Part 16
--Agora me lembro, pensou ella; mando parar á porta do armazem do Christiano; digo-lhe o modo por que este homem se introduziu no _coupé_, os pedidos que lhe fiz o as respostas que me deu. Antes isso que fazel-o apear mysteriosamente em qualquer rua.
Entretanto, Rubião estava quieto. De vez em quando volvia no dedo o annel de brilhante,--um solitario explendido. Não olhava para ella, não lhe dizia nem pedia nada. Iam como um casal de aborrecidos. Sophia começava a não entender que razão o teria levado a entrar no carro. Necessidade de transporte não podia ser. Vaidade, tambem não; fechára as cortinas, á sua primeira queixa de publicidade. Nenhuma palavra amorosa,--uma allusão remota que fosse, a medo, cheia de veneração e supplica. Era um inexplicavel, um monstro.
CAPITULO CLIII
--Sophia... disse de repente Rubião; e continuou com pausa:--Sophia, os dias passam, mas nenhum homem esquece a mulher que verdadeiramente gostou delle, ou então não merece o nome de homem. Os nossos amores não serão esquecidos nunca,--por mim, está claro, e estou certo que nem por ti. Tudo me déste, Sophia; a tua propria vida correu perigo. Verdade é que eu te vingaria, minha bella. Se a vingança póde alegrar os mortos, terias o maior prazer possivel. Felizmente, o meu destino protegeu-nos, e pudemos amar sem peias nem sangue...
A moça olhava espantada.
--Não te espantes, continuou elle; não nos vamos separar; não, não te fallo de separação. Não me digas que morrerias; sei que havias de chorar muitas lagrymas. Eu não,--que não vim ao mundo para chorar,--mas nem por isso a minha dor seria menor; ao contrario, as dores guardadas no coração doem mais que as outras. Lagrymas são boas porque a pessoa desabafa. Querida amiga, fallo-te assim, porque é preciso termos cautella; a nossa insaciavel paixão póde esquecer esta necessidade. Temos facilitado muito, Sophia; como nascemos um para o outro, parece-nos que estamos casados, e facilitamos. Ouve, querida, ouve, alma da minha alma... A vida é bella! a vida é grande! a vida é sublime! Comtigo, porém, que nome haverá que lhe possa dar? Lembras-te da nossa primeira entrevista?
Rubião disse esta ultima palavra, querendo pegar-lhe na mão. Sophia recuou a tempo; estava desorientada, não entendia e tinha medo. A voz delle crescia, o cocheiro podia ouvir alguma cousa... E aqui uma ideia terrivel a abalou: talvez o intento de Rubião fosse justamente fazer-se ouvir, para obrigal-a pelo terror,--ou então para que a abocanhassem. Teve impeto de atirar-se a elle, gritar que lhe acudissem, e salvar-se pelo escandalo.
Elle, baixinho, depois de certa pausa:
--A mim lembra-me, como se fosse hontem. Tu chegaste de carro, não era este; era um carro de praça, uma caleça. Desceste medrosa, com o veu pela cara; tremias como varas verdes... Mas os meus braços te ampararam... O sol daquelle dia devia ter parado, como quando obedeceu a Josué... E comtudo, minha flor, aquellas horas foram compridas como diabo, não sei porque; a rigor, deviam ser curtas. Era talvez porque a nossa paixão não acabava mais,não acabou, nem hade acabar nunca... Em compensação, não vimos mais o sol; ia cahindo para o outro lado das montanhas, quando a minha Sophia, ainda medrosa, sahiu para a rua, e pegou de outra caleça. Outra ou a mesma? Creio que foi a mesma. Não imaginas como fiquei; parecia tonto, beijei tudo em que havias tocado; cheguei a beijar a soleira da porta. Creio que já te contei isto. A soleira da porta. E estive quasi, quasi a ir de rastos, beijar os degráos da escada... Não o fiz, recolhi-me, fechei-me para que se não perdesse o teu cheiro; violeta, se bem me recordo...
Não, não era possivel que o intuito de Rubião fosse fazer crer ao cocheiro uma aventura mentirosa. A voz era tão sumida que Sophia mal podia escutal-a; mas, se lhe custava a entender as palavras, não chegava a comprehender o sentido dellas. A que vinha aquella historia não succedida? Quem quer que a ouvisse, acceitaria tudo por verdade, tal era a nota sincera, a meiguice dos termos e a verosimilhança dos pormenores. E elle continuou suspirando as bellas reminiscencias...
--Mas que caçoada é essa? atalhou finalmente Sophia.
Não lhe respondeu o nosso amigo;--tinha a imagem deante dos olhos, não ouviu a pergunta, e foi andando. Citou-lhe um concerto de Gottschalk. O divino pianista melodiava ao piano; elles ouviam, mas o demonio da musica levou os olhos de um para outro, e ambos esqueceram o resto. Quando a musica cessou, as palmas romperam, e elles accordaram. Ai tristes! accordaram com o olhar do Palha em cima delles, um olho de onça brava. Nessa noite cuidou que elle a matasse.
--Senhor Rubião...
--Napoleão, não; chama-me Luiz. Sou o teu Luiz, não é verdade, galante creatura? Teu, teu... Chama-me teu;--o teu Luiz, o teu querido Luiz. Ai, se tu soubesses o gosto que me dás quando te ouço essas duas palavras: «Meu Luiz!» Tu és a minha Sophia,--a doce, a mimosa Sophia da minha alma. Não percamos estes momentos; vamos dizer nomes ternos; mas, baixo, baixinho, para que os malandros da almofada do carro não escutem. Para que hade haver cocheiros neste mundo? Se o carro andasse por si, a gente fallava á vontade, e iria ao fim da terra...
Já então iam costeando o Passeio Publico; Sophia não deu por isso. Olhava fixamente para Rubião; não podia ser calculo de perverso, nem lhe attribuia mofa... Delirio, sim, é o que era; tinha a sinceridade da palavra, como pessoa que vê ou viu realmente as cousas que relata.
--É preciso pol-o fóra daqui, pensou a moça. E, apparelhando-se de coragem:--Onde estaremos nós? perguntou-lhe. É occasião de separar-nos. Veja do lado de lá; onde estamos? Parece que é o convento; estamos no largo da Ajuda. Diga ao cocheiro que páre; ou, se quer, pode apear-se no largo da Carioca. Meu marido...
--Vou nomeal-o embaixador, disse Rubião. Ou senador, se quizer. Senador é melhor; ficam os dous aqui. Embaixador que fosse, não consentiria que tu o acompanhasses, e as más linguas... Tu sabes a opposição que soffro, as calumnias... Ah! ruim gente! Convento da Ajuda, disseste? Que tens tu com elle? Queres ser freira?
--Não; digo que já passamos o convento da Ajuda. Vou deixal-o no largo da Carioca, Ou vamos até o armazem de meu marido?
Sophia tornou a apegar-se ao segundo alvitre; não se faria suspeita ao cocheiro, provaria melhor a sua innocencia ao Palha, narrando-lhe tudo, desde a entrada inesperada no carro até o delirio. E que delirio era esse? Sophia pensou que o motivo podia ser ella propria, e esta ideia fel-a sorrir de piedade.
--Para que? disse Rubião. Vou apeiar-me aqui mesmo, é mais seguro. Para que hade elle desconfiar de nós e maltratar-te? Posso castigal-o, mas sempre me ficaria o remorso do mal que elle te causaria. Não, linda flor amiga; o vento que se atrevesse a tocar em tua pessoa, acredita que eu mandaria pôr fora do espaço, como um vento indigno. Tu ainda não conheces bem o meu poder, Sophia; anda, confessa.
Como Sophia não confessasse nada, Rubião chamou-lhe de bonita, e offereceu-lhe o solitario que tinha no dedo; ella, porém, comquanto amasse as joias e tivesse a intuição dos solitarios, recusou medrosamente a offerta.
--Comprehendo o escrupulo, disse elle; mas não perdes por isso, porque hasde receber outra pedra ainda mais bella, e pela mão de teu marido. Far-te-hei duqueza. Ouviste? O titulo é dado a elle, mas tu é que és a causa. Duque... Duque de que? Vou ver um titulo bonito; ou então escolhe tu mesma, porque é para ti, não é para elle, é para ti, minha mimosa. Não é preciso escolher já, vae para casa e pensa. Não te vexes; manda-me dizer o que achares mais bonito, e faço lavrar immediatamente o decreto. Tambem podes fazer outra cousa: escolhe, e diz-me no nosso primeiro encontro, no logar do costume. Quero ser o primeiro que te chame duqueza. Querida duqueza... O decreto virá depois. Duqueza da minha alma!
--Sim, sim, disse ella desvairamente, mas avisemos o cocheiro que nos leve até a casa de Christiano.
--Não, apeio-me aqui... Pára! pára!
Rubião ergueu as cortinas, e o lacaio veiu abrir a portinhola. Sophia, para tirar toda a suspeita a este, pediu novamente ao Rubião que fosse com ella á casa do marido; disse-lhe que este precisava fallar-lhe, com urgencia. Rubião olhou um pouco espantado para ella, para o lacaio e para a rua; e respondeu que não, que iria depois.
CAPITULO CLIV
Apenas separados, deu-se em ambos um contraste.
Rubião, na rua, voltou a cabeça para todos os lados, a realidade apossava-se delle e o delirio esvaia-se. Andava, estacava deante de uma loja, atravessava a rua, detinha um conhecido, pedia-lhe noticias e opiniões; exforço inconsciente para sacudir de si a personalidade emprestada.
Ao contrario, Sophia, passado o susto e o espanto, mergulhou no devaneio; todas as referencias e historias mentirosas de Rubião como que lhe davam saudades,--saudades de que?--«saudades do ceu», que é o que dizia o padre Bernardes do sentimento de um bom christão. Nomes diversos relampejavam no azul daquella possibilidade. Quanto pormenor interessante! Sophia reconstruiu a caleça velha, onde entrou rapida, donde desceu tremula, para esgueirar-se pelo corredor dentro, subir a escada, e achar um homem,--que lhe disse os mimos mais appetitosos deste mundo, e os repetiu agora, ao pé della, no carro, mas não era, não podia ser o Rubião. Quem seria? Nomes diversos relampejavam no azul daquella possibilidade.
CAPITULO CLV
Espalhou-se a nova da mania de Rubião. Alguns, não o encontrando nas horas do delirio, faziam experiencias, a ver se era verdadeiro o boato; encaminhavam a conversação para os negocios de França e do imperador. Rubião resvalava ao abysmo, e convencia-os.
CAPITULO CLVI
Passaram-se alguns mezes, veiu a guerra franco-prussiana, e as crises de Rubião tornaram-se mais intensas e menos espaçadas. Quando as malas da Europa chegavam cedo, Rubião sahia de Botafogo, antes do almoço, e corria a esperar os jornaes; comprava a _Correspondencia de Portugal_, e ia lel-a no Carceler. Quaesquer que fossem as noticias, dava-lhes o sentido da victoria. Fazia a conta dos mortos e feridos, e achava sempre um grande saldo a seu favor. A quéda de Napoleão III foi para elle a captura do rei Guilherme, a revolução de 4 de Setembro um banquete de bonapartistas.
Em casa, os amigos do jantar não se mettiam a dissuadil-o. Tambem não confirmavam nada, por vergonha uns dos outros; sorriam e desconversavam. Todos, entretanto, tinham as suas patentes militares, o marechal Torres, o marechal Pio, o marechal Ribeiro, e acudiam pelo titulo. Rubião via-os fardados; ordenava um reconhecimento, um ataque, e não era necessario que elles sahissem a obedecer; o cerebro do amphytrião cumpria tudo. Quando Rubião deixava o campo de batalha para tornar á mesa, esta era outra. Já sem prataria, quasi sem porcellana nem crystaes, ainda assim apparecia aos olhos de Rubião régiamente esplendida. Pobres gallinhas magras eram graduadas em faisões; picados triviaes, assados de má morte traziam o sabor das mais finas iguarias do céo e da terra. Os comensaes faziam algum reparo, entre si,--ou ao cosinheiro,--mas Lucullo ceiava sempre com Lucullo. Toda a mais casa, gasta pelo tempo e pela incuria, tapetes desbotados, mobilias truncadas e descompostas, cortinas enxovalhadas, nada tinha o seu actual aspecto, mas outro, lustroso e magnifico. E a linguagem era tambem diversa, rotunda e copiosa, e assim os pensamentos, alguns extraordinarios, como os do finado amigo Quincas Borba,--theorias que elle não entendera, quando lh'as ouvira outr'ora, em Barbacena, e que ora repetia com lucidez, com alma,--ás vezes, empregando as mesmas phrases do philosopho. Como explicar essa repetição do obscuro, esse conhecimento do inextricavel, quando os pensamentos e as palavras pareciam ter ido com os ventos de outros dias? E porque todas essas reminiscencias desappareciam com a volta da razão?
CAPITULO CLVII
A compaixão de Sophia,--explicado o mal do Rubião pelo amor que elle lhe tinha,--era um sentimento medio, não sympathia pura nem egoismo ferrenho, mas participando de ambos. Uma vez que evitasse alguma situação identica á do _coupé_, tudo ia bem. Nas horas em que Rubião estava lucido, escutava-o e fallava-lhe com interesse,--até porque a doença, dando-lhe audacia nos momentos de crise, dobrava-lhe a timidez nas horas normaes. Não sorria, como o Palha, quando Rubião subia ao throno ou commandava um exercito. Crendo-se autora do mal, perdoava-lh'o; a idéa de ter sido amada até á loucura, sagrava-lhe o homem.
CAPITULO CLVIII
--Porque não o tratam? perguntou uma noite D. Fernanda, que alli o conhecera no anno anterior; póde ser que se cure.
--Parece que não é cousa grave, acudiu o Palha; tem desses accessos, mas assim mansos, como viu, ideias de grandeza, que passam logo; e repare que, fóra daquillo, conversa perfeitamente. Comtudo, póde ser... Que acha V. Ex.?
Theophilo, o marido de D. Fernanda, respondeu que sim, que era possivel.
--Que fazia elle, ou que faz agora? continuou o deputado.
--Nada, nem agora nem antes. Era rico,--mas gastador. Conhecemol-o quando veiu de Minas, e fomos, por assim dizer, o seu guia no Rio de Janeiro, aonde não voltara desde longos annos. Bom homem. Sempre com luxo, lembra-se? Mas, não ha riqueza inexgotavel, quando se entra pelo capital; foi o que elle fez. Hoje creio que tenha pouco...
--Podia salvar-lhe esse pouco, fazendo-se nomear curador, em quanto elle se trata. Não sou medico, mas póde ser que esse seu amigo fique bom.
--Não digo que não. Realmente, é pena... Dá-se com todos e presta seus serviços. Sabe que esteve para ser nosso parente? Pois não! quis casar com Maria Benedicta.
--A proposito de Maria Benedicta, interrompeu D. Fernanda, ia-me esquecendo que trago uma carta della para mostrar á senhora; recebi-a hontem. Já ha de saber que, em breve, estão de volta? Está aqui.
Entregou a carta a Sophia, que a abriu sem enthusiasmo, e a leu com tedio. Era mais que uma vulgar carta transatlantica, era um deposito moral, uma confissão intima e completa de pessoa feliz e agradecida. Contava os mais recentes episodios da viagem, desordenadamente, porque os viajantes eram sobrepostos a tudo, e as mais bellas obras do homem ou da natureza valiam menos que os olhos que as miravam. Ás vezes, um incidente de hospedaria ou de rua comia mais papel e trazia mais interesse que outros, pela razão de pôr em relevo as qualidades do marido. Maria Benedicta amava tanto ou ainda mais que no primeiro dia. No fim, a medo, em _post-scriptum_, pedindo que o não dissesse a ninguem, confessava que era mãe.
Sophia dobrou o papel, não já com tedio, senão com despeito, e por dous motivos que se contradizem; mas a contradicção é deste mundo. Cotejada aquella carta com as que recebera de Maria Benedicta, dir-se-hia que ella era apenas uma conhecida, sem outro laço de sangue ou de affecto; e, comtudo, não quereria ser confidente d'aquella felicidade cochichada do outro lado do oceano, cheia de minucias, de adjectivos, de exclamações, do nome de Carlos Maria, dos olhos de Carlos Maria, dos ditos de Carlos Maria, finalmente do filho de Carlos Maria. Parecia acinte, e quasi fazia crer na complicidade de D. Fernanda.
Habil, sabendo domar-se a tempo, Sophia dissimulou o despeito, e restituiu sorrindo a carta da prima. Quiz dizer que, pelo texto, a felicidade de Maria Benedicta devia estar intacta como a levara daqui, mas a voz não lhe passou da garganta. D. Fernanda é que se incumbiu da conclusão:
--Vê-se bem que é feliz!
--Parece que sim.
CAPITULO CLIX
Se a manhã seguinte não fosse chuvosa, outra seria a disposição de Sophia. O sol nem sempre é official de boas ideias; mas, ao menos, permitte sahir, e a troca do expectaculo muda as sensações. Quando Sophia acordou já a chuva cahia grossa e continua, e o céo e o mar era tudo um, tão baixas estavam as nuvens, tão espessa era a cerração.
Tedio por dentro e por fóra. Nada em que espraiasse a vista e descançasse a alma. Sophia metteu a alma em um caixão de cedro, encerrou a este no caixão de chumbo do dia, e deixou-se estar sinceramente defuncta. Não sabia que os defunctos pensam, que um enxame de noções novas vem substituir as velhas, e que elles saem criticando o mundo como os expectadores saem do theatro criticando a peça e os actores. A defuncta sentiu que algumas noções e sensações continuavam a vida. Vinham de mistura, mas tinham um ponto de partida commum,--a carta da vespera e as recordações que lhe trouxe de Carlos Maria.
Em verdade, cuidára ter arredado para longe essa figura aborrecida, e eil-a que reapparecia, que sorria, que a fitava, que lhe sussurrava ao ouvido as mesmas palavras do vadio egoista e enfatuado, que a convidou um dia á valsa do adulterio e a deixou sosinha no meio do salão. Á volta dessa vinham outras; Maria Benedicta, por exemplo, um caco de gente, que ella foi buscar á roça para lhe dar lustre de cidade, e que esqueceu todos os beneficios para só se lembrar das suas ambições. E D. Fernanda tambem, madrinha dos seus amores, que de caso pensado, trouxera na vespera a carta de Maria Benedicta com o _post-scriptum_ confidencial. Não advertiu que o prazer da amiga bastava a explicar o esquecimento da parte reservada da carta; menos ainda indagou se a natureza moral de D. Fernanda comportava essa supposição. Vieram assim outras ideias e imagens, e tornaram as primeiras, e todas se iam ligando e desligando. Entre ellas, appareceu uma lembrança da vespera. O marido de D. Fernanda, envolvera Sophia em um grande olhar de admiração. Ella, em verdade, estava nos seus melhores dias; o vestido sublinhava admiravelmente a gentileza do busto, o estreito da cintura e o relevo delicado das cadeiras;--era _foulard_, côr de palha.
--Côr de _palha_, accentuou Sophia rindo, quando D. Fernanda o elogiou, pouco depois de entrar; côr de _palha_, como uma lembrança deste senhor.
Não é facil dissimular o prazer da lisonja; o marido sorriu cheio de vaidade, procurando ler nos olhos dos outros o effeito daquella prova minuciosa de amor. Theophilo elogiou tambem o vestido, mas era difficil miral-o sem mirar tambem o corpo da dona; d'alli os olhos compridos que lhe deitou, sem concupiscencia, é certo, e quasi sem reincidencia. Pois essa lembrança da vespera, um gesto sem convite, uma admiração sem desejo, veiu metter-se de permeio agora, quando Sophia cuidava na maldade da outra.
Carlos Maria, Theophilo... Outros nomes relampejavam no céo daquella possibilidade, como ficou expresso no cap. CLIV. E vieram todos agora, porque a chuva continuava a cair e o céo e o mar estavam ainda unidos pela mesma cerração. Vieram todos esses nomes, com os proprios sujeitos correspondentes, e até vieram sujeitos sem nomes,--os adventicios e ignorados,--que uma só vez passaram por ella, cantaram o hymno da admiração e receberam o obolo da boa vontade. Porque não reteve algum de tantos, para ouvil-o cantar e enriquecel-o? Não é que os obolos enriqueçam a ninguem, mas ha outras moedas de maior valia. Porque não reteve um de tantos nomes elegantes, e até egregios? Essa pergunta sem palavras correu-lhe assim pelas veias, pelos nervos, pelo cerebro, sem outra resposta mais que a agitação e a curiosidade.
CAPITULO CLX
Nisto, a chuva cessou um pouco, e um raio de sol logrou romper o nevoeiro,--um desses raios humidos que parecem vir de olhos que choraram. Sophia cuidou que ainda podia sair; estava inquieta por vêr, por andar, por sacudir aquelle torpor, e esperou que o sol varresse a chuva e tomasse conta do ceu e da terra; mas o grande astro percebeu que a intenção della era constituil-o lanterna de Diogenes, e disse ao raio humido: «Volta, volta ao meu seio, raio casto e virtuoso; não vás tu conduzil-a aonde o seu desejo a quer levar. Que ame, se lhe parece; que responda aos bilhetes namorados,--se os recebe e não queima,--não lhe sirvas tu de archote, luz do meu seio, filho das minhas entranhas, raio, irmão dos meus raios...»
E o raio obedeceu, recolhendo-se ao foco central, um pouco espantado do temor do sol, que tem visto tantas cousas ordinarias e extraordinarias. Então o veu de nuvens fez-se outra vez espesso, e mais escuro, e a chuva tornou a cahir em grandes bategas.
CAPITULO CLXI
Sophia resignou-se á reclusão. Já agora tinha a alma tão confusa e diffusa como o expectaculo exterior. Todas as imagens e nomes perdiam-se no mesmo desejo de amar. É justo dizer que ella, quando regressava desses estados de consciencia vagos e obscuros, tentava fugir-lhes e guiava o espirito para diverso assumpto; mas succedia-lhe como aos que têm somno e forcejam por velar: os olhos fecham-se de cada vez que espertam, e tornam a espertar para se fecharem outra vez. Afinal, deixou a vista da chuva e do nevoeiro; estava cançada, e para repousar, foi abrir as folhas do ultimo numero da _Revista dos Dous Mundos._ Um dia, no melhor dos trabalhos da commissão das Alagôas, perguntára-lhe uma das elegantes do tempo, casada com um senador:
Está lendo o romance de Feuillet, na _Revista dos Dous Mundos?_
--Estou, acudiu Sophia; é muito interessante, Não estava lendo, nem conhecia a _Revista_; mas, no dia seguinte, pediu ao marido que a assignasse; leu o romance, leu os que sahiram depois, e fallava de todos os que lêra ou ia lendo. Abertas as folhas daquelle numero, e acabada uma novella, Sophia recolheu-se ao quarto e atirou-se á cama. Passára mal a noute, não lhe custou pegar no somno,--profundo, largo e sem sonhos,--excepto para o fim, em que teve um pesadelo. Estava deante da mesma parede de cerração daquelle dia, mas no mar, á proa de uma lancha, deitada de bruços, escrevendo com o dedo na agua um nome--_Carlos Maria._ E as lettras ficavam gravadas, e para maior nitidez, tinham os sulcos de espuma. Até aqui nada havia que atordoasse, a não ser o mysterio; mas é sabido que os mysterios dos sonhos parecem factos naturaes. Eis que a parede da cerração se rasga, e nada menos que o proprio dono do nome apparece aos olhos de Sophia, caminha para ella, toma-a nos braços e diz-lhe muitas palavras de ternura, analogas ás que ella, alguns mezes antes, ouvira ao Rubião. E não a afligiram, como as d'este; ao contrario, escutou-as com prazer, meia cahida para trás, como se desmaiasse. Já não era lancha, mas carruagem, onde ella se ia com o primo, mãos presas, namorada de uma linguagem de ouro e sandalo. Tambem aqui não ha que atterre. O terror veiu quando a carruagem parou, muitos vultos mascarados a cercaram, mataram o cocheiro, arrancaram as portinholas, apunhalaram Carlos Maria e deitaram o cadaver ao chão. Depois, um delles, que parecia ser o cabo de todos, tomou o lugar do defuncto, tirou a mascara e disse a Sophia que se não assustasse, que elle a amava cem mil vezes mais que o outro. Logo em seguida, pegou-lhe nos pulsos e deu-lhe um beijo, mas um beijo humido de sangue, cheirando a sangue. Sophia soltou um grito de horror e acordou. Tinha ao pé do leito o marido.
--Que foi? perguntou elle.
--Ah! respirou Sophia. Gritei, não gritei?
Palha não respondeu nada; olhava á tôa, pensava em negocios. Então um receio assaltou a mulher, se haveria effectivamente fallado, murmurado alguma palavra, um nome qualquer,--o mesmo que escrevera na agua. E logo, espreguiçando os braços para o ar, fel-os cahir sobre os hombros do marido, cruzou as pontas dos dedos na nuca, e murmurou meia alegre, meia triste:
--Sonhei que estavam matando você.
Palha ficou enternecido. Havel-a feito padecer por elle, ainda que em sonhos, encheu-o de piedade, mas de uma piedade gostosa, um sentimento particular, intimo, profundo,--que o faria desejar outros pesadelos, para que o assasinassem aos olhos della, e para que ella gritasse augustiada, convulsa, cheia de dor e de pavor.
CAPITULO CLXII