Quincas Borba

Part 13

Chapter 133,928 wordsPublic domain

--Já cá estou, ha vinte minutos. Pois que é esta sala, tranquilla, fresca, tão longe da gente que anda lá fóra? Aqui conversamos os dous, sem ouvir blasphemias, sem aturar espiritos aleijados, tisicos, escrophulosos, insupportaveis, o proprio inferno, em summa. Aqui é o ceu,--ou um pedaço do ceu; uma vez que nós cabemos nelle, vale pelo infinito. Conversamos de Santa Sonora, de S. Carlos Maria e de Santa Fernanda, que, para contrastar com S. Gonçalo, fez-se casamenteira das moças. Onde é que ha outro ceu como este?

--Em Pelotas.

--Pelotas fica tão longe! suspirou elle estendendo as pernas e pondo os olhos no lustre da sala.

--Está bom, é só a primeira investida; darei outras, até você acabar de querer.

Carlos Maria sorriu e olhou para as borlas cahidas do cordão de seda que ella trazia á cintura, atado por um laço frouxo; ou para ver as borlas, ou para notar a gentileza do corpo. Viu bem, ainda uma vez, que a prima era uma bella creatura. A plastica levou-lhe os olhos,--o respeito os desviou; mas, não foi só a amizade que o fez demorar ainda alli, e o trouxe novamente áquella casa. Carlos Maria amava a conversação das mulheres, tanto quanto, em geral, aborrecia a dos homens. Achava os homens declamadores, grosseiros, cançativos, pesados, frivolos, chulos, triviaes. As mulheres, ao contrario, não eram grosseiras, nem declamadoras, nem pesadas. A vaidade nellas ficava bem, e alguns defeitos não lhes iam mal; tinham, ao demais, a graça e a meiguice do sexo. Das mais insignificantes, pensava elle, ha sempre alguma cousa que extrahir. Quando as achava insipidas ou estupidas, tinha para si que eram homens mal acabados.

Entretanto, as relações de D. Fernanda e Maria Benedicta iam-se estreitando. Esta, além de acanhada, andava triste por aquelle tempo; foi justamente a disparidade de caracter e de situação que as prendeu uma á outra. D. Fernanda possuia, em larga escala, a qualidade da sympathia; amava os fracos e os tristes, pela necessidade de os fazer ledos e corajosos. Contavam-se della muitos actos de piedade e dedicação.

--A senhora que tem? perguntou ella um dia á amiguinha. Quasi nunca ri, anda sempre com os olhos espantados, pensando...

Maria Benedicta, respondeu que não tinha nada, que era o seu modo; e sorria dizendo isto, por simples condescendencia. Fallou tambem na perda da mãe, como uma das causas de suas melancolias. D. Fernanda entrou a leval-a a toda parte, a trazel-a para jantar, a dar-lhe logar no camarote, se ia ao theatro; e graças a isso, e ao seu genio galhofeiro, sacudiu da alma da moça os corvos aborrecidos que lá avoejavam. Costume e affeição depressa as fizeram intimas. Não obstante, Maria Benedicta continuou a calar o seu mysterio.

--Seja qual fôr o mysterio, pensou um dia D. Fernanda, acho que o melhor é casal-a com o Carlos Maria; a Sonora que espere.

--Você precisa casar, Maria Benedicta, disse-lhe dalli a dous dias, da manhã, na chacara, em Matta-cavallos; Maria Benedicta tinha ido ao theatro com ella, e passára lá a noite.--Não quero estremecimentos; precisa casar e hade casar... Desde antehontem que estou para lhe dizer isto, mas estas cousas falladas em sala ou na rua, não tem força. Aqui na chacara é differente. E se você tem animo de trepar commigo um pedaço do morro, então é que ficaremos hem. Vamos?

--Está fazendo calor...

--É mais poetico, menina. Ah! carioca sem sangue! Vocês só tem agua nas veias. Pois fiquemos aqui neste banco. Sente-se; assim, eu fico aqui ao pé, armada, para tudo. Casa ou morre. Não me replique. Você não é feliz,--continuou mudando o tom; por mais que faça, eu vejo que você passa a vida sem gosto. Venha cá, diga-me com franqueza, tem inclinação a alguem? Se tem, confesse, que eu mando procurar a pessoa.

--Não tenho.

--Não? Pois é justamente o que nos serve. Não precisa pôr escriptos no coração; conheço um bom inquilino.

Maria Benedicta voltou-se de todo para ella, com os labios entreabertos e os olhos escancarados. Parecia receiar da proposta ou anciar por ella. D. Fernanda, não atinando com o verdadeiro estado da amiga, pegou-lhe na mão primeiro, e pediu que lhe dissesse tudo. De força que amava a alguem, era claro, via-se-lhe nos olhos, cumpria confessal-o, instava, rogava,--intimaria, se preciso fosse. A mão de Maria Benedicta esfriara, os olhos cavavam o chão, e, por alguns instantes, nenhuma dellas disse nada.

--Vamos, falle, repetiu D. Fernanda.

--Não tenho que dizer.

D. Fernanda fazia gestos de incredulidade; apertava-a cada vez mais, passou-lhe a mão pela cintura, e ligou-a muito a si; disse-lhe baixinho, dentro do ouvido, que era como se fosse sua propria mãe. E beijava-a na face, na orelha, na nuca, encostava-lhe a cabeça ao hombro, acarinhava-a com a outra mão. Tudo, tudo, queria saber tudo. Se o namorado estava na lua, mandaria buscal-o á lua,--fosse onde fosse,--excepto no cemiterio; mas, se estivesse no cemiterio, dar-lhe-hia outro muito melhor, que faria esquecer o primeiro em poucos dias. Maria Benedicta ouvia agitada, palpitante, não sabendo por onde escapasse,--prestes a fallar, e calando a tempo, como se defendesse o seu pudor. Não negava, não confessava,--mas, como tambem não sorria, e tremia de commoção, era facil adivinhar meia verdade, ao menos.

--Mas então não sou sua amiga, não tem confiança em mim? Faça de conta que sou sua mãe.

Maria Benedicta pouco mais resistiu; gastára as forças e sentia a necessidade de revellar alguma cousa. D. Fernanda escutou-a commovida. O sol vinha já lambendo as cercanias do banco, não tardou que lhes trepasse aos sapatos, á barra dos vestidos e aos joelhos; mas nenhuma deu por elle. O amor as absorvia; a exposição de uma tinha para a outra um enlevo raro. Era uma paixão não sabida, não compartida, não adivinhada; paixão que ia perdendo de indole e de especie para se converter em adoração pura. A principio, quando ella via a pessoa amada, passava por dous estados mui diversos,--um que não podia definir, alvoroço, tonteira, pancadas no coração, quasi um desmaio; o segundo era de contemplação. Agora era quasi que só este. Tinha chorado muito, comsigo, perdera noites e noites de saudades; pagou caro a ambição das suas esperanças. Mas não perderia nunca a certeza de que elle era superior a todos os demais homens, um ente divino, que, ainda não fazendo caso della, mereceria sempre ser adorado.

--Bem, disse D. Fernanda, quando a amiga se calou de todo. Vamos ao essencial, que é não ficar penando á tôa. Não, queridinha, isto de adorar a um homem que não faz caso da gente, é poesia. Deixe-se de poesia. Olhe que só você perde no negocio, por que elle casa com outra, os annos passam, a paixão monta na garupa delles, e um dia, quando você menos pensar, accorda sem amor nem marido. E quem é esse barbaro?

--Isso não digo, respondeu Maria Benedicta, levantando-se do banco.

--Pois não diga, acudiu D. Fernanda, pegando-lhe nos pulsos e fazendo-a sentar nos seus joelhos. A questão principal é casar;--não podendo ser com esse, será com outro.

--Não, não caso.

--Só com elle?

--Nem sei se com elle, respondeu Maria Benedicta, depois de alguns instantes. Gósto delle, como gósto de Deus, que está no ceu.

--Virgem Santissima! Que blasphemia! Duas blasphemias, menina; a primeira é que não se deve amar a ninguem como a Deus,--a segunda é que um marido, ainda sendo máo, sempre é melhor que o melhor dos sonhos.

CAPITULO CXIX

«Um marido, ainda máo, é sempre melhor que o melhor dos sonhos.»

A maxima não era idealista; Maria Benedicta protestou contra ella. Pois não era melhor sonhar que chorar? Os sonhos acabam ou alteram-se, emquanto que os máos maridos podem viver muito.--«A senhora falla assim, concluiu Maria Benedicta, porque Deus lhe destinou um anjo... Olhe, lá vem elle.»

--Deixe estar que hade ter tambem o seu anjo; conheço um magnifico para você; todos os anjos me procuram.

Theophilo, marido de D. Fernanda, que as vira a distancia, veiu ter com ellas; trazia na mão um diario amarrotado. Não saudou a hospede; foi direito á mulher.

--Você quer saber o que me fizeram, Nannan? disse elle com os dentes cerrados. Sahiu hoje o meu discurso do dia 5. Veja esta phrase; eu tinha dito: _Na duvida abstem-te, é o conselho do sabio._ E puzeram: _Na divida obstem-te..._ É insuportavel! Nota que tratava-se justamente de um credito do ministerio da marinha, allegando-se no debate que muitas despezas estavam feitas. De modo que pode parecer chulice da minha parte; é como se aconselhasse o calote. Em todo caso, é disparate.

--Mas você não leu as provas?

--Li, mas o autor é o menos apto para as ler bem. _Na divida abstem-te_, continuou elle com os olhos na folha. E bufando:--Isto só com...

Estava consternado. Era homem de talento, de gravidade e de trabalho; mas, naquelle instante, todas as grandes obras, os mais temerosos problemas, as batalhas mais decisivas, as revoluções mais profundas, o sol e a lua, e todas as constellações, e todas as alimarias, e todas as gerações humanas, valiam menos que a troca de um _u_ por um _i._ Maria Benedicta olhava para elle sem entendel-o. Cuidava padecer a maior tristura; mas alli estava outra tão grande como a sua, e muito mais afflictiva. Assim, a melancolia roaz de uma pobre creatura era tanto como um erro typographico. Theophilo, que só então deu por ella, estendeu-lhe a mão; estava fria. Ninguem finge as mãos frias; devia padecer deveras. Instantes depois, atirou a folha ao chão, com um gesto violento, e foi-se embora.

--Mas, Theophilo, emenda-se amanhã, disse-lhe D. Fernanda, levantando-se.

Theophilo, sem voltar atraz, deu de hombros, desesperado. A mulher correu a elle; a amiga seguiu-a espantada. Ficou só o banco, já agora livre dellas, recebendo em cheio os raios do sol, que não ama nem faz discursos. D. Fernanda levou o marido para um gabinete, e, á força de beijos, consolou-o daquelle golpe. Ao almoço, já elle sorria, ainda que de um sorriso pallido; a mulher, para desvial-o da preoccupação, fallou do plano de casar Maria Benedicta, e havia de ser com um deputado, se existisse na camara algum solteiro, qualquer que fosse a opinião. Podia ser governista, opposicionista, ambas as cousas, ou nada,--contanto que fosse marido. Sobre este thema fez algumas reflexões, vivas, lepidas, que encheram o tempo e destinavam-se a matar a lembrança da troca de lettras. Pia creatura! Theophilo, entendendo a mulher, ia-se fazendo alegre, e fallava tambem da conveniencia de casar Maria Benedicta.

--O peor, acudiu a mulher olhando para a amiga, é que ella ama a alguem, cujo nome não quer dizer.

--Nem é preciso, atalhou o marido enxugando os beiços; vê-se bem que ella gósta de teu primo.

CAPITULO CXX

No domingo seguinte, D. Fernanda foi á egreja de Santo Antonio dos Pobres. Acabada a missa, viu surgir do movimento dos fieis que se comprimentavam entre si, ou saudavam o altar, nada menos que o primo, erecto, risonho, gravemente trajado, estendendo-lhe a mão.

--Veiu tambem á missa? perguntou espantada.

--Vim.

--Vem sempre?

--Nem sempre, muitas vezes.

--Francamente, não esperava tanta devoção em você. Os homens são, em geral, uns impios. Theophilo não pisa na egreja, a não ser para baptisar os filhos. Você então é religioso?

--Não posso responder com certeza; mas tenho horror á banalidade, que é dizer mal da religião. E basta; vim á missa, não vim confessar-me; agora vou conduzil-a á casa, e, se me offerecer almoço, almoçarei com vocês. Salvo se quizerem vir almoçar commigo; é nesta rua, como sabe.

--Iria eu só, se pudesse ser, para lhe dar uma noticia muito comprida.

--Vamos então devagar, disse Carlos Maria á porta da egreja, offerecendo-lhe o braço. E dous passos adeante:--Noticia importante?

--Importante e deliciosa.

--Querem ver que Deus, sempre misericordioso, vae levar para si o nosso querido Theophilo, deixando aqui ao desamparo a mais gentil de todas as viuvas... Não precisa fazer essa cara, prima; deixe estar o braço. Vamos á noticia. Chegou a moça de Pelotas, aposto?

--Não direi o que é, se você me não jurar ouvir seriamente.

--Seriamente.

D. Fernanda confessou-lhe que hesitava em casal-o com a patricia de Pelotas; não queria remorsos; descobrira aqui alguem que tinha ao primo um immenso amor. Carlos Maria sorriu, iniciou um gracejo, mas a noticia esporeou-lhe o espirito. Immenso amor? Immenso amor, paixão violenta, confirmou a prima, accrescentando que talvez a definição já não coubesse bem ao actual sentimento da pessoa, Agora era uma adoração quieta e calada. Tinha chorado por elle noites e noites, emquanto as esperanças lhe duraram... E D. Fernanda foi assim repetindo a confidencia de Maria Benedicta. Restava só o nome; Carlos Maria quiz sabel-o, ella negou-lh'o. Não podia revellal-o. Para que dar-lhe o gosto de saber quem era que o adorava, se não corria ao encontro da alma della? Melhor era deixal-a no mysterio. Já não chorava agora; modesta e desambiciosa, perdera as esperanças de ser amada, e, com o tempo ficou apenas uma devota, mas uma devota sem par, que nem sequer esperava ser ouvida ou agraciada um dia por um olhar benevolo do seu deus querido.

--Prima, você...

--Eu que?...

Carlos Maria concluiu dizendo que a advogada era digna da causa. Realmente, se essa moça o adorava a tal ponto, era justo e natural que a prima se interessasse por ella com tanto calor. Mas porque não dizer o nome?

--Agora não digo; pode ser que algum dia... Mas, você comprehende que me custaria muito casal-o com a minha patricia, sabendo que outra pessoa o ama tanto. E dahi bem pode ser que esta de cá não padeça muito, se o vir casado. Sim, senhor, parece absurdo, mas é preciso conhecel-a; digo que, uma vez que você seja feliz, é capaz de abençoar a bella rival.

--Já não é romantismo, é mysticismo, redarguiu Carlos Maria depois de alguns passos, com os olhos no chão. Não está nas cordas do nosso tempo. Tem alguma prova de semelhante estado da alma?

--Tenho... A sua casa é aquella, não? perguntou D. Fernanda parando.

--É.

--Bonito predio, e solido.

--Muito solido.

Uma, duas, tres, quatro... Sete janellas. O salao vae de ponta a ponta? Bem bom para um baile.

E andando:

--Eu, se tivesse aqui uma casa maior que a minha, daria um grande baile, antes de voltar para o Rio Grande. Gosto de festas. Os meus dous filhos não me dão grande trabalho. A proposito, ando com ideia de metter o Lopo no collegio; onde acharei um bom collegio?

Carlos Maria pensava na devota incognita. Estava longe, muito longe do ensino e seus estabelecimentos. Que bom que era sentir-se um deus adorado, e adorado á maneira evangelica, mettida a devota no aposento, fechada a porta, em secreto, não nas synagogas, á vista de todos. «E teu pae que vê o que se passa em secreto te dará a paga.» (S. MATHEUS, VI, 6). Oh! elle daria a paga, se soubesse quem era. Casada, sería? Não, não podia ser, não iria confessal-o a ninguem; viuva ou solteira, antes solteira. Cheirava-lhe a solteira. Em que aposento se fechava para resar, para evocal-o, choral-o e abençoal-o? Já nem teimava pelo nome; mas o aposento, ao menos.

--Onde acharei um bom collegio? repetiu D. Fernanda.

--Collegio? Não sei; estou pensando na desconhecida. Comprehende bem que uma pessoa que me adora, em silencio, sem esperanças, é objecto de alguma attenção. Alta ou baixa?

--Maria Benedicta.

Carlos Maria estacou o passo.

--Aquella moça...? Não é possivel. Tenho-lhe fallado muitas vezes, e nunca descobri nada. Achei-a sempre fria. Hade ser engano. Ouviu-lhe o meu nome?

--Não, por mais que lhe pedisse. Confessou o milagre, sem nomear o santo, mas que milagre! Gabe-se de ser adorado como ninguem... De quem é aquella casa?

--Você costuma exagerar as cousas, prima; póde não ser tanto. Adorado como ninguem? E de que modo soube que era eu?

--Theophilo foi o primeiro que descobriu; ella, dizendo-se-lhe isto, ficou como uma pitanga. Negou-o ainda depois, commigo; e desde esse dia não voltou lá a casa.

Tal foi o inicio dos amores. Carlos Maria folgou de se ver assim amado em silencio, e toda a prevenção se converteu em sympathia. Começou a vel-a, saboreou a confusão da moça, os medos, a alegria, a modestia, as attitudes quasi implorativas, um composto de actos e sentimentos que eram a apotheose do homem amado. Tal foi o inicio, tal o desfecho. Assim os vimos, naquella noite dos annos de D. Sophia, a quem elle dissera antes cousas tão doces. São assim os homens; as aguas que passam, e os ventos que rugem não são outra cousa.

CAPITULO CXXI

--Bem, vae casar, tanto melhor! pensou Rubião.

Entre aquella noite e o dia do casamento, Rubião apanhou no ar algumas olhadas de Sophia, suspeitas de tentação; Carlos Maria, se lhe correspondeu, foi antes por polidez que outra cousa. Rubião concluiu que o caso era fortuito; lembrava-se ainda da lagrima de Sophia, na noite dos annos, quando lhe explicou a historia da carta.

Oh! boa lagrima inesperada! Tu, que bastaste a persuadir um homem, podes não ser explicavel a outros, e assim vae o mundo. Que importa que os olhos não fossem costumados ao choro, nem que a noite parecesse exaltar sentimentos mui diversos da melancolia? Rubião a viu cair; ainda agora a vê de memoria. Mas a confiança de Rubião não vinha só da lagrima, vinha tambem da presente Sophia, que nunca fora tão solicita nem tão dada com elle. Parecia arrependida de todo o mal causado, prestes a sanal-o, ou por affeição tardia, ou pelo proprio malogro da primeira aventura. Ha delictos virtuaes, que dormem. Ha operas remissas na cabeça de um maestro, que só esperam os primeiros compassos da inspiração.

CAPITULO CXXII

--Ainda bem que se casa! repetiu o Rubião.

Não se demorou o casamento: tres semanas. Na manhã do dia aprazado, Carlos Maria abriu os olhos com algum espanto. Era elle mesmo que ia casar? Não havia duvida; mirou-se ao espelho, era elle. Relembrou os ultimos dias, a marcha rapida dos successos, a realidade da affeição que tinha á noiva, e, emfim, a felicidade pura que lhe ia dar. Esta derradeira ideia enchia-o de grande e rara satisfação. Ia-as ruminando ainda, a cavallo, no passeio habitual da manhã; desta vez escolhera o bairro do Engenho Velho.

Posto se achasse costumado aos olhos admirativos, via agora em toda a gente um aspecto parecido com a noticia de que elle ia casar. As casuarinas de uma chacara, quietas antes que elle passasse por ellas, disseram-lhe cousas mui particulares, que os levianos attribuiriam á aragem que passava tambem, mas que os sapientes reconheceriam ser nada menos que a linguagem nupcial das casuarinas. Passaros saltavam de um lado para outro, pipilando um madrigal. Um casal de borboletas,--que os japões têm por symbolo da fidelidade, por observarem que, se pousam de flor em flor, andam quasi sempre aos pares,--um casal dellas acompanhou por muito tempo o passo do cavallo, indo pela cerca de uma chacara que beirava o caminho, volteando aqui e alli, lepidas e amarellas. De envolta com isto, um ar fresco, ceu azul, caras alegres de homens montados em burros, pescoços estendidos pela janella fóra das diligencias, para vel-o e ao seu garbo de noivo. Certo, era difficil crer que todos aquelles gestos e attitudes da gente, dos bichos e das arvores, exprimissem outro sentimento que não fosse a homenagem nupcial da natureza.

As borboletas perderam-se em uma das moitas mais densas da cêrca. Seguiu-se outra chacara, despida de arvores, portão aberto, e ao fundo, fronteando com o portão, uma casa velha, que encarquilhava os olhos sob a forma de cinco janellas de peitoril, cançadas de perder moradores. Tambem ellas tinham visto bodas e festins; o seculo ja as achou verdes de novidade e de esperança.

Não cuideis que esse aspecto contristou a alma do cavalleiro. Ao contrario, elle possuia o dom particular de remoçar as ruinas e viver da vida primitiva das cousas. Gostou até de ver a casa velhusca, desbotada, em contraste com as borboletas tão vivas de ha pouco. Parou o cavallo; evocou as mulheres que por alli entraram, outras galas, outros rostos, outras maneiras. Porventura as proprias sombras das pessoas felizes e extinctas vinham agora cumprimental-o tambem, dizendo-lhe pela bocca invisivel todos os nomes sublimes que pensavam delle. Chegou a ouvil-as e sorrir. Mas uma voz estridula veiu mesclar-se ao concerto;--um papagaio, em gaiola pendente da parede externa da casa: «Papagaio real, para Portugal; quem passa? Currupá, papá. Grrrr... Grrrrr...» As sombras fugiram, o cavallo foi andando. Carlos Maria aborrecia o papagaio, como aborrecia o macaco, duas contrafacções da pessoa humana, dizia elle.

--A felicidade que _eu lhe der_ será assim tambem interrompida? reflexionou andando.

Cambaxirras voaram de um para outro lado da rua, e pousaram cantando a sua falla propria; foi uma reparação. Essa lingua sem palavras era intelligivel, dizia uma porção de cousas claras e bellas. Carlos Maria chegou a ver naquillo um symbolo de si mesmo. Quando a mulher, aturdida dos papagaios do mundo, viesse caindo de fastio, elle a faria erguer aos trillos da passarada divina, que trazia em si, ideias de ouro, ditas por uma voz de ouro. Oh! como _a tornaria_ feliz! Já a antevia ajoelhada, com os braços postos nos seus joelhos, a cabeça nas mãos e os olhos nelle, gratos, devotos, amorosos, toda implorativa, toda nada.

CAPITULO CXXIII

Ora bem, aquelle quadro, na mesma hora em que apparecia aos olhos da imaginação do noivo, reproduzia-se no espirito da noiva, tal qual. Maria Benedicta, posta á janella, fitando as ondas que se quebravam ao longe e na praia, via-se a si mesma, ajoelhada aos pés do marido, quieta, contricta, como á mesa da communhão para receber a hostia da felicidade. E dizia comsigo: «Oh! como _elle me_ fará feliz!» Phrase e pensamento eram outros, mas a attitude e a hora eram as mesmas.

CAPITULO CXXIV

Casaram-se; tres mezes depois foram para a Europa. Ao despedir-se delles, D. Fernanda estava tão alegre como se viesse recebel-os de volta; não chorava. O prazer de os ver felizes era maior que o desgosto da separação.

--Você vae contente? perguntou a Maria Benedicta, pela ultima vez, junto á amurada do paquete.

--Oh! muito!

A alma de D. Fernanda debruçou-se-lhe dos olhos, fresca, ingenua,cantando um trecho italiano,--porque a suberba guasca preferia a musica italiana,--talvez esta aria da _Lucia: O' bell'alma innamorata._ Ou este pedaço do _Barbeiro_:

Ecco ridente in cielo Già spunta la bella aurora.

CAPITULO CXXV

Sophia não foi a bordo, adoeceu e mandou o marido. Não vão crer que era pezar nem dor; por occasião do casamento, houve-se com grande discrição, cuidou do enxoval da noiva e despediu-se della com muitos beijos chorados. Mas ir a bordo pareceu-lhe vergonha. Adoeceu; e, para não desmentir do pretexto, deixou-se estar no quarto. Pegou de um romance recente; fora-lhe dado pelo Rubião. Outras cousas alli lhe lembravam o mesmo homem, teteias de toda a sorte, sem contar joias guardadas. Finalmente, uma singular palavra que lhe ouvira, na noite do casamento da prima, até essa veiu alli para o inventario das recordações do nosso amigo.

--A senhora é já a rainha de todas, disse-lhe elle em voz baixa; espere que ainda a farei imperatriz.

Sophia não pode entender esta phrase enigmatica. Quiz suppor que era uma alliciação de grandeza para tornal-a sua amante; mas a vaidade que essa ideia trazia fel-a excluir desde logo. Rubião, posto não fosse agora o mesmo homem encolhido e timido de outros tempos, não se mostrava tão cheio de si que lhe pudesse attribuir tão alta presumpção. Mas que era então a phrase? Talvez um modo figurado de dizer que a amaria ainda mais. Sophia acreditava possivel tudo. Não lhe faltavam galanteios; chegou a ouvir aquella declaração de Carlos Maria, provavelmente ouvira outras, a que deu somente a attenção da vaidade. E todas passaram; Rubião é que persistia. Tinha pausas, filhas de suspeitas; mas as suspeitas iam como vinham.