Quincas Borba

Part 14

Chapter 143,937 wordsPublic domain

«_Il mérite d'être aimé_», leu Sophia na pagina aberta do romance, quando ia continuar a leitura; fechou o livro, fechou os olhos, e perdeu-se em si mesma. A escrava que entrou d'ahi a pouco, trazendo-lhe um caldo, suppoz que a senhora dormia e retirou-se pé ante pé.

CAPITULO CXXVI

Entretanto, Rubião e Palha desciam do paquete para a lancha e tornavam ao cáes Pharoux. Vinham cuidosos e calados. Palha foi o primeiro que abriu a bocca:

--Ando ha tempos para dizer-lhe uma cousa importante, Rubião.

CAPITULO CXXVII

Rubião accordou. Era a primeira vez que ia a um paquete. Voltava com a alma cheia dos rumores de bordo, a lufa-lufa das gentes que entravam e sahiam, nacionaes, estrangeiros, estes de varia casta, francezes, inglezes, allemães, argentinos, italianos, uma confusão de linguas, um capharnaum de chapéos, de malas, cordoalha, sophás, binoculos a tiracollo, homens que desciam ou subiam por escadas para dentro do navio, mulheres chorosas, outras curiosas, outras cheias de riso, e muitas que traziam de terra flores ou frutas,--tudo aspectos novos. Ao longe, a barra por onde tinha de ir o paquete. Para lá da barra, o mar immenso, o céo fechado e a solidão. Rubião renovou os sonhos do mundo antigo, creou uma Atlantida, sem nada saber da tradicção. Não tendo noções de geographia, formava uma idéa confusa dos outros paizes, e a imaginação rodeava-os de um nimbo mysterioso. Como não lhe custava viajar assim, navegou de cór algum tempo, n'aquelle vapor alto e comprido, sem enjôo, sem vagas, sem ventos, sem nuvens.

CAPITULO CXXVIII

--A mim? perguntou Rubião depois de alguns segundos.

--A você, confirmou o Palha. Devia tel-a dito ha mais tempo, mas estas historias de casamento, de commissão das Alagoas, etc., atrapalharam-me, e não tive occasião; agora, porém, antes do almoço... Você almoça commigo.

--Sim, mas que é?

--Uma cousa importante.

Dizendo isto, tirou um cigarro, abriu-o, desfiou o fumo com os dedos, enrolou a palha outra vez, e riscou um phosphoro, mas o vento apagou o phosphoro. Então pediu ao Rubião que lhe fizesse o favor de segurar o chapéo, para poder accender outro. Rubião obedeceu impaciente. Bem póde ser que o socio, esticando a espera, quizesse justamente fazer-lhe crer que se tratava de um terremoto; a realidade viria a ser um beneficio. Puxadas duas fumaças:

--Estou com meu plano de liquidar o negocio; fallaram-me ahi para uma casa bancaria, logar de director, e creio que acceito.

Rubião respirou.

--Pois sim; liquidar já?

--Não, lá para o fim do anno que vem.

--E é preciso liquidar?

--Cá para mim, é. Se a historia do banco não fosse segura, não me animaria a perder o certo pelo duvidoso; mas é segurissima.

--Então no fim do anno que vem soltamos os laços que nos prendem...

Palha tossiu.

--Não, antes, no fim deste anno.

Rubião não entendeu; mas o socio explicou-lhe que era util desligarem já a sociedade, afim de que elle sósinho liquidasse a casa. O banco podia organizar-se mais cedo ou mais tarde; e para que sujeitar o outro ás exigencias da occasião? Demais, o Dr. Camacho affirmava que, em breve, Rubião estaria na camara, e que a queda do Itaborahy era certa.

--Seja o que fôr, concluiu; é sempre melhor desligarmos a sociedade com tempo. Você não vive do commercio; entrou com o capital necessario ao negocio,--como podia dal-o a outro ou guardal-o.

--Pois sim, não tenho duvida, concordou o Rubião.

E depois de alguns instantes:

--Mas diga-me uma cousa, essa proposta traz algum motivo occulto? é rompimento de pessoas, de amizade... Seja franco, diga tudo...

--Que caraminhola é essa? redarguiu o Palha. Separação de amizade, de pessoas... Mas você está tonto. Isto é do balanço do mar. Pois eu, que tenho trabalhado tanto por você, eu que o faço amigo dos meus amigos, que o trato como um parente, como um irmão, havia de brigar á toa? Aquelle mesmo casamento de Maria Benedicta com o Carlos Maria devia ser com você, bem sabe, se não fosse a sua recusa. A gente póde romper um laço sem romper os outros. O contrario seria desproposito. Então todos os amigos de sociedade ou de familia são socios de commercio? E os que não forem commerciantes?

Rubião achou excellente a razão, e quiz abraçar o Palha. Este apertou-lhe a mão satisfeitissimo; ia vêr-se livre de um socio, cuja prodigalidade crescente podia trazer-lhe algum perigo. A casa estava solida; era facil entregar ao Rubião a parte que lhe pertencesse, menos as dividas pessoaes e anteriores. Restavam ainda algumas daquellas que o Palha confessou á mulher, na noite de Santa Thereza, cap. L. Pouco tinha pago; geralmente era o Rubião que abanava as orelhas ao assumpto. Um dia, o Palha, querendo dar-lhe á força algum dinheiro, repetiu o velho proverbio: «Paga o que deves, vê o que te fica». Mas o Rubião, gracejando:

--Pois não pagues, e vê se te não fica ainda mais.

--É boa! redarguiu o Palha rindo e guardando o dinheiro no bolso.

CAPITULO CXXIX

Não havia banco, nem logar de director, nem liquidação; mas, como justificaria o Palha a proposta de separação, dizendo a pura verdade? Dahi a invenção, tanto mais prompta, quanto o Palha tinha amor aos bancos, e morria por um. A carreira daquelle homem era cada vez mais prospera e vistosa. O negocio corria-lhe largo; um dos motivos da separação era justamente não ter que dividir com outro os lucros futuros. Palha, além do mais, possuia acções de toda a parte, apolices de ouro do emprestimo Itaborahy, e fizera uns dous fornecimentos para a guerra, de sociedade com um poderoso, nos quaes ganhou muito. Já trazia apalavrado um architecto para lhe construir um palacete. Vagamente pensava em baronia.

CAPITULO CXXX

--Quem diria que a gente do Palha nos trataria deste modo? Já não valemos nada. Excusa de os defender...

--Não defendo, estou explicando; ha de ter havido confusão.

--Fazer annos, casar a prima, e nem um triste convite ao major, ao grande major, ao impagavel major, ao velho amigo major. Eram os nomes que me davam; eu era impagavel, amigo velho, grande e outros nomes. Agora, nada, nem um triste convite, um recado de boca, ao menos, por um moleque: «Nhanhã faz annos, ou casa a prima, diz que a casa esta ás suas ordens, e que vão com luxo.» Não iriamos; luxo não é para nós. Mas era alguma cousa, era recado, um moleque, ao impagavel major...

--Papae!

Rubião, vendo a intervenção de D. Tonica, animou-se a defender longamente a familia Palha. Era em casa da major, não já na rua Dous de Dezembro, mas na dos Barbonos, modesto sobradinho. Rubião passava, elle estava á janella, e chamou-o. D. Tonica não teve tempo de sair da sala, para dar, ao menos, uma vista d'olhos ao espelho; mal pôde passar a mão pelo cabello, compôr o laço de fita ao pescoço e descer o vestido para cobrir os sapatos, que não eram novos.

--Digo-lhe que póde ter havido confusão, insistiu Rubião; tudo anda por lá muito atrapalhado com esta commissão das Alagoas.

--Lembra bem, interrompeu o major Siqueira; porque não metteram minha filha na commissão das Alagoas? Qual! Ha já muito que reparo nisto; antigamente não se fazia festa sem nós. Nós éramos a alma de tudo. De certo tempo para cá começou a mudança; entraram a receber-nos friamente, e o marido, se pode esquivar-se, não me falla na rua. Isto começou ha tempos; mas antes disso sem nós é que não se fazia nada. Que está o senhor a fallar de confusão? Pois se na vespera dos annos della, já desconfiando que não nos convidariam, fui ter com elle ao armazem. Poucas palavras, por mais que lhe fallasse em D. Sophia; disfarçava. Afinal disse-lhe assim: «Hontem, lá em casa, eu e Tonica estivemos discutindo sobre a data dos annos de D. Sophia; ella dizia que tinha passado, eu disse que não, que era hoje ou amanhã.» Não me respondeu, fingiu que estava absorvido em uma conta, chamou o guarda-livros, e pediu explicações. Eu entendi o bicho, e repeti a historia; fez a mesma cousa. Sahi. Ora o Palha, um pé-rapado! Já o envergonho. Antigamente: major, um brinde. Eu fazia muitos brindes, tinha certo desembaraço. Jogavamos o voltarete. Agora está nas grandezas; anda com gente fina. Ah! vaidades deste mundo! Pois não vi outro dia a mulher delle, n'um _coupé_, com outra? A Sophia de _coupé!_ Fingiu que me não via, mas arranjou os olhos de modo que percebesse se eu a via, se a admirava. Vaidades desta vida! Quem nunca comeu azeite, quando come se lambusa.

--Perdão, mas os trabalhos da commissão exigem certo apparato.

--Sim, acudiu Siqueira, é por isso que minha filha não entrou na commissão; é para não estragar as carruagens...

--Demais, o _coupé_ podia ser da outra senhora, que ia com ella.

O major deu dous passos, com as mãos atraz, e parou deante de Rubião.

--Da outra... ou do padre Mendes. Como vae o padre? Boa vida, naturalmente.

--Mas, papae, póde não haver nada, interrompeu D. Tonica. Ella sempre me trata bem, e quando estive doente no mez passado, mandou saber pelo moleque, duas vezes...

--Pelo moleque! bradou o pae. Pelo moleque! Grande favor! «Moleque, vae alli á casa daquelle reformado e pergunta lhe se a filha tem passado melhor; não vou, porque estou lustrando as unhas!» Grande favor! Tu não lustras as unhas! tu trabalhas! tu és digna filha minha! pobre, mas honesta!

Aqui o major chorou, mas suspendeu de repente as lagrimas. A filha, commovida, sentiu-se tambem vexada. Certo, a casa dizia a pobreza da familia, poucas cadeiras, uma meza redonda velha, um canapé gasto; nas paredes duas lithographias encaixilhadas em pinho pintado de preto, um era o retrato do major em 1857, a outra representava o _Veronez em Veneza_, comprado na rua do Senhor dos Passos. Mas o trabalho da filha transparecia em tudo; os moveis reluziam de asseio, a meza tinha um panno de crivo, feito por ella, o canapé uma almofada. E era falso que D. Tonica não lustrasse as unhas; não teria o pó nem a camurça, mas acudia-lhes com um retalho de panno todas as manhãs.

CAPITULO CXXXI

Rubião tratou-os com sympathia. Não continuou a defender a gente Palha, para não desesperar o major, e fallou do exercito. Pouco depois, despediu-se, promettendo, sem convite, que lá iria jantar «um dia destes».

--Jantar de pobre, acudiu o major; se puder avisar, avise.

--Não quero banquetes; virei quando me der na cabeça.

Despediu-se. D. Tonica, depois de ir até o patamar, sem chegar á frente por causa dos sapatos, foi á janella para vel-o sair.

CAPITULO CXXXII

Logo que Rubião dobrou a esquina da rua das Mangueiras, D. Tonica entrou e foi ao pae, que se estendera no canapé, para reler o velho _Saint-Clair das ilhas ou os desterrados da ilha da Barra._ Foi o primeiro romance que conheceu; o exemplar tinha mais de vinte annos; era toda a bibliotheca do pae e da filha. Siqueira abriu o primeiro volume, e deitou os olhos ao começo do cap. II, que já trazia de cór. Achava-lhe agora um sabor particular, por motivo dos seus recentes desgostos: «Enchei bem os vossos copos, exclamou Saint-Clair, e bebamos de uma vez; eis o brinde que vos proponho. Á saude dos bons e valentes opprimidos, e ao castigo dos seus oppressores. Todos acompanharam Saint-Clair, e foi de roda a saude.»

--Sabe de uma cousa, papae? Papae compra amanhã latas de conserva, _petit-pois_, peixe, etc. e ficam guardadas. No dia em que elle apparecer para jantar, põe-se no fogo, é só aquecer, e daremos um jantarzinho melhor.

--Mas eu só tenho o dinheiro do teu vestido.

--O meu vestido? Compra-se no mez que vem, ou no outro. Eu espero.

--Mas não ficou ajustado?

--Desajusta-se; eu espero.

--E se não houver outro do mesmo preço?

--Hade haver; eu espero, papae.

CAPITULO CXXXIII

Ainda não disse,--porque os capitulos atropellam-se debaixo da penna,--mas aqui está um para dizer que, por aquelle tempo, as relações de Rubião tinham crescido em numero. Camacho puzera-o em contacto com muitos homens politicos, a commissão das Alagoas com varias senhoras, os bancos e companhias com pessoas do commercio e da praça, os theatros com alguns frequentadores e a rua do Ouvidor com toda a gente. Já então era um nome repetido. Conhecia-se o homem. Quando appareciam as barbas e o par de bigodes longos, uma sobre-casaca bem justa, um peito largo, bengala de unicornio, e um andar firme e senhor, dizia-se logo que era o Rubião,--um ricaço de Minas.

Tinham-lhe feito uma lenda. Diziam-n'o discipulo de um grande philosopho, que lhe legára immensos bens,--um, tres, cinco mil contos. Extranhavam alguns que elle não fallasse nunca de philosophia, mas a lenda explicava esse silencio pelo proprio methodo philosophico do mestre, que consistia em ensinar sómente aos homens de boa vontade. Onde estavam esses discipulos? Iam á casa delle, todos os dias,--alguns duas vezes, de manhã e de tarde; e assim ficavam definidos os comensaes. Não seriam discipulos, mas eram de boa vontade. Roiam fome, á espera, e ouviam calados e risonhos os discursos do amphytrião. Entre os antigos e os novos, houve tal ou qual rivalidade, que os primeiros accentuaram bem, mostrando maior intimidade, dando ordens aos criados, pedindo charutos, indo ao interior, assobiando, etc. Mas o costume os fez supportaveis entre si, e todos acabaram na doce e commum confissão das qualidades do dono da casa. Ao cabo de algum tempo, tambem os novos lhe deviam dinheiro, ou em especie,--ou em fiança no alfaiate, ou endosso de lettras, que elle pagava ás escondidas, para não vexar os devedores.

Quincas Borba andava ao collo de todos. Davam estalinhos, para vel-o saltar, alguns chegavam a beijar-lhe a testa; um delles, mais habil, achou modo de o ter á mesa, ao jantar ou almoço, sobre as pernas, para lhe dar migalhas de pão.

--Ah! isso não! protestou Rubião á primeira vez.

--Que tem? retorquiu o comensal. Não ha pessoas extranhas.

Rubião reflectiu um instante.

--Verdade é que está ahi dentro um grande homem, disse elle.

--O philosopho, o outro Quincas Borba, continuou o conviva, circulando o olhar pelos novatos, para mostrar a intimidade das relações entre elle e Rubião; mas, não logrou sosinho a vantagem, por que os outros amigos da mesma éra, repetiram, em coro:

--É verdade, o philosopho.

E Rubião explicou aos novatos a allusão ao philosopho, e a razão do nome do cão, que todos lhe attribuiam. Quincas Borba (o defuncto) foi descripto e narrado como um dos maiores homens do tempo,--superior aos seus patricios. Grande philosopho, grande alma, grande amigo. E no fim, depois de algum silencio, batendo com os dedos na borda da mesa, Rubião exclamou:

--Eu o faria ministro de Estado!

Um dos convivas exclamou, sem convicção, por simples officio:

--Oh! sem duvida!

Nenhum daquelles homens sabia, entretanto, o sacrificio que lhes fazia o Rubião. Recusava jantares, passeios, interrompia conversações apraziveis, só para correr a casa e jantar com elles. Um dia achou meio de conciliar tudo. Não estando elle em casa ás seis horas em ponto, os criados deviam pôr o jantar para os amigos. Houve protestos; não, senhor, esperariam até sete ou oito horas. Um jantar sem elle não tinha graça.

--Mas é que posso não vir, explicou Rubião.

Assim se cumpriu. Os convivas ajustaram bem os relogios pelos da casa de Botafogo. Davam seis horas, todos á mesa. Nos dous primeiros dias houve tal ou qual hesitação; mas os criados tinham ordens severas. Ás vezes, Rubião chegava pouco depois. Eram então risos, ditos, intrigas alegres. Um queria esperar, mas os outros... Os outros desmentiam o o primeiro; ao contrario, foi este que os arrastou, tal fome trazia,--a ponto que, se alguma cousa restava, eram os pratos. E Rubião ria com todos.

CAPITULO CXXXIV

Fazer um capitulo só para dizer que, a principio, os convivas, ausente o Rubião, fumavam os proprios charutos, depois do jantar,--parecerá frivolo aos frivolos; mas os considerados dirão que algum interesse haverá nesta circumstancia em apparencia minima.

De facto, uma noite, um dos mais antigos lembrou-se de ir ao gabinete de Rubião; lá fôra algumas vezes, alli se guardavam as caixas de charutos, não quatro nem cinco, mas vinte e trinta de varias fabricas e tamanhos, muitas abertas. Um criado (o hespanhol) accendeu o gaz. Os outros convivas seguiram o primeiro, escolheram charutos e os que ainda não conheciam o gabinete admiraram os moveis bem feitos e bem dispostos. A secretária captou as admirações geraes; era de ebano, um primor de talha, obra severa e forte. Uma novidade os esperava: dous bustos de marmore, postos sobre ella, os dous Napoleões, o primeiro e o terceiro.

--Quando veiu isto?

--Hoje ao meio dia, respondeu o criado.

Dous bustos magnificos. Ao pé do olhar aquilino do tio, perdia-se no vago o olhar scismatico do sobrinho. Contou o criado que o amo, apenas recebidos e collocados os bustos, deixara-se estar grande espaço em admiração, tão deslembrado do mais, que elle pode miral-os tambem, sem admiral-os.--_No me dicen nada estos dos pícaros_, concluiu o criado fazendo um gesto largo e nobre.

CAPITULO CXXXV

Rubião protegia largamente as lettras. Livros que lhe eram dedicados, entravam para o prelo com a garantia de duzentos e trezentos exemplares. Tinha diplomas e diplomas de sociedades litterarias, coreographicas, pias, e era juntamente socio de uma Congregação Catholica e de um Gremio Protestante, não se tendo lembrado de um quando lhe fallaram do outro; o que fazia era pagar regularmente as mensalidades de ambos. Assignava jornaes sem os ler. Um dia, ao pagar o semestre de um, que lhe haviam mandado, é que soube, pelo cobrador, que era do partido do governo; mandou o cobrador ao diabo.

CAPITULO CXXXVI

O cobrador não foi ao diabo; recebeu o preço do semestre, e, como possuia a observação natural dos cobradores, resmungou na rua:

--Ora aqui está um homem que detesta a folha e paga. Quantos a adoram e não pagam!

CAPITULO CXXXVII

Mas--ó lance da fortuna! ó equidade da natureza!--os desperdicios do nosso amigo, se não tinham remedio, tinham compensação. Já o tempo não passava por elle como por um vadio sem ideias. Rubião, á falta de ideias, tinha agora imaginação. Outr'ora vivia mais dos outros que de si, não achava equilibrio interior, e o ocio esticava as horas, que não acabavam mais. Tudo ia mudando; agora a imaginação, que, a relampagos, lhe apparecia ultimamente, tendia a pousar um pouco. Sentado na loja do Bernardo, gastava toda uma manhã, sem que o tempo lhe trouxesse fadiga, nem a estreiteza da rua do Ouvidor lhe tapasse o espaço. Repetiam-se as visões deliciosas, como a das bodas (Cap. LXXXI) em termos a que a grandeza não tirava a graça. Houve quem o visse, mais de uma vez, saltar da cadeira e ir até á porta ver bem pelas costas alguma pessoa que passava. Conhecel-a-hia? Ou seria alguem que, casualmente, tinha as feições da creatura imaginaria que elle estivera mirando? São perguntas de mais para um só capitulo; basta dizer que uma dessas vezes nem passou ninguem, elle proprio reconheceu a illusão, voltou para dentro, comprou uma teteia de bronze para dar á filha do Camacho, que fazia annos, e ia casar em breve, e saiu.

CAPITULO CXXXVIII

E Sophia? interroga impaciente a leitora, tal qual Orgon: _Et Tartuffe?_ Ai, amiga minha, a resposta é naturalmente a mesma,--tambem ella comia bem, dormia largo e fofo,--cousas que, aliás, não impedem que uma pessoa ame, quando quer amar. Se esta ultima reflexão é o motivo secreto da vossa pergunta, deixai que vos diga que sois muito indiscreta, e que eu não me quero senão com dissimulados.

Repito, comia bem, dormia largo e fofo. Chegára ao fim da commissão das Alagoas, com elogios da imprensa; a _Atalaia_ chamou-lhe «o anjo da consolação». E não se pense que este nome a alegrou, posto que a lisongeasse; ao contrario, resumindo em Sophia toda a acção da caridade, podia mortificar as novas amigas, e fazer-lhe perder em um dia o trabalho de longos mezes. Assim se explica o artigo que a mesma folha trouxe no numero seguinte, nomeando, particularisando e glorificando as outras commissarias--«estrellas de primeira grandeza».

Nem todas as relações subsistiram, mas a maior parte dellas estavam atadas, e não faltam á nossa dona o talento de as tornar definitivas. O marido é que peccava por turbulento, excessivo, derramado, dando bem a ver que o cumulavam de favores, que recebia finezas inesperadas e quasi immerecidas. Sophia, para emendal-o, vexava-o com censuras e conselhos, rindo:

--«Você esteve hoje insupportavel; parecia um criado».

--«Christiano, fique mais senhor de si, quando tivermos gente de fóra, não se ponha com os olhos fóra da cara, saltando de um lado para outro, assim com ar de criança que recebe doce...»

Elle negava, explicava ou justificava-se; afinal, concluia que sim, que era preciso não parecer estar abaixo dos obsequios; cortezia, affabilidade, mais nada...

Justo, mas não vás cahir no extremo opposto, acudiu Sophia; não vás ficar casmurro...

Palha era então as duas cousas; casmurro, a principio, frio, quasi desdenhoso, fallando pouco, apenas respondendo. Mas, ou a reflexão, ou o impulso inconsciente, restituia ao nosso homem a animação habitual, e com ella, segundo o momento, a demasia e o estrepito. Sophia é que, em verdade, corrigia tudo. Observava, imitava. Necessidade e vocação fizeram-lhe adquirir, aos poucos, o que não trouxera do nascimento nem da fortuna. Ao demais, estava naquella edade média em que as mulheres inspiram egual confiança ás sinhásinhas de vinte e ás sinhás de quarenta. Algumas morriam por ella; muitas a cumulavam de louvores.

Foi assim que a nossa amiga, pouco a pouco, espanou a atmosphera. Cortou as relações antigas, familiares, algumas tão intimas que difficilmente se poderiam dissolver; mas a arte de receber sem calor, ouvir sem interese e despedir-se sem saudade, não era das suas menores prendas; e uma por uma, se foram indo as pobres creaturas modestas, sem maneiras, nem vestidos, amizades de pequena monta, de pagodes caseiros, de habitos singelos e sem elevação. Com os homens fazia exactamente o que o major contara, quando elles a viam passar de carruagem,--que era sua,--entre parenthesis. A differença é que já nem os espreitava para saber se a viam. Acabara a lua de mel da grandeza; agora torcia os olhos duramente para outro lado, conjurando, de um gesto definitivo, o perigo de alguma hesitação. Punha assim os velhos amigos na obrigação de lhe não tirarem o chapéo. Como eram poucos, foi breve a empreza.

CAPITULO CXXXIX

Rubião ainda quiz valer ao major, mas o ar de fastio com que Sophia o interrompeu foi tal, que o nosso amigo preferiu perguntar-lhe se, não chovendo na seguinte manhã, iriam sempre passear á Tijuca.

--Já fallei a Christiano; disse-me que tem um negocio, que fique para domingo que vem.

Rubião, depois de um instante:

Vamos nós dous. Sahimos cedo, passeamos, almoçamos lá; ás tres ou quatro horas estamos de volta...

Sophia olhou para elle, com tamanha vontade de acceitar o convite, que Rubião não esperou resposta verbal.

--Está assentado, vamos, disse elle.

--Não.

--Como não?

E repetiu a pergunta, porque Sophia não lhe quiz explicar a negativa, aliás, tão obvia. Obrigada a fazel-o, ponderou que o marido ficaria com inveja, e era capaz de adiar o negocio só para ir tambem. Não queria atrapalhar os negocios delle, e podiam esperar oito dias. O olhar de Sophia acompanhava essa explicação, como um clarim acompanharia um padre-nosso. Vontade tinha, oh! se tinha vontade de ir na manhã seguinte, com Rubião, estrada acima, bem posta no cavallo, não scismando á toa, nem poetica, mas valente, fogo na cara, toda deste mundo, galopando, trotando, parando. Lá no alto, desmontaria algum tempo; tudo só, a cidade ao longe e o ceu por cima. Encostada ao cavallo, penteando-lhe as crinas com os dedos, ouviria Rubião louvar-lhe a affouteza e o garbo... Chegou a sentir um beijo na nuca...

CAPITULO CXL