Part 11
Foi nesse estado que o veiu achar a noticia da morte do Freitas. Chorou uma lagryma ás escondidas; tomou a si custear as despezas do enterro, e acompanhou o defuncto, na tarde seguinte, ao cemiterio. A velha mãe do finado, quando o viu entrar na sala, quiz ajoelhar-se aos pés delle; Rubião abraçou-a a tempo de impedir-lhe o gesto. Esse acto do nosso amigo fez grande impressão nos convidados. Um delles veiu apertar-lhe a mão; depois a um canto, baixinho, contou-lhe a injustiça da demissão que recebera, dias antes; demissão acintosa, por causa de intrigas...
--Imagine V. Ex. que aquillo é (com perdão da palavra) um covil de patifes...
Chegou a hora de sahir o enterro; as despedidas da mãe foram dolorosas; beijos, soluços, exclamações, tudo de mistura, e lancinante. As mulheres não conseguiram arrancal-a dalli; foram precisos dous homens e o emprego da força; ella gritava e teimava por tornar ao cadaver: meu filho! meu pobre filho!
--Um escandalo! insistia o demittido. O proprio ministro dizem que não gostou do acto; mas V. Ex. sabe, para não desmoralisar o director...
--Pan... pan... pan... soavam os martellos surdamente, pregando o caixão.
Rubião accedeu ao pedido que lhe faziam de pegar em uma das argolas, e deixou o demittido. Fóra, alguma gente parada; os visinhos ás janellas, debruçavam-se uns sobre os outros, com os olhos cheios daquella curiosidade que a morte inspira aos vivos. Ao demais, havia o _coupé_ do Rubião, que se destacava das caleças velhas. Já se fallava muito daquelle amigo do finado, e a presença confirmou a noticia. O defuncto era agora apreciado com certa consideração.
No cemiterio, não se contentou Rubião com deitar a pá de terra, acto em que foi primeiro, por solicitação de todos; esperou que os coveiros enchessem a cova com as suas grandes pás do officio. Tinha os olhos humidos; acabou, saiu, ladeado pelos outros, e, á porta, com uma só chapelada para a direita e para a esquerda, saudou a todas as cabeças descobertas e curvas. Ao entrar no _coupé_, ainda ouviu estas palavras, a meia voz:
--Parece que é senador ou desembargador, ou cousa assim...
CAPITULO CII
Era noite entrada. Rubião vinha por alli abaixo, recordando o pobre diabo que enterrára, quando, na rua de S. Christovão, cruzou com outro _coupé_, que levava duas ordenanças atrás. Era um ministro que ia para o despacho imperial. Rubião pôz a cabeça de fóra, recolheu-a e ficou a ouvir os cavallos das ordenanças, tão eguaesinhos, tão distinctos, apezar do estrepito dos outros animaes. Era tal a tensão do espirito do nosso amigo, que ainda os ouvia, quando já a distancia não permittia audiencia. Catrapuz... catrapuz... catrapuz...
CAPITULO CIII
Ao setimo dia da morte de D. Maria Augusta, rezou-se a missa de uso, em S. Francisco de Paula; Rubião lá foi, lá viu Carlos Maria. Tanto bastou para precipitar a devolução da carta; tres dias depois, metteu-a no bolso e correu ao Flamengo. Eram duas horas da tarde. Maria Benedicta fôra visitar as amigas da visinhança, que a tinham acompanhado nos primeiros dias de afflicção; Sophia estava só, vestida para sair.
--Mas, não importa, disse ella convidando-o a sentar-se; fico ou saio mais tarde.
Rubião retorquiu que a demora era curta; vinha dar-lhe um papel.
--Em todo caso, sente-se; tambem se póde dar um papel sentado.
Estava tão bonita, que elle hesitou em dizer-lhe as palavras duras que trazia de cór. O luto ia-lhe muito bem, e o vestido parecia uma luva. Sentada, via-se-lhe metade do pé, sapato raso, meia de sêda, cousas todas que pediam misericordia e perdão. Quanto á espada daquella bainha,--assim chama á alma um velho autor,--parecia não ter gume nem campanhas; era uma ingenua faca de marfim. Rubião esteve a pique de fraquear; a primeira palavra arrastou as outras.
--Que papel? perguntou Sophia.
--Um papel, que supponho grave, respondeu elle contendo-se;--não se recorda ou não sabe que perdeu uma carta?
--Não.
--Costuma escrever cartas?
--Tenho escripto algumas; mas, não me lembra se grave. Deixe ver.
Rubião tinha os olhos desvairados. Não disse nem fez nada. Levantou-se para sair, não saiu. Depois de alguns instantes de silencio e inquietação, fallou sem raiva:
--Não é segredo para a senhora que lhe quero bem. A senhora sabe disto, e não me despede, nem me acceita, anima-me com os seus bonitos modos. Não me esqueci ainda de Santa Theresa, nem da nossa viagem no trem de ferro, quando vinhamos os dous, com seu marido no meio. Lembra-se? Foi a minha desgraça aquella viagem; desde aquelle dia a senhora me prendeu. A senhora é má, tem genio de cobra; que mal lhe fiz eu? Vá que não goste de mim; mas, podia desenganar-me logo...
--Cale-se, vem gente, interrompeu Sophia erguendo-se tambem e olhando para o lado da porta.
Não vinha ninguem; entretanto, podiam ouvil-o, por que a voz do Rubião ia aquecendo e crescendo. Cresceu ainda mais. Já não pleiteava esperanças; abria e despejava a alma.
--Não me importa que ouçam, bradou elle; podem ouvir-me; agora digo tudo, a senhora bota-me para fóra e tudo acaba. Não, não se póde fazer soffrer assim um homem _como eu._
--Cale-se, pelo amor de Deus!
--Qual Deus! Ouça-me o resto, porque eu estou disposto a não guardar nada...
Desatinada, receiando deveras que algum criado ouvisse, Sophia levantou a mão e tapou-lhe a boca. Ao contacto daquella epiderme querida, Rubião perdeu a voz. Sophia retirou a mão, e dispoz-se a deixar a sala; mas, chegando á porta, parou. Rubião caminhara até á janella, para convalecer da explosão.
CAPITULO CIV
Sophia, depois de estar alguns segundos á escuta, tornou á sala, e foi sentar-se com grande rumor de saias, na ottomana de setim azul, compra de poucos dias. Rubião voltou-se, e deu com ella, abanando reprehensivamente a cabeça. Antes que elle falasse, Sophia poz o dedo na boca, pedindo-lhe silencio; depois chamou-o com a mão; Rubião obedeceu.
--Sente-se naquella cadeira, disse ella; e continuou, depois de o ver sentado: Tenho razão para zangar-me com o senhor; não o faço, porque sei que é bom, e estou que é sincero; arrependa-se do que me disse, e tudo lhe será perdoado.
Acabando de fallar, Sophia bateu com o leque no lado direito do vestido para o abaixar e compôr; depois levantou os braços sacudindo as pulseiras do vidro preto; finalmente, pousou os braços sobre os joelhos, e, abrindo e fechando as varetas do leque, aguardou a resposta. Ao contrario do que esperava, Rubião abanou a cabeça negativamente.
--Não tenho de que me arrepender, disse elle; e prefiro que me não perdoe. A senhora ficará cá dentro, quer queira, quer não; podia mentir, mas que é que rende a mentira? A senhora é que não tem sido sincera commigo, porque me tem enganado...
Sophia retezou o busto.
--...Não se zangue; não desejo offendel-a; mas, deixe-me dizer que a senhora é que me tem enganado, e muito, e sem compaixão. Que ame a seu marido, vá; perdoava-lhe; mas que...
--Mas que? repetiu ella espantada.
Rubião metteu a mão no bolso, tirou a carta, e entregou-lh'a. Sophia, ao ler o nome de Carlos Maria, ficou sem pinga de sangue; elle viu-lhe a pallidez. Dominando-se logo, perguntou o que era, que queria dizer essa carta.
--A lettra é sua.
--É minha. Mas que diria eu aqui dentro? continuou tranquilla. Quem lhe deu isto?
Rubião quiz referir o achado; mas entendeu ter alcançado o bastante; cortejou-a para sair.
--Perdão, disse ella, abra o senhor mesmo a carta.
--Não tenho mais nada que fazer aqui.
--Fique, abra a carta, aqui a tem; leia tudo,--dizia a moça pegando-lhe na manga; mas, Rubião puxou violentamente o braço, foi buscar o chapéo, e sahiu. Sophia, com medo dos criados, deixou-se ficar na sala.
CAPITULO CV
Tão nervosa esteve durante alguns instantes, que não cuidou da carta. Afinal, virou-a de um lado para outro, sem adivinhar o conteúdo; mas, pouco a pouco, já senhora de si, lembrou-se que devia ser a circular da commissão das Alagoas. Rasgou a sobrecarta: era a circular. Como é que semelhante papel fora ter ás mãos delle? E d'onde lhe vinha a suspeita? De si mesmo ou de fóra? Correria algum boato? Foi ter com o criado que levara a circular a Carlos Maria, e perguntou-lhe se a entregára. Soube que não. Quando o criado chegou á rua dos Invalidos, não achou o papel no bolso, e, com medo, não dissera nada á ama.
Sophia tornou á sala, disposta a não sair. Recolheu a carta e a sobrecarta, para mostral-as a Rubião, afim de que elle visse bem que não era nada; mas, provavelmente, supporia a substituição do papel. Maldito homem! murmurou. E começou a andar á toa.
Uma revoada de memorias entrou na alma de Sophia. A imagem de Carlos Maria veiu postar-se ante ella, com os seus grandes olhos de espectro querido e aborrecido. Sophia quiz arredal-o, mas não pôde; elle acompanhava-a de um lado para outro, sem perder o tom esbelto e masculo, nem o ar de riso sublime. Ás vezes, via-o inclinar-se, articulando as mesmas palavras de certa noite de baile, que lhe custaram a ella horas de insomnia, dias de esperança, até que se perderam na irrealidade. Nunca Sophia comprehendera o mallogro daquella aventura. O homem parecia querer-lhe deveras, e ninguem o obrigava a declaral-o tão atrevidamente, nem a passar-lhe pelas janellas, alta noite, segundo lhe ouviu. Recordou ainda outros encontros, palavras furtadas, olhos calidos e compridos, e não chegava a entender que toda essa paixão acabasse em nada. Provavelmente, não haveria nenhuma; puro galanteio;--quando muito, um modo de apurar as suas forças attractivas... Natureza de pelintra, de cynico, de futil.
Que lhe importava o mysterio? Era um sujeito futil. Cresceu-lhe o nojo e o desdem. Chegou a rir-se delle; podia encaral-o sem remorsos. E foi andando por alli fóra, vingando-se do bobo,--chamava-lhe bobo,--e fitando no ar os olhos de immaculada. Em verdade, era occupar-se de mais com tal assumpto; começou a maldizer do Rubião, que evocára semelhante homem do esquecimento, por causa daquella triste circular... Depois, tornou ás primeiras lembranças, ás palavras de Carlos Maria. Se todos a achavam bella, porque não a acharia elle, que lh'o disse? Talvez o tivesse a seus pés, se não se houvesse mostrado tão agradecida, tão rasteira...
De repente, a criada, que estava na outra sala, ouvindo rumor de alguma cousa que se quebrava, correu á de visitas, e viu a ama, sozinha, de pé.
--Não é nada, disse-lhe esta.
--Pareceu-me que ouvi...
Foi aquelle boneco que cahiu; apanhe os cacos.
--O chinez! exclamou a creada.
De feito, era um mandarim de porcellana, pobre diabo que estava muito quieto, em cima de uma estante. Sophia achou-se com elle entre os dedos, sem saber como, nem desde quando; ao cuidar na sua voluntaria humilhação, teve um impulso--parece que raiva de si mesma,--e deu com o boneco em terra. Pobre mandarim! não lhe valeu ser de porcellana; não lhe valeu siquer ser dado pelo Palha.
--Mas, minha ama, como é que o chinez...
--Vá-se embora!
Sophia recordou todo o seu proceder diante de Carlos Maria, as acquiescencias faceis, os perdões antecipados, os olhos com que o buscava, os apertos de mão tão fortes... Era isso; tinha-se-lhe lançado aos pés. Depois, o sentimento foi mudando. Apezar de tudo, era natural que elle gostasse d'ella, e a conformidade moral de ambos não traria o abandono de um. Talvez a culpa fosse outra. Excavou razões possiveis, algum gesto duro e frio, alguma falta de attenção para com elle; lembrou-se que, uma vez, por medo de o receber sosinha, mandou dizer que não estava em casa. Sim, podia ser isso. Carlos Maria era orgulhoso; a menor desfeita pungia-o. Soube que era mentira... Essa era a culpa.
CAPITULO CVI
...ou, mais propriamente, capitulo em que o leitor, desorientado, não póde combinar as tristezas de Sophia com a anecdota do cocheiro. E pergunta confuso:--Então a entrevista da rua da Harmonia, Sophia, Carlos Maria, esse chocalho de rimas sonoras e delinquentes é tudo calumnia? Calumnia do leitor e do Rubião, não do pobre cocheiro, que não proferiu nomes, não chegou sequer a contar uma anecdota verdadeira. É o que terias visto, se lesses com pausa. Sim, desgraçado, adverte bem que era inverosimil que um homem, indo a uma aventura daquellas, fizesse parar o tilbury deante da casa pactuada. Seria pôr uma testemunha ao crime. Ha entre o ceu e a terra muitas mais ruas do que sonha a tua philosophia,--ruas transversaes, onde o tilbury podia ficar esperando.
--Bem; o cocheiro não soube compôr. Mas que interesse tinha em inventar a anecdota?
Conduzira Rubião a uma casa, onde o nosso amigo, ficou quasi duas horas, sem o despedir; viu-o sair, entrar no tilbury, descer logo e vir a pé, ordenando-lhe que o acompanhasse. Concluiu que era optimo freguez; mas, ainda assim não se lembrou de inventar nada. Passou, porém, uma senhora com um menino,--a da rua da Saude,--e Rubião quedou-se a olhar para ella com vistas de amor e melancolia. Aqui é que o cocheiro o teve por lascivo, além de prodigo, e encommendou-lhe as suas prendas. Se fallou em rua da Harmonia foi por suggestão do bairro d'onde vinham; e, se disse que trouxera um moço da rua dos Invalidos, é que naturalmente transportara de lá algum, na vespera,--talvez o proprio Carlos Maria,--ou porque lá morasse,--ou porque lá tivesse a cocheira,--qualquer outra circumstancia que lhe ajudou a invenção, como as reminiscencias do dia servem de materia aos sonhos da noite. Nem todos os cocheiros são imaginativos. Já é muito concertar farrapos da realidade.
Resta só a coincidencia de morar na rua da Harmonia uma das costureiras do luto. Aqui, sim, parece um proposito do acaso. Mas a culpa é da costureira; não lhe faltaria casa mais para o centro da cidade, se quizesse deixar a agulha e o marido. Ao contrario disso, ama-os sobre todas as casas deste mundo. Não era razão, para que eu cortasse o episodio, ou interrompesse o livro.
CAPITULO CVII
Das reflexões de Sophia é que não ha que explicar. Todas tinham o pé na verdade. Era certo e certissimo que Carlos Maria não correspondera ás primeiras esperanças,--nem ás segundas e terceiras,--porque as houve em quadras diversas, ainda que menos verdes e bastas. Quanto á causa disso, vimos que Sophia, á mingua de uma, attribuiu-lhe successivamente tres. Não chegou a pensar em alguns amores que elle porventura trouxesse e lhe tornassem insipidos quaesquer outros. Seria uma quarta causa, e talvez a verdadeira.
CAPITULO CVIII
Durante alguns mezes, Rubião deixou de ir ao Flamengo. Não foi resolução facil de cumprir. Custou-lhe muita hesitação, muito arrependimento; mais de uma vez chegou a sair com o proposito de visitar Sophia e pedir-lhe perdão. De que? Não sabia; mas queria ser perdoado. Em todas as tentativas desse genero, a ideia de Carlos Maria fazia-o recuar. De certo ponto em diante, foi o proprio lapso de tempo que o tolheu; era exquisito apparecer lá um dia, como um triste filho prodigo, unicamente para supplicar o calor dos bellos olhos da dona da casa. Ia ao armazem, fallar ao Palha; este, ao fim de algumas semanas, reprochou-lhe a ausencia; e, passados dous mezes, perguntou-lhe se era formal proposito.
--Tenho tido muito que fazer, acudiu Rubião; estas cousas politicas tomam todo o tempo a uma pessoa. Vou lá domingo.
Sophia apparelhou-se para recebel-o. Espiaria a occasião de lhe dizer o que era a carta, jurando por todas as cousas santas, para que elle visse que a verdade não era contra ella. Planos perdidos; Rubião não compareceu. Veiu outro domingo, vieram outros domingos... Não obstante, Sophia remetteu-lhe um dia a subscripção para as Alagoas; elle assignou cinco contos de réis.
--É muito, disse-lhe o socio, no armazem, quando elle lhe foi levar o papel.
--Não dou menos.
--Mas olhe que póde dar muito, sem dar tanto. Parece-lhe então que esta subscripção é feita entre meia duzia de pessoas? Anda nas mãos de muitas senhoras e de alguns homens; está nos mostradores das lojas, na praça do Commercio, etc. Assigne menos.
--Como, se está escripto?
--Deste 5 póde-se fazer muito bem um 3. Tres contos já é uma boa assignatura. Ha maiores, mas são de pessoas obrigadas pelo cargo ou pelos milhões; o Bomfim, por exemplo, assignou dez contos.
Rubião não pode reter um risinho ironico; abanou a cabeça, e não sahiu dos cinco contos. Só emendaria, escrevendo o algarismo 1 atraz,--quinze contos,--mais que o Bomfim.
--Seguramente, que pode dar cinco, dez e quinze contos, tornou o Palha; mas o seu capital precisa cautellas, voce está entrando muito por elle... Repare que já lhe rende menos.
Palha era agora o depositario dos titulos de Rubião (acções, apolices, escripturas) que estavam fechados na burra do armazem. Cobrava-lhe os juros, os dividendos e os alugueis de tres casas, que lhe fizera comprar algum tempo antes, a vil preço, e que lhe rendiam muito, Guardava tambem uma porção de moedas de ouro, porque Rubião tinha a manía de as collecionar, para a contemplação. Conhecia mais que o dono, a somma total dos bens, e assistia aos rombos feitos na caravella, sem temporal, mar leite. Tres contos bastavam, insistiu elle; e provou a sinceridade pelo facto de ser justamente marido da fundadora da commissão. Mas o Rubião não desistiu dos cinco; aproveitou a occasião para pedir-lhe mais dez; precisava de dez contos. Palha coçou a cabeça.
--Você desculpe, disse-lhe ao cabo de alguns instantes, mas para que é que os quer? Não está certo que vae perdel-os, ou arriscal-os, ao menos?
Rubião riu da objecção.
--Se eu estivesse certo de que os perdia, não vinha buscal-os. Póde ser arriscado, mas não é sem arriscar que se ganha. Preciso delles para um negocio,--quero dizer, tres negocios. Dous são emprestimos seguros, e não passam de um conto e quinhentos. Os oito contos e quinhentos são para uma empreza. Por que abana a cabeça, senão sabe de que se trata?
--Por isso mesmo. Se você me consultasse, se me dissesse que empreza e que pessoas eram, eu veria logo se podia arriscar-se; e receio muito que nada preste, a não ser o dinheiro que se perder. Lembra-se das acções daquella Companhia União dos Capitaes Honestos? Disse-lhe logo quo este titulo era emphatico, um modo de embair a gente, e dar emprego a sujeitos necessitados. Você não quiz crêr, e caiu. As acções estão por baixo, e já este semestre não ha dividendos.
--Pois venda justamente essas acções, ainda a resto de barato. Contento-me com o solido. Ou então dê-me da caixa da nossa casa... Passo logo por aqui, se você quizer,--ou mande-me lá a Botafogo. Caucione umas apolices, se lhe parecer melhor...
--Não, não faço nada; não dou os dez contos, atalhou fogosamente o Palha. Basta de ceder a tudo; o meu dever é resistir. Emprestimos seguros? Que emprestimos são esses? Não vê que lhe levam o dinheiro, e não lhe pagam as dividas? Alguns sujeitos vão ao ponto de jantar diariamente com o proprio credor, como um tal Carneiro que lá vi algumas vezes. Dos outros não sei se lhe devem tambem alguma cousa; é possivel que sim. Vejo que é demais. Fallo-lhe por ser amigo; não dirá algum dia que não foi avisado em tempo. De que hade viver, se estragar o que possue? A nossa casa póde cair.
--Não cae, acudiu o Rubião.
--Póde cair; tudo póde cair. Eu vi cair o banqueiro Souto, em 1864.
Rubião remoia os conselhos do socio, não por serem bons nem provaveis, mas por achar nelles uma intenção maviosa, revestida de fórma crúa. Agradeceu-os de coração, mas rejeitou-os; precisava dos dez contos. Podia ter mais tento, dalli em deante, e affirmava-lhe que seria menos facil. De resto, possuia de sobra, tinha dinheiro para dar e vender...
--Para vender só, emendou o Palha.
E, depois de um instante:
--Bem, agora é tarde, amanhã levo-lhe os dez contos. E porque os não hade ir buscar lá á nossa casa ao Flamengo? Que mal lhe fizemos nós? Ou que lhe fizeram ellas? porque a zanga parece ser com ellas, visto que o vejo aqui, algumas vezes. Que foi, para castigal-as? concluiu rindo.
Rubião desviou os olhos do socio, cuja falla lhe parecia afiada de ironia,--como de pessoa que soubesse tudo, e risse delle. Quando lh'os tornou, viu o mesmo semblante interrogativo, e respondeu:
--Não me fizeram nada; lá irei amanha á noite.
--Vá jantar.
--Jantar, não posso, tenho uns amigos em casa; vou de noite.--E querendo rir: Não as castigue, que não me fizeram nada.
--Alguem o possue, reflictiu Palha logo que elle saiu; alguem, por inveja as nossas relações... Tambem póde ser que Sophia lhe fizesse alguma para arredal-o de casa...
Rubião assomou outra vez á porta; não tivera tempo de chegar á esquina. Voltava para dizer que, precisando do dinheiro cedo, viria buscal-o ao armazem; de noite iria então visital-os. Precisava do dinheiro até ás duas horas da tarde.
CAPITULO CIX
Nessa noite, Rubião sonhou com Sophia e Maria Benedicta. Viu-as n'um grande terreiro, apenas vestidas de saia, costas inteiramente despidas; o marido de Sophia, armado de um azorrague de cinco pontas de couro, rematando em bicos de ferro, castigava-as despiedadamente. Ellas gritavam, pediam misericordia, torciam-se, alagadas em sangue, as carnes cahiam-lhes aos bocados. Agora, porque razão Sophia era a imperatriz Eugenia, e Maria Benedicta uma aia sua, é o que não sei dizer com exactidão. «São sonhos, sonhos, Penseroso!» exclamava um personagem do nosso Alvares de Azevedo. Mas eu prefiro a reflexão do velho Polonius, acabando de ouvir uma falla tresloucada de Hamlet: «Desvario embora, lá tem seu methodo». Tambem ha methodo aqui, nessa mistura de Sophia e Eugenia; e ainda ha methodo no que se lhe seguiu, e que parece mais extravagante.
Sim, Rubião, indignado, mandou logo cessar o castigo, enforcar o Palha e recolher as victimas. Uma dellas, Sophia, acceitou um lugar na carruagem aberta que esperava pelo Rubião, e lá foram a galope, ella garrida e sã, elle glorioso e dominador. Os cavallos, que eram dous á sahida, eram dahi a pouco, oito, quatro bellas parelhas. Ruas e janellas cheias de gente, flores cahindo em cima delles, acclamações... Rubião sentiu que era o imperador Luiz Napoleão; o cachorro ia no carro aos pés de Sophia...
Tudo acabou sem fim, nem fracasso, Rubião abriu os olhos; talvez alguma pulga o mordeu; qualquer cousa: «Sonhos, sonhos, Penseroso!» Ainda agora prefiro o dito de Polonius: «Desvario embora, lá tem seu methodo!»
CAPITULO CX
Rubião fez os dous emprestimos e o negocio. O negocio era uma Empreza Melhoradora dos Embarques e Desembarques no porto do Rio de Janeiro. Um dos emprestimos tinha por fim pagar certa conta atrazada de papel da _Atalaia_, divida urgente. A folha estava ameaçada de parar.
--Perfeitamente, disse Camacho, quando Rubião lhe foi levar o dinheiro á casa. Muito obrigado. Veja você como, por uma miseria desta ordem, podia emmudecer o nosso orgão. São os espinhos naturaes da carreira. O povo não está educado; não reconhece, não apoia os que trabalham por elle, os que descem á arena todos os dias em defeza das liberdades constitutionaes. Imagine, que, de momento, não dispunhamos deste dinheiro, tudo estava perdido, cada um ia para os seus negocios, e as sãs ideias ficavam sem o seu leal expositor.
--Nunca! protestou Rubião.
--Tem razão; redobraremos de esforços. A _Atalaia_ será como o Antheu da fabula. De cada vez que cair, erguer-se-ha com mais vida.
Dito isto, Camacho mirou o maço de notas. Um conto e duzentos, não? perguntou; e metteu-o no bolso do fraque. Continuou a dizer que estavam seguros agora, a folha ia de vento em popa. Tinha algumas reformas materiaes em vista; foi ainda mais longe.
--Precisamos desenvolver o programma, adeantar as ideias, dar um empurrão aos correligionarios, atacal-os, se fôr preciso...
--Como?
--Ora, como? atacando. Atacar é um modo de dizer; corrigir. É evidente que o orgão do partido está afrouxando. Chamo orgão do partido, porque a nossa folha é orgão das ideias do partido; comprehende a differença?
--Comprehendo.