Part 15
Pois que se trata de cavallos, não fica mal dizer que a imaginação de Sophia era agora um corsel brioso e petulante, capaz de galgar morros e desbaratar mattos. Outra seria a comparação, se a occasião fosse differente; mas corsel é o que vae melhor. Traz a ideia do impeto, do sangue, da disparada, ao mesmo tempo que a da serenidade com que torna ao caminho recto, e por fim á cavallariça.
CAPITULO CXLI
--Está dito, vamos amanhã, repetiu Rubião, que espreitava o rosto acceso de Sophia.
Mas o corsel viera fatigado da carreira, e deixou-se estar somnolento na cavallariça. Sophia era já outra; passara a vertigem da empreza, o ardor sonhado, o gosto de subir com elle a estrada da Tijuca. Dizendo-lhe Rubião que fallaria ao marido para que a deixasse ir ao passeio, redarguiu sem alma:
--Está tonto! Fica para o domingo que vem!
E fixou os olhos no trabalho de linha que fazia,--frioleira é o nome,--emquanto Rubião voltava os seus para um trechosinho de jardim mofino, ao pé da saleta de trabalho onde estavam. Sophia, sentada no angulo da janella, ia meneando os dedos. Rubião viu em duas rosas vulgares uma festa imperial, e esqueceu a sala, a mulher e a si. Não se póde dizer, ao certo, que tempo estiveram assim calados, alheios e remotos um do outro. Foi uma criada que os accordou, trazendo-lhes café. Bebido o café, Rubião concertou as barbas, tirou o relogio e despediu-se. Sophia, que espreitava a sabida, ficou satisfeita, mas encobriu o gosto com o espanto.
--Já!
--Preciso de fallar a um sujeito antes das quatro horas, explicou Rubião. Estamos entendidos; passeio de amanhã gorado. Vou mandar desavisar os cavallos. Mas será certo no domingo que vem?
--Certo, certo, não posso affirmar; mas resolvendo-se em tempo o Christiano, creio que sim. Sabe que meu marido é o homem dos impedimentos.
Sophia acompanhou-o até á porta, estendeu-lhe a mão indifferente, respondeu sorrindo alguma cousa chocha, tornou á salinha em que estivera,--ao mesmo angulo,--da mesma janella. Não continuou logo o trabalho, poz uma perna sobre outra, fazendo descer, por habito, a saia do vestido, e lançou uma olhada ao jardim, onde as duas rosas tinham dado ao nosso amigo uma visão imperial. Sophia não viu mais que duas flores mudas. Fitou-as, não obstante, algum tempo; em seguida, pegou da frioleira, trabalhou um pouco, deteve-se outro pouco, deixando as mãos no regaço; e voltou á obra, outra vez, para tornar a deixal-a. De repente, levantou-se e atirou as linhas e a _navette_ á cestinha de junco, onde guardava os seus pretextos de trabalho. A cesta era ainda uma lembrança de Rubião!
--Que homem aborrecido!
Dalli foi encostar-se á janella, que dava para o jardim mofino, onde iam murchando as duas rosas vulgares. Rosas, quando recentes, importam-se pouco ou nada com as coleras dos outros; mas, se definham, tudo lhes serve para vexar a alma humana. Quero crer que este costume nasce da brevidade da vida. «Para as rosas, escreveu Fontenelle, o jardineiro é eterno.» E que melhor maneira de ferir o eterno que mofar das suas iras? Eu passo, tu ficas; mas eu não fiz mais que florir e aromar, servi a donas e a donzellas, fui lettra de amor, ornei a botoeira dos homens, ou expiro no proprio arbusto, e todas as mãos e todos os olhos me trataram e me viram com admiração e affecto. Tu não, ó eterno; tu zangas-te, tu padeces, tu choras, tu affliges-te! a tua eternidade não vale um só dos meus minutos.
Assim, quando Sophia chegou á janella que dava para o jardim, ambas as rosas riram-se a petalas despregadas. Uma dellas disse que era bem feito! bem feito! bem feito!
--Tens razão em te zangares, formosa creatura, acrescentou, mas hade ser comtigo, não com elle. Elle que vale? Um triste homem sem encantos, póde ser que bom amigo, e talvez generoso, mas repugnante, não? E tu, requestada de outros, que demonio te leva a dar ouvidos a esse intruso da vida? Humilha-te, ó suberba creatura, porque és tu mesma a causa do teu mal. Tu juras esquecel-o, e não o esqueces. E é preciso esquecel-o? Não te basta fital-o, escutal-o, para desprezal-o? Esse homem não diz cousa nenhuma, ó singular creatura, e tu...
--Não é tanto assim, interrompeu a outra rosa, com a voz ironica e descançada; elle diz alguma cousa, e dil-a desde muito, sem desapprendel-a, nem trocal-a; é firme, esquece a dor, crê na esperança. Toda a sua vida amorosa é como o passeio á Tijuca, de que vocês fallavam ha pouco: «Fica para o domingo que vem!» Eia, piedade ao menos; sê piedosa, ó bonissima Sophia! Se hasde amar a alguem, fóra do matrimonio, ama-o a elle, que te ama e é discreto. Anda, arrepende-te do gesto de ha pouco. Que mal te fez elle, e que culpa lhe cabe se és bonita? E quando haja culpa, a cesta é que a não tem, só porque elle a comprou, e menos ainda as linhas e a _navette_ que tu mesma mandaste comprar pela criada. Tu és má, Sophia, és injusta...
CAPITULO CXLII
Sophia deixou-se estar ouvindo, ouvindo... Interrogou outras plantas, e não lhe disseram cousa diferente. Ha desses acertos maravilhosos. Quem conhece o solo e o sub-solo da vida, sabe muito bem que um trecho de muro, um banco, um tapete, um guarda-chuva, são ricos de ideias ou de sentimentos, quando nós tambem o somos, e que as reflexões de parceria entre os homens e as cousas compõem um dos mais interessantes phenomenos da terra. A expressão: «Conversar com os seus botões», parecendo simples metaphora, é phrase de sentido real e directo. Os botões operam synchronicamente comnosco; formam uma especie de senado, commodo e barato, que vota sempre as nossas moções.
CAPITULO CXLIII
Fez-se o passeio á Tijuca, sem outro incidente mais que uma queda do cavallo, ao descerem. Não foi Rubião que cahiu, nem o Palha, mas a senhora deste, que vinha pensando em não sei quê, e chicoteou o animal com raiva; elle espantou-se e deitou-a em terra. Sophia cahiu com graça. Estava singularmente esbelta, vestida de amazona, corpinho tentador de justeza. Othello exclamaria, se a visse: «Oh! minha bella guerreira!» Rubião limitara-se a isto, ao começar o passeio: «A senhora é um anjo!».
CAPITULO CXLIV
--Fiquei com o joelho dorido, disse ella entrando em casa e coxeando.
--Deixa ver.
No quarto de vestir, Sophia levantou o pé sobre um banquinho e mostrou ao marido o joelho pisado; inchára um pouco, muito pouco, mas tocando-lhe, fazia-a gemer. Palha, não querendo machucal-a, chegou-lhe a pontinha dos beiços apenas.
--Fiquei descomposta quando cahi?
--Não. Pois com um vestido tão comprido... Mal se pôde ver o bico do pé. Não houve nada, acredita.
--Jura que não?
--Que desconfiada que você é, Sophia! Juro por tudo o que ha mais sagrado, pela luz que me allumia, por Deus Nosso Senhor. Estás satisfeita?
Sophia ia cobrindo o joelho.
--Deixa ver outra vez. Creio que não será nada de maior; bota um pouco de qualquer cousa. Manda perguntar á botica.
--Está bom, deixa-me ir despir, disse ella forcejando por descer o vestido.
Mas o Palha baixara os olhos do joelho até ao resto da perna, onde pegava com o cano da bota. De feito, era um bello trecho da natureza. A meia de seda dava ideia clara da perfeição do contorno. Palha, por graça, ia perguntando á mulher se se machucára aqui, e mais aqui, e mais aqui, indicando os logares com a mão que ia descendo. Se apparecesse um pedacinho desta obra-prima, o céo e as arvores ficariam assombrados, concluiu elle em quanto a mulher descia o vestido e tirava o pé do banco.
--Póde ser, mas não havia só o céo e as arvores, disse ella; havia tambem os olhos do Rubião.
--Ora, o Rubião! É verdade; elle nunca mais teve aquellas ideias de Santa Thereza?
--Nunca; mas, emfim, não me agradaria... Jura de verdade, Christiano?
--O que você quer é que eu vá subindo de sagrado em sagrado, até á cousa mais sagrada. Jurei por Deus; não bastou. Juro por você; está satisfeita?
Pieguices de lascivo. Sahiu finalmente do quarto da mulher e foi para o seu. Aquelle pudor medroso e incredulo de Sophia fazia-lhe bem. Mostrava que ella era sua, totalmente sua; mas, por isso mesmo que elle a possuia, considerava que era de grande senhor não se affligir com a vista casual e instantanea de um pedaço occulto do seu reino. E lastimava que o casual tivesse parado na ponta da bota. Era apenas a fronteira; as primeiras villas do territorio, antes da cidade machucada pela queda, dariam ideia de uma civilisação sublime e perfeita. E ensaboando-se, esfregando a cara, o collo e a cabeça na vasta bacia de prata, escovando-se, enxugando-se, aromando-se, Palha imaginava o pasmo e a inveja da unica testemunha do desastre, se este fosse menos incompleto.
CAPITULO CXLV
Foi por esse tempo que Rubião poz em espanto a todos os seus amigos. Na terça-feira seguinte ao domingo do passeio (era então Janeiro de 1870) avisou a um barbeiro e cabelleireiro da rua do Ouvidor que o mandasse barbear a casa, no outro dia, ás nove horas da manhã. Lá foi um official francez,--chamado Lucien, creio eu,--que entrou para o gabinete de Rubião, segundo as ordens dadas ao criado.
--Uhm!... rosnou Quincas Borba, de cima dos joelhos do Rubião.
Lucien parou á porta do gabinete, e comprimemtou o dono da casa; este, porem, não viu a cortezia, como não ouvira o signal do Quincas Borba. Estava em uma longa cadeira de extensão, ermo do espirito, que rompera o tecto e se perdera no ar. A quantas leguas iria? Nem condor nem aguia o poderia dizer. Em marcha para a lua,--não via cá em baixo mais que as felicidades perennes, chovidas sobre elle, desde o berço, onde o embalaram fadas, até á praia de Botafogo, aonde ellas o trouxeram, por um chão de rosas e bogaris. Nenhum revez, nenhum mallogro, nenhuma pobreza;--vida placida, cosida de goso, com rendas de superfluo. Em marcha para a lua!
Lucien relanceou os olhos pelo gabinete, onde fazia principal figura a secretária, e sobre ella os dous bustos de Napoleão e Luiz Napoleão. Relativamente a este ultimo, havia ainda, pendentes da parede, uma gravura ou lithographia representando a _Batalha de Solferino_, e um retrato da imperatriz Eugenia.
Rubião tinha nos pés um par de chinellas de damasco, bordadas a ouro; na cabeça, um gorro com borla de seda preta. Na bocca, um riso azul claro.
CAPITULO CXLVI
--_Monsieur..._
--Uhm! repetiu Quincas Borba, de pé nos joelhos do senhor.
Rubião voltou a si e deu com o barbeiro. Conhecia-o por tel-o visto ultimamente na loja; ergueu-se da cadeira, Quincas Borba latia, como a defendel-o contra o intruso.
--Socega! cala a boca! disse-lhe Rubião; e o cachorro foi, de orelha baixa, metter-se por traz da cesta de papeis. Durante esse tempo, Lucien desembrulhava os seus apparelhos.
--_Monsieur veut se faire raser, n'est-ce pas? Pourquoi donc a-t-il laisser croître cette belle barbe? Apparemment que c'est un voeu d'amour? J'en connais qui ont fait de pareils sacrifices; j'ai même été confident de quelques personnes aimables..._
--Justamente! interrompeu Rubião.
Não entendera nada; posto soubesse algum francez, mal o comprehendia lido--como sabemos,--e não o entendia fallado. Mas, phenomeno curioso, não respondeu por impostura; ouviu as palavras, como se fossem comprimento ou acclamação; e, ainda mais curioso phenomeno, respondendo-lhe em portuguez, cuidava fallar francez.
--Justamente! repetiu. Quero restituir a cara ao typo anterior; é aquelle.
E, como apontasse para o busto de Napoleão III, respondeu-lhe o barbeiro pela nossa lingua:
--Ah! o imperador! Bonito busto, em verdade. Obra fina. O senhor comprou isto aqui ou mandou vir de Paris? São magnificos. Lá está o primeiro, o grande; este era um genio. Se não fosse a traição, oh! os traidores, vê o senhor? os traidores são peiores que as bombas de Orsini.
--Orsini! um coitado!
--Pagou caro.
--Pagou o que devia. Mas não ha bombas nem Orsini contra o destino de um grande homem, continuou Rubião. Quando a fortuna de uma nação põe na cabeça de um grande homem a coroa imperial, não ha maldades que valham... Orsini! um bobo!
Em poucos minutos, começou o barbeiro a deitar abaixo as barbas do Rubião, para lhe deixar somente a pera e os bigodes de Napoleão III; encarecia-lhe o trabalho; affirmava que era difficil compor exactamente uma cousa como a outra, E á medida que lhe cortava as barbas, ia-as gabando.--Que lindos fios! Era um grande e honesto sacrificio que fazia, em verdade...
--Seu barbeiro, você é pernostico, interrompeu Rubião. Já lhe disse o que quero; ponha-me a cara como estava. Alli tem o busto para guial-o.
--Sim, senhor, cumprirei as suas ordens, e verá que semelhança vae sair.
E zás, zás, deu os ultimos golpes ás barbas de Rubião, e começou a rapar-lhe as faces e os queixos. Durou longo tempo a operação; o barbeiro ia tranquillamente rapando, comparando, dividindo os olhos entre o busto e o homem. Ás vezes, para melhor cotejal-os, recuava dous passos, olhava-os alternadamente, inclinava-se, pedia ao homem que se virasse de um lado ou de outro, e ia ver o lado correspondente do busto.
--Vae bem? perguntava Rubião.
Lucien pedia-lhe com um gesto que se calasse, e proseguia. Recortou a pera, deixou os bigodes, e escanhoou á vontade, lentamente, amigamente, aborrecidamente, adivinhando com os dedos alguma pontinha imperceptivel de cabello no queixo ou na face, para não o consentir, nem por suspeita. Ás vezes Rubião, cançado de estar a olhar para o tecto, emquanto o outro lhe aperfeiçoava os queixos, pedia para descançar. Descançando, apalpava o rosto e sentia pelo tacto a mudança.
--Os bigodes é que não estão muito compridos, observava.
--Falta arranjar-lhe as guias; aqui trago os ferrinhos para encurval-os bem sobre o labio, e depois faremos as guias. Ah! eu prefiro compor dez trabalhos originaes a uma só copia.
Volveram ainda dez minutos, antes que os bigodes e a pera fossem bem retocados. Emfim, prompto. Rubião deu um salto, correu ao espelho, no quarto, que ficava ao pé; era o outro, eram ambos, era elle mesmo, em summa.
--Justamente! exclamou tornando ao gabinete, onde o barbeiro, tendo arrecadado os apparelhos, fazia festas ao Quincas Borba.
E indo á secretária, abriu uma gaveta, tirou uma nota de vinte mil réis, e deu-lh'a.
--Não tenho troco, disse o outro.
--Não precisa dar troco, acudiu Rubião com um gesto soberano; tire o que houver de pagar á casa, e o resto é seu.
CAPITULO CXLVII
Ficando só, Rubião atirou-se a uma poltrona, e viu passar muitas cousas sumptuosas. Estava em Biarritz ou Compiègne, não se sabe bem; Compiègne, parece. Governou um grande Estado, ouviu ministros e embaixadores, dansou, jantou,--e assim outras acções narradas em correspondencias de jornaes, que elle lera e lhe ficaram de memoria. Nem os ganidos de Quincas Borba logravam espertal-o. Estava longe e alto. Compiègne era no caminho da lua. Em marcha para a lua!
CAPITULO CXLVIII
Quando desceu da lua, ouviu os ganidos do cachorro e sentiu frio nos queixos. Correu ao espelho e verificou que a differença entre a cara barbada e a cara lisa era grande mas que, assim lisa, não lhe afiava, mal. Os comensaes chegaram á mesma conclusão.
--Está perfeitamente bem! Ha muito que devia ter feito isso. Não é que as barbas grandes lhe tirassem a nobreza do rosto; mas, assim como está agora, tem o que tinha, e mais um tom moderno...
--Moderno, repetiu o amphytrião.
Fóra, egual espanto. Todos achavam sinceramente que este outro aspecto lhe ia melhor que o anterior. Uma só pessoa, o Dr. Camacho, posto julgasse que os bigodes e a pera ficavam muito bem no amigo, ponderou que era de bom aviso não alterar o rosto, verdadeiro espelho da alma, cuja firmeza e constancia devia reproduzir.
--Não é por lhe fallar de mim, concluiu; mas, nunca me hade ver a cara de outro modo. É uma necessidade moral da minha pessoa. Minha vida, sacrificada aos principios,--porque eu nunca tentei conciliar principios, mas homens,--minha vida, digo, é uma imagem fiel da minha cara, e vice-versa.
Rubião ouvia com seriedade, e acenava de cabeça que sim, que devia ser assim por força. Sentia-se então imperador dos francezes, incognito, de passeio; descendo á rua, voltou ao que era. Dante, que viu tantas cousas extraordinarias, affirma ter assistido no inferno ao castigo de um espirito florentino, que uma serpente de seis pés abraçou de tal modo, e tão confundidos ficaram, que afinal já se não podia distinguir bem se era um ente unico, se dous. Rubião era ainda dous. Não se misturavam nelle a propria pessoa com o imperador dos francezes. Revesavam-se; chegavam a esquecer-se um do outro. Quando era só Rubião, não passava do homem do costume. Quando subia a imperador, era só imperador. Equilibravam-se, um sem outro, ambos integraes.
CAPITULO CXLIX
--Que mudança é essa? perguntou Sophia, quando elle lhe appareceu no fim da semana.
--Vim saber do seu joelho; está bom?
--Obrigada.
Eram duas horas da tarde. Sophia acabava de vestir-se para sair, quando a criada lhe fora dizer que estava alli Rubião,--tão mudado de cara que parecia outro. Desceu a vel-o curiosa; achara-o na sala, de pé, lendo os cartões de visita.
--Mas que mudança é essa? repetiu ella. Rubião, sem nenhuma ideia imperial, respondeu que suppunha ficarem-lhe melhor os bigodes e a pera.
--Ou estou mais feio? concluiu.
--Está melhor, muito melhor.
E Sophia disse comsigo que talvez fosse ella a causa da mudança. Sentou-se no sophá, e começou a enfiar os dedos nas luvas.
--Vae sahir?
--Vou, mas o carro ainda não veiu.
Cahiu-lhe uma das luvas. Rubião inclinou-se para apanhal-a, ella fez a mesma cousa, ambos pegaram na luva, e teimando em levantal-a, succedeu que as caras encontraram-se no ar, e bateram uma na outra. Pangloss, se tem assistido ao episodio, emendaria a sua theoria dos narizes, que, segundo elle, foram feitos para uso dos oculos, quando a verdade é que foram destinados a impedir o encontro casual e involuntario das bocas de um e de outro sexo. Assim succedeu aqui. O nariz della bateu no delle, e as boccas ficaram intactas para rir, como riram.
--Machuquei-a?
--Não! eu é que lhe pergunto...
E riram outra vez. Sophia calçou a luva, Rubião fitou-lhe um pé que se mexia disfarçadamente, até que o criado veiu dizer que a carruagem chegára. Ergueram-se, e ainda uma vez riram.
CAPITULO CL
Teso, descoberto, o lacaio abriu a portinhola do _coupé_, quando Sophia assomou á porta. Rubião offereceu a mão para ajudal-a a entrar, ella acceitou o obsequio e entrou.
--Agora, até...
Não pôde acabar a phrase; Rubião entrára após ella e sentára-se-lhe ao lado; o lacaio fechou a portinhola, trepou á almofada, e o carro partiu.
CAPITULO CLI
Tão rápido foi tudo, que Sophia perdeu a voz e o movimento; mas, ao cabo de alguns segundos:
--Que é isto?... Senhor Rubião, mande parar o carro.
--Parar? Mas a senhora não me disse que ia sair e esperava por elle?
--Não ia sair com o senhor... Não vê que... Mande parar...
Desatinada, quiz ordenar ao cocheiro que parasse; mas a ideia de um possivel escandalo fel-a deter-se a meio caminho. O _coupé_ entrara na rua Bella da Princeza. Sophia novamente pediu a Rubião que advertisse na inconveniencia de irem assim, á vista de Deus e de todo mundo, Rubião respeitou o escrupulo, e propoz que descessem as cortinas.
--Eu acho que não faz mal que nos vejam, explicou Rubião; mas, fechando as cortinas, ninguem nos vê. Se quer?
Sem aguardar resposta, desceu as cortinas de um e outro lado, e ficaram os dous a sós, porque, se de dentro podiam ver uma ou outra pessoa que passasse, de fóra ninguem os via. Sós, completamente sós, como naquelle dia em que ás mesmas duas horas da tarde, em casa d'ella, Rubião lhe lançou em rosto os seus desesperos. Lá, ao menos, a moça, estava livre; aqui dentro do carro fechado, não podia calcular as consequencias.
Rubião, entretanto, accommodára as pernas e não dizia nada.
CAPITULO CLII
Sophia encolhera-se muito ao canto. Podia ser extranheza da situação, podia ser medo; mas era principalmente repugnancia. Nunca esse homem lhe fez sentir tanta aversão, asco, ou outra cousa menos dura, se querem, mas que se reduzia á incompatibilidade,--como direi que não aggrave os ouvidos?--á incompatibilidade da epiderme. Onde iam os sonhos de ha poucos dias? Ao simples convite de um passeio, a sós, á Tijuca, subiu com elle a montanha, a galope, desmontou, ouviu palavras de adoração, e sentiu um beijo na nuca. Onde iam essas imaginações? Onde iam os olhos fixos e grandes, as mãos amigas e longas, os pés inquietos, as palavras meigas e os ouvidos cheios de misericordia? Tudo esqueceu, tudo desappareceu, agora que ambos se achavam deveras sós, insulados pelo carro e pelo escandalo.
E os cavallos continuavam a andar, sacudindo as patas, arrastando lentamente o carro, pelas pedras da rua Bella da Princeza. Que faria ella chegando ao Cattete? iria á cidade com elle? Pensou em seguir para a casa de alguma amiga deixal-o-hia dentro, diria ao cocheiro que se fosse embora. Contaria tudo ao marido. No meio daquella agonia, atravessaram-lhe o cerebro algumas memorias banaes, ou extranhas á situação, como a noticia de um roubo de joias lida de manhã nos jornaes, a ventania da vespera, um chapéo. Afinal fixou-se em um só cuidado. Que lhe ia dizer o Rubião? Viu que elle continuava a olhar para a frente, calado, com o castão da bengala no queixo. Não lhe ficava mal a attitude, tranquilla, séria, quasi indifferente; mas então para que se metteu no carro? Sophia quiz romper o silencio; por duas vezes moveu nervosamente as mãos; quasi que a irritou a quietação do homem, cuja acção só podia ser explicada pela paixão antiga e violenta. Depois, imaginou que elle proprio estaria arrependido, e disse-lh'o em bons termos.
--Não vejo que me possa arrepender de cousa nenhuma, acudiu elle, voltando-se. Quando a senhora disse que era máu irmos assim, á vista do publico, abaixei as cortinas. Não concordei, mas obedeci.
--Chegamos ao Cattete, atalhou ella; quer que o leve a casa? Não podemos ir juntos para a cidade.
--Podemos andar á tôa.
--Como?
--Á tôa, os cavallos vão andando e nós vamos conversando, sem que nos ouçam nem adivinhem...
--Pelo amor de Deus! não me falle assim, deixe-me, saia do carro, ou eu saio aqui mesmo, e o senhor toma conta d'elle. Que é que quer dizer? Bastam poucos minutos... Olhe, já dobramos para o lado da cidade; mande ir para Botafogo, vou deixal-o a porta de casa...
--Mas eu sahi ha pouco de casa, vou para a cidade. Que mal ha em levar-me até lá? Se é para que não nos vejam, como foi com as cortinas, apeio-me, em qualquer logar,--na praia de Santa Luzia, por exemplo,--do lado do mar...
--O melhor é descer aqui mesmo.
--Mas porque não iremos até a cidade?
--Não, não póde ser. Peço-lhe por tudo que lhe for mais sagrado! Não faça escandalo; vamos, diga-me o que é preciso para obter uma cousa tão simples? Quer que me ajoelhe aqui mesmo?
Apezar da estreiteza do espaço, ia dobrando os joelhos; mas Rubião deu-se pressa em fazel-a sentar-se outra vez.
--Não é preciso que se ajoelhe, disse com brandura.
--Obrigada; peço-lhe então por Deus, por sua mãe, que está no ceu...
--Deve estar no ceu, confirmou Rubião. Era uma santa senhora! As mães são sempre boas; mas daquella, ninguem que a conheceu poderá dizer outra cousa senão que era uma santa. E prendada, como poucas. Que dona de casa! Hospedes, para ella, tanto fazia cinco como cincoenta, era a mesma cousa, cuidava de tudo a tempo e a hora, e criou fama. Os escravos davam-lhe o nome de _Sinhá Mãe_, porque era, realmente, mãe para todos. Deve estar no céu!
--Bem, bem, atalhou Sophia. Pois faça-me isto por amor de sua mãe; faz?
--Isto que?
--Apeiar-se aqui mesmo?
--E ir a pé para a cidade? Não posso. É scisma sua; ninguem nos vê. E depois estes seus cavallos são magnificos. Já reparou como atiram as patas, lentamente, plás... plás... plás... plás...
Cançada de pedir, Sophia calou-se, cruzou os braços e coseu-se ainda mais, se era possivel, ao cantinho do carro.