Part 17
No dia seguinte, o sol appareceu claro e quente, o ceu limpido, e o ar fresco. Sophia metteu-se no carro e saiu a visitas e a passeio para desforrar-se da reclusão. Já o proprio dia lhe fez bem. Vestiu-se cantarolando. O trato das senhoras que a receberam em sua casa,--e das que achou na rua do Ouvidor, a agitação externa, as noticias da sociedade, a boa feição de tanta gente fina e amiga, bastaram a espancar-lhe da alma os cuidados da vespera.
CAPITULO CLXIII
Assim, pois, o que parecia vontade imperiosa reduzia-se a velleidade pura, e, com algumas horas de intervallo, todos os maos pensamentos se recolheram ás suas alcovas. Se me perguntardes por algum remorso de Sophia, não sei que vos diga. Ha uma escala de resentimento e de reprovação. Não é só nas acções que a consciencia passa gradualmente da novidade ao costume, e do temor á indifferença. Os simples peccados de pensamento são sujeitos a essa mesma alteração, e o uso de cuidar nas cousas affeiçoa tanto a ellas,--que, afinal, o espirito não as estranha, nem as repelle. E nestes casos ha sempre um refugio moral na isenção exterior, que é, por outros termos mais explicativos, o corpo sem macula.
CAPITULO CLXIV
Um só incidente affligiu Sophia naquelle dia puro e brilhante,--foi um encontro com Rubião. Tinha entrado em uma livraria da rua do Ouvidor para comprar um romance; em quanto esperava o troco, viu entrar o amigo. Rapidamente voltou o rosto o percorreu com os olhos os livros da prateleira,--uns livros de anatomia e de estatistica;--recebeu o dinheiro, guardou-o, e, de cabeça baixa, rapida como uma flexa, saiu á rua, e enfiou para cima. O sangue só lhe socegou, quando a rua dos Ourives ficou para traz. Não podia adivinhar que Rubião a não tinha visto, sequer; nem podia saber que, não a vendo embora, não sahisse logo, não a conhecesse, não corresse a aggarral-a, a dizer-lhe algum desvario.
Dias depois, indo a entrar em casa de D. Fernanda, deu com elle no saguão. Cuidou que subisse, e dispoz-se a subir tambem, ainda que receiosa; mas Rubião descia, apertaram-se as mãos familiarmente, e despediram-se até á tarde.
--Elle vem aqui muitas vezes? perguntou Sophia a D. Fernanda, depois de lhe contar o encontro do saguão.
--Esta é a quarta vez, quarta ou quinta; mas só da segunda vez appareceu delirando. Das outras é como viu agora, socegado, e até conversador. Ha nelle sempre alguma cousa que mostra não estar completamente bem. Não reparou nos olhos, um pouco vagos? É isso; no mais, conversa bem. Creia, D. Sophia; aquelle homem pode sarar. Porque não faz com que seu marido tome isto a peito?
--Christiano tem projecto de o mandar examinar e tratar; mas, deixe estar que eu o apresso.
--Sim, falle-lhe. Elle parece ser muito amigo da senhora e do Sr. Palha.
--Ter-lhe-ha dito alguma inconveniencia no delirio, a meu respeito? pensou Sophia. Convirá revellar-lhe a verdade?
Concluiu que não; o proprio mal do Rubião explicaria as inconveniencias. Prometteu que apressaria o marido, e, nessa mesma tarde expoz o negocio ao Palha, approvando a ideia de tentar a cura. «Era uma grande _amolação_,» redarguiu este. E perguntou que interesse tinha D. Fernanda em tornar áquelle negocio. Que o tratasse ella mesma! Era uma atrapalhação ter de cuidar do outro, de o acompanhar, e, provavelmente, de recolher e gerir algum resto de dinheiro que ainda houvesse, fazendo-se curador, como dissera o Dr. Theophilo. Um aborrecimento de todos os diabos.
--Já ando com grande carga sobre mim, Sophia. E depois como hade ser? Havemos de trazel-o para casa? Parece que não. Mettel-o onde? Em alguma casa de saude... Sim, mas se não puderem acceital-o? Não heide mandal-o para a Praia Vermelha... E as responsabilidades? Você prometteu que me falaria?
--Prometti, e affirmei que você faria isto, respondeu Sophia sorrindo. Talvez não custe tanto como parece.
Sophia insistiu ainda, A compaixão de D. Fernanda tinha-a impressionado muito; achou-lhe um quê distincto e nobre, e advertiu que se a outra, sem relações estreitas nem antigas com Rubião, assim se mostrava interessada, era de bom tom não ser menos generosa.
CAPITULO CLXV
Tudo se fez socegadamente. Palha alugou uma casinha na rua do Principe, cerca do mar, onde metteu o nosso Rubião, alguns trastes e o cachorro amigo. Rubião acceitou a mudança sem desgosto, e, desde que lhe tornou o delirio, com enthusiasmo. Estava nos seus paços de S. Cloud.
Não succedeu assim aos amigos da casa, que receberam a noticia da mudança como um decreto de exilio. Tudo na antiga habitação fazia parte delles, o jardim, a grade, os canteiros, os degraus de pedra, a enseada. Traziam tudo de cór. Era entrar, pendurar o chapeu, e ir esperar na sala. Tinham perdido a noção da casa alheia e do obsequio recebido. Depois, a visinhança. Cada um daquelles amigos do Rubião estava affeito a ver as pessoas do logar, as caras da manhã e as da tarde, alguns chegavam a comprimental-as, como aos seus proprios visinhos. Paciencia! iriam agora para Babylonia, como os desterrados de Sião. Onde quer que estivesse o Euphrates, achariam salgueiros em que pendurassem as harpas saudosas,--ou mais propriamente, cabides em que puzessem os chapéos. A differença entre elles e os prophetas é que, ao cabo de uma semana, pegariam outra vez dos instrumentos, e os tangeriam com a mesma graça e força; cantariam os velhos hymnos, tão novos como no primeiro dia, e Babel acabaria por ser a mesma Sião, perdida e resgatada.
--O nosso amigo precisa de repouso por algum tempo, disse-lhes o Palha, em Botafogo, na vespera da mudança. Hão de ter reparado que não anda bom; tem suas horas de esquecimento, de transtorno, de confusão, vae tratar-se, por emquanto é preciso que descance. Arranjai-lhe uma casa pequena, mas póde ser que, ainda assim, passe para um estabelecimento de saude.
Ouviram attonitos. Um delles, o Pio, voltando a si mais depressa que os outros, respondeu que ha mais tempo se devia ter feito aquillo; mas, para fazel-o, era preciso ter influencia decisiva no animo de Rubião.
--Muitas vezes lhe disse, por boas maneiras, que era indispensavel consultar um medico, por me parecer que tinha alguma cousa no estomago... Era um modo de desviar o sentido, comprehende? Mas elle respondia sempre que não tinha nada, diggeria bem...--«Mas come menos, dizia-lhe eu; ha dias em que não come quasi nada; está mais magro, um pouco amarello...» Comprehende que não podia dizer-lhe a verdade. Cheguei a fallar a um medico, meu amigo; mas o nosso bom Rubião não o quiz receber.
Os outros quatro iam confirmando de cabeça toda aquella invenção; era o mais que se lhes podia pedir e tudo o que lhes consentia o atordoamento do golpe. Acabaram perguntando o numero da nova casa, para irem saber delle. Pobre amigo! Quando se arrancaram dalli, e se despediram uns dos outros, deu-se um phenomeno com que não contavam; é que elles mesmos mal podiam separar-se. Não que os ligasse amizade nem estima; o proprio interesse os fazia antipathicos. Mas o costume de se verem todos os dias, ao almoço e ao jantar,--á mesma mesa, como que os tinha fundido uns nos outros; a necessidade os fez supportaveis, o tempo os tornou mutuamente precisos. Em resumo, eram os olhos de cada um que iam padecer com a ausencia das caras de uso, do gesto, das soiças, dos bigodes, da calva, dos sestros particulares, do modo de comer, de fallar e de estar dos companheiros. Era mais que separação, era desarticulação.
CAPITULO CLXVI
Rubião notou que elles não o acompanharam á casa nova, e mandou-os chamar; nenhum veiu, e a ausencia encheu de tristeza o nosso amigo,--durante as primeiras semanas. Era a familia que o abandonava. Rubião procurou recordar se lhes fizera algum mal, por obra ou por palavra, e não achou nada.
CAPITULO CLXVII
--Conversei com o homem; achei-lhe ideias delirantes. Comquanto não seja alienista, acho que póde ficar bom... Mas quer saber uma descoberta interessante?
--Crê que fique bom? disse D. Fernanda, sem attender á pergunta do Dr. Falcão.
Era deputado o Dr. Falcão, deputado e medico, amigo da casa, varão sabedor, sceptico e frio. D. Fernanda tinha-lhe pedido o favor de examinar o Rubião, pouco depois que este se transportou para a casa da rua do Principe.
--Sim, creio que fique bom, desde que seja regularmente tratado. Póde ser que a doença não tenha antecedentes na familia. Mande ver um especialista. Mas não quer saber a minha interessante descoberta?
--Qual é?
--Talvez tenha parte na molestia uma pessoa sua conhecida, respondeu elle sorrindo.
--Quem?
--D. Sophia.
--Como assim?
--Elle fallou-me della com enthusiasmo, disse-me que era a mais esplendida mulher do mundo, e que a nomeára duqueza, por não poder nomeal-a imperatriz; mas que não brincassem com elle, que era capaz de fazer como o tio, divorciar-se e casar com ella. Conclui que terá tido paixão pela moça; mas pode ser alguma cousa mais. Falla della com tal intimidade, Sophia para aqui, Sophia para alli... Desculpe-me, mas eu creio que os dois se amaram...
--Oh! não!
--D. Fernanda, creio que se amaram. Que admira? Eu mal a conheço; a senhora parece que não a conhece ha muito tempo, nem viveu na intimidade della. Póde ser que se tivessem amado, e que alguma paixão violenta... Supponhamos que ella o mandasse pôr fóra de casa... É verdade que tem a mania das grandezas; mas tudo se póde juntar...
D. Fernanda não olhava para elle, vexada de lhe ouvir aquella supposição; evitava discutil-a pelo melindre do assumpto. Achava a suspeita sem fundamento, absurda, inverosimil; não chegaria a crer naquelle amor espurio, ainda que o ouvisse ao proprio Rubião. Um desvairado, em summa. Quando o não fosse, é ainda provavel que lhe não desse fé. Sim, não lhe daria fé. Não podia crer que Sophia houvesse amado aquelle homem, não por elle, mas por ella, tão correcta e pura. Era impossivel. Quiz defendel-a; mas, apezar da intimidade do Dr. Falcão, recuou segunda vez do assumpto, e repetiu a pergunta de ha pouco:
--Parece-lhe então que elle pode ficar bom?
--Póde, mas não basta o meu exame. A senhora sabe que, nestas cousas, é melhor um especialista.
Pouco depois, saindo á rua, Falcão sorria da resistencia de D. Fernanda em acceitar a sua hypothese. «Com certeza, houve alguma cousa, dizia elle comsigo; boa cara, e, si não é um petimetre, é apessoado, e tem fogo nos olhos. Com certeza...» E repetia algumas phrases de Rubião, evocava o gesto e a modulação terna da voz com que fallava de Sophia, e cada vez mais se lhe ia aggravando a suspeita, «Com certeza...» Era já impossivel que se não tivessem amado; a opposição de D. Fernanda parecia-lhe ingenua,--se não era antes um recurso para desconversar e não tocar na materia. Havia de ser isso...
Neste ponto, sem querer, o deputado estacou. Uma suspeita nova assaltara-lhe o espirito. Apoz alguns instantes rapidos, abanou a cabeça voluntariamente, como a desmentir-se, como a achar-se absurdo, e foi andando. Mas a suspeita era teimosa, e a que occupa deveras o interior do homem, não faz caso da cabeça nem dos seus gestos. «Quem sabe se D. Fernanda não suspirou tambem por elle? Essa dedicação não seria um prolongamento de amor, etc.?» E assim foram nascendo perguntas, que achavam no intimo do Dr. Falcão resposta affirmativa. Resistiu ainda, era amigo da casa, tinha respeito a D. Fernanda, conhecia-a honesta; mas,--ia pensando,--bem podia ser que um sentimento occulto, recatado,--quem sabe até se provocado pela mesma paixão da outra...? Ha dessas tentações. O contagio da lepra corrompe o mais puro sangue; um triste bacillo destróe o mais robusto organismo.
Pouco a pouco, as velleidades de resistencia foram cedendo á noção da possibilidade, da probabilidade e da certeza. Em verdade, tinha noticia de algumas obras de caridade de D. Fernanda; mas aquelle caso era novo. Essa dedicação especial a um homem que não era familiar da casa, nem velho amigo, nem parente, adherente, collega do marido, qualquer cousa que o fizesse participe da vida domestica, pelas relações, pelo sangue ou pelo costume não era explicavel sem algum motivo secreto. Amor, seguramente; curiosidade de mulher honesta, que póde descambar no vicio e no remorso. Aquella teria recuado a tempo; ficou-lhe a sympathia morbida... E d'ahi, quem sabe?
CAPITULO CLXVIII
E d'ahi, quem sabe? repetiu o Dr. Falcão na manhã seguinte. A noite não apagara a desconfiança do homem. E d'ahi quem sabe? Sim, não seria só sympathia morbida. Sem conhecer Shakespeare, elle emendou Hamlet: «Ha entre o céo e a terra, Horacio, muitas cousas mais do que sonha a vossa vã _philanthropia_». Alli andou dedo de amor. E não chasqueava nem lastimava nada. Já disse que era sceptico; mas, como era tambem discreto, não transmittiu a ninguem a sua conclusão.
CAPITULO CLXIX
A volta de Carlos Maria e da mulher interrompeu as preoccupações de D. Fernanda, relativamente a Rubião. Esta foi a bordo recebel-os, conduziu-os á Tijuca, onde um velho amigo da familia de Carlos Maria alugára e trastejára uma casa, por ordem delle. Sophia não foi a bordo; mandou o _coupé_ esperal-os no caes Pharoux, mas D. Fernanda já alli tinha uma caleça, que os levou, e mais a ella e ao Palha. De tarde, Sophia foi visitar os recem-chegados.
D. Fernanda não cabia era si de contente. As cartas de Maria Benedicta os davam por felizes; ella não poude ler desde logo nos olhos e nas maneiras do casal a confirmação do escripto. Pareciam satisfeitos. Maria Benedicta não reteve as lagrimas, quando abraçou a amiga, nem esta as suas, e ambas se apertaram como duas irmãs de sangue. No dia seguinte, quando puderam fallar a sós, D. Fernanda perguntou a Maria Benedicta se ella e o marido eram felizes, e, sabendo que sim, pegou-lhe nas mãos e fitou-a longamente sem achar palavra. Não logrou mais que repetir a pergunta:
--Vocês são felizes?
--Somos, respondia Maria Benedicta.
--Não sabe que bem me faz a sua resposta. Não é só porque eu teria remorsos, se vocês não tivessem a felicidade que eu imaginei dar-lhes, mas tambem por que é bem bom ver os outros felizes. Elle gosta de você como no primeiro dia?
--Creio que mais, porque eu o adoro.
D. Fernanda não entendeu esta palavra. _Creio que mais, por que eu o adoro!_ Era verdade, a conclusão não parecia estar nas premissas; mas era o caso de emendar outra vez Hamlet: «Ha entre o céo e a terra, Horacio, muitas cousas mais do que sonha a vossa vã _dialectica_». Pobre D. Fernanda! Não conhecia o poeta, e provavelmente não se conhecia a si, que era ainda o meio mais seguro de decifrar a palavra obscura de Maria Benedicta. Esta começou a contar-lhe a viagem, a desfiar as suas impressões e reminiscencias; e, como o marido viesse ter com ellas, pouco depois, recorria á memoria delle para preencher as lacunas.
--Como foi, Carlos Maria?
Carlos Maria lembrava, explicava, ou rectificava, mas sem interesse, quasi impaciente. Adivinhára que Maria Benedicta acabava de confiar á outra as suas venturas, e mal podia encobrir o effeito desagradavel que isto lhe trazia. Para que dizer que era feliz com elle, se não podia ser outra cousa? E porque divulgar os seus carinhos e palavras, as suas misericordias de deus grande e amigo?
A volta ao Rio de Janeiro foi uma condescendencia sua. Maria Benedicta queria ter aqui o filho; o marido cedeu,--a custo, mas cedeu. A custo, por que? É difficil explical-o, não menos que entendel-o. Relativamente á maternidade, Carlos Maria tinha ideias pessoaes e singulares, reconditas, não confiadas a ninguem. Achava impudica a natureza em fazer da gestação humana um phenomeno publico, franco ás vistas, crescente até ao aleijão, suggestivo até ao desrespeito. D'ahi vinha o desejo da solidão, do mysterio e da ausencia. Viveria de boamente os ultimos tempos no interior de uma casa unica, posta no alto de um morro, vedada ao mundo, donde a mulher baixasse um dia com o filho nos braços e a divindade nos olhos.
Não fez sobre isto nenhuma proposta á mulher. Teria de discutir, e elle não gostava de discutir; preferia ceder. Maria Benedicta tinha naturalmente o sentimento contrario: considerava-se a si mesma um templo divino e recatado, em que vivia um deus, filho de outro deus. A gestação ia cheia de tedios, de dores, de incommodos que ella occultava o mais que podia ao marido; mas tudo isso dava maior preço á creaturinha futura. Acolhia o mal com resignação,--se não é que o agasalhava com alegria,--uma vez que era a condição da vinda do fructo. Fazia cordialmente o officio da especie. E repetia sem palavras a resposta de Maria de Nazareth: «Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim a sua vontade».
CAPITULO CLXX
--Você que tem? perguntou Maria Benedicta ao marido, logo que ficaram sós.
--Eu? Nada. Porque?
--Parecia estar aborrecido.
--Não, não estava aborrecido.
--Estava, sim, insistiu ella.
Carlos Maria sorriu, sem responder. Maria Benedicta já lhe conhecia esse sorriso especial, inexpressivo, sem ternura nem censura, superficial e pallido. Não teimou em querer saber, mordeu os beiços e retirou-se.
No quarto, durante algum tempo, não cuidou de outra cousa que não fosse aquelle sorriso descorado e mudo, signal de algum aborrecimento, cuja culpa não podia ser senão ella. E percorria toda a conversação, todos os gestos que fizera, e não achava nada que explicasse a frieza, ou o que quer que era de Carlos Maria. Talvez ella se mostrasse excessiva nas palavras; era seu costume, se estava contente, pôr o coração nas mãos e distribui-lo a amigos e a extranhos. Carlos Maria reprovava essa generosidade, porque dava um ar de sorte grande ao seu estado moral e domestico, e porque lhe parecia banal e inferior. Maria Benedicta recordava-se que, em Paris, na colonia brazileira, sentira mais de uma vez esse effeito de suas expansões, e reprimira-se. Mas D. Fernanda estaria no mesmo caso? Não era a autora da felicidade de ambos? Rejeitou essa hypothese, e tratou de ver outra. Não a achando,--voltou á primeira, e, segundo lhe succedia sempre, deu razão ao marido. Em verdade, por mais intima e grata que fosse, não devia contar á boa amiga as minucias da vida; era leviandade sua...
Nauseas vieram interrompel-a neste ponto das reflexões. A natureza lembrava-lhe uma razão de Estado--a razão da especie,--mais instante e superior aos tedios do marido. Ella cedeu á necessidade; mas, poucos minutos depois, estava ao pé de Carlos Maria, contornando-lhe o pescoço com o braço direito. Elle, sentado, lia uma revista ingleza; pegou-lhe na mão, pendente sobre o peito, e acabou a pagina.
--Você me perdoa? perguntou a mulher, quando o viu fechar o folheto. Daqui em diante vou ser menos tagarella.
Carlos Maria pegou-lhe nas duas mãos, sorrindo e respondeu com a cabeça que sim. Foi como se lançasse uma onda de luz sobre ella; a alegria penetrou-lhe a alma. Dir-se-hia que o proprio feto repercutiu a sensação e abençoou o pae.
CAPITULO CLXXI
--Perfeitamente! Assim é que eu os quero ver! bradou uma voz do lado da varanda.
Maria Benedicta affastou-se rapidamente do marido. A varanda, que communicava para a sala, por tres portas, tinha uma destas aberta. Dalli viera a voz; dalli espiava e ria a cabeça de Rubião. Era a primeira vez que o viam. Carlos Maria, sem se levantar, olhava para elle, serio, esperando. E a cabeça ria, com os seus fartos bigodes de ponta de agulha, mirando um e outro, e repetindo:
--Perfeitamente! assim é que eu os quero ver!
Rubião entrou, estendeu-lhes a mão, que elles acceitaram sem carinho, disse muitas phrases de admiração e louvor a Maria Benedicta, ella tão galante, elle tão galhardo; notou que ambos tivessem o nome de Maria, especie de predestinação, e acabou noticiando a quéda do ministerio.
--Caiu o ministerio? perguntou involuntariamente Carlos Maria.
--Não se falla em outra cousa na cidade. Vou abancar-me, sem pedir licença, já que não me offerecem cadeira, continuou elle, sentando-se, tirando a bengala que trazia debaixo do braço e firmando as mãos sobre ella. Pois é verdade, o ministerio pediu demissão. Vou organisar outro. Ha de entrar o Palha, o nosso Palha,--seu primo Palha,--e o senhor tambem, se lhe dá gosto, será ministro. Preciso de um bom gabinete, todo gente amiga e forte, capaz de dar a vida por mim. Hei de chamar o Morny, o Pio, o Camacho, o Rouher, o major Sequeira. A senhora lembra-se do major? Creio que fica com a guerra; não conheço homem mais apto para os negocios militares.
Maria Benecdicta, aborrecida e impaciente, andava pela sala, á espera que o marido mandasse alguma cousa; este disse-lhe com os olhos que se fosse embora; ella não aguardou outro gesto, pediu licença ao hospede e retirou-se. Rubião, depois que ella sahiu, elogiou-a novamente,--uma flor, disse elle; e emendou-se rindo: duas flores, creio que ha alli duas flores. Nosso Senhor as abençoe! Carlos Maria estendeu-lhe a mão em ar de despedida.
--Meu caro senhor...
--Posso incluil-o no ministerio? perguntou Rubião.
Não ouvindo resposta, entendeu que sim e prometteu-lhe uma boa pasta. O major iria para a guerra, e o Camacho para a justiça. Não os conhecia acaso? «Dous grandes homens, Camacho ainda maior que o outro.» E obedecendo a Carlos Maria, que ia andando na direcção da porta, Rubião retirava-se sem se sentir; mas não sahiu tão prompto. Na varanda, antes de descer os degráos, referiu vários factos da guerra. Por exemplo, tinha restituido a Allemanha aos allemães; era bonito e politico. Já havia dado Veneza aos italianos. Não precisava mais territorio; as provincias do Rheno, sim, mas havia tempo de as ir buscar.
--Meu caro senhor... insistiu Carlos Maria estendendo-lhe a mão.
Despediu-o e fechou a porta; Rubião proferiu ainda algumas palavras e desceu os degráos. Maria Benedicta, que os espreitava do fundo, veiu ter com o marido, reteve-o pela mão, e ficou a ver o Rubião que atravessava o jardim. Não ia direito, nem appressado, nem calado; detinha-se, gesticulava, apanhava um galho secco, vendo mil cousas no ar, mais galantes que a dona da casa, mais galhardas que o dono. Da vidraça miravam o nosso amigo, e, em certo lance grotesco, Maria Benedicta não pôde suster o riso; Carlos Maria, porém, olhava placido.
CAPITULO CLXXII
--Mas se a quéda do ministerio é verdadeira disse ella, sabe você quem está ministro?
--Quem? perguntou Carlos Maria com os olhos.
--Seu primo Theophilo. A prima contou-me que elle andava com suas esperanças, e foi por isso que ficou este anno na Corte. Desconfiou, ou já se falava na sahida do ministerio; talvez desconfiasse. Não me lembra bem o que ella me disse; mas parece que entra.
--Pode ser.
--Olha, lá sahiu Rubião; mas não, parou, está olhando para cima, espera talvez a diligencia ou o carro. Elle tinha carro. Lá vae andando...
CAPITULO CLXXIII
--Com quê, o Theophilo está ministro! exclamou Carlos Maria.
E, depois de um instante:
--Creio que dará um bom ministro. Você queria ver-me tambem ministro?
--Se você gostasse, que remedio?
--De maneira que, por teu voto, não o era? perguntou Carlos Maria.
--Que heide responder? pensou ella, escrutando o rosto do marido.
Elle, rindo:
--Confessa que me adorarias, ainda que eu fosse uma simples ordenança de ministro.
--Justamente! exclamou a moça, lançando-lhe os braços aos hombros.
Carlos Maria affagou-lhe os cabellos, e murmurou serio:--Bernadotte foi rei, e Bonaparte imperador. Você queria ser a rainha-mãe da Suecia?
Maria Benedicta não entendeu a pergunta nem elle a explicou. Para explical-a seria mister dizer que possivelmente trazia ella no seio um Bernadotte; mas esta supposição significava um desejo, e o desejo uma confissão de inferioridade. Carlos Maria espalmou outra vez as mãos sobre a cabeça da mulher, com um gesto que parecia dizer: "Maria, tu escolheste a melhor parte..." E ella pareceu entender o sentido d'aquelle gesto.
--Sim! sim!