sequeira.
--Ia agora mesmo á sua casa, disse-lhe; vae para lá?
--Vou; mas já não estamos na mesma casa; mudamo-nos para os Cajueiros, rua da Princeza...
--Seja onde for, vamos.
Rubião precisava de um pedaço de corda que o atasse á realidade, porque o espirito sentia-se outra vez presa da vertigem. Entretanto, fallou com tanto acerto e propriedade, que o major o achou em pleno juizo, e disse-lhe:
--Sabe que tenho uma grande noticia que lhe dar?
--Vamos a ella.
--Ha de ser quando chegarmos.
Chegaram. Era uma casa assobradada; D. Tonica veiu abrir-lhes a cancella. Trazia um vestido novo e brincos.
--Olhe bem para ella, disse o major pegando na filha pelo queixo.
D. Tonica recuou envergonhada.
--Estou olhando, respondeu Rubião.
--Não se vê logo que é uma pessoa que vae casar?
--Ah! parabéns!
--É verdade, vae casar. Custou, mas acertou. Achou por ahi um noivo, que a adora, como todos elles; eu, quando fui noivo, adorei a minha defuncta, que foi urna cousa nunca vista... Vae casar. Arranjou um noivo. Custou, mas acertou. Pessoa seria, meia edade; vem aqui passar as noites. De manhã, quando passa para a repartição, creio que bate na janella, ou ella já o espera; eu finjo que não percebo...
D. Tonica dizia com a cabeça que não, mas sorrindo de modo que parecia dizer que sim. Estava tão buliçosa! Nem se lembrava já que requestára o Rubião, que este fora uma das ultimas, e por fim a ultima das suas esperanças. Tinham entrado na sala; D. Tonica foi á janella, voltou, cabeça alta, andando atoa, reconciliada com a vida.
--Boa pessoa, repetiu o major, boa creatura... Tonica, vae buscar o retrato... Anda, vae buscar o teu noivo...
D. Tonica foi buscar o retrato. Era uma photographia; representava um homem de meia edade, cabello curto, raro, olhando espantado para a gente, cara chupada, pescoço fino e paletot abotoado.
--Que lhe parece?
--Muito bem.
D. Tonica recebeu o retrato e fitou-o alguns instantes; mas, tirou logo os olhos, e deixou-se estar sentada, emquanto a imaginação saiu a esperar o Rodrigues. Chamava-se Rodrigues. Era mais baixo que ella,--cousa que o retrato não dava,--e empregado em uma repartição do ministerio da guerra. Viuvo, com dons filhos, um que estava no batalhão dos menores, outro que era tuberculoso,--doze annos,--condemnado á morte. Que importa? Era o noivo; todas as noites, ao recolher se, D. Tonica ajoelhava-se ante a imagem de Nossa Senhora, sua madrinha, agradecia-lhe o favor e pedia-lhe que a fizesse feliz. Sonhava já com um filho; havia de chamar-lhe Alvaro.
CAPITULO CLXXXI
Rubião escutou calado um discurso do major. O casamento era dalli a mez e meio; o noivo tinha que perfazer os arranjos da casa, não era capitalista, vivia do ordenado e recorrera a emprestimos. A casa era a mesma e não exigia trastes novos nem ricos; mas, ha sempre algumas necessidades... Em summa, dalli a mez e meio, ou pelo menos, cinco semanas, estariam unidos pelos santos laços do matrimonio.
--E fico eu livre do trambolho, concluiu o major.
--Oh! protestou Rubião.
A filha ria-se; estava acostumada ás graças do pae, e tão disposta á alegria que nada a vexava; ainda mesmo que o pae se referisse aos seus quarenta annos passados não lhe daria grande golpe. Todas as noivas têm quinze annos.
--Verá como elle ha de procural-a depois, com saudades disse Rubião a D. Tonica.
--Qual! Talvez eu me case tambem!
Rubião levantou-se repentino, e deu alguns passos; o major não viu a expressão do rosto, não percebeu que o espirito do homem ia talvez descarrilhar, e que elle mesmo o presentia. Disse-lhe que se sentasse, e contou-lhe os seus tempos de casado e de campanha. Quando chegou á narração da batalha de Monte-Caseros, com as marchas e contra-marchas proprias do seu discurso, tinha deante de si Napoleão III. Calado a principio, Rubião proferiu algumas palavras de applauso, fallou de Solferino, de Magenta, prometteu ao Sequeira uma condecoração. Pae e filha entre-olharam-se; o major disse que vinha muita chuva. Com effeito, escurecera um pouco. Era melhor que Rubião fosse, antes de cahir agua; não trouxera guarda-chuva, o delle era velho e unico...
--Ahi vem o meu coche, redarguiu Rubião tranquillamente.
--Não vem, foi esperal-o no Campo. Não vês dahi o coche, Tonica?
D. Tonica fez um gesto vago e sem vontade. Não queria mentir, mas tinha medo, e desejava que Rubião sahisse. Da casa era impossivel ver o Campo da Acclamação. Já então o pae pegava no Rubião pelo braço e o encaminhava para a porta.
--Volte amanhã, depois, quando quizer.
--Mas porque não heide esperar aqui até que venha o coche? perguntou Rubião. A imperatriz não póde apanhar chuva...
--A imperatriz já foi.
Fez mal. Eugenia fez muito mal. General... Para que hade o senhor ficar sempre em major? General, vi o retrato do seu genro; quero dar-lhe o meu. Mande ás Tulherias. Onde está o coche?
--Está no Campo, esperando.
--Mande chamal-o.
D. Tonica, que estava á janella, disse para dentro:
--Lá vem Rodrigues.
E tornou a olhar para a rua, inclinando-se, sorrindo, emquanto na sala o pae continuava a guiar o Rubião para a porta, sem violencia, mas tenaz. Este parava, reprehendia:
--General, sou seu imperador!
--De certo, mas acompanhe-me Vossa Majestade...
Tinham chegado á porta; o major abriu a cancella, justamente quando o Rodrigues punha o pé na soleira. D. Tonica entrou para receber o noivo, mas a porta estava atravancada com o pae e Rubião. Rodrigues tirou o chapeo, mostrando o cabello, aspero e grisalho; tinha nas faces chupadas umas pintinhas de sarda, mas o riso era bom e humilde,--mais humilde ainda que bom,--e, não obstante a trivialidade do gesto e da pessoa, era agradavel. Os olhos não mostravam o espanto da photographia; este effeito provinha da emphasis que elle poz em todo o corpo, afim de que o retrato _saisse bonito._
--Este senhor é o meu futuro genro, disse o major a Rubião. Não é verdade que viu no Campo um coche e um esquadrão de cavallaria? perguntou ao Rodrigues, piscando um olho.
--Parece que sim, senhor.