Quincas Borba

Part 12

Chapter 123,918 wordsPublic domain

--Vai afrouxando, continuou Camacho apertando um charuto entre os dedos, antes de o accender; e nós precisamos de accentuar os principios, mas francamente, nobremente, dizendo a verdade. Creia que os chefes precisam ouvil-a a seus proprios amigos e adherentes. Nunca rejeitei a conciliação dos partidos, pugnei por ella, e a ideia fundamental da _Atalaia_ foi a principio um terreno neutro. Mas conciliação não é jogo de empulha. Para lhe dar um exemplo, na minha provincia a gente dos Pinheiros tem o apoio do governo, unicamente para me deslocar; e os meus correligionarios da Corte, em vez de a combater, visto que o governo lhe dá força, que pensa que fazem? Dão tambem apoio aos Pinheiros.

--Têm ao menos alguma influencia os Pinheiros?

--Nenhuma, respondeu Camacho fechando violentamente a caixa de phosphoros que ia a abrir. Ha um réo de policia entre elles, e ha outro que até foi aprendiz de barbeiro. Matriculou-se, é verdade, na Faculdade do Recife, creio que em 1855, por morte do padrinho que lhe deixou alguma cousa, mas tal é o escandalo da carreira desse homem que, logo depois de receber o diploma de bacharel, entrou na assembléa provincial. É uma besta; é tão bacharel como eu sou papa.

Entenderam-se sobre as modificações politicas da folha. Camacho lembrou ao Rubião que a candidatura deste naufragara por causa justamente da opposição dos chefes. De alguns, emendou logo. Rubião concordou; assim lh'o tinha dito o amigo em tempo, e a lembrança avivou o resentimento do desastre. Podia, devia estar na camara. Os taes é que o não quizeram; mas haviam de ver, pensava Rubião tinham de amargar o mal feito. Deputado, senador ministro, vel-o-hiam tudo, com olhos tortos e espantados. A cabeça do nosso amigo, tanto que o outro lhe pôz a faisca, foi ardendo de si mesma, não por odio, nem inveja, mas de ambição ingenua, de cordial certeza, visão antecipada e deslumbrante das cousas. Camacho estimou achal-o de accordo.

--A nossa gente é de egual opinião, disse elle. Creio que não faz mal uma pequena ameaça aos amigos.

Nessa mesma noite, leu-lhe o artigo em que advertia o partido da conveniencia de não ceder ás perfidias do poder, apoiando em algumas provincias certa gente corrupta e sem valor. Eis aqui a conclusão:

«Os partidos devem ser unidos e disciplinados. Ha quem pretenda (_mirabile dictu!_) que essa disciplina e união não podem ir ao ponto de rejeitar os beneficios que caem das mãos dos adversarios. _Risum teneatis!_ Quem póde proferir tal blasphemia sem que lhe tremam as carnes? Mas supponhamos que assim seja, que a opposição possa, uma ou outra vez, fechar os olhos aos desmandos do governo, á postergação das leis, aos excessos da autoridade, á perversidade e aos sophismas. _Quid inde?_ Taes casos,--aliás, raros,--só podiam ser admittidos quando favorecessem os elementos bons, não os máos. Cada partido tem os seus discolos e sycophantas. É interesse dos nossos adversarios ver-nos afrouxar, a troco da animação dada á parte corrupta do partido. Esta é a verdade; negal-o é provocar-nos á guerra intestina, isto é (_horresco referens!_), á dilaceração da alma nacional... Mas, não, as ideias não morrem; ellas são o labaro da justiça. Os vendilhões serão expulsos do templo; ficarão os crentes e os puros, os que põem acima dos interesses mesquinhos, locaes e passageiros a victoria indefectivel dos principios Tudo que não for isto ter-nos-ha contra si. «_Alea jacta est._»

CAPITULO CXI

Rubião applaudiu o artigo; achava-o excellente. Talvez pouco energico. _Vendilhões_, por exemplo, era bem dito; mas ficava melhor _vis vendilhões._

--Vis vendilhões? Ha só um inconveniente, ponderou Camacho. É a repetição dos _vv._ Vis ven... Vis vendilhões; não sente que o sem fica desagradavel?

--Mas lá em cima ha _vés vis..._

--_Vae victis._ Mas é uma phrase latina. Podemos arranjar outra cousa: vis mercadores.

--Vis mercadores é bom.

--Comtudo, _mercadores_ não tem a força de _vendilhões._

--Então, porque não deixa vendilhões? Vis vendilhões é forte; ninguem repara no som. Olhe, eu nunca dou por isso. Gósto de energia. Vis vendilhões.

--Vis vendilhões, vis vendilhões, repetiu Camacho, á meia voz. Já estou achando melhor. Vis vendilhões. Acceito, concluiu emendando. E releu: «Os vis vendilhões serão expulsos do templo; ficarão os crentes e os puros, os que põem acima dos interesses mesquinhos, locaes e passageiros a victoria indefectivel dos principios. Tudo que não fôr isto ter-nos-ha contra si. _Alea jacta est._»

--Muito bem! disse Rubião, sentindo-se algum tanto autor do artigo.

--Parece-lhe bem? perguntou Camacho, sorrindo. Ha pessoas que ainda me acham no estylo a frescura do meu tempo de estudante. Não sei, não digo nada; a disposição, sim, é a mesma. Hei de castigal-os; havemos de castigal-os.

CAPITULO CXII

Aqui é que eu quizera ter dado a este livro o methodo de tantos outros,--velhos todos,--em que a materia do capitulo era posta no summario: «De como aconteceu isto assim, e, mais assim». Ahi está Bernardim Ribeiro; ahi estão outros livros gloriosos. Das linguas extranhas, sem querer subir a Cervantes nem a Rabelais, bastavam-me Fielding e Smollet, muitos capitulos dos quaes só pelo summario estão lidos. Pegai em _Tom Jones_, livro IV, cap. I, lêde este titulo: _Contendo cinco folhas de papel._ É claro, é simples, não engana a ninguem; são cinco folhas, mais nada, quem não quer não lê, e quem quer lê, para os ultimos é que o autor conclue obsequiosamente: «E agora, sem mais prefacio, vamos ao seguinte capitulo».

CAPITULO CXIII

Se tal fosse o methodo deste livro, eis aqui um titulo que explicaria tudo: «De como Rubião, satisfeito da emenda feita no artigo, tantas phrases compoz e ruminou, que acabou por escrever todos os livros que lêra».

Lá haverá leitor a quem só isso não bastasse. Naturalmente, quereria toda a analyse da operação mental do nosso homem, sem advertir que, para tanto, não chegariam as cinco folhas de papel de Fielding. Ha um abysmo entre a primeira phrase de que Rubião era co-autor até a autoria de todas as obras lidas por elle; é certo que o que mais lhe custou foi ir da phrase ao primeiro livro;--deste em diante a carreira fez-se rapida. Não importa; a analyse seria ainda assim longa e fastiosa. O melhor de tudo é deixar só isto; durante alguns minutos, Rubião se teve por autor de muitas obras alheias.

CAPITULO CXIV

Ao contrario, não sei se o capitulo que se segue poderia estar todo no titulo.

CAPITULO CXV

Rubião foi mantendo o proposito de não tornar a ver Sophia; pelo menos, não ia ao Flamengo. Viu-a um dia passar de carro, com uma das damas da commissão das Alagoas; ella inclinou-se risonha, dizendo-lhe adeus com a mão. Elle retribuiu o comprimento, tirando o chapéu, com tal ou qual alvoroço, mas não ficou parado como lhe aconteceria d'antes; apenas lançou um olhar ao carro que ia andando. Tambem elle foi andando,--e pensando no lance da carta, não comprehendendo aquelle gesto de mão, sem odio nem vexame,--como se nada houvesse entre elles. Podia ser que o serviço da commissão e a companheira que levava explicassem a benevolencia graciosa de Sophia; mas Rubião não cogitou desta hypothese.

--Estará assim tão falta de brio? perguntava elle. Pois não se lembra da carta que achei, mandada por ella ao tal gamenho da rua dos Invalidos? É muito; é de mais. Parece um desafio, um modo de dizer que não faz caso, que escreverá todas as cartas que quizer. Que as escreva, mas gaste algum dinheiro em registral-as no correio; é barato...

Achou algum pico em si mesmo e riu-se. Isto, e um homem que passou rasgando-lhe uma cortezia, tiraram-lhe o amargor das saudades, e elle esqueceu o assumpto, para cuidar de outro, que o levava ao Banco do Brazil.

Ao entrar no Banco esbarrou com o socio, que sabia.

--Creio que vi agora D. Sophia, disse-lhe Rubião.

--Onde?

--Na rua dos Ourives; ia de carro, com outra senhora, que não conheço. Como tem você passado?

--Viu-a, e não se lembrou de nada, observou Palha, sem responder á pergunta. Não se lembrou que ella faz annos, quarta-feira, depois de amanhã. Não lhe peço que vá jantar, não ouso tanto, seria convidal-o a aborrecer-se; mas uma chicara de chá bebe-se depressa. Faz-me esse favor?

Rubião não respondeu logo.

--Vou até jantar, disse finalmente. Quarta-feira? Conte commigo. Tinha-me esquecido, confesso; mas ando com tanta cousa na cabeça... Espere por mim daqui a meia hora, no armazem.

Antes de meia hora estava lá, pedindo-lhe dous contos de reis. Palha ja não resistia ao desmoronamento do capital; e, se uma ou outra vez, dizia alguma palavrinha frouxa, agora entregou-lhe o dinheiro com indifferença. Rubião não tornou a casa sem comprar um magnifico diamante, que na quarta-feira, enviou a Sophia, acompanhado de um bilhete de visita, e duas palavras de felicitação.

Sophia estava só, no quarto de vestir, calçando os sapatos, quando a criada lhe entregou o pacote. Era o terceiro presente do dia; a criada esperou que ella o abrisse para ver tambem o que era. Sophia ficou deslumbrada, quando abriu a caixa e deu com a rica joia,--uma bella pedra, no centro de um collar. Esperava alguma cousa bonita; mas, depois dos ultimos successos, mal podia crer que elle fosse tão generoso. Batia-lhe o coração.

--O portador está ahi?

--Já foi. Que cousa rica, minha ama!

Sophia fechou a caixa, e acabou de calçar-se. Deteve-se algum tempo, sentada, sosinha, recordando cousas idas, e levantou-se pensando:

--Aquelle homem adora-me.

Tratou de vestir-se; mas, ao passar por deante do espelho, deixou-se estar alguns instantes. Comprazia-se na contemplação de si mesma, das suas ricas formas, dos braços nus de cima a baixo, dos proprios olhos contempladores. Fazia vinte e nove annos, achava que era a mesma dos vinte e cinco, e não se enganava. Cingido e apertado o collete, deante do espelho, accommodou os seios com amor, e deixou espraiar-se o collo magnifico. Lembrou-se então de ver como lhe ficava o diamante; tirou o collar e pol-o ao pescoço. Perfeito. Voltou-se da esquerda para a direita e vice-versa, approximou-se, affastou-se, augmentou a luz do camarim; perfeito. Fechou a joia e guardou-a.

--Aquelle homem adora-me, repetiu.

--Provavelmente, elle lá estará, pensou Rubião indo jantar ao Flamengo; duvido que tenha dado melhor presente que eu.

Carlos Maria lá estava, effectivamente, conversando, entre uma das commissarias das Alagoas, e Maria Benedicta. Poucos eram os convivas; houve proposito em escolher e limitar. Não estava alli o major Sequeira, nem a filha, nem as senhoras e os homens que Rubião conheceu naquelle outro jantar de Santa Thereza. Da commissão das Alagoas viam-se algumas damas; via-se mais o director do banco,--o da visita ao ministro,--com a senhora e as filhas,--outro personagem bancario,--um commerciante inglez, um deputado, um desembargador, um conselheiro, alguns capitalistas, e pouco mais.

Posto que evidentemente gloriosa, Sophia esqueceu por um instante os outros, quando viu Rubião entrar na sala e caminhar para ella. Ou mudança, ou descostume, achou-lhe outro ar, passo firme, cabeça levantada, o avêsso, em summa, do antigo gesto encolhido e diminuto. Sophia apertou-lhe a mão com força e sussurrou um agradecimento. Á mesa fel-o sentar ao pé de si, tendo do outro lado a presidente da commissão. Rubião olhava superiormente para tudo. A qualidade dos convivas não lhe produziu impressão, nem o ar ceremonioso, nem o luxo da mesa, nem o da farda dos creados, barbeados de fresco, abotoados até á gravata branca, e trazendo nos botões estas duas letras C.P. Nada disso o deslumbrou. O mesmo cuidado particular de Sophia, embora lhe fosse agradavel, não o tonteava, como outrora. E da parte della era mais apurada a attenção, e os olhos excepcionalmente meigos e serviçaes. Rubião procurou Carlos Maria; lá estava entre as mesmas moças da sala,--Maria Benedicta e a commissaria das Alagoas. Verificou que só se occupava com ellas, não olhava para Sophia, nem esta para elle.

--Talvez disfarcem, pensou.

Pareceu-lhe, ao levantarem-se da mesa, que trocavam um olhar,--mas o movimento geral da reunião podia illudil-o, e Rubião não fez maior cabedal da observação. Sophia dera-se pressa em tomar-lhe o braço. De caminho, disse-lhe ella:

--Tenho esperado pelo senhor desde aquelle dia, e nunca mais veiu aqui. Era meu direito exigil-o, para explicar-me. Logo fallaremos.

Rubião foi dahi a pouco para o gabinete dos fumantes, onde se fallava de politica e voltarete. Ouviu calado, com os olhos erradios. Quando os outros sahiram, Rubião deixou-se estar só, meio reclinado em um sophá de couro, sem pensar. A imaginação é que fazia o seu officio, um tanto pachorrenta, agora,--talvez porque elle tivesse comido muito. Lá fóra iam entrando os convidados da noite; enchia-se a casa, crescia o borborinho da conversação, sem que o nosso amigo descesse dos seus bellos sonhos. O proprio som do piano, que fez calar todos os rumores, não o attrahiu á terra. Mas um farfalhar de sedas, entrando no gabinete, fel-o erguer-se do golpe, accordado.

--Ahi está, disse Sophia, recolhe-se aqui para fugir ao aborrecimento; nem quer ouvir boa musica. Pensei que tivesse ido embora. Vim ter com o senhor.

E sem mais demora, porque não podia perder um minuto, referiu-lhe o que sabemos da carta achada no jardim de Botafogo; lembrou-lhe que, antes de a abrir, pedira-lhe que elle mesmo a abrisse e lesse. Que melhor prova de innocencia? A palavra sahia-lhe rapida, seria, digna e commovida. Occasião houve em que os olhos se lhe tornaram humidos; ella enxugou-os, e ficaram vermelhos. Rubião pegou-lhe na mão, e viu ainda uma lagryma,--uma pequena lagryma,--escorregar até o canto da bocca. Jurou então que sim, acreditava em tudo. Que idéa aquella de chorar? Sophia enxugou ainda os olhos, e estendeu-lhe a mão agradecida.

--Até já, disse ella.

O piano continuava; Rubião notou-lhe esta circumstancia. Emquanto ouviam tocar, não viriam ter com elles.

--Mas eu é que não posso estar ausente tanto tempo, acudiu Sophia. Demais, tenho ordens que dar. Até já.

--Olhe, escute, insistiu Rubião.

Sophia parou.

--Escute; deixe-me dizer-lhe, e não sei se pela ultima vez...

--Pela ultima vez?

--Quem sabe? Pode ser que ultima. Importa-me pouco que esse homem viva ou não, mas posso achal-o aqui alguma vez, e não me sinto disposto a brigar.

--Hade encontral-o todos os dias. Christiano ainda lhe não disse o que ha? Vae casar com Maria Benedicta.

Rubião deu um passo para traz.

--Casam-se, continuou ella. O facto é de admirar, porque surgiu quando menos contavamos com isto;--ou eram muito fingidos,--ou foi cousa que lhes deu de repente. Casam-se. Maria Benedicta contou-me uma historia, que me foi confirmada por outra pessoa; mas, afinal, a historia é sempre a mesma. Gostaram um do outro, e adeus. Casam-se brevemente. Quando elle fallou a Christiano, Christiano respondeu que dependia de mim... Como se fosse mãe d'ella! Consentí logo, e desejo que sejam felizes. Elle parece bom rapaz; ella é excellente creatura; hão de ser felizes, por força. E bom negocio, sabe? Elle está de posse de todos os bens do pae e da mãe. Maria Benedicta não tem nada, em dinheiro; mas tem a educação que lhe dei. Hade lembrar-se que, quando veiu para minha companhia, era um bicho do matto; não sabia quasi nada; fui eu que a eduquei. Minha tia merecia tudo, e ella tambem. Pois, é verdade, casam-se muito breve. Não os viu hoje sempre juntos? Não ha ainda participação official; mas os intimos da familia podem saber. Casam-se, é verdade...

Para quem tinha tanta pressa, eis ahi um discurso demasiado comprido. Sophia deu por isso um pouco tarde; repetiu a Rubião que até logo, que fosse para a sala. O piano acabara; ouvia-se um borborinho discreto de applauso e conversação.

CAPITULO CXVI

Iam casar? Mas como é então que...? Maria Benedicta,--era Maria Benedicta que casava com Carlos Maria; mas então Carlos Maria... Comprehendia agora; era tudo engano, confusão; o que parecia ser com uma pessoa era com outra, e ahi está como a gente póde chegar á calumnia e ao crime.

Assim reflexionava Rubião, saindo para a sala de jantar, onde os copeiros adereçavam a mesa da ceia. E continuou, andando ao comprido da sala: «--Ora vejam! E o Palha queria justamente casar-me com a prima, mal sabendo que o destino lhe guardava outro noivo. Não é feio rapaz; é muito mais bonito que ella. Ao pé de Sophia, Maria Benedicta vale pouco ou nada; mas a sympathia é assim mesmo... Casam-se, e breve... Será de estrondo o casamento? Deve ser; o Palha vive agora um pouco melhor...»--e Rubião lançava os olhos aos moveis, porcellanas, cristaes, reposteiros. «--Hade ser de estrondo. E depois o noivo é rico...» Rubião pensou na carruagem e nos cavallos que levaria; tinha visto uma parelha soberba, no Engenho Velho, dias antes, que estava mesmo ao pintar. Ia fazer a encommenda de outra assim, fosse por que preço fosse; tinha tambem de presentear a noiva. Ao pensar nella viu-a entrar na sala.

--Prima Sophia onde está? perguntou ella ao Rubião.

--Não sei; esteve aqui ha pouco.

E, como a visse disposta a ir adeante, pediu-lhe uma palavra, e que se não zangasse. Maria Benedicta esperou; elle, sem hesitação, deu-lhe os parabens. Sabia que ia casar... Maria Benedicta ficou muito vermelha, e murmurou alguma cousa parecida com um pedido de não divulgar nada. Não havia então nenhum creado alli; Rubião pegou-lhe na mão e fechou-a entre as suas.

--Eu sou da casa, disse; a senhora merece ser feliz, e espero que seja.

Um pouco assustada, Maria Benedicta puxou a mão e libertou-a; mas, para o não aborrecer, sorriu. Não era preciso tanto; elle estava encantado. Sabemos que a moça não era bonita. Pois estava linda, á força de felicidade. A natureza parecia haver posto nella as suas mais finas ideias. Sorrindo egualmente, Rubião fallou-lhe como se fosse seu pae:

--Foi sua prima que me disse; recommendou-me segredo. Não direi nada antes do tempo. Mas que tem que diga á senhora? A senhora é boa e merece tudo. Não é preciso esconder os olhos; casar não é vergonha. Vamos lá; levante a cabeça e ria.

Maria Benedicta poz nelle os olhos radiantes.

--Isso! applaudiu Rubião. Que mal ha em confessar-se a um amigo? Deixe-me dizer-lhe a verdade; creio que a senhora será feliz, mas admitto que elle ainda será mais feliz. Não? Verá se não fallo verdade; elle mesmo lhe hade dizer o que sentir, e, se fôr sincero, a senhora reconhecerá que eu estou apenas prophetisando. Bem sei que não tem balança para medir os sentimentos; emfim, o que eu quero dizer é que a senhora é uma linda e boa creatura... Vá, vá-se embora; se não, fico dizendo verdades, e a senhora está corando muito...

De facto, Maria Benedicta corava de gosto, ouvindo a linguagem de Rubião. Em casa, achára acquiescencia, nada mais. O proprio Carlos Maria não era assim terno; gostava della com circumspecção. Fallava-lhe da felicidade conjugal, como de uma taxa que ia receber do destino,--pagamento devido, integral e certo. Tambem não era preciso que lhe fallasse de outro modo, para que ella o adorasse sobre todas as cousas deste mundo. Rubião repetiu a despedida, e ficou a olhar para ella, como para uma filha. Viu-a ir assim, atravessar a sala, viva e satisfeita,--tão diversa do que a achára em outros tempos, e desapparecer por uma das portas. Não pode reter esta palavra:

--Linda e boa creatura!

CAPITULO CXVII

A historia do casamento de Maria Benedicta é curta; e, posto Sophia a ache vulgar, vale a pena dizel-a. Fique desde já admittido que, senão fosse a epidemia das Alagoas, talvez não chegasse a haver casamento; donde se conclue que as catastrophes são uteis, e até necessarias. Sobejam exemplos; mas basta um contosinho que ouvi em creança, e que aqui lhes dou em duas linhas. Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona,--um triste molambo de mulher,--chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ebrio, viu o incendio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era della.

--É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuia n'este mundo.

--Dá-me então licença que accenda alli o meu charuto?

O padre que me contou isto certamente emendou o texto original; não é preciso estar embriagado para accender um charuto nas miserias alheias. Bom padre Chagas!--Chamava-se Chagas.--Padre mais que bom, que assim me incutiste por muitos annos essa ideia consoladora, de que ninguem, em seu juizo, faz render o mal dos outros; não contando o respeito que aquelle bebado tinha ao principio da propriedade,--a ponto de não accender o charuto sem pedir licença á dona das ruinas. Tudo ideias consoladoras. Bom padre Chagas!

CAPITULO CXVIII

Adeus, padre Chagas! Vou á historia do casamento. Que Maria Benedicta gostava de Carlos Maria, é cousa vista ou presentida desde aquelle baile da rua dos Arcos, em que elle e Sophia valsaram tanto. Vimol-a na manhã seguinte, prompta a ir para a roça; a prima apaziguou-a com a promessa de que lhe estava arranjando um noivo. Maria Benedicta cuidou que era o valsista da vespera, e ficou esperando. Não lhe confessou nada,--por vergonha, a principio,--e depois, por lhe não fazer perder o effeito da novidade, quando Sophia houvesse de descobrir o nome da pessoa. Se fallasse desde logo, podia acontecer tambem que a outra affrouxasse na tarefa, e lá se perdia a causa. Não façamos caso disto; são pequenos calculos de moça.

Sobreveiu a epidemia das Alagoas. Sophia organisou a commissão, que trouxe novas relações á familia Palha. Incluida entre as senhoras que formavam uma das sub-commissões, Maria Benedicta trabalhou com todas, mas grangeou em especial a estima de uma dellas, D. Fernanda, esposa de um deputado. D. Fernanda tinha pouco mais de trinta annos, era jovial, expansiva, corada e robusta; nascera em Porto Alegre, casara com um bacharel das Alagoas, deputado agora por outra provincia, e, segundo corria, prestes a ser ministro de Estado. A naturalidade do marido foi o pretexto para mettel-a na commissão; e bem acertado foi, porque ella pedia como quem manda, não tinha acanhamento nem admittia recusa. Carlos Maria, que era seu primo, foi visital-a logo que ella chegou ao Rio de Janeiro. Achou-a mais formosa ainda que em 1865, ultimo anno em que a vira, e talvez fosse verdade; concluiu que o ar do sul era feito para enrijar as pessoas, duplicar-lhe as graças, e prometteu ir lá acabar os seus dias.

--Vamos para lá, que lhe arranjarei casamento, disse ella. Conheço uma moça de Pelotas, que é um _bijou_, e só casa com moço da Côrte.

--Commigo, naturalmente?

--Da Côrte e de olhos grandes. Olhe que não estou brincando. É uma guasca de primeira ordem. Tenho aqui o retrato della.

D. Fernanda abriu o album e mostrou o retrato da pessoa.

--Não é feia, concordou elle.

--Só?

--Sim, é bonita.

--Onde é que você bota os seus chinellos velhos, primo?

Carlos Maria sorriu sem responder; não gostou da expressão. Quiz passar a outro assumpto, mas D. Fernanda tornou ao casamento da amiga de Pelotas. Mirava o retrato, coloria-o de palavra, dizendo como eram os olhos, os cabellos, a tez; e depois fez uma pequena biographia de Sonora. Tinha este bonito nome. O padre que a baptisou, hesitou em dar-lh'o, apezar do respeito e influencia do pae da menina, rico estancieiro; mas, afinal cedeu, considerando que as virtudes da pessoa podiam levar o nome ao rol dos santos.

--Crê que ella vá ao rol dos santos? perguntou Carlos Maria.

--Se casar com você, creio.

--Não me explica nada; casando com o diabo succederá a mesma cousa, e com mais certeza, por causa do martyrio. Santa Sonora, não é feio nome, responde bem ao sentido. Santa Sonora... Em todo caso, prima...

--Você tem raça de judeu; cale-se, interrompeu ella. Recusa então a minha guasca? continuou indo pôr o album no seu logar.

--Não recuso; deixe-me ir indo com o meu celibato, que é meio caminho do ceu.

D. Fernanda soltou uma gargalhada.

--Deus de misericordia! Você acredita mesmo que vae para o ceu?